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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

4756) Borges e a erudição por brincadeira (21.10.2021)



(Borges, por Charles Burns)


Uma coisa que nem sempre se fala sobre a literatura de Jorge Luís Borges é o fato de que grande parte dela consiste numa espécie de jogo, de brincadeira, ou de diversão do autor com o tema que está tratando.
 
Borges consegue reunir em sua literatura dois aspectos que em geral se cancelam mutuamente: leituras amplas, e precisão de detalhe. Sempre leu, e sempre leu atentamente (é o que fica visível no que escreve). Sua erudição não foi adquirida a contragosto, como a de tantos diplomados. (Borges não tinha curso superior; tinha mais ou menos o equivalente ao nosso “2º. Grau completo”.)
 
Muitos leitores se tornam eruditos devido ao prazer de ler. Começam a curiosar pelo prazer de curiosar. Entram nos dicionários, nas enciclopédias e nos almanaques com o mesmo espírito distraído e atento de quem passeia, com as mãos nos bolsos, sem pressa, numa cidade desconhecida: “Onde será que vai dar aquele beco tão interessante?...”
 
Malba Tahan, um dos autores clássicos da juventude brasileira, tem um conto chamado “O Sábio da Efelogia” (em Maktub, 1935). Entre os hóspedes de um hotel, destaca-se um homem de origem russa, que foi prisioneiro político, e que apesar de muito reservado participa da conversa, muitas vezes dando mostras de uma vasta cultura, pois discorre com fluência sobre geografia, literatura, cultura oriental, astronomia...
 
O narrador se espanta com aquilo, e o homem responde com uma risada:
 
— Qual, meu amigo! — obtemperou ele, amável, batendo-me no ombro. — Não me considere um sábio, um acadêmico ou um professor. Eu pouco sei, ou melhor, nada sei. Não reparou nas palavras de que tratei? Falgu, filazenes, Feuillet, França, Flaubert, Faye, flagelo. Começam todas pela letra F. Eu só sei falar sobre palavras que começam pela letra F.

Fiquei ainda mais admirado. Qual seria a razão de tão curiosa extravagância no saber?

— Eu lhe explico — acudiu com bom humor o estranho viajante. — Sou natural de Petrogrado e vivo do comércio do fumo. Estive, porém, por motivos políticos, durante dez anos nas prisões da Sibéria. O condenado que me havia precedido, na cela em que me puseram, deixou-me como herança os restos de uma velha enciclopédia francesa. Eu conhecia um pouco esse idioma, e como não tivesse em que me ocupar, li e reli centenas de vezes as páginas que possuía. Eram todas da letra F. Ao final, fiquei sabendo muita coisa; tudo, porém sem sair da letra F: fá, fabagela, fabela, fabiana, fabordão.

Há sem dúvida uma sincera ironia por parte do prof. Julio César Mello e Souza (o nome verdadeiro de “Malba Tahan”), que encerra o conto dizendo:
 
Ele era precisamente o contrário do famoso e venerado rio Falgu, da Índia. Parecia possuir uma corrente enorme, profunda e tumultuosa de saber; entretanto, sua erudição, que nos causara tanto assombro, não ia além dos vários capítulos decorados da letra F de uma velha enciclopédia.
 
Curiosamente, Borges recorre a atalhos semelhantes, o que em nada diminui a eficácia do seu processo criativo. (Se bem que não a originalidade – o que ele faz, muitos fazem também.) A coisa mais difícil que existe é ir a um dicionário ou uma enciclopédia para consultar um verbete e não dar uma olhada rápida nos verbetes que estão em volta. É claro!  Tudo é lucro. Tudo é estudo, e se for um estudo pelo mero prazer de “ficar sabendo”, melhor ainda.
 
John T. Irwin, no seu excelente estudo sobre Borges (The Mystery to a Solution: Poe, Borges and the Analytic Detective Story, Johns Hopkins University Press, Baltimore, 1994) bota seu chapéu de detetive e rastreia algumas leituras de Borges durante a composição de um dos seus melhores contos policiais, “A Morte e a Bússola” (1942).
 
No início deste conto ocorre o assassinato de um sábio judeu, o Dr. Yarmolinski, encontrado morto em seu quarto de hotel, em frente à suite ocupada pelo Tetrarca da Galiléia, que, como a polícia já sabia, portava consigo uma verdadeira fortuna em safiras. Yarmolinski é encontrado morto pelos criados, e na sua máquina de escrever portátil há uma folha com uma frase datilografada: A primeira letra do Nome foi articulada.
 
O “nome” (logo fica claro, por se tratar de estudioso do Talmude) é o nome sagrado de Deus entre os hebreus, o Tetragrammaton.
 
A investigação progride, por caminhos que não interessa espoliar aqui, por meio do inspetor Treviranus (representando a polícia oficial, de métodos rotineiros) e de Erik Lonnrot, o sherlock local. Eles chegam à conclusão de que três homens deverão ser assassinados pelo que parece ser uma conspiração antissemita. É um detalhe essencial do enredo, detalhe que se baseia numa dúvida: serão três homens assassinados, ou quatro?...
 
John T. Irwin não deixa passar despercebido o fato de que o nome do Inspetor Treviranus lembra a expressão latina tresviri capitales, trio de magistrados romanos cujo número César aumentou para quatro e depois reverteu para três.
 
Ele lembra que em 1929 Borges (aos 30 anos de idade) ganhou um prêmio literário e usou parte do dinheiro para comprar a coleção completa (em 2ª. mão) da Enciclopédia Britânica, 11ª. edição, a qual o acompanharia daí em diante.
 
Irwin observa, então, que nessa edição da Britannica estão praticamente lado a lado os verbetes “tresviri” e “Treviranus” (um naturalista alemão do século 18), bem pertinho dos verbetes “Tetrarca” e “Tetragrammaton” (The Mystery..., págs. 32-33).
 
Ou seja: Borges, ao consultar um verbete para confirmar algum detalhe, pegava em volta dele algumas dicas de tema, de inspiração, de nome próprio...
 
Surpreendente? Nem tanto, para quem é um “prestador de atenção”, que é como Jessier Quirino define um poeta. E para quem aprendeu a amar desde cedo as enciclopédias e a cornucópia de inspirações que elas nos fornecem, como Borges recorda, num dos seus diálogos com Osvaldo Ferrari:
 
Sem dúvida já lhe contei que eu costumava ir com meu pai à Biblioteca Nacional; eu era muito tímido – continuo sendo muito tímido -, não me atrevia a pedir livros, mas, nas prateleiras, havia obras de consulta, de onde eu pegava aleatoriamente, por exemplo, um volume da Enciclopédia Britânica. Um dia, tive muita sorte, porque peguei o volume DR, então pude ler uma excelente biografia de Dryden, sobre quem Eliot escreveu um livro. Depois, um extenso artigo sobre os drúidas, e outro sobre os drusos do Líbano.
 
Erudição? Talvez, mas uma erudição lúdica, movida pela curiosidade, e preservada pela memória afetiva, para vir ao socorro da imaginação no momento em que ela precisa. E com o auxílio da ordem alfabética – ou da “desordem alfabética”, como o próprio Borges a chamava, por ser um critério de organização que depois de aplicado embaralha tempos e espaços.
 









quinta-feira, 30 de julho de 2020

4605) Notas de uma tradução de Edgar Poe (30.7.2020)




“The Murders in the Rue Morgue” é um dos primeiros contos que li de Edgar Allan Poe, e foi na antologia Maravilhas do Conto Policial (Ed. Cultrix, 1960, 3ª. edição), organizada por José Paulo Paes. Fico em dúvida se terá sido antes de “O Poço e o Pêndulo”, também um dos meus preferidos, que li numa antologia do conto norte-americano por essa mesma época.

Tive a chance de traduzir esse conto agora, quase sessenta anos depois. Claro que o reli várias vezes depois da primeira, tanto em português quanto em inglês. Mas quando temos a incumbência de traduzir um conto bem conhecido, vem à nossa mente uma sensação que por causa de Jorge Luís Borges fiquei chamando “a Síndrome de Pierre Menard”. Pierre era aquele crítico e escritor francês que tinha lido anos atrás o Dom Quixote e resolveu reescrevê-lo de memória, na esperança de suas frases coincidissem com as de Cervantes!

Traduzindo a “Rua Morgue” agora, tirei minhas dúvidas consultando as duas primeiras traduções de Poe que li, na adolescência: aquela tradução de José Paulo Paes, e depois a de Oscar Mendes e Milton Amado, para a Poesia e Prosa de Poe, pela Editora Globo. Olhei também a tradução francesa de Baudelaire, fartamente anotada e comentada por Léon Lemonnier (Paris: Garnier, 1946).



Anotei alguns detalhes que me chamaram a atenção.

1)

Poe faz, no trecho inicial do conto, uma breve dissertação sobre o pensamento analítico, e diz a certa altura:

The faculty of re-solution is possibly much invigorated by mathematical study, and especially by that highest branch of it which, unjustly, and merely on account of its retrograde operations, has been called, as if par excellence, analysis.

Traduzi assim:

Esse talento para a re-solução pode ser muito fortalecido pelo estudo da Matemática, especialmente aquele seu ramo mais elevado que injustamente, e somente por conta de suas operações retroativas, tem sido denominada de “análise” par excellence.

Poe destaca o prefixo em “re-solution” e nesses casos acho que convém fazer o mesmo, chamando a atenção para o mesmo detalhe. (JPP traduz: “A faculdade de resolver”; OM-MA: “Essa faculdade de resolução”, com itálico).

Em todo caso, o ponto principal nesse trecho está quando o autor se refere às “retrograde operations” da análise. OM-MA traduzem como “operações retrógradas”, quando me parece mais esclarecedor usar “retroativas”.

A palavra “retrógrado”, em português, não deixa de estar correta – em astronomia falamos no “movimento retrógrado de Marte”, naqueles trechos da órbita da Terra em que a velocidade aparente do nosso planeta é maior, e o outro parece andar para trás.

Mas essa palavra acabou adquirindo um uso frequente, na linguagem cotidiana, com conotação moral pejorativa: “Fulano é um sujeito de mentalidade retrógrada; as leis e os costumes retrógrados desses países; etc.”

Se nos referimos aos processos de análise dos fatos, em suas relações de causa e efeito, “retroativas” é melhor (é assim que JPP traduz). Todo este arrazoado inicial de Poe serve para nos predispor a entender o episódio, que vem em seguida, de quando C. Auguste Dupin adivinha o pensamento do amigo, enquanto caminham de madrugada, e reconstitui de trás para diante os pontos sucessivos de sua associação de idéias.


2)

Eu sempre fantasiei nas minhas leituras o primeiro encontro do narrador (o “watson” de Edgar Poe) com o detetive Dupin numa livraria, os dois de dinheiro em punho, disputando um livro. Por que?  O conto diz, no original:

Our first meeting was at an obscure library in the Rue Montmartre, where the accident of our both being in search of the same very rare and very remarkable volume brought us into closer communion.

José Paulo Paes traduz:

Nosso primeiro encontro teve lugar numa obscura livraria da Rua Montmartre…

E Mendes & Amado traduzem:

Nosso primeiro encontro se deu numa escura livraria da Rua Montmartre...

Foram as duas primeiras traduções do conto que li na vida. Somente agora, pela primeira vez, esta lebre ergueu as orelhas e emitiu um miado inconfundível. Porque “library”, para nós, é biblioteca, e não livraria. Se fosse esse o interesse de Poe ele teria provavelmente usado “bookshop”.

E me pareceu muito mais redondo o fato de duas pessoas estarem buscando o mesmo livro “obscuro” numa biblioteca do que numa livraria. “Library” é sempre biblioteca em inglês, pelo que me consta. É só nas línguas românicas ou latinas que manteve o sentido de “loja onde se vendem livros”: librairie em francês, libraria em italiano, librería em espanhol.

Baudelaire traduz:

Notre première connaissance se fit dans un obscur cabinet de lecture de la rue Montmartre...

E dei-lhe total razão, não menos pelo fato de que instantaneamente visualizei a cena no Gabinete Português de Leitura, junto à Praça Tiradentes. E ficou assim:

Nosso primeiro encontro foi numa obscura biblioteca na Rua de Montmartre, onde por acaso estávamos ambos à procura do mesmo volume, muito raro e fora do comum; essa coincidência nos aproximou.



 3)

As leituras paralelas que se faz ao longo de uma tradução nos ajudam a escolher melhor o vocabulário a ser usado, chamando nossa atenção para detalhes que de outro modo poderiam passar despercebidos.

Dupin, na reta final da história, explica ao narrador o modo como suas deduções o levaram ao caminho certo, ou seja, a entender de que modo o assassino, depois de cometer os crimes, pudera fugir do quarto deixando-o aparentemente trancado por dentro.

Ele reconstitui suas deduções, explica o exame que fez em cada uma das pistas, e diz a certa altura:

You will say that I was puzzled; but, if you think so, you must have misunderstood the nature of the inductions. To use a sporting phrase, I had not been once ‘at fault.’ The scent had never for an instant been lost.

“At fault”: diz-se do cão que perdeu o rastro da caça.

Para me distrair, eu estava consultando nas horas vagas um dos livros mais enriquecedores sobre este tema: The Mystery to a Solution – Poe, Borges and the Analytical Detective Story, de John T. Irwin (Johns Hopkins University, 1994).

No capítulo 21, ele faz uma análise fascinante deste conto, comparando as palavras “clue” (“pista, em inglês), “clew” (“novelo de linha”, em inglês) e “clou” (“prego”, em francês), e reunindo o mito de Teseu e o Minotauro ao conto de Poe e a “A Morte e a Bússola” de Borges.

E ele chama a atenção justamente para esse trecho de Poe, mostrando que num sistema quase subliminar, falando em “caça” e em “faro”, Poe começa a colocar na mente do leitor a idéia de que é um animal, que está sendo caçado. O assassino é um animal, não um ser humano.

Ficou assim:

Você dirá que eu fiquei desconcertado; mas se pensar assim terá entendido mal a natureza das induções. Para usar uma frase cara aos caçadores esportistas, eu não estava “em falta’. Meu faro não havia perdido a pista nem por um instante.

Não achei nos glossários por aí nenhuma expressão de caça que pudesse se equivaler a esse “em falta”, acabou ficando uma tradução literal, meio limitada. Mas deu para me pegar com “scent” e manter viva a metáfora da “caça ao animal”.


4)

Aqui aconteceu um fato interessante, porque um comentário feito por Poe em seu texto original poderia até parecer, a um leitor desatento, ser um comentário interpolado por enchirimento do tradutor.

Referindo-se ao crime bárbaro que é o tema do conto, o jornal citado por Dupin expressa-se desta maneira:

“The Tragedy in the Rue Morgue.—Many individuals have been examined in relation to this most extraordinary and frightful affair” [the word affaire has not yet, in France, that levity of import which it conveys with us].”  (Nota: “affaire” é francês, “affair” é inglês.)

O texto de Poe é norte-americano, mas se passa em Paris. Ele provavelmente escolheu a França para dar um “distanciamento brechtiano” a um conto em que, mais do que a verossimilhança social de um ambiente, importava a mecânica interna dos acontecimentos (Brecht falava da Alemanha ambientando suas peças na China, no Cáucaso, na América.)

O texto, portanto, é cheio de expressões e citações francesas. Quando Poe repete a expressão que teria sido usada por um jornal francês, “affair”, ele se sente obrigado a fazer uma pausa e explicar, para seus leitores da Filadélfia em 1841, que a palavra está sendo usada noutro sentido.

E lembrei que hoje em dia não se pode abrir um portal de notícias ou uma revista sem encontrar essa palavra em manchetes como “Anitta exibe seu novo affair na Ilha de Caras”, ou “Neymar e modelo saem juntos mas negam affair”.

Inglês, francês e português mantêm um toma-lá-dá-cá permanente de significados e nuances, e não são poucas as vezes em que um tradutor precisa abrir mão de uma palavra perfeitamente aceitável do vernáculo brasileiro porque sabe que, naquele ano, naquela década, essa palavra está contaminada de conotações que farão estourar, mesmo por um segundo, a estrutura-da-bolha-de-sabão em que se baseia a crença do leitor.

Mais rara ainda é a chance de deixar que o próprio autor faça essas ressalvas em nosso nome. Ficou assim:

“Muitos indivíduos foram interrogados com relação a este extraordinário e aterrorizante affair” (a palavra affaire ainda não adquiriu, na França, a frivolidade de sentido que assumiu em nossa língua).”