quarta-feira, 23 de setembro de 2026

5254) A arte de discutir a relação (23.9.2026)



 
Há pouco tempo tomei a decisão de maratonar a “Trilogia Before”, três filmes dirigidos por Richard Linklater, dos quais eu já tinha visto alguns trechos, na TV ou na Internet. 
 
Os filmes são Antes do Amanhecer (“Before Sunrise”, 1995), Antes do Pôr do Sol (“Before Sunset”, 2004) e Antes da Meia Noite (“Before Midnight”, 2013). 
 
Agora, seguem-se numerosos spoilers, e quem ainda não viu os filmes considere-se avisado. 


O primeiro filme narra o encontro entre o norte-americano Jesse (Ethan Hawke) e a francesa Céline (Julie Delpy). Os dois têm vinte e poucos anos, e se conhecem num trem. Resolvem passar uma noite inteira caminhando por Viena até viajarem no dia seguinte, ela de volta a Paris, ele de volta aos Estados Unidos. Marcam um novo encontro para dali a seis meses. 


O segundo filme mostra, nove anos depois, Jesse em Paris, autografando o livro em que fez uma auto-ficção daquela noite vienense, e que virou best-seller. Céline aparece de repente. Os dois voltam a se conectar, passam o dia caminhando por Paris e acabam no apartamento dela. 


O terceiro filme mostra os dois, nove anos depois do segundo, vivendo juntos e com duas filhas pequenas, que vêm se somar ao filho adolescente que Jesse tem de um casamento anterior. Continuam juntos, mas a relação é tensa. 
 
Eu sempre pensei que esses três filmes eram uma trilogiazinha bobo-romântica, estilo Candelabro Italiano  ou Dio, Como Te Amo (perdão pelas referências datadas). 

O que me convenceu a vê-los foi a filmografia de Linklater, de quem admiro muito Waking Life (2001), A Scanner Darkly (2005), Blue Moon (2025) e Nouvelle Vague (2025). Não vi os demais. 
 
Mais do que uma historiazinha “boy meets girl”, os filmes de Linklater pertencem àquele gênero tão difícil que alguém já definiu como “filmes de papo-cabeça do começo ao fim”. São papos-cabeça porque os personagens não conversam apenas conversa-de-namoro, eles falam sobre a vida, o universo e tudo o mais, mesmo envolvidos desde o primeiro instante numa situação de interesse erótico imediato e cumplicidade afetiva sendo construída aos poucos. 
 
O primeiro filme me pareceu o mais bem construído, como filme em si, filme que se pretendia completo (tanto é assim que a continuação só veio nove anos depois). Os dois simpatizam um com o outro no trem, ele convence a moça a descer com ele em Viena, se bem que ela não precisa de muito esforço para ser convencida. 
 
E eles andam numa Viena colorida e acolhedora, que não tem nada a ver com aquele labirinto gótico de O Terceiro Homem (Carol Reed, 1949).  


Há vários pequenos episódios movimentando esta típica “história onde nada acontece”. Num café, uma cigana pede para ler a mão da moça. Na beira do rio, um poeta de rua lhes dedica um poema. Numa loja de discos, eles entram numa cabine para escutar um álbum, e ficam observando um ao outro disfarçadamente, com curiosidade e atração. Numa ponte, têm um diálogo divertido com dois atores de uma peça absurdista. Num bar, fingem (teatralmente) telefonar aos amigos para comentar a pessoa incrível que acabam de conhecer. 



Todos estes pequenos momentos (como aliás a trilogia inteira) se baseiam num tripé simplíssimo de recursos. 
 
Um: um casal de atores descontraídos, expressivos sem esforço, e que demonstram entender o que estão dizendo. Dois: um roteiro em que os atores colaboraram, embora só viessem a receber créditos por isto nos filmes 2 e 3. Três: um trabalho de câmera ágil, acompanhando duas pessoas que caminham enquanto falam. Há tomadas contínuas de oito ou dez minutos, em que a conversa, a caminhada e o enquadramento fluem de maneira admirável. 
 
O segundo filme tem um aspecto diferente. Não existe mais a novidade, o frescor, o inesperado que eram parte do charme do filme inicial. Mas o diretor e sua equipe usam esse trunfo a seu favor. Todo o segundo filme é um comentário ao primeiro, às expectativas que gerou, a tudo que aconteceu ou deixou de acontecer, e tudo que afastou durante nove anos essas duas pessoas. O filme 2 é um imenso reflexo do primeiro, e com isto se torna mais encorpado, mais sólido. São dois-em-um. 


E outra coisa que só percebi a posteriori, checando as informações de filmagem e algumas resenhas: Antes do Pôr do Sol é praticamente um filme em tempo real, um filme que durante uma hora e 20 descreve o que acontece a estes personagens durante uma hora e 20 de suas vidas. Não é uma tomada contínua, claro, mas os pedaços (foram 15 dias de filmagem) são colados para dar essa impressão. 
 
O terceiro filme dá um salto brutal para o futuro, embora tenham se passado apenas nove anos, o mesmo intervalo que separava os dois primeiros. Aqui já aparece Hank, o filho de Jesse num casamento onde tudo deu errado; e as duas filhas gêmeas que ele e Céline tiveram entre os filmes 2 e 3. É outra vida. É outro mundo. 



Depois de Viena e Paris, os dois estão agora na Grécia, passando férias com amigos, levando as crianças. E a carruagem está suspeitamente cor-de-abóbora. 
 
Na segunda metade do filme os dois vão passar uma noite (“livres das crianças”) num hotel grego, numa situação totalmente propícia a um clima de lua-de-mel. Tudo prenuncia o que os resenhistas chamam “uma tórrida noite de prazer”, mas rapidinho começa uma discussão interminável a respeito do filho dele, da ex dele, das filhas dos dois, do trabalho dele, do trabalho dela, dos casos que ele talvez tenha tido, dos dela também... Céline se enfurece várias vezes e sai do quarto do hotel batendo a porta (volta depois para vestir a calcinha, que ficara jogada aos pés da cama). E no final os dois se ajeitam. Mais ou menos. 


Mais uma vez, o que sustenta o filme é a simplicidade do registro (câmera + montagem), a segurança dos atores, e o roteiro, escrito a seis mãos com o diretor. 
 
A Nouvelle Vague (que Linklater tanto admira) consagrou o gênero cinematográfico que alguns críticos chamam o Filme De Apartamento. Uma sala onde pessoas conversam sem parar, com algumas escapadas à cozinha, ao terraço... E conversam geralmente, sobre suas impossibilidades amorosas ou suas ansiedades profissionais. 
 
É o cinema do francês Eric Rohmer, cujo O Raio Verde é citado em Before Midnight, na cena em que o casal fica acompanhando com os olhos o pôr-do-sol. É o cinema do canadense Denis Arcand (O Declínio do Império Americano, etc.), aqueles almoços de uma turma de amigos, que duram longas horas de papo. É o cinema do brasileiro Domingos de Oliveira e seus numerosos filmes sobre discussões amorosas. 
 
Com o passar dos anos e a miniaturização do equipamento cinematográfico (imagem + som), esses filmes se libertaram do asfixiante apartamento e saíram à rua, foram à praia, à montanha, tornaram-se filmes peripatéticos em que os personagens conversam caminhando. É uma besteira, mas os filmes ganharam muito com isto. 
 
Nos anos 1950-60 filmava-se com aquelas câmeras Mitchell enormes, rodando sobre trilhos.  Filmar uma cena era como ficar empurrando uma geladeira pra lá e pra cá. Com câmera e gravador portáteis, os filmes bateram asas. 


A trilogia Before acompanha um casal dos 23 aos 41 anos de idade, e não apenas um casal de personagens. O casal de atores/roteiristas também viveu esses dezoito anos. 
 
No terceiro filme, Jesse Wallace explica aos amigos gregos o argumento do seu próximo livro: o relato de pessoas com problemas de memória. 
 
Existe (diz ele) aquela pessoa cuja memória se esvai rapidamente, que não guarda nada, e para quem tudo é novidade e descoberta. Seria isto uma metáfora do primeiro filme, em que os jovens Jesse e Céline dão o tempo inteiro a impressão de estar abrindo os olhos para o mundo pela primeira vez? 
 
E existe o caso da mulher que parece estar recordando tudo, vive num déjà-vu permanente. Tudo que lhe acontece, por mais inédito que seja, ela pensa: Mas, de novo?... Eu já vivi este momento!  Poderia ser uma metáfora do terceiro filme, daqueles relacionamentos onde cada gesto é o milésimo gesto, cada discussão a milésima discussão, e cada reconciliação negociada está retornando pela milésima vez. 








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