Mostrando postagens com marcador títulos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador títulos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

5220) O fiscal de título (6.2.2026)




Dias atrás fiz uma brincadeira aqui mencionando os “fiscais de título”, aquele pessoal que fervilha nas redes sociais botando defeito nos títulos de romances, filmes, álbuns, canções e tudo o mais. 
 
O fenômeno não é novo, remonta aos meus tempos de juventude quando fui crítico-de-cinema e cineclubista. Havia sempre uma minoria exigente, punctiliosa, para quem um título deveria corresponder, de maneira insofismável, a algum elemento concreto da obra, e assim estabelecer com ela uma relação quase jurídica. Um título deveria poder ser certificado em Cartório. 
 
(Digressão: uma pessoa punctiliosa é precisamente uma pessoa capaz de me escrever aqui alertando-me que essa palavra não existe em português, é uma adaptação indolente do adjetivo inglês “punctilious”, que um tradutor sério deveria reproduzir como “meticulosa”, “detalhista”, etc.). 
 
O título do filme O Agente Secreto tem sido questionado por muitas pessoas. Na minha visão, o agente secreto do filme é o personagem de Wagner Moura, porque ele age em segredo, o tempo inteiro, e na verdade ele se define por essas duas características. Ele é agente: ele está envolvido numa missão perigosa, a de pegar o filho e escapar aos pistoleiros de aluguel contratados para matá-lo. E age secretamente, sob nome falso, morando escondido, fingindo ser outra pessoa, protegido por uma organização clandestina de apoio a gente perseguida.
 
A expressão é usada no título de maneira ampla, quase metafórica.


O problema surge porque em nosso idioma mental o termo "agente secreto” significa: “indivíduo que trabalha para o serviço de segurança de algum governo com a finalidade de, sob identidade falsa, executar missão de espionagem contra um governo rival ou organizações rivais independentes”. Ou seja: James Bond, Francis Coplan (“o agente secreto FX-18”), Phil Corrigan (“o agente secreto X-9”), Hubert Bonisseur de La Bath (“o agente secreto OSS-117”, Nick Carter (o agente secreto “Killmaster”), Matt Helm (escrito por Donald Hamilton) e outros. 
 
Tem muitos mais; estou falando apenas dos livrinhos de bolso que eu lia aos quinze anos. 



Essas discussões me lembram outras. Lembro de ficarmos, meio século atrás, batendo boca por causa de O Estrangeiro de Albert Camus. “Quem é o estrangeiro?”, perguntavam. Alguém respondia que era Meursault, o protagonista, porque a história se passa na Argélia, e Meursault é francês. “Mas a Argélia era possessão colonial francesa”, lembrava alguém, então o estrangeiro devia ser o árabe que é morto a tiros. “Mas o árabe nasceu ali,” argumentava outro. (Estamos argumentando até hoje.) 
 
Um título deve corresponder à obra, concordo, mas poucos títulos são inquestionáveis. Lembro de outra discussão. Alguém dizia: “Por que Os Irmãos Karamazov?  O nome devia ser A Família Karamazov, porque o pai é tão importante quanto os filhos.” E por aí vai. 
 
Sábio era Machado de Assis, um ancião sem tempo para polêmicas. Logo na primeira página do Dom Casmurro chamou os fiscalizadores, explicou o título, passou marcha e foi embora sem olhar para trás. 




Igualmente sábio foi Eugene Ionesco, que deu a uma peça o título absurdista de A Cantora Careca, e desincumbiu-se dele com uma única troca de frases. (“ – Ah, você tem visto a cantora careca?... – “Não, mas me disseram que agora está com outro penteado.”). 
 
Foram mais pragmáticos do que Umberto Eco, Luís Buñuel, Henry Miller, que até hoje dão explicações mediúnicas sobre O Nome da Rosa, O Anjo Exterminador, Trópico de Câncer... A lista é longa e não tem fim.  
 
Sou fiscal também, e na minha alfândega particular está retido até hoje o polêmico O Casal Osterman, filme de espionagem dirigido por Sam Peckinpah onde não aparece casal algum. O título original é The Osterman Week-end, ou “O fim de semana na casa de Osterman”, bastante descritivo: o filme narra uma reunião de agentes da CIA que desanda em tiroteio, ou não seria dirigido por quem foi. 



(O Homem do Prego) 

 
Quando foi exibido em Campina Grande o excelente The Pawnbroker (1964), de Sidney Lumet, o título brasileiro “O Homem do Prego” nos desorientou um pouco, porque nenhum de nós, imberbes alecrins, sabia o que diabo era uma casa de penhor, aquela lojinha onde as pessoas botavam “no prego” seus objetos pessoais, como garantia por algum dinheiro emprestado. O que nos salvou foi a cena, quase no final, em que Rod Steiger, torturado por traumas de guerra e culpas de paz, enfia a mão, como castigo, no prego de metal onde costuma enfiar os recibos dos objetos alugados. 
 
Mesmo, assim, interpretar um título ao pé da letra é sempre perigoso. É no pé da letra que tantas vezes tropeçamos. 
 
Quando eu estava publicando meus primeiros livros, um escritor veterano me deu uma dica. Disse ele para pensar num título que: 
 
1) Não precisasse ser repetido, nem soletrado, principalmente ao telefone; 
 
2) Não precisasse ser explicado: fizesse algum sentido aparente, por si mesmo; 
 
3) Fornecesse um mote interessante para desenvolver na conversa. (“Algum jornalista ou entrevistador invariavelmente vai perguntar: Sr. Braulio, por que A Máquina Voadora? E isso lhe dará a chance de ser engraçadinho e dizer: Porque é um romance sobre um caracol.”) 
 
Nome de livro/filme precisa ser uma descrição da obra? Não necessariamente. Um título pode muito bem ser um acréscimo à obra. Uma das primeiras coisas que me encantaram na canção “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso foi que o título não aparece na letra da música em momento algum, e é a mais completa tradução dela. Modelo que o autor repetiu em canções como “Panis et Circensis”, “Tropicália”, etc. 
 
Um título não deveria descrever previamente um livro, mas ser definido, após a leitura, pelo livro que se acabou de ler. Como acontece com os nomes de pessoas, aliás. Na pia de batismo, ou no balcão do Cartório, nomes como “William Shakespeare”, “Franz Kafka” ou “Vincent Van Gogh” não tinham significado algum além do ferrete onomástico; foi somente depois da obra que ganharam algum peso metafórico ou simbólico.  
 
E por falar em pia de batismo, me vem à lembrança a piada sobre o casal de jovens nordestinos, em São Paulo, que leva seu bebê à pia batismal. O padre é impaciente, vê os jovens paraíbas se aproximando, recebe o bebê, pergunta: “Vai se chamar como?...”  A mãe, tímida: “Roberto...” E o padre, bufando: “Roberto o quê!  Nome de paraíba é Adenílson!... Eu te batizo Adenílson, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo...”  

(Aqui, comentário sobre o filme:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/11/5208-o-agente-secreto-20112025.html ) 




quarta-feira, 6 de julho de 2022

4840) O suspense no título (6.7.2022)



Alfred Hitchcock dizia que muitas vezes o suspense de uma história já começa a partir do título. 

Ele cita o clássico filme de aventuras marítimas, O Motim do Bounty, e diz que o título dá o tom do que o público deve esperar: “Seria muito diferente se o filme de chamasse O Belo Navio Bounty”. (Creio que o título do filme no Brasil foi O Grande Motim.)
 
“Todo título é uma promessa”, foi o que afirmou Jacques Derrida, segundo li por aí. Se ele não disse isso, deveria tê-lo feito, porque a frase é perfeita, e a idéia que contém bate perfeitamente com a proposição de Hitchcock.



O título prepara nosso espírito para o que vamos ver – e o que vamos ver pode ser uma surpresa, ou uma confirmação, ou uma reviravolta, ou um enriquecimento do que foi prometido.
 
Há um divertido romance inglês de crime, O Assassinato de Minha Tia (“The Murder of My Aunt”, 1934), de Richard Hull. Vou dar agora um spoiler, mas acho que dificilmente algum leitor há de ler esse livro, que li na edição portuguesa da Colecção Vampiro.



O narrador passa o livro inteiro planejando diferentes tentativas de matar uma tia rica e herdar o dinheiro dela (ele é um desses rapazes ingleses que preferem ir para a forca do que trabalhar). Nas últimas páginas do livro (estou citando de memória, com décadas de atraso), ele escreve que está se sentindo esquisito, que bebeu alguma coisa oferecida pela Tia, e diz: “Percebo agora, com horror, que o título que dei a estas páginas tanto pode significar “O Assassinato De Que Foi Vítima a Minha Tia” quanto “O Assassinato que Minha Tia Cometeu”. E o livro acaba aí.
 
É um desses casos raros, e brilhantes, em que o título do livro é absolutamente claro e absolutamente enganador.
 
(Aliás, depois que redigi este artigo, fui pesquisar o texto em inglês do livro e vi que o final é completamente diferente do que eu recordava. Não mexi no texto porque sou honesto, e também porque o sentido do meu comentário se confirma, ainda que de outra maneira.)
 
Voltando a Hitchcock, será que na própria obra dele há exemplos de sua tese, exemplos em que o título “põe uma pulga atrás da orelha” do público?
 
Pensei num contra-exemplo que me parece didático. O famoso Um Corpo Que Cai (1958, com James Stewart e Kim Novak) é baseado num romance francês chamado D’Entre Les Morts, título que passa a idéia de alguém que volta “dos mortos”. O filme inteiro se baseia na volta (fictícia e real) de uma mulher que se supõe morta e que mostra estar viva.
 
Mas Hitchcock intitulou o filme Vertigo (=vertigem) e transferiu o foco para o detetive que tem medo das alturas, outro ponto essencial do roteiro. Por que? Certamente (aqui é mera conjetura minha) para deixar que a idéia da “volta de entre os mortos” se construísse sozinha na mente do espectador, ao longo da narrativa. Também é uma estratégia aceitável.



(North by Northwest)
 
O título de Intriga Internacional (1959, com Cary Grant) é em inglês “North by Northwest”, “Norte por Noroeste”, que parece não indicar nenhuma direção clara na rosa-dos-ventos.  Tinha justamente a função de mostrar um indivíduo totalmente desorientado, arrastado por acaso numa trama de espionagem que não lhe diz respeito. O título no Brasil poderia ter sido “Cego em Tiroteio”.
 
Por outro lado, Hitchcock tem The Lady Vanishes (1938), onde uma trama de espionagem faz desaparecer de um trem em movimento uma velhinha aparentemente inofensiva. O romance original se intitula The Wheel Spins (“A Roda Gira”), e não há dúvida de que neste caso o diretor pôs a sua fórmula para funcionar. (Em português, o filme ficou como “A Dama Oculta”, que para mim é inferior a “A Dama Desaparece”.)
 
Que outros exemplos a gente pode achar, de suspense induzido pelo título?
 
Agatha Christie tem um romance chamado Por Que Não Pediram a Evans? (“Why didn’t they ask Evans?”, 1934). Essa é a frase pronunciada por um homem no instante de morrer, no primeiro capítulo. O livro mostra a investigação feita por um casal de jovens detetives amadores, e só nas últimas páginas se esclarece quem era esse misterioso “Evans” e por que não lhe pediram algo – uma informação crucial para a solução do homicídio.


E ninguém pode negar que
E Não Sobrou Nenhum (“And Then There Were None”, 1939) é um “gatilho” de suspense que vai se intensificando a cada capítulo, a cada cadáver descoberto.
 
O suspense (é sempre bom lembrar) não depende de situações de crime, violência, morte. Suspense é a tensão provocada por um evento que deverá acontecer, mas enquanto não acontece provoca em nós uma expectativa ansiosa, que pode ter diferentes conotações. Muitas vezes o título faz uma revelação parcial sobre o conteúdo da narrativa, e ficamos o tempo inteiro ansiosos pela revelação da parte que faltou.
 
Críticos literários já comentaram as múltiplas referências do Ulisses de James Joyce à Odisséia de Homero, mas ressalvaram que se o livro se chamasse Um Dia em Dublin quase ninguém iria perceber as citações homéricas – e eu acredito. É o título que nos alerta, que nos induz. O título nos dá para “cheirar” uma alusão mitológica – e durante o livro inteiro ficamos farejando tudo que se refira a esse mito. É um caso clássico de interpretação direcionada, por via das dúvidas, pelo próprio autor.




 
 






quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

4675) "Bravo Mundo Novo" (17.2.2021)




 A obra de George Orwell entrou recentemente em domínio público, e está havendo uma enxurrada de reedições de seus livros sempre necessários, sempre atuais.
 
Um caso interessante se deu com Animal Farm (1945), que diferentes editoras têm publicado no Brasil como A Revolução dos Bichos (nas traduções mais antigas) e como A Fazenda dos Animais (na versão mais recente, de Denise Bottmann).
 
Circula uma comprida polêmica, na imprensa e nas redes sociais, a respeito dessas duas opções de tradução. O que nem sempre é bom, porque tem gente que aproveita uma simples discussão de título para sair chamando os outros de idiotas e analfabetos. Mas sempre é bom, porque ao debater toda a rede de significados que se espalha em torno das palavras e das frases que usamos deixamos de obedecer cegamente a elas, e começamos a conversar com elas, e até a comandá-las, lucidamente.

 
O exemplo de Orwell me trouxe à mente o de uma obra que na minha lembrança está sempre pertinho da obra dele, e que é o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, cujo título faz uma citação de A Tempestade, de Shakespeare:
 
“Ó, maravilha! Que criaturas adoráveis estão aqui! Como é belo o gênero humano! Ó admirável mundo novo que possui gente assim!”
(William Shakespeare, A Tempestade, Ato V)
 
Huxley era um grande escritor também, e estava muito em voga na época de minha adolescência, via Editora Civilização Brasileira. Além do Admirável Mundo Novo, me marcaram muito O Gênio e a Deusa, O Macaco e a Essência e principalmente o díptico As Portas da Percepção / O Céu e o Inferno, livro que me fascinou desde pequeno por causa da ilustração da capa, que acabou me inspirando uma das minhas pragas favoritas quando estou com raiva de alguém: “Quero que ele vá pro inferno de cabeça pra baixo!”.



 
Huxley (nascido em 1894) foi professor de Orwell (nascido em 1903) a certa altura da vida, e os dois se respeitavam. Quando 1984 fez sucesso, o autor mandou enviar ao ex-mestre uma cópia do livro, a que Huxley respondeu com uma carta elogiosa e cordial. Na mesma carta, contudo, ele reafirmava (o ano era 1949) um princípio já declarado em seu próprio livro: que as ditaduras do futuro seriam menos baseadas na repressão policial e na tortura, e mais dependentes da propaganda, das drogas e de outras formas de controle. Ou seja, é mais prático, ao invés de oprimir uma população infeliz, dar a essa população uma ilusão qualquer de felicidade, e fazer com que ela colabore com o regime voluntariamente.
 
Os dois sistemas coexistem no mundo de hoje, onde podemos ver as ditaduras do chicote e as ditaduras do chiclete.
 
Ninguém é dono da verdade; cada um de nós se debate sozinho num nevoeiro, e o máximo que consegue é gritar de longe as experiências que está tendo e escutar de volta os gritos de quem está próximo. Nada mais.
 
Huxley, na carta a Orwell, pensava nas formas de controle mental (que ele considerava uma técnica superior à da “botina-no-rosto”), e dizia:
 
Na próxima geração, acredito que os governantes mundiais irão descobrir que o condicionamento ainda na infância e a narco-hipnose [combinação do uso de drogas e hipnose] são mais eficazes, como instrumento de exercício do poder, do que cassetetes e prisões, e que a cobiça pelo poder pode ser plenamente satisfeita ao se fazer com que as pessoas amem a sua escravidão; é melhor do que chicoteá-las e dar-lhes pontapés para que obedeçam. (trad. BT)




Acho que nesse ponto Huxley foi mais longe que Orwell, embora o método brutal descrito por este tenha sido dolorosamente realista. E o fato é que do ponto de vista da imaginação e do talento literário as duas obras se equivalem, e provavelmente será assim por muito tempo.
 
Voltando à questão da tradução dos títulos, fiquei pensando sobre a forma como algumas traduções de títulos se tornam clássicas, quase obrigatórias, e chegam até a impedir que alguém tente uma tradução alternativa. 

Não me refiro a traduções literais (The Time Machine será sempre A Máquina do Tempo, acho, e The Glass Key será sempre A Chave de Vidro). Mas às fórmulas que, no idioma de chegada, envolvem uma certa maneira criativa de expressão, que acaba se impondo, e eu diria até acabam intimidando um tradutor mais cauteloso.
 
Penso num dos mais célebres entre nós, O Morro dos Ventos Uivantes, que é o nome quase obrigatório de todas as traduções do Wuthering Heights (1847) de Emily Brontë, com variações para o singular, em algumas edições.


 
A expressão foi formulada (no singular) num poema de Tasso da Silveira (1895-1968), e já aparece na primeira tradução do livro entre nós, que Denise Bottmann em seu precioso saite Não Gosto de Plágio, identifica como sendo a de Oscar Mendes para a Ed. Globo de Porto Alegre, em 1938.
 
Não sei se alguém (nem mesmo Denise Bottmann!) teria coragem hoje de propor uma tradução diferente para esse título. O Morro dos Ventos Uivantes corresponde com bastante fidelidade ao original, tem uma cadência sonora impecável, e, mais que tudo, já se entranhou no inconsciente coletivo de nossa memória escrita. Imagino a hesitação de um leitor a quem aconselharam esse romance e ele recebe, no balcão da livraria, um belo volume de aparência gótica mas com o título Cumes Tempestuosos.
 
Não é totalmente absurdo, porque Cumbres Borrascosas é a versão em espanhol da mesma obra, embora a de Tasso da Silveira tenha se aproximado um pouco mais da versão em francês, que é tradicionalmente Les Hauts de Hurle-Vent, usado na tradução de Frédéric Delebecque em 1925 (não sei se tem alguma anterior a esta). O Alto do Uiva-Vento. Alguém se habilita? Quem já morou no Alto Branco não irá estranhar muito. 
 
“Antiguidade é posto,” já diziam os antigos em sua sabedoria, forma de esperteza. As versões mais antigas dos títulos literários acabam se associando à obra, mesmo quando não traduzem de forma precisa o título dado pelo autor, como foi o caso do livro de Orwell citado no início. 

Nos EUA, o clássico de Marcel Proust À La Recherche du Temps Perdu tem duas traduções vigentes: In Search of Lost Time, mais próxima do original, e Remembrance of Things Past, que para muitos leitores de lá ficou indissoluvelmente ligado à experiência da leitura e da lembrança.
 
Todo este cerca-lourenço até aqui é para chegar no título do livro de Huxley, que é Brave New World e no Brasil tornou-se, com toda razão, Admirável Mundo Novo. Em algum ponto do meu percurso eu já quis checar essa correspondência, para saber se uma eventual tradução Bravo Mundo Novo seria correta – porque sempre me acostumei a ver “bravo” como mero sinônimo de “corajoso”, ou, em sua versão paraibana “brabo”, sinônimo de “enraivecido”.
 
Mas de fato, o Dicionário Houaiss assinala que bravo, em sua acepção 11, corresponde a “digno de admiração; notável”.
 
Caso alguém optasse por essa maneira de traduzir, estaria errado? Certo que não. Mas logo a Falange Lacradora se ergueria empunhando chuços e trinchetes, bradando que o tradutor foi preguiçoso e usou um "falso cognato". Estariam errados? Totalmente, não, porque em última análise estariam falando em nome de uma tradução que é consagrada pelo tempo e pela memória, além de ser um octossílabo perfeito e (penso eu) uma expressão mais clara e eloquente do que a nova forma proposta.
 

(Aldous Huxley)
 
 
 
 
 
 
 
 





quarta-feira, 30 de maio de 2018

4352) Traduzindo títulos (30.5.2018)





De vez em quando a gente acaba se pondo no lugar de um tradutor que recebe a tarefa de traduzir o título de um filme estrangeiro.

“Tradutor”, claro, no sentido mais amplo do termo. Imagino que quem toma essa decisão final é um funcionário graduado da distribuidora. Não é o mesmo pobre-diabo a quem cabe criar as legendas em português com os diálogos do filme. (Uma das tarefas mais ingratas e mal remuneradas do Museu de Horrores que é a indústria cultural.)

Penso, por exemplo, no cara que ia distribuir um filme intitulado Some Like it Hot. Ele não precisava de dicionário para entender. A frase é boa, mas servia para título? Não servia. Ele deve ter feito um esforço para imaginar (o filme é de 1959) a fachada iluminada de um cinema de rua brasileiro, e o título: “Alguns gostam disso quente”.

Ele pensou, remexeu a frase, trocou palavras, procurou manter-se próximo do sentido, e produziu: Quanto Mais Quente Melhor. Um nome com mais ritmo, terminando numa sílaba forte, contendo uma fórmula comparativa de fácil entendimento. Nota dez para ele.

Costumamos mangar dos títulos nada-a-ver, como traduzir Blow Up por Depois Daquele Beijo, ou traduzir Persona por Quando Duas Mulheres Pecam. Mas algumas mudanças são obrigatórias.

Vi uma vez um distribuidor comentando um filme de Sidney Pollack. É a história de um rapaz que trabalha como voluntário num centro de ajuda telefônica. Uma mulher liga dizendo que tomou pílulas para se matar. Ele fica conversando com ela, mantendo-a lúcida, enquanto a equipe rastreia a ligação e corre para salvar a vida dela.

O filme se chama The Slender Thread. “Quem vai sair de casa para ver um filme chamado A Linha Fina?”, dizia o distribuidor. A linha fina é o fio telefônico, claro. O filme se chamou no Brasil Uma Vida em Suspense. Nada original – mas muito mais sensato.

A maior parte dessas traduções tenta, visivelmente, se manter próxima da intenção do original, mas produzindo uma fórmula diferente, mais chamativa.

O filme de Jean-Luc Godard Pierrot Le Fou poderia ser traduzido aqui como Pierrot o Louco, ou Pedrinho o Louco como ficou em Portugal. Alguma alma caridosa resolveu chamá-lo, sei lá por quê, de O Demônio das Onze Horas, um desses casos de invenção nada-a-ver que acaba sendo bem-vinda.

O título tem que ter-a-ver com o filme, e tem que atrair o público, mesmo que seja apenas pelo inusitado de sua forma.

Nos anos 1960 apareceu uma moda efêmera de títulos longos, como o da comédia maluca de Ken Annakin, Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras, ou Como Voei de Londres a Paris em 25 Horas e 11 Minutos (“Those Magnificent Men in Their Flying Machines, or How I Flew from London to Paris in 25 Hours 11 Minutes”), a comédia de humor negro apocalíptico de Stanley Kubrick Dr. Fantástico, ou Como Aprendi a Não me Preocupar e a Amar a Bomba (“Dr. Strangelove, or How I Learned To Stop Worrying and Love the Bomb”), etc.

Foi  uma década engraçada essa, em termos de nomes compridos. Isso pipocou no cinema, na literatura, nos nomes de bandas de rock.

Digressão: o mesmo ocorreu na ficção científica. Isaac Asimov queixava-se, nos editoriais do seu Magazine, de que no tempo dele os contos de FC se intitulavam “Homecoming” ou “Nightfall” – e agora estavam aparecendo histórias com nomes tipo “The Doors of His Face, The Lamps of His Mouth” ou “Repent, Harlequin! Said the Ticktockman”.

No caso de um filme estrangeiro, é preciso manter em português algo do charme do título original, mas numa linguagem acessível ao público daqui, e de preferência sem apelar.

Um belo western de Anthony Mann, The Man From Laramie, tinha um título pouco chamativo (Laramie é uma cidade). Alguém resolveu chamá-lo de Um certo capitão Lockhart, o nome do personagem principal. Anos depois, uma adaptação de Érico Verissimo para o cinema acabou se chamando Um certo capitão Rodrigo, em função do personagem Rodrigo Cambará, e fiquei imaginando se este formato de título não teria sido extraído do livro de Érico, que até hoje imperdoavelmente não li.

Um filme de crime, por exemplo, precisa deixar claro esse apelo, o que não é o caso de um título como “Dupla Indenização”, Double Indemnity, o clássico escrito por Raymond Chandler e dirigido por Billy Wilder. No Brasil o filme se chamou “Pacto de Sangue”, que reproduz com fidelidade o elemento básico do enredo e tem o melodrama necessário ao gênero.

Em outros casos, isso se perde. Um grande filme-de-assalto é O Segredo das Jóias, dirigido por John Huston, mas eu preferiria muito mais que ele se chamasse A Selva do Asfalto, “The Asphalt Jungle” no original.

Filmes que no original trazem apenas um nome próprio pedem algo mais animado na tradução. Se você vê um cartaz de um ótimo thriller de Don Siegel, com Walter Matthau, sob o título de Charley Varrick talvez não fique muito entusiasmado, mas O Homem Que Burlou a Máfia certamente fez mais ingressos serem vendidos.

Deve ter sido esse raciocínio que inspirou uma famosa manobra de Expedito, o escolado distribuidor de filmes de Campina Grande, que funcionava ali perto da Feirinha de Frutas, na rua Peregrino de Carvalho. Ele levou Édipo Rei de Pasolini para exibir no sertão paraibano, e o filme naufragou na bilheteria. Expedito não contou conversa: refez os cartazes com o título Édipo, o Homem Que Matou o Rei, e o cinema num instante encheu.

Questionado, ele levava as mãos à cabeça:

– Mas eu estou mentindo, por acaso?! Ele matou o rei, minha gente, esse é o detalhe mais importante da história! 







quinta-feira, 2 de julho de 2015

3856) Títulos de filmes (3.7.2015)



Anos atrás li uma matéria de jornal sobre as distribuidoras de filmes no Brasil. Um dos assuntos conversados era a atribuição de títulos. Um funcionário dizia que eles mantinham no escritório um caderno de títulos, que eram atribuídos meio aleatoriamente sempre que surgiam filmes difíceis de traduzir.  Os títulos tinham que ter a ver com o tema do filme, e deviam ser chamativos, no estilo de Trama diabólica, Pacto de sangue, Almas em leilão, Entre dois amores, À beira do abismo, Desejo mortal, Rastros de ódio...

Quando um filme se intitula Once upon a time in the West não custa muito traduzi-lo para Era uma vez no Oeste. Mas quando um filme tem o título de Giant, talvez “Gigante” passe uma idéia errada. O que faz a distribuidora? Tira de sua cartola mágica um dos melhores títulos de todos os tempos, Assim caminha a humanidade. O Sunset Boulevard de Billy Wilder poderia ter virado “Avenida Crepúsculo”, mas resultou no ótimo Crepúsculo dos Deuses.

Nem sempre essas descobertas são consequências da pobreza do original. Um filme chamado Love is a many splendored thing bem poderia ser batizado aqui como “O amor é uma coisa muito esplendorosa”, mas não acho isto melhor do que Suplício de uma saudade, que bateu e ficou. É açucarado, mas está no clima do filme, o que não acontece com o Depois daquele beijo que apuseram a Blow Up.

Quando o original tem um título marcante, melhor mantê-lo e colocar um enfeite lusófono, como temos em Outland, Comando Titânio, Minority Report: a nova lei, Videodrome, a síndrome do vídeo. Só não se deve é pegar pesado como ocorreu com Darling, a que amou demais (Schlesinger), Persona: quando duas mulheres pecam (Bergman) ou Mouchette, a virgem possuída (Bresson).

O bom e velho Expedito, distribuidor de filmes na Paraíba, era senhor-do-baraço-e-do-cutelo no circuito interiorano. Tinha o direito conquistado de cortar cenas, mudar títulos, o escambau. Contou pra gente uma vez como resolveu o problema gerado por Édipo Rei de Pasolini. “Isso é lá título!”, reclamou. E cortou o nó górdio de maneira exemplar: Édipo, o Homem Que Matou o Rei. E dizia: “É mentira minha? Assista o filme!”.

Tiro meu chapéu para quem transformou America, America de Elia Kazan em Terra do sonho distante; Bonnie and Clyde de Arthur Penn em Uma rajada de balas; The man from Laramie de Anthony Mann em Um certo capitão Lockhart, Pierrot Le Fou de Godard em O demônio das onze horas; The big country de William Wyler em Da terra nascem os homens; Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha em Le dieu noir et le diable blond.







segunda-feira, 20 de abril de 2015

3793) Uns títulos (21.4.2015)



Ouvi falar de um cara cujo romance lhe veio à mente de vez, praticamente pronto, e ele passou a limpo o texto durante alguns dias insones. Como tinha que dar um nome ao arquivo onde estava salvando o texto, e ainda não tinha uma boa idéia, olhou de lado, viu um chiclete sobre a mesa, batizou o arquivo como “Trident”, e salvou. Daí em diante ficou usando esse nome, coisa e tal, e aquilo foi se integrando de tal maneira à obra que na hora depois da revisão final, hora de mandar para a editora, ele chegou à conclusão de que seu drama existencialista sobre a vulnerabilidade do Eu na sociedade pós-moderna iria mesmo se intitular Trident, não porque isto tivesse alguma relação com a narrativa, mas porque ele não conseguia mais pensar no livro com outro título senão aquele.

Damon Knight afirmou certa vez, comentando uns contos de Avram Davidson: “Uma das minhas muitas teorias a respeito de contos é que tanto os seus títulos quanto as suas primeiras linhas devem ser memoráveis, porque se não forem memoráveis eles não serão lembrados, e se não forem lembrados os contos não serão reeditados (porque ninguém vai conseguir encontrá-los).”  Knight considera que um dos títulos mais memoráveis das histórias de Davidson é “Meu Namorado Chama-se Jello” (“My Boy Friend’s Name is Jello”). Ele diz que, mesmo tendo lido a história várias vezes, não consegue mais lembrar o que ela conta. Mas o título grudou.

Davidson é autor de um conto ganhador do Prêmio Hugo sob o título de “Or All the Seas with Oysters” (“Ou Todos os Mares com Ostras”). É uma alusão a Conan Doyle, do conto “O detetive agonizante”, em que Sherlock Holmes, doente, delira diante do Dr. Watson e especula sobre os oceanos e a quantidade de ostras que há dentro deles: “Francamente, não consigo compreender por que todo o leito do oceano não é uma única massa compacta de ostras, tão prolíferas me parecem essas criaturas”.  O título de Davidson, aliás, tem pouco a ver com o conteúdo do conto, mas é dos mais inesquecíveis que existem.

Eu tenho uma inveja inofensiva e sincera dos caras que deram a suas histórias ou seus livros títulos como “Sagarana”, “O Homem que Era Quinta-feira”, “Mas Não se Mata Cavalo?”, “O Ganido dos Cães Chicoteados”, “O Carteiro Sempre Toca Duas Vezes”, “Estrelas em Meu Bolso Como Grãos de Areia”, “Cinquenta Anos Falando Sozinho”, “Um Faca Só Lâmina”, “O Acrobata Pede Desculpas e Cai”, “Porque Eu Toquei no Céu”, “O Amor nos Tempos do Cólera”, “Neuromancer”, “Todos os Fogos o Fogo”, “PanAmérica”, “Será que Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?”, “Claro Enigma”, “O Desastronauta”, “Os Frutos Dourados do Sol”, “Dormindo nas Chamas”.







domingo, 30 de março de 2014

3460) Escolhendo títulos (30.3.2014)



Ainda sobre a questão do título de um livro (ou de uma obra de outra natureza, mas que comporte um título): sua escolha deveria ser objeto das mesmas discussões madrugada adentro que os casais geralmente fazem para escolher o nome de um bebê.  Com um fator de dificultação a mais, porque o nome do bebê basta ser interessante e agradável, não tem a obrigação de condensar a essência do bebê (que nem existência tem ainda, coitado, quanto mais isso), ao passo que título de livro precisa ser tão elucidativo quanto um nome próprio, tão personalizado quanto uma impressão digital e tão expressivo quanto um rosto.

No blog de Marcelino Freire “Ossos do Ofídio” (http://bit.ly/N2DOm8) li uma divertida discussão de Clarice Lispector com dois colegas. Ela queria intitular um livro seu A veia no pulso. Fernando Sabino foi contra, porque achou que o título sugeria Aveia no pulso. João Cabral disse que o título era ótimo, que não se tratava de um cacófato, e que as veias e o pulso são coisas que a mente associa uma à outra sem muito esforço, de modo que só um idiota entenderia errado. Aliás, o livro acabou se chamando A Maçã no Escuro – muito melhor, pelo meu gosto.

O jovem romancista perseguia o escritor veterano e enchia-lhe o saco pedindo sugestão de título para um romance. Um dia o cara se encheu e disse: Me diga uma coisa. Aparece algum tambor no seu livro? O rapaz: Não, não aparece.  Ele: Bom. Tem alguma corneta? O rapaz: Claro que não!  Ele:  Então está aí seu título: Sem Tambor nem Corneta!

Esse tipo de definição por exclusão lembra o conselho de Mark Twain de que sempre que se fosse criar uma biblioteca a primeira coisa a fazer seria não comprar os livros de Jane Austen. “Mesmo que nenhuma outra obra venha a ser comprada,” dizia Twain, “só pelo fato de não ter nenhum livro dessa senhora já será uma excelente biblioteca”.

Que ave misteriosa e insondável, a Coruja da Desinspiração, habitava o campanário mental de Machado de Assis, quando ele, a certa altura, anunciou que seu próximo romance seria intitulado Último?  (Não foi: é o atual Esaú e Jacó).  Ver que mesmo um indivíduo capaz de alguns títulos primorosos, como é o caso de Machado, considera usar um título tão torto e instável como Último, mostra que nenhuma fórmula esgota as possibilidades da resposta lá fora, de centenas, de milhares de pessoas diferentes. Você está acostumado a ler Os Pardaillans, ou Anos de Tormenta ou A Mansão Misteriosa, aí de repente ergue um livro no balcão da livraria e lê: Um Pouco Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo, você se pergunta que palavrão é aquele. Aí compra – porque o título inquietou. 


domingo, 16 de março de 2014

3448) Uns títulos (16.3.2014)



Quando Raymond Chandler lançou o romance The Little Sister em 1946 um amigo questionou alguma coisa a respeito do título, e ele respondeu, por carta: “Meu título pode não ser muito bom. É somente o melhor a que eu pude chegar sem forçar muito. Minhas idéias a respeito de títulos são meio peculiares.  Eles nunca devem ser provocativos de maneira óbvia, nem falar de assassinato. Devem ser bastante indiretos e neutros, mas o formato das palavras deve ser pouco usual. Não consegui isso, neste caso.  No entanto, como já disse um grande dono de editora, título bom é o título de um livro de sucesso.  Assim de improviso ninguém seria capaz de dizer que The Thin Man (O Homem Magro, de Dashiell Hammett) é um grande título.  O Falcão Maltês é, sim, porque tem rima e tem ritmo, e obriga a mente a fazer perguntas”.

Veja-se como ele se preocupa com a busca de uma certa sonoridade, refletida nessa rima interna “al-al” (“Maltese falcon”) no livro de Hammett.  O que Chandler não comenta, e até hoje nunca o vi tocar nesse assunto, é a curiosa simetria de alguns dos seus títulos, os que eu chamo “das dimensões”: The Big Sleep, The High Window, The Little Sister, The Long Goodbye.  Grande, alto, pequeno, longo. Ele usou isto quase com certo abandono, mas deixou claro que não era uma fórmula obrigatória, encaixando Farewell, my Lovely, The Lady in the Lake e Playback

Fórmula fixa mas rica em combinações: resquício da pulp fiction.  Os romances de Perry Mason, que ele tanto elogiava, tinham fórmula fixa: O Caso do X...... X...... (palavras com a mesma inicial).  Ellery Queen tinha sua famosa série de romances “nacionais”: O Mistério do Ataúde Grego, do Sapato Holandês, do Chapéu Romano, da Cruz Egípcia....  Cornell Woolrich tem dez ou doze livros com a palavra “dark” ou “black” no título. A fórmula testada quatro vezes por Chandler é mais sutil.  Ela se assemelha à da série de romances de John MacDonald em que cada título sugere uma cor.

The Lady in the Lake é um livro quase todo fora de Los Angeles, mas L. A. está toda no título.  É interessante que quando ele começou a escrever The Long Goodbye queria usar o título Verão em Idle Valley.  Parece um título de matéria-paga em revista náutica, mas Chandler provavelmente queria usar esse ambiente para contrastar com uma história sórdida e cruel.  Já o título de um dos seus contos, “No Crime in the Mountains” (“Nada de crime nas montanhas”), tem ritmo, quase rima, e soa parecido com uma multidão de outros, além de fazer a cabeça pensar: sim, mas se não houve crime, então o que é que há?  A tradução tenta manter a cadência interna típica do verso. Só que trocando as cinco sílabas do original por oito nossas.


sábado, 1 de junho de 2013

3201) Títulos traduzidos (1.6.2013)





Anos atrás li uma entrevista com o funcionário de uma distribuidora de filmes, tipo Columbia ou Franco-Brasileira, argumentando sobre as escolhas de títulos brasileiros para os filmes que vêm de fora. Todo mundo se queixa da nossa infidelidade aos títulos nacionais, sempre achando que além da infidelidade há uma perda de qualidade. O tal funcionário defendia-se da melhor forma possível. Dizia ele que, título por título, ninguém sairia de casa para ver um filme chamado A linha fina, mas veria com interesse Uma vida em suspense (é o filme em que Anne Bancroft toma comprimidos para se matar e Sidney Poitier, no serviço de suporte psicológico, a mantém acordada ao telefone, enquanto a ambulância chega. A linha fina, The Slender Thread, é o fio do telefone). O objetivo do título não é descrever ou sintetizar o filme, é atrair o espectador.

E o título tem uma poesia própria. Tiro meu chapéu para quem inventou, para filmes estrangeiros, expressões em português que se incorporaram a nossa linguagem, como Assim Caminha a Humanidade (Giant), Um Corpo que Cai (Vertigo), O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), Suplício de uma Saudade (Love is a Many Splendored Thing), Os Brutos Também Amam (Shane), etc. Alguns títulos parecem meio ridículos até fazerem sucesso, como A Noviça Rebelde, e o fato é que um musical chamado O Som da Música não pareceria algo muito promissor. O mesmo vale para outro filme de Robert Wise, Amor Sublime Amor, porque História do Lado Oeste pareceria um documentário do canal NatGeo. Já o recorde de fidelidade, claro, é Down By Law de Jim Jarmusch, que em português virou Daunbailó.

Um título, dizem os funcionários de distribuidoras, tem que ser chamativo, e o que é chamativo numa cultura ou num idioma pode não ser no outro. Nas redações de jornal, geralmente é o editor, não o redator da matéria, quem dá o título. O redator pode até sugerir e a sugestão ser aceita; mas a decisão do título é tomada um nível acima. Por que? Porque é uma decisão estratégica, exige a visão do conjunto. O título (a manchete) tem que se adequar à matéria mas também à página onde a matéria vai aparecer. Na mesma página não pode haver dois títulos semelhantes. O título é uma isca e um anzol juntos. É ele quem determina se a matéria vai ser começada-a-ler; depois do primeiro parágrafo o texto tem que se defender sozinho. No caso do filme, é mais confortável. O título influencia a ida à bilheteria e a compra do ingresso. Depois disso... Nunca vi ninguém se levantar no meio da sessão e sair protestando: “Mas essa história não corresponde ao título do filme!”.


sexta-feira, 4 de maio de 2012

2861) Um título muito melhor (4.5.2012)


Quando eu tinha vinte e poucos anos e era (ou pensava que era) crítico de cinema, pensava de vez em quando que algumas das melhores críticas de filmes que eu já tinha lido eram as sátiras da revista Mad, aquelas arrasadoras matérias de abertura da revista onde, em seis ou oito páginas, eram expostas à luz do sol as incoerências, os clichês, as imitações, as limitações e as banalidades do roteiro, do elenco e da direção.  Claro que uma sátira da Mad não podia atingir a profundidade e a amplitude de uma crítica propriamente dita.  Mas em matéria de ir com o dedo à ferida e de mostrar a nudez do rei, não tinha similar.

O saite Better Book Titles (http://betterbooktitles.com/) faz algo parecido, só que numa cápsula minimalista.  Ele propõe um título diferente (e devastador) para um livro conhecido, muitas vezes denunciando de cara o principal defeito do livro, o clichê que lhe deu origem.  Ou (no caso de grandes livros, não merecedores disso) pelo menos uma alfinetada bem dada, que em nada compromete o livro mas lhe dá um novo ângulo; ou um comentário que faz rir quem conhece a história.

É interessante ver O Colecionador, o grande romance de estréia de John Fowles, ser rebatizado como Se Você Ama Alguém, Sequestre-a e Deixe-a Morrer de Pneumonia.  Ou ver o grande Onde os Fracos Não Têm Vez de Cormac MacCarthy ser chamado de O Dinheiro Arrasa com Tudo à Minha Volta.  O clássico Arco-Íris da Gravidade de Thomas Pynchon passa a ser chamado, apropriadamente, Foguetes Me Dão Tesão. O maciço e violento 2666 de Roberto Bolaño mantém o nome, mas ganha um subtítulo explicativo: Contagem dos Cadáveres Menos a Contagem das Páginas.

O saite não se limita a sugerir novo título. Num trabalho gráfico bem criativo, produz uma nova capa para o livro, muitas vezes incluindo-o em coleções famosas, numa releitura que chega às vezes a dar a impressão de um livro que existe mesmo.  Como na edição da Modern Classic para Eu Odeio Ratos Mais do que Amo Minha Namorada de George Orwell, ou a edição Penguin Classics do conhecido romance de Edmond Rostand Sabe o que Dizem Sobre Caras com Narizes Grandes: Eles Estão Apaixonados em Segredo pela Mulher que Você Ama

Não dá pra não achar graça em Virgem aos 107 Anos de Stephanie Meyer, ou na autobiografia de Keith Richards sendo reintitulada Guia de Sobrevivência para Zumbis. Ou num livro qualquer de Danielle Steel, com seu indefectível design de letras prateadas em relevo e o título Só Leio Livros Parecidos Com Este.  É a arte da crítica literária, não através da análise, mas do epigrama ferino e da alusão venenosa, enriquecidos pela criatividade gráfica.


sexta-feira, 2 de março de 2012

2807) O isto e o aquilo (2.3.2012)




Gilbert Adair tem um pequeno e divertido texto (em seu livro de ensaios The Postmodernist always rings twice, 1992) sobre a presença ou não do artigo “the” em títulos de livros. Diz ele que estava lendo Orgulho e Preconceito de Jane Austen e um amigo brincou: “Puxa, isso deve ser um best-seller erótico sobre um fazendeiro de algodão que se apaixona por uma escrava mulata no Sul, antes da Guerra da Secessão”. E ele disse: “Não, porque se fosse isso o livro se chamaria ‘O Orgulho e o Preconceito’”. Adair parte disso para enumerar uma porção de filmes famosos que usam e banalizam essa fórmula, muitas vezes forçando uma antítese por aliteração: The High and the Mighty, The Bad and the Beautiful, The Proud and the Profane, The Pride and the Passion. Adair comenta a certa altura que a presença do “the” nesse tipo de título exprime “uma espécie de ideal pseudo-Platônico em sua pretensão, o qual no entanto é rebaixado e trivializado pela expressão”.

O nome Orgulho e Preconceito sugere que se trata de um romance sobre casos específicos, exemplos humanos dessas duas situações mentais; O Orgulho e o Preconceito, no entanto, é algo mais pomposo, mais armado em definição definitiva, como se o autor, num tom meio professoral, estivesse nos exibindo uma explicação que esgota o assunto. Se lemos um livro chamado Crime e Castigo, estamos acompanhando uma história humana, e qualquer sentido metafísico dessa história irá emergir lentamente ao longo da leitura, com suas camadas sucessivas de implicações morais e culturais; mas se o nome fosse O Crime e o Castigo, seria como se o autor estivesse nos oferecendo logo de cara dois verbetes do Dicionário Metafísico.

Será sempre assim? Não. Quando falamos de coisas demasiado concretas o artigo é inevitável; o livro de Hemingway não poderia ser intitulado Velho e Mar. Um exemplo interessante é o grande livro de estréia de Norman Mailer sobre a II Guerra Mundial, The Naked and the Dead. São dois adjetivos, ao invés de dois substantivos; e adjetivos que exprimem uma idéia de apequenamento e derrota. Neste caso, o uso do artigo amplia estes sintomas de irrisão e lhes dá uma redenção simbólica, uma dimensão grandiosa. Chamar o romance Nus e Mortos equivaleria a deixar os cadáveres dos soldados ali mesmo onde morreram, jogados na trincheira alagada onde apodrecem; chamá-lo Os Nus e os Mortos equivale a extrair desses corpos um espírito, um sentido coletivo e redentor, e projetá-lo no ar diante da multidão de milhões de leitores. Por esta mesma lógica, Dostoiévski poderia ter, sem grande perda, intitulado seu livro Os Humilhados e os Ofendidos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

1778) Os títulos mais estranhos (20.11.2008)




Entre as coisas inúteis que coleciono estão os livros com títulos excêntricos. Alguns são excêntricos porque são criativos, e pertencem a obras literárias notáveis. 

Exemplos que me ocorrem ao acaso são O acrobata pede desculpas e cai de Fausto Wolff, Que pequena bicicleta de guidom cromado no fundo do corredor? de Georges Perec ou Será que os andróides sonham com carneiros elétricos? de Philip K. Dick. 

Mas alguns são excêntricos porque seus próprios autores são fora-de-esquadro.

Vai daí que algum tempo atrás descobri a existência de um prêmio, o “Diagram Prize for Oddest Book Title of the Year”. O prêmio existe há 30 anos, e para celebrar a data foi publicada uma antologia de concorrentes e vencedores, sob o título (extraído de um dos premiados) de Como Evitar Grandes Navios

O livro reproduz em fac-símile as capas dos concorrentes. Quem quiser saber mais dê um pulo aqui:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Diagram_Prize_for_Oddest_Title_of_the_Year

Como diz o organizador, Philip Stone, “existe um alegre fascínio na fascinação do próprio público por algo que seja único e excêntrico”. Horace Bent, o curador do prêmio, recorda com carinho o primeiro livro a ser premiado: Atas da Segunda Oficina Internacional sobre Ratos Nus

Muitos títulos malucos acontecem porque seus autores (às vezes de mentalidade excessivamente técnica) estão tão concentrados no próprio livro que esquecem o mundo em volta. Não se apercebem das nuances ou dos duplos sentidos que eles venham a apresentar. É o caso de Estruturas Rígidas de Alto Desempenho (vencedor em 2000).

Títulos malucos podem corresponder a assuntos fora do comum, a mau gosto, a irrelevâncias, a expressão defeituosa. 

Na edição mais recente do prêmio, três concorrentes se afunilaram na reta de chegada: Problemas de Queijo Resolvidos e Eu fui Torturado por uma Rainha do Amor Pigméia acabaram sendo derrotados por Se Você Quer Encerrar Sua Relação, Comece Fechando Suas Pernas

O histórico dos últimos trinta anos nos presenteia algumas jóias como:

A Alegria das Galinhas 

A Madame como Empresária: Administração de Carreira em Casas de Prostituição 

O Livro da Marmelada: seus Antecedentes, sua História e seu Papel no Mundo de Hoje

Assuntos médicos ou psicológicos geram coisas surpreendentes como Manual de Segurança para o Sadomasoquismo Lésbico ou Sadismo Oral e a Personalidade Vegetariana. Ao passo que a auto-ajuda se expande rumo a novos horizontes em: 

A Arte de Rolar no Sentido do Comprimento 

Aumento Natural do Busto: Como Aumentar os Outros 90% de sua Mente para Aumentar o Tamanho dos Seus Seios 

Pessoas Que Não Sabem Que Estão Mortas: Como Elas se Agarram a Transeuntes Desprevenidos, e o que Fazer a Respeito Delas 

Como Defecar no Mato: Abordagem Ambientalista de uma Arte em Extinção

Enfim, amigos – mesmo depois de terminado o livro, as possibilidades, como sempre, são infinitas.