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segunda-feira, 8 de julho de 2024

5080) J. Borges, cidadão carioca honorário (8.7.2024)

 
 

 
No último fim de semana de junho, tive a alegria de participar de um evento em homenagem a um dos maiores xilogravuristas vivos da literatura de cordel. O pernambucano J. Borges, poeta e xilógrafo, recebeu uma grande exposição retrospectiva de sua obra no Museu do Pontal (Rio de Janeiro), ao mesmo tempo em que lhe foi entregue o título de Cidadão Carioca. 



 
O Museu do Pontal, que tem uma das maiores coleções de arte popular, reuniu um material riquíssimo da obra do artista de 88 anos, que não pôde vir pessoalmente mas foi representado pelo seu filho Pablo. 

Fiz parte de uma mesa redonda com Pablo, Lucas Van de Beuque (Museu do Pontal) e Maria Alice Amorim, autora do perfil biográfico J. Borges – Entre Fábulas e Astúcia (Recife: CEPE, 2019). E conversamos com o mestre, em tempo real, num telão, com mediação de Monique Gabrielle. 



(Pablo Borges, entre Lucas Van de Beuque e Ângela Mascelani, diretores do Museu do Pontal)

 
Conheço Borges há mais de quarenta anos, desde a época efervescente dos festivais de cantadores pelo Nordeste afora.  Como é de conhecimento público, a Cantoria de Viola e a Literatura de Cordel (com seus poetas e seus xilógrafos) são universos que se interseccionam, se misturam, como duas famílias grandes que ocupam casas diferentes, mas vizinhas, num terreno que pertence a ambas. 


 

Uma característica importante da xilogravura no cordel é que – me corrijam se eu estiver errado – é grande o número de poetas que escrevem folhetos e acabam treinando a mão na gravura para poder ilustrá-los. Número bem maior (acho eu) que o número de xilogravadores que se tornam poetas. As circunstâncias da vida vão jogando os artistas de um trapézio para outro, o que importa é não cair. 



 
Eu estava com 21 anos. Primeiro comecei com o cordel e depois que eu escrevi o primeiro cordel precisei ilustrar, mas não tinha quem ilustrasse. (...) O clichê pra se fazer no Recife era muito dispendioso. Criei uma gravura, lixei a madeira, imprimi, levei na gráfica, o rapaz fez uma cópia, disse: dá para imprimir. Fiz a segunda, a terceira, e daí continuei até hoje. Há sessenta anos que vivo disso. (p. 32)
 
O livro de Maria Alice Amorim é um registro precioso da carreira desse artista que cumpriu todas as etapas da literatura de cordel. Porque o cordelista não é alguém que escreve versos trancado numa torre de marfim, ou, em sua versão mais moderna, no seu apartamento com ar condicionado, longe da rua. (E olhe, não tenho nada contra quem escreve assim – eu mesmo sou um.)
 
O cordelista é o Poeta que escreve os versos. É o Editor que se responsabiliza pela publicação, investe dinheiro, embolsa os lucros ou arca com os prejuízos. É o Impressor, em grande parte dos casos, com sua maquinazinha manual de tipos móveis, geralmente num aposento nos fundos da casa, repleto de papel cortado, latas de tinta, trapos sujos, pilhas de clichês de zinco ou gravuras de madeira. É o Distribuidor que marca encontros rápidos e precisos com vendedores que vêm do interior, toma-lá-dá-cá, dinheiro vem, pacotão de folhetos vai. E finalmente é o Vendedor, parado numa calçada da feira, com uma lona ou um plástico estendido no chão, quatro tijolos nas pontas, folhetos enfileiradinhos lado a lado, enquanto ele canta, recita, faz presepadas, tira graça com o público, entrega o folheto e passa o troco ao freguês.
 
Uma vez fui para Mandacaru. Até Domingo de Ramos. Eu tinha um serviço de som, armei detrás da igreja e nesse tempo lá o fiscal da feira era um tal de Zé Bento, também foi tocador de viola, estava velho, trabalhava na prefeitura de Gravatá e era o fiscal da feira. E tinha um enteado dele que namorava a minha irmã. E eu cheguei lá, como tinha muito conhecido, armei o negócio e comecei cantando uns benditos, umas coisas. Juntei uma regência de mais de duzentas pessoas. E vendi a todo mundo. Acabei a feira. (p. 99-100)

 



(J. Borges) 


É claro que a divisão de trabalho surge, com o correr dos anos e a expansão das atividades, e faz com que A ou B se especializem. Mas o cordelista percorre toda a linha de produção. E fora da arte popular são poucos os poetas e os artistas plásticos capazes de (ou dispostos a) imprimir com as próprias mãos a própria obra e depois levá-la embaixo do braço para vender.



Uma vez, colaborando numa pesquisa sobre o "Gráfico Amador" (grupo de artistas gráficos recifenses da década de 1950, de que fizeram parte Aloísio Magalhães, Ariano Suassuna e João Cabral) chamei a atividade deles de “cordel de rico”, visto que se tratava de intelectuais jovens, de famílias tradicionais, tentando pôr em prática esse ciclo de-A-a-Z da produção editorial.
 
E usei a mesma expressão, em outro momento, para qualificar (sempre elogiosamente) os “poetas marginais” dos anos 1970-80, com seus livrinhos xerocados, vendidos de mão em mão nos bares do Baixo Leblon e ambientes parecidos.



 
Borges é um dos melhores exemplos (ao lado de artistas como Marcelo Soares, Stênio Diniz, Abraão Batista, Klévisson Viana, etc.) da aliança entre xilogravura e poesia, fazendo a junção entre a simplicidade da sextilha poética e a aparente rudeza da faca na madeira. Com esse minimalismo técnico, eles obram milagres de criatividade.




A exposição organizada pelo Museu do Pontal (leia-se Ângela Mascelani e Lucas Van de Beuque) reuniu mais de 200 obras do artista, e dá uma visão da evolução de seus temas e de suas técnicas. Uma evolução constante, de alguém que já cortava madeira e vendia gravuras antes mesmo de conhecer a palavra do seu ofício. Ele conta como aprendeu as palavras “xilogravura” e “xilógrafo”.
 
Um dia uma mulher do Rio de Janeiro olhou e disse quando eu vejo uma xilogravura fico doida, não sei nem escolher. Eu peguei o nome, marquei num papel, guardei no bolso. Quando ela saiu, fui num dicionário velho que tenho aí, olhei xilogravura, achei. Xilogravura é gravura em madeira e quem faz a xilogravura é o xilógrafo. Eu digo ah, menino, agora eu sei o que eu tô fazendo. Veja, eu entrei na arte abrindo caminho a fogo. (p. 143)
 


Detalhes que sempre me recordam o testemunho de um poeta popular (já vi a história atribuída a diferentes nomes) a quem um repórter perguntou um dia: “O senhor estudou?” e ele respondeu: “Não, mas vem muita gente de longe para me estudar”.


Pablo Borges recebeu em 29 de junho, em nome de seu pai, o diploma de “Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro”, num projeto encabeçado pela vereadora Luciana Boiteux. Ao agradecer, no telão, seu pai lembrou as dezenas de viagens ao Rio, e os meses em que ficava na casa de amigos, enquanto vendia gravuras e percorria o périplo habitual dos nordestinos acariocados.


Criador de almanaques, quiromante... Não tem nada em que o artista popular não se meta, na luta constante pela sobrevivência. Ler mão é fácil!...
 
Aquilo não tem o que aprender, não. Aprendi a ler com Antonio Ferreira. Quando ele ia para a feira e não vendia cordel, tirava da maleta um ganzá. Começava a cantar coco e ganhava dinheiro. Levava o ganzá e se a feira não prestava para o cordel, ele ia ler mão. Todo mundo ganhava dinheiro com isso. Perguntei ô Antonio, e isso se aprende? Que aprende! É só dizer umas coisas com lógica. (p. 91)

 



 





quinta-feira, 28 de novembro de 2019

4527) "Pelejas em Rede" (28.11.2019)





Uma das melhores definições de Cantoria de Viola foi produzida, por incrível que pareça, por um rapaz jovem, carioca, que estava vendo uma cantoria pela primeira vez. Ou seja – um leigo total.

Foi num bar do Rio de Janeiro, onde uma dupla de repentistas estava se apresentando, sentada no “pé da parede”, glosando motes entregues na hora, ou comentando em versos algumas coisas que aconteciam naquele instante.

E o rapaz falou para os amigos:

– Que maneiro. Eles fazem verso em tempo real.

“Tempo real” é uma dessas expressões típicas da Era da Internet, quando nós, deslumbrados como um tupinambá diante de espelhinhos e tesouras, achamos até difícil acreditar que estamos recebendo textos, imagens, áudios, o escambau, produzidos naquele instante, do outro lado do mundo.

O repentista faz o verso na hora. Não existe aquele delay entre o fato, a percepção do fato, o armazenamento da informação, a consulta, a inspiração, a criação de um verso, a transmissão, a recepção... Não. Cantoria é tempo real. O copo cai, e o cantador no meio do verso que já estava cantando comenta que o copo caiu.

Como ele faz isso? Não sei, se eu soubesse estava fazendo, em vez de ficar aqui escrevendo umas linhas que só vão ser lidas dias ou semanas depois. Ou seja: num tempo “não real”, num tempo em que o momento da criação (pelo artista) e o momento da fruição (pelo público) ocorrem em contextos diferentes.

A definição técnica, portanto, seria algo tipo:

“Verso em tempo real é aquele em que a invenção do verso e a fruição do verso ocorrem simultaneamente, sendo esta palavra considerada não no sentido cronométrico do termo, mas no sentido de um só momento compartilhado em conjunto por vários agentes sociais”.

Esse “vários agentes sociais” aí é cacoete do tempo de faculdade; se quiserem, pode trocar por “um combôi de bêbo”.

A Internet trouxe uma dimensão nova para a cantoria de viola, a literatura de cordel, a sambada de maracatu, o coco de embolada e várias outras formas de poesia onde o improviso está sempre aceso, pronto para brotar a qualquer instante.

Maria Alice Amorim, da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisa essa nova ramificação da poética popular há tempos; tenho aqui do lado o seu No Visgo do Improviso, ou A Peleja Virtual entre Cibercultura e Tradição (São Paulo: Educ, 2008). Ali ela já rastreava em primeira mão essa nova modalidade, inaugurada, ao que tudo indica, com a Peleja Virtual entre Américo Gomes (PB) e José Honório da Silva (PE), travada através da troca de e-mails.


Segundo Alice, é “a primeira de que se tem notícia”, tendo ocorrido em setembro de 1997, “logo seguida, em 21 de janeiro de 1998, por outra experiência ainda mais ousada: a peleja, em tempo real, protagonizada por José Honório e o médico Marcelo Mesel, em computadores instalados num bar da Vila Vitoriano Palhares, Polo Torre, no Recife, com a participação de Américo Gomes, que naquele momento estava em João Pessoa, Paraíba, escrevendo os versos, mediado por uma conexão que possibilitava o bate-papo virtual”. A troca de mensagens, registra ela, foi através de chat via IRC.

Isso chamou a atenção de muita gente, e eu próprio travei pelejas via email com Astier Basílio (2002), com Klévisson Viana (2005) e depois via Facebook com Marco Haurélio (2017). 

O novo livro de Maria Alice Amorim é Pelejas em Rede: Vamos Ver Quem Pode Mais (Recife: Zanzar, 2019), onde ela aprofunda a análise dessa nova forma de embate direto, incluindo as modalidades do maracatu rural, do samba de matuto e outras, e lançando mão de plataformas como Orkut, Facebook, etc., que os poetas, sempre inquietos e curtidores, utilizam para sentir até que ponto elas podem potencializar o repente.

O recente filme pernambucano Azougue Nazaré (Tiago Melo, 2018) mostra rapazes da Zona da Mata de Pernambuco trocando provocações nas estrofes do maracatu rural cantadas ao celular e enviadas imediatamente através de áudios de WhatsApp.


(cena de Azougue Nazaré)

Onde houver palavra, existe a possibilidade da poesia. Onde houver troca de mensagens, existe a possibilidade do desafio. Onde houver a simultaneidade entre duas vozes e uma platéia, existe a possibilidade do repente pegado-na-deixa.

O livro Pelejas em Rede é resultado da tese de doutoramento da autora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PucSP, sob a orientação da saudosa e querida professora Jerusa Pires Ferreira.

Alice faz a demarcação entre as cantorias de verdade, com dois violeiros cantando “ao pé da parede”; as cantorias fictícias da literatura de cordel, chamadas de “pelejas”; e as pelejas virtuais onde os poetas se confrontam através de twitter, msn, facebook, zap e assim por diante.

Em todas existe o cultivo das formas tradicionais de estrofe, de rima, de métrica – aquilo que podemos considerar as “cláusulas pétreas” do Romanceiro Popular Nordestino.

E cada uma delas está se deixando contaminar pelas formas de criação e difusão eletrônica do texto. Sempre tendo em mente o objetivo principal do poeta popular: buscar o verso quente, palpitante, exibido ao público no próprio instante de sua criação. E ela rastreia todas essas variantes etimológicas e semânticas que cercam a arte trovadoresca do improviso:

É o impulso criador que, na etimologia do trovadorismo, traz a invenção, o inventar. Invenção que é o improvisus, o imprevisto, o imprevisível. Improviso, evento imponderável, momentâneo, não ensaiado, repentino, conforme Spina (1946, p. 408) e Le Goff (2009, p. 280):

Os próprios termos trobar e trobamen não são mais que criações decalcadas no sentido das palavras latinas inventio, invenite – da terminologia retórica de Cícero, na acepção do ato inventivo, de atividade literária criadora (trobar suplantou desde logo o seu correspondente latino).

O termo vem de trobar em occitano, ou seja, trouver em francês (encontrar, em português), e define um inventor de palavras e poemas.

Ou seja, um trovador é um achador, um encontrador de coisas, seguindo a frase célebre atribuída a Pablo Picasso: “Eu não procuro, eu acho”.

Eu tenho pra mim que no meio desse novelo de raízes linguísticas o verbo “trazer” também está enredado. Trovar (fazer versos) é trazer. Me lembro na minha infância de ver as velhinhas do sítio que chegavam lá em casa mostrando a minha mãe o que haviam trazido de presente: “Eu truve pra senhora uma dúzia de ovos de capoeira...”

Maria Alice Amorim pega esse feixe de práticas culturais (a inspiração, o acaso, o imprevisto, a memória, o repente) e o transporta para o universo eletrônico. Sempre mantendo a essência da criação, que na página 163 o mestre José Alagoas explica com esta bela fórmula:

Começa no deserto, amarra o verso todinho e entrega a resposta. 

Olha que coisa bonita – começa no deserto. Começa do nada, mas logo está achando, está trazendo, está trovando, e quando menos espera está ali um verso que, como o Universo, surgiu do nada.

Num dos capítulos, Alice pergunta: Existe um ciberrepente?. Ou seja: o verso neste novo sistema é qualitativamente distinto do tipo de verso que se fazia antes? Tem muito assunto para se esmiuçar aí, mas ela observa com propriedade que nas próprias comunidades de repente pela web (portais e websaites com milhares de inscritos) repete-se um fenômeno de auto-regulação que é típico da poesia popular: quando um novato erra na métrica, erra na rima, quebra sem perceber o formato da estrofe, os próprios colegas vêm em seu socorro e o corrigem: “Êpa, não é assim que se faz”.

Conservadorismo? Que nada. Correção de rumo, porque na poesia popular não existe um Ministério, uma Academia Normativa ou um Conselho de Anciãos determinando o que pode e o que não pode. É a comunidade como um todo que se pronuncia. As formas tradicionais são constantemente revitalizadas – até mesmo para poderem absorver os novos meios de transmissão.










quarta-feira, 26 de novembro de 2014

3668) "Teia de Cordéis" (26.11.2014)



Este catálogo-livro foi editado pela Fundação de Cultura Cidade do Recife (2013) para acompanhar a exposição homônima de folhetos de cordel, que esteve em cartaz de março de 2011 a maio de 2012, no Museu de Arte Popular (MAP) do Recife.  A exposição foi dividida em duas partes: “Cordéis Portugueses” (da Coleção de Arnaldo Saraiva) e “Cordéis Brasileiros” (da coleção de Maria Alice Amorim), com curadoria dos dois pesquisadores para a primeira parte, e de Alice Amorim para a segunda. Cabe aos dois, também, a redação dos textos do volume, que examinam e comentam o material exposto.

O livro, com 236 páginas, é um pequeno primor de projeto gráfico, com reproduções de mais de 240 capas, folhas de rosto ou páginas avulsas de cordéis, incluindo também algumas das chamadas “folhas volantes” com poemas impressos de um só lado, usadas tanto lá quanto cá. A reprodução de capas de cordéis, quando é muito boa (como neste caso) revela com clareza as cores exatas das tintas, sua tendência ou não a borrar, a textura do papel, sua aspereza ou lisura, sua tendência a escurecer e se esfarelar nas bordas.  As publicações portuguesas aqui reproduzidas mostram com perfeição, em obras dos anos 1600 ou 1700, as manchas e ondulações do original, a finura das capas deixando transparecer o que há impresso pelo lado de dentro, o desalinhamento eventual dos tipos.  Tudo isso conta; tudo isso revela o trabalho e as condições de trabalho de quem os produzia.  O aspecto editorial dos folhetos é tão rico e fascinante quanto o seu aspecto propriamente literário.

E há a questão recorrente do quanto o cordel brasileiro é uma mera expansão do corpus temático do português. A filiação dos dois me parece clara, e clara também a descoberta de novos territórios que aqui se fez, até porque nosso cordel atual vive numa sociedade mais complexa em possíveis temas, em possíveis abordagens, em novas atitudes mentais e criativas que seriam impensáveis num Portugal (e mesmo num Brasil) de 1800. Se Portugal como país é o caso de uma sociedade que deu origem a outra maior e mais complexa que ela mesma, acho que o mesmo pode-se dizer de sua poesia popular impressa, o que não a desmerece, pelo contrário.  Ali estão as sementes, o DNA: o restante se deve à evolução independente que a criatura tomou, sua força de falar com voz própria, de recriar com uma estética própria uma poética e uma tecnologia editorial herdadas.  Essa justaposição do cordel lusitano e brasileiro mostra a personalidade distinta de cada um e a criatividade de ambos, a decantação poética que ambos produziam e produzem no meio social que os escreve, decora e recita.