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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

4792) Um cachorro doido (9.2.2022)



Era uma roda de chat, online, via zum. (Não reclamem do “zum”; é uma tentativa de abrasileirar nosso idioma atual.) Eu estava com alguns amigos, nordestinos, conversando miolo de pote, e alguém contou um episódio bizarro acontecido há pouco tempo.
 
– Não é possível – disse alguém. – Quem foi que contou essa história?
 
– Fulano.
 
– Ah, esquece. Fulano mente mais do que cachorro doido.
 
Houve uma risada geral, porque esse amigo, cujo nome omito por cautela, é um notório inventor de mirabolâncias. Mas a comparação, que é familiar no idioma nordestinense, acendeu uma luzinha na minha memória.
 
“Fulano mente mais do que cachorro doido.”  Cachorro doido mente?
 
Primeiro, uma explicação necessária. Cachorro doido, pelo menos no Nordeste, não quer dizer cachorro psicótico ou catatônico. É simplesmente o cachorro hidrófobo, o cachorro contaminado pelo vírus da raiva. O animal fica alucinado de sofrimento e sai pela rua afora disposto a morder quem se atravesse na sua frente (e quando isso acontece, inocula o vírus na vítima).
 
Vamos aprofundar mais um degrau nessa questão. Cachorros, em geral, mentem?
 
Eu diria que não, ou quase nunca. Vamos fazer uma comparação entre cachorro e gato. Durante minha infância já teve cachorro lá em casa (não pensem que me esqueci de Lunik), e dezenas de gatos (Brigitte, Iscocó, Gasolina, Rum Montilla, etc.). Não sou chegado ser dono de animais, mas sempre convivi numa boa, sempre me interessei pela psicologia deles.
 
Comparados aos gatos, os cachorros são os animais mais sinceros, mais ingênuos, mais espontâneos do mundo. O gato é sonso, interesseiro, seguro de si. Faz o que quer. Vive num Egito mental, onde os faraós se curvam à sua passagem. São mestres em dissimulação, em esconde-esconde, em pequenos furtos, pequenas surtidas clandestinas a espaços proibidos. O gato vive em função de suas próprias conveniências.
 
O cachorro não. Ele vive, em regra geral, em função das conveniências do seu dono. É um ansioso para agradar. Até aquelas abomináveis lambidas em nossa cara são feitas na ilusão de que está nos proporcionando um prazer transcendental qualquer.
 
Quando dizemos que o cão é o símbolo de fidelidade, queremos dizer exatamente isso, que ele não mente, ele não tem segundas intenções quanto ao dono ou à dona. Claro que cada tipo de cachorro tem seu temperamento. Existem os sisudos e meditativos; os irrequietos e frívolos; os soturnos e ameaçadores; os vaidosos e posudos; os brincalhões e saltitantes; os bamboleantes e desajeitados...
 
Mas todos são sinceros. Cachorro não mente.
 
E cachorro doido? Cão hidrófobo? Mente, ou não?
 
Entra aí uma questão interessante, porque o cão com hidrofobia, coitado, é ainda mais incapaz de mentir. A “raiva” afeta o sistema nervoso central, deixa o animal irritadiço, com dificuldade para engolir, hiper-sensível a qualquer estímulo... Ele sai sufocado, andando num trote inquieto, cheio de espasmos, sempre em linha reta, olhar vidrado sem enxergar direito, babando, e mordendo com fúria qualquer coisa em que venha a esbarrar.
 
Já vi uns dois ou três assim, e teve um episódio inesquecível nas lavanderias do Alto Branco, quando certo fim de tarde apareceu um cachorro doido que botou pra correr as lavadeiras no gramado em volta dos poços. O bicho ficou zanzando em círculos, sem rumo, sem atinar com coisa alguma, até que nosso vizinho Zé Buraco (ex-zagueiro do Treze) emergiu de casa com uma espingarda e foi um tiro só.
 
Um animal nesse estado é virtualmente incurável; um ser humano também.
 
O filme de zumbi é um gênero tão em voga, não é mesmo? Eu pelo menos acabei de rever o filme pioneiro de George Romero, Night of the Living Dead.

 
Muitos críticos já ressaltaram algumas semelhanças entre os zumbis desses filmes e seres humanos atacados de hidrofobia. Não tem retorno. Não tem cura para eles. É preciso abatê-los, para que o mal não se propague. Não tem discussão, não tem pedido de piedade, não tem por-favor nem jeitinho-brasileiro. O zumbi é como o hidrófobo: já morreu, mas tem que ser abatido. Por isso o filme de zumbi é uma grande metáfora do nosso século; consultem os borderôs.
 
Cachorro doido mente? Eu afirmo que não. Mentir implica num movimento do intelecto, na avaliação simultânea de dois cursos de ação e na escolha pelo curso que leva ao engano, à mensagem falsa, à intenção de enganar. Que pode até ser uma intenção benévola – quantas vezes a gente não diz uma mentira a uma criança, um idoso senil, um bêbado?
 
Só mente quem é capaz de pensar, e um cachorro hidrófobo não é capaz de pensar nem sequer seus pensamentozinhos caninos, seus pensamentos da cachorra Baleia, de Graciliano.
 
Um cão hidrófobo é um animal possuído por uma idéia fixa, ou melhor, por um conjunto-de-sensações fixo, e essas sensações são dolorosas, produzem todas um sofrimento insuportável, que o conduz à fúria.
 
Um cachorro doido é como um Fanático. O Fanático não mente. Ele está possuído por uma idéia fixa, essa idéia ocupa todo o espaço raciocinador de que ele dispõe, e quanto mais aumenta seu fanatismo mais diminui sua capacidade de raciocinar até para essas funções mais simples, tipo uma mentirinha básica. O Fanatismo é uma patologia de sinceridade absoluta, que exclui o pensamento; como um “disco enganchado” repetindo eternamente a mesma fração de idéia.
 
Portanto...
 
A expressão “Fulano mente mais do que cachorro doido” precisa ser revista, porque cachorro doido não mente.  Nós, todos nós, mentimos mais do que cachorro doido. Mentir implica numa avaliação, numa escolha e numa ação. Somos todos capazes de mentir, porque somos capazes de pensar e de tomar decisões.
 
Um cachorro doido não, coitado.



 




quarta-feira, 7 de outubro de 2020

4628) Os que voltaram da Morte (7.10.2020)



Há um filme francês chamado Les Revenants (2004; em inglês, They Came Back) com uma premissa fantástica desenvolvida de maneira curiosa.
 
A premissa é que um belo dia os mortos voltam à vida.  Na cena inicial do filme eles saem do cemitério, caminhando devagar, mas não são como os zumbis. Voltam intactos, vivos mesmo, aparentemente saudáveis, trajando roupas limpas e normais. Seriam as mesmas pessoas que foram um dia, se não fosse o fato de algumas semanas, ou meses, ou anos atrás terem falecido e sido sepultados por suas famílias.
 
A cena inicial do filme, arrepiante, mostra esse êxodo vagaroso de pessoas bem vestidas, de cabelos brancos, saindo do cemitério numa procissão silenciosa e introvertida.
 
Voltam, inteiros, mas meio amnésicos. Parecem não saber que tinham morrido. Alguns se dirigem de volta a suas casas, outros ficam vagando. As autoridades providenciam espaços para recolhê-los, em galpões, em ginásios, porque são milhares que ressuscitam do dia para a noite. É como se fosse uma invasão de refugiados; ou de desabrigados por um furacão, algo assim.
 
Um dado comum a todos é essa amnésia, essa relativa ausência, esse descolamento da realidade. Falam pouquíssimo, e quando falam é para dizer banalidades, frases cotidianas, como se a vida fosse a vida normal de sempre mas eles estivessem meio tontos, meio convalescentes, meio maldormidos.
 
Lembrei do que acontece no livro Aniquilação (2014) de Jeff VanderMeer. Nessa história, algumas expedições militares são enviadas à misteriosa “Área X”, que parece ter sido bloqueada por uma força alienígena. As pessoas que entram ali não voltam mais, mas há algumas exceções. A Bióloga (um dos personagens principais) conta assim como o seu marido, um dos expedicionários, reapareceu inesperadamente em casa:
 
Uma noite, cerca de um ano depois que ele tinha partido para a fronteira, eu estava deitada sozinha na cama, e ouvi alguém na cozinha.  Armei-me com um bastão de beisebol, saí do quarto e acendi todas as luzes da casa.  Encontrei meu marido junto do refrigerador, ainda vestindo seu uniforme da expedição, bebendo leite e derramando-o pelo queixo e pelo rosto, e devorando furiosamente restos de comida.
 
Fiquei sem fala.  Só conseguia olhar para ele como se ele fosse uma miragem e se eu me mexesse ou dissesse qualquer coisa ele iria se dissipar no nada, ou em menos do que nada.
 
Sentamos os dois na sala, ele no sofá e eu numa poltrona em frente.  Eu precisava de alguma distância em relação àquela aparição repentina.  Ele não sabia dizer como tinha deixado a Área X, não lembrava absolutamente de como tinha chegado ali em casa.  Tinha apenas uma vaga lembrança da expedição propriamente dita.  Demonstrava uma calma estranha, rompida apenas por alguns breves momentos de um remoto pânico, quando eu lhe perguntei o que acontecera e ele reconheceu que sua amnésia não era natural. (...)
 
Depois de algum tempo, não aguentei mais aquilo.  Tirei a roupa dele, obriguei-o a um banho de chuveiro, depois levei-o para o quarto e fiz amor com ele, eu por cima.  (...) O tempo inteiro em que esteve dentro de mim ele ergueu os olhos para o meu rosto com uma expressão que me disse que ele lembrava, sim, de mim, mas somente através de uma névoa.  (...) O que quer que tivesse acontecido na Área X, ele não tinha voltado.  Não mesmo.
(trad. BT)
 
É mais ou menos assim que reagem as pessoas “retornadas” do filme escrito e dirigido por Robin Campillo. Algumas são idosas, e seu alheamento nos dá uma arrepiante impressão de Alzheimer. Casais jovens, sem filhos, sentam numa sala de visitas olhando um para o outro, e em certos momentos a gente não sabe se quem retornou da morte foi ele ou foi ela.



Alguns erguem-se no meio da noite, vestem a roupa e saem caminhando devagar de volta à repartição onde trabalhavam, aparentemente sem perceber que são três horas da madrugada. Reúnem-se. Manuseiam mapas, falam em voz baixa, como se tentassem se lembrar coletivamente; são rituais ominosos e patéticos. Parecem com a Ilha do Dr. Moreau de Wells: os conciliábulos dos bichos-homens repetindo ladainhas e tentando convencer-se de que são pessoas normais.
 
E ao que parece ninguém toca no assunto. Os familiares procuram poupá-los (e a si próprios) de perguntas terríveis tipo “como é estar morto?”. Tratam-nos como em tantos lugares se tratam os soldados que voltam da guerra traumatizados. Procuram facilitar tudo para eles, e ninguém toca jamais naquele assunto.
 
As matérias sobre o filme lembram de Invasion of the Body Snatchers, filmado em 1956 por Don Siegel e em 1978 por Philip Kaufman. A única semelhança é a atitude meio sonâmbula que nestes dois filmes acomete as pessoas que foram “invadidas” pelos alienígenas; no mais, semelhança nenhuma.
 
O saite IMDB cita o nosso Incidente em Antares de Érico Verissimo, por esse retorno dos mortos; mas, mais uma vez, a semelhança se esgota no ponto inicial. No filme francês, os mortos estão limpos e intactos, mas têm um comportamento passivo e ausente; no livro de Érico, apresentam uma leve decomposição, mas falam, riem, discutem, têm muito mais iniciativa, estão até mais “vivos” do que muitos outros personagens.
 
O filme tem alguns desdobramentos meio inexplicados, e me passa impressão de um sintoma muito comum nas narrativas da literatura e do cinema. São as histórias de Começo e as histórias de Fim. Às vezes a gente tem uma idéia sensacional para o começo de uma história, mas não sabe onde aquilo vai dar. Outras vezes, a gente imagina um desfecho arrasador, mas precisa inventar um começo que conduza até aquele ponto.
 
Les Revenantes é claramente uma História de Começo; “E se os mortos voltassem?...”, etc etc.  O final do filme sugere dois ou três desenvolvimentos, nenhum deles conclusivo – não é um filme com desfecho, é um filme que se esvai aos poucos. (Li por aí que foi adaptado para uma série de TV que já vai com duas temporadas; não creio que uma idéia tão tênue possa render muito, esticada a esse ponto).
 
O mais interessante do filme é esse clima de indecisão, de imprecisão, de perguntas não respondidas. Que lembra as palavras de Arthur Rimbaud em Uma Estadia no Inferno:
 
“Fraqueza ou força: repara bem, é a força. Não sabes aonde vai nem por que vais, mas entra em toda parte, aberto a tudo. Não te matarão mais do que se já fosses cadáver.”  Pela manhã, meu olhar era tão vago e minha aparência tão morta, que as pessoas que encontrei talvez nem me tenham visto.
(trad. Ivo Barroso)
 
 
 
 
 







segunda-feira, 28 de setembro de 2020

4625) O primeiro filme de zumbis (28.9.2020)




O “filme de zumbi” virou um dos gêneros mais conhecidos do cinema de hoje. Meio século atrás, era um subconjunto minúsculo do “filme de terror”, ocupando um nicho bem menor do que o “filme de vampiro”, e competindo mais ou menos com “filme de múmia”.
 
Graças a George Romero e seus seguidores, o filme de zumbi tornou-se de certa forma um videoclip de nossa época. Multidões manipuladas, extermínios gratuitos, pandemias mal explicadas, retirantes famélicos invadindo cidades, migrações forçadas, cidades fantasmas entregues a gente que mal sabe de si...
 
Romero é creditado como o desencadeador do gênero, mas muitos historiadores apontam como primeiro filme de zumbi o White Zombie (1932) de Victor Halperin, baseado num romance do excêntrico William Seabrook, tendo Bela Lugosi à frente do elenco.



Vi agora esse filme, que pode ser visto, com legendas em inglês, no YouTube, numa cópia de qualidade surpreendente:
 
https://www.youtube.com/watch?v=NV3B2z0HkKA&ab_channel=PizzaFlix
 
Há vários aspectos curiosos neste filme precursor. A história se passa no Haiti, na propriedade rural de um tal Charles Beaumont (Robert Frazer), personagem que por coincidência tem o mesmo nome de um dos grandes escritores e roteiristas de FC e terror de sua geração. (Beaumont é o roteirista de filmes como As Sete Faces do Dr. Lao, Castelo Assombrado, A Máscara da Morte Rubra e outros, além de numerosos episódios de Twilight Zone.)



O Beaumont do filme é dono de plantações de cana-de-açúcar e em suas terras funciona o engenho de um feiticeiro local, em cujas engrenagens rústicas trabalham negros macambúzios, de olhar fixo e vidrado, movimentos robotizados. Chega a sua casa um jovem casal, Neil e Madeleine, e o fazendeiro se apaixona pela moça. Com o auxílio do feiticeiro, Murder Legendre (Bela Lugosi), ele impede o casamento dos dois, e transforma a moça em zumbi para tê-la em sua mansão como escrava sexual. O noivo descobre tudo e, com o auxílio de um missionário, tenta impedir a consumação do feitiço.


É um filme “B”, de produção paupérrima – foram usados cenários abandonados por outros filmes do estúdio (O Corcunda de Notre Dame, Frankenstein, etc.), num sistema de reaproveitamento cenográfico que Roger Corman iria empregar com mais habilidade duas ou três décadas depois. O diálogo é descartável; é o tipo do filme que se pode ver dublado em dinamarquês sem grande prejuízo. A ação é mecânica, as poucas cenas de luta ou perseguição são banais. O elenco é fraquinho, e Bela Lugosi, com um disfarce que lhe dá ares meio de Fu-Man-Chu, meio de Charlie Chan, diverte-se fazendo caras e bocas ameaçadoras.



Ainda assim, é um filme notável, que se vê com certo proveito. Um aspecto interessante nesses filmes de baixo orçamento é que a deficiência técnica os impede de produzir uma impressão de realidade muito grande. O som ora é alto ora baixo, a iluminação oscila de maneira inexplicável, os cenários não batem uns com os outros num simples atravessar de uma porta, o ator fala para um lado e parece estar olhando para outro...



Esse tipo de non sequitur, de justaposição de coisas aparentemente não-relacionadas, acaba produzindo uma impressão onírica, de incerteza, de insegurança perceptiva, que é um dos encantos do cinema mudo e que se prolongou, no cinema sonoro e colorido, pelo universo do filme “B” feito com um gosto e seis vinténs.

(a moenda)

Os primeiros zumbis que vemos são os negros haitianos que fazem moer o engenho de açúcar rústico, de engrenagens de madeira empurrados à mão. Não deixa de lembrar aqueles filmes bíblicos em que vemos Sansão, cego, escravizado, ajudando outros cativos a empurrar aquelas enormes pedras de moinho para os filisteus.
 
A certa altura, Bela Lugosi apresenta ao fazendeiro seu exército particular de escravos, que ele zumbificou através de uma poção da qual basta uma gota para transformar a pessoa num morto-vivo. E todos são brancos, e pessoas ilustres:


São os meus ex-inimigos. Ledot, o feiticeiro... Já foi o meu mestre. Entregou-me seus segredos sob tortura. Von Gelder, esse porco estufado de riquezas... Lutou até o último instante contra meus encantamentos. É o tipo do guerreiro. Sua Excelência, Richard, ex-Ministro do Interior... Scarpia, chefe dos salteadores locais... Marcquis, capitão da polícia... E este é Chauvin, o carrasco-mor, o que quase me executou!...
 
São os símbolos do poder político e militar, escravizados pelo vudu, agindo mecanicamente sob as ordens mentais de Murder Legendre.


Marina Warner, em seu livro Phantasmagoria (2006), um vasto ensaio sobre as representações tecnológicas do sobrenatural e do espiritual, analisa a figura do zumbi, como mais uma projeção do não-humano sobre o humano ou vice-versa. Ao comentar a sedução hipnótica sofrida pela jovem noiva, neste filme, ela diz:
 
Uma espécie de arraigado interesse próprio leva os realizadores de White Zombie a meditar sobre a escravidão e seus desdobramentos, ao mesmo tempo em que evitam os fatos históricos propriamente ditos desse fenômeno. No entanto, embora no nível mais superficial do enredo a noiva enfeitiçada seja a vítima inocente de uma sinistra magia negra, num nível latente ela cai em desgraça quando entra em contato com as forças que governam as atividades daquela ilha; ela perde a lucidez mas não percebe nem admite tomar conhecimento da opressão. É como se o filme dissesse: “Não olhe. Não pergunte de onde vem seu dinheiro. Você não vai suportar a resposta.”
(p. 363, trad. BT)
 
Os filmes de zumbi são muitas vezes alegorias sobre algo que vemos à distância na TV: multidões massacradas, escravizadas, desumanizadas, reduzidas a farrapos humanos. Sem nome, sem memória pessoal, sem memória coletiva, algum tipo de espírito primordial de vingança as levanta da tumba e as conduz à destruição cega de quem se atravessar na sua frente. George Romero e os demais que vieram depois dele (de Lucio Fulci a Wes Craven, de Dan O’Bannon a Jim Jarmusch) ramificaram essa idéia básica em numerosos sub-temas.
 
Bela Lugosi interpretou o vilão deste filme pouco tempo depois de ter criado seu Conde Drácula (em 1931). Se o vampiro é o morto-vivo típico da aristocracia européia, bebendo o sangue dos camponeses das montanhas e dos bosques da Europa Oriental, o feiticeiro vudu, criador dos zumbis, é o seu equivalente nas florestas tropicais e nos canaviais dos engenhos de açúcar.
 
É curioso que a ambientação do Nordeste açucareiro de Gilberto Freyre e José Lins do Rego, tão pródiga em escravos e em histórias de maus tratos, de mandingas e feitiços, não tenha produzido uma literatura de terror apreciável, na linha do que sucedeu com os zumbis haitianos. Talvez porque aqui não tenha acontecido uma revolta sangrenta como a do Haiti na virada do século 18 para o 19, quando foram passados “no fio da faca” os europeus locais, principalmente os franceses. Alejo Carpentier contou um pouco dessa história em O Reino deste Mundo (1949).
 


 
 
 
 





segunda-feira, 15 de abril de 2013

3161) Executivos zumbis (16.4.2013)





Um título assim é muito sugestivo para uma comédia de terror, mas a história por trás dele, além de real, é muito pouco cômica. “Zombie Executives” é o termo que está sendo adotado nos EUA para designar CEOs, diretores, etc. de empresas que, mesmo quando a empresa vai mal, não podem ser demitidos.

Numa empresa que tem acionistas, estes votam periodicamente para os cargos de direção e, se o desempenho dos atuais diretores é considerado insatisfatório, eles são substituídos. Afinal, é o dinheiro dos acionistas que eles estão administrando. Ou seja: as empresas funcionam mais ou menos como as repúblicas democráticas dizem funcionar. Votamos em prefeitos, governadores, presidentes, etc., e quando achamos que uma determinada equipe não está cuidando bem das coisas, votamos em seus adversários.

Mas no mundo corporativo norte-americano o bicho está pegando. Numa matéria no “NY Times” (http://nyti.ms/1102n32) James B. Stewart diz conhecer pelo menos 41 casos em que os diretores perderam direito ao cargo por ter recebido menos de 50% dos votos de confiança dos acionistas, mas que mesmo, assim continuam a exercê-los, baseados em firulas legais. Uma delas é o uso do chamado “sistema de pluralidade”, em que os diretores concorrem sem oposição e basta terem um voto para serem eleitos. Em outros casos, como na Iris International (empresa da área médica, na Califórnia) os acionistas rejeitaram todos os 9 diretores numa votação em maio de 2011. Os diretores renunciaram coletivamente aos seus cargos e ao mesmo tempo rejeitaram essa renúncia; e continuaram à frente da empresa.

Stewart dá nomes a muitas delas: Loral Space & Communications, Mentor Graphics, Boston Beer Company, Vornado Realty Trust, Chesapeake Energy, Oklahoma State University, Union Pacific… Em alguns casos os CEOs tiveram 70% de rejeição, mas os acionistas – teoricamente os donos da empresa – não conseguem mandá-los embora.

Filmes comentados aqui (Trabalho Interno, Margin Call), etc., mostram a ilimitada arrogância, ambição e desonestidade com que muitos indivíduos em cargos desse tipo afundaram a economia dos EUA, e por tabela a do mundo, no abismo em que estamos atualmente. (Acha que a crise passou, caro leitor? Pergunte aos seus netos daqui a uns tempos.) Quando alguém chega ao Poder, a primeira coisa que faz é mexer em estatutos, regimentos, etc. preparando uma brecha para se perpetuar legalmente no cargo. Os norte-americanos estão cada vez mais reféns de uma geração de Zumbis de Terno Armani, que sabem que serão a última geração de bilionários do planeta, e que por isso mesmo pretende fazer a banda tocar até este Titanic desaparecer no plâncton.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

3098) Os zumbis e os canibais (1.2.2013)




Desde o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade, na época da Semana de Arte Moderna de 1922, essa história de antropofagia passou a ser o argumento preferido de quem lida com a invasão da cultura estrangeira no Brasil.  

O que dizia Oswald, em síntese? Que a melhor maneira de combater o inimigo não é apenas matando-o, mas matando-o e comendo-o.  Não basta destruir; é preciso assimilar, pois NÃO podemos permitir que o inimigo desapareça sem nos deixar uma herança, um ganho substancial.  

Essa metáfora veio recebendo diferentes leituras ao longo do século 20, e duas que me tocaram de perto foram a do Tropicalismo nos anos 1960 e a do Movimento Antropofágico da FC (formulado por Ivan Carlos Regina) nos anos 1980.
O problema é que quando dizemos que é preciso devorar e digerir a invasão estrangeira há quem imagine que a gente deva se transformar em consumidores compulsivos dela, engolindo tudo que o mercado nos oferece nas livrarias, nos cinemas, na TV. 

Nada disso, amigos! Um canibal (leiam Hans Staden!) é o sujeito mais gastrônomo que existe. É mais exigente do que enólogo principiante, e mais detalhista do que gaúcho servindo churrasco para estrangeiros. Quem devora indiscriminadamente o que lhe chega ao alcance das mãos não é o canibal. É o zumbi.
O canibal escolhe o que vai devorar; não é qualquer prisioneiro que cumpre os requisitos. Os índios não devoravam os covardes, os que fugiam da batalha, os que se acovardavam e perdiam o amor próprio. Faziam prisioneiros e os cultivavam durante semanas ou meses, não apenas para um ritual de engorda, mas também como uma preparação espiritual para o pseudo-combate (pois a execução implicava muitas vezes num desafio verbal entre o carrasco e o condenado). 

Devorar o inimigo era absorver suas qualidades, sua bravura, seu caráter. Só se comia alguém a quem se admirava. Dizem que uma das coisas que salvaram a vida de Hans Staden foi o fato de que ele de vez em quando chorava e pedia para não ser morto.
O canibal escolhe, vai em busca, captura, guarda, devora ritualmente, faz uma festa. Sabe exatamente quem está devorando, e por quê. Rejeita uma vítima, se ela não lhe for apetecível.  

Ou seja: ao “antropofagizarmos” o rock estrangeiro, a ópera, a arte de vanguarda, a ficção científica ou o que quer que seja, temos que ser igualmente exigentes, críticos, “gourmets”, porque o canibal é assim. 

Já o zumbi é o contrário disso, ele mastiga e engole o que lhe aparecer pela frente. É o fã eufórico e ciumento, consumidor compulsivo, o imitador feliz, o re-comprador eterno, o acumulador de bugigangas, o mastigador de best-sellers. Canibal é outra coisa.











domingo, 25 de novembro de 2012

3040) Os robôs zumbis (25.11.2012)


(Oscar N)

Os ferros-velhos de robôs são tão melancólicos quanto os cemitérios de automóveis. Elegias fúnebres celebrando à luz do sol a oxidação e o esboroamento dos seres de metal. O marrom da ferrugem roendo como um câncer as placas luzidias, os circuitos labirínticos. Himalaias do desperdício industrial, o estado-da-arte de ontem sendo hoje arrastado e solto no lixão dos descartáveis. Aqui e acolá um sacoleiro de chips faz sua coleta esperançosa, mas os tecno-monturos erguem colinas a perder de vista, pois a cornucópia eletrônica não para de vomitar silos e mais silos de placas-mães.

Nos lixões de robôs já filmei com celular a imensa vala comum onde sub-empregados esqueléticos seguravam os autômatos pelos braços e pernas, balançavam, atiravam lá de cima, fazendo-os cair no fundo e ir escorregando por cima dos corpos desconjuntados dos que os precederam. Andróides, ciborgues, robôs, servomecanismos; contrafações humanóides estruturadas em circuitos eletrônicos, esqueletos hidráulicos, microengrenagens, massa muscular sintética, sistemas nervosos em fibra ótica mais fina que um cabelo de bebê. Conseguimos reproduzi-los mais depressa do que nossa própria reprodução biológica/coital. Bilhões de espantalhos articulados, programáveis, obedientes ao controle remoto e à administração wireless dos governos. E que quando quebram são jogados fora. Pra que consertar? Quando um deles cai, dez outros se erguem de uma linha de montagem em Xangai, em Mumbai, em Dubai, em lugares onde nem chegou o Google Earth.
 
Aquilo que tomba hoje vem a se erguer amanhã. E de repente as ruas estão tomadas pelo clang-clang dos retirantes cibernéticos, cambaleando sob o sol, vagando sem destino, sem tarefa, sem missão. Quem os reergueu da tumba aberta? Quem trouxe de volta esses lázaros de titânio e categute? Talvez um vírus; um restinho de vida num pseudo-cadáver se transmitiu por wi-fi em círculos concêntricos na vala comum e despertou a todos, ferindo um nervo ainda vivo, desencadeando sub-rotinas mentais, e pronto, aqui estão eles invadindo as praças, atravancando avenidas, executando gestos sem sentido que lhes foram impostos ao ferro-em-brasa de um algoritmo – aparafusar peças não-existentes, colher soja no asfalto vazio, orientar trânsito no espelho dágua da pracinha. Mortos vivos, Doppelgangers insetóides, que não têm fome de nossos cérebros nem nos desejam mal, mas que estão a cada dia inviabilizando nossas cidades. Pela sua mera quantidade e surdez. Pela automatização compulsiva que os arrasta, e que não nos deixa outro remédio senão nosso último esporte radical, despedaçá-los a tiros e esperar que as balas sejam mais numerosas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

2987) Zumbi a passeio (27.9.2012)




“Felisberto!  Leve o lixo pra jogar lá fora!”.  

Eu já estava quase no portão quando ouvi a voz de Dalva, e gritei de volta: “Não posso agora!  Estou levando Zombe pra passear!”.  

Zombe é o nome do zumbi da gente, e às vezes eu fico imaginando a cara do meu pai se ele tivesse sobrevivido à Guerra Canibal e visse nosso estilo de vida hoje. Ele provavelmente iria dizer: “Não importa quantos apocalipses a humanidade tenha que passar, ela sempre encontra um jeito de regredir à pequena-burguesia suburbana!”.  

Meu pai foi devorado quando eu tinha 12 anos mas me lembro até hoje das aulas dele, porque ele não conversava, ele dava aula o tempo todo, era incapaz de pegar um pão na mesa sem dar uma aula sobre a Crise do Trigo Asiático. Ele sempre disse que a Epidemia Zumbi era uma trama de umas organizações que eu nunca entendi. Quando cresci fiquei sabendo que foi acidente mesmo.

De qualquer modo, fui na casinha, botei a coleira em Zombe e saí. Fim da tarde todo mundo se encontra na padaria. Com uma passadinha no açougue, onde cada um compra um osso pra distrair seu pet. 

Zombe gosta de costela, bem crua. Dê aquela costeletazinha básica e ele passa meia hora de cócoras, entretido, enquanto a gente troca uma idéia, comenta o futebol. Claro, futebol acabou, mas a gente tem as gravações; eu e uns amigos do meu prédio estamos acompanhando o campeonato carioca de 2002, um jogo por dia, proibido spoilers. 

Eu saio pouco de casa; tenho 44 anos e sou o mais velho da minha rua. Só saio de casa armado e com Zombe. Gente com fome é pior do que zumbi.

Na volta dou uma passada na Praça do Por do Sol, uma colina de onde contemplo as ruínas. Antigamente era bonito, hoje é uma mistura de arquitetura e floresta. 

Sou um dos poucos que conheceram o mundo antigo, um mundo onde os zumbis eram uma ameaça e não nossos cães de guarda quimicamente domesticados. Foram vinte anos de carnificina recíproca até que conseguimos amestrá-los. Hoje, não viveríamos sem eles, que nos defendem de nós mesmos. 

O mundo colapsou, todo mundo só come o que planta, cria ou fabrica. Comércio, só de bairro. Não há mais política, indústria, capital financeiro, exércitos, guerras; e isto é um baita dum consolo por não existirem mais universidades, esportes, estações de TV, cinema, restaurantes e bares. 

Na minha cidade somos (li ontem) um milhão de humanos, e só 120 mil possuem zumbis para se defender do restante. Dalva diz que sempre haverá ricos e pobres. 

Puxo a coleira de Zombe e arrasto-o de volta para casa. Falem de apocalipse, falem que vivemos num inferno, mas para mim qualquer mundo é um paraíso se nele sou eu quem puxa alguém pela coleira.







quarta-feira, 16 de maio de 2012

2871) Os Zumbis de “Caras” (16.5.2012)


Fugimos do incêndio do shopping num carro, rodeamos o Açude Velho. A metralhadora está com Serginho, eu tenho a pistola e Vavá dois revólveres.  Nosso problema é a pouca munição. Temos que cruzar o centro da cidade, mas a gasolina acaba, à vista de um grupo dos zumbis, e eles nos cercam, rosnando. Abatemos a tiros os mais próximos e corremos, abrindo caminho a socos e coronhadas. Subimos a rua Miguel Couto deixando-os para trás, mas na Praça Coronel Antonio Pessoa outro grupo emerge das ruínas, desta vez são mais de quarenta, os homens de black-tie, as mulheres com vestidos longo em seda ou lamê, com os dentes matraqueando sem parar, o rosto em decomposição. Serginho concentra a rajada de fogo no meio do grupo e derruba vários, mas eles andam rápido, mesmo com algumas das mulheres ainda usando salto alto. Abrimos caminho até a 4 de outubro. Ali nos entrincheiramos atrás de um caminhão tombado. Recarregamos.

Vavá garante que a loja de munição da Rua João Suassuna deve estar fechada e intacta. Vale a pena tentar; mas sem atravessar a Praça da Bandeira, que a esta altura sabemos estar tomada por uma multidão. Fugimos pela Solon de Lucena, rodeando, subimos correndo a Rui Barbosa sem ser incomodados, mas quando desembocamos perto do Teatro temos mais uma vez que abrir caminho a tiros. Do Parque do Povo eles sobem às centenas, vestindo “dinner jacket” ou blazers de griffe. Alguns ainda empunham taças, as mulheres com bolsas cravejadas de jóias, os homens murmuram receitas de “dry martini” ou cotações da bolsa, por entre os lábios arroxeados e os dentes cheios de fragmentos de cérebro. Tentamos uma surtida para chegar à Getúlio Vargas mas Serginho tropeça, e os zumbis avançam sobre ele como cães sobre a queda de um osso.  Seus gritos se perdem lá atrás, corremos atirando às cegas, fugimos para a Índios Cariris. Ali é a vez de Vavá, subjugado por três deles, em trajes de equitação, que lhe desfazem o rosto a dentadas. 

Fujo, retrocedo para o Teatro, há uma porta lateral aberta, e minha única opção é subir, subir, tropeçando em cadáveres e em zumbis semi-soterrados por um desmoronamento. Chego ao topo. Uma pequena escada é o único acesso. Vão subir de um em um. Estou a dois metros de distância para abatê-los.  Meu Deus, parece um pesadelo, não sabia que já eram tantos, nunca imaginei que já tivessem chegado aqui.  Restam-me 18 balas. Fuzilarei os primeiros 18 que subirem.  Olho para minha roupa, suja de sangue e fumaça. Quando minha t-shirt e meus jeans começarem a se transformar em smoking, quando a gravatinha borboleta brotar em meu pescoço, quando meus dentes se arreganharem... eu pulo no abismo e acabou.  

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

2630) A palavra Zumbi (9.8.2011)



Cresci numa época em que filmes de zumbi eram raros, não estavam na moda como hoje. É interessante que não havia “livro de zumbi”, pelo menos que eu me lembre; era um gênero exclusivamente cinematográfico, e a imagem que me ficou mais bem gravada foi a de um filme B que vi nos anos 1960, Invasores Invisíveis, em que alienígenas davam um jeito de entrar no corpo de pessoas mortas e sair vagando por aí, com manchas escuras no rosto e os braços estendidos horizontalmente.

Logo depois surgiram as notícias sobre um show de MPB fazendo sucesso no Rio de Janeiro, chamado Arena conta Zumbi. Viciado em ver as coisas sob o prisma do “trash movie”, durante muito tempo imaginei que o título era “Arena contra Zumbi”. Não era. Contava a história de Zumbi dos Palmares, o líder negro dos escravos foragidos, cujo quilombo virou símbolo da resistência negra, e na época virou também símbolo da resistência de intelectuais, artistas e estudantes contra o golpe militar de 1964.

É claro que a coincidência de nomes me chamou a atenção, mas a essa altura eu já sabia que os “zumbis” eram produzidos artificialmente através do vudu, uma espécie de magia negra do Haiti, que enfeitiçava as pessoas e as transformava em mortos-vivos. Uma consulta ao Online Etimology Dictionary (www.etymonline.com) diz que a palavra é registrada desde 1871, com origem na África ocidental (do kikongo “zumbi”, fetiche, e do quimbundo “nzambi”, deus); originalmente era o nome de um deus-serpente e depois virou sinônimo de “cadáver reanimado” no culto vudu. Também pode vir da palavra do idioma crioulo da Louisiana que significa “fantasma, espectro”, vinda do espanhol “sombra”. O sentido “pessoa bronca, estúpida, apática” é registrado desde 1936.

O mais interessante disso tudo é que a mesma palavra significa “morto vivo” em dois contextos e duas culturas totalmente diversas. Na cultura branca, significa alguém que morreu e deveria permanecer morto, mas que foi artificialmente obrigado a se comportar como se estivesse vivo, embora esteja em decomposição. Na cultura negra (no sentido específico de Zumbi dos Palmares), significa alguém que foi declarado morto mas que para seus seguidores permanece vivo e atuante, um morto que se recusa a morrer. Note-se que após a morte de Zumbi sua cabeça foi fincada numa estaca e exposta em praça pública (tal como ocorreu com Tiradentes) para “atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal”, segundo carta do governador de Pernambuco ao Rei.

O morto sempre vivo, o morto que se recusa a morrer, é um mito de cultos sagrados e profanos. Jesus Cristo é também um morto que emerge vivo da tumba. Heróis dos mais diversos feitios (Padre Cícero, Lampião, Elvis Presley) são tidos como ainda vivos pelos seus seguidores. O zumbi do cinema de terror é um Zumbi sem Palmares, sem propósito, sem projeto, sem ideal. É o que somos quando queremos simplesmente viver, sem nada mais além disso.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

2397) “A Volta dos Mortos Vivos” (10.11.2010)



Assistindo tarde da noite, na TV a cabo, A Volta dos Mortos Vivos de Dan O’Bannon (1985), pensei na fascinação que os filmes de zumbis exercem sobre o público jovem. Rapazes e moças adolescentes gostam de quaisquer filmes de terror; veja-se o sucesso serial de Freddy Kruger, Jason, “Serra Elétrica” “Jogos Mortais”, etc. Mas os pútridos zumbis têm um encanto mórbido especial. Lembro ainda hoje minha fascinação, aos dez anos, diante dos zumbis de filmes como Invasores Invisíveis e outros, que comparados aos de hoje são de uma inocência a toda prova, mas na época despertavam calafrios.

Os zumbis são diferentes de Drácula ou de Frankenstein porque são um monstro quantitativo, não personalizado. Não se sabe o que é mais terrível, se a dificuldade em matar um único monstro ou a facilidade em matar bilhões de monstros que não param de surgir em fila indiana, cópias equivalentes ao que acaba de ser exterminado. O zumbi é o morto típico da era da cópia digital, da infinita reprodutibilidade técnica tanto da obra de arte quanto do pesadelo. No século 20 tínhamos o monstro único, indivisível, o monstro tão ímpar quanto o ser humano, quanto o Indivíduo criado pelo Iluminismo. Hoje, temos o monstro inesgotável, inextinguível, cópia da cópia da cópia da cópia, e que não para de brotar.

Para o cinema norte-americano, deve haver ali um pouco do horror de enfrentar povos anônimos, depauperados, sujos, lumpen-proletários: os vietcongs, os talibãs, os habitantes de Canudos, os pobres e esfarrapados em geral. Os zumbis são sub-humanos que, no seu existir incontrolável ameaçam submergir o “humano”. E há também, superposta a esta, uma ameaça mais terrível ainda: o fato de que as pessoas normais (nós, nossos amigos, nossa família) estão sujeitas a se transformar de uma hora para outra num desses monstros. Seu filho pode virar punk. Sua namorada pode virar terrorista. Sua irmã pode virar comunista. Seu marido pode virar um drogado.

Os mortos-vivos são também um pesadelo em torno do tema da recusa à morte, do apego irracional à vida, que deixa de ser vista como valor absoluto. O zumbi é o morto que se recusa a morrer, ou que não consegue morrer. Uma morta-viva no filme de O’Bannon responde por que motivo devoram os humanos: “Porque isso reduz a dor... a dor de estar morto”. É uma explicação de roteirista de filme B, que coça a cabeça por 10 minutos e resolve com uma frase a questão da “motivação dramatúrgica”. Mas é uma angústia metafísica semelhante à do Mr. Valdemar do conto de Edgar Allan Poe, que, hipnotizado, fica com a alma presa ao corpo morto, mantendo-o em funcionamento. No momento em que o transe hipnótico é cortado, a alma se liberta e o corpo se desfaz numa massa liquefeita.

E por último vem o simbolismo do ato de comer cérebros. Um filme é uma projeção luminosa de pessoas sem vida que andam pra lá e para cá absorvendo os cérebros da platéia para continuar existindo.