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domingo, 12 de setembro de 2021

4743) "Eu quero ler, e não posso" (12.9.2021)



Quando se fala nessa história de gente que lê livros e gente que não lê, existe uma tendência a dizer que o brasileiro não lê porque só gosta de televisão, de novela e tudo o mais. Pode até ser, mas tem gente que gostaria de ler e não consegue.
 
Eu estava de passagem por Campina Grande muitos anos atrás, não sei exatamente quantos. Eu estava na casa dos 50 anos. Era uma época ótima, de muito trabalho, muitas viagens, e muita farra também.
 
Tinha saído com uma turma de amigos, era sábado e a gente estava bebendo e conversando desde a tarde. A certa hora da noite, entramos no carro e alguém disse:
 
– Olha, vocês eu não sei, mas eu estou com fome. Pago um milhão de reais por uma galinha guisada com macaxeira.
 
O que estava ao volante anunciou:
 
– Pois pode ir preenchendo o cheque, porque vamos direto pra Tia Noêmia.
 
Era uma casa em José Pinheiro, o popular Zepa, bairro dos raposeiros, os torcedores do Campinense; mais populoso do que muitas cidades paraibanas. Chegamos lá, era uma casa discreta, com uma latada na lateral, meia dúzia de mesas.
 
Sentamos, fizemos os pedidos, brindamos na primeira rodada de cerveja, e quando limpei a espuma do lábio olhei em redor e numa mesa próxima avistei João Melo bebendo sozinho. Pedi licença à turma, levantei e parei junto da mesa dele.
 
– Fala, caba safado.
 
Ele ergueu olhos carrancudos, mas que se arregalaram ao me reconhecer. Ficou de pé, demos um abraço, ele me pediu para sentar. Engatamos na conversa, nas lembranças.
 
Tínhamos estudado juntos no Estadual da Prata, nos anos finais do ginásio. Tempo bom. João era um aluno irrequieto e inteligente. De vez em quando era botado pra fora de classe, porque conversava incontrolavelmente. Algumas vezes fugimos juntos, eu, ele e mais alguns, pra cortar caminho pela Duque de Caxias e ir ver o treino coletivo no campo do Treze. Para se ter uma idéia, João Melo era raposeiro, ia só pela aventura e pela farra.
 
– Mas Braulio... Lembra quando teve o golpe de 64? A gente tudo amontoado no pátio lá de cima, olhando os PM bloqueando a saída dos portões do colégio... E a gente cantando: “Acorda Maria Bonita, levanta pra fazer café...”
 
– “Que o dia já vem raiando, e os polidoro já tão de pé...”
 
Risadas. “Polidoro” era como se chamava soldado da PM naquele tempo. Lembramos de Prof. Almeida, que ensinava Ciências e trazia a aula na ponta da língua, como quem recita uma peça de teatro; Dona Wanda, mãe dos gêmeos, que ensinava Geografia e tinha uma voz de artista de cinema; Celso, que era gay e botava moral, na aula dele ai de quem desse um pio; Josusmá Viana, outro que ensinava Português, risonho, bem humorado...
 
– Mas Braulio, e tu perdesse um ano, não foi? Rapaz, nunca acreditei.
 
– Eu vagabundava muito. No fim do ano, quem me lascou foi Matemática e Desenho.
 
– Teu pai te deu uma surra?
 
– João, era melhor que tivesse dado... Eu levei a notícia pra ele, ele escutou, fez assim com a cabeça e não disse nada. Nunca mais tocamos nesse assunto. Mas daí pra frente eu tirei umas notas boas, acabei compensando.
 
– Ah, rapaz, meus parabéns! Eu soube que você publicou um livro. Um livro! Vi no jornal, faz anos isso.
 
Àquela altura, eu já tinha publicado meia dúzia. O orgulho dele era visível. Um livro! Perguntei sobre o trabalho. Ele trabalhava de supervisor numa fábrica. Casado, claro, quatro filhos entre dezoito e cinco anos. Morava no Zepa, ali pertinho.
 
Lembrei que muitas vezes a gente voltava do colégio e ia comprar livros de bolso na lojinha das Edições de Ouro, ao lado do Capitólio. Eu ficava horas escolhendo, comprava algum policial de Irving Le Roy ou um livro de terror. João Melo tinha a minha idade, mas levava leitura a sério. Eu lembrava ele comprando, com expressão concentrada, livros como Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco ou A Besta Humana de Émile Zola.
 
– Tu ainda lê muito, João? Vou te mandar meu livro.
 
– Ah, rapaz, quem me dera... Faz anos que eu não leio um livro. Nem lembro mais qual foi.
 
Começou a descrever a rotina dele, sem lamentações, sem coitadismo. Era “o tirinête da existência”, como ele disse com bom humor. Acordando com o dia ainda escuro, um transporte para o centro da cidade, outro para Bodocongó, e mais uma caminhada de alguns quilômetros até o lugar da fábrica, se não quisesse ficar esperando uma kombi que fazia uma ida-e-volta. O salário contado. A mulher cuidando da casa e volta e meia costurando, volta e meia aprontando salgadinhos, a filha mais velha que já dava aula em algum lugar... Chegava em casa nove da noite, era só banho, janta, conversa e sono de novo.
 
– E no fim de semana?
 
– Levar os menores pra passear. Quando tou rico é um cinema, quando tou pobre é correr no parquinho. E de vez em quando uma cerveja com os amigos. Hoje marquei aqui com um vizinho, que até agora não apareceu. Eu pensei: “Vou tomar só uma, pra não passar em branco.” E aí olha quem aparece. O fí de Seu Nilo. Teu pai como vai?
 
– Faleceu há pouco tempo. Vamos tomar uma em lembrança dele.
 
Tomamos. Começamos a falar de livro. Naquele tempo, a gente falava muito de livros e mesmo sendo da mesma idade João me dava conselhos, indicava “títulos fundamentais”, segundo dizia.
 
– João, eu só li Capitães de Areia por tua causa.
 
– Não me lembro desse.
 
– Jorge Amado, rapaz!
 
– Sim, Jorge Amado eu sei quem é. Não lembro se li nada dele.
 
Bem, eram uns trinta e cinco anos de intervalo. As coisas vão ficando na bruma. João tinha imaginado que as coisas iam ser diferentes, mas quando o pai morreu ele teve que parar de estudar, com o segundo grau completo e só. A mãe doente. A inflação. As crises. Os empregos que nunca rendiam grande coisa. Vieram mulher e filhos, aumentando as despesas. Trabalho, trabalho, trabalho.
 
– Eu não tenho cabeça, velho. A hora que eu tenho pra ficar em casa é só pra ver televisão. Quando preciso ajudar meus filhos com dever de casa é um sacrifício, porque o juízo não entra em foco, sabe como é? Dá uma trava. “Pai, o que é triângulo equilátero?...” E eu não lembro mais nem o que é triângulo.
 
Era alguns meses mais novo do que eu; agora, parecia anos mais velho. Nas aulas de Josusmá, havia um exercício horroroso de levantar e ir na frente do quadro-negro fazer um discurso de improviso; eu detestava isso, ficava vermelho, gaguejava. João Melo tirava essas coisas de letra. Parecia uma versão de Rui Barbosa feita por Oscarito.
 
Lembrei trechos de um desses discursos dele, que a turma ficou repetindo: “Bravos concidadãos... A Pátria precisa de vós! A Pátria precisa de voz! (gesticulando na garganta, com expressão trágica) A Pátria está muda! A Pátria está surda! A Pátria está mouca! A Pátria está oca!...”  E a gente rolava de rir, batendo palma.
 
– Nem me lembrava disso – disse ele. – Como é que tu lembra, rapaz? Isso é uma memória da porra.
 
– A gente ficou anos repetindo isso. Eu, tu, Lagoa Seca, Zé Renato, Nicó... Lembra de Nicó? Ele depois virou dono de um curso de inglês em João Pessoa.
 
Um vento soprou por cima da vida de João Melo. Um vento espinhara, o bafo quente do sertão, que cresta tudo, que tudo torra e esfarela. Ele não podia saber, mas aqueles anos despreocupados, com livros de bolso, cinema no sábado, futebol no domingo, tinham sido o ponto alto da leitura na vida dele. Dali em diante foi só descida, descida para a cratera-fornalha dos empregos, das dívidas, dos compromissos... A família compensando, com suas alegriazinhas e seu aconchego, o moedor-de-carne em que se transforma a vida de quem trabalha assim. De quem corre como se tivesse uma corda amarrada na cintura e a outra ponta amarrada num trem que não para nunca.
 
João Melo jamais vai ler estas linhas. Não é para ele que eu escrevo meus livros. Meus livros são lidos por quem se acomoda numa poltrona, no silêncio de uma sala, põe uma música baixinho, abre um vinho, uma cerveja... Ou talvez por quem me lê em pé no metrô, máscara no rosto, livro aberto à frente da cara, olhos concentrados... Ou por quem lê de noite, sentado na cama, luminária puxada para pertinho, uma esposa ou marido ressonando junto...  
 
Ler é um luxo, um privilégio? Ou é uma batalha?  Não duvido que muita gente, tão surrada pela vida quanto João Melo, ainda consiga varar um Jorge Amado de ponta a ponta, um Paulo Coelho que seja. São vitórias. Ler exige esforço, e por isso exige esforço de pessoas exaustas. 

O moedor-de-carne não deixa muitos minutos livres para investir em leitura. Mesmo quando os boletos estão pagos e tem comida na geladeira, mesmo quando as pessoas estão risonhas e aparentemente tranquilas, aí vem a música, vem a televisão, vem o cinema (“quando tou rico”)... Tem novela, tem filme na telinha, tem tanta coisa pra se compartilhar, a família no sofá, nas poltronas, conversando, ouvindo, acompanhando os programas, trocando uma idéia... Tudo conspira para que um homem com a barba quase branca acabe desistindo de se isolar num quarto pra ler Capitães de Areia.
 
 
 
 
 
 
 
 







domingo, 24 de janeiro de 2021

4667) Primeiras Estórias: "Pirlimpsiquice" (24.1.2021)




 
É um dos melhores contos que já li sobre teatro. E sobre a arte do improviso.
 
Dentro do livro Primeiras Estórias (1962) de Guimarães Rosa, é uma das histórias de ambientação mais chegada ao urbano, à cidade. Mais do que às fazendas, sítios e pequenos vilarejos onde o autor costuma ambientar seus enredos.
 
Tudo ocorre dentro de um colégio interno que tem algo do Ateneu (1888) de Raul Pompéia, aqueles alunos buliçosos e em permanente refrega, os diretores pomposos, cheios de retórica retumbante. E é o avesso do Ateneu, porque ao fim e ao cabo o conto é alegre, divertido, o autor costura enredos entrecruzados de conflitos, engenhosidades, trapalhadas.
 
Mediante uma efeméride qualquer, o colégio resolve encenar uma peça de teatro, Os Filhos do Doutor Famoso, e para isso convoca onze ou doze alunos sob a batuta do Dr. Perdigão (“lente de corografia e história-pátria”). Começam os ensaios! 
 
Pequenos solavancos de início: Zé Boné, gozador compulsivo, precisa ser posto nos eixos; Ataualpa e Darcy, que farão papéis de pai e filho, estavam de-mal, mas selam as pazes trocando selos estrangeiros para as respectivas coleções.
 
Combinam todos que o enredo da peça deve ser mantido em segredo absoluto, sem vazar informação, até a estréia. E todos desconfiam da capacidade do Zé Boné manter o trato, ele o irrequieto, “o basbaque”:
 
Sem fazer conta de companhia ou conversas, varava os recreios reproduzindo fitas de cinema: corria e pulava, à celerada, cá e lá, fingia galopes, tiros disparava, assaltava a mala-posta, intimando e pondo mãos ao alto, e beijava afinal – figurado a um tempo de mocinho, moça, bandidos e xerife.
 
Zé Boné é o teatro em estado puro, coringal, brechtiano, mas como se trata de um colégio do tempo do pincenez, dão-lhe um papel minúsculo de “policial”, com poucas falas. E o narrador da história também se contenta com o papel de “ponto” – aquele assistente que fica escondido, “soprando” as falas que os atores venham a esquecer no calor da refrega.


(Brincante, de Antonio Nóbrega e Walter Carvalho)


Surge um perigo: dois alunos não escalados para a peça, o Tãozão e o Mão-na-Lata, formam oposição e ameaçam descobrir o segredo. O grupo confabula e resolve inventar uma história falsa, alternativa, que seria vazada aos poucos, protegendo assim a história original. E começam a sugerir cenas imaginárias:
 
E o Tãozão e o Mão-na-Lata no assunto do teatro nem tocavam, fingindo decerto não dar a tanta importância. Mas, a outra estória, por nós tramada, prosseguia, aumentava, nunca terminava, com singulares-em-extraordinários episódios, que um ou outro vinha e propunha: o “fuzilado”, o “trem de duelo”, a “máscara”: “fuça de cachorro”, e, principalmente, o “estouro da bomba”. (...)  Já, entre nós, era a “nossa estória”, que, às vezes, chegávamos a preferir à outra, a “estória de verdade”, do drama.
 
É um mecanismo interessante. Por cima da Obra oficial cria-se, por emergência eventual, uma Contra-obra menos elevada, mas emocionalmente mais próxima dos que a executam. Como aqueles músicos de Sinfônica que no sábado se reúnem num bar para tocar jazz. (O lema do Dr. Perdigão é: “Lembrem-se: circunspecção e majestade!”)
 
Digressão: Conta-se que Garcia Márquez, quando escrevia Cem Anos de Solidão, trabalhava de dia, e de noite ia beber com seu amigo Álvaro Mutis. Comentava episódios do romance em preparo, e pedia dicas sobre tal personagem, tal cena, etc. Quando o livro foi publicado, Mutis descobriu que era tudo mentira: para esconder o livro de verdade, Márquez improvisava toda noite sua “outra história”, o que o ajudava a descontrair.
 
Eis senão quando, de tanta curiosidade que borbotava em volta dos atores-conspiradores, começa a circular o boato: a história vazou! 
 
De fato, circulava outra versão, completa, e por sinal bem aprontada, mas de todo mentirosa. Quem a espalhara? O Gamboa, engraçado, de muita inventiva e lábia, que afirmava, pés juntos, estar dono da verdade.
 
Brota portanto uma terceira estória da peça, e os atores aferram-se à sua verdade original:
 
Por ora, também, tínhamos de combater essa estória do Gamboa, que nos deixava humilhados. Repetíamos então, sem cessar, a nossa estória, com forte cunho de sinceridade.
 
O narrador vê todos os colegas com o texto na ponta da língua e se aperreia: então não vão precisar do ponto?!  E na véspera da estréia surge uma ameaça inesperada:
 
Nisso, porém, sobreveio-nos o trom de Júpiter. O padre Diretor assistira ao quinto ato. Ele era abstrato e sério: não via a quem. Sem realces, disse, que nós estávamos certos, mas acertados demais, sem ataque de vida válida, sem a própria naturalidade pronta...

 
E os quase-estreantes vão dormir com um barulho desse. E na manhã do dia fatal, outro terremoto: a família do Ataualpa manda buscá-lo urgente para ver o pai moribundo, e só quem pode tomar seu lugar na peça sou eu! O narrador! O único que sabe todas as falas de cor, por ser “o ponto”!
 
Platéia cheia a mais não caber, zum-zum-zum, calor, luzes que se reduzem, cortinas que se abrem. E o narrador constata, só ali, de frente para “o povaréu de cabeças”, que a abertura mesmo da peça era um poema religioso e cívico que seria recitado pelo personagem do Ataualpa, mas esse poema só o Ataualpa sabia! 
 
Dá nele o famoso “branco”, nêmesis dos atores desde a Grécia. Sem falar, bloqueado, o narrador vê a risadaria geral do povo diante da peça que não começa, os gestos enérgicos dos professores cobrando-lhe ação! E ele não sabe o poema de abertura! E aí começa a vaia.
 
Com a vaia estrondando no teatro inteiro, acontece então a mais imprevisível das respostas. Zé Boné pula na frente! 
 
A vaia parou, total.
Zé Boné representava – de rijo e bem, certo, a fio, atilado – para toda a admiração. Ele desempenhava um importante papel, o qual a gente não sabia qual. Mas, não se podia romper em riso. Em verdade. Ele recitava com muita existência. De repente se viu: em parte, o que ele representava, era da estória do Gamboa! Ressoaram as muitas palmas.
 
E desse ponto em diante a estória se encaminha para o desfecho lúdico e festivo. Há uma lição de estética e retórica embutida no episódio. Parece bastante clara: de nada adianta ter uma história articulada, circunspecta, perfeita, decorada na ponta da língua, se lhe falta (como o padre Diretor percebera) “ataque de vida válida”.
 
Essa “vida” é quem salva o espetáculo depois do branco inicial. Zé Boné, vendo a necessidade de se fazer alguma coisa, faz a primeira que lhe vem à cabeça, o que às vezes é mesmo a melhor solução. Com isso, ele zera o script e a peça começa da estaca zero, podendo contar apenas com a memória do elenco a respeito das três histórias sabidas por todos: a peça original, a peça-falsa de despiste, e a peça do Gamboa.



E a noite de glória se transforma na apoteose do Repente, do Improviso:
 
Eu mesmo não sabia o que ia dizer, dizendo, e dito – tudo tão bem – sem sair do tom. Sei, de mais tarde, me dizerem que tudo tomava o forte, belo sentido, esse drama do agora, desconhecido, estúrdio, de todos o mais bonito, que nunca houve, ninguém escreveu, não se podendo representar outra vez, e nunca mais.
 
“Pirlimpsiquice” é o nome que Rosa dá a esse fenômeno que tem um pouco do pó mágico de pirlimpimpim (Rosa era um admirador de Monteiro Lobato) e dos fenômenos psíquicos pelos quais ele tanto se interessava.
 
Na tradução norte-americana de Barbara Shelby, o próprio Rosa sugeriu traduzir o título por “Hocus Psychocus”, a mesma brincadeira em cima da expressão “hocus pocus”, latim macarrônico do século 17 usado pelos mágicos, uma espécie de “abracadabra”.
 
O conto é uma pequena Teoria do Improviso, com um exemplo cabal traçado e cumprido de A a Z. Uma peça inteira, decorada na ponta da língua, precisa ser reinventada no gume do instante, por causa de imprevistos. O que salva o elenco?
 
Primeiro, os ensaios, que rolavam há semanas. Mesmo que o texto recriado na hora da apresentação fosse uma mixórdia das três narrativas, o fato de que todo mundo as conhecia, os eventos, personagens, situações, numerosas falas, os dispensava de criar. O improviso era acima de tudo recombinatório, ficando a invenção de falas inéditas apenas para suprir as lacunas.
 
Segundo, a pressão do público. Sem essa pressão ninguém cria. Se fosse um ensaio, tinham parado para tomar água e não recomeçariam nunca. O fato de agora ser tudo pra valer obrigou a acontecer alguma coisa.
 
Terceiro, a coragem de mergulhar no desconhecido, estimulada talvez pelo fato de que os atores eram todos garotos, nenhum deles tinha uma reputação a defender, um nome a zelar.
 
E então... Pula-se no abismo. Veja-se como os verbos “pular”, “saltar” e equivalentes são usados pelo autor para indicar o gesto decisivo do “agora-vai”.
 
Na hora em que a vaia estronda e é preciso fazer alguma coisa...
 
Zé Boné pulou para diante, Zé Boné pulou de lado. Mas não era de faroeste, nem em estouvamento de estrepolias. Zé Boné começou a representar!
 
Note-se que era o mais estouvado do grupo, o menos confiável como ator, porque o mais livre; e a quem tinham dado papel de mero figurante quase sem falas.
 
Na hora em que o narrador, no palco, percebe que precisa terminar a peça de algum modo...
 
Cheguei para a frente, falando sempre, para a beira da beirada. Ainda olhei, antes. Tremeluzi. Dei a cambalhota. De propósito, me despenquei. E caí.
 
É o fecho triunfal da peça improvisada, sucesso absoluto. O que não impede de no dia seguinte, no recreio, o Narrador ser abordado pelo Gamboa, que se gaba: “Viu como era que a minha estória também era a de verdade?”  E ele fecha o conto:
 
Pulou-se. Ferramos fera briga.
 
Pular é o gesto sem-volta do ato criativo. Subir no palco para improvisar é como entrar numa briga, onde se sabe o que precisa ser feito e como, mas cada decisão tem que ser ser tomada no pirlimpimpim do milissegundo.

 


(mamulengueiro Chico Simões -- foto IPHAN)
 
 








quarta-feira, 6 de maio de 2020

4577) Ser professor (6.5.2020)




(BT aluno)

Teve um professor meu de Geografia que sempre trazia um mapa-múndi enorme, enrolado. Pendurava num prego grande que tinha por cima do quadro-negro (era aquele quadro de pedra verde, embutido na parede) e usava uma varinha para indicar as coisas que explicava.

Eu sentava na primeira fila, porque a distribuição dos alunos nas “carteiras” (era o nome das bancadas individuais onde a gente sentava e escrevia) era por ordem alfabética. E vi que ele sabia tudo, ou já tinha acostumado, porque ele dizia, por exemplo, “Liverpool é um grande centro portuário”, e tocava com a varinha num ponto, quase sem olhar. Depois eu levantava e ia ver de perto, e era exatamente ali.

Uma vez ele estava falando das alterações do Homem sobre o meio ambiente, falou dos canais, explicou a diferença entre o Canal da Mancha, que é uma passagem natural, e o Canal de Suez, que foi construído por Ferdinand de Lesseps. Falou do Canal do Panamá.  Aí disse:

– Para que serve o Canal do Panamá? – Olhou em redor, olhou para mim, e tocou na minha carteira com a varinha. – Você.

Eu fazia a linha tímido-metido, não dava uma palavra nunca, mas me sentia na obrigação de, em falando, botar pra quebrar.

– Serve para ligar o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, que são os dois principais – respondi.

– Correto – disse ele. – Do ponto de vista geográfico. Mas por cima do ponto de vista geográfico, o ser humano impõe o ponto de vista geo-político, ou geo-econômico. As necessidades reais das populações humanas. – Ergueu a varinha, e demonstrou. – O Canal do Panamá acabou servindo como a via marítima mais curta entre a Costa Leste dos Estados Unidos – indicou com a varinha – e a Costa Oeste dos Estados Unidos. – Fez a varinha descrever um arco de círculo.

– É o imperialismo norte-americano – falou um esperto, da turma lá do fundo.

– Sim e não – disse ele, imperturbável. – Se fosse a União Soviética, fazia a mesma coisa. É a necessidade de manter uma máquina imensa funcionando, porque eles têm 250 milhões de bocas querendo comer três vezes por dia. Por que foi que Vasco da Gama descobriu o caminho para as Índias, arrodeando a África? – A varinha foi até a Península Ibérica, e desceu o trajeto beirando a África inteira e subindo até a Índia. – Porque antes existia um caminho mais curto por Terra, que era esse aqui. – Aí mostrou mais ou menos o tal caminho que passava por Istambul ou Constantinopla, que a maioria dos meus colegas pensava que eram duas cidades diferentes. – Mas a guerra fechou esse caminho terrestre.  Eles tiveram que descobrir outro, que acabou sendo mais comprido, mas quebrou o galho. O Panamá foi o contrário. Ele pegaram a peixeira e abriram uma passagem.

– Por que logo com o pobre do Panamá? – perguntou alguém.

– O Panamá era o trecho mais estreito do continente – disse ele. – Eles podiam tentar abrir através do Amazonas, mas só iam terminar no ano 3.000.

Tive outra professora de Geografia, essa eu lembro o nome, era Dona Elaine, que eu já conhecia porque trabalhava com meu pai, foi uma época em que ele era funcionário da Federação das Indústrias. Ela não usava mapa, não usava varinhas, nada de efeitos especiais. Era uma coroa de cabelo colorido, toda enfeitada, cheia dos anéis, dos colares. Sentava, olhava a turma, cruzava os dedos das mãos e começava a contar uma história. Usava muitos conceitos de economia que na época (eu teria uns 15 ou 16 anos) eu achava chatos. (Aliás, acho até hoje.)

Foi ela que deu uma prova, certa vez, que nunca esqueci. Chegou no dia marcado para a prova, organizou a turma, “você vai sentar aqui, vocês três aí vão ficar espalhados, essa menina fica aqui na fileira da frente, você vai pra ali...”  E todo mundo caladinho, obedecendo. Livros guardados. Caneta e papel na carteira, prontos.

Ela sentou-se, cruzou os dedos, olhou para a turma por cima dos óculos, e disse:

– Quesito Único: “Fale sobre agricultura”. Podem começar. Têm quarenta e cinco minutos.

Eu me virei como pude; preferia que ela tivesse dito “fale sobre as possibilidades de colonização da Lua”, mas enfim.


(BT professor)

Dez anos depois, o professor era eu. Barbudo, cabeludo, de óculos, dava aula de Inglês e de Educação Artística, no Colégio Alfredo Dantas (onde também estudei, dos 9 aos 12 anos). Era um tempo cheio de matérias abstrusas. Tinha Estudos de Problemas Brasileiros, tinha OSPB (Organização Social e Política do Brasil)...

Enfim – eu dava aula de Educação Artística, o que era ótimo, porque o pessoal do Colégio dava carta branca e eu falava de cinema, de poesia... Os alunos (turma mista) tinham 17, 18 anos, por aí.

Me lembro de ter passado uma aula inteira dissecando aquele poema dos galos, de João Cabral, que eu dizia: “Hoje vamos ver um poema de João Cabral de Melo Neto dedicado à torcida do Treze”, e eles vibravam.

Uma vez eu terminei de dar a matéria daquele dia. Parei ali, de pé. Olhei em torno.

– Quantos minutos faltam? – perguntei.

– Cinco – disse alguém.

– Faltou assunto, professor?... – perguntou uma bonitinha, jogando uma ironia.

– Como assim, faltou assunto?! – disse eu. – Vou dar cinco minutos de aula extra, e o assunto são vocês que escolhem. Bora, escolham aí. Astronomia, Poesia Concreta, História do Império Bizantino, Cirurgia Cardíaca, Mineralogia...

Eles riam com as minhas tiradas. Aí alguém gritou: “Mineralogia!”.

– Mineralogia – anunciei.

Fiz um fictício, fechei os olhos, pus as pontas dos dedos na testa, concentrei, e eles fizeram um silêncio que nem eu esperava.

Abri os olhos, estendi um braço, teatral.

– Os minerais!... – falei, em tom meditativo. – O que sabemos nós dos minerais?!  Nada. Eles nada nos dizem, eles não se manifestam, eles nos ignoram... Não são como os animais, que interagem conosco, tem necessidades iguais às nossas. Não são como os vegetais, que como nós têm o ciclo da vida. Os minerais vivem noutra escala do tempo. O que para nós são 100 mil anos, para eles é um segundo. O que são eles, então?! Talvez sejam deuses adormecidos, esperando o momento em que evoluirão para estátuas, caminharão por fim nesse planeta que será só seu...

Eu tinha lembrado um livrinho de bolso, “O Falso Planeta”, de Peter Randa.  Saí por ali enrolando, citei Augusto dos Anjos, que mesmo fora do tema sempre impressiona, e fiz um fecho qualquer, bem dramático. Eles vibraram, alguns bateram uma palmazinha.

Aí o eterno e infalível Engraçadinho da Turma dos Fundos perguntou com voz desdenhosa:

– Cai na prova?...

Eu parei, estendi o braço na direção dele como se fosse um rifle, dedo esticado, e disse:

– A prova é a vida, rapaz!  A prova é a vida!

E nesse instante o Roteirista do Mundo me deu uma colher de chá, e a sineta ressoou.










sábado, 2 de fevereiro de 2013

3099) Dia de prova (2.2.2013)





Foram encontradas estas passagens, entre as anotações do Budista Tibetano:

“Últimos instantes. Todo mundo se arrumando nas cadeiras, experimentando o assento. As provas estão empilhadas na mesa. Não posso me impacientar.  É o momento de repassar a estratégia. Primeira hora, ir de A a Z matando o fácil, o óbvio, ou seja, resolvendo os cinco ou seis tipos de problemas que eu estudei. E, misturados a eles, aqueles outros tão idiotas que até eu descubro a resposta. O meu problema não é nem não saber a resposta, na verdade, porque em geral eu sei, só que não me ocorre justamente no instante em que me seria mais necessária.

“Depois de uma hora: voltar ao começo. Cuidar daqueles que requerem releitura cuidadosa. Ver as sutilezas e as armadilhas de enunciado.  Pegar os mais acessíveis e avançar em sua solução, tentando de verdade ir até o fim.  Quando se deparar com um muro total, um branco total, passar para o próximo. Se ainda tiver um palpite, uma intuição de que está indo no caminho certo, melhor permanecer, pode ser que depois não lembre exatamente de tudo que está lembrando agora.

“Com um pouco de sorte, eu diria que estas duas primeiras passadas já deixariam resolvidos 50% dos problemas.  Isso depende, claro. Tem gente que se sente mais à vontade em raciocínios longos e coordenados, e têm dificuldade em entender problemas de mais curto alcance. Mas este é o momento, se você é um desses felizardos que se interessam pela matéria sim, que acham aquilo importante sim, que estão dispostos a virar umas noites em cima de um livro sim, alguma coisa vocês acabarão entendendo. Chama-se a isso a Perpetuação da Chama do Saber. O sujeito é aprovado com louvor em Cabala Tridimensional e diz: “O meu segredo é que eu gosto do que faço”.

“Se você gosta do que faz, começa aqui a melhor parte da prova, porque ali está o filé dos problemas complicados – porque exigem memória, ou cálculo, ou engenhosidade, ou dialética – dos problemas desafiadores e que serão como uma muralha entre você e seu destino. Os que você derrubar, passam a fazer parte do seu território. Os que o fizerem tombar a cabeça exausto e adormecer, são os que dizem: “Não Trespasse”.

“Grandes vitórias já foram obtidas nos derradeiros segundos, quando a mente febril e a mão em cãibras terminavam de rabiscar, de modo minimamente legível, as linhas finais de um raciocínio límpido e inquestionável, e no qual, dez minutos atrás, ele próprio nunca tinha pensado. Se a nota obtida foi a que o aluno precisava? Isto é questão secundária. Uma prova é como um salto de trampolim, aquilo tem que ser perfeito, e se algum momento de perfeição ocorre, pra que nota? O que é uma nota?”



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

3074) Didáticos eletrônicos (4.1.2013)





Nas discussões sobre o livro eletrônico (os Kindles, e-books e assim por diante) tem havido uma ênfase muito grande sobre o modo como essa nova mídia vai afetar a Literatura. Fala-se, p. ex., no perigo da disseminação rápida e incontrolável de versões não-revisadas (ou cheias de erros) de clássicos literários. O erro não é privilégio do texto eletrônico: eu tenho antologias-de-papel de Drummond e de Augusto dos Anjos, lançadas por editoras respeitáveis, com erros de revisão, versos fora do lugar, etc.  Fala-se, pelo lado positivo, na possibilidade de versões em hipertexto (edições críticas, p. ex.) desses mesmos clássicos, pois o livro eletrônico permite encher um texto de notas, observações, variantes, links informativos, etc., e esconder isso tudo com um simples toque numa tecla. Quando o leitor quiser ter acesso a isto, outro toque e o material crítico reaparece. Pra mim, isso é uma maravilha.

Existe outro departamento, contudo, onde o livro eletrônico tem tudo para crescer: é o livro didático.  Pensem em livros de Matemática, Biologia, Física, História, Geografia, Química, em que seja possível ramificar e ampliar indefinidamente a discussão de cada assunto. Pensem na possibilidade de livros didáticos que se tornem mini-enciclopédias em processamento constante, atualizando conteúdos (principalmente nas ciências humanas – História, Geografia, etc.). Pensem em livros eletrônicos de Matemática ou Física em que os problemas possam ser organizados de diferentes maneiras – por grau de complexidade, por tema, etc. Pensem na possibilidade de estudar Química ou Geometria com pequenas (e baratíssimas!) animações através de Flash ou de imagens Gif.

Já fiz parte de equipe de uma enciclopédia, e lembro que quando começou a tal da Internet nossos olhos brilhavam ao imaginar que finalmente o que fazíamos não estaria desatualizado e superado pelos fatos dentro de poucos meses. Além disso, todo mundo que tem filhos na escola reclama do alto preço do livro didático. É talvez o mercado mais disputado do mundo editorial, briga de cachorro grande. Esses big-dogs bem que poderiam se eletronizar, se agilizar, começar a investir na criação de webs paralelas em que o material de estudo fosse adquirido por assinaturas anuais. Conteúdos interativos, permanentemente atualizados, com enormes bancos-de-dados com exercícios, testes, problemas, links externos e tudo o mais para quem quisesse aprofundar as questões.  Ao invés daquelas mochilas cheias de livros pesadíssimos, vergando a espinha dos adolescentes, pequenos tablets com milhões de informações ao alcance de um toque. As possibilidades, como sempre, são infinitas.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

3053) Diário de Classe (11.12.2012)




(Isadora Faber)


Houve um bafafá danado, de julho pra cá, por causa da página “Diário de Classe”, inventada por Isadora Faber, uma menina  de 13 anos. Ela criou a página do Facebook para reclamar dos problemas e dos defeitos da escola municipal onde estuda, em Santa Catarina. Pra quê que ela fez isso?!  Choveram reclamações, críticas, ameaças. A avó da menina foi atingida por uma pedra; ela própria foi intimada a prestar depoimento em uma delegacia, porque uma professora a acusou de calúnia e difamação.

A verdade é que ninguém gosta de ver divulgados os seus malfeitos, sejam ações desonestas ou simples negligências. No caso da escola da menina, não acho que os problemas sejam muito diferentes do que se vê na maioria das escolas, públicas ou particulares: orelhões quebrados, fios elétricos desencapados, falta de professores... Cada escola tem problemas diferentes, que no fundo são um só: falta de dinheiro ou má aplicação (por incompetência, descaso ou desonestidade) do dinheiro disponível.  Quem quiser conferir, procure no Facebook a página “Diário de Classe”.

Como tanta coisa na Internet, o página se multiplicou (diria um redator das antigas) “como fogo num rastilho de pólvora”. “O Globo” de domingo diz que já existem mais de cem páginas diferentes, criadas por outros estudantes, nos mesmos moldes. Isto é bom? É ruim? Como sempre acontece quando se bota uma tecnologia na mão de uma multidão, pode servir pra tudo. Estudantes moleques podem querer “trollar” a própria escola postando fotos tiradas em outros lugares e dizendo que foi lá. Alunos relapsos podem agredir a imagem de professores exigentes, por vingança. Alunos podem se sacanear uns aos outros postando fotos ou informações comprometedoras.

Ou seja: os riscos são os mesmos de quando foram inventadas as inscrições cuneiformes ou os hieróglifos egípcios. Qualquer nova maneira de multiplicar uma informação pode ser usada para o bem e para o mal.  O lado bom é que a Internet e as redes sociais, que tantas vezes são acusadas de servirem apenas de vitrine para narcisismos e irrelevâncias, mostram que podem ser também um instrumento de vigilância, de cobrança, de denúncia, etc., principalmente numa área crucial como a do ensino.

A educação federal, estadual e municipal (além das escolas particulares!) vem sendo sucateada há décadas. Se a Internet e as redes podem ajudar a pressionar os governos e as escolas privadas para que atenuem a catástrofe, tanto melhor. Nenhuma tecnologia é melhor ou pior do que o uso que lhe é dado. Os adolescentes estão mostrando que conhecem bem o funcionamento das redes sociais, e que sabem utilizá-las de uma maneira inesperadamente adulta.



quarta-feira, 25 de maio de 2011

2565) A escola na retaguarda (25..5.2011)



A indústria cultural ultrapassou a escola, nas últimas décadas, como instrumento formatador das mentes de crianças e adolescentes. Existe um cabo-de-guerra permanente entre pais e filhos com relação ao tempo de estudo e tempo de lazer. A garotada passa cinco horas na escola; quando volta, quer jogar videogame ou ver televisão. Os pais insistem para que eles vão fazer os deveres, vão estudar, e os guris esperneiam: “Pô, passei a manhã inteira na escola, chego em casa vou ter que estudar de novo?!”. Assim que conseguem, correm para a TV ou o PlayStation e entram numa frenética atividade mental. Se pudéssemos botar em nossos filhos um capacete de eletroencefalograma-em-tempo-real, veríamos que nas duas ou três horas em que passam jogando “Fallout” produzem a mesma quantidade de energia mental dispendida em 150 horas estudando matemática.

Eliminar os aspectos negativos da indústria cultural é uma missão impossível, pois seria preciso bloquear sua sequiosidade vampírica pelo lucro, ou seja, seria preciso negar sua própria natureza, sua própria razão de ser. O símbolo da indústria cultural poderia ser o Fabricante de Jujubas. Ele sabe que a jujuba não alimenta coisa nenhuma, não traz nenhum bem ao organismo, em grandes quantidades pode até fazer mal; mas jujuba é o que ele sabe fabricar... Sendo assim, pau na máquina e jujuba no mundo. Quando alguém o questiona, ele diz: “Mas o povo gosta!” A indústria cultural é uma gruta-de-ali-babá com milhões de jujubas alimentares, televisivas, recreativas, tóxicas, o escambau. Cada um fabrica uma jujuba diferente e nega ser responsável por qualquer problema; se alguma jujuba está fazendo mal, é a do vizinho, não a dele.

Tanto a escola tradicional quanto a indústria cultural têm aspectos positivos e negativos. O difícil é juntar os aspectos positivos dos dois e eliminar os negativos. Existe um pensamento generalizado de que a escola, do jeito que é, segura cada vez menos a atenção e o interesse da meninada. O lazer gratuito (eletrônico) é cada vez mais abundante. As aulas são chatas (giz... quadro-negro...). As matérias são consideradas incompreensíveis ou irrelevantes. Os professores dão as mesmas aulas, ano após ano, com estoicismo, com resignação, em busca da sensação (que nem sempre lhes chega) de que cumpriram com o seu dever. Ganham uma merreca; se perderem o vislumbre do idealismo, de que estão formando os jovens do futuro, o que lhes resta? É difícil eliminar os aspectos negativos da escola tradicional porque eles se referem principalmente a pilares estruturais como conteúdos, legislação, metodologia, composição curricular, reorganização do tempo e do espaço físico, etc., e mexer nisso corre o risco de derrubar o edifício inteiro.

Como dizia Bob Dylan: “É um mundo engraçado, este que está surgindo; parece doente e faminto, parece cansado e andrajoso. Dá a impressão de que está morrendo, mas mal acabou de nascer”. Vai ver que é isso mesmo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

2561) As notícia tão errada (20.5.2011)



(Mário de Andrade, por Baptistão)

Tem causado polêmica o livro Por uma vida melhor de Heloísa Ramos, Ed. Global, em que supostamente o MEC estaria ajudando a destruir a língua portuguesa e prejudicando a alfabetização das crianças. É a campanha política de sempre, procurando más intenções nas menores coisas feitas pelo Governo. Acho um absurdo manchetes ou chamadas tipo “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”. Não é isso, absolutamente. O livro, pelo que vi, faz o que eu faço nestas minhas colunas: defender a fala informal, coloquial, como uma maneira paralela de usar a língua, que pode muito bem conviver com a Norma Culta. Mas eu acho que todos lucraríamos se o enfoque político, mero pretexto para “meter o pau no Governo”, fosse substituído por um enfoque voltado para a língua portuguesa, que é o que está em questão. Eu critico todo Governo, mas neste caso os dois lados merecem críticas.

Diz a autora do livro: "O importante é chamar a atenção para o fato de que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa". Concordo com isto, menos num detalhe, a expressão “substituída”. Não podemos perder a idéia de correto e incorreto, porque existem coisas que são flagrantemente incorretas. E não se pode dar a ninguém a impressão de que a Norma Culta da língua (que também defendo, consistentemente, nesta coluna) não serve para nada, e pode ser substituída pela norma coloquial, ao gosto do falante. (O livro não defende isto, claro. Mas os termos que usa abrem espaço para que alguém o acuse disto.)

Cada um fala do jeito que lhe apraz. Eu digo o tempo todo coisas como: “As pessoa pensa que a Gramática é um bicho de sete cabeça”. É assim que eu pronuncio as palavras quando estou falando, resíduo plebeu de quem foi criado em rua sem calçamento. Mas se eu for escrevê-las vou escrever como Camões escreveria, resíduo elitista de quem foi criado em casa com biblioteca. A não ser que eu esteja escrevendo, num romance ou numa peça, um diálogo de um personagem que fala assim. Então, tenho que escrever assim.

O livro tem a boa intenção de diminuir o enorme sentimento de culpa, de inadequação, de complexo de inferioridade, em milhões de alunos pobres que são escarnecidos diante da turma por terem escrito ou pronunciado uma palavra da única maneira que aprenderam, e que não é a da Norma Culta. O “preconceito linguístico” existe, e existe forte. Nosso dever é legitimar as falas coloquiais, regionais, etc., sem dar a impressão de que se está dispensando o ensino, o estudo e a prática da Norma Culta. A Norma Culta é a âncora da língua, que a mantém firme no centro de uma consciência coletiva e compartilhada. A Norma Culta evita que ela se estilhace em milhares de falares regionais ou, pior ainda, em milhões de indivíduos falando uma língua pessoal que só eles entendem.

sábado, 10 de julho de 2010

2254) Os pais monstros (29.5.2010)



O “Globo” de domingo passado deu uma matéria que, se conseguíssemos eliminar o tom descontraído de um artigo de jornal, poderia facilmente se transformar numa história de terror. O jornalista fala sobre um novo tipo de problema que está aparecendo no meio educacional do Japão: os pais monstros, pais que interferem de todas as maneiras possíveis na educação que seus filhos recebem nas escolas. Ao que parece, há uma faixa de pais (não muito larga, mas muito atuante) que toma para si uma responsabilidade excessiva quanto à educação dos filhos, e não deixa em paz nem a escola nem os professores. Segundo a matéria de Claudia Sarmento, nos EUA esses pais são conhecidos como “pais helicópteros”, porque fazem muito barulho e espalham poeira quando chegam.

Alguns pais plugam gravadores no uniforme dos filhos para gravar todas as aulas e em casa, à noite, examinar o que os professores disseram, e, muitas vezes, discordar deles. Como a cultura japonesa é extremamente formal, uma reprovação no fim do ano é quase uma catástrofe familiar. Nas competições esportivas, os colégios são coagidos a distribuir medalhas com os alunos de acordo com as expectativas ou as ansiedades destes (para que o fracasso não os traumatize), e não com o resultado das provas.

Diz a matéria: “Há mães que exigem que professores busquem seus filhos em casa ou lavem seus uniformes; outras obrigam o colégio a refazer o álbum de fotos escolar porque seus filhos apareceram ao lado de coleguinhas mais bonitos”. E há episódios hilários como o da montagem de uma peça de “Branca de Neve e os 7 Anões” sem anões (ninguém quis o papel) e em que todas as meninas faziam o papel da Princesa. Quando eu vejo essas coisas, sinto um profundo alívio por ter desistido de seguir a carreira de professor.

Pressão sobre professores não é raridade aqui no Brasil. Quem mexe com educação sabe que saímos de um século em que a regra eram professores tirânicos que perseguiam, oprimiam e apavoravam os pobres alunos, para um século em que alunos tirânicos apavoram, oprimem e perseguem os pobres professores. Ninguém é bonzinho a priori. Em escolas públicas de periferia, vemos professores pacatos, fatigados por excesso de trabalho, sofrendo para ajeitar a vida dentro do salário minguado que recebem, e tendo que enfrentar adolescentes belicosos, desafiadores, insubordinados e que muitas vezes vão para a aula drogados ou com armas. E em escolas caras, escolas selecionadíssimas, onde se formam nossas elites econômicas e políticas, já vi professores se queixando de serem humilhados pelos alunos riquinhos. Uma amiga minha ensinou numa escola, aqui no Rio, em que todos os alunos dela vinham para a aula de carro blindado e motorista particular. E quando levavam uma nota baixa ou uma repreensão em sala, diziam: “Vou me queixar de você ao meu pai, você tem idéia de quem é meu pai?”. É assim, amigos. Num país que perdeu seu centro, tudo é periferia.

domingo, 27 de junho de 2010

2197) A história de César (24.3.2010)



César (usarei este nome, que não é o dele) estudou comigo no Ginásio, numa turma em que vim parar por esses remanejamentos escolares que nos jogavam, às vezes, no meio de um grupo de outros quarenta adolescentes que nunca víramos mais gordos. Fazer amizades era um processo relativamente rápido, pois nos primeiros dias de aula já se desenhavam os grupos que as marés das afinidades amontoavam em torno de um centro gravitacional comum: aqui os Comportados, ali os Palhaços, lá adiante os Brigões, e os Estudiosos, os Riquinhos, os Proletas, os De Família, os Amulherados, os Líderes, os Babões...

Vi logo que César pertencia aos Palhaços (era sempre o primeiro a desferir uma graça-sem-graça lá do fundo da sala, durante as explicações das professoras tímidas), aos Brigões (brandia o dedo no nariz de quem se opusesse a ele e chamava pra brigar na saída), aos Proletas (falava errado, a farda era toda cerzida, às vezes tentava tomar o lanche de alguém porque não podia pagar). Fazia de tudo para aparecer; sua vida era um chega-pra-lá permanente para afirmar seu próprio espaço. Era magro, rosto cheio de espinhas, branquelo igual a mim. Tinha uma voz estridente, forçada, e costumava entrar na sala gritando: “Eita calor fela da p... que faz nessa p... desse colégio!” – e dava um chute na primeira carteira que estivesse à sua frente, surdo às reclamações do “inquilino”.

De vez em quando ia às tapas com um ou outro. Por mais de uma vez me ameaçou por uma bobagem qualquer. Como eu falava pouco (viera de outra turma, não tinha nenhum amigo antigo ali), me chamava “o Recalcado”. Quando comecei a tirar notas boas em algumas matérias, parou de me insultar, não por respeito, mas para nos dias de prova sentar perto de mim e ficar pedindo cola – que eu fornecia, quando não corria risco de ser pêgo. Vi-o brigar algumas vezes no recreio. Era cruel mas desorganizado; brigava mal, mas fazia um tal alarido que suas brigas eram logo encerradas pela intervenção de alguém. Voltava das suspensões como se nada tivesse acontecido, gritando impropérios e chutando as carteiras.

Um dia estávamos no pátio conversando com uns caras de outras turmas. César estava com a corda toda, sarcástico, incômodo. Um dos sujeitos cruzou os braços e desferiu esta: “Engraçado, César agora é todo metido a homem, no ano passado era todo mariquinha: quando apanhava choraaaava...” Durou só um segundo; mas vi que ele vacilou, bambeou, meio que acusando o golpe; por alguns segundos seus olhos de cascavel transpareceram um medo sem nome, um susto sem fim. Vi ali o pavor de quem era fraco no bom sentido, de quem era medroso no bom sentido, de quem na verdade gostaria de ser algo diferente do que foi no ano passado e do que está sendo agora, mas nunca achou o caminho. Logo logo César bradou um palavrão e armou uma escaramuça. Continuou o mesmo, mas naquele instante eu aprendi alguma coisa que não sei bem o que foi, estou dizendo aqui para ver se alguém sabe.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

2192) Mais pérolas do vestibular (18.3.2010)




A realização recente de alguns vestibulares trouxe novamente à baila a questão do despreparo dos nossos estudantes, principalmente quando se trata de responder perguntas por extenso, usando suas próprias palavras. 

 Ninguém mais discute que o nefando método quantitativo (o método do xizinho, ou da múltipla escolha) destruiu o sistema neuronial de várias gerações sucessivas. Os jovens não são mais capazes de dizer o que pensam, se é que pensam. Não têm mais opiniões e nunca aprenderam a tê-las, porque sempre foram estimulados a responder com qual opinião alheia, num conjunto de cinco, eles concordam. 

São nossos frankensteins. Mangamos deles, e deve existir alguma entidade metafísica mangando mais ainda de nós. Eis algumas das pérolas mais recentes.

HISTÓRIA GERAL

“O Egito era especializado em obras faraônicas que continuam de pé a milhões de anos”. 

“A Guerra da Sucessão nos Estados Unidos colocou em pontos contrários os escravagistas e os tabagistas”. 

“Durante a Revolução Francesa foram guilhotinados inúmeros reis e rainhas e inclusive gente do povo mesmo”. 

“O Rei Luís XIV criou o Museu do Louvre para abrigar os tesouros do Iluminismo”.

ECOLOGIA: 

“A floresta amazônia está no meio dos ambientes ameaçados pelo gás estufa”. 

 “Devido ao esquecimento global, nossas forestas estão em petição de miséria”. 

“O governo federal faz somente promugar novas leis de desmatamento mas a serração continua”. 

“Desde a morte de Chico Mendes a floresta amazônica nunca mais foi a mesma”.

MATEMÁTICA: 

“Números primos são números ímpares que não se deixam dividir”. 

 “Raiz quadrada é o processo para adivinhar qual foi o número que elevado ao quadrado deu aquele”. 

“A Álgebra surgiu para satisfazer uma necessidade da mente humana de resolver problemas complexos usando letras simples”.

PORTUGUÊS: 

“Oração principal é aquela mais importante nos momentos de maior necessidade, como por exemplo o Pai Nosso”. 

“O português teve origem no Latim vulgar, que era a língua falado pelos centuriões romanos enviados para Portugal”. 

“A Reforma Ortográfica veio promover a opressão das consoantes mudas e dos assentos diferenciados”.

LITERATURA BRASILEIRA: 

“Durante o apogeu do Modernismo, virou moda fazer versos sem rimar, a menos que o poeta quisesse”. 

“João Cabral de Melo Neto ficou mundialmente famoso pelo seu poema da Pedra no Caminho”. 

“O Romantismo e o Realismo são as duas escolas mais importantes da literatura, com a diferença que cada uma não acha a outra importante”.

Achou graça, amigo? Eu também achei. Recebo pela Internet tantas besteiras atribuídas aos nossos vestibulandos! Boa parte delas deve ser produto não da ignorância dos coitados, mas da galhofa de redatores de humor desocupados, como o locutor que vos fala. Inventar estas frases me divertiu enormemente, e vou me divertir mais ainda quando as reencontrar daqui a alguns anos, atribuídas aos pobres coitados que herdarão o que restar do nosso país.






terça-feira, 8 de junho de 2010

2118) A casa, a escola e a rua (22.12.2009)



(grafitos de Vitche e Flip)

São nossos três palcos de aprendizado, os três ambientes onde nos ensinam o básico (ou seja, nos ensinam a aprender e a utilizar o aprendido) e depois nos mandam às feras. Cada um desses ambientes tem primazia em diferentes épocas da nossa vida. A primeira infância pertence toda à Casa. Os pais e a família concêntrica passam pro bebê as primeiras noções de qualquer coisa, num processo que muitas vezes vai até a vida adulta. O rapaz ou a moça que sai da casa paterna (geralmente para casar) aos vinte e tantos anos de idade está partindo um cordão umbilical que é real, não tem nada de simbólico. É um cordão psicológico, mas tão real que tem gente que não consegue parti-lo nunca.

A Escola começa quando chega a hora do pirralho ser enviado para seu primeiro jardim-de-infância, onde começa a ser deixado sozinho (longe dos pais), a bater de frente com outros pirralhos que estão passando pelo mesmo susto e desmame, e a ter lições formais num ambiente formal. Escola tem sempre uma conotação chata. Nossos filhos sempre perguntam, principalmente dos 12 anos em diante: “Mas pra quê que eu tenho que estudar essas coisas? Pra que é que eu vou precisar disso?” Não sei, e até a idade em que estou não precisei extrair nenhuma raiz quadrada ou cúbica, não precisei saber quem eram os membros da Regência Trina Provisória, nem alguém jamais me perguntou quais eram os elementos químicos monovalentes, bivalentes ou trivalentes. Mas respondo: “Estudar essas coisas ensina disciplina de estudo, não ensina as coisas em si. Ensina você a enfiar a cara num livro e aprender alguma coisa, e vai precisar disso um dia, quando se defrontar com coisas que lhe interessam mas que exigem esforço para serem assimiladas”.

E finalmente vem a Rua. Essa está sempre presente, de um modo ou de outro, mas é a partir da adolescência que ela rapidamente bota as outras duas no bolso e impõe ao garoto ou à garota suas leis inescapáveis. O mais danado da rua é que ela é sedutora de um modo que Casa e Escola nunca são. Ou talvez devêssemos reconhecer que a Rua parece ter as respostas para as perguntas que os hormônios ficam fazendo 24 horas por dia, 60 segundos por minuto, dentro dos metabolismos turbilhonantes dos nossos filhos. É fácil dizer que essas respostas são o sexo, as drogas e o rock-and-roll. Pelo que me lembro, de quando passei por essa encarnação, o que a rua tinha de mais fascinante era a solidão. O fato de eu saber que ali estava entregue a minhas próprias forças e espertezas, e que na hora de um problema não poderia contar com meus pais, nem com o surrado recurso de “ir me queixar na Secretaria do Colégio”. A Rua é fascinante porque é o nosso destino final. Quando chegamos nela, nunca mais saímos. É para viver na Rua que Casa e Escola nos preparam, é para atuar na Rua que estávamos estudando não importa o quê (frações, pronomes, Tordesilhas, co-senos), porque as perguntas que a Rua nos fará nunca são as que esperávamos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

1988) “O Clube do Filme” (23.7.2009)



Este simpático livro do canadense David Gilmour (nenhuma relação com seu xará que toca no Pink Floyd) fala da curiosa solução que ele encontrou para lidar com um filho adolescente que não queria estudar, não queria ir à escola, fumava feito uma caipora, e vivia roendo pela namorada. Quando o garoto, Jesse, começou a ser reprovado, ele – que trabalhava como crítico e roteirista de cinema – propôs um acordo: “Tudo bem, você larga a escola, dorme até a hora que quiser. Mas com duas condições: nada de drogas, e toda semana vai ter que assistir e debater três filmes escolhidos por mim”. Trato feito, e o livro se desenrola a partir daí.

É típico que o primeiro filme escolhido por Gilmour tenha sido Os Incompreendidos de Truffaut, a crônica dos garotos rebeldes, perdidões, fundamentalmente sinceros, revoltados com a hipocrisia dos adultos e os rituais idiotas a que estes os obrigam. Mas o gosto de Gilmour é eclético. Entre as centenas de filmes vistos e debatidos com o filho estão faroestes italianos, filmes-cabeça, policiais “noir” dos anos 1940, musicais da Metro, comédias adolescentes bobas, ficção científica, thriller, histórias românticas... Com sabedoria, Gilmour não tenta empurrar doses de Cinema de Arte e de adaptações dos clássicos para compensar a interrupção dos estudos do filho. Ele sabe que o garoto precisa de motivação para encarar o mundo, precisa conversar, precisa esquecer as dores-de-cotovelo (o garoto vive se apaixonando pelas meninas erradas), e que qualquer filme pode ser a porta para uma discussão que vai dar sempre nos mesmos lugares.

Nunca li nada de Gilmour, mas fiquei curioso pelas suas críticas cinematográficas. Seu gosto difere muitas vezes do meu, mas me senti menos culpado por gostar de Uma Linda Mulher quando o vi dizer que “não existe no filme uma cena verossímil sequer, mas é uma história tão envolvente, contada de forma tão eficaz, com uma cena agradável atrás da outra, que mesmo sendo um filme idiota ele prende a atenção”. Ele e o filho se envolvem em conversas ping-pong (“— O que tornava um filme bom, segundo Howard Hawks? – Três cenas boas e nenhuma ruim”). Ele cria módulos (conjuntos de filmes semelhantes) a que chama de “Tesouros Enterrados” ou “Prazeres Culpados”. O filho cresce, torna-se compositor de rap, ganha e perde garotas e empregos. Os anos passam, e o “clube do filme” continua a ser o espaço que os dois têm para discutir tudo, principalmente sexo, drogas, rock-and-roll e cinema.

O livro é interessante também porque revela certa distâncias culturais inevitáveis. Algumas atitudes do pai canadense nos parecem absurdas ou ingênuas; algumas de suas angústias são por coisas que um pai brasileiro tiraria de letra, aplicando um “cascudo” no transgressor e pronto. Mas não se discute sua coragem em tomar para si (e para o cinema) a tarefa de educar mais um garoto que a escola (e seu sistema paleolítico de “matéria que cai na prova”) perdeu.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

1704) Educação e Cultura (28.8.2008)



Quando eu participava uma vez de um desses seminários sobre questões culturais, alguém da platéia perguntou qual era afinal a diferença entre Educação e Cultura. Respondi, meio de improviso, que Educação é tudo aquilo que a gente aprende a fazer porque alguém nos obriga, e Cultura é o que a gente aprende por interesse próprio. Reconheço tecnicamente que não é uma definição aceitável, mas ela aponta uma distinção importante. A Educação é um processo formalizado pelo Estado e por variados grupos (religiosos, militares, etc.), que procura preparar os cidadãos para a vida. Comparada a ela, a Cultura quase que faz parte da Natureza: é uma superposição caótica de experiência a que qualquer um é sujeito desde o instante em que abre os olhos.

A Cultura é aleatória, a Educação é planejada. A Cultura é difusa, a Educação é focalizada. A Cultura está em toda parte, a Educação se dá em recintos específicos. E, evidentemente, as duas também se misturam. Dentro de uma sala de aula, no momento mais formalizado possível da Educação, tudo que ocorre ali faz parte, simultaneamente, da Cultura: o jogo de poder, a competição, o modo de enfocar a matéria, as perguntas, os exemplos, o modo como aquele assunto toca ou não a vida real de cada aluno. A Cultura é tudo, e inclui dentro de si a Educação, que é uma radicalização de seus propósitos (integrar o indivíduo na atividade coletiva). A Cultura é uma educação informal; a Educação é a Cultura sistematizada e administrada segundo um planejamento.

Imagino que as escolas surgiram da necessidade de sistematizar a Cultura. Havia milhões de conhecimentos flutuando na sociedade, era preciso escolher os mais importantes. Na Idade Média havia um grupo de três disciplinas humanísticas (o “trivium”: gramática, retórica, dialética) e outro de quatro disciplinas técnicas (o “quadrivium”: aritmética, astronomia, geometria, música). Sempre que li sobre isso achei interessante que naquele tempo ninguém ensinasse coisa hoje básicas como História ou Geografia. Por outro lado, é normal a ausência das disciplinas científicas de hoje (Física, Química, Biologia, etc.), que na época não existiam – os conhecimentos a respeito eram englobados numa nebulosa Filosofia Natural ou coisa parecida.

Volto sempre a pensar nisto quando percebo a enorme antipatia dos jovens em geral para com as matérias que fazem parte dos currículos escolares. E lhes dou razão. Eu sobrevivo muito bem sem jamais ter estudado Física ou Química. Aliás estudei, mas no âmbito da Cultura, por desejo próprio, lendo livros de ficção científica e precisando de duas ou três leituras paralelas para poder entender o que acontecia ali. Conhecimentos tão especializados deveriam vir assim, quando se fizessem necessários, e não numa lavagem cerebral obrigatória. Seria o mesmo que obrigar todo mundo a estudar Filosofia, Latim ou Orquestração. Para quê? Melhor deixar para os que realmente se interessam.