Mostrando postagens com marcador TV Globo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador TV Globo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de junho de 2021

4710) Minhas canções: "Alpinista Social" (3.6.2021)



Algumas músicas dão um trabalho danado pra fazer. A gente mexe nelas durante meses, às vezes durante anos, até achar que ficaram com jeito. Outras não: parece até que chegaram prontas.
 
Esta aqui surgiu numa tarde meio ociosa, o telefone tocou e era Lenine, com uma idéia e uma proposta. Ele vinha tentando entrar na rinha disputadíssima de músicas para trilha sonora de novelas da TV Globo. Além de render alguns caraminguás em direitos autorais, isso servia como uma boa vitrine para compositores e intérpretes.
 
Corria o ano de 1990, pelo que calculo. Tínhamos acabado de compor um samba, “Virou Areia”, que ganhara um dos prêmios no Festival de Avaré, a FAMPOP. A esta altura já tínhamos composto alguns sambas de sucesso para os blocos da Zona Sul (Suvaco do Cristo, Simpatia é Quase Amor). Que tal emplacar um samba numa novela? A novela da vez era Lua Cheia de Amor, que a Globo estava gravando e estrearia em breve. Ele pegou o carro e foi lá em casa, no Catete.

 
O conceito – música de novela tem que ter um conceito – era simples. A personagem se chamava Kika Jordão, e ia ser interpretada por Arlete Salles. Era uma mulher de classe média fascinada pelas colunas sociais, pela vida das socialites, e querendo se enturmar no meio delas. Uma mulher sem muita classe, querendo bancar a “phyna” e batendo na trave o tempo todo. O marido trabalha com algo relativo a roupas, tecidos, etc.
 
Em inglês a expressão para esse tipo de gente é “social climber”, alpinista social. Foi esse o ponto de partida. Lenine fez uma levada inicial, cantarolada na base do tã-rã-rã, do lá-rá-rá, e os versos foram surgindo.
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...


(Arlete Salles, como "Kika Jordão")
 
“Por debaixo do pano” é uma alusão talvez pouco sutil à profissão têxtil do marido. Tínhamos que falar um pouco nas pessoas que querem “falar estrangeiro” ou citar nomes de gente famosa, e esta foi talvez a estrofe mais divertida de fazer:
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
 
O “overnight”, de triste memória, era a aplicação financeira que os bancos faziam diariamente para manter o poder de compra dos correntistas. Numa época em que havia inflação de até 2 ou 3% ao dia, na virada-da-noite era preciso recuperar essa perda.
 
Pensamos então em falar em gente famosa, porque Kika Jordão teria o cacoete habitual de dizer que “era assim com” A, B, ou C.  Na época, o comandante Jacques Cousteau vinha ao Brasil com frequência, não seria impossível alguém no Rio dizer que já tomara algum “champã” com ele. E veio o verso:
 
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Jacques Cousteau.
 
O problema é que não encaixava na métrica! O nome do cara tem quatro sílabas, não havia como encaixá-lo naquelas três notas. Precisávamos de um nome igualmente francês de três sílabas – e o que nos ocorreu foi Belmondo, o famoso Jean-Paul Belmondo de Acossado, que, trinta anos atrás, era mais lembrado do que agora. E ficou: “De francês só conhece Belmondo...”
 
(No YouTube, quem transcreveu a letra não conhecia o ator, e teve que se virar com “Belle Mondeau”, que não deixa de ser uma saída interessante.)


(Jacques Cousteau + Belmondo)
 
Mas os compositores eram (são) teimosos que só um par de mulas, e nenhum dos dois queria abrir mão do nome do bravo oceanógrafo. E assim saíram-se com esta preciosidade, iniciando a estrofe seguinte:
 
E já que custou
tanto a chegar        
no sopé da montanha principal...
 
Com este, garantimos nosso lugar de honra entre os “20 Trocadilhos Mais Infames da MPB”.
 
Lenine gravou a música, com um ótimo arranjo e uma orquestração arrasante. Arlete Salles deu um baile com a personagem. E durante meses chega dava gosto ver as presepadas cênicas depois das quais ela dava uma rabissaca e saía de rua afora, com um sobe-som da música:
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda...
 
Pense numa música feita em duas ou três horas, à base de café e bolacha Maria!  Fiquei muito satisfeito, e durante os meses seguintes pensava com meus botões: “Olha aí, como foi simples... Em uma tarde, abri para mim um caminho profissional novo: compositor de trilhas sonoras de novelas!  Vou emplacar muitas outras músicas nas novelas da Globo!”.
 
Ledo engano. Pra mim, foi a primeira... e única.
 
 
*******
 
A gravação de Lenine:
ALPINISTA SOCIAL
(Lenine / BT)
 
Apesar da idade ela nunca se cansa
de entrar nessa dança e sair no jornal...
E tem sempre um plano
por debaixo do pano:
ela é alpinista social...
 
Vira a noite no drink a pensar no overnight
no hi-fi do society ela rodou...
Plástica no nome, pra não dar vexame;
de francês só conhece Belmondo.
 
E já que custou tanto a chegar
no sopé da montanha principal,
ela se preza, ajoelha e reza
para ser alpinista social.
 
Lá vai ela, nas pegadas da moda,
na alta roda, quer passar sem pedigri...
Defasada, mas é boa aluna,
topa qualquer uma, nessa pressa de subir...
 
Lá vai ela... no hi-fi do society
Lá vai ela... quer sair no jornal
Lá vai ela... por debaixo do pano
Lá vai ela... alpinista social
Lá vai ela... sem pedigri
Lá vai ela... nessa pressa de subir
Lá vai ela...
 
 
 




 





terça-feira, 12 de julho de 2011

2606) Cenas de batalha (12.7.2011)



Um comentário recente sobre a série de TV Game of Thrones levanta uma situação interessante. A crítica Mo Ryan escreveu: “Fiquei um pouco desapontada em ver que a maior parte dos personagens estão envolvidos numa guerra que não chegamos a ver”. E Alan Sepinwall observou: “Idealmente teríamos a certa altura algumas batalhas épicas, como em Braveheart, mas é preciso respeitar as restrições de tempo e de orçamento. Essas sequências custam uma fortuna, ocupam grande parte do tempo de um episódio, e de certo modo eu prefiro, ao invés disso, ver a cena de Tyryon em sua tenda, na véspera da batalha, contando a dramática história de sua ex-mulher, e saber que a cena da execução de Ned ficou tão bem feita porque houve tempo para prepará-la; ter isto é melhor do que ter num episódio uma ou duas longas cenas de batalha campal.”

Uma característica essencial da arte industrial é aquilo que os norte-americanos chamam “production values”, valores (ou qualidade técnica) da produção de um filme, peça, programa de TV. Um pouco deste espírito aparece em nossa televisão quando ouvimos falar no famoso “padrão Globo de qualidade”, ou seja, um programa produzido pela Globo tem que ser (independentemente de ser “artístico” ou não) uma produção com alto nível de perfeccionismo e competência do ponto de vista técnico.

Isto acaba tendo uma consequência interessante. Certos tipos de cenas exigem uma complicada logística para serem executadas. Por exemplo, cenas de multidão, cenas de batalhas, cenas de explosões e destruição, cenas com efeitos especiais sofisticados. Antes mesmo de qualquer consideração de ordem estética (se a cena vai funcionar ou não no contexto do filme) a cena em si tem que ficar tecnicamente bem feita. É o mesmo que se dá numa cena minimalista, com dois personagens conversando numa sala. Se a imagem estiver desfocada ou o som inaudível, de nada adianta a cena ser um primor em outros aspectos. Nas cenas de grande logística dá-se o mesmo, só que num grau muito superior de complexidade.

Críticos ranhetas como eu vivem torcendo o nariz diante das perseguições de automóveis, tiroteios coreografados, lutas marciais intermináveis (tipo Matrix) e outras coisas que fazem a felicidade do cinema industrial. Esse exibicionismo dos valores de produção marca a era de um cinema de técnicos feito para espectadores que apreciam a técnica, contraposto a uma época de um cinema de artistas feito para espectadores que apreciam a arte. No cinema de hoje, a técnica está tão hipertrofiada que toma a frente de tudo, forma seu próprio público (as pessoas que vão ao cinema para ver aquilo em primeiro lugar) e considerações artísticas são jogadas para escanteio com o diagnóstico de “bobagem de intelectuais”. O cinema está parecendo cada vez mais um show musical com som e iluminação impecáveis e canções medíocres. Que haja críticos de TV capazes de dizer o que foi dito acima por Sepinwall é um pequeno milagre.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

1068) Iluminismo e ilusionismo (18.8.2006)





Um repórter da Rede Globo foi seqüestrado em São Paulo pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). Os bandidos condicionaram sua libertação à divulgação, na TV, de um vídeo-manifesto protestando contra o Regime Disciplinar Diferenciado, em prática nos presídios paulistas. Houve um detalhe que a imprensa divulgou mas não discutiu, ao que eu saiba. Na terça-feira, o jornal O Globo comparou o texto do manifesto do PCC com o texto de um documento que o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária havia divulgado em abril de 2003.

Vejam os dois textos. O do Conselho diz, a certa altura: “(...) o Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado, vigente na consciência mundial desde o iluminismo e pedra angular do sistema penitenciário nacional (...)” Diz o manifesto lido pelo representante do PCC: “O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado vigente na consciência mundial desde o ilusionismo e pedra angular do sistema penitenciário”. Há outros trechos quase iguais, mas o que me interessa é este.

Onde se lia “Iluminismo”, lê-se “ilusionismo”. Houve quem desse risada, vendo nisto uma prova no analfabetismo e da desinformação dos bandidos. Coitados! Nunca ouviram falar no Iluminismo, no “Enlightenment”, na Idade das Luzes, que deu origem à Revolução Francesa e à Declaração Universal dos Direitos do Homem. Foi uma fase (na filosofia, nas ciências exatas, nas ciências sociais e jurídicas) comparável ao que o Renascimento representou nas artes da Europa.

Freud dizia (e se não o disse assim, digamos que o tivesse dito) que todo erro revela uma verdade oculta. Todo esquecimento, todo equívoco, toda troca involuntária de palavras, revela uma informação que estava doida para aparecer, estava pronta para ser trazida à luz, e que acabou escapando pela primeira brecha aberta à sua frente.

O Iluminismo acreditava no poder da Razão para mediar o contato entre o Homem e o Universo. A Racionalidade era a luz que vinha afastar as trevas e as superstições da Idade Média. Infelizmente, não conseguiu. A Razão pode muito, mas não pode tudo. Freud, produto avançado do Iluminismo, foi quem trouxe a este a amarga notícia. E o erro dos bandidos do PCC revela uma verdade dolorosa sobre as democracias de hoje. Porque elas não são governadas pela Razão, como se queria no século 18, e sim através do Ilusionismo: a manipulação das massas pelas telecomunicações, a distribuição de riquezas inexistentes através do capitalismo financeiro, a distorção da arte e do entretenimento através da hipertrofia de ficções manipuláveis como “fama” e “sucesso”, a cuidadosa eliminação de referências (quando não a perseguição explícita) a quem é do contra. O Ilusionismo, que aparece erradamente no manifesto dos bandidos, é a melhor descrição da sociedade que os produziu – e que agora não consegue destruí-los porque tem muita gente olhando.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

1018) Bussunda (21.6.2006)




Copa do Mundo é uma epocazinha danada pra morrer gente. Acho que nosso sistema imunológico fica fragilizado, pelo estresse da responsabilidade, da expectativa, da obrigação de ganhar sempre e de humilhar todos os adversários. Em 90, João Saldanha morreu em Roma, onde, mesmo com a saúde abalada, estava cobrindo a Seleção Brasileira. Em 2002, foi o romancista e cronista esportivo Roberto Drummond, algumas horas antes da nossa vitória sobre a Inglaterra. Parece que os deuses do futebol não nos cobram apenas sangue, suor e lágrimas. Exigem sacrifícios humanos em seu altar.

Agora foi Bussunda. Mas logo o Bussunda?! Pense num cara que parece que não vai morrer nunca. Eu jamais tinha parado para pensar nisso, mas provavelmente achava que quando estivesse com 100 anos de idade lá estaria Bussunda com 90, comandando um talk-show cheio de trocadilhos e irreverências. Era um hipopótamo extrovertido e gozador, e fez parte de uma das aventuras empresariais mais bem sucedidas do Rio de Janeiro recente: a criação da griffe milionária intitulada “Casseta & Planeta”.

Nos anos 1980 a turma de Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de la Peña, etc., tinha um jornalzinho satírico chamado Casseta Popular, que nunca cheguei a ler, mas era famoso no Posto 9 de Ipanema e adjacências. Algum tempo depois, três jornalistas saíram do Pasquim (Cláudio Paiva, Reinaldo e Hubert) e fundaram o Planeta Diário, cuja fórmula era parecidíssima com a da Casseta Popular. Começou nos bares e no Posto 9 um papo bobo sobre plágio, imitação, apropriação de idéia. Enquanto isto, o que fizeram nossos bravos humoristas? Correram às barras dos tribunais, brigando por indenizações mirabolantes, processando-se uns aos outros na tentativa de ficarem ricos? Não, apenas isto: associaram-se, uniram os dois grupos, mudaram a razão social para Casseta & Planeta e... ficaram ricos. Sábia lição de vida.

Não conheci Bussunda pessoalmente, mas acho que não foi preciso. Sou capaz de apostar que ele era daquele jeito 24 horas por dia, com a mulher, os filhos, os pais, os motoristas de táxi. Imitando Lula ou Ronaldinho, vestido de sílfide ou de metaleiro, era sempre o carro-chefe histriônico do grupo, o que se avistava primeiro. Seu humor era o humor relaxado e gozador do carioca de calçada de botequim, que tem olho de lince para a pomposidade e a empáfia alheia, e não perdoa. Gordo, meio dentuço, desajeitado, talvez não fosse o genro ideal para as mães de família brasileiras (quantos de nós somos?), mas tinha uma empatia imediata com crianças e adolescentes. Houve uma época em que fez um programa com jovens, numa TV educativa, e eu ficava matutando: Como é que ninguém se toca que um sujeito escrachado e espontâneo como esse tem mais credibilidade do que uma dúzia de professores?

Ave, Bussunda! A esta altura, já sabes quem ganhou a Copa do Mundo. Que sejas bem recebido nos braços da deusa Gréia, a padroeira da galhofa, da sátira e da diversão.

terça-feira, 17 de março de 2009

0892) O efeito surpresa (25.1.2006)



Paro numa banca de revistas e, enquanto espero ser atendido, passo os olhos pelas capas daquelas revistas que têm com as telenovelas aquela relação que na biologia se chama de simbiose, em que ambas produzem algo de que a outra se alimenta. As capas dessas revistas são de uma poluição visual assustadora, e sempre em manchetes berrantes. “Matilda flagra Anacleto na cama com Valquíria e sai de casa” -- “Álisson e Patrícia preparam golpe para ficar com as jóias de Natércia” -- “Lucas vai ao hospício conhecer sua verdadeira mãe” -- “Fernando briga com Talita e diz a Rafael que ele é irmão de Joara”...

Bem, as manchetes são inventadas, porque no momento não estou acompanhando nenhuma novela, e não conheço os personagens. Mas vocês pegaram o espírito da coisa. Dias antes das grandes reviravoltas do enredo, dos grandes conflitos, das grandes revelações, tudo já está dito, repetido e repisado nas revistas. Os jornais, inclusive, cultivam aquele encantador gênero paraliterário: “Resumo do capítulo de hoje”. As pessoas já ligam a TV sabendo exatamente o que vão assistir. Acho isto interessante porque se alguém tivesse feito uma pesquisa sobre isto anos atrás provavelmente os experts diriam que não ia dar certo. “Não pode deixar vazar para as revistas”, advertiria um sabichão. “Se as pessoas já souberem o que vai acontecer, qual é a graça? Eles compram a revista, mas aí despenca o ibope da audiência”. Tem lógica; mas não há lógica que resista aos fatos. Conta-se tudo uma semana antes, e no dia, na hora do plim-plim, está todo mundo lá, esperando.

A primeira conclusão é que não é propriamente a surpresa que essas pessoas esperam, e sim uma espécie de degustação por etapas. Primeiro, saber o que vai acontecer. Segundo, ficar pensando no assunto durante dias. Terceiro, constatar de que modo acontece. Telenovelas são uma experiência estética a longo prazo, uma convivência, algo que acompanha nossa vida ao longo de meses, ao longo de nossos altos e baixos. Diferentemente da vida, onde qualquer coisa pode acontecer (e geralmente essa qualquer coisa é um belo dum contratempo), a novela pode ser mantida sob controle através dessas leituras prévias, que nos ajudam a, de certa forma, direcionar expectativas, e conviver com um futuro já decidido, confortavelmente seguro.

Essas revelações prévias também ajudam as pessoas a organizar melhor seu tempo. “Vamos ao cinema, a novela hoje vai ser meio devagar. Mas na sexta eu não saio por dinheiro nenhum, vai ser a briga de Guilhermina com Dona Violeta”. Vamos à novela como vamos ao cinema: no dia em que a história a ser contada nos interessa. A novela não deixa de cultivar o mistério e a surpresa, como o demonstram as tramas policiais com desfecho no último capítulo (quem matou Salomão Ayala, ou Odete Roitman?). Mas seu mecanismo principal parece hoje funcionar em duas fases sucessivas: avisar o que vai acontecer, e depois mostrar como aconteceu.

sábado, 7 de março de 2009

0869) Os Abismos do Ser (29.12.2005)



Certas experiências deveriam ser evitadas na vida, porque têm o dom de nos projetar nos mais profundos abismos de depressão e desespero, e de nos fazer experimentar uma sensação da absoluta derrota deste projeto chamado “Ser Humano”. Não me refiro aos campos de concentração, aos massacres étnicos, ou à miséria de algumas nações africanas. Refiro-me a um dos programas mais engraçados da TV a cabo brasileira, exibido pelo Canal Multishow da GloboSat e retransmitido pela Net. Intitula-se “Nem Big nem Brother”.

O programa exibe as fitas enviadas pelos milhões de brasileiros anônimos que sonham em ser admitidos na “Casa” para concorrer ao prêmio. Assisti-las me provoca ataques incontroláveis de riso, seguidos por acessos de profunda depressão. Nunca pensei que o ser humano pudesse ser tão patético, desajeitado, grotesco, desinformado, tão destituído de auto-crítica, tão sem desconfiômetro e simancol, tão (para usar um termo em voga entre os jovens) “sem noção”.

As pessoas classificadas para esse programa são um corte tragicômico da juventude brasileira no que tem de mais deprimente: meia dúzia de sujeitos musculosos e arrogantes, meia dúzia de peruas fofoqueiras fazendo caras-e-bocas. Aqui e acolá um “tipo excêntrico” para dar a entender que há variedade de escolha: uma moça gordinha, um gay, um matuto, etc. Pois imaginem como devem ser as pessoas que tentam se classificar para esse troço... e não conseguem.

Ver essas fitas é ter uma idéia do imenso mal que a televisão faz a este país (e antes que me critiquem, sou um dos primeiros a reconhecer que ela também faz um imenso bem). Todo mundo inicia suas apresentações dizendo “quero que vocês conheçam um pouco de mim...”, e passam a imitar os trejeitos e os clichês das pessoas que vêem na TV. Vestem coisas inomináveis e acham que estão arrasando. Dizem absurdos de arrepiar os cabelos, num esforço vão de parecerem sofisticados ou inteligentes. Pagam micos históricos quando tentam exibir seus dotes de ator, de cantor, de humorista. Provavelmente a equipe que faz a seleção é obrigada a assistir milhões de fitas dessa natureza, e acaba sendo tomada por uma tal repulsa que a única vingança possível é criar um programa e mostrar a todo mundo o quanto essas pessoas são ingênuas e risíveis.

“Já me inscrevi 6 vezes, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!” – é um dos bordões mais freqüentes. Há quem fique diante da câmara rezando para os santos de sua devoção, pedindo para ganhar o prêmio. Há quem vista biquíni e role na grama. Há quem fale do acidente que sofreu e das cirurgias por que passou. Há quem se vista de bichinho de pelúcia. Há quem tente tocar um instrumento, sem conseguir. Há quem praticamente se ofereça para um “programa”, faltando apenas combinar o preço. Não, amigos. Eu preferiria não ver, não saber que essa auto-exploração existe. Mas é tão engraçado que eu não resisto. Me serve de parâmetro pra quando eu estiver muito metido a esperto.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

0803) “Hoje é dia de Maria 2” (14.10.2005)



Está de volta à TV Globo a minissérie Hoje é dia de Maria, escrita por Luiz Alberto Abreu (baseado num projeto criado por Carlos Alberto Soffredini) e dirigida por Luiz Fernando Carvalho. A primeira temporada ocorreu em janeiro deste ano, e teve uma tal resposta de público e de crítica que a Globo decidiu repetir a dose. A julgar pelos episódios iniciais, existe uma enorme continuidade com o que foi visto na primeira série, o bastante para dar ao espectador aquela sensação agradável de gostar de novo do que já gostara; e existe novidade bastante para acender seu interesse e mantê-lo ligado na história.

A primeira grande variação é que a primeira série era toda ambientada no mato, e esta leva Maria para uma cidade surreal, onde ela passa por aventuras muito diversas das que enfrentara da vez passada. No primeiro episódio, exibido terça-feira, roteirista e diretor põem um pé na ficção científica, ao mostrar um gigante metálico adormecido (cuja boca, ficamos sabendo, engole todo o lixo produzido na cidade); um binóculo de prismas que transporta Maria, através do olhar, para a cidade mecanizada; dançarinas andróides num night-club freqüentado por bonecos de papel machê; uma cabeça mecânica que fala sozinha; e uma infinidade de outros pequenos e brilhantes achados de roteiro e cenografia que criam um universo feérico, lembrando certas histórias de Ray Bradbury ou o mundo cyborg visto pelos olhos de uma criança em Inteligência Artificial.

Todo crítico se sente na obrigação de comparar cada obra nova com outras obras que já conhece (por algum obscuro senso de compromisso moral, de estar pagando uma dívida). Digamos então que a minissérie dos dois Luiz tem algo do clima de O Mágico de Oz e de Alice no País das Maravilhas, seguindo uma garotinha meio perdida (mas que nunca se dá por achada) no meio de um mundo fantástico, em que cada nova criatura ou ambiente nos deixa em dúvida se está trazendo um perigo, uma tentação, uma ameaça ou um pedido de socorro.

Luiz Fernando Carvalho domina com mestria o realismo narrativo, mas a série de trabalhos que tem dirigido para a Globo no gênero fantasia (Auto de N. S. da Luz, Farsa da Boa Preguiça, a primeira Maria) mostra que ele também sabe o que faz nesta outra direção. Maria tem um brilhantismo visual que deve muito ao Grupo de Bonecos Giramundo e às marionetes de Catin Nardi. Figurinos, direção de arte, adereços, criaturas mecânicas, tudo guarda o clima delirante e saborosamente anacrônico de alguns filmes de Tim Burton, Terry Gillian ou da dupla Jeunet & Caro (Delicatessen, Ladrão de Sonhos). Ao que parece, televisão foi feita para isto: para passar seis meses produzindo com carinho e minúcia um trabalho que fica uma semana em cartaz. Para ter o direito de ver obras assim, a gente engole em seco e se conforma com o fato de que sem as novelas, as intermináveis, ralas, redundantes novelas, nenhuma TV se manteria.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

0597) “Meu tio matou um cara” (16.2.2005)



Alguns anos atrás a TV-Globo exibiu Luna Caliente, uma mini-série de Jorge Furtado que, com alguns cortes, poderia resultar num longa-metragem para cinema. Seria um dos melhores filmes policiais brasileiros. É a história de um cara (Paulo Betti) que comete um crime arrastado por uma mulher fatal (no caso, uma ninfeta diabólica) e começa a se enredar numa teia de mentiras mal-contadas e de testemunhas incômodas que precisam ser silenciadas. E o filme tem uma tintura de sobrenatural que o torna ainda mais arrepiante.

Não vi o primeiro longa de Furtado, Houve uma vez dois verões, mas o segundo, O Homem que Copiava é também uma espécie de filme policial: dois rapazes (Lázaro Ramos e Pedro Cardoso) se juntam para dar um golpe, e o primeiro crime acaba obrigando-os a cometer o segundo, o terceiro, e por aí vai. Na época, o diretor foi acusado de amoralismo, de fazer propaganda da transgressão e da marginalidade, num filme que era claramente destinado ao público adolescente. Parece que isto direcionou um pouco o enredo deste Meu tio matou um cara, onde o simpático trio de protagonistas (Darlan Cunha, Sophia Reis e Renan Gioelli) faz o papel de detetives, e procura esclarecer um nó de histórias mal-contadas que levou o tio de um deles à prisão por assassinato.

Na verdade, os méritos dos filmes de Furtado não estão no terreno da “mensagem” ou da “moral da história”. Eles mostram, por exemplo, casais interraciais, mas não discutem a questão, o que na minha opinião é um dado positivo. Não que não valha a pena discutir se um negro pode casar ou não com uma branca, ou vice-versa; mas é igualmente positivo dar uma situação assim como fato consumado, como uma coisa normal da vida, e ir adiante. É isso que o filme faz, com o mérito adicional de se passar em Porto Alegre, onde casamentos e namoros desse tipo devem ser bem mais raros do que em Salvador ou Recife.

O mais interessante dos filmes de Jorge Furtado é a fluência de seus roteiros, onde há sempre a voz do protagonista lembrando, contando e comentando tudo que acontece. A narração em “off” é muitas vezes usada para explicar ao público coisas que o roteirista e o diretor não conseguiram mostrar. Nos filmes de Furtado, este recurso faz a narrativa fluir mais rápida, com transições e reviravoltas bruscas, sem que o público perca o fio da meada. O ponto de vista de Duca (Darlan Cunha) é o olho crítico com que os adolescentes vêem e julgam os adultos. “Teu tio é um idiota,” comentam eles o tempo inteiro. Os jovens deste filme tem lá seus problemas, dão suas mancadas, mas não perdem os adultos de vista do começo ao fim. É diferente, por exemplo, de coisas como Malhação, um típico programa onde adultos escrevem sobre como os adolescentes se comportam estatisticamente, procurando “refletir o pensamento dos jovens”, ou seja, procurando ampliar e perpetuar todos os piores clichês da Zona Sul carioca sobre o jovem brasileiro em geral.

sábado, 4 de outubro de 2008

0572) “Hoje é Dia de Maria” (18.1.2005)



A Globo exibe a minissérie Hoje é Dia de Maria (http://hojeediademaria.globo.com/), onde numerosos contos populares são alinhavados em seqüência, como se tivessem todos acontecido à mesma pessoa. Pequenos episódios, lendas, historietas dos tempos da infância, com pássaros encantados, madrastas cruéis, crianças perdidas no bosque, lugares enfeitiçados onde nunca anoitece, e assim por diante. O texto de Carlos Alberto Soffredini justapõe esses episódios com habilidade. A menina que foge de casa devido aos maus-tratos da madrasta torna-se o fio condutor da história, por entre novos ambientes e novos personagens.

O aspecto mais evidente e mais encantador do trabalho é a sua concepção de espaço. Uma cúpula utilizada no Rock in Rio serve de cenário único, uma redoma onde os diversos cenários são colocados lado a lado, em 360 graus, e cuja face interna possibilita qualquer tipo de “efeito de céu”, através de pintura e iluminação. Os episódios se sucedem dando ao espectador a sensação de um espaço que sempre muda mas que é sempre o mesmo, um espaço paradoxalmente finito e ilimitado, que corresponde intuitivamente ao universo mental das histórias infantis, onde tudo pode acontecer, mas sempre no interior de determinadas regras.

Por outro lado, a minissérie tem a liberdade de utilizar elementos não necessariamente tradicionais ou rurais, como é o caso dos executivos de paletó que andam numa moto com “side-car”. Os elementos mecânicos e visuais são todos brilhantes: os pássaros de metal, os cavalos sobre rodas, as fornalhas, os figurinos surrealistas... O que mais destoa é o sotaque. A Globo deveria desistir de imitar sotaques, porque nunca dá certo. Era muito melhor deixar que os atores falassem num tom neutro, colocando aqui e ali um termo típico para dar um tempero. Italiano, espanhol, nordestino, caipira... Não adianta: ou fica ininteligível, ou caricatural.

Luiz Fernando Carvalho é um dos diretores que mais aprofundaram o senso de realismo na dramaturgia da Globo, com Renascer, O Rei do Gado, Os Maias, refinando uma concepção estética que também está por trás de seu excelente filme Lavoura Arcaica. Hoje é Dia de Maria segue outra linha de sua obra: a linha fantasista dos especiais Auto de N. S. da Luz (1992) e A Farsa da Boa Preguiça (1997). Uma linha inspirada no teatro-de-circo, nos contos maravilhosos tradicionais, onde se misturam o real e o fantástico. Esta minissérie pertence a um espaço dramatúrgico que vem se expandindo de uns quinze anos para cá. É uma “estetização do rural-popular”, visível no trabalho teatral de Antonio Nóbrega, Gabriel Vilela, Moacyr Góes e outros. Uma recriação do “interiorzão brabo” que por um lado deve a Monteiro Lobato e Ariano Suassuna, e por outro indica influências do cinema de Fellini, Chaplin, além de lembrar filmes isolados como Aventuras do Capitão Tornado (Ettore Scola) ou Aventuras do Barão de Munchausen (Terry Gilliam).

quinta-feira, 3 de julho de 2008

0434) Onde estás que não respondes? (10.8.2004)


(ideograma do Tao)

A TV-Globo mandou ao ar recentemente, no programa Linha Direta, uma reportagem sobre o naufrágio do “Bateau Mouche” no reveion do Rio de Janeiro, quando morreram 55 pessoas. Uma reconstituição muito bem feita, mostrando um episódio arrepiante da História do Capitalismo Selvagem. Uma noite de coragens e de egoísmos, em que algumas pessoas arriscaram a vida para salvar os náufragos, e outras viram tudo mas levaram seus iates para longe, para não perder a queima-dos-fogos. No meio das crises nervosas e dos desabafos pós-salvamento, uma pessoa resgatada dizia: “Foi Deus, foi Deus quem me salvou, eu sentia o tempo inteiro que ele estava junto de mim...” Não discuto o conceito, e entendo até demais a emoção, mas a pergunta que os incrédulos fazem nesta hora é: E por que Deus não salvou os outros?

Uma das piores contradições de quem se esforça para acreditar em Deus é a idéia de um Deus bom, compassivo, misericordioso, mas ao mesmo tempo capaz de permitir que coisas assim aconteçam. Uma das justificativas para a existência de guerras, crimes, barbaridades, é o livre-arbítrio. Deus nos deu a liberdade de escolher, de errar, de pecar, de pintar o sete e desenhar o oito... e de arcar com as conseqüências, que muitas vezes envolvem o fogo do Inferno. Tudo bem – mas e as crianças queimadas no supermercado de Assunção, e os meninos que perdem os braços no bombardeio de Bagdá, e as crianças indefesas seviciadas por pedófilos ou por psicopatas? O mal que lhes acontece não provém de uma escolha sua, do exercício de sua liberdade.

Sei que a questão é complexa, e antiga; aliás, na Biblioteca do Vaticano deve existir uma dúzia de livros que responde isto tudo, tintim por tintim. Mas não há como negar que realidades dessa natureza são um forte argumento em favor daquilo que eu chamo de “religiões impessoais”, onde o Universo não é explicado em termos de uma Divindade dotada de emoções humanas (Deus é bom, Deus é carinhoso, Deus se aborrece com isto, Deus se enfurece com aquilo...), mas em termos de processos. O Taoísmo é um pouco assim, conforme vemos em livros como o I-Ching ou o Tao Te King – O Livro do Caminho Perfeito. O universo é um conjunto de processos que envolvem nascimento e morte, expansão e contração, teses e antíteses. É uma dinâmica abstrata, e cabe a nós ter discernimento suficiente para perceber que tipo de processo está ocorrendo em nosso país, em nosso grupo social ou em nossa vida, e nos comportar de acordo.

As religiões impessoais não defendem a existência de um Deus com emoções humanas e valores humanos, mas um Deus responsável pelo funcionamento do Universo como um todo, sem se preocupar com nossos destinos individuais, que são assunto nosso. Mas somos humanos, demasiado humanos, e só nos sentimos à vontade quando pensamos num Deus feito à imagem dos nossos pais, um Deus que nos premia e castiga, que nos embala no colo e que nos expulsa de casa quando fazemos uma besteira.

terça-feira, 11 de março de 2008

0206) A Hollywood brasileira (18.11.2003)




Existem três coisas em que o Brasil é reconhecido no mundo inteiro como um país “top de linha”, igual aos melhores do mundo: o Futebol, a Música Popular e as Telenovelas. Aí estão nossas conquistas de Copas do Mundo, os campeonatos mundiais de clubes, os craques que produzimos; e há uma espécie de consenso mundial de que o nosso jeito de jogar é o mais bonito do mundo. Os ingleses o chamam de “The Beautiful Game”. No caso da música popular, existe algo parecido. Como não há campeonatos de música, fica difícil enumerar vitórias, mas todos sabemos que existe (nos EUA, na Europa, no Oriente, na África) uma espécie de amor generalizado pela nossa música, em todas as suas variantes, desde as sutilezas da Bossa Nova até o impacto rítmico do samba e derivados.

Os gringos nos amam e nos reverenciam pelas belezas que criamos, e aceitamos essa admiração com um orgulho tranquilo, porque sabemos que somos mesmo os melhores no futebol e na música. É no terceiro aspecto, no entanto, que a relação fica problemática. Nossas novelas, principalmente as novelas da Globo, são sucesso lá fora. Ninguém (dizem) faz novelas tão boas quanto as brasileiras. Por que motivo não nos orgulhamos delas?

Anos atrás, o escritor Bruce Sterling esteve em Sumaré (SP) para uma convenção de ficção científica. Num bate papo informal, ele contava aos participantes que pouco tempo antes tinha ido à Rússia fazer uma matéria para a revista Wired, e certa madrugada, desorientado pelo fuso horário, se viu num hotel em São Petersburgo assistindo TV russa, e percebeu que os russos do hotel não falavam noutra coisa senão na novela brasileira que estava passando. Para certo constrangimento dos participantes, ele passou a elogiar a qualidade das novelas: a dramaturgia, as interpretações, a linguagem narrativa, o trabalho de câmara...

Temos preconceito contra as novelas porque elas se dirigem para um piso-mínimo mental do grande público; porque elas são sintoma da Rede Big Brother de telecomunicações que década a década vai envelopando a cultura brasileira; porque elas são narcisistas, auto-referenciais, arrogantes; porque suas mensagens morais são simplórias e sua dramaturgia não corre riscos jamais. Mas também porque elas são muito próximas de uma realidade que não queremos ver. Eu sempre achei as novelas da Globo artificialíssimas, posudas, irreais. Depois que vim morar no Rio é que percebi que existem pessoas que são daquele jeito, pensam daquele jeito, falam, se vestem e agem daquele jeito.


Quem nasceu primeiro, o Ovo ou a Serpente? É a realidade que acaba se esgueirando, inexorável, para dentro da ficção, ou é a ficção que acaba formatando, mais inexorável ainda, a vida real de quem todo dia escancara seu cérebro para recebê-la? Criamos uma Hollywood para consumo interno, e talvez daqui a 50 anos ela venha a embeber a mente do mundo. O que nos repele em nossas novelas não são os seus defeitos, e sim o Poder Cego que encarnam.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0010) Big Brother and the Holding Company (3.4.2003)




Na reta final do “Big Brother” da Rede Globo, fico pensando como George Orwell estava equivocado ao imaginar a vigilância política e a lavagem cerebral do futuro. Seu romance 1984 é uma obra indispensável para entender o terrorismo de Estado e as ditaduras, além de ser uma notável narrativa literária, mas várias de suas especulações são ingênuas, não apenas porque foram desmentidas pelo tempo, mas porque mesmo na época em que foram feitas (1948) já não se sustentavam muito.

Isaac Asimov, ao dissecar 1984, apontou numerosos pontos fracos no enredo, como o conceito da TV como “olho vigilante”. Orwell imaginava uma TV de mão dupla, ligada o tempo inteiro, que era também uma câmara através da qual os agentes do governo espiavam a vida de cada cidadão. Um sistema inviável, pois, como Orwell não lançava mão de computadores ou robôs, chegava-se a um impasse em que metade da população estaria sendo vigiada pela outra metade.

Mais precisas do que as previsões de Orwell foram as de Aldous Huxley, ao afirmar, em seu prefácio para Admirável Mundo Novo, que as ditaduras baseadas no chicote estavam com os dias contados, e que os regimes totalitários do futuro manteriam a população sob controle através da distribuição de drogas e de múltiplos lazeres. É justamente o que temos hoje em dia, e os programas tipo “Big Brother” cumprem esta função.

O Grande Irmão (quem quer que mande neste mundo) não precisa vigiar cada cidadão: dá-lhe abobrinhas de lazer, para que ele não tenha tempo de pensar em nada perigoso. A TV cumpre bem esta função. Nada acontece de baixo para cima enquanto as pessoas estão vendo videoclips pop, programas de receitas culinárias, documentários sobre a procriação dos antílopes, sitcoms indistinguíveis uns dos outros, mochileiros passeando pelo Nepal, ou aqueles filmes norte-americanos onde há sempre uma porção de carros explodindo e homens de paletó atirando uns nos outros.

Nosso “Big Brother” também é orwelliano quando pega jovens comuns e os faz jogar, ao vivo e em tempo real, o mesmo jogo que vigora no Poder: esquivas, confrontos, demagogia, alianças e traições. Todo mundo mente, todo mundo se faz de bonzinho, joga para a torcida, adapta seu personagem. O programa é vendido como um ritual de voyeurismo, mas é justamente o contrário, é um programa exibicionista. Voyeurismo pra mim é quando as pessoas não sabem que estão sendo observadas, e sabemos que estamos violando sua intimidade. No programa da Globo, o que temos é um desfile de gente vivendo em função das câmaras, fazendo caras e bocas, imitando as cenas, os gestos e as atitudes que eles próprios viram em programas anteriores.

A Globo tinha o “Fama”, onde as pessoas aprendiam a tocar, cantar, dançar, etc., sendo acompanhadas pelo país inteiro. Como no “Big Brother” ninguém aprende nada disso, só posso concluir que o programa não passa de um Curso Intensivo de Formação de Executivos de Gravadoras.