A música é uma forma de arte total, que só diz o que está dizendo. Não precisa se reportar a nenhuma realidade externa a si mesma. A pintura abstrata chega perto disso: são formas que valem por si, pelas cores, pelo movimento que sugerem, pelas associações inconscientes que provocam.
Neil Young & Jim Jarmusch“Dead Man”
Outro tipo de utilização da guitarra é o que Werner
Herzog propôs a Richard Thompson. Herzog é um repentista a médio prazo, gosta
de fazer um certo planejamento e na hora de rodar joga tudo pra cima pra ver de
que jeito cai. O improviso faz parte, e para isso ele dispõe de uma estrutura
previamente pensada e “provisoriamente definitiva”, dentro da qual ele vai
engastando os repentes dos atores, os erros que acrescentam, os imprevistos
caídos do céu para esquentar uma cena que se arrastava morna.
Grizzly Man (2005) é um documentário dele sobre Timothy
Treadwell, um cineasta e ambientalista que foi morto por um urso quando o
filmava. Imprevistos assim parecem ferrar a fogo uma espécie de sinete
sobre uma obra a quem isso acontece. Para a música, Herzog chamou o guitarrista
Thompson, e combinou com ele o seguinte: ele não veria o filme todo. Veria 30
segundos de cada sequência, para ter uma idéia do que se tratava, e depois
improvisaria tudo no estúdio.
Talvez isso servisse para evitar que o músico, tocando
com o olho pregado na tela, acabasse executando riffs instrumentais muito
servis, muito obedientes à imagem: música ligeirinha para uma corrida, música
nostálgica para uma lua cheia sobre os montes... Podemos apenas supor.
Aqui está o resultado, naquele timbre sofrido e metálico
de blues instrumental, parecido com a paleta sonora de Ry Cooder para o Paris, Texas de Wim Wenders.
Richard Thompson & Werner Herzog:“The Grizzly Man”
Retroagindo no tempo, podemos lembrar um dos melhores resultados desse sistema de colaboração. O francês Louis Malle, um dos melhores diretores de sua geração, estava ultimando Ascenseur pour l’échafaud (1958). É um filme policial noir, história de um crime cuidadosamente planejado que acaba não dando certo por causa de um imprevisto. É uma das melhores interpretações de Jeanne Moreau, principalmente na longa sequência em que ela, desorientada por não ter notícias do seu amante (o tal criminoso), vagueia desesperada por entre a treva luminosa de uma Paris em preto-e-branco.
Miles Davis & Louis Malle“Ascensor para o Cadafalso”





