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sábado, 27 de julho de 2024

5086) A verdade dos fatos e a verdade dos sentimentos (27.7.2024)





Ted Chiang, autor de tantos textos brilhantes de ficção científica, tem no livro Expiração (Intrínseca, 2021, trad. BT) o conto “A verdade dos fatos, a verdade dos sentimentos”, em que ele descreve dois mundos paralelos e suas peculiares relações com a memória. 

 

O primeiro é um futuro próximo em que as pessoas dispõem de super-aplicativos de memorização, implantados na mente. 

 

No segundo, narra-se o choque da chegada dos brancos europeus a uma tribo indígena, com seus conceitos revolucionários, entre eles o de que uma coisa só é verdadeira se for reproduzida sempre do mesmo modo.  

 

No que podemos chamar “Narrativa A”, a história futurista, foi inventado um sistema chamado “Remem”, que permite gravar e indexar memórias de tudo que uma pessoa vivencia. Chamam a isso “bio-logs” – uma espécie de diário áudio-visual com ações, conversas, cenas que a pessoa presenciou ou de que participou. Como se cada cérebro tivesse uma câmara-com-gravador permanentemente ligada. 

 

São aquelas engenhocas maravilhosas da FC. Já pensou?!  Poder gravar tudo, acessar tudo, consultar tudo?! 

 

Milhões de pessoas, algumas da minha idade, mas em geral mais jovens do que eu, vêm mantendo bio-logs, diários biográficos de suas vidas, há anos e anos, usando câmeras pessoais que capturam continuamente vídeos de seu dia a dia. As pessoas consultam esses diários por uma grande variedade de motivos, desde o desejo de reviver seus momentos favoritos até descobrir a causa de alguma reação alérgica. (...) 

 

O Remem monitora as conversas buscando referências a eventos passados, e exibe vídeos desses eventos no canto inferior esquerdo do seu campo visual. Se você diz a alguém “lembra-se daquele casamento em que você dançou a conga?”, Remem exibe o vídeo. Se a pessoa com quem você está conversando menciona “a última vez em que fomos juntos à praia”, o Remem exibe o vídeo. E ele não funciona apenas quando se está conversando com alguém: o Remem também monitora as suas subvocalizações. Se você lê as palavras “o primeiro restaurante chinês onde você jantou”, suas cordas vocais se movem como se você estivesse lendo em voz alta, e o Remem exibe o respectivo vídeo. (pág. 222-223)

               

Parece uma beleza, inclusive porque nos permite esclarecer dúvidas, disputas, esquecimentos... O narrador, porém, percebe logo que em termos de convivência, isso pode estragar a vida. 

 

Casais, por exemplo. A todo instante ficam recorrendo aos bio-logs para determinar quem tem razão numa briga. E o narrador expõe todo o sofrimento que tem na sua relação com a filha adulta, por causa de “quem disse o quê, e como, e quando”. 

 

E ele se pergunta:

 

Era este o limite onde a busca da verdade deixava de ser uma virtude intrínseca. Quando as únicas pessoas afetadas mantêm uma relação pessoal uma com a outra, há prioridades mais importantes, e essa busca detetivesca pela verdade pode se tornar perigosa. É mesmo importante saber de quem foi a idéia daquelas férias que se revelaram desastrosas? É mesmo necessário saber, num casal, qual dos dois é mais relapso em cumprir tarefas? Eu não era um especialista em casamento, mas sabia o que os conselheiros matrimoniais geralmente dizem: apontar culpas não é a resposta. Em vez disto, as duas pessoas precisam ter em mente os sentimentos uma da outra, e encarar em conjunto os seus problemas. (pág. 229) 

 

A outra narrativa, a Narrativa B, é ambientada num vilarejo da Tivlândia (uma região da Nigéria), que recebe as primeiras investidas dos missionários europeus. Os personagens principais são o garoto Jijingi, de treze anos, o ancião Sabe, chefe tribal, e o missionário Moseby. Este último surge aos olhos dos nativos como um personagem meio cômico, por ser desajeitado, pouco atlético; mas aos poucos vai revelando recursos que fascinam Jijingi, principalmente o uso dos livros e dos papéis escritos.

 

O garoto entende a função daquilo e tempo depois está aprendendo a ler e escrever.

 

Foi somente muitas aulas depois que Jijingi finalmente entendeu onde devia deixar os espaços vazios, e o que Moseby queria dizer quando falava em “palavra”. Não se pode saber, ouvindo, onde uma palavra começa e onde acaba. Os sons que uma pessoa faz quando fala são contínuos e sem separações, como o couro da perna de um bode; mas as palavras eram como os ossos por dentro da carne, e o espaço entre elas eram as juntas onde é preciso cortar quando se quer separá-las em pedaços. Deixando espaços ao escrever, Moseby estava tornando visíveis os ossos daquilo que falava. (pág. 233)




Ted Chiang pratica a famosa “prosa vidraça” elogiada por Isaac Asimov, a prosa transparente, com pouco enfeite, cristalina, precisa. E isso é necessário porque ele é um dos autores cujo pensamento tem ao mesmo tempo ousadia e clareza.

 

Como se viu na sua coletânea anterior História de Sua Vida e Outros Contos (Ed. Intrínseca, 2016, trad. Edmundo Barreiros), cada história parte de uma inesperada premissa fantástica, exaustivamente pensada e cuidadosamente desenvolvida. Ele é um escritor de FC hard, não porque carregue nas informações tecnológicas, mas porque obedece com mestria ao método científico.

 

Enquanto isto, os personagens da Narrativa A estão às voltas com o excesso de lembranças que o software Remem descarrega em suas relações pessoais. 

 

Todo tipo de relação se baseia na capacidade de esquecer e perdoar. Minha filha Nicole sempre teve uma personalidade forte: rebelde quando criança, abertamente desafiadora depois que cresceu. Ela e eu tivemos discussões furiosas durante sua adolescência, discussões que depois fomos capazes de deixar para trás, e agora temos uma relação bastante boa. Se tivéssemos o Remem, ainda estaríamos nos falando? (pág. 236) 

 

E na Narrativa B, o jovem africano Jijingi começa a ter pequenas decepções com a arte da palavra escrita, que já domina, quando vê a transcrição datilografada de uma das histórias tradicionais da tribo, contada por Kokwa, o melhor narrador do vilarejo.

 

A versão escrita da história produziu-lhe uma decepção que ele não esperava. Jijingi lembrava muito bem que quando começou a entender o que era a escrita, imaginara que ela lhe proporcionaria a visão de uma história sendo contada, tão vividamente como se estivesse ali. Mas a escrita não era assim. Quando Kokwa contava a história, ele não usava somente as palavras: usava o som de sua voz, os movimentos das mãos, a luz que brilhava em seus olhos. Ele contava a história com o corpo inteiro, e as pessoas a absorviam da mesma maneira. Nada daquilo era transportado para o papel: ali só era possível registrar palavras. E ler somente as palavras produzia apenas uma sombra da experiência de ouvir Kokwa em pessoa, como se alguém estivesse lambendo uma panela onde foi cozinhada a okra, ao invés de comer a okra propriamente dita. (pág. 239)

 

O conto prossegue até o fim fazendo esse paralelo entre duas histórias de ambientação muito diversa, mas com um só tema: Quais as modificações trazidas por novas tecnologias de preservação da memória (a palavra escrita, o software “Remem”)?  




Chiang mostra como a memória constrói ao mesmo tempo a percepção do Eu e a percepção do mundo; e a memória não é fixa nem imutável, pelo contrário – são inúmeros os casos em que a reinterpretação de um fato passado produz uma reviravolta completa em nossas atitudes do presente. 

 

E afinal, o que é a verdade?  A lembrança dos fatos que registramos, ou a lembrança das emoções que sentimos? 

 

A certa altura, o vilarejo africano se envolve numa disputa étnica. Surge uma dúvida sobre o clã a que eles pertencem, pois apareceram versões conflitantes sobre fatos de muitos anos atrás. Jijingi e o missionário discutem, cada um sem entender direito os conceitos do outro.

 

– Mas se Umem e Anongo prestassem juramento também, isso garantiria que eles também diriam precisamente o que aconteceu. Anongo só foi capaz de mentir porque não prestou juramento.

– Anongo não mentiu – dsse Jijingi. – Ele disse o que considerava certo, tal como Umem fez.

– Mas o que Anongo disse não era o mesmo que a testemunha disse.

– Mas isto não quer dizer que ele estivesse mentindo. – Então, Jijingi lembrou algo a respeito da língua dos europeus, e entendeu a confusão de Moseby. – Nossa língua tem duas palavras diferentes para o que na língua de vocês quer dizer “verdadeiro”. Existe o que é certo, mimi, e o que é exato, vough. Numa disputa, os envolvidos dizem o que consideram certo; eles falam mimi. As testemunhas, no entanto, juram dizer exatamente o que aconteceu; eles falam vough. Quando Sabe escuta o relato do que aconteceu ele pode decidir qual a ação que será mimi para todo mundo. Mas se os envolvidos não falam vough, isto não é considerado uma mentira, desde que eles falem mimi.

Moseby, visivelmente, desaprovava isto.

– Na terra de onde eu venho, todo mundo que depõe numa corte tem que jurar que vai falar vough, inclusive os querelantes. (pág. 250-251)

 

O que é a verdade? Nossa verdade pessoal está sempre carregada de emoção, sentimento, vontade, desejo, recusa. A memória pessoal não é objetiva nem imparcial. Lembramos as coisas do jeito que nos parece certo, principalmente no que precisa de interpretação. “Ele reagiu de forma muito agressiva.” “Ela age com indiferença.” “As pessoas aqui me tratam de maneira distante.”  “Fiz tudo que era necessário.”

 

Os psicólogos fazem uma distinção entre memória semântica – o conhecimento de fatos gerais – e memória episódica – a lembrança de experiências pessoais. Estamos usando complementos tecnológicos para a memória semântica desde a invenção da escrita: primeiro livros, depois as ferramentas de busca. Por outro lado, historicamente temos resistido ao emprego desses auxílios no que diz respeito à memória episódica; são muito poucas as pessoas que mantêm diários pessoais ou álbuns de fotos, comparadas às que possuem livros. (pág. 243)

 

E o personagem de Ted Chiang, checando memórias afetivas de infância com sua família, comenta:

 

Ao discutir o papel da verdade numa autobiografia, o crítico Roy Pascal escreveu: “De um lado existe a verdade dos fatos, e do outro a verdade dos sentimentos do autor, e a área em que as duas coincidem não pode ser indicada por antecipação por nenhuma autoridade externa”. Nossas lembranças são autobiografias privadas, e aquela tarde com a minha avó aparece com destaque na minha “autobiografia” devido aos sentimentos que estão associados a ela. E se uma filmagem me revelasse que o sorriso de minha avó era de fato um sorriso artificial, que na verdade ela estava aborrecida porque sua costura não estava saindo bem? O que é importante para mim nessa lembrança é a felicidade que está associada a ela, e eu jamais quereria colocá-la em risco. (pág. 245)



 

 

 

 



segunda-feira, 15 de abril de 2024

5052) Papai está falando sozinho (15.4.2024)

 

Era uma turma alegre, estávamos conversando na mesa de um bar, cedinho da noite. De repente, um celular sobre a mesa acendeu e vibrou. Um dos meus amigos atendeu, foi até a porta em busca de melhor sinal. Voltou apressado, jogou na mesa duas ou três notas amassadas, sem nem olhar, como fazem os americanos nos filmes. “Já vai?”, perguntei. E ele, afastando-se, por cima do ombro: “Papai caiu.”
 
Na vida dos adultos jovens surge muitas vezes esse período que pode ser chamado “a Era de Dâmocles”. (Dâmocles era aquele grego que mandava botar uma espada pendurada sobre a cabeça dos convidados.)  A espada pode cair a qualquer instante. “Papai” leva uma queda, se machuca um pouco ou nem tanto, precisa ser levado não sei onde, recebe cuidados, curativos, admoestações. E tudo volta ao normal.
 
Até o dia em que noutro bar, noutra festa, noutra reunião de trabalho, brota a mensagem seguinte: “Papai caiu de novo”.
 
É a vida, não é mesmo? Porque uma coisa é cuidar de um bruguelo ou de uma pirraia de fraldas, que bambeia e desaba por cima da quina mais próxima, abre o bué, mas com meia hora de panacéias e carinhos nem se lembra do acontecido. E outra coisa é cuidar de um latagão ou de uma matrona cuja mente tem sempre metade da idade do corpo, e quer continuar a conviver com escadas, chuveiros, prateleiras de cima.
 
Existe outro momento, contudo, também digno de atenção, e este às vezes vem antes.
 
“Papai está falando sozinho.”
 
Eu já vivi isto, muita gente por aí deve ter vivido o mesmo. Muitíssimo frequente nos aposentados e nas pessoas que trabalham em casa. A gente passa no corredor e ouve vozes no quarto de dormir. Vozes no plural? Não, apenas uma, mas dirigindo-se a um suposto interlocutor.
 
– Mas quem diabo mexeu nesse armário... eu sempre deixo essa camisa pendurada do lado esquerdo, quem foi que botou lá na outra ponta?
 
A gente bota a cabeça na porta:
 
– Tudo bem aí?...
 
– Não tem nada bem. Toda vez que eu vou na padaria alguém entra no quarto e tira minha roupa do lugar.
 
Outras vezes o passante-no-corredor arrisca uma olhada e vê o sujeito sentado na escrivaninha, rabiscando apressadamente numas folhas de papel e murmurando coisas como:
 
– Mas é claro... perdi foi meu tempo... essa porra não podia dar certo nunca desse jeito.. tu é burro, meu camarada, tu é muito burro.
 
– Papai?... Tá falando com quem?
 
– Com o imbecil que lhe botou no mundo.
 
Este caso clínico tem um lado-reverso dos mais interessantes, porque existem (em igual proporção) mulheres que falam sozinhas, mas ninguém repara – porque em geral são as mamães, as donas de casa que passam o dia entregues a tarefas domésticas, arrumando, espanando, aspirando, dobrando, limpando, lavando, cozinhando... E falando em voz alta, em altos brados, como num filme italiano.
 
Essas tarefas exigem que ela seja quase onipresente, num segundo está à beira do fogão experimentando um caldo na pontinha de uma colher-de-pau, e dois segundos depois está limpando o banheiro, cuja descarga nem terminou de jorrar e ei-la forrando a cama de casal e entucando as beiras do lençol embaixo do colchão.
 
Como ela está ao mesmo tempo em todos os lugares, está sempre falando, e quem está na sala imagina que ela fala com quem está no terraço, quem está no terraço imagina que é com alguém no corredor, e por aí vai.
 
– Eu não sei de que adianta a pessoa ter meia dúzia de pessoas dentro de casa, porque são cinco pra desarrumar e uma escrava sozinha pra botar as coisas nos cantos... Custa nada botar de volta de onde tirou? Custa, porque esticar o braço é trabalhoso, e eu tenho que vir esticar o meu. A criatura come um pão, mas cadê que ajunta o farelo e joga fora? Não, eu tenho que largar o leite derramando e vir varrer o farelo dela. O outro termina o almoço e acha que faz um grande favor botando o prato na pia, mas não tem nem energia pra derramar no lixo a metade que não comeu...
 
– Mamãe?... Tá falando com quem?...
 
– Com as minhas vizinhas, as almas do Purgatório.
 
É um sintoma generalizado nas pessoas da terceira idade, e acho que aqui chegamos a um detalhe crucial. Por que os jovens não falam sozinhos, e os velhos sim? Creio que em parte é porque os jovens têm medo de serem vistos como doidos, incapazes, ou (mais modernamente) drogados.
 
Todo jovem cultiva a obsessão e o trauma da normalidade externa. Por dentro, o rapaz quer ser Sylvester Stallone ou Ney Matogrosso, não importa: por fora ele sabe que precisa se parecer com rapaz-de-propaganda-de-banco, porque se não vai acionar gatilhos. E a mocinha sente-se no fundo uma Salomé ou uma Rosa Luxemburgo, também não importa: tudo que se exige dela é que seja normal, e depois case.
 
Velhice é outra coisa. Quando um cara entra no terço final da existência, ele percebe pela primeira vez que pode se parecer com ele mesmo. Que o mundo não dá um vintém pelas opiniões dele, e muito menos pelo comportamento. Um jovem sente-se de certo modo responsável pelo mundo. Mesmo sabendo que a tarefa é dantesca, ele respira fundo e procura estar à altura, como um pai de trigêmeos. A velhice começa depois que ele percebe que em vez de tapinhas nas costas o mundo preferiu lhe dar um pé na bunda.
 
No Nordeste existe um comparativo muito a propósito: “Fulano está mais perdido do que cachorro que caiu da mudança”. A mudança é o mundo: virou esquinas, pegou atalhos, furou semáforos, acelerou, deu banda, rompeu pela contramão... e cada sujeito de 60 anos ficou sentado zonzo na poeira, pensando:
 
 – Agora danou-se, mesmo que o pé pudesse pisar direito eu não ia alcançar mais nunca.
 
– Falando com quem, papai?...
 
A enorme sensação de desobrigamento e alívio se traduz num senso lúdico do momento, e um detalhe importante é o retorno prazeroso de um tipo especial de cisão psíquica. Em momentos assim, o sujeito é capaz de simplesmente ser, e este é o Eu no. 1; é capaz de se observar, e quem observa é um Eu no. 2; e é capaz de comentar o que observa com um interlocutor suposto, que podemos chamar de Eu no. 3, embora geralmente, para efeitos estilísticos assuma a figura dos “amigos imaginários” que a pessoa tinha na infância.
 
Sei que parece delirante, e proponho agora um argumento mais pragmático. Todo professor e professora sabe que quando os nossos pirralhinhos repetem uma lição em voz alta aprendem e memorizam melhor do que quando fazem apenas a “leitura silenciosa”. Por que? Ora, porque a memória não passa de uma rede de conexões entre os neurônios, e produzimos milhões delas por dia. A maioria se dissipa após o uso. Dissimam-se mais lentamente quando envolvem diferentes partes do corpo.
 
Quando lemos um conjunto de informações, isto envolve apenas o olho e o cérebro, e nossa memorização repousa nas conexões entre estes dois. Porém quando repetimos em voz alta precisamos usar a garganta, as cordas vocais, a língua, etc., sem falar no fato de que o ouvido também está registrando tudo. Em vez de uma ou duas redes de sinais, temos uma dúzia. É mais difícil de se dissipar.
 
Quando uma pessoa está resolvendo mentalmente um problema, ela na verdade está produzindo algun minúsculos “euzinhos”, cada qual dando uma opinião. Todos são ele, todos representam modos-de-ver dele próprio, mas precisam deliberar.
 
O cara vai viajar, está fazendo a mala. E falando sozinho.
 
– Caramba, é uma semana só, não vou precisar de tantas calças... vou com uma, e vai outra na mala. E esse casaco aqui está ocupando metade do espaço, melhor ir vestido... Mas vestido com ele, num calor desse?  Ora, tanto faz, Uber tem ar condicionado, aeroporto também, avião... Vai, vai vestido. Danado é caber esse sapato... Não, não preciso de dois pares. Vai o que vai no pé e acabou-se.
 
– Papai?... Tudo bem aí?
 
E nem vou me referir ao fato de que indivíduos que escrevem literatura, que escrevem para teatro ou cinema precisam sentir (com a boca, a língua, os lábios, as cordas vocais) como essas frases vão ser fisicamente pronunciadas. Diálogo imaginado em silêncio está sujeito a mil armadilhas. A gente só percebe que está jogando um travalíngua no colo da atriz quando pronuncia ele em voz alta, a tempo de ser corrigido.
 
“ – Saia daqui, Dr. Axel. Imediatamente. Não convoquei esta reunião para que o senhor venha se beneficiar de privilégios hierárquicos”. Privilégios hierárquicos?! Quem diabo no mundo fala desse jeito, caramba!?  “Não lhe chamei para esta reunião para que o senhor venha passar na minha cara a posição que ocupa...” Menos pior. Sei não...
 
– Falando sozinho de novo, papai?...
 
Ele vai responder, enfarruscado:
 
– Tenho é que falar sozinho mesmo, porque preciso de um interlocutor à altura.
 
Não liguem – é mera bazófia, mera jactância. Ele está, como um rádio-astrônomo, tentando fazer contato com uma forma de vida inteligente no fundo do silêncio cósmico de si mesmo. É uma inteligência, viva, confusa, brilhante, inquieta, com quem ele conversou a vida inteira, mas que agora está se afastando com as galáxias, demora cada vez mais para responder... Mas... é a vida!  Quem somos nós para reclamar da expansão do universo?
 
 


[ voz que fala na cabeça ]
 
 
 
 







segunda-feira, 9 de maio de 2022

4821) "Severance": o Eu dividido (9.5.2022)



Tempos atrás, Philip K. Dick concebeu a história de um policial do departamento de narcóticos a quem cabe vigiar a casa de um usuário de drogas. O policial vigia a casa com toda aplicação. O que ele não sabe é que ele é o próprio usuário, que sofre de dupla personalidade e na verdade está vigiando sua própria casa, sua própria turma de amigos.
 
O usuário sai de casa todo dia de manhã para o trabalho, e no trabalho passa por um processo que o obriga a ir vigiar a casa “daquele sujeito suspeito” – que é ele próprio.
 
A Scanner Darkly (1977) foi publicado no Brasil com o título “O Homem Duplo”, mesmo título da adaptação cinematográfica de 2006, dirigida por Richard Linklater em forma de animação.
 
É o grau máximo das histórias de FC sobre personalidades divididas, um subgênero ilustremente inaugurado por Robert Louis Stevenson com Strange Case of Dr. Jekyll and Mr Hyde (1886). Este livro pode ser considerado FC, pois se trata de uma transformação de personalidade provocada pelo uso de uma droga fabricada em laboratório.
 
Uma nova versão deste tema, e mais apropriada a nossa época corporativa, é a série Ruptura (“Severance”), da Apple TV, projeto dirigido pelo comediante Ben Stiller. Não há muitos momentos de humor: a série é séria. É um pesadelo corporativo comparável a O Show de Truman (1998) de Peter Weir. A fábula de como os seres humanos se transformam em bonecos para atender às conveniências das empresas que os sustentam.
 
Uma grande corporação, a Lumon, oferece aos seus empregados a opção de fazer uma “ruptura” (“severance”) em suas mentes através do implante de um chip. Com isso, cada pessoa passa a ter duas mentes, uma para sua vida pessoal, outra para as horas de trabalho. E cada uma desconhece o que se passa na vida da outra, pois as respectivas memórias não são compartilhadas.
 
Quem já trabalhou em grandes empresas vai sentir um calafrio de terror quando assistir isto. Quem trabalha nesse regime precisa de fato, na hora do trabalho, esquecer por completo quem é, como vive, o que pensa; esquecer que é contra isto ou a favor daquilo; esquecer sua própria pessoa, em troca de bons salários, segurança, plano de saúde, e bônus, muitos bônus quando as metas forem atingidas.
 
Tudo isto é acidamente ridicularizado em Severance.
 
E quando o sujeito chega em casa, no aconchego de seus móveis, seus discos, a esposa, as crianças, os amigos, a última coisa que ele deseja é pensar no trabalho. Ele não quer, aqui fora, ficar pensando: Que empresa é esta? O que ela faz?: Como se comporta? Para que serve isto que passo o dia fazendo? Qual a utilidade desse trabalho que sei fazer mas não sei o que significa?


Mark (Adam Scott) é o recém-promovido líder de uma equipe de quatro pessoas, que tem mais Irving (John Turturro), Dylan (Zach Cherry) e a novata Helly (Britt Lower). Os primeiros episódios mostram Mark ensinando a Helly como se adaptar ao choque de não lembrar “quem é”, de como executar o trabalho, etc. Com isso, é resolvido de forma simples o problema de explicar todos esses detalhes ao espectador.
 
Acompanhamos a vida de Mark dentro do trabalho (chamemos de “Mark 2”) e fora (“Mark 1”). Sabemos quem é ele, entendemos os problemas por que passa; a cidadezinha onde ele vive existe praticamente em função da Lumon, o que não impede que os jovens, principalmente, façam manifestações de rua pedindo o fim da empresa.
 
Uma das grandes vantagens da ficção científica é poder radicalizar situações da vida real. A dupla personalidade é uma patologia mental, digamos – mas na FC essa patologia mental pode se tornar uma prática médica regulamentada e acessível a quem tem muito dinheiro. E para grandes empresas, principalmente empresas que detêm segredos corporativos, seria uma-mão-na-roda essa possibilidade de isolamento mental dos funcionários.
 
Afinal, “A Primeira regra do Clube da Luta é: Você não conversa sobre o Clube da Luta”. O que acontece aqui dentro, fica aqui dentro.
 
Severance lida com essa superposição de realidades na mente dos personagens, e de certa forma as projeta no espectador – porque embora vejamos tudo de fora, e saibamos coisas que Mark não sabe, tudo aquilo é também um mistério para nós, mistério que começa a se acelerar nos capítulos finais desta primeira temporada, à medida que novas revelações vão gerando novos enigmas. 
 
A premissa não é tão fantasiosa assim – os cientistas de hoje lidam até mesmo com a possibilidade de “recortar” memórias e implantá-las num cérebro, e não é absurdo supor que possa ser criado algum “filtro” que divida o cérebro em dois sistemas paralelos de memória, assim como podemos dividir um HD em dois.
 
O que seria, aliás, apenas a concretização física de um processo que, psicologicamente, todo trabalhador se esforça para produzir em si mesmo. Não pensar na família nem no lazer, quando está trabalhando. Não pensar no trabalho, quando está em casa. Muitos de nós achariam isso um paraíso.


 





sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

4648) A Internet de Zé Limeira (4.12.2020)




(Salvador Dali, "Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha em Volta de uma Romã Um Segundo Antes de Acordar")

Podemos propor como hipótese de trabalho a idéia de que a Internet, a World Wide Web e as Redes Sociais foram criadas a fim de refinar alguns conceitos básicos do pensamento humano: o Acaso, o Significado, o Feedback, a Mediação Entre Dois Pontos Que Não Se Tocam, a Substituição Do Silogismo Causal Pelo Non-Sequitur Como Fator de Iluminação e Satori.
 
Acho que fui longe; voltemos ao ponto de partida. A mente humana (disse famosamente Philip K. Dick) anseia por significado com a mesma intensidade com que seu corpo anseia por H2O. Sem a cola do significado, a mente humana se desfaz como farofa ao vento.
 
Daí que desde muito cedo aprendemos algumas das palavras essenciais para essa junção dos pedaços soltos do mundo, das impressões sensoriais que nos assaltam desde o nascimento, ou até antes. Não devemos nunca subestimar as façanhas intelectuais das nossas crianças, que lhes permitem absorver, entender, conceituar e pôr em prática palavras como “se não”, “também”, “porém”, “nunca”, “contra”, “mais ou menos”...
 
O cérebro capaz de assimilar conceitos assim é capaz de tudo. Vamos e venhamos, mostrar uma casa e ensinar “Casa!”, mostrar um cachorro e ensinar “Cachorro!”, mostrar uma bola e ensinar “Bola!” é bolinho perto do ensino de sutilezas como “de vez em quando”.
 
À medida que o mundo se torna mais complexo, precisamos de mais palavras assim, de mais “operadores” como dizem os teóricos, palavras que não se referem a seres ou objetos, concretos ou abstratos, mas palavra que implicam em modificações específicas dos enunciados que acompanham.
 
Uma coisa é dizer: “Eu gosto de ver futebol na TV”. Outra coisa é dizer: “Eu nem sempre gosto de ver futebol na TV”.  Seu filho tem dois ou três anos e fica ali caladinho, tentando digerir essa aparente contradição. E consegue. Eu e você não conseguimos?
 
Minha proposta teórica é que o contato entre mentes distantes, conectadas apenas pelos fios virtuais do curtir e comentar, está produzindo um novo tipo de mentalidade coletiva em que associações de idéias extremamente rápidas são feitas por pessoas de culturas diferentes, idades diferentes, repertórios de informação diferentes.
 
Isso pode significar um avanço gigantesco em nossa capacidade de processar dados, de estabelecer os significados pelos quais Philip K. Dick tanto ansiava. Pode ser o deflagrar de uma nova rede neurológica mundial (em termos metafóricos, claro) onde os cérebros individuais, mesmo os mais privilegiados, os grandes filósofos, os grandes cientistas, serão meros ticos-e-tecos dessa gigantesca teia por onde as idéias serão geradas e circuladas.
 
Daí o fato de que os comentários em postagens de blog e em chats ao vivo e em redes sociais assuma muitas vezes a aparência disjuntada de um koan dos mestres Zen-budistas. Estaremos criando uma geração inteira de Zé-bundistas, como escarnecia Mário de Andrade?! 
 
O koan é aquela frase enigmática com que o mestre responde à pergunta de um discípulo, mergulhando o "pobe" numa perplexidade tão grande que o deixa a um passo da Iluminação. O discípulo pergunta: “Mestre, como posso encontrar o caminho da perfeição?”  E o Mestre responde: “Quando a chuva cai, o sapo fica contente”.
 
Eu vivo me deparando com respostas assim, aleatoriamente encorajadas pelas redes sociais.

Uma vez postei um comentário que dizia: 

“Meu problema com a literatura de José de Alencar não é sua escolha dos temas, que são épicos e vibrantes, mas do vocabulário, que é alambicado e dulçuroso”.
 
Tentativa boba de ser engraçadinho às custas de um falecido, mas recebi, entre outras de teor comum, uma resposta que não me saiu até hoje do juízo:
 
Alencar! Fala-se de Alencar como se o voluntarismo de um político não escondesse mais que uma pragmática de bolsos-sem-fundo. Para que perder tempo com esse tipo de maiêutica? Onde fica José Verissimo nesta equação?!
 
Depois que esse koan me desabou na cabeça passei três dias sem entrar no Facebook, somente pensando, o que me fez bem. E folheando a História da Literatura Brasileira de José Verissimo, cujo estilo e pensamento respeito bastante, apesar de muito pincenez, muita pena-de-ganso. Encontrei umas dez respostas; mas para perguntas outras.
 
De outra vez, comentei alguma coisa relativa à política da Europa Ocidental, que eu, que conservo minha ingenuidade intacta apesar de tantos anos, ainda sonho em ver unida e diferenciada. E me vem um distante conhecido com essa intervenção:
 
O imperador romano que perguntava pela própria alma não estava muito distante dos iludidos de hoje. Como se câmbio e políticas monetárias resolvessem tudo. Lamentável.
 
Li certa vez um artigo muito interessante dizendo que uma das coisas mentalmente mais estimulantes é a leitura da poesia surrealista clássica. Num laboratório, foram feitos diferentes grupos, cujas pessoas recebiam tipos diferentes de leitura, e nos intervalos submetiam-se a testes.
 
Ficou comprovado que as pessoas que obtinham índices mais altos nos testes, ou seja, a que estavam com as mentes mais “acesas”, mais rápidas, mais eficazes, eram as que estavam lendo a poesia aparentemente absurda e sem-sentido desses autores como André Breton, Paul Éluard, Louis Aragon, Benjamin Péret...
 
O autor do artigo propunha a explicação de que ler poemas aparentemente absurdos forçava a mente do leitor e procurar (e eventualmente encontrar) conexões de sentido, interpretações do tipo “Ele está querendo dizer que...”, o que, se nem sempre é correto do ponto de vista propriamente literário, não deixa de ser um exercício mental útil.
 
Exercício que eu ponho em prática agora, quando critico algum desses zagueiros do Flamengo e recebo:
 
Caro amigo, o junco se curva à tempestade, e são os caibros de carvalho que se despedaçam. Pense Getúlio, pense Washington Luís. O valor de um cheque não está no numerário, e sim na assinatura.
 
Toda vez que a mente humana se depara com um Non Sequitur – proposições que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra, mas são apresentadas como se tivessem – ela produz um esforço extra capaz de gerar (estou delirando, mas é o calor) cadeias de sinapses específicas que não se desfazem quando a mente muda de assunto. Essas sinapses cumprem sua função momentânea e recolhem-se, de reserva, esperando o momento em que serão convocadas de novo para explicar outra proposição aleatória qualquer.
 
Já dizia Benjamin Péret:
 
Minha cabeça de lixa de papel esfregando-se à beça nas bordas de uma taça de cristal
feita à tua imagem de ave que um javali impede de alçar o primeiro voo
está cheia da fina chuva dos teus olhos semelhantes a duas laranjas que nunca serão colhidas
teus olhos que talvez são pedra despedaçada como árvore fulminada
tudo igual ao pequeno coração que tenho no meu bolso
encostado num fogareiro mais vermelho que um zepelim em chamas.
(em Amor Sublime, Brasiliense, trad. Antonio Houaiss)
 
Já nos ensinava Zé Limeira:
 
Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa,
valha-me Nossa Senhora
‘tão bombardeando a França.
 
E eu só gosto dessa moça
porque tem vegetação,
porteira de pau-a-pique,
três pneus de caminhão,
peido de jumenta ruça...
e haja chuva no Sertão!
 
 
 
 
 







sábado, 4 de maio de 2019

4463) Hipnose da estrada (4.5.2019)




Eu não sei dirigir automóvel, nunca dirigi um. Isso não me impede de avaliar o modo de dirigir de quem quer que seja, nem de teorizar sem pejo sobre essa nobre atividade moderna.

Um dos aspectos que me interessam nela é o modo como “o motorista” torna-se quase um “duplo” da pessoa. É uma pessoa menorzinha que vive dentro dele. Uma espécie de “puxadinho” mental em que uma nova personalidade é criada e desenvolvida, paralelamente à personagem principal.

A ação de “dirigir automóvel” pode perfeitamente abrir mão de uma série de camadas da nossa consciência. É um ato maquinal, que se executa com transições confortáveis entre assumir o controle e deixar no piloto automático.

As pessoas dirigem enquanto conversam, até mesmo um assunto da maior gravidade. Dirigem enquanto escutam um jogo de decisão do campeonato. Dirigem enquanto cantam a plenos pulmões com os filhos pequenos no banco de trás.

É como se a existência do “robô motorista” permitisse liberar a mente lúcida da pessoa para cuidar de assuntos mais interessantes.

De vez em quando dá um bug. É aquele famoso momento em que estou no banco do carona, num papo animado com outra pessoa, e de repente ela diz: “Caramba. Por que é que eu vim parar aqui no girador? Era para eu ter pêgo a ponte, lá atrás!”  E ninguém nem comenta, de tão comum que é o fato.

Vou contar aqui três histórias cuja veracidade nem me interessei em discutir, porque me pareceram plausíveis. Uma ou outra dela eu já ouvi com pequenas variantes. Deve ser, sim, um fenômeno reiterativo, levando em conta a quantidade de motoristas.

A História #1 fala de uma família que foi curtir o domingo num churrasco ou pescaria ou almoço de família num subúrbio mais que distante, e na hora de voltar, ao anoitecer, armou-se um toró que não tinha mais tamanho. A esposa pediu a chave do carro. O marido estava pra lá de Bagdá, mas insistiu previsivelmente em dirigir. Ela sugeriu passarem a noite no local, havia essa opção. Ele disse que ia trabalhar logo cedo, e tinha que dormir em casa.

A tempestade caiu, o carro fez-se ao asfalto, e felizmente as crianças estavam exaustas do domingo e se enrodilharam no banco de trás. Era água de quase não se ver um palmo à frente, e ela estava reduzida a um trapo de nervos quando eles finalmente chegaram ao bairro, à rua, à casa. Ele alinhou o carro à calçada e desacordou sobre o volante.

Ela insistiu muito, depois fez a única coisa que podia fazer. Levou as crianças para dentro, primeiro uma, depois a outra, mandou deitarem nas poltronas preferidas, voltou, abriu o carro (felizmente agora estava só um chuvisco), agarrou-o pelos suvacos e o trouxe para dentro de casa. No outro dia ele acordou com o despertador pré-programado e foi trabalhar assim como se nada.



A História #2 fala de outro cara que tomou umas e outras, voltou para casa, abriu de longe o portão, subiu a rampa com o carro, entrou na garagem são e salvo. A sensação de são e salvo foi tão forte que ele apagou. Os faróis do carro continuaram acesos, o motor ligado. O carro todo zunia, fremia e trepidava em torno dele. Ao cabo de algum tempo, ele entreabriu os olhos. Viu o brilho cegante daqueles faróis refletidos na parede branca do fundo da garagem, a um metro das luzes. Pisou no freio com tanta força que partiu ossos, rompeu ligamentos.

A terceira é a de um respeitável casal que fazia de vez em quando umas viagens do sertão para a capital, com parada em uma cidade no meio do trajeto. A esposa e o marido se alternavam ao volante. Numa das vezes, ela o deixou nessa cidade do meio e prosseguiu rumo à capital, no litoral do Estado. E a certa altura, já chegando naqueles subúrbios, teve uma espécie de susto, não sei se porque precisou frear de repente. Alguma coisa desse tipo a sobressaltou, e ela pensou: “Meu Deus, mas eu já estou aqui? Eu não me lembro de ter dirigido até aqui. Quem dirigiu? Porque eu só estou acordando pra valer agora.”

A pergunta interessante é de fato “quem dirigiu”, porque quem dirigiu foi a mesma pessoa. Mas dirigir é (como muitas outras, aliás) uma atividade que ganha uma certa autonomia. Também depende do motorista. Um motorista pode dirigir assim de modo meio sonambúlico e não sofrer nenhum problema grave, porque dirige com prudência e os reflexos visuais e motores estão em ordem.

Há vários níveis, como constatou Paul McCartney durante uma viagem lisérgica dos Beatles, da qual ele emergiu com esta única frase, dando provas de ser mais minimalista do que Yoko Ono.



Na primeira história acima, eu pressuponho que o motorista estava bêbado mas era um bom motorista, e isso prevaleceu sobre a bebida. Não aconselho a ninguém (como se fosse preciso). Acho que estatisticamente há mais motoristas bêbados sem acidentes do que com acidentes. O que não vale como desculpa.

No caso do meio, o da freiada cegante, o que vejo é o grau de reflexo, de adestramento, de autocondicionamento. Vai bater e você ao volante de toneladas de tralha com metal e vidros. Pela força da pisada e pela rapidez do reflexo, é um preparo comparável ao de um campeão do tênis. Devia existir um Teste Voight-Kampff só para medir isso.

O último caso é o mais interessante, porque facilmente pode ser considerado um estado alterado de consciência. A causa pode ser a auto-segurança de quem não vai fazer bobagem por sua iniciativa. Todos veem que a pessoa está acordada, a parte sensorial toda ativa, bota bagagem na mala do carro, abastece, conversa com um e outro, pega o volante, e lá vem aquela imensa fita solitária fluindo à sua frente.

Podemos postular, pelo menos em termos de dramaturgia, a existência de um sistema emocional, que naquelas horas de preparativos e na viagem de rotina continuava ali, mas adormecido, não tinha sido chamado a abrir os olhos. A freiada brusca atrás do caminhão, nas pistas paralelas de acesso ao subúrbio, acordou uma ninhada de aplicativos que desde o despertar estavam em modo espera: medo, susto, estranheza daquilo tudo, aquela sensação estrídula de ser dois.

Há vários níveis, também diria o inefável Colin Wilson, que nunca, diante de um fato, hesitou em produzir uma teoria. A consciência não é uma coisa, é um conjunto fluido, mas voluntariamente estável, de processos que se complementam. Como descrevê-los?  Em termos que a gente visualize melhor.

John R. Searle, professor de filosofia, disse uma vez:

“Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital”.






sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

3749) "The Black Room" (28.2.2015)



Colin Wilson, escritor existencialista britânico, propôs o conceito de “outsider” para designar o indivíduo inquieto, rebelde, movido por uma intensa busca de sentido na vida, e que tanto pode derivar para a grande arte quanto para o crime.  Muitos livros seus têm como centro personagens que realizam essa busca.  Neste romance de 1971, a história acompanha o compositor erudito Christopher “Kit” Butler, que aceita, meio na esportiva, o convite de um amigo que faz parte do Serviço Secreto britânico, o MI5, para participar de uma experiência científica como cobaia altamente qualificada.  A experiência, realizada numa espécie de hotel-com-laboratório num lugar remoto, consiste em submeter-se durante dias à experiência da total privação dos sentidos da visão e (tanto quanto possível) da audição.  O objetivo é medir o grau de resistência ao tédio e ao isolamento, para seleção e treinamento futuro de espiões.

Butler é o porta-voz das teorias de Wilson, e discute com os cientistas e as outras cobaias sobre energia mental, concentração, autocontrole emocional, etc.  Ao mesmo tempo, ele percebe que outras agências, como a CIA, a KGB e uma misteriosa “Estação X”, espionam as pesquisas dos ingleses.  Na segunda parte do livro, Butler, já aprovado, está em Praga numa missão um tanto inócua mas arriscada. É sequestrado e depois de algumas aventuras violentas vai parar na sede da misteriosa Estação X, onde se defronta com um chefe cheio de teorias próprias sobre o assunto.

Em matéria de escritor popular, conheço poucos como Colin Wilson capazes de encadear uma discussão filosófica e psicológica superficial, mas que faz sentido, com aventuras e um senso de realidade satisfatório.  Os seus romances policiais são bem melhores que sua ficção científica, e The Black Room lembra um pouco aquelas histórias de espionagem cheias de traições, subentendidos e reviravoltas, tipo John Le Carré.  O único defeito do livro, se é que é defeito e não um corte ousadíssimo, é que ele não acaba, interrompe-se bruscamente.  Há um desfecho em vista, mas precisaria de mais 20 ou 30 páginas para dar-lhe alguma conclusão satisfatória numa situação política tão complicada, embora haja algumas alusões interessantes à política européia de 1968. 

Pode-se dizer de Wilson o que já foi dito de Philip K. Dick: que a leitura de sua obra pode começar com qualquer título, porque sua visão do mundo está inteira em cada um, e cada um conduz aos demais como se todos fossem continuação de todos. A fé infatigável de Wilson nos poderes da mente humana perpassa sua filosofia, seus romances populares, suas antologias, sua obra sobre crimes e sobre ocultismo.







sábado, 7 de fevereiro de 2015

3731) A loucura e a lucidez (7.2.2015)



("The Tell-Tale Heart", por Virgil Finlay)

Não sei quem foi que disse que o remédio de um doido é outro na porta.  Talvez seja preciso um maluco para entender o que se passa na cabeça de outro maluco.  Ele tem que ser capaz de pensar como o maluco e ver que até certo ponto toda maluquice é justificada.  E tem que ser capaz de dar um passo atrás e ver que é só doidice mesmo, ou seja, aquilo não é a narrativa-mãe, aquilo é o Delírio do Depoente.  Por mais comovente que esse delírio seja.  Assim como um bêbado é alguém que ‘NÃO ESTÁ BÊBADO!!!”, um bom doido relativiza qualquer loucura.

Num ensaio sobre a imaginação, Montaigne diz (não li o ensaio, vi a citação por aí): “Gallus Vibius preparou sua mente de tal forma para compreender a essência e a dinâmica da loucura que deixou seus critérios serem distorcidos, a ponto de não poder acomodá-los de novo em seus devidos lugares; e, caso quisesse, poderia se vangloriar de ter-se tornado um abestado através da sabedoria.” 

O psicanalista Robert Lindner tem um ensaio famoso, “O divã espacial” (“The Jet-Propelled Couch”) onde ele descreve a longa terapia de um homem que acreditava piamente num universo paralelo “space opera” onde alternava seus dias com os dias passados na Terra.  (Há uma tese de que esse paciente teria sido o escritor Cordwainer Smith.)  O analista dava-lhe conselhos de como administrar seu império galáctico, mas acabou se envolvendo e entrando na viagem do outro. Recompôs-se depois (não é spoiler), mas admitiu que houve um duelo psicológico intenso, e que por um momento o Delírio do Depoente prevaleceu.

Vejo, por exemplo, Rubião tentando glosar os motes de Quincas Borba, tentando a ominosa tarefa de entender um doido por dentro.  Deve acontecer muito com empresários no campo das artes, que endoidecem por artistas imbancáveis, que se deixam levar mais pelos seus instintos do que pela razão, e que antes dos interesses pessoais pensam acima de tudo nos interesses do coração. Muitos ficam ricos. Provavelmente porque sabem como pensam os seus fãs na derradeira fila a contar do palco. São mentes iguais. 

O protagonista tem um amigo que é doido: eis uma cadeia dramatúrgica presente numa enorme variedade de textos.  Quem entende o doido, sensato lhe parece. O que mais chamamos de loucura é o contrário dela, chamamos de loucura a desorganização fatal do pensamento. Mas não, a loucura também é organização, organização maligna, sugadora, feito raiz de algaroba visitando o poço alheio.  Uma ordem vinda de cima que se recusa a dialogar com o resto e que precipita assim a crise que faltava.  O organismo é invadido por uma linguagem estranha que acaba por matá-lo por dentro.




quinta-feira, 6 de novembro de 2014

3651) Os cinco sentidos (6.11.2014)



“Audição, visão e tato / mais olfato e paladar”: são os nossos cinco sentidos, que conhecemos desde a infância.  A audição é o mais abrangente deles (a vista alcança mais longe, mas só vemos o que está à nossa frente, e não como ouvimos, em 360 graus à nossa volta).  Nosso olfato tem pouca utilidade, e nos serve mais para o prazer do que para o trabalho.  A boa cozinha é uma homenagem simultânea ao olfato e ao paladar.  O tato é, como os dois anteriores, sujeito à contiguidade física: só funciona ao termos contato físico com o outro objeto.  Visão e audição (e olfato, um pouquinho) nos mostram o mundo à nossa volta; tato, paladar e olfato nos dão informações sobre algo físico com que fazemos contato.



Daí que a expressão “sexto sentido” seja tão usada, porque volta e meia estamos percebendo algo, ou tendo a sensação de algo, e não sabemos como encaixar aquilo nesse repertório tão limitado.  Li agora um oportuno post de Mark Lorch (aqui: http://tinyurl.com/kn2ghdv) sobre noções científicas superficiais que aprendemos na escola e nunca mais nos livramos. Uma delas, diz ele, é essa limitação de “cinco sentidos”.  Na verdade, temos mais do que isso.



Sentimos o movimento com acelerômetros localizados no vestíbulo, uma região do ouvido interno.  Nosso sentido de equilíbrio se deve ao movimento de fluidos através de canais muito finos, também nos ouvidos: se você ficar tonto, vai sentir um perturbação desse sentido, que usamos o tempo inteiro. O autor também diz: “Quando prendemos a respiração, sentimos nosso sangue se tornando mais ácido à medida que o dióxido de carbono se dissolve nele formando o gás carbônico”.  Bem, eu nunca senti isso, mas quem sou eu para questionar os sentidos alheios; vai ver que sou daltônico nesse aspecto. 



Lorch argumenta: “Não estou sugerindo que comecemos a ensinar a crianças de seis anos coisas estudadas em laboratórios ganhadores do Nobel, nem que o currículo deles seja soterrado de detalhes a respeito de dezenas de sentidos. Mas podíamos parar de contar lorotas.  Podíamos dizer, por exemplo, numa aula de biologia: Nós temos muitos sentidos, e estes aqui são os cinco que vamos estudar.” 


O texto de Lorch questiona estas e outras simplificações, que têm função didática mas acabam se transformando em Tábuas da Lei. Os três estados da matéria, por exemplo (sólido, líquido e gasoso): ele mostra que existem vários outros inclusive o plasma, que é o estado da matéria que compõe o sol.  Dizemos três estados como dizemos cinco sentidos: para facilitar, para poder concentrar o foco em algo mais presente na nossa experiência diária.  Mas a realidade sempre vai muito além disso.


sábado, 16 de agosto de 2014

3579) Singularidade Absurda (16.8.2014)




A Singularidade, segundo os cientistas e os escritores de FC, será aquele momento em que todos os processos de inteligência artificial que estamos criando irão convergir para a formação de um estado supra-biológico de consciência humana/cibernética.  Como um piloto automático que se apossasse do avião e impedisse os pilotos humanos de entrar na cabine. 

O que acontecerá então?

Temos a tendência de projetar um perfil antropomórfico, ou uma essência semelhante à humana, em todo fenômeno que nos transcende, sem atentar para essa contradição. Se nos transcende, não é como nós. Não parece conosco. Não pode ser descrito em nossos termos. Deus não é um homem de barbas brancas sentado num trono. 

A Super Inteligência Artificial do futuro não será um cientista (benigno ou psicótico) dando ordens que não conseguiremos desobedecer.

É bastante possível que estejamos criando não uma, mas uma série de Semi-Inteligências Artificiais, e que a Singularidade, o momento irreversível em que esse processo escapará das nossas mãos, não tenha uma consciência central. Não será um computador gigantesco dizendo: “Agora, vocês vão ter que me obedecer”. 

Fico até incomodado quando penso nisto, mas acho que a Singularidade não vai parecer nem com uma Divindade nem com um Super-Cérebro, vai parecer com um Doido.

Milhares, milhões de processos eletrônico-digitais controlando nossas finanças, nossas identidades sociais (documentos, senhas, acesso a tudo), nossos bancos, nossos meios de transporte, nossas formas de comunicação. Quem me garante que a Singularidade não será capaz de produzir pastiches perfeitos do meu texto e do meu estilo, postar em redes sociais, mandar emails para minha família dizendo o que bem entender – e fazer-se acreditar?

Isso, no entanto, não acontecerá com intenções malévolas, pois não há uma personalidade humana por trás. Será a combinação multiplicada de processos automáticos que se somarão uns aos outros para produzir efeitos aleatórios, não projetados por ninguém (e não desejados por ninguém, inclusive pelas “máquinas”). 

A Singularidade será um universo beckettiano ou douglasadamsiano. A vida no planeta correrá o risco de ser destruída justamente pela falta de um ditador antropomórfico em busca do poder. Serão mil ditadores algorítmicos, conflitantes, contraditórios, tentando se sobrepujar por mero determinismo de programação. 

E o mundo se transformará num pesadelo surreal-cubista, numa peça de Ionesco montada pelos loucos do Asilo de Charenton, e a vida humana se tornará finalmente um conto contado por um louco, cheio de som e de fúria e significando rigorosamente nada.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

3353) Grandes idéias de FC (26.11.2013)




(freys, em Deviant Art)

Certas idéias científicas parecem óbvias, mas não vejo a ficção científica se dedicando a elas. Por exemplo: por que motivo não pesquisamos (nós, escritores, que ao contrário dos cientistas podemos pesquisar a custo zero) a formação de múltiplas personalidades (“o médico e o monstro”) na mente humana?  

Nem vou falar nas possíveis utilizações pacíficas desse divisionismo, mas citarei, para ver se atraio patrocinadores, algumas utilizações bélicas. Um soldado cuja mente seja, metade, uma máquina pré-ética de matar, e outra metade um carinhoso e patriótico pai de família. Cada um deles podendo ser ativado por um gatilho hipnótico (lembrem o filme O Telefone, de Don Siegel, com Charles Bronson), e assumindo o controle do corpo (do “cavalo mediúnico”) até concluir a tarefa prevista.

Faríamos melhor em investigar o cérebro humano, que bem ou mal estará conosco enquanto formos nós mesmos, do que em construir espaçonaves, gastar milhões de litros de gasolina para ir catar pedras num planeta baldio. 

Fernando Pessoa já ironizava o conceito de personalidade única no “Ultimatum”, um dos textos mais importantes de “Álvaro de Campos”. A produção de individualidades artificiais pode ser apenas uma questão de poucas décadas.

Antigas civilizações pré-colombianas doutrinavam seus neófitos aplicando-lhes na noite do “rito de passagem”, uma dose cavalar de ervas alucinógenas, e depois um passeio por dentro de cavernas labirínticas, ouvindo o eco de vozes, os cânticos, vendo os efeitos com archotes naquelas tortuosas galerias subterrâneas. Quem, no outro dia, acreditaria ter visitado menos do que um outro mundo que misturava cacos de inferno e de paraíso? 

Essas formas artesanais de controle mental mostram que o ser humano é sempre mais maleável do que parece, e Alguém, cedo ou tarde, usa isso em seu proveito.

Usar meios artificiais para criar personalidades distintas não seria mais do que levar às últimas consequências lógicas o processo de socialização que exige de nós atitudes diferentes em diferentes lugares ou atividades. Um Presidente poderia ser um orador carismático e cheio de empatia, e, longe das câmaras, um administrador enérgico, um negociador maquiavélico, e cada uma dessas personalidades só saberia das demais o necessário para funcionar.  

O emprego de múltiplas personalidades artificialmente controladas (inclusive pelo dono original daquele corpo) é uma possibilidade científica muito mais próxima e factível do que a construção de um império galáctico. 

Os escritores de FC preferem falar de impérios galácticos porque é mais fácil se movimentar no Passado (império é coisa do passado) do que no Futuro.