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terça-feira, 4 de agosto de 2026

5247) Contracapa de Claude (4.8.2026)



(Saul Steinberg, "Bicycles", 1968)

 
&  um vampiro com dentes de castor, que não param de crescer 
 
&  é a luta do Gardel do bordel contra o cartel de Bordeaux 
 
&  se o Ministério da Defesa não resolve, seria melhor criar um Ministério do Ataque 
 
&  o fundo de um lago tem mais revelações do que sua superfície 
 
&  a Genética ainda será capaz de nos fornecer peixes sem espinhas e galinhas com seis corações 
 
&  é aquela exceção que ajuda a tornar mais nítida a regra 
 
&  bem que os roteiristas podiam começar a considerar o conceito de Sub-Heróis 
 
&  o ar está cheio de pegadas do meu corpo 
 
&  quando o locutor diz “ainda tem muito jogo pela frente” é porque a coisa não está nada boa 
 
&  sapo que engole bomba pula mais longe do que pretendia 
 
&  meu preço por frase é dois reais – um real material e um real simbólico 
 
&  nós dois somos iguais e diferentes, como duas bolachas do mesmo pacote 
 
&  vagaroso como uma constelação se desmanchando 
 
&  a vela diminui de tamanho para que a chama permaneça a mesma 
 
&  aquela casa tem uma energia tão ruim que o sol chega na janela e não entra 
 
&  pelo menos ainda não inventaram a moda de todo mundo andar com um apito ao pescoço 
 
&  se derem um jeito de reunir a I. A. e a telequinésia, talvez eu me anime um pouco 
 
&  certas lembranças desaparecem tão lentamente quanto um corpo jogado no matagal 
  
&  quando estou comendo na casa alheia, minhas mãos viram dois pés descalços 
 
&  toda madeira já foi árvore, todo plástico já foi petróleo, todo vidro já foi areia 
 
&  galinha cega também põe ovo
 
&  a única coisa na Natureza que se reproduz espontaneamente é a besteira
 
&  a literatura não tem como base a palavra, e sim a frase
 
&  quem tem panela não tem medo de goteira
 
&  eu me preocupo mais em rua cheia do que em rua deserta
 
&  tem discussão em que a gente entra esmolambado e sai príncipe-rei
 
&  trabalhar assim é um pouco como comer com faca e colher
 
&  o que é simétrico dá às vezes a ilusão de que é certo
 
&  não, não é a luz no fim do túnel, acho que é a lua no fundo do tonel
 
&  será que os cavalos-robôs comem grama sintética?
 
&  o tempo do corpo é linear, o da mente é não-linear, o da imaginação é 3-D
 
&  você não vale uma baga de bagulho, uma casca de basculho, um farelo de carvão
 
 




sábado, 4 de outubro de 2025

5201) Contracapa de Gemini (4.10.2025)

 


(Al-Jazari, "The Elephant Clock")

 
 
&  a superstição é um mapa que a pessoa desenha e depois segue 
 
&  aquele goleiro agarra até meteoro 
 
&  no futuro vão nos implantar um telefone no ouvido e um despertador sei lá onde 
 
&  ganhei uma balança com três pratos e ainda estou me orientando 
 
&  elas dizem que é um clube de leitura, mas tudo indica que é uma seita de bordadeiras vudu 
 
&  no meio dessa turma eu me sinto uma zebra de listras horizontais 
 
&  todo escultor é um Orfeu que olhou para trás 
 
&  isso que vocês me pedem só vou poder atender no dia de São Sempre 
 
&  quando o absurdo da vida se torna um problema, o jeito é usá-lo também como solução 
 
&  vivo imbuído daquela sensação de heroísmo anônimo que pulsa em todo tijolo de represa 
 
&  quem tem forma e conteúdo é almofada; livro tem letras e eletricidade 
 
&  o problema da literatura de hoje é que além do Alzheimer da memória existe um da imaginação 
 
&  minha relação com ela não é bem de amor platônico, é mais uma espécie de mestre-sala e porta-bandeira 
 
&  o impossível é apenas um painel onde nem todos os botões foram apertados 
 
&  um filme de Kubrick não é muito diferente de um cubo de Rubik
 
&  toda traição acarreta um salto da mentira para a verdade 
 
&  a poesia é como a luz das estrelas, que não projeta sombras 
 
&  um fagote é um foguete cujo som espesso é capaz de fagocitar o da orquestra inteira 
 
&  quem vai a um baile no castelo do inimigo corre o perigo de não ter com quem dançar 
 
&  certos talentos são solúveis no fracasso, outros no sucesso 
 
&  o vento que traz a canção é o mesmo que leva embora o cantor 
 
&  é difícil viver num mundo onde cada pessoa tem um megafone 
 
&  a morte só é tragédia na juventude, quando temos certeza de que somos imortais 
 
&  passei direto do catecismo para o ceticismo 
 
 







sexta-feira, 13 de junho de 2025

5184) Contracapa de Bing (13.6.2025)





(Friedensreich Hundertwasser, "Florescem em jardins amados")
 

 
&  ninguém está mais no escuro do que o cara que manipula o holofote
 
&  pensei que aquilo ia ser como um copo de água-de-coco, mas foi um picolé de água-do-mar
 
&  às vezes parece que a gente está fugindo a pé e perseguido por um tanque de guerra
 
&  certas frases têm uma melodia macabra em qualquer idioma
 
&  no amor não se pode procrastinar decisões, é um xadrez com peças de gelo
 
&  publicar por editora pequena é tocar guitarra sem amplificador
 
&  em breve vai chegar a moda das duplas caipiras com irmãos siameses
 
&  no dia que aparecer uma zebra com as cores das listras invertidas ninguém vai perceber
 
&  uma cidade é uma torre que cresce na largura
 
&  ator de verdade carrega o palco na sola dos pés
 
&  tem gente que vende a alma e fala mal de quem vendeu o corpo
 
&  se todos os loucos de um hospício tivessem a mesma alucinação, não sei não
 
&  vai chegar o tempo em que bandeira de país vai vir com um código de barras
 
&  não sei o que é mais numeroso, espécies de besouros ou modelos de roupas
 
&  fora da jaula todo bicho é fera
 
&  é melhor ser arroz de festa do que cafezinho de velório
 
&  um milagre que se repete se desvaloriza
 
&  a nova mutação no mundo moderno é o Sentauro, tronco de homem e quatro pernas de cadeira
 
&  a Geometria não deve ser reducionista, mas é impossível dispor de uma régua para cada formato de curva
 
&  sou professor de fracasso na Escola do Sucesso
 
&  ninguém tem o direito de dizer tudo que pensa, e um escritor não tem a obrigação de pensar tudo que diz
 
&  coitado do Sol, que não consegue enxergar as sombras que projeta
 
&  a frase manuscrita é o registro sismográfico do que acontece aqui dentro
 
&  é isso que nos aguarda: uma biblioteca só de Bíblias
 
&  não precisamos encontrar todas as respostas, é preciso deixar alguma distração para as gerações futuras
 
&  eu era feliz e não sábio
 


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

5155) Contracapa de DeepSeek (21.2.2025)

 



(“Gato e um Pássaro”, Paul Klee, 1928)


&   não tenha medo: eu não tenho tentáculo de polvo nem pinça de caranguejo 
 
&   ser capaz de tomar suco em caneca de louça é um passo importante para a conquista da independência filosófica, acadêmica e espiritual 
 
&   o sertão vai adoecer de cidade, e a cidade vai adoecer de sertão 
 
&  a juventude é uma doença a que o corpo se acostuma até perdê-la 
 
&  quem admira Napoleão não pode criticar quem admira Virgolino 
 
&  tem gente que dá uma dentada pra entrar numa briga e uma dentadura pra sair 
 
&  deviam inventar um Teleporte só de ida, depois se pesquisava o resto 
 
&  prender essas pessoas vai fazer baixar o nível moral das cadeias brasileiras 
 
&  isso não é nada que um divórcio não resolva e uma bebedeira não cauterize 
 
&  queixam-se de que a Ciência não explica certas coisas, mas não querem ouvir o que ela consegue explicar 
 
&  o poeta é a agulha, tudo que deixa atrás de si é linha 
 
&  as Ciências Exatas sofrem de labirintite quando chegam na zona crepuscular onde florescem as Humanas 
 
&  a fúria fervente dos vencedores só pode ser comparada ao rancor gelado dos vencidos 
 
&  tem gente que prefere não-ter do que pedir 
 
&  os gramáticos são os veganos da língua 
 
&  é curioso, só proclama a existência da luta de classes a classe que está perdendo a luta 
 
&  nada prejudica tanto o meu trabalho quanto a necessidade de ganhar dinheiro 
 
&  daqui do meu lugar-de-fala, todo espartano é um sibarita, e todo zen-budista é um dândi 
 
&  tem pessoas cujo olhar revela, sem perceber, o estado de uma alma em decomposição 
 
&  e você, preferiria ser o torturador ou o torturado? 
 
&  as pessoas muito ansiosas pela perfeição moral parecem estar devendo alguma coisa 
 
&  tem homem que é melhor ter como amigo do que como inimigo, e mulher que é melhor ter como inimiga do que como amante 
 
&  a Poesia é um esporte-de-contato contra  entre o coração e a palavra 
 
&  não me pergunte o que eu não posso dizer, e assim eu não direi o que você não pode escutar 
 






domingo, 3 de dezembro de 2023

5008) Contracapa de Midjourney (3.12.2023)



(by Remedios Varo)



&  o choro é livre, e a gargalhada também 
 
&  uma multidão sem texto e sem ensaio não é capaz de muita coisa 
 
&  a força da gravidade é uma mistura de ação presencial e wi-fi 
 
&  o espelho tem sempre esse fantasma-pronto à minha espera 
 
&  façam o que quiserem com esse boneco de cera: não se parece comigo nem um pouco 
 
&  a melhor maneira de conhecer a honestidade de alguém é fazendo-lhe uma proposta que você acharia irrecusável 
 
&  uma foto preserva um segundo do Passado, e afunda o resto nas trevas do esquecimento 
 
&  tem gente que sempre repete as frases que diz, como se quisesse deixá-las em negrito 
 
&  entre outras variantes clássicas, tem tido muita aceitação ultimamente o conceito de “a boçalidade do mal” 
 
&  nada como o silêncio luminoso das noites do sertão 
 
&  tem gente que lava o rosto e depois joga a água fora sem nem agradecer a ela 
 
&  fazer uma distinção assim é um pouco como dizer que os biscoitos se dividem em redondos e quadrados 
 
&  certos filmes antigos têm o encanto dos navios naufragados, das catedrais em ruínas 
 
&  o bom enxadrista é o que consegue usar as peças do adversário para fazer sua jogada 
 
&  nos fuzilamentos vendam-se os olhos do prisioneiro para proteção dos executores 
 
&  a paz não pode destruir, mas pode diluir a guerra 
 
&  certos textos parecem radioativos, basta ler aquilo e o pensamento fica envenenado 
 
&  o bom cineasta filma um pavão em preto-e-branco e ninguém percebe 
 
&  “Autoriza o árbitro!...” – e desautoriza o juiz 
 
&  onde subiu prédio sofreu pedreiro 
 
&  o tempo não se desloca, ele vibra, ele estremece 
 
&  o conceito de qualidade literária muda mais do que corte de cabelo 
 
&  liberdade hoje é como um colírio,que a gente leva no bolso e pinga um pinguinho quando sente falta 
 
&  uma pedra no caminho incomoda menos do que uma pedra no sapato 
 
&  a elevação dos oceanos libertará a população que mora nos aquários, ou a sufocará? 
 
&  a pena é mais poderosa do que a espada porque pode desenhar uma balança onde ela tem mais peso 
 
&  todo jatinho de empresário é um cavalo de Tróia 
 
&  em vez de proibir qualquer coisa, deviam ridicularizar, ia dar muito mais resultado 
 
&  ensinar não é iluminar, é acender 
 
&  Deus não é onipresente caso o seu castigo chegue mais longe do que o seu perdão 
 
&  ser honesto não é uma fraqueza, embora alguns sejam honestos porque lhes falta a força de não sê-lo 
 
&  eu me calei para ouvir os pássaros, mas eles tinham se calado para ouvir a folhagem 
 
&  ele tinha aquela nobreza das pessoas feias que sabem só poder contar consigo mesmas 
 
&  um homem vai ser fuzilado mas pede para esperarem o nascer da lua cheia 
 
&  todo mundo tem um olho que enxerga melhor que o outro 
 
&  não, o gênero do Romance não está morto, está apenas num estado agudo de catalepsia mental 
 
 






quarta-feira, 7 de junho de 2023

4949) Contracapa de Midjourney (6.6.2023)



(Joan Miró: A Fazenda)


&   o choro é livre – e a gargalhada também

 

&  uma multidão com texto e com ensaio seria capaz de muita coisa

 

&  a força da gravidade é uma mistura de ação presencial e wi-fi

 

&  o espelho: tem sempre esse fantasma pronto, à minha espera

 

&  podem fazer o que quiserem com meu boneco de cera; não ficou parecido

 

&  você só sabe a honestidade de alguém se lhe fizer uma proposta irrecusável

 

&  uma foto preserva um segundo do passado e afunda o resto nas trevas do esquecimento

 

&  tem gente que sempre repete as frases que diz, como se quisesse deixá-las em negrito 

 

&  entre outras variantes clássicas, tem se projetado ultimamente o conceito de “a boçalidade do Mal” 

 

&  nada como o silêncio luminoso das noites do sertão 

 

&  tem gente que lava o rosto e joga a água fora sem nem agradecer a ela 

 

&  classificar as coisas assim é como dizer que os biscoitos se dividem em redondos e quadrados – e só 

 

&  certos filmes antigos têm o encanto dos navios naufragados, das catedrais em ruínas 

 

&  o bom enxadrista é o que consegue usar as peças do adversário para fazer sua jogada 

 

&  nos fuzilamentos vendam-se os olhos dos prisioneiros para proteção dos executores 

 

&  a paz não pode destruir a guerra, mas pode diluí-la 

 

&  certos textos parecem radioativos, basta ler aquilo e o pensamento fica envenenado 

 

&  o bom cineasta filma um pavão em preto-e-branco e ninguém percebe esse detalhe 

 

&  o futebol hoje é assim: “Autoriza o árbitro!” – e “Desautoriza o juiz do VAR...” 

 

&  onde subiu prédio sofreu pedreiro 

 

&  o Tempo não é algo que se desloca; ele vibra, ele estremece 

 

&  liberdade hoje em dia é feito um colírio que a gente leva no bolso e pinga umas gotas quando sente falta 

 

&  uma pedra no meio do caminho incomoda menos do que uma pedra no sapato 

 

&  a elevação dos oceanos talvez liberte, talvez sufoque a população dos aquários 

 

&  a pena é mais poderosa do que a espada, porque pode desenhar uma balança em que ela tem mais peso 

 

&  todo jatinho de empresários é um Cavalo de Tróia

 

&  em vez de proibir alguma coisa, deviam ridicularizar; seria mais eficaz 

 

&  ensinar não é iluminar, é acender 

 

&  um Deus não é onipresente se o seu castigo vai mais longe que o seu perdão 

 

&  ser honesto não é uma fraqueza, embora muitos só sejam honestos porque lhes falta a força de não sê-lo 

 

&  ela tinha a nobreza das pessoas feias que só podem contar consigo mesmas 

 

&  um homem vai ser fuzilado mas pede para esperarem o nascer da lua cheia 

 

&  não, o Romance não está morto, apenas num estado agudo de catalepsia mental 

 

&  todo mundo tem um olho que enxerga melhor do que o outro 

 

 

 


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

4852) Contracapa de Pix (12.8.2022)



&  tudo indica que o próximo Dilúvio será de água sanitária
 
&  quando a Censura proibir os vagalumes, soltem pirilampos
 
&  a gente se vicia em celular porque celular nos obedece instantaneamente
 
&  escrever bons versos nunca avalizou o caráter de ninguém
 
&  tudo que eu como, depois da Covid, está em preto-e-branco
 
&  queria ter a calma de um tigre, capaz de furar um sinal vermelho sem diminuir o passo
 
&  a possibilidade de um dicionário trilingue continua à espera de um exame objetivo
 
&  meu preço nem é muito alto, mas só me vendo a quem adivinhar, com exatidão de dígitos
 
&  coração de leão pode ser uma boa coisa, mas eu preferiria pernas de guepardo
 
&  é aquele tipo de jogador que prefere sofrer um pênalti do que fazer um gol
 
&  certos poetas têm a atitude do portador de uma mensagem em código, da qual conhecem a urgência, mas não o significado
 
&  a mente é um castelo sem corredores mas cheio de passagens secretas
 
&  não sei se aprendo clarineta ou se compro um telescópio
 
&  o negócio agora é afinar o coro dos descontentes
 
&  tem certas mulheres que são dotadas daquele olhar de cartão vermelho
 
&  não há felicidade espiritual que resista a uma dor de dente
 
&  mesmo um jornal velho que está embrulhando peixe tem alguma informação que a gente não sabia
 
&  é interessante como as pessoas sem caráter geralmente sabem que são assim, e se sentem muito bem, obrigado
 
&  o que se vê é o conflito entre a Vetusta Ciência de Formalizar o Espírito das Leis contra a Nobre Arte de Ludibriar a Arbitragem
 
&  acompanhar a Política pela imprensa é como acompanhar futebol pelo rádio
 
&  a Verdade, sem beleza, é utilitária e rude; a Beleza, sem verdade, é frívola e desnecessária
 
&  como é que uma imagem do tamanho de um selo é capaz de encher uma sala?
 
&  o impulso de Tânatos não é o de desejar a morte, mas de não dar importância a ela
 
& a verdade é que quando as pessoas que se preparam para o pior começam a ficar impacientes porque o pior demora a acontecer
 
&  quem tem dinheiro nem lembra que ele existe, e quem não tem não pensa noutra coisa
 
&  o segredo da vida é saber entrar e saber sair, saber falar e saber ouvir, saber subir e saber descer
 
&  não quero parecer pessimista, mas a verdade é que nós ainda somos felizes, e não sabemos
 
&  ninguém é obrigado a ler o que não gosta, o que não aprova, o que não entende; cada um só lê o que consegue ler
 
&  ninguém me tira da cabeça que “C.E.O.” é apenas uma maneira esnobe de dizer “sinhô”
 
& tu te tornas eternamente responsável pelo que os teus orientandos publicam
 
&  qualquer coisa neste mundo pode ser provada com o auxílio de um único exemplo
 
&  a gente só deixa de tratar os filhos como bebês indefesos quando eles começam a nos tratar como velhinhos defasados
 
 
 
 
 
 
 




quarta-feira, 24 de novembro de 2021

4767) Contracapa de GoogleMeet (24.11.2021)



(Wassily Kandinsky, "Círculos num Círculo", 1923)



&  o problema das sociedades que se sustentam com pão e circo é que geralmente o pão acaba primeiro
 
&  no futuro todo mundo terá o direito de ser esquecido por 15 minutos
 
&  a maior surpresa é quando uma coisa não acontece pela segunda vez
 
&  existe num país uma quantidade fixa de fervor político; quando acontece de haver 90% de indiferença isso resulta em 10% de fanatismo
 
&  quando alguém afirma que uma questão é “incontornável” é porque está cobrando pedágio nela
 
&  “plus c’est la même chose, plus ça change”
 
&  a vida está parecendo aqueles filmes onde o roteiro mostra uma coisa e os diálogos dizem outra
 
&  o fim da civilização não virá em trajes de tragédia grega, mas de ópera-bufa albanesa
 
&  que mundo estranho o nosso, capaz de imaginar mundos assim
 
&  o problema das redações de jornais, atualmente, não é que o estagiário não sabe escrever, é que não tem mais ninguém ali para ensinar
 
&  quando as exceções são maioria, tem alguma coisa errada com a regra
 
&  quem já passou dos 70 sente cheiro de fumaça
 
&  nada mais patético do que ser o último a acreditar nas próprias mentiras
 
&  quem costuma praticar a autocrítica não precisa de modéstia
 
&  nada estraga tanto o prazer de um voyeur quanto morar de frente para uma exibicionista
 
& muitos livros são contratados pela editora mediante a apresentação de uma sinopse geral e o primeiro capítulo; bem que poderiam ser publicados assim
 
&  sopa, café, vinho e cama... contra o gelo deste inverno
 
&  não é que um velho seja um cara mais sábio, ele é apenas um cara que já viu o mesmo filme dez vezes
 
&  a vida seria simples se fosse beber e dormir, mas essa história de acordar já complica tudo
 
&  a presença de certas pessoas emite a temperatura de um eclipse total do sol
 
&  chamar alguém de “canalha” só tem sentido se for na presença do próprio
 
&  certos livros são como frutas de cera: nunca envelhecem, e não dão prazer algum
 
&  a lei é para todos, mas a aplicação dela é por amostragem
 
&  é preocupante pensar que só saberemos o que estava acontecendo em 2021 quando lermos os livros de História publicados em 2050
 
&  na verdade, a maior parte dos leitores dos livros de mistério não gostam de mistérios, gostam de soluções
 
&  precisamos de um computador automático, onde bastaria manter uma tecla pressionada e o texto iria brotando
 
&  a diferença entre um espirro e um orgasmo é meramente afetiva e sócio-cultural
 
&  algumas estrelas estão tão distantes que sua luz se esvai entre o telescópio e o olho
 
&  os mares se elevarão dez metros, mas a essa altura ninguém perceberá
 
&  tem épocas em que nem precisa ser um pesadelo – a pessoa sonha que foi na pracinha e acorda suada e trêmula
 
&  mais triste do que jogar pérolas aos porcos é jogar diamantes aos famintos 
 
&  uma nação pode ser desintegrada sem que seja necessário matar uma pessoa sequer
 
&  às vezes a gente passa tanto tempo esperando um “sim” que até receber um “não” dá um certo alívio
 
 
 
 
 





segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

4665) Contracapa de StreamYard (18.1.2021)



(Peter Kogler)

&   o único beco sem saída é a realidade
 
&   nem adianta teorizar o romance, no virar da primeira página de qualquer livro mil conceitos já caducaram
 
&   vou fazer de conta que foi de propósito, não, que foi por acaso, não, que foi uma grata surpresa, esta catástrofe final
 
&  não posso respeitar um Deus que se faz lisonjear por sacripantas dessa qualidade  
 
&   o pior de perder a esperança é não poder voltar atrás pra ver onde ela caiu
 
&   todo crime, por mais que se planeje, é cometido às pressas
 
&   certas coisas no mundo só são explicáveis pelo fato de um prego precisar de um martelo para poder funcionar
 
&   a esperança é um cheque sem fundos que uma pessoa passa para si mesma
 
&   um artista, quando não está pescando no seco, está chovendo no molhado
 
&   tem dias que cada palavra é escrita como se a gente estivesse dobrando um arame
 
&   o álcool é o vício que não consegue articular seu nome
 
&   era um cara tão poderoso que a cigana lia a mão dele para saber o futuro dela
 
&   tem gente que vive procurando chifre em cabeça de cavalo, e pior é que é no espelho
 
&   o que importa não é a marca da pistola, mas o lugar onde a bala acerta
 
&   tem gente acendendo uma vela a Deus, mas comprada na mercearia do Diabo
 
&   já desisti do futuro, só quero que me deixem aqui, no aconchego das minhas saudades
 
&   o livre-arbítrio é uma carta branca, o pecado é um cartão vermelho
 
&   se qualquer coisa pode ser traduzida em palavras ou em dinheiro, por que é tão difícil transformar aquelas neste?
 
&   ninguém é tão visível quanto um cara com (digamos) uma venda preta nos olhos, e ninguém é tão invisível quanto ele mesmo depois que a retira  
 
&   viver é fazer de conta que o Inevitável nos surpreende e que o Inefável nos define 
 
&   aqui jaz aquele cujos versos foram escritos com água
 
&   o blues é uma tristeza homeopática que à medida que se cura se realimenta  
 
&   se o Mediterrâneo invadisse o Saara não se lucraria um só hectare de terra
 
&   ler é como entrar num táxi sem saber para onde o motorista vai nos levar
 
&   um rato roendo um livro para se esconder dentro dele
 
&   o jeito é viver sem seguro e aprender sem tutorial
 
&   um dos perigos do raciocínio binário é quando começam a achar que um raciocínio ternário seria a solução  
 
&   ninguém atravessa duas pontes ao mesmo tempo 
 
&   política é como futebol no rádio, a gente tem que acreditar no que está sendo contado  
 
&   quando a gente acha que alguém sabe muita coisa sempre imagina que ele sabe muito mais
 
&   todos os dias venho à rede social onde se servem venenos; cheio de esperança, alinho-me entre os bebedores
 
&   a religião monoteísta não passa de uma monarquia virtual
 
&   estou de saco cheio com gente sem competência tentando compensar com excesso de competitividade
 
&   a juventude é aquele momento mágico no restaurante, em que a gente abre o cardápio
 
&   certos indivíduos me dão a sensação de estar vendo um tapuru de terno e gravata
 
&   e a alma fugiu-lhe do corpo como quem foge de uma casa em chamas
 
&   um morto-vivo é alguém que foi dado como morto mas aparece vivo, e um vivo-morto é alguém oficialmente vivo, mas que para todos os efeitos já deixou de existir 
 
&   não brinquem com essas coisas: a História registra casos em que um mandato-tampão durou quatro décadas
 
&   dinheiro é uma coisa que dá muita despesa
 
&   quando você ia para as uvas eu já vinho
 
&   às vezes é preciso a gente perder tudo que tinha para compreender que nunca teve nada  
 
&   ainda veremos guerras religiosas entre os partidários do Velho Testamento e os do Novo
 
&   o mundo se moderniza mas permanece sempre o mesmo, sem bulha nem matinada
 
 
 
 
 
 
 
 
 






segunda-feira, 22 de junho de 2020

4592) Contracapa de Zoom (22.6.2020)



(foto: Rodrigo Buendía, Ecuador)



&  não tem ninguém mais perigoso do que um medroso armado

&  a gente acaba ficando com aquele olhar de tédio de um músico que toca em 10 casamentos por semana

&  a esta altura só falta mesmo uma história de vampiros submarinos combatendo zumbis-bomba de Marte

&  minha mente é um ônibus vazio fazendo a circular numa cidade em chamas

&  não sei o que é pior, ficar me revirando na cama ou ficar cochilando no computador

&  um peixe numa gaiola cheia dágua

&  vou parar de dar murro em ponta de faca e começar a rebater bala com a testa

&  nem tudo que é possível vale a pena poder, e nem tudo que é improvável vale a pena descartar

&  é preciso fazer alguma coisa antes que a palavra “brasileiro” se transforme em gíria pejorativa

&  já que ficar em repouso está fora de cogitação, me deixem pelo menos achar uma órbita mais condizente

&  as bibliotecas estão cheias de biografias de 700 páginas de gente que ninguém sabe mais quem foi

&  qualquer fenômeno da natureza pode ser interpretado, com bons argumentos, como bom augúrio ou como premonição funesta

&  às vezes é melhor um fracasso retumbante do que um sucesso que passa despercebido

&  vou por aqui, dando aquele cochilo de soldado na guerra

&  toda utopia do ponto de vista de “A” é distopia do ponto de vista de algum possível “B”

&  vivo exausto como um sonâmbulo que sofre de insônia

&  é difícil trabalhar quando o WhatsApp faz Pínnn! numa média de dez vezes por lauda

&  um corvo empunhando uma pena de corvo e escrevendo um poema

&  gente suja vestindo roupa limpa

&  o sujeito está quietinho e em paz na cela dele, aí vem o indulto de Natal e o obriga a ir beber com os parentes

&  se eu pedir ao garçom uma chícara de xá, será que ele questiona?

&  a memória é um quadro a óleo, onde nada se apaga, mas se esconde, pintando por cima

&  chega uma hora em que a gente nem tem saco de parar nem de limpar o para-brisa

&  sou inocente do que me acusam e culpado do que me absolve

&  não se deve confundir um acerto com um acordo, nem um acordo com um contrato

&  “A gente se vê por aí” tem um complemento implícito: “...se não depender da minha vontade”

&  existe um ponto inicial em que dor e prazer ainda não se bifurcaram

&  o amor é uma espécie de açúcar para disfarçar o gosto real das coisas

&  uma epidemia é apenas a epiderme de um monstro maior

&  contra o flu, pelo menos, eu já sou vacinado

&  nem toda aldeia tem por objetivo virar cidade

&  em política, a gente acredita com o inconsciente, e depois manda a consciência procurar justificativas

&  a lata não tem obrigação de ser cúmplice do lixo

&  viver é jogar a moeda pro alto um bilhão de vezes até cair o outro lado

&  por aí está cheio de brutamontes truculentos que quando se escandalizam parecem uma libélula

&  quando eu vejo uma foto coletiva de ministério penso logo na expressão “flora intestinal”

&  quem me dera um furacão com controle remoto

&  nem adianta pedir dinheiro emprestado a um Banco em chamas

&  um canguru não faz distinção entre a bolsa e a vida

&  é impossível passar adiante um conhecimento; só se pode mesmo sacolejar a cachola de quem necessita

&  quem tem saliva ainda não está com sede

&  um filósofo de cavanhaque e gola rendada precisa de muito impulso para sobrevoar nosso presente

&  o homem não é apenas um caniço pensante, tem horas em que não passa de um inseto crente que zumbir é falar grosso

&  quando amainar o pandemônio desta pandemia nem vamos ter tempo para computar as perdas e comparar as reflexões

&  às duas da madrugada passa na minha rua aquele maluco falando aos berros com o celular de si mesmo

&  mais o peito me palpita, mais tenho o palpite de que qualquer pulsação é bom sinal

&  é foda ir dormir pensando quem serão os mortos de amanhã

&  gente aí se lamentando que a geladeira está vazia, ora essa, vende a geladeira, amigo

&  a democracia brasileira é um hímen complacente e consegue manter as aparências mesmo depois que elas desaparecem de todo

&  e nestes momentos brota em nosso coração aquele sentimento inexprimível chamado A Revolta Do Grão De Areia Contra A Ventania

&  gastaram tanto dinheiro inventando uma bomba de nêutrons, quando bastava um vírus besta

&  certas mulheres têm olhos baixos de freira, e quando eles se erguem tudo é bordel

&  com tempo e atrito bastante, todo cubo se transforma em esfera

&  a esta altura já existem lugares onde não mais pisarei













sexta-feira, 5 de julho de 2019

4481) Contracapa de Netflix (5.7.2019)





(ilustração: Hundertwasser)


& esse negócio de catedral se incendiar é bom porque aparece gente que a gente supunha morta para dar opinião   

& filósofo coisa nenhuma, esse cara está usando um crachá que achou no chão 

& estou cansado de viver como um cachorro, latindo para o que não entendo 

& nunca mais a humanidade vai ser tão rica quanto é hoje

& fazer uma foto é como guardar uma fatia de uma nuvem

& um dia a água do mundo vai acabar, e eu dizendo: agora beba gasolina

& tem hora que o medo que vem de dentro esbarra no medo que vem de fora

& a poesia cabe nas sextilhas como o mel cabe nas fôrmas de rapadura

& daqui a um milhão de anos ninguém mais contará o tempo em anos

& não existem pessoas más, existem pessoas menos

& desigualdade social mesmo é o exercício da delicadeza ter se tornado um privilégio de poucos

& tinham sido do mesmo pelotão de fuzilamento, e agora não se cumprimentavam mais ao se cruzar na rua

& ainda existem porões da ditadura, cheios de gente cuja ausência não foi percebida por ninguém

& toda vez que eu releio um livro fico com vergonha de pensar que tinha entendido da primeira vez

& a vida julga a gente com um relance, condena com um piparote, ou absolve com uma piscadela

& por trás de todo gentleman sofisticado há dois ou três esbirros pisoteando a etiqueta

& tanta discussão sem resultado, somente por causa de termos mal compreendidos

& um número vira outra coisa quando é visto pessoalmente

& hoje é dia de ficar em casa, esvaziando os cinzeiros da memória

& não elogie ninguém, não fale mal de ninguém; a gente nunca sabe o que vem por aí

& o perdão não é concedido para anular o erro que se cometeu, mas para evitar o próximo

& a Esquerda gosta tanto de humilhar quem é burro quando a Direita de humilhar quem é pobre

& eu queria ser sem emoções, mas só se fosse do jeito de uma árvore

& a alma da gente é um pião rodando, e o corpo é a ponteira de ferro que faz contato com o mundo

& a tristeza é uma gripe da alma

& nenhum mal dura para sempre; ele é substituído por um mal maior

& cyborg não faz check-up, faz back-up

& tem idéias que já vêm prontas, tem outras que é preciso adular muito pra que possam render alguma coisa

& toda editora deveria ter um selo só para livros de memórias de camareiras de hotel

& se os chineses vivem do outro lado da Terra, nada mais natural que tenham preferido pousar no outro lado da Lua

& se eu me tornasse milionário acabaria virando um misantropo que se dedica à filantropia

& nada como um sucesso atrás do outro, com um fracasso no meio

& a política é um reality-show onde uma porção de caras tentam enriquecer e a gente fica torcendo para que uns enriqueçam mais do que os outros

& passei a noite escolhendo as pepitas que vou jogar de volta ao rio

& a raiva alheia faz comigo o que faz o fogo ao basalto

& difícil achar um policial que saiba a diferença entre traficante e transeunte

& estamos todos prontos, de coturno, mosquetão e capacete, para defender o hímen da Mãe Pátria

& vendi minha alma ao Diabo e descobri depois que Deus ficou com 10%

& quem vê um rosto humano num pão mofado está a um passo de ver um significado para a existência humana

& quem me dera que a vida fosse como aquelas fazendas de trabalho escravo onde enquanto você estiver endividado não pode ir embora

& e surgiu um novo tipo de zumbi onde o corpo fica intacto e é a alma que apodrece

& a pirâmide social brasileira é do tipo que mantém sacrifícios humanos lá no topo

& tudo que acontece pela primeira vez será, mesmo assim, avaliado nos termos do que já aconteceu antes

& ser poeta, às vezes, é distribuir o que não tem e explicar o que não sabe

& tem gente cheia de auto-estima que está precisando fazer uma auto-estimativa

& a velhice é o lado B da vida; é lá que estão as surpresas discretas, as jóias sob a poeira do futuro