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sábado, 30 de dezembro de 2023

5017) Resoluções para 2024 (30.12.2023)



(Saul Steinberg, 1949)


Tirar a poeira que provavelmente se acumulou por trás dos livros nas prateleiras da estante. (Ou pagar alguém para fazê-lo, o que está mais próximo ao reino das possibilidades.) 
 
Fazer uma consulta no oculista; trocar as lentes dos meus óculos, mais arranhadas do que o escudo de Sir Lancelote; e, talvez, parar de ler os livros como se lesse em Braille com a ponta do nariz. (Bem, devo estar exagerando, mas a miopia está tão avançada que a olho nu não distingo entre enxergar e exagerar.) 
 
Entregar aquele texto atrasado, mas não esquecido. (Desculpa aí, amigos, mas o que nasce de parto natural tem seu ritmo próprio, e ainda não se inventou a cesariana literária.) 
 
Dar uma nova chance a pelo menos um terço dos livros que no ano passado não passaram no Teste do Primeiro Capítulo. (Sim, sei que o critério é brutal, mas trata-se de uma pilha com cerca de quarenta ou cinquenta obras, e nestas horas não sou mais o intelectual diletante e complacente, sou segurança-de-boate com dentes de titânio e tatuagem de Chuck Norris no bíceps, e só tem acesso quem fizer por onde.) 
 
Responder todas as mensagens ainda não respondidas, assim que for capaz de decidir se devo fazê-lo por ordem cronológica, por ordem alfabética, ou por ordem de importância. (E, neste último caso, retomar os originais dos meus Prolegômenos a uma Taxonomia Hierárquica das Motivações Subjetivas dos Meus Assim-Ditos Semelhantes, interrompida na página 638 no início da pandemia.) 
 
Investigar mais a fundo o dúbio acidente de automóvel que vitimou o escritor Albert Camus, nos primeiros dias de janeiro de 1960, e que muitos dizem ter sido um crime premeditado. (Paul Auster é um dos que defendem essa tese polêmica.) 
 
Pesquisar com detalhes o meu projeto antigo de criar na Paraíba uma reprodução do “Caminho de São Tiago de Compostela”, começando em João Pessoa (Ponta do Seixas) e indo até Cajazeiras, a última grande cidade paraibana, num trajeto feito a pé. (Calcular número de quilômetros por dia, possíveis paradas, albergues, etc.) 
 
Escrever um livro de contos intitulado “Praça de Alimentação”, com pequenas cenas, diálogos, etc., ambientados nas respectivas praças de alimentação de dez shoppings de cidades brasileiras, com detalhamento de descrição suficiente para serem identificados, mas sem dizer quem é quem. (O livro será um best-seller absoluto, porque irá impactar lucrativamente na frequência a esses recintos, e receberá um impulso comercial extra sempre que uma das praças for identificada sem sombra de dúvida.) 
 
Escrever uma biografia de B. Traven. (Já que ninguém sabe quem foi ele ao certo, embora sua obra literária seja famosa, qualquer biografia tá valendo.) 
 
Desencaixotar aquela parte da mudança de 2019 na qual ainda não tive ânimo para mexer. (Principalmente porque muitos livros sumiram na mudança, quem me garante que não estarão ali? Questão de lógica elementar!...) 
 
Redigir o piloto daquela série de TV que será um grande sucesso, “Dennis vs. Sheldon”, em que o Pimentinha dos gibis encontra o Young Sheldon, o futuro protagonista da série The Big Bang Theory. (Verossimilhança cronológica à parte, claro, porque esse detalhamento diegético fica para esse pessoal pentelhante e catador-de-lêndeas, os sheldonianos da vida real.) 
 
Separar as camisas em que é preciso pregar botão. (E mais uma vez me verei diante do dilema: aprender a costurar aquela cruzinha que sustenta o botão, ou continuar terceirizando? Fortes emoções nos próximos capítulos.) 
 
Aprender a fazer mágicas. (Sim, muitas pessoas transbordantes de solidariedade dirão que eu “já faço mágica com as palavras, etc etc...”, mas meu sonho é fazer mágica com baralho, lenço, pombo, jarro dágua, etc.) 
 
Passear nas três linhas do VLT do Rio, que praticamente não conheço ainda. (Eu não moro no Rio de Janeiro, moro no meu apartamento.) 
 
Baixar aquele software que atribui uma nota musical a cada tecla deste meu teclado de escrita, e registrar a melodia-aleatória correspondente a meus poemas mais conhecidos. (Ainda estou em dúvida se solto as melodias no YouTube e ofereço um prêmio a quem descobrir, mas isso vai bagunçar minha rotina, melhor não.) 
 
Traduzir o Eugene Onegin de Pushkin sob o título de Eugene, Oregon, mantendo o formato de “soneto pushkiniano”, e ambientar a história no noroeste dos EUA, uma história tipo aquele Paterson de Jim Jarmusch. (Pode parecer uma violentação à arte do poeta russo, mas muito pior do que isto foi o que fez Vladimir Nabokov!) 
 
Todos os dias trancar a porta do escritório, pegar o violão, e improvisar sextilhas sobre temas aleatórios durante 30 minutos. (Só começar a gravar a partir do quinto mês.) 
 
Ganhar bem muito dinheiro, comprar as casas onde já morei em Campina Grande, e cedê-las às autoridades para que sejam transformadas em bibliotecas públicas. (Para ser totalmente realista, a parte mais provável desta proposição é o seu trecho inicial.) 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 








terça-feira, 29 de dezembro de 2020

4658) Resoluções de Ano Novo (29.12.2020)



Parar de beber todo copo de veneno que botam na minha frente.
 
Produzir protótipos dos “filtros protetores nasais” que imaginei anos atrás, num conto de FC, sem nem sequer imaginar pandemias ou coronas.
 
Livrar-me do hábito irritante de olhar o céu estrelado e imaginar que aquilo é um vitral colorido que pode ser estilhaçado por um meteorito qualquer.
 
Desistir de buscar a saída do labirinto, e me conformar com o fato de que já o sei de cor.
 
Fazer aquele curso de mordomo, por via das dúvidas.
 
Publicar um poema apaixonado com o título “Para _____”, e produzir uma planilha com os feedbacks.
 
Por via das dúvidas, deixar de me apresentar com “Agnóstico” e passar para “Quase Agnóstico”.
 
Decidir se devo apoiar os que lutam pela segurança que sempre tiveram, ou os que lutam pela liberdade que nunca experimentaram.
 
Dar uma geral na casa, juntar todas as tampas sem canetas e todas as canetas sem tampas.
 
Achar a sacola de livros que se perdeu na mudança de junho de 2019 com minhas antologias de Judith Merrill.
 
Separar as roupas que uso há 20 anos e doar ao brechó as que não uso há 20 anos.
 
Comprar um livro em mandarim e tentar lê-lo depois que tomar a vacina.
 
Arranjar um amigo imaginário, desde que esteja também confinado, num lugar distante.
 
Comprar um chapéu. Preciso impor respeito.
 
Voltar a treinar meu ping-pong da mão direita contra a mão esquerda.
 
Trocar meus óculos-para-longe, agora inúteis, por óculos-para-perto.
 
Arranjar um tigre de dentes de sabre para levar comigo quando for toda noite à padaria.
 
Quebrar minha promessa e revelar publicamente o que descobri sobre o destino da Expedição Fawcett.
 
Aprender a cozinhar, mesmo que somente eu aceite degustar os resultados.
 
Passar uma semana na Venezuela e preparar uma tabela Excel comparativa. Repetir daqui a um ano.
 
Escrever uma autobiografia imaginária, só com as coisas que não aconteceram.
 
Ganhar o meu primeiro milhão de dólares (segundo dizem, é o mais difícil de todos).
 
Descongelar aquela coisa de tonalidade violácea que está no freezer desde o ano passado e verificar do que se trata.
 
Comprar uma Bíblia em inglês para aquela pesquisa sobre os glossários de Bob Dylan e de Leonard Cohen.
 
Escrever um cordel sobre o Ninho do Urubu.
 
Trocar as cordas do violão e tentar gravar minhas músicas inéditas enquanto é tempo.
 
Continuar pagando velhas dívidas e contraindo novas dívidas, como um coração que bate.
 
Tentar lembrar o que foi mesmo aquela minha façanha da infância de que eu me orgulhava tanto.
 
Tatuar na barriga uma grade de palavras-cruzadas em branco.
 
Fazer uma “live” cantando e recitando, sem avisar a ninguém.
 
Evitar cometer tantos erros de concordância. Manter os de discordância.