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domingo, 15 de maio de 2022

4823) Improvisando trilhas sonoras (15.5.2022)

 


A música é uma forma de arte total, que só diz o que está dizendo. Não precisa se reportar a nenhuma realidade externa a si mesma. A pintura abstrata chega perto disso: são formas que valem por si, pelas cores, pelo movimento que sugerem, pelas associações inconscientes que provocam.
 
Isso faz com que, por uma espécie de paradoxo, a música instrumental possa ser “pregada” a qualquer imagem e assim constituir, de modo aleatório, um comentário a essa imagem. O cinema faz isso o tempo todo.
 
Podemos fazer o tempo todo também. Juntar uma música e uma imagem que não têm relação entre si. Quando entrei na era do computador (que facilitou esse processo, do ponto de vista meramente físico, de botar-e-tirar as músicas), cansei de rodar no monitor as imagens (sem som) de um filme qualquer, e ao mesmo tempo tocar um CD qualquer, fazendo de conta que aquela era a trilha sonora do filme.
 
Em geral, não resulta em nada mais do que uma cacofonia desconchavada. Mas às vezes produz certos sincronismos que arrepiam a gente.
 
Há umas experiências curiosas por aí – se bem me lembro, assistir O Mágico de Oz tendo como fundo musical um disco de Pink Floyd. “As possibilidades, como sempre, são infinitas.”
 
Vai daí que muitos cineastas encomendam trilhas sonoras improvisadas aos seus parceiros de música. Ao invés do cara ver o filme, compor, orquestrar, escrever e gravar uma trilha inteira, e depois essa trilha ser pregada no filme, o compositor vai ao estúdio com seu instrumento, as imagens são projetadas numa tela, e ele vai vendo aquilo e improvisando.


Neste clipezinho do YouTube, vemos Neil Young tocando e gravando a trilha sonora que ele fez para
Dead Man (1995) de Jim Jarmusch. É um faroeste meio surrealista, um dos melhores filmes do diretor, e ele escolheu para trilha sonora a guitarra de Young, aquela guitarra tão fanhosa quanto o dono, distorcida, rasgada, com notas longas arranhando-se interminavelmente e depois cedendo lugar a punhaladas curtas, agudas, lancinantes.
 
Neil Young & Jim Jarmusch
“Dead Man”
 
Outro tipo de utilização da guitarra é o que Werner Herzog propôs a Richard Thompson. Herzog é um repentista a médio prazo, gosta de fazer um certo planejamento e na hora de rodar joga tudo pra cima pra ver de que jeito cai. O improviso faz parte, e para isso ele dispõe de uma estrutura previamente pensada e “provisoriamente definitiva”, dentro da qual ele vai engastando os repentes dos atores, os erros que acrescentam, os imprevistos caídos do céu para esquentar uma cena que se arrastava morna.


Grizzly Man (2005) é um documentário dele sobre Timothy Treadwell, um cineasta e ambientalista que foi morto por um urso quando o filmava. Imprevistos assim parecem ferrar a fogo uma espécie de sinete sobre uma obra a quem isso acontece. Para a música, Herzog chamou o guitarrista Thompson, e combinou com ele o seguinte: ele não veria o filme todo. Veria 30 segundos de cada sequência, para ter uma idéia do que se tratava, e depois improvisaria tudo no estúdio.
 
Talvez isso servisse para evitar que o músico, tocando com o olho pregado na tela, acabasse executando riffs instrumentais muito servis, muito obedientes à imagem: música ligeirinha para uma corrida, música nostálgica para uma lua cheia sobre os montes... Podemos apenas supor.
 
Aqui está o resultado, naquele timbre sofrido e metálico de blues instrumental, parecido com a paleta sonora de Ry Cooder para o Paris, Texas de Wim Wenders.
 
Richard Thompson & Werner Herzog:
“The Grizzly Man”
 
Retroagindo no tempo, podemos lembrar um dos melhores resultados desse sistema de colaboração. O francês Louis Malle, um dos melhores diretores de sua geração, estava ultimando Ascenseur pour l’échafaud (1958). É um filme policial noir, história de um crime cuidadosamente planejado que acaba não dando certo por causa de um imprevisto. É uma das melhores interpretações de Jeanne Moreau, principalmente na longa sequência em que ela, desorientada por não ter notícias do seu amante (o tal criminoso), vagueia desesperada por entre a treva luminosa de uma Paris em preto-e-branco.


Um duendezinho irreverente me sugere jogar como trilha sonora Maria Bethania cantando Paulo Vanzolini (“À noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...”). Louis Malle fez melhor: chamou Miles Davis e seu grupo para improvisar os temas musicais, olhando o filme rolar mudo na tela e tocando em cima.
 
Um breve aperitivo do resultado:
 
Miles Davis & Louis Malle
“Ascensor para o Cadafalso”
 
O filme é excelente, o resultado musical idem.
 
A música, por ser abstrata, é capaz de envolver uma sequência de imagens concretas sem modificá-las por dentro, mas imprimindo nuances emocionais no espectador, que tem a experiência simultânea da imagem e do som.
 
Muitas outras melodias poderiam ser superpostas, com bons resultados, às belas imagens do filme de Malle, fotografadas por Henri Decae. E os improvisos de Miles Davis poderiam servir de comentário emotivo a inúmeras cenas de inúmeros outros filmes.
 
É um vale-tudo? Qualquer música se encaixa em qualquer imagem? De jeito nenhum. O mais provável é que se tenha de fazer dezenas de combinações até achar uma que sirva. Mas para mim existe uma fascinação nessa cena de um estúdio à meia-luz, uma tela repassando cenas mudas de um filme que ainda não existe, e um músico de olho na tela, mãos no instrumento, procurando às cegas, e com a clarividência dos cegos, a alma daquele filme.
 








domingo, 28 de março de 2010

1839) “Dead Man” (30.1.2009)



Revi na TV a cabo este “faroeste metafísico” de Jim Jarmusch, um dos seus melhores filmes. Vi pela terceira vez, e a cada vez gosto mais. Digo isto com cautela, porque sei de muita gente que detesta este filme distanciado, irresoluto, onírico. Faltam nele coisas que nos seduzem nos faroestes: o arrebatamento físico das grandes cavalgadas e grandes lutas, as dimensões épicas de heróis e vilões maiores-que-o-mundo, o corte sociológico das guerras de colonização dos EUA. Tudo isto está ausente deste filme feito num preto-e-branco leitoso e pulverulento (o termo é de Cruz e Sousa), de imagens granuladas que parecem não o Oeste do cinema, mas o Oeste fotografado ao vivo no século 19 pelos lambe-lambes que subiram num carroção e rumaram para as pradarias com um tripé às costas.

Bill (Johnny Depp) vai assumir um emprego num lugarejo que não passa de um quarteirão enlameado e malcheiroso. Mete-se numa confusão por causa de uma mulher, que é morta nos seus braços e o obriga a matar o assassino, filho de seu possível empregador. Ferido a bala no peito, ele rouba um cavalo e se embrenha na mata, onde passa a ser perseguido por pistoleiros de aluguel contratados pelo pai furioso da vítima. Ali ele conhece um índio, que diz chamar-se Ninguém, e que se assombra ao saber que o nome do rapaz é William Blake: “Mas não é possível! Eu sei os seus poemas de cor!” E passa a tratá-lo como se ele fosse mesmo o poeta inglês do século 18.

Durante a fuga, cruzam com matadores profissionais, um pistoleiro antropófago, animais feridos, Iggy Pop vestido de velha. O índio tenta arrancar, com a faca, a bala encravada no peito de Blake, mas não consegue. Como dizia João Cabral (Uma faca só lâmina): “Essa bala que um homem / leva às vezes na carne / faz menos rarefeito / todo aquele que a guarde”. Blake, que era um contabilista pacato, é forçado a enfrentar de arma em punho os caçadores de recompensa que o rastreiam. Vai matando gente, abrindo caminho a tiros, enquanto Ninguém (índio que foi criado na cidade grande) age como anjo protetor.

Não sei o que é melhor, se a fotografia láctea de Robby Müller, toda baseada em fumaça, neblina e sombras, ou se a música de Neil Young, arpejos e rasqueados de guitarra elétrica que nunca se resolvem em melodia ou sequência harmônica, e que, como a própria narrativa do filme, parecem mudar de direção o tempo todo, ziguezagueando ao vento das circunstâncias. Nunca o estilo minimalista de Jarmusch se harmonizou tanto com um argumento, com a fuga espectral desse rapaz baleado que parece morrer um pouco mais a cada homem que mata. E a música, recorrente, fragmentada, inconclusiva, parece também se separar, lentamente, em fragmentos que se apartam para sempre uns dos outros. O filme inteiro é um rito de passagem para o reino das sombras e das luzes, uma transição gradual para um mundo onde não há matéria, apenas o oceano luminoso do ser e do não ser.