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terça-feira, 3 de março de 2026

5224) O Flamengo está bêbado (3.3.2026)




O dinheiro é talvez a mais perigosa das drogas, porque não tem sintomas aparentes. O indivíduo bêbado-de-dinheiro parece normal, mas está sujeito, ou mais que isto, está condenado a praticar todo tipo de insensatez. 
 
O dinheiro produz sensações combinadas de invulnerabilidade, de impunidade, de onipotência, de estar-com-a-razão. Produz até mesmo a ilusão de ser amado, pela quantidade de gente sorridente que atrai. 
 
Já fiquei bêbado algumas vezes, mas, mais do que isso, já pastorei muito bêbo chato. Aquele amigo que se embebeda e não quer ir para casa, quer tomar a saideira, nem que seja na lata de lixo onde acabou de vomitar. 
 
Uma vez era um amigo que tinha acabado de assinar um contrato absurdamente desproporcional com sua vida financeira até então, e recebeu umas “luvas” astronômicas. Pegou o telefone, convocou todo mundo, patrocinou uma mesa de vinte pessoas num restaurante cujo nome não vem ao caso, insistiu em trazer três litros de uísque para uma mesa em que todo mundo só queria chope. (Era verão carioca. Verão é outra droga embriagadora, merece um capítulo à parte.) 



 
Ele não permitiu que ninguém puxasse a carteira. A noite desceu pelo ralo, todo mundo foi embora e fiquei eu, de olho nele, visto que morávamos no mesmo bairro e nenhum dos dois tinha carro, então sobrou pra mim. 
 
Um garçom, já à paisana, nos conduziu amável mas firmemente à porta; saímos para a rua nos primeiros rubores da aurora. Meu amigo cambaleou, abriu os braços para o mar, para a possibilidade do sol, eu com a mão no ombro dele para navegá-lo. Paramos num dogão da madruga. Ele apontou: 
 
-- Eu adoro essas coisas. Já teve noite que eu queria comer um desse e não podia pagar. 
 
-- Eu também – concordei, e era verdade. – Mas a gente acabou de comer uma bacalhoada. 
 
-- Dois, completos! – berrou ele, de dedo em riste, para a moça de olhos redondos e sonolentos. – Com tudo que tiver direito! Milho, maionese, ervilha, bacon, coentro... Tem coentro? 
 
-- Eu não quero – avisei. – E você não precisa. Olha, lá vem um táxi. Bora pegar esse. 
 
-- Pra viagem! – insistiu ele. – Come amanhã. 
 
Perdemos três táxis que passaram devagar, se oferecendo, até que recebemos os dois pacotes (nessas horas, concordar é mais simples). Ele puxou do bolso uma nota de cem reais, botou no balcão. 
 
-- Senhor, o seu troco. 
 
-- Não precisa! 
 
Semana passada, muitos anos depois, estávamos eu e ele na calçada de outro boteco, conversando abobrinhas, chorando pitangas, desdenhando as uvas verdes do sucesso alheio, e eu lembrei esse episódio. Ele passou a mão pelo cabelo agora branco, e disse: 
 
-- Rapaz, aquele foi um período muito maluco. Eu vi tanto dinheiro que pensei que estava vendo o dobro. 
 
Mudamos de assunto. Águas passadas. Sobrevivemos, não é verdade? Estamos aqui. Vamos pedir mais um chope e ficar de olho na pilhazinha de cartões. Vamos descontrair, vamos falar de futebol. 




Vamos falar do Flamengo, e seus 144 milhões de reais para contar com o ponta-esquerda Samuel Lino, e seus 58 milhões de reais pelo lateral-direito Emerson Royal, e seus 263 milhões de reais pelo meia-atacante Lucas Paquetá. 
 
(Não venham me corrigir as cifras, peguei no Google, e os valores são meramente ilustrativos.) 
 
Existe uma enorme semelhança entre o futebol e as altas finanças. São dois universos que se fundamentam na competição: as chances são poucas, os concorrentes muitos. Tudo é concorrência, é disputa, é antagonismo, tudo são desfechos onde alguém vai ganhar e alguém vai perder. E quem decide isso é o deus que preside esse dois universos: o Número. 
 
O futebol (os esportes, por extensão) se baseia no Número. É bem verdade que mil interpretações subjetivas podem ser aplicadas a um confronto, flutuação de critérios, sutilezas qualitativas, o escambau. Mas um a zero é um a zero, sete a um é sete a um. No mundo mental e emocional dessas pessoas, o Número é a última e definitiva instância que determina a realidade dos fatos, a direção da História. Os números são estes. Eu ganhei. Você perdeu. 
 
Eu ganhei mais vezes, eu perdi menos vezes, minha percentagem é maior, minha margem de erro é menor, minha média está subindo. Eu e você queríamos comprar algo, você ofereceu 5, eu ofereci 6 e levei. Eu sou o primeiro desta lista. Eu consegui isto mais vezes do que qualquer um. 
 
E nada disto é “opinião”: tudo é Número, a única coisa indiscutível do universo. 



 
O Brasil tem cerca de 300 bilionários. Vinte anos atrás, eram dois ou três. Não é exagero dizer que metade desses indivíduos vivem mais transtornados do que um inquilino da cracolândia. 
 
E milionários? São (é o que me traz a pesquisa de dois cliques) 572 mil no país, e entre estes pode incluir jogadores dos grandes times do mundo. Adivinhem quem está entre os grandes times do mundo. 
 
Não nos enganemos, quem manda no mundo é o conceito de Número, muito mais do que o conceito de Deus, que aceita diferentes versões, ou o de Democracia, que aparentemente ninguém leva a sério. 
 
O futebol é o universo dos empurrões, cabeçadas, quedas, cotoveladas, dribles, matadas no peito, embaixadinhas, folhas secas, lençóis, bola na trave, bola na bochecha da rede, gol de placa, chute na orelha da bola, cama-de-gato, corta-luz, drible da vaca... Mas tudo isto em função de um número. 
 
As altas finanças são compostas de ativos, passivos, debêntures, papéis da dívida, ações preferenciais, mercados futuros, helicópteros, jatinhos, carpetes, limos, charutos... Mas tudo isto, também, em função dos números. 
 
E a sensação numérica da fortuna financeira é mais grave do que “café espresso” ou outras drogas excitantes. 



 
Num dos seus contos de Dublinenses (1914), “Depois da Corrida”, James Joyce diagnosticava: “O deslocamento muito rápido pelo espaço nos deixa inebriados; o mesmo se dá com a fama; o mesmo se dá com a posse de dinheiro”. 
 
Joyce se referia às corridas de automóveis do começo do século passado. No conto, um rapaz irlandês, classe mediazinha, aficionado das corridas, faz uma farra-de-amanhecer-o-dia junto com amigos bem mais ricos do que ele, todos eles europeus do continente. Acaba torrando um dinheiro que não tem. 

Eu estava finalizando este artigo na madrugada de ontem para hoje, enlevado pela goleada de 8x0 que o Flamengo aplicou no time-com-10-homens do Madureira. Faltou a James Joyce completar: “Uma grande quantidade de gols nos deixa inebriados”. 
 
E nesse momento pipocaram nas redes sociais as notícias da demissão do técnico Filipe Luís e eu achei que não precisava dizer mais nada. Deixa o pessoal se divertir, antes que venha a ressaca. 









sábado, 4 de maio de 2019

4463) Hipnose da estrada (4.5.2019)




Eu não sei dirigir automóvel, nunca dirigi um. Isso não me impede de avaliar o modo de dirigir de quem quer que seja, nem de teorizar sem pejo sobre essa nobre atividade moderna.

Um dos aspectos que me interessam nela é o modo como “o motorista” torna-se quase um “duplo” da pessoa. É uma pessoa menorzinha que vive dentro dele. Uma espécie de “puxadinho” mental em que uma nova personalidade é criada e desenvolvida, paralelamente à personagem principal.

A ação de “dirigir automóvel” pode perfeitamente abrir mão de uma série de camadas da nossa consciência. É um ato maquinal, que se executa com transições confortáveis entre assumir o controle e deixar no piloto automático.

As pessoas dirigem enquanto conversam, até mesmo um assunto da maior gravidade. Dirigem enquanto escutam um jogo de decisão do campeonato. Dirigem enquanto cantam a plenos pulmões com os filhos pequenos no banco de trás.

É como se a existência do “robô motorista” permitisse liberar a mente lúcida da pessoa para cuidar de assuntos mais interessantes.

De vez em quando dá um bug. É aquele famoso momento em que estou no banco do carona, num papo animado com outra pessoa, e de repente ela diz: “Caramba. Por que é que eu vim parar aqui no girador? Era para eu ter pêgo a ponte, lá atrás!”  E ninguém nem comenta, de tão comum que é o fato.

Vou contar aqui três histórias cuja veracidade nem me interessei em discutir, porque me pareceram plausíveis. Uma ou outra dela eu já ouvi com pequenas variantes. Deve ser, sim, um fenômeno reiterativo, levando em conta a quantidade de motoristas.

A História #1 fala de uma família que foi curtir o domingo num churrasco ou pescaria ou almoço de família num subúrbio mais que distante, e na hora de voltar, ao anoitecer, armou-se um toró que não tinha mais tamanho. A esposa pediu a chave do carro. O marido estava pra lá de Bagdá, mas insistiu previsivelmente em dirigir. Ela sugeriu passarem a noite no local, havia essa opção. Ele disse que ia trabalhar logo cedo, e tinha que dormir em casa.

A tempestade caiu, o carro fez-se ao asfalto, e felizmente as crianças estavam exaustas do domingo e se enrodilharam no banco de trás. Era água de quase não se ver um palmo à frente, e ela estava reduzida a um trapo de nervos quando eles finalmente chegaram ao bairro, à rua, à casa. Ele alinhou o carro à calçada e desacordou sobre o volante.

Ela insistiu muito, depois fez a única coisa que podia fazer. Levou as crianças para dentro, primeiro uma, depois a outra, mandou deitarem nas poltronas preferidas, voltou, abriu o carro (felizmente agora estava só um chuvisco), agarrou-o pelos suvacos e o trouxe para dentro de casa. No outro dia ele acordou com o despertador pré-programado e foi trabalhar assim como se nada.



A História #2 fala de outro cara que tomou umas e outras, voltou para casa, abriu de longe o portão, subiu a rampa com o carro, entrou na garagem são e salvo. A sensação de são e salvo foi tão forte que ele apagou. Os faróis do carro continuaram acesos, o motor ligado. O carro todo zunia, fremia e trepidava em torno dele. Ao cabo de algum tempo, ele entreabriu os olhos. Viu o brilho cegante daqueles faróis refletidos na parede branca do fundo da garagem, a um metro das luzes. Pisou no freio com tanta força que partiu ossos, rompeu ligamentos.

A terceira é a de um respeitável casal que fazia de vez em quando umas viagens do sertão para a capital, com parada em uma cidade no meio do trajeto. A esposa e o marido se alternavam ao volante. Numa das vezes, ela o deixou nessa cidade do meio e prosseguiu rumo à capital, no litoral do Estado. E a certa altura, já chegando naqueles subúrbios, teve uma espécie de susto, não sei se porque precisou frear de repente. Alguma coisa desse tipo a sobressaltou, e ela pensou: “Meu Deus, mas eu já estou aqui? Eu não me lembro de ter dirigido até aqui. Quem dirigiu? Porque eu só estou acordando pra valer agora.”

A pergunta interessante é de fato “quem dirigiu”, porque quem dirigiu foi a mesma pessoa. Mas dirigir é (como muitas outras, aliás) uma atividade que ganha uma certa autonomia. Também depende do motorista. Um motorista pode dirigir assim de modo meio sonambúlico e não sofrer nenhum problema grave, porque dirige com prudência e os reflexos visuais e motores estão em ordem.

Há vários níveis, como constatou Paul McCartney durante uma viagem lisérgica dos Beatles, da qual ele emergiu com esta única frase, dando provas de ser mais minimalista do que Yoko Ono.



Na primeira história acima, eu pressuponho que o motorista estava bêbado mas era um bom motorista, e isso prevaleceu sobre a bebida. Não aconselho a ninguém (como se fosse preciso). Acho que estatisticamente há mais motoristas bêbados sem acidentes do que com acidentes. O que não vale como desculpa.

No caso do meio, o da freiada cegante, o que vejo é o grau de reflexo, de adestramento, de autocondicionamento. Vai bater e você ao volante de toneladas de tralha com metal e vidros. Pela força da pisada e pela rapidez do reflexo, é um preparo comparável ao de um campeão do tênis. Devia existir um Teste Voight-Kampff só para medir isso.

O último caso é o mais interessante, porque facilmente pode ser considerado um estado alterado de consciência. A causa pode ser a auto-segurança de quem não vai fazer bobagem por sua iniciativa. Todos veem que a pessoa está acordada, a parte sensorial toda ativa, bota bagagem na mala do carro, abastece, conversa com um e outro, pega o volante, e lá vem aquela imensa fita solitária fluindo à sua frente.

Podemos postular, pelo menos em termos de dramaturgia, a existência de um sistema emocional, que naquelas horas de preparativos e na viagem de rotina continuava ali, mas adormecido, não tinha sido chamado a abrir os olhos. A freiada brusca atrás do caminhão, nas pistas paralelas de acesso ao subúrbio, acordou uma ninhada de aplicativos que desde o despertar estavam em modo espera: medo, susto, estranheza daquilo tudo, aquela sensação estrídula de ser dois.

Há vários níveis, também diria o inefável Colin Wilson, que nunca, diante de um fato, hesitou em produzir uma teoria. A consciência não é uma coisa, é um conjunto fluido, mas voluntariamente estável, de processos que se complementam. Como descrevê-los?  Em termos que a gente visualize melhor.

John R. Searle, professor de filosofia, disse uma vez:

“Por não entendermos muito bem o modo como a mente humana funciona, somos tentados o tempo inteiro a compará-la com o tipo mais recente de tecnologia.  Na minha infância, sempre nos asseguravam que a mente era uma espécie de central telefônica – o que mais poderia ser, afinal?  Depois, descobri, divertido, que Sherrington, o grande neuro-cientista britânico, comparava a mente a um sistema telegráfico.  Freud a comparava com freqüência a sistemas hidráulicos e eletromagnéticos.  Leibnitz a comparava a um moinho, e agora, evidentemente, a metáfora é o computador digital”.






quarta-feira, 10 de setembro de 2014

3600) Filosofias populares (10.9.2014)



Serei eu o último cara que lembra dessas coisas? Não, porque a maioria dos que conheço são até mais novos do que eu.  Havia uma cachaça chamada Praianinha que tinha um ótimo jingle. Vejam o que é nossa civilização – eu não tinha idade para tomar cachaça, mas já era exposto a ouvir jingles.  Uma pequena obra-prima que vou transcrever: “Se meu time ganhar / Praianinha vou tomar, para comemorar; / mas se meu time perder / Praianinha vou beber, para esquecer... / Praianinha na tristeza, Praianinha na alegria / Praianinha toda hora, Praianinha todo dia... (E se meu time ganhar...)”

Em matéria de equilíbrio dá um Descartes, e em matéria de saber viver dá dez Omar Khayam.  Feliz é o povo que tem suas praianinhas, de todas as naturezas, para atiçar o prazer e amortizar a dor.  (Admito que a leitura conspiratório-marxista, de que o slogan evidencia a onipresença da subliminaridade comercial, nos momentos em que o consumidor está mais emotivo e fragilizado, tem lá seus argumentos.)  Não me surpreenderia que um jingle assim fosse de Rosil Cavalcanti, de Luiz Queiroga, de Lamartine Babo (a música é meio um sambinha), de Luiz Bandeira.

Beber para lembrar, beber para ajudar a perder... A bebida e a comida podem até ser qualquer uma, porque a fantasia de quem precisa beber e precisa comer é infinita. Baudelaire chamou as drogas de paraísos artificiais, mas hoje elas são muito mais “analgésicos hilariantes”. Elas apagam de mentira a dor, e nos obrigam a sorrir. Assim é a cerveja, para dar só um exemplo, e que Deus abençoe, em sua infinita capacidade diplomática, quem a traz até a nossa porta.

Praianinha deveria ter saído em duas embalagens. A da derrota, “batizada” com um estimulante. A da vitória, com um relaxativo. A sabedoria não está só na simetria, mas no equilíbrio dinâmico. Quando algo chega ao seu extremo, a tendência é voltar.  Lei da Natureza, ou sabedoria chinesa?  Tanto faz, assim como tanto faz saber quem foi o primeiro enunciador da frase “dois mais dois são quatro”.  Faz diferença o autor?  Basta ser verdade.

Para os escritores a bebida foi a pólvora do escândalo (Edgar Poe), foi o anestesiamento compulsório (Raymond Chandler), o combustível da fogueira (Bukowski, Faulkner, Dylan Thomas, Lima Barreto), uma maneira agradável de se impedir de pensar. Não bebiam porque eram infelizes. Se se fizer uma lista, alguns dos mais felizes eram os que bebiam mais. A bebida (e olha, estamos aqui nivelando o vinho, o uísque, a vodka, o chope e a cana de cabeça) desabrocha de maneira diferente em cada pessoa. Algumas vezes de maneira trágica, claro, mas qual é a vida que não roça na tragédia de vez em quando?


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

3337) Tome uma pela gente (7.11.2013)




De vez em quando um governo proíbe o consumo de uma droga bem popular no país, com as consequências que já se sabe. Cem anos depois, a droga volta de vento em popa, e do Governo que a proibiu só restam bustos de gesso, medalhas comemorativas e nomes de ruas.

Foi o caso da Lei Seca, quando os EUA proibiram que se bebesse bebida alcoólica no país. Durou de 1920 até 1933, e, como disseram vários historiadores, ali nunca se bebeu tanto, e nunca se bebeu tão mal. 

Arthur Machen afirmou: “Proíbam um homem de beber uma bebida alcoólica decente, e em breve ele estará alegremente bebendo álcool puro”. Os norte-americanos beberam álcool impuro durante 13 anos. O uísque era fabricado nas banheiras dos apartamentos, com ingredientes improvisados, e vendido por qualquer preço. 

A Máfia, um obscuro grupo de bandidos imigrantes, tornou-se uma das principais forças do crime organizado no país, graças à fabricação e venda daquilo que o Governo, ao invés de administrar, resolveu proibir. Triste do poder que não pode.

Li a notícia (http://bit.ly/1bshw4N) de que numa reforma realizada num dos edifícios da Universidade de Fairleigh (em New Jersey) foi encontrada uma lata de tabaco contendo uma folha manuscrita, uma verdadeira “cápsula do tempo”.  A lata estava embutida numa das paredes; quando foi aberta, encontrou-se a nota que dizia: 

“Estes banheiros foram remodelados em 1932. E. J. Parsons de Morristown fez os encanamentos, e Edw F Daniher de St Madison fez o revestimento. Outros homens que aqui trabalharam foram: (... – segue-se uma lista de nomes.) Foi durante a Lei Seca, e foi um trabalho feito sem tomar uma dose sequer. Quem encontrar esta nota, se a Lei no. 18 tiver sido revogada, tome uma pela gente”.

A Lei 18 era justamente a que entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, proibindo as bebidas alcoólicas. Atentem para o detalhe subversivo da “cápsula”, porque quem a colocou ali não hesitou em dar os nomes dos envolvidos no trabalho, e, mesmo admitindo que não tinham bebido nada durante aquele período, o teor da mensagem podia ser considerado (e certamente seria, basta imaginar as figuras que lessem aquilo) uma “apologia do uso das drogas”.

Um professor da Universidade local explica que (como sempre) a Lei só serviu para os pobres. Antes da sua promulgação, Ruth Vanderbilt Twombly, da elite local, “fez estocar na região uma tal quantidade de bebida que durou os treze anos da Proibição, e dava festas em estilo Grande Gatsby para mais de 600 pessoas”. 

Os operários não bebiam – assim como os remadores de Ulisses, na Odisséia, não tinham permissão para ouvir o canto das sereias. Quanto mais muda mais continua a mesma coisa.







domingo, 21 de julho de 2013

3244) Lima Barreto (21.7.2013)




Há um movimento nas redes sociais, lançado por Josélia Aguiar, Álvaro Costa e Silva (“Marechal”) e André Vallias, e divulgado pela tradutora Denise Bottmann (do blog “Não gosto de plágio”) para que a Festa Literária de Paraty (Flip) de 2014 homenageie a obra de Lima Barreto. Há outros possíveis homenageados, como Rubem Braga. Essas homenagens causam sempre um momento de hesitação e remorso, porque de um modo geral todos os sugeridos merecem, e a gente, mesmo celebrando o escolhido, fica com pena dos descartados. Em todo caso, Lima Barreto é uma escolha justa, e mesmo que não se confirme vou aproveitar para conhecer melhor sua obra, da qual já li vários contos e artigos, mas nenhum romance. (Pois é, galera, não tenho problema em revelar o que não sei. O pouco que sei já me garante.)

Lima Barreto (1881-1922) teve que batalhar contra muitos preconceitos. Primeiro, o da cor, que o fez compartilhar o destino de Cruz e Sousa, Machado de Assis (em parte) e outros autores negros ou mestiços de cem anos atrás, num Brasil branco que cerrava fileiras em torno de sua brancura como um time que está ganhando o jogo de 1x0 mas sente no adversário cada vez mais volume de jogo.

Outro preconceito foi devido à bebida e à loucura, um karma permanente do destino literário. Já frequentei o prédio da UFRJ na Praia Vermelha, no Rio, inclusive para fazer palestras, e sempre alguém comenta que foi ali que Lima Barreto ficou durante suas internações psiquiátricas. Algo parecido me ocorreu quando visitei há 30 anos o antigo presídio da Ilha Grande, e lembrei de Graciliano Ramos e suas memórias do cárcere. Alguns dos grandes escritores brasileiros do futuro talvez sejam pessoas de que nem eu nem vocês jamais ouvimos falar, pessoas que talvez estejam hoje numa cadeia, ou numa clínica de desintoxicação. Quem pode garantir?

Um traço notável de Lima como escritor é a clareza e a precisão de sua prosa, sem nada daquele maneirismo dos beletristas do seu tempo. Lima era direto, coloquial, usava um português sem paletó nem gravata, e isso era muitas vezes alegado como falta de cultura. Já comentei aqui nesta coluna o livro que contrapõe artigos de Lima Barreto e de Coelho Neto sobre futebol (O Fla-Flu literário, de Mauro Rosso, http://bit.ly/13yAvnj). É espantosa a atualidade da linguagem de Lima, comparada à do autor de “Sertão” – que aliás admiro, é um dos autores queridos da minha juventude. Sua prosa ornamental e pomposa envelheceu; a de Lima parece escrita dez anos atrás, ou mesmo este ano. Mas foi escrita naquele Brasil da República Velha, engessado, costurado por privilégios raciais e feudos políticos.


domingo, 27 de janeiro de 2013

3094) A Larica (27.1.2013)




(ilustração de Gustave Doré para Pantagruel, de Rabelais)




A Larica é uma entidade que se apossa – por meios ainda não reconhecidos pela ciência convencional – do corpo desprevenido de um ser humano, e passa a dominá-lo, em seu próprio e parasítico proveito, sempre que ele o permite. O principal sintoma de um indivíduo possuído pela Larica é uma fome inegociável. Se a mesa estiver vazia, o sujeito é capaz de roer a toalha.

Por que tem este nome? Ninguém sabe. Ouvi uma explicação dando conta de que em Cuba, ao que parece, existe uma expressão popular dizendo que: “En la vida del boémio existe la madrugada pobre, y existe la rica”. Não sei se as palavras são exatamente estas, mas La Rica passou a ser um sinônimo daquelas madrugadas insones em que uma mente doentiamente ativa fica impulsionando um corpo a noite inteira de um lado para o outro de um apartamento, fazendo-o esbarrar nos móveis, perder o rumo e ir parar na cozinha quando visava o banheiro, mas de qualquer maneira já que este lugar onde ao que parece eu estou agora é a cozinha, então deve haver uma geladeira, muito bem, eis geladeira. Tudo confere. O que tem dentro deste tupperware? Bora esquentar, e quando comer a gente descobre. 

A Larica funciona assim. Ela é uma entidade pouco nítida para mim que, agnosticamente, não dou a mínima para orixás ou elementais terrestres ou consciências semióticas. Só sei que funciona. O sabor do que se come em Larica é sagrado. Não venham me dizer que a coquilha-de-são-jaques é mais saborosa do que o macarrão-parafuso-com-carne-moída trazido de volta à vida neste instante, mediante ficção científica, cibernética, microondas e pensamento positivo.

Um pão de anteontem redunda na mais saborosa torrada que já chiou num grill. Há maravilhas inexploradas, toda uma fractal de sutilezas possíveis no mix entre o purê de batatas e o arroz. As frutas, então, são um universo à parte. Basta pensar na pletora de líquidos em que uma fruta pode ser mergulhada com proveito gastronômico e chegaremos a números galácticos. Não subestime as bolachas; qualquer substância achatada posta entre duas delas tem, por milagre estrutural, seu sabor enriquecido.

A Larica nos leva de volta à essência sagrada do ato da alimentação, tão banalizado pelos comerciantes de secos-e-molhados e tão aristocratizado pelos gurmês. Só sobreviveremos se destruirmos alguma coisa. Precisamos tirar de algum lugar a energia que nos mantém em movimento. Se um bicho come, ele está interagindo com o Universo num dos seus níveis mais primais, onde a frivolidade não tem vez. O bicho consome energia do Universo. O Universo a fornece, de olho nele. Está contabilizando. Um dia, vai pedir de volta. Algum problema?


domingo, 8 de janeiro de 2012

2761) Prezado Eu (8.1.2012)



“Prezado Eu: Estou escrevendo do ano de 2010, quando atingi a idade totalmente ridícula de 62 anos, e venho lhe dar um pequeno conselho, em apenas cinco palavras: fique longe das drogas recreativas. Você tem muito talento e vai fazer muita gente feliz com suas histórias, mas (é triste, mas é verdade) você também é um viciado pronto para entrar em ação. Se você não der atenção a esta carta e mudar seu futuro, pelo menos dez anos da sua vida, entre os 30 e os 40 anos, vão ser uma espécie de eclipse tenebroso em que você vai decepcionar uma porção de gente e deixar de aproveitar seu próprio sucesso. Vai também chegar bem perto da morte, em várias ocasiões. Faça um favor a você mesmo e desfrute de um mundo mais luminoso e mais produtivo. Lembre que, assim como o amor, a resistência à tentação torna o nosso coração mais forte. Fique limpo. Tudo de bom, Stephen King”.

Esta é uma das cartas que The Guardian encomendou a pessoas como Gene Hackman, Alice Cooper, James Belushi, Gillian Anderson, etc., com o mote: “Escreva uma carta para você mesmo aos 16 anos, dando-lhe o recado que achar mais importante (http://bit.ly/p0bFox)”. Todos nós sabemos que é impossível mudar o passado, e que se pudéssemos mudar o que fizemos aos 16 anos não chegaríamos ao ponto de, adultos, poder voltar no tempo para fazer essa mudança. É a viagem impossível, um paradoxo temporal que tem a sedução hipnótica das ilusões de ótica, das pinturas “trompe l’oeil” e das gravuras de Escher em que duas imagens incompatíveis parecem coexistir.

Stephen King é um dos escritores mais bem sucedidos, comercialmente, mas sempre teve problemas com a bebida (e outras drogas). Já vi uma entrevista em que ele declarava guardar apenas uma vaga lembrança de ter escrito o romance Cujo (1981), porque nessa época não fazia outra coisa senão se embebedar. Sua obra retoma de maneira obsessiva e mesmo cansativo esse tema: um escritor bêbado em conflito com a família (talvez O Iluminado seja o melhor livro dele sobre esse tema).

Entre os outros convidados, Hugh Jackman (“Wolverine”) aconselha seu Eu jovem a usar sempre protetor solar, e a manter uma lista das 5 coisas que gosta de fazer e das 5 coisas que sabe fazer bem, e avisa: “Um dia tudo isto vai se encaixar, e você vai descobrir seu caminho”. Esses conselhos fictícios são uma breve dramatização do balanço retrospectivo que todos nós fazemos de vez em quando para saber o que funcionou e o que não deu certo em nossas vidas. O “Eu” com 16 anos cometerá os mesmos erros e fará as mesmas descobertas; mas somente nós somos capazes de, agora, distinguir o que foi descoberta e o que foi erro.

sábado, 10 de dezembro de 2011

2736) O artista farol (10.12.2011)



(ilustração: Jaron Phillips)

Escrevi uma vez que esses poetas que se dizem influenciados por Arthur Rimbaud deveriam ter radicalizado essa influência e parado de produzir poesia aos 19 anos, como ele fez. É um gracejo, meio sem sentido aliás, porque para ser influenciado por Rimbaud basta ter lido uma vez alguns dos seus grandes poemas. Rimbaud dedicou a sua curta obra, escrita ao longo de cinco ou seis anos, uma intensidade de pensamento e de trabalho equivalente a uma vida inteira de um sujeito normal. Muita gente, contudo, esquece esse trabalho insano e acaba querendo imitar os cacoetes superficiais de Rimbaud: sua andarilhagem, seu homossexualismo, sua grosseria, sua mania de se alojar na casa alheia, seu gosto pelo escândalo... Nem Bob Dylan escapou.

Ou então, é um jovem guitarrista que quer tocar igual a Keith Richard, e uma das primeiras coisas que faz é começar a injetar heroína. Ou um jovem escritor que lê um livro de Faulkner, se deslumbra, ouve falar que Faulkner era um bêbado, e começa imediatamente a beber, ao invés de escrever. A verdade é que é mais fácil e mais divertido imitar os vícios de um artista do que as noites em claro que ele passou estudando e aperfeiçoando sua técnica. Artistas são, muitas vezes, sujeitos com imensa capacidade de concentração, de esforço, de disciplina; mas como têm um lado romântico e anticonvencional minimizam esse esforço, não querem ficar exortando os jovens a se tornarem “operários padrão”. Mas eles próprios o foram, e sem isto não teriam sido grandes.

O pior de tudo é quando certos artistas viveram uma viagem autodestrutiva que os arrastou para o abismo, mas durante esse processo produziram uma obra que perdurou. O leitor desavisado, o leitor jovem geralmente, imagina que para produzir uma obra como aquela é indispensável viver uma vida como aquela. Pensa que tem a obrigação de tomar todas as drogas que William Burroughs tomou, para ter idéias tão anticonvencionais quanto as de Burroughs; pensa que para escrever como Edgar Allan Poe é preciso viver na penúria, enchendo a cara, brigando com os amigos; pensa que tomar remédios tarja-preta o dia todo e ceder a surtos esquizofrênicos vai lhe dar de graça romances como os de Philip K. Dick.

Esses artistas são como faróis. Existem para serem vistos à distância, não para que alguém se aproxime deles. A obra é a luz que emitem, mas no caso deles é preciso saber que essa luz revela os penhascos ameaçadores onde foi fincada. Dizem aos navegantes: “Este lugar é perigoso!”. Feliz o artista que, mesmo naufragando entre os penhascos, consegue produzir alguma luz que diga: “Afasta-te daqui! Foi aqui que naufraguei!”.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

2732) Dr. Sócrates (6.12.2011)



O aspecto mais delicado, ao comentar a morte de alguém vitimado pela droga, é evitar o discurso moralista e hipócrita (“Jovens, afastai-vos! As drogas matam!”). Como posso dizer isso, se eu também bebo? Sócrates bebeu valentemente em suas últimas décadas de vida. Segundo a imprensa, estava com o fígado praticamente destruído, e sua única chance real de sobrevivência era aguentar firme até conseguir um transplante. Infelizmente, não deu. A culpa é da bebida? É do bebedor? Diante de situações assim, temos necessidade de atribuir culpa a alguém, como se achar um culpado pudesse de certa forma apaziguar a nossa mágoa pela perda. Aqui, o culpado e perda são uma só pessoa, porque ninguém obrigava Sócrates a beber, ele bebia porque gostava, como a imensa maioria dos que bebem, inclusive eu. A questão, mais uma vez, é saber quando parar. Parar por hoje. Dizer: “Parei por hoje, me traz uma mineral com gás”, ou algo equivalente. Se você todo dia souber a hora de parar de beber por hoje, talvez tenha chance de continuar bebendo em paz até uma idade avançada.

Sócrates, como jogador, era um desses casos improváveis de atleta, como aquele besouro que não pode voar mas voa. Sócrates era magro, desengonçado. Quando corria, parecia o tempo todo a ponto de cair sozinho. Não teria físico para suportar o futebol vale-tudo de hoje em dia, todo à base de safanões, encontrões, esbarrões, trancos e peitadas. O que o salvava era a imensa habilidade com a bola, na qual batia com a precisão de um taco de sinuca, dando-lhe a força, a trajetória e o efeito que bem entendia. E a inteligência. Era alto, enxergava o jogo inteiro lá de cima. Parecia saber sempre onde estava cada companheiro e cada adversário, para onde se deslocavam, e a que velocidade. No meio dessa confluência de trajetórias, ele fazia sua navegação leve, ágil, bola dominada, sem esbarrar em ninguém, ziguezagueando por entre a zaga e muitas vezes executando uma assistência diagonal que deixava seus companheiros na cara do gol.

O quarteto que ele compôs na Seleção Brasileira de 1982 com Zico, Falcão e Cerezo não tem similar, na combinação de estilos tão diferentes e complementares; em qualidade pura, foi equivalente ao quarteto Pelé, Tostão, Gerson e Rivelino na Copa de 1970. Falam muito nos passes de calcanhar do doutor. O calcanhar estava para ele assim como o trocadilho estava para Lourival Batista: um detalhe pitoresco numa obra mais profunda e mais complexa. Irônico, incisivo, crítico, boêmio, conhecia as entranhas do futebol e conseguia continuar achando-o belo. Um brasileiro de biografia improvável, e de um carisma tranquilo e sem pose.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

2310) O caba bêbo (3.8.2010)



O bom do caba bêbo é que tudo é possível. Não tou dizendo que o caba bêbo consegue realizar qualquer coisa. “Fôra, fazê-lo, assaz temerário”. Mas ele acha que pode! Esta iluminação mística o assalta até no mictório do bar, quando tenta achar botões onde só existe um fechicler. Pouco importa! O bêbo sente-se potencializado mentalmente, capaz de ascender píncaros, de sobrevoar nebulosas, de correr para a marca do pênalte e fazer o gol de letra e com cavadinha, aos 48 do 2o. tempo da decisão da Copa. Direis agora: “Tresloucado amigo! Vai dormir que teu mal é sono!...” Não, não é. Engana-se quem pensa que pálpebras pesadonas são curva descendente. É que a cabeça do bêbo está passando-marcha em todo o seu poder de processamento, o uso de CPU está esbarrando no ridículo limite de 100%, ele está alçando voos, seu nome nesse momento é Zunindo Vertiginoso, ele acaba de colapsar em soluções cristalinas problemas milenares como a quadratura do círculo, o sorriso da Gioconda, a morte de Lee Oswald, o teorema de Fermat, o final de “Blow Up”, a constante de Eddington... O caba bêbo acessa vislumbres. Usa cordilheiras como trampolim. Magnifica os quarks do universo até ver neles universos tão mais complexos quanto mais cantábiles. Ninguém o subvenciona, mas ele raciocina, impertérrito, como se cada sinapse levada a cabo lhe rendesse 0,10 centavos como ocorre na TV interativa. Pensem na prodigiosa força geratriz que o Brasil está perdendo, um Itaipu de neurônios trovejando comportas - para a bruma, através da bruma, rumo ao coisíssima nenhuma!... Onde estão as autoridades competentes que não concedem ao bêbo uma Bolsa para simplesmente pensar, e só pensar? Pensam que pensar é fácil? Antes fosse! Pensar implica compromissos, implica em deixar de frequentar festas, deixar de ir a estréias e a lançamentos apenas para ficar puxando aros metálicos de cerveja, escutando aquele espirro gelado, e cumprindo o antiquíssimo ritual que já tinha lugar nos círculos de Stonehenge ou em outros oratórios místicos onde os avatares promoviam luaus esotéricos em que todo mundo tinha direito a pensar durante uma noite inteira, desde que na manhã seguinte não fizesse muita questão de lembrar do que tinha acontecido e retornasse para suas casas tirando a grama do cabelo e dizendo à família que tinha perdido o último ônibus e fora forçado a dormir num estábulo de uma fazenda cuja proprietária, lampião em punho, lhe indicara o proverbial monte de feno dos filmes de faroeste, só que junto a ele encontrava-se outro monte de feno proverbial, o dos romances-sem-capa do século 19, sobre o qual estava deitada uma aldeã com o rosto e os atributos secundários de uma atriz de Hollywood cujo nome será melhor omitir. O mundo do bêbo é assim, compatriotas: uma cebola à qual é adicionada uma nova camada a cada novo pensamento concebido, e onde tudo colapsa numa revelação sobrenatural: não são botões, idiota, é um fechicler. Zzzzzzip! Ufa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

2031) A autodestruição como espetáculo (11.9.2009)




(Malcolm Lowry)

A certa altura do livro autobiográfico O Clube do Filme, o autor, David Gilmour, exibe para o filho adolescente um documentário sobre Malcolm Lowry, o autor de À Sombra do Vulcão

Lowry foi um desses famosos “escritores bêbados” como Charles Bukowski, Hunter Thompson, Hemingway, Faulkner. 

Seu romance reconstitui em forma de ficção os anos que ele passou no México, mergulhado num estupor alcoólico, absorvendo e reconstituindo literariamente, sabe-se lá como, o tumulto político do país.

Artistas que se auto-destroem através da bebida e de outras drogas exercem uma fascinação sobre os jovens. Talvez porque estes se julguem predestinados a grandes coisas, e também porque se julguem imortais. 

A maturidade (digamos, a fase entre os 30 e os 60 anos) é uma zona de transição necessária para que o jovem de antes possa tornar-se o velho de depois, e aceitar, sem sobressaltos, a idéia da própria mortalidade. 

Muita gente se surpreende quando fica sabendo do suicídio de um jovem. Para mim, não há surpresa. Sempre há um jovem que se crê imortal. Suicidar-se é um mero desabafo passageiro. O fogo dos hormônios que arde em seu metabolismo lhe dá plenitude de vida, e ele imagina que um tiro no ouvido conseguirá, no máximo, deixá-lo meio surdo durante alguns dias.

Diz David Gilmour em seu livro, dirigindo-se ao filho adolescente: 

“É assustador imaginar quantos jovens da sua idade se embebedaram e olharam no espelho imaginando ver Malcolm Lowry olhando de volta para eles. Quantos jovens pensaram que estavam fazendo algo mais importante e poético do que simplesmente encher a cara.” 

Um pouco desta sensação ocorre no mundo da música, com as legiões de rapazes e moças que se deixam encantar pelas vidas de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, Raul Seixas. 

São artistas divididos entre a criação e a autodestruição, e ambas são públicas. Sua autodestruição se transforma num espetáculo, ou numa parte do espetáculo permanente entre eles e o mundo. A obra artística e a bebedeira parecem não poder existir uma sem a outra. Na verdade podem, e o mais frequente é que admiradores de tais artistas se dediquem mais à bebedeira do que à literatura.

Lowry afirmou certa vez: 

“E é dessa maneira que eu, às vezes, penso sobre mim mesmo. Como um grande explorador que descobriu alguma terra extraordinária da qual jamais poderá voltar para anunciar ao mundo sua descoberta: mas o nome dessa terra é inferno”. 

O escritor que se auto-destrói é alguém que pôs em funcionamento um mecanismo poderoso, um mecanismo que não consegue mais desligar. O erro maior de quem os avalia é imaginar que a droga ou a bebida lhes deram “inspiração para escrever”. Na verdade, droga e bebida os arrastaram para o abismo, mas isso ocorreu tão devagar que eles tiveram tempo de escrever (compor, cantar, etc.) seus pedidos de socorro, e para anunciar a todos o nome do lugar que tinham acabado de descobrir.





sábado, 8 de maio de 2010

2011) Beber faz bem (19.8.2009)



(Henry James)
 

Uma das melhores coisas da vida é beber; uma das piores é ficar bêbado. 

Isto posto, espero que os abstêmios perdoem a singeleza deste título. Culpar somente a bebida pelos despautérios dos bêbados é tão ingênuo quanto atribuir a ela as qualidades dos romances de Hemingway ou de Lima Barreto. 

A bebida não cria nada de bom nem nada de mau em nós; apenas potencializa o que já temos. A bebida, em excesso, apenas atordoa, desorganiza, embrutece. A bebida, na medida certa, apenas inebria, congraça, arrebata e pacifica. Segundo Henry James, “a sobriedade reduz, discrimina e diz não, enquanto que a embriaguez expande, unifica e diz sim”. 

Existe uma equação que os grandes boêmios dominam intuitivamente. É preciso beber até atingir um certo estado de euforia. Uma vez atingido este estado, basta diminuir o ritmo de absorção, mas continuar bebendo de pouquinho, a intervalos, para que o estado se mantenha. 

Esta é a parte mais difícil. A euforia produzida pelo primeiro assomo do álcool é tão agradável que em geral perdemos o ponto e carregamos na mão. O entusiasmo nos faz beber em maior velocidade do que o necessário, e acabamos com a boca torta, o olho torto, a rua torta, e até o táxi parece estar andando em duas rodas como um Simca Tufão. 

Uma sábia invenção dos que bebem vinho foi a idéia de alterná-lo com água. A intenção é hidratar, mas psicologicamente acaba tendo um efeito de retardamento da embriaguez. Quem gosta de beber conversando, como eu, recorre de vez em quando ao copo para molhar a garganta e lubrificar as idéias. Ora – uma coisa é pegar dez vezes a taça de vinho, outra coisa é pegar cinco vezes na de vinho e cinco na de água. Eis o pulo do gato. (Claro que, se o sujeito é pinguço mesmo, ele vai tomar uma garrafa de vinho em uma hora, e não tem água que o recupere, mas aí eu não tenho jeito a dar.) 

Esta medida é tão providencial que resolvi adotá-la também para outras bebidas. Depois do quinto ou sexto chope, começo a alternar os chopes com garrafinhas de mineral com gás. É o quanto basta, em geral, para manter o inebriamento e me permitir, no fim, calcular minha parte na conta. 

Henry James estava certo no que afirmou acima, mas os bebedores profissionais sabem muito bem que a euforia alcoólica é geradora de fantasias panteístas. Quando a farra está boa, viramos amigos de todo mundo, fazemos juras e promessas, assumimos compromissos que no dia seguinte vêm bater à nossa porta ou fazer latejar nossas meninges. 

Dizem que F. Scott Fitzgerald, que davas festas de arromba na sua casa em Great Neck, mantinha na entrada dela um cartaz enorme dizendo: 

“Solicita-se aos visitantes que não arrombem portas de armários em busca de bebida, mesmo quando autorizados a tanto pelos donos da casa. Hóspedes que vieram passar o fim de semana ficam respeitosamente prevenidos de que convites para ficar até segunda-feira, feitos pelos anfitriões na madrugada de domingo, não devem ser levados a sério”.





quinta-feira, 6 de maio de 2010

2003) O bebê e o bêbado (9.8.2009)




Se você tem ou já teve filhos pequenos, saberá do que estou falando. Criar um bebê até dois anos de idade é como cuidar de um bêbado, e mais do que isso, um bêbado que demora anos para ficar bom da carraspana. 

Acho que a experiência de cuidar de bêbados é mais rara do que a de cuidar de crianças, então vou descrever mais ou menos do que se trata, e vocês que me dêem razão.

Um bêbado do qual cuidamos é sempre um amigo, e um amigo do qual a gente gosta muito. Quando não é amigo a gente simplesmente o evita, e, no pior dos casos, pede a conta e vai beber noutro lugar. Mas, o que fazer quando estamos a sós com um bêbado chato, e esse chato calha de ser um grande amigo? Não há outro remédio senão cuidar dele.

Um bebê (como um bêbado) não entende o que a gente diz, mesmo quando é capaz de repetir em voz alta nossas ordens. Não entende e não obedece. Um bêbado (como um bebê) é uma criatura constantemente em perigo. Pode cair, pode se machucar, pode rachar a testa na quina de uma mesa, pode quebrar uma perna escada abaixo. 

Daí que é preciso estar sempre ao seu lado para onde quer que queiram ir, acompanhando, cercando, braços prontos para evitar que caia. Não adianta dar conselhos nem explicar o que devem fazer. Sua percepção do mundo é confusa, desorganizada, e mesmo que entendam o que estamos dizendo já o terão esquecido daí a pouco. O mundo mental de um bebê e de um bêbado abarca apenas os últimos minutos e os próximos segundos.

Isso para não falar nos momentos mais vexatórios. A gente se distrai por alguns minutos do bebê (ou do bêbado) enquanto atende um telefonema, e quando retorna o encontra em petição de miséria, porque vomitou ou fez xixi. É preciso conduzi-lo para o banheiro, tirar a roupa suja, empurrá-lo para o chuveiro (o bêbado, não o bebê) ou então dar-lhe um banho completo (o bebê, não o bêbado).

Bêbados e bebês têm outro aspecto em comum, o fato de que contam não com um Anjo da Guarda, como nós, mas com quatro: na frente, atrás, à direita e à esquerda. Somente esta teoria explica o fato de que sobrevivem aos próprios tombos e às bobagens que fazem, como enfiar o dedo na tomada ou dirigir de volta para casa. 

Cuidar de uma criança pequena significa ter dentro de casa esse bêbado permanente, essa fonte constante de inquietações e desassossegos, esse ímã de pequenos acidentes. Significa dormir com um olho aberto e o outro fechado para ver se de repente a criatura levantou sozinha e resolveu vagar pela casa; e com os dois ouvidos em alerta, para ter a certeza de que continuamos a ouvir o som da respiração no quarto ao lado.

Quando a gente cuida de um amigo que tomou uma carraspana, nunca deixa de cobrar-lhe no encontro seguinte: “Você, hem, rapaz? Vê se não apronta de novo. Na próxima vez te deixo dormindo na calçada!”. 

Ah, se pudéssemos dizer isso àqueles bebinhos inocentes, que cambaleiam vida adentro, ainda tontos do pileque da Eternidade!






quarta-feira, 17 de março de 2010

1798) Kingsley Amis e a ressaca (13.12.2008)




(Kingsley Amis)

A ressaca é o que resta de um homem depois que a bebida vai embora.

Histórias de ressaca são pesadelos que boêmios inveterados relatam uns aos outros entre gargalhadas, com a coragem impudente de quem conta piadas durante um bombardeio. Bebedores contumazes costumam comparar suas receitas preferidas, com a aplicação de sócios dum clube de hipocondríacos.

A minha, nos tempos de juventude em que eu tomava por ano uns três ou quatro pileques de grande porte, era amanhecer no dia seguinte, beber água gelada e rumar para a Sorveteria Flórida, onde tomava duas saladas de frutas com sorvete de maracujá e calda de chocolate. Era tiro e queda. Dez minutos depois da segunda taça eu já estava considerando a possibilidade de uma caipirinha.

A editora inglesa Bloomsbury reuniu num único volume (Everyday Drinking) três textos curtos de Kingsley Amis sobre a bebida e os bebedores (ver: http://www.guardian.co.uk/books/2008/nov/23/kingsleyamis-alcohol/print).

Amis (1922-1995) foi um escritor versátil e famoso. Seus livros mais conhecidos são Lucky Jim (1954), The Anti-Death League (1966), The Alteration (1976). Não li nenhum deles: li seu ótimo ensaio sobre ficção científica, New Maps of Hell (1960) e alguns volumes da série de antologias de FC que ele organizou, Spectrum.

Ironicamente, Amis é hoje conhecido como “o pai de Martin Amis”, porque seus livros foram eclipsados pelos do filho.

Sir Kingsley bebia como gente grande, e a resenha de Everyday Drinking fala dessas sofisticações etílicas que sempre me foram estranhas, como a composição de coquetéis. Admiro os gênios que criam sutilezas como o “Paul Fussell’s Milk Punch” (uma parte de conhaque, uma de bourbon, quatro de leite, mais noz-moscada e cubos de leite congelado) ou o “Lucky Jim” (doze a quinze partes de vodka, uma parte de vermute, duas partes de suco de pepino).

Para quem só toma hoje cerveja e vinho, bebidas assim são de um refinamento digno da Renascença Italiana.

Amis receita alguns desses drinques para “aquecer o coração e dar forças durante um dia árduo, não apenas por ocasião de uma entrevista ou uma viagem aérea, mas na ocorrência de uma festividade angustiante como o Natal, o casamento de um velho amigo de sua esposa, ou o domingo de levar a família para almoçar com a avó”.

Ele assegura que as curas tradicionais da ressaca são irrelevantes, “uma vez que omitem toda aquela enorme, vaga, terrível e cintilante super-estrutura metafísica que faz da ressaca uma rara vereda para o auto-conhecimento e a auto-realização”.

Segundo o resenhador, Roger Scruton, ele atribui ao fenômeno da ressaca grandes páginas de literatura que não a mencionam, mas certamente dela se originam: “trechos de Dostoiévski e de Poe podem ser lidos sob esta ótica, embora a maior de todas as tentativas para captar essa experiência seja A Metamorfose de Kafka, em que o herói desperta pela manhã transformado num inseto do tamanho de um homem”.






sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

1712) O vacilo (6.9.2008)



Certas histórias dão o que pensar, como a que aconteceu com esse rapaz; chamemo-lo Valdir. Conheci-o logo quando cheguei no Rio, porque freqüentava o Barbas, em Botafogo, um bar com shows ao vivo onde cantei algumas vezes. Valdir tinha vinte e poucos anos, era um cara sempre alegre, boa-praça, topava tudo. Se o bar fechava às três da manhã e alguém sugeria ir tomar a saideira em Vila Isabel, ele dizia no ato: “Cabe três no meu carro”.

A tragédia não foi em Vila Isabel nem em Botafogo, mas pros lados da Tijuca, a certa altura da Haddock Lobo. Eram meras onze horas da noite, mas Valdir estava no bar desde o fim da tarde, num daqueles almoços que começam quase na hora do jantar e terminam quase na hora do café da manhã. Ele me confessou depois: “O engraçado é que eu só saí porque achei que estava muito bêbado. Fiquei com medo de beber mais e fazer uma besteira. Aí, na primeira esquina...”

Ao que parece o carro fez uma curva, houve uma turbulência no asfalto e “faltou chão”, como ele descreveu depois. Espatifou-se num ponto de ônibus; se houvesse alguém no banco do carona não teria escapado. Valdir teve uma pancada forte que lhe abriu a testa, e conseguiu sair do carro, no meio da gritaria geral, tonto pela pancada, e com os olhos cheios de sangue. Alguém o levou para a calçada, policiais o cercaram, o que ajudou a evitar um linchamento. Porque embaixo do carro, já mortos, estavam um garçom que tinha acabado de largar o trabalho, e uma mãe com a filha adolescente.

No dia seguinte o pai de Valdir e os advogados o tiraram da delegacia onde dormiu; com a cabeça envolta em bandagens ele foi para casa e aí começou a via-crucis jurídica. Inquérito, julgamento, condenação, réu primário, recurso, espera, novo julgamento, nova condenação, novo recurso... Não sei a história completa, porque isso começou a acontecer em 1988, e eu passo às vezes quatro ou cinco anos sem encontrar Valdir.

Ele amadureceu. Casou, teve três filhas. Tem um cargo na empresa do pai, que trabalha com exportações. Certa vez que jantamos juntos ele me contou que um dia cruzou no Forum com o filho e irmão das vítimas, e este cuspiu na sua cara. Perguntei o que fizera, e ele respondeu: “Limpei o cuspe na manga e dei razão a ele”. Mais do que as condenações jurídicas, contra as quais sempre se pode interpor um habeas-corpus, o que acabou com Valdir foi a condenação da imprensa, das famílias das vítimas, e de sua própria família, ou seja, os pais e os irmãos. A família é honesta, trabalhadora, e este episódio é “a única mancha”, segundo ele.

A mulher e as filhas são loucas por ele e conseguem desculpá-lo. Valdir nunca mais bebeu depois daquilo. Semana passada, vi no jornal que saiu sua condenação final, agora sem apelo. Valdir vai cumprir agora, com mais de quarenta anos, oito anos de cadeia; como não tem curso universitário, vai para o porão comum. E eu lembrei aquele velho mote das cantorias – “os pecados de domingo / quem paga é segunda-feira”.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

1677) Se beber, não dirija (27.7.2008)



As estatísticas sobre a recém-promulgada Lei Seca no trânsito têm sido as melhores possíveis. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo divulgou uma complicada estatística ao fim da qual anunciava que a redução de mortes no trânsito nas últimas semanas foi de 57%. Eu considero isto um fato da maior importância. O cálculo foi feito comparando os fins de semana paulistanos (5a a domingo) antes e depois da vigência da lei. Segundo a Folha Online, “a soma dos 12 dias dos últimos três finais de semana do mês de junho é de 35 mortes, numa média de 2,91 mortes/ao dia. O cálculo dos outros oito dias (26 a 29 de junho, e de 3 a 6 de julho), dá um total de 10 mortes, numa razão de 1,25 mortes/ao dia. A diferença dessas duas médias -- de 2,91 a 1,25 -- é que aponta a redução de 57%.”

Note-se que a lei não proíbe o cara nem de beber nem de dirigir. Apenas estabelece uma penalidade para quem for apanhado fazendo as duas coisas juntas. Isto deveria valer para as drogas em geral. Se o sujeito quer usar, que use, mas qualquer bobagem que ele fizesse “sob o efeito” deveria ser punida com muito maior severidade, se fosse visível uma relação entre a droga e a bobagem. Como é o caso de bebida e carro. O álcool perturba a capacidade de guiar, mesmo que pessoas diferentes reajam ao álcool com maior ou menor resistência.

Temos a tendência e encarar as coisas com bom-humor, principalmente no que se refere ao nosso lazer e à nossa diversão. O nosso folclore urbano de mesa de bar é cheio de histórias divertidas sobre bêbados ao volante, como aquela do carro que se espatifa num poste, os bombeiros retiram dois bêbados das “ferragens retorcidas”, perguntam qual dos dois vinha dirigindo e um deles responde: “Não sei, vínhamos ambos no banco de trás”.

Parece brincadeira? Não é assim que pensam os leitores dos jornais da cidadezinha canadense de Abbotsford, onde recentemente dois homens foram presos porque dirigiam embriagados. O problema é que vinham os dois dirigindo o mesmo carro. Harvey Miller, de 43 anos, não tem as pernas, e vinha manobrando o volante, enquanto seu amigo Edwin Marzinske, de 56 anos, pisava nos pedais. O comportamento errático do veículo atraiu os guardas de trânsito, que constataram o estado de embriaguez dos dois motoristas. Ambos recusaram-se a receber a multa. “Eu não vinha dirigindo, pois não posso frear nem acelerar,” dizia Miller, e seu colega afirmava: “Eu não vinha dirigindo, nem toquei no volante!” O jornal não explica qual a punição salomônica que os dois devem ter sofrido.

O que não deixa de me lembrar outra história, provavelmente apócrifa, sobre os tremendos pileques que Chico Buarque e Tom Jobim costumavam tomar juntos. Num certo amanhecer, encerrando uma carraspana homérica, os dois voltavam de carro para Ipanema quando Chico advertiu: “Tom, vai mais devagar, a gente bebeu bastante”. E Tom respondeu: “Quem está dirigindo é você”.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

1666) A Lei Seca (15.7.2008)



Está aí um dos raros lampejos de sensatez que já brotaram neste Brasil velho de guerra: punir as pessoas que dirigem sob o efeito do álcool. Sou suspeito para falar, porque não sei dirigir e nunca tive carro. Para mim, portanto, não muda nada, porque sempre que tomei umas e outras voltei para casa de táxi, ou a pé, ou trazido por alguém. As únicas vezes em que cometi alguma imprudência automobilística foi quando voltei para casa pegando carona com amigos (e já foram centenas) que tinham bebido tanto quanto eu, e o fato de estar aqui vivo e batucando nas teclas deve-se simplesmente à Deusa Sorte.

A Lei Seca que está vigorando nas últimas semanas tem reduzido a quantidade de acidentes de trânsito e de vítimas. Em algumas capitais, como Niterói, essa redução chegou a mais de 40%. Qualquer um de nós, se indagado de surpresa, consegue lembrar dois ou três casos concretos de amigos ou conhecidos que foram vitimados por bêbados ao volante: atropelados na rua ou na calçada, ou esmagados em colisões absurdas. Porque no trânsito não basta você ser correto, eficiente e prudente para ter certeza de que está seguro. Quando menos espera, um bêbado estúpido corta um sinal a 150 km por hora e espatifa um carro com uma família dentro.

Ouço na TV a previsível lenga-lenga de que isto é uma interferência nas “liberdades individuais”, é “a volta da ditadura” e outras idiotices. Meu amigo, se for assim, o simples fato de existirem regras de trânsito, sinais semafóricos e faixas para pedestres também é uma interferência gigantesca nas liberdades individuais. A Liberdade é, teoricamente, um ponto ótimo de equilíbrio entre Ordem e Caos. Os que protestam contra a Lei Seca não querem a Liberdade. São como garotos mimados que não deixam ninguém ver TV em paz, que jogam no chão o prato do almoço, que se recusam a tomar banho ou a estudar. Isso não é liberdade, é falta de um corretivo.

O brasileiro já demonstrou fartamente que os corretivos mais eficazes em nosso país são os do bolso. Temos mais medo de perder dinheiro do que de ir para a cadeia. Se as multas forem aplicadas pra valer, as mortes no trânsito cairão de forma espantosa. Claro que nem tudo é perfeito, e as piadas se multiplicam. Já se diz que hoje em dia só os guardas de trânsito estão “tomando uma cervejinha”, ou que os acidentes aumentaram porque os bebuns passaram o volante do carro para as mulheres.

O brasileiro tem bom humor, e nunca esse bom humor (e criatividade) foi tão necessário como agora. Bares se oferecem para deixar os clientes em casa; amigos alugam vans para trazê-los do boteco; pessoas que não bebem são dispensadas de colaborar na conta desde que deixem os amigos em casa; casais se revezam no copo e no volante... Soluções não faltam. Educação não é ditadura. Nunca se bebeu tanto neste país, e nunca se matou tanta gente no trânsito. Não custa nada bebermos todos um pouco menos e vivermos todos um pouco mais, inclusive para continuar bebendo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

0635) A culpa é da cerveja (1.4.2005)



Se juntassem toda a cerveja que eu já bebi, e a derramassem toda num só lugar, resultaria em algo parecido com o Mar Cáspio ou o Lago Titicaca. E não me arrependo, porque devo a esta simpática bebida alguns dos momentos mais agradáveis que já vivi. Não por causa dela propriamente dita, mas porque beber cerveja sempre foi para mim um mero complemento da presença de amigos, amigas, violão, muita conversa, muita alegria de viver. A cerveja é como o celofane e a fita colorida no presente de Natal: ajuda a criar um clima, mas não é A Coisa Em Si.

Compulsando velhos cadernos meus, encontrei uma estatística interessante, do tempo de quando o Brasil vivia naquela inflação desesperadora. Toda vez em que eu mexo nesses papéis antigos, eu encontro aqueles cálculos domésticos de fim-de-mês. E está lá: “Aluguel, 15 milhões. Luz, 2 milhões e 500. Gás, 1 milhão e 800. Supermercado, 12 milhões e 300”. E assim por diante. E não me perguntem a moeda: era cruzado velho, cruzeiro novo, sei lá o quê.

Vai daí que para me lembrar do valor das coisas eu associava produtos. E essa anotação que achei era um parâmetro para fixar preço de show. Em 1990-e-pouco eu fiz dois shows na Paraíba, um no Paulo Pontes e outro no Teatro Municipal em Campina. E anotei: “O ingresso custa o mesmo que uma passagem Campina-João Pessoa e que uma cerveja em garrafa”. Quanto seria um ingresso de show hoje? Uns 15 reais. Quanto está a passagem da Real? Da última vez que viajei, estava a uns 12. E agora me respondam quanto custa num bar da Paraíba uma garrafa de cerveja.

Não há coisa mais barata do que cerveja. Aquela latinha pela qual você paga 2 reais num show de rock custa 0,70 no supermercado. Vejam esta resultado da Pesquisa Industrial Anual de Produto (PIA/Produto), feita em 2001. Ela fornece uma lista com os 100 produtos mais vendidos no país. A cerveja, em 1980, estava em 41o. lugar; em 2001 tinha passado para quarto. A substituição da velha garrafa (“leva ali dez cascos na bodega...”) pela latinha contribuiu para este salto, mas acima de tudo eu acho (isto aqui é mera suposição minha) que o que houve foi uma enorme “expansão da base consumidora”.

Qualquer pirralho de 14 anos hoje em dia já está encarando uma desce-redondo, uma boa ou uma número um. No país da economia informal, muita gente descobriu que comprar latinhas a menos de um real e vender pelo dobro é bom negócio, quando você leva um isopor prum show de rock e vende 200 numa noite. Milhares de pais e mães de família sobrevivem catando latinhas de alumínio para reciclagem. Isto é o lado positivo desta curiosa situação econômica em que aumenta a demanda de um produto e o preço, em vez de subir, cai. Se me perguntassem: “Queres um Ministério? Queres uma ilha no Caribe? Queres um campo de petróleo no Oriente Médio?”, eu responderia: “Não quero nada disso, ó tetrarca. Eu quero uma cervejaria, e todo esse resto vem na seqüência”.