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quinta-feira, 11 de junho de 2009

1087) Spam subliminar (9.9.2006)


(R. J. Matson)

Circulam na Rede mensagens onde está sendo usado um novo tipo de spam, por enquanto ainda meio rudimentar (pelo exemplo que eu vi), mas com um grande futuro pela frente. O exemplo que me indicaram está neste endereço: http://www.jgc.org/blog/2006/09/subliminal-advertising-in-spam.html?rf=23m. São quatro imagens tipo .GIF, sendo que uma delas, contendo a mensagem de propaganda, dura 17 segundos na tela, e as outras três são projetadas em frações de segundo, mostrando a palavra “BUY” (“compre!”) em diferentes posições.

Mensagens subliminares são aquelas que estão “abaixo do limiar da atenção”, mensagens rápidas demais para serem decodificadas pela mente consciente, e que por assim dizer “passam direto”, alojando-se no inconsciente das pessoas. Experiências com propaganda subliminar existem desde que eu era garoto, e já foram empregadas no cinema e na TV. Esta é a primeira vez que ouço falar no seu uso ligado à Internet.

Teoricamente, estas mensagens seriam capazes de implantar em nós alguns comandos mentais cuja existência nos passaria despercebida. De um momento para outro, estaríamos sentindo uma inexplicável necessidade de tomar Fanta Uva, de comprar a revista “Casa & Jardim” ou de usar pasta Colgate. Observem que as mensagens subliminares não escolhem suas “vítimas”, e fico daqui imaginando a situação de respeitáveis senhores de meia-idade comprando enormes quantidades de esmalte de unhas ou absorventes íntimos, sem saber por quê nem para quê.

Imagens GIF são as que fazem aquelas animaçõezinhas tão divertidas que vemos na maioria dos saites. São arquivos com múltiplas imagens em seqüência, que, ao chegar na última, recomeçam a seqüência a partir da primeira, em “loop”. Teoricamente, seus recursos são limitados, mas para efeito de propaganda subliminar basta estabelecer uma velocidade lenta o bastante para que a imagem seja captada pelas retinas, mas rápida demais para que ela seja registrada pela nossa atarefadíssima mente consciente. As possibilidades, como sempre, são infinitas, e neste caso são preocupantes.

A mensagem de spam contida no link acima faz parte de uma série que venho recebendo muito, ultimamente: spams com propaganda de ações da Bolsa de Valores, dando alguns dados básicos, cotação imediata, previsão de cotação futura, e aconselhando-nos a comprar. Os spams que recebo têm lançado mão de um recurso hábil para fugir à varredura dos sistemas anti-spam. O Spam propriamente dito vem numa imagem, e o resto da mensagem é um texto aleatório, que, uma vez lido pelo anti-spam, revela-se inofensivo. São fragmentos de romances em inglês, ao que parece, cortados e colados aleatoriamente. Como os anti-spams (ou pelo menos alguns deles) não “lêem” o que está escrito na imagem, a propaganda acaba passando. O uso de mensagens subliminares, que pode estar apenas começando, é o degrau seguinte nessa escalada. Fiquem de olho aberto! (Ou melhor – um aberto e o outro fechado).

terça-feira, 11 de março de 2008

0233) Spam Music (19.12.2003)

Suponho que a maioria dos meus leitores sabe o que é Spam. É aquela propaganda feita através da Internet valendo-se de algumas peculiaridades deste meio, entre elas a possibilidade de enviar uma mesma mensagem, a custo quase zero, para milhões de pessoas ao mesmo tempo. Isto é o sonho dourado de qualquer marqueteiro, agente de propaganda, divulgador, etc. Mesmo no tempo da propaganda em forma de papel (o volante, a filipeta, o postal, o folheto, o catálogo, etc.) isso já era posto em prática. Quantas vezes fiquei de pé durante 20, 30, 40 minutos numa fila do Correio, vendo à minha frente um office-boy com alguns milhares de envelopes, todos iguaizinhos, com endereços impressos em etiquetas adesivas, passando naquela maquininha, vrum, vrum, vrum, enquanto eu esperava num-pé-e-noutro com minha cartinha única na mão.

O email reduziu este problemas mas trouxe outros. Já cancelei um endereço de email que usava há muitos anos, porque tornou-se impraticável o número de propagandas não-solicitadas que me chegavam. Ao abrir a caixa, havia cerca de 130 mensagens, das quais talvez meia-dúzia fossem mensagens para mim: o resto eram propagandas enviadas para meu endereço. E tem gente que usa esse sistema para divulgar suas próprias armas: oferecem CDs com “3 milhões de endereços”, ou mais, por um preço módico.

A idéia por trás dessa propaganda é muito simples: 99% dos recebedores vão ficar irritados e apagar a mensagem; 1% vão ter algum interesse pelo produto (os números não são exatamente estes, mas tanto faz). Se você manda 100 mensagens não é bom negócio. Mas se você manda 1 milhão de mensagens a relação custo-benefício é mais interessante, pois teoricamente você atinge um por cento disto: 10 mil pessoas vão ficar sabendo que seu produto existe e podem se interessar em comprá-lo.

O mercado capitalista adora essas fórmulas mágicas. O capitalismo é quantitativo por sua própria natureza, adora soluções quantitativas, de força-bruta (v. coluna “A solução Herodes”, 5 de julho). No mercado musical, por exemplo, adota-se algo muito parecido ao Spam. Um CD de Fulano é lançado, e a gravadora suborna centenas de disc-jóqueis Brasil afora, para ter certeza de que a chamada “música de trabalho” vai tocar o dia inteiro. Com tanta repetição, é possível que 99% por cento das pessoas reajam dizendo “P.q.p., eu não aguento mais essa música chata”, mas 1% vai chegar a balcão da loja e perguntar pelo disco. Quando se lida com dezenas de milhões, basta esse um por cento de retorno para justificar toda a despesa. O que ouvimos em nossas rádios, hoje, não passa de um spam sonoro. Impessoal, massificado, pago a peso de ouro, e inspirado no princípio de que vale a pena incomodar um milhão de pessoas para vender um disco a dez mil. O Spam é o carro-de-propaganda (aquele do alto-falante insuportável) do século 21.