Mostrando postagens com marcador Minhas Canções. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Minhas Canções. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de setembro de 2024

5099) Minhas canções: "Lavadeira do Rio" (8.9.2024)




Compor canções, como qualquer outra atividade criativa, tem suas marés, suas idas e vindas. Tem, por exemplo, épocas em que a gente está concentrado em produzir coisas complexas, mais esteticamente ambiciosas, e épocas em que a gente se dedica a fazer coisas mais simples. Uma tarefa nos descansa da outra, em ciclos alternados. 
 
Compondo com Lenine, muitas vezes ficávamos tentando produzir letras mais complicadas – com temas de ficção científica, por exemplo – e melodias com três ou quatro partes diferentes. E outras vezes corríamos para o abrigo da canção popular mais básica. Como a gente dizia na época: “Uma música que poderia ser gravada por Jackson do Pandeiro ou Marinês”. 
 
Um exemplo nessa linha, que já comentei aqui, foi “A Roda do Tempo”, gravada por Elba Ramalho: 
https://mundofantasmo.blogspot.com/2019/12/4529-minhas-cancoes-roda-do-tempo.html
 
“Lavadeira do Rio” é uma música desse período, que foi sendo feita de modo intermitente, um trecho hoje, outro trecho daqui a mais um tempo, e ficou na gaveta até ser gravada por Elba Ramalho no disco Flor da Paraíba (1998), pelo próprio Lenine em Falange Canibal (2002) e por Maria Rita em seu disco de estréia Maria Rita (2003).   
 
Elba:
https://www.youtube.com/watch?v=tgEN-rD8P4s
 
Lenine:
https://www.youtube.com/watch?v=dlIZD6bj5RU
 
Maria Rita:
https://www.youtube.com/watch?v=2_Wdrqg87z8
 
Cantiga de lavadeira é uma coisa linda. 
 
A TV-Zero, do Rio de Janeiro, mostrou em sua preciosa série “O Som da Rua” um grupo de lavadeiras de roupa de Almenara (MG), na beira do rio Jequitinhonha, cujas cantigas de trabalho acabaram virando um espetáculo que correu o Brasil. Eis aqui um vídeo, apresentado pelo cantor Carlos Farias, que dá uma boa idéia da arte dessas cantoras: 
 
https://www.youtube.com/watch?v=SvaBe6SgYPQ
 
Recentemente, foi compartilhado no mural de Felix Rivera-Cabrera, no Facebook, um curto vídeo da cantora espanhola Buika escutando o canto de lavadeiras venezuelanas:
https://www.facebook.com/505332363/videos/1453560108629211/
 
O canto das lavadeiras é um dos muitos tipos do Canto de Trabalho, que por si só é um grosso capítulo na história da canção oral – a canção invisível, a que nunca é gravada, que surge espontaneamente para musicar um momento de vida e não tem o menor propósito de se transformar num produto comercial. 
 
Acaba se transformando, em muitos casos, e isso é bom, porque permite a gente como eu ficar sabendo o que cantam as mulheres venezuelanas quando lavam roupa ao ar livre. Cantam quadrinhas rimando ABCB, sempre com a mesma linha melódica (como nesse exemplo do Facebook), e a certa altura terçando vozes com uma afinação comovente. 
 
Quando nossa “Lavadeira do Rio” foi gravada por Elba Ramalho, um crítico comentou no jornal que eu e Lenine estávamos fazendo “macumba para turistas”, a conhecida expressão de Oswald de Andrade para designar a exploração do folclore (ou da cultura popular) para vender contrafações a consumidores desavisados. 
 
Um mal-entendido frequente nas nossas avaliações da música popular é achar que porque um sujeito é branco e de classe média ele cresce numa bolha impermeável e não convive com o que se chama “gente do povo”. 
 
Na minha visão, o contato entre classes sociais, pelo menos no Nordeste em que cresci, é muito mais intenso e constante do que se pode imaginar. Não só no Nordeste: eu diria que no próprio Rio de Janeiro esse contato existe, só que ele é mais pervasivo e habitual na Zona Norte (por exemplo) do que na Zona Sul, onde as classes se misturam na rua mas não se frequentam nas casas. 
 
No meu caso, as lavadeiras e suas cantigas foram parte da minha vizinhança desde os meus 11 anos, quando meus pais se mudaram para o Alto Branco, para as proximidades da Lavanderia Municipal, que fica a 20 ou 30 metros da nossa casa. O Alto Branco é uma colina muito úmida, com águas subterrâneas que descem o tempo todo, e afloram em certos trechos. 




Nas proximidades da Lavanderia, havia um trecho de poços dágua rodeados de grama (hoje essa área está toda coberta de casas), onde as mulheres lavavam roupa nos dias de sol. Além da Lavanderia oficial, esses poços atraíam mulheres que lavavam a roupa dos moradores em torno. E cantavam. 
 
Um detalhe interessante é que o Alto Branco sempre foi sujeito a ventanias, e de vez quando se armavam por ali alguns “redemunhos” violentos na direção dos poços dágua, arrebatando as roupas estendidas na grama e arremessando-as a dez ou vinte metros de altura, para desespero das lavadeiras. 
 
Menino não presta, e uma diversão nossa, quando um redemunho se formava, era correr para o terraço ou a calçada e ficar gritando: “Rapadura Preta!... Rapadura Preta!...”  Rapadura Preta é um nome popular do Diabo que mora no meio do redemunho, e chamando esse nome (teoricamente) estávamos atraindo o redemunho na direção dos poços, para ver os lençóis, as camisas e as saias rodopiando no ar. 
 
Minha mãe ficava furiosa e partia lá de dentro empunhando um cinturão ou uma chinela, ameaçando dar uma surra em quem chamasse o Diabo para atanazar as pobres lavadeiras. 
 
Outro detalhe relativo a esta canção é que ela acabou se misturando com outra música, “Rita”, que tinha o mesmo formato de estrofe (duas quadras + refrão) e melodia parecida. Pegar o violão para tocar uma delas sempre induzia a tocar a outra, e desse modo letras e melodias foram se misturando e resultaram numa música só. 
 
Aqui outra interpretação, com a cantora paraense Lia Sophia: 
https://www.youtube.com/watch?v=ZNUrZLNZWwA
 
Em todo caso, a origem da canção como um coco, a sua intenção de parecer com um coco que “poderia ser gravado por Jackson do Pandeiro”, acabou encontrando rumo quando a música foi regravada pela dupla Caju e Castanha no disco Professor de Embolada (2013). 
 
A gravação de Caju e Castanha: 
https://www.youtube.com/watch?v=8rFsE0vv_4Y
 
 
************* 
 
LAVADEIRA DO RIO
(Lenine / BT)
 
Ah, lavadeira do rio...
Muito lençol pra lavar!
Fica faltando uma saia
quando o sabão se acabar.
Corra pra beira da praia
veja a espuma brilhar
ouça o barulho bravio
das ondas que batem na beira do mar. 
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
Rita, tu sai da janela,
deixa esse moço passar...
Quem não é rica e é bela
não pode se descuidar.
Rita, tu sai da janela,
que as moça desse lugar
nem se demora donzela
nem se destina a casar...
 
Ê-ô, o vento soprou
Ê-ô, a folha caiu
Ê-ô, cadê meu amor
que a noite chegou fazendo frio...
 
 
 
 
 
 






sábado, 6 de julho de 2024

5079) Minhas Canções: "República dos Viralatas" (6.7.2024)




O Suvaco do Cristo, também conhecido como “Bloco do Suvaco”, anuncia que vai encerrar suas atividades no Carnaval de 2026, quando completará 40 anos.  Quarenta anos de samba, suor, cerveja, irreverência, namoro e gréia. E, de acordo com o presidente-vitalício João Avelleira, está preparando uma antologia de sambas que marcaram sua história. Talvez seja a hora de abrir esse baú, ver erguer-se a nuvem de confetes empoeirados, purpurinas perfumadas, ecos no ar, samba no pé. 
 
Uma explicação necessária para quem não mora no Rio de Janeiro: o bloco ganhou esse nome porque foi fundado por uma turma boa do Jardim Botânico, moradores na altura da Rua Maria Angélica.  Olhando de lá o Cristo Redentor a gente está exatamente na linha reta que vai dar na sua axila direita. Dizem, inclusive, que quem primeiro fez essa piada de “eu moro no suvaco do Cristo” foi Tom Jobim, quando morava nesse trecho. 






Quem me arrastou para lá foi Lenine. Ele já puxava samba com a turma, e me chamou numa tarde remota de 1989 para concorrermos juntos – porque escolha de samba enredo de bloco é concurso, muito parecido com o de Escola de Samba. São muitos os chamados, e apenas um escolhido. Num ano pelo voto popular, ou seja, aplauso; noutro ano por um júri... Não há fórmula. Cada ano o mundo se reinventa. 
 
O tema sugerido eram os 100 anos da República Brasileira, aquele golpe militar que hoje associamos às barbas-de-molho do marechal Deodoro da Fonseca. Outro tema circulando “nas bocas” era o sucesso recente do filme de Martin Scorsese, A Última Tentação de Cristo, que fazia uma conexão óbvia com o padroeiro do bloco. 
 
Com este samba começamos uma estratégia de compor que acabou funcionando muitas outras vezes. Às vezes nossas músicas eram feitas em separado: um letrava a música do outro, ou o outro musicava a letra do um. Quando compúnhamos juntos, era cada qual com seu violão, caneta e papel, experimentando e anotando. 
 
Com os sambas, resolvemos largar os instrumentos e ficar andando pela sala, cantando (inventando melodia) a plenos pulmões. É uma maneira boa de fazer a música, porque um “laraiá-laraiá” interessante já sugere, muitas vezes, as próprias palavras que vão aparecer ali. 



(Lenine e BT no Suvaco)

 
E assim fomos chegando na primeira estrofe:
 
Foi ela
a primeira tentação
que molhou a minha mão
na fonte do pecado...
Foi ela
que bancou a Madalena
invadiu a minha cena
e me deixou pregado...
 
E por aí a letra foi avançando. Havia referências ao filme de Scorsese, mas também a piadas de conhecimento geral, inclusive a velha piada do nordestino que volta a sua terra e diz que a coisa mais bonita que viu no Rio foi “o Cristo Arrebentou”. 
 
Essa música não chega a ser um samba-enredo (ou “samba de enredo”) propriamente, mas é algo bastante próximo. Tem que ter uma melodia que de vez em quando vai pra cima, com notas que se elevam. Porque é algo para ser cantado a plenos pulmões por mil, duas mil, cinco mil pessoas. Daí a estratégia de compor cantando, muito melhor do que simplesmente compor dedilhando no violão uma melodia linda, mas que não se presta ao berro coletivo. Em casos assim, o melhor é compor com o pulmão e a garganta.  
 



(William Voorhees, atual puxador oficial do bloco)

 
Uma coisa para que Lenine sempre chamava a atenção era saber a hora de modular para um tom diferente, Mi-maior ou Mi-menor conforme o caso (esta música é em Mi). Encerrada uma estrofe, era o momento de saltar para outro começo melódico, em outro tom. Além de dar variedade e beleza à melodia, na hora do desfile ajuda as pessoas (que estão aprendendo o samba enquanto o cantam – não é desfile de Escola!) a não se perderem, e perceberem em que parte da música o canto está. 
 
República dos Viralatas foi meu primeiro samba de bloco (para Lenine já era o segundo ou terceiro), e virou uma espécie de hino informal do Suvaco. Foi gravado pela primeira vez pelo próprio Lenine, no álbum Simpatia É Quase Amor – 5 Anos de Samba em Ipanema (1991). Uma homenagem ao Suvaco, feita pelo Simpatia, bloco-irmão da Zona Sul (onde nós também já puxamos belos sambas, mas aí é outra história). 




Não lembro se há outras gravações, mas há algum tempo circula na web essa participação de Lenine no “Samba da Gamboa”, ao lado de Diogo Nogueira e outros bambas, onde ele canta este “hino”, entre outras parcerias nossas. 
https://www.facebook.com/watch/?v=1159813874463448
 
O melhor retrato do Suvaco, seu clima, seu astral, as pessoas que o fazem é o ótimo documentário dirigido por Paola Vieira, uma das fundadoras do bloco, entrevistando os foliões e contando a história toda: 
https://www.facebook.com/permalink.php?id=330987693653932&story_fbid=3626655610753774&paipv=0&eav=AfYpsZ-ShtIqqU0BmWIz_apKFhmqcN5eZPDhO9TnAxVeEaeKGl4Qge5Tl25zx4LLGjw&_rdr
 
 
 
***************  



(João Avelleira, Lenine, Rogerinho)


 
REPÚBLICA DOS VIRALATAS
(Lenine & BT)
 
Foi ela
a primeira tentação
que molhou a minha mão
na fonte do pecado...
Foi ela
que bancou a Madalena
invadiu a minha cena
e me deixou pregado...
 
Mentia
e eu de besta não sabia
tudo quando acontecia
em dia de eleição...
Vem descendo a ladeira:
república brasileira
cem anos que só me dão (porrada)!
 
Porrada na sola do pé do povo
foi quando eu vi, o Suvaco passou,
na passarela onde o Cristo arrebentou (2x)
(E a República?)
 
República dos viralatas,
das concordatas, do economês...
República do golpe baixo;
é muito escracho com a cara de vocês...
República do deixa-disso,
e no banco suíço a grana engordou...
Se não melhorar, eu vou
vender goma de mascar
numa esquina de Moscou... (2x)
 
É tudo zé mané! É tudo zé-bundão!
O mundo é um cabaré, e tá assim de cafetão! (2x)
 



(Mu Chebabi, William e BT no Suvaco, carnaval de 2020) 
 






segunda-feira, 27 de novembro de 2023

5006) Minhas canções: "Tuareg e Nagô" (27.11.2023)



Na literatura de ficção científica e de fantasia existe um conceito chamado de worldbuilding, ou “criação de um mundo”. O autor imagina um mundo diferente do nosso, e ali ambienta suas histórias. Esse “mundo” pode ser outro planeta, no caso da FC, ou pode ser um mundo imaginário como o da série de “Narnia” (de C. S. Lewis) ou dos continentes descritos na série “Game of Thrones” de George R. R. Martin.

Um ponto crucial desses “mundos construídos” é que sejam coerentes, sejam surpreendentes, e sejam plausíveis. O leitor quer surpresas, que descobrir mistérios e novidades, quer se deparar com rasgos de imaginação que aumentem o prazer da leitura. Por outro lado, ele geralmente preza uma certa lógica no que está sendo mostrado; aquilo não deve ser gratuito ou desordenado. Se o autor mostra uma história de navios piratas e a certa altura introduz uma bomba atômica, a história fica parecendo uma bagunça de anacronismos. O que não impede um bom escritor de muitas vezes tornar verossímil alguma incongruência desse tipo.

“Tuareg e Nagô” é uma canção gravada por Lenine no CD Olho de Peixe (1993), seu disco de estréia solo, produzido com Marcos Suzano e Denilson Campos. Essa faixa nasceu da confluência de várias idéias.

A primeira delas remonta ao disco Baque Solto (1983), de Lenine e Lula Queiroga. Esse disco é hoje o que se chama de “um clássico cult”. Eu tinha chegado ao Rio há cerca de um ano, e a turma que encontrei aqui era um grupo de parceiros de outras aventuras musicais no Nordeste: Lenine, Lula Queiroga, Tadeu Mathias, Mestre Fuba, Ivan Santos, Alex Madureira, Zeh Rocha... Todos morando no Rio, cantando no “Bar do Violeiro”, tentando gravar.

Quando o Baque Solto foi gravado, tinha composições e participação instrumental dessa turma toda – menos eu, que era um dos mais recentes. Sugeriram então que eu fizesse um texto poético falando da força da música nordestina, etc. e tal. E no dia em que fomos fazer a foto da “Gente de Baque Solto”, registrada no estúdio por Hélio Viana, levei o texto “Mapa do Tesouro”, que saiu no encarte do LP e é substancialmente a letra da futura “Tuareg e Nagô”:


É a festa dos negros coroados
no batuque que abala o firmamento...

Passou-se. Os meses e os anos fiaram seu fio de areia. Comecei a compor junto com Lenine, e uma das primeiras coisas que nos aproximou foi o gosto pela ficção científica, fantasia, fenômenos bizarros (de Charles Fort até Operação Cavalo de Tróia). E um dos nossos passatempos era imaginar, em sessões de devaneio e de “world building”, cenários para narrativas fantásticas.

Um desses cenários foi o que fiquei chamando de “A Ilha”, partindo de uma premissa simples. Todo mundo imagina a Atlântida como uma ilha futurista no meio do Oceano Atlântico – uma espécie de “Metrópolis” de Fritz Lang, mas com túnicas gregas e templos de mármore. Nossa idéia partiu da premissa contrária: e se essa ilha no meio do mar fosse na verdade uma ilha tropical, caribenha, ensolarada, fértil, super-populosa, tecnologicamente um tanto precária mas com uma vida cultural intensa?

Essa ilha seria uma confluência de todas as civilizações navegantes que cruzaram o Atlântico, cada uma deixando ali suas marcas. E assim surgiu o verso que depois tornou-se o refrão da música:


Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou,

beduíno saiu de Dacar

e o viking no mar se atirou...

Uma ilha no meio do mar

era a rota do navegador:

fortaleza, taberna e pomar,

num país tuareg e nagô...

Estavam presentes na mistura uma série de povos que, teoricamente, teriam se encontrado e miscigenado nessa Ilha imaginária no meio do Atlântico. A Ilha servia de ponto de parada, descanso, reabastecimento, trocas comerciais... Algo bastante plausível, em termos de ficção. E de lá os navegadores seguiriam na direção Sul, cruzando a linha do Equador e chegando finalmente à América do Sul e o Brasil.

É o destino dos navegadores que partiam rumo ao oeste, à região onde o sol vai se pôr – “to sail beyond the sunset”, no verso famoso de Lord Tennyson.


E coube a Lenine pegar os versos antigos do “Mapa do Tesouro”, organizar tudo em estrofes, e mudar várias coisas para dar coerência ao “mundo construído”. Ali temos canaviais, estradas de ferro, plantações, frevo, religiões africanas... É de certo modo a Zona da Mata nordestina, mas, colocada nesse contexto imaginário, acho que ela ganha outras cores.

Cores caribenhas, na verdade, porque a Ilha, a nossa “atlântida”, ficava a meio caminho entre o oeste da África e o Golfo do México. Uma latitude e longitude que a deixavam praticamente ao lado do Mar do Caribe – ou seja, uma Ilha que parecia pouco com a Atlântida dos livros, e parecia muito com Cuba, Jamaica, Porto Rico...

Lembrei de uma frase de Gabriel Garcia Márquez numa entrevista, quando ele disse que o Recife era a cidade mais caribenha que ele conheceu fora do Mar do Caribe. Na época, fizemos os versos iniciais de uma canção glosando esse mote, explorando a assonância entre Caribe e Capibaribe:


Lá, onde o mar bebe o Capibaribe...

Coroado leão, caribenha nação

longe do Caribe.

 

“Coroado leão” é uma referência futebolística que nos era inevitável, mas esse fragmento, que tinha ficado como um começo apenas, encontrou seu complemento com a canção da Ilha.

Lenine pensava em termos de canções, eu pensava em termos de histórias. Cheguei a rabiscar resumos de contos que eu poderia ambientar nessa Ilha, contos focados apenas nos personagens e deixando essa questão histórico-geográfica como um pano-de-fundo remoto, mero ambiente, sem obrigação de explicar muita coisa.

Não avancei nessa direção porque nessa mesma época eu estava empenhado noutro projeto de “worldbuilding”: a criação da cidade imaginária de Campinoigandres, uma cidade árabe-ibérica no Portugal do século 14, onde ambientei vários contos e o meu romance A Máquina Voadora  (1994). Mas aí já é outra história.

“Tuareg e Nagô” foi lançada no Olho de Peixe em 1993 e teve várias regravações; minha preferida entre elas é a de Mônica Salmaso, em Trampolim:


https://www.youtube.com/watch?v=kirM7tkAvD4&ab_channel=M%C3%B4nicaSalmaso-Topic

 

Tuareg e Nagô

(Lenine/BT)


É a festa dos negros coroados

no batuque que abala o firmamento,

é a sombra dos séculos guardados,

é o rosto do girassol dos ventos...

É a chuva, o roncar de cachoeiras

na floresta onde o tempo toma impulso,

é a força que doma a terra inteira

as bandeiras de fogo do crepúsculo...

 

Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou

beduíno saiu de Dacar

e o Viking no mar se atirou...

Uma ilha no meio do mar

era a rota do navegador

fortaleza, taberna e pomar

num país Tuareg e Nagô.

 

É o brilho dos trilhos que suportam

o gemido de mil canaviais,

estandarte em veludo e pedrarias

batuqueiro, coração dos carnavais...

É o frevo a jogar pernas e braços

no alarido de um povo a se inventar,

é o conjuro de ritos e mistérios,

é um vulto ancestral de além-mar.

 

Quando o grego cruzou Gibraltar

onde o negro também navegou

beduíno saiu de Dacar

e o Viking no mar se atirou.

Era o porto pra quem procurava

o país onde o sol vai se pôr

e o seu povo no céu batizava

as estrelas ao sul do Equador.






sexta-feira, 15 de setembro de 2023

4982) Minhas Canções: "Meu Foguete Brasileiro" (15.9.2023)


Desde a adolescência eu vivo mergulhado em dois mundos aparentemente distantes, o da música popular brasileira e o da ficção científica. Primeiro como leitor e ouvinte, e depois como autor.

Muita gente me pergunta o que tem uma coisa a ver com a outra, e uma resposta que já forneci foi um artigo publicado na saudosa revista Isaac Asimov Magazine (Ed. Record), em que mostro como diferentes compositores da MPB (e do rock brasileiro, também) trataram os temas da FC. Temos Gilberto Gil (para mim o mais consistente e de cabeça mais “ficcientífica”), Raul Seixas, Caetano Veloso, Fausto Fawcett... Muita gente.

Temos a tendência a definir um gênero literário (cinematográfico, musical, etc.) a partir dos exemplos que conhecemos, e curiosamente às vezes tentamos atribuir ao gênero certas características das obras, que não são, em absoluto, típicas do gênero, e podem ser deixadas de lado.

Meu exemplo preferido é de quando me pediram um exemplo do ghost story brasileira e eu mencionei Dona Flor e Seus Dois Maridos de Jorge Amado, história de um morto que volta para fazer vadiagem com a própria viúva. Meu interlocutor queixou-se: “Mas isso não é uma ghost story... Não tem castelo em ruínas, não tem abadia gótica, não tem aparição noturna arrastando correntes...” 

Passei por experiência semelhante ao falar de músicas brasileiras de ficção científica e citar o clássico Eu Vou Pra Lua, gravado por Ari Lôbo: “Eu vou pra Lua, eu vou morar lá... Vou no meu Sputnik, do campo do Jiquiá”. O campo do Jiquiá ficava no Recife; era o lugar onde os zepelins ficavam atracados no auge da fama desses dirigíveis. A canção descreve uma ida para a Lua e lá o encontro com uma civilização que é uma versão satírica da nossa. Por que não pode ser ficção científica?

É o mesmo argumento que uso para defender esta minha simpática parceria com Antonio Nóbrega, “Meu Foguete Brasileiro” (no álbum Lunário Perpétuo, 2002). Na preparação do álbum, tínhamos feito um levantamento de temas e de estilos que podíamos abordar. Pensamos em fazer alguma coisa inspiradas nos cocos de embolada, e eu lembrei uma antiga canção de Manoel Serafim gravada por nossos amigos Cachimbinho e Geraldo Mousinho, “O Navio Brasileiro”, que tem o refrão:

Meu navio deu um tombo

que a proa abalou,

o mastro pendeu e tombou

lá no alto mar...



 

Confiram aqui a gravação:

https://www.youtube.com/watch?v=F1-yjP3hGiE&ab_channel=AcervoOrigens

 

É a descrição de um navio gigantesco, portentoso, que dentro de si contém máquinas fabulosas, edifícios, fazendas de gado, campos lavrados, residências, um despropósito de coisas de fazer inveja àquelas grandes embarcações dos EUA com não-sei-quantos andares, que fazem cruzeiro pelo Mar do Caribe.

O coco de Cachimbinho e Geraldo segue uma tradição, cujo antecessor mais provável é “O Avião Brasileiro” dos saudosos Antonio da Mulatinha e Dedé da Mulatinha, que vi cantar muitas vezes em Campina Grande. A professora Elizabeth Travassos (UFRJ) faz uma transcrição e análise do coco dos dois irmãos campinenses num artigo incluído em Ao Encontro da Palavra Cantada, org. Cláudia Neiva de Matos, Elizabeth Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros (Rio: 7Letras, 2006). 


Como os poetas já tinham lançado mão de avião e navio, só nos restou apelar para o foguete interplanetário, e acho que veio de Nóbrega a idéia de, em vez de usar o verso curto da embolada, usarmos o verso longo do “galope beira mar”. E logo veio o recurso de trocar o refrão final desse estilo (“cantando galope na beira do mar”) por “cantando galope e voando no ar”, visto que se tratava de uma espaçonave.

E fomos em frente, enfileirando situações utópicas e divertidas, na descrição desta super-espaçonave brasileira que sairia pelos arrabaldes do Sistema Solar, encontrando outros povos, fazendo trocas comerciais, desbravando novas paisagens.

É ficção científica? É, sim, mas em vez da ficção científica ufanista, desbravadora e colonialista (“a missão do Homem é civilizar o universo”) é uma ficção científica brincalhona, irônica, meio ingênua em suas imagens e meio madura ao lidar com essa própria ingenuidade.


 

MEU FOGUETE BRASILEIRO

(BT & Antonio Nóbrega – março-abril 2002)

 

https://www.youtube.com/watch?v=jHr3iojbb_s&ab_channel=AntonioN%C3%B3brega-Topic

 

1

Eu fiz um foguete de andar pelo espaço

igual um que eu vi pela televisão:

não sei se era coisa da França ou Japão

mas basta ver gringo fazer eu já faço!...

Mandei buscar logo cem chapas de aço,

latão, alumínio, ferro de soldar;

dez mil arrebites para reforçar

a parte de fora da infra-estrutura:

cem metros de longo, trinta de largura,

e dez de galope voando no ar.

 

2

Por dentro o foguete tem compartimentos:

setor de serviço, cabine da frente,

motor titular e o sobressalente

e pra equipagem mil apartamentos.

Canhões telescópicos mais de duzentos,

castelo de proa, sensor e sonar;

torre de comando, luneta, radar,

produto avançado da tecnologia:

pretendo acabá-lo e sair qualquer dia

cantando galope e voando no ar!...

 

3

Botei no foguete diversas antenas

para captar raios infra-vermelhos.

Na parte de cima um sistema de espelhos

que amplia as imagens de estrelas pequenas.

Motores na popa que servem apenas

pra tudo aquecer, e pra refrigerar.

Movidos a pura energia solar

tem computadores, TVs virtuais:

mil inteligências artificiais

que cantam galope, voando no ar!

 

4

Maior do que tudo é a parte cargueira

que leva produtos de exportação:

tem saca de açúcar, tonel de carvão,

baú de café, tora de madeira.

Tem pano de lenço, tem palha de esteira,

xampu, querosene, bebida de bar,

rede de dormir, colchão de deitar,

cueca de seda, calcinha de renda...

Achando quem compre, não tem quem não venda,

cantando galope e voando no ar!

 

5

Na parte de cima da carga pesada

tem carro, trator, “caterpilha”, caçamba,

tem alegoria de Escola de Samba,

carro de bombeiro, mangueira e escada.

Tem locomotiva recém-fabricada

e tem ponte pênsil pronta pra instalar;

tem ônibus-leito, tanque militar,

caixão de defunto, navio de guerra...

Um pouco de tudo que existe na Terra,

cantando galope e voando no ar!

 

6

Merece destaque o setor do varejo,

com mercadorias de boa saída:

barraca de praia, caixa de bebida,

ganzá, cavaquinho, tantã, realejo...

Lagosta, siri, corda de caranguejo,

tem carne de sol e tem frutos do mar;

cordão de ceroula, produtos do lar,

catálogo novo, preço de primeira:

daqui do país, só não vendo a bandeira

que vai hasteada, voando no ar...

 

7

Depois que enchi os porões do foguete

com mil toneladas de mercadoria

pensei que de nada adiantaria

trancar-me sozinho nesse palacete.

Não sou sacerdote, nem sou um cadete,

não sou da igreja nem sou militar...

Sou só um poeta doidim pra casar

ganhar cafuné, um cheiro, um carinho...

O diabo é quem sai viajando sozinho

cantando galope, e voando no ar!

 

8

Olhei sem demora os mapas solares

dos meus alfarrábios de Astrologia

e vi que de fato eu precisaria

de ter companhia nos céus estelares.

Eu que planejava sair pelos ares

buscando planetas pra colonizar,

somente podia vir a povoar

os mundos distantes, sem ter empecilhos,

com muitas mulheres me enchendo de filhos,

cantando galope, e voando no ar...

 

9

Ainda por cima, era necessário

por uma bem simples questão de harmonia

que as raças humanas que eu espalharia

surgissem de modo bem igualitário.

Fiz logo um harém multi-milionário

nos seis continentes mandei contratar

as deusas mais belas que pude encontrar

e fiz delas todas as minhas mulheres:

café da manhã com seiscentos talheres,

cantando galope e voando no ar!

 

10

Criei no foguete diversos setores:

indústria, comércio, serviços, lazer.

Fazendas de soja pra dar de comer

aos meus tripulantes e navegadores.

Conjuntos de vilas pros trabalhadores,

e até “piscinão” com água do mar;

meu grande foguete é obra sem par

maior do que a China, melhor que o Japão;

tão belo de ver que parece o Sertão,

cantando galope e voando no ar!

 

11

Depois eu sentei no meu tamborete

puxei a lavanca, pisei no pedal,

subi pro espaço com força total

fazendo tremer o motor do foguete.

Passei bem por cima do Empire State,

da Torre Eiffel, Monte Palomar;

e vi pela tela se distanciar

a mancha azulada do nosso planeta...

Pensei: “Minha Nossa!  Aqui vai Tonheta,

cantando galope e voando no ar!...”

 

12

Fiz logo uma escala no chão marciano

vendi rapadura, comprei tungstênio,

enchi os meus tanques de oxigênio,

parti outra vez no começo do ano.

Passei por Saturno, passei por Urano,

cheguei lá no fim do Sistema Solar;

desci em Plutão, tomei banho de mar,

botei gasolina comum e azul,

segui com destino ao Cruzeiro do Sul

cantando galope e voando no ar!

 

13

Foi tanta viagem, foi tanta aventura,

foi tanta Demanda, foi tanta Odisséia...

Eu posso jurar à distinta platéia

que tudo isso foi a verdade mais pura.

Também teve um pouco de literatura,

história inventada para relaxar;

mas eu que não minto não quero falar

e o resto eu só conto aqui pra você

no próximo show, ou em outro CD,

cantando galope e voando no ar!

 

 

 

 

 




sexta-feira, 12 de maio de 2023

4941) Minhas Canções: "Chegada" (12.5.2023)




Já escrevi aqui neste Mundo Fantasmo alguns artigos tentando explicar minha concepção do que é rock. Não me refiro apenas ao rock-and-roll ingênuo e cinquentão (=dos anos 50) de Bill Haley e Seus Cometas, mas a tudo que aconteceu depois dele, e de Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, The Who, Led Zeppelin, Sex Pistols, The Clash... Et coetera. 
 
O rock, para mim, é primeiro que tudo uma junção de um elemento branco (a tecnologia eletro-eletrônica) com um elemento negro (a pulsação rítmica). Depois, vêm muito mais coisas; mas eu acho que a base é isso aí. 
 
Ou, como já escrevi algures: 
 
O rock norte-americano é a eletrificação das formas de música rural brotadas nos próprios EUA: primeiro, o blues dos negros do Mississipi; depois, as canções “country” dos vaqueiros do Oeste, a música “bluegrass” de raiz (com seus vertiginosos solos de banjo e de rabeca), a tradição de música “gospel” das igrejas batistas da população negra urbana. 
 
Do ponto de vista técnico, as palavras-chave são eletrificação e reprodução-ampliada, porque uma coisa é você tocar um ritmo bem sacudido de forma acústica, alcançando uma platéia de algumas centenas de pessoas, e outra coisa é você tocar o mesmo ritmo sacudido de forma eletrificada, alcançando centenas de milhares – em Woodstock, na Praia de Copacabana, num desses mega-festivais que rolam por aí.
 
Aqui no Brasil, um dos grandes saltos musicais que minha geração presenciou foi o crescimento de uma música eletrificada, feita no Nordeste, tendo por base os ritmos populares como o maracatu, o baião, o cavalo marinho, o coco e por aí vai. É o nosso rock. É a nossa eletrificação do ancestral. 
 
Chamamos de “rock brasileiro” a música feita pelas jovens bandas brasileiras como resposta ao rock estrangeiro: dos Mutantes aos Paralamas do Sucesso, de Renato e Seus Blue Caps à Blitz, da Bolha à Legião Urbana, todos pegaram o som estrangeiro e fizeram com ele o que cabia no seu balanço. Esse Rock-BR (no qual incluo a chamada Jovem Guarda) é uma resposta nossa à síntese norte-americana, injetando nela elementos próprios. 
 
Poderíamos também chamar de “rock brasileiro”, com certa propriedade, essa eletrificação dos ritmos populares. É a nossa síntese. Não somente o maracatu e o coco, mas o samba também. Só que se alguém vai falar de rock brasileiro não vai pensar em samba-rock, não vai pensar em Jorge Ben em primeiro lugar. 
 
Anos atrás, em 2003, fui procurado pela produção do Maracatu Várzea do Capibaribe, do Recife, pedindo uma música para o disco novo. Mandei esta canção, que foi gravada pelo cantor Abissal, acompanhado pelo Maracatu e pela rabeca de outro parceiro, Siba. O CD é Abissal e os Caboclos Envenenados, e dele participam outros talentos como Elias Paulino, Silvério Pessoa, Mestre Barachinha, etc. 
 
O maracatu eletrificado é uma das maneiras que encontramos para inventar nosso próprio rock. Quando Chico Science e a Nação Zumbi começaram a tocar no Brasil inteiro, Ariano Suassuna era Secretário de Cultura, e isso gerou uma infinidade de discussões sobre as afinidades e as desafinidades entre o Movimento Armorial e o Mangue Beat. Ariano, que admirava a pessoa e o talento de Chico, dizia: “Ele mistura o rock com o maracatu, e acha que com isso está valorizando o maracatu, mas está valorizando é o rock, que é muito inferior”. 
 
Não há muito o que discutir, pois acho normal alguém não gostar de rock, ou não gostar de maracatu, e quem diz isso sou eu, que gosto dos dois.
 
O maracatu não tem raízes em Campina Grande. Meu DNA de infância traz a sanfona do forró, a viola dos repentistas, os ganzás dos emboladores; traz o bolero de Nelson Gonçalves e Altemar Dutra; traz o samba carioca de Miltinho e Roberto Silva e o samba paulista de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, e traz até o rock – porque a minha infância foi carimbada pelo que tocava em rádio, naqueles tempos pré-música-na-televisão. 
 
O maracatu me chegou mais tarde, uma referência distante que vinha se aproximando como um exército de tambores em marcha. Através dos meus parceiros recifenses, como Zeh Rocha, Lenine, Lula Queiroga e outros, aprendi a duras penas a reproduzir a quebrada do bombo – e acabei compondo alguns maracatus, dos quais este aqui foi gravado, e vale como amostra. 
 
 
 
*********** 
 
https://www.youtube.com/watch?v=OxByri35iBQ&ab_channel=ThiagoQueiroz
 
 
CHEGADA (Letra e música: BT)
Gravação: Abissal & Várzea do Capibaribe
 
São tambores de chamada
motores da força e luz
jogando eletricidade nos terreiros.
Guitarras de feiticeiros
vibrando embaixo do som
da avenida que surgiu de madrugada. 
 
São cabeças coroadas
de fumaça de vulcão
e uns olhos de lua cheia na lagoa.
É um milhão de pessoas
no mesmo raio de sol
e o baque dos pés no chão da noite inteira. 
 
Chegou na tela do mundo
chegou na letra da mão
chegou no colo da fera
chegou no X da paixão;
chegou no brilho da faca
chegou no lixo da feira
chegou no arranco do grito
chegou no chão da ladeira;
chegou um rosto e um nome
nascendo dentro de mim
e continuando assim a vida inteira.




(Maracatu Real Várzea do Capibaribe) 
 





sábado, 21 de maio de 2022

4825) Minhas canções: "Batida"



(BT, no Teatro Lira Paulistana, foto Iroã Simões)
 
Minha vitoriosa carreira de cantor-de-bar começou em finais dos anos 1970, sucedendo a uma também vitoriosa carreira de cantor-de-mesa-de-bar.
 
Para os leigos a distinção pode parecer irrelevante, mas para os praticantes essa diferença é tudo e mais um pouco. Cantar em mesa de bar é justamente para os leigos, os diletantes, as pessoas felizes que estão ali apenas se divertindo. Cantar-no-bar é reivindicar o palco para si. E envolve conversar com o dono, mandar fazer cartazes e fôlderes, cobrar couvert artístico – em suma, sentir-se um Artista de verdade.
 
Nessa época, eu morava em Salvador, e além da capital baiana cantava em bares da Paraíba (Campina Grande e João Pessoa), e de Pernambuco (Recife e Olinda). Era um anônimo, um compositor de menos de 30 anos e sem nenhuma música gravada.
 
Isso foi mudando aos poucos, graças a Elba Ramalho, que me “amadrinhou” gravando algumas canções. Mas a essa altura eu já tinha aberto uma franquia cordelesca que me ajudava a faturar alguns caraminguás noturnos, além do famoso “couvert”. Através dos meus contatos com os cordelistas, comecei a editar folhetos com as letras das músicas que cantava no palco.


 
Este folheto foi homenageado anos depois pelo meu futuro parceiro Silvério Pessoa, num CD homônimo. O folheto trazia as letras das músicas “A Hipótese do Hipopótamo Tartamudo”, “Batida”, “Parece que é Rock”, “Soberano Desprezo”, “Meu Pai”, “Calango, Jumento, Mosquito e Preá” e “Caldeirão dos Mitos”.
 
Não dava para sobreviver mas ajudava. Digamos que eu vendesse um folhet por 5 reais; tinha noite em que eu chegava a vender 50 ou 100. Era uma grana extra que às vezes equivalia ao que era arrecadado com o “couvert” ou ingresso.
 
“Batida” era uma das canções típicas dessa época, e forneceu o nome, “Batida de Madrugada”, do meu primeiro show pra valer em espaço nobre – o Centro Cultura Luís Freire (Olinda), ao lado do meu parceiro Zeh Rocha, em 1979.


(com Zeh Rocha) 
 
Eu tinha várias canções melodicamente mais elaboradas, com dedilhado lento, e apesar de não serem tecnicamente blues eu as batizei de “blues etílicos”, porque quase todas falavam em bebedeira e dor de cotovelo. Eram canções como “Atlântico Blues”, “Cabelo de Espantalho”, a própria “Batida”, etc.
 
Depois que vim morar no Rio, descobri a banda Blues Etílicos, e houve uma conexão telepática imediata. Alguns anos se passariam até ficarmos amigos e eu compor, a pedido de Flávio Guimarães, a letra da “Balada de Robert Johnson”, que ele e Sebastião da Silva gravaram brilhantemente.
 
E no papo-vai papo-vem com Flávio, Otávio, Greg e o resto da turma acabei me lembrando da minha velha “Batida”, que eles gravaram de maneira divertida e escrachada em 2003, no álbum Cor do Universo.
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=44l-I2xLCko
 
Muitas das minhas músicas daquela época estão longe do esquema habitual das canções de MPB: primeira parte, segunda parte, refrão, etc. Elas seguem o esquema da canção folk: uma estrofe musical simples, que se repete sempre igual, com letra diferente. Pense em “Asa “Branca”.
 
“Batida” é uma dessas letras que poderiam ser esticadas indefinidamente, porque admitem uma espécie de mote, mudando apenas a palavra final, e sugerindo infinitas rimas.
 
 
 
 
***************** 
 
BATIDA
(BT)
 
Quando o tempo vai roendo
os ossos do calendário
e você envelhecendo
como um lobo solitário,
ainda existe uma saída
pra salvar o coração:
basta um copo de batida
de limão.
 
Quando alguém deixa os teus braços,
sai voando, e vai viver,
e o teu amor feito em pedaços
leva tempo pra morrer...
Pra curar essa ferida
de uma paixão que se acaba
basta um copo de batida
de goiaba.
 
Quando a noite desce fria
como um fundo de uma lagoa
e ao amanhecer do dia
a luz dos olhos magoa,
pra que a alma dolorida
tenha onde repousar
basta um copo de batida
de maracujá.
 
Quando você já não quer
acreditar em ninguém
e os olhos dessa mulher
amam sem dizer a quem...
Para haver uma saída
ligando o eu e o tu
basta um copo de batida
de caju.
 
Quando todo mundo crê
que o que importa é ser feliz
e entre todos só você
sabe que não, mas não diz..
Para a boca contraída
imaginar que está sorrindo
basta um copo de batida
de tamarindo.
 
Quando o último segredo
torna iguais o não e o sim
e a gente encara sem medo
a rocha escura do fim,
pra curar o mal da vida
quando não restar mais nada
basta um carro e uma batida
de madrugada...
Basta um carro e uma batida
de madrugada...
 
E aqui, eu mesmo gravando em Natal, no estúdio DoSol, sob os auspícios de Ana Morena Tavares e Anderson Foca:
 
https://www.youtube.com/watch?v=oiZ8n3NodAM