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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

5197) Silvio Tendler, 1950-2025 (5.9.2025)



 
O cinema brasileiro perdeu hoje um diretor que dedicou sua vida inteira ao documentário e construiu com sua obra “uma sala por onde todo mundo tem que passar”, como dizia um amigo meu. 
 
Não conheço a maior parte da obra de Silvio Tendler, que é numerosa. Suas compilações sobre a história do Brasil, enfocando Juscelino Kubitschek, João Goulart, Milton Santos, Glauber Rocha, Josué de Castro, etc., são registros preciosos não apenas da nossa História mas da maneira de abordá-la. 
 
A maneira de abordá-la!  Quanta tinta tem sido gasta na tentativa de equacionar esse problema.   
 
Silvio, que não cheguei a conhecer pessoalmente, foi um dos entrevistados da série televisiva A Persistência da Memória de Paola Vieira (Canal Curta, 2023), em cujo roteiro colaborei. A série aborda o fenômeno “memória” de vários ângulos; um deles é a reconstrução da memória pessoal e coletiva através do cinema, especialmente do documentário. 
 
Aqui:
https://canalcurta.tv.br/series/a-persist%C3%AAncia-da-mem%C3%B3ria
 
Peço licença a minha diretora e à Luni Produções para transcrever aqui alguns trechos das respostas de Silvio, quando entrevistado em 2021. O cinema chamado de “documentário” é algo menos imparcial e menos objetivo do que vulgarmente se entende por aí afora. A palavra “documento” é uma palavra enganosa: sugere a existência de uma verdade que ninguém ousaria contestar, algo objetivo, invulnerável à crítica. Isso não existe. 




Cada “documentarista” cria sua própria verdade. É um documento? É, mas é como se uma pessoa pegasse um retângulo de papel e desenhasse ali uma carteira-de-identidade, desenhando a própria foto, a própria impressão digital, as próprias informações, e depois assinasse com sua própria assinatura. 
 
Dizia Silvio, a certa altura: 
 
São coisas que você vai guardando da infância, da adolescência... E aí, quando você vai fazer cinema, você vê com muito mais simpatia, então eu acho que esse desejo que a gente tem, de contar histórias, está profundamente ligado às lembranças da infância. Eu acho que memória é aquilo que a gente quer lembrar, né? Você tem também uma lembrança oculta que você não quer contar. Você sabe coisas de você que você não revela pra ninguém: é só tua memória oculta, a tua lembrança que você guarda só pra você mesmo, e se te perguntarem você vai negar de pés juntos até a morte – mas você sabe da existência daquela memória. Acho que memória é isso, memória é desejo. Eu olho muito do ponto de vista da história, a memória não como âncora, mas como bússola. 
 
A “pessoalidade” (o contrário de “impessoalidade”) que orienta o documentário é exemplificada por Silvio com uma memória de sua própria infância, memória criadora de um vínculo emocional que acabou, muitos anos depois, direcionando seu trabalho como cineasta. 
 
Eu fui fazer [um filme] usando JK por uma lembrança de infância. Eu tinha dez anos de idade, em 1960, estava no carro com meu pai ali no recém construído Aterro do Flamengo. No final, já, do governo JK, o Rio de Janeiro estava deixando de ser a capital, estava se transformando em [Estado da] Guanabara. E um dia nós estávamos indo para a Zona Sul vindo do centro, para casa, para Copacabana, e meu pai emparelhou com um carro (...) e eu olhei para o carro ao lado e era o JK, o Juscelino Kubitschek, aí eu olhei e abri a janela pra ver o Presidente. E ele me viu, viu que eu estava olhando pra ele, ele abriu a janela e deu aquele sorrisinho dele, e me cumprimentou com aquele aceno clássico. A criança nunca mais esquece isso, essa é a coisa que você nunca mais esquece. E isso está na raiz de um filme político, que é Os Anos JK (1980). 
 
Pode soar parecido com o narcisismo e o umbiguismo que hoje vigoram nas redes sociais, em que o Eu é sempre o centro de tudo. O Eu, no entanto, é o mais frágil dos centros. É “o centro que não consegue se sustentar”, no dizer do poeta Yeats. O que mais rapidamente desmorona no sumidouro da inexistência (ou no da insignificância, que é maior e mais fundo). Não importa: o Eu é tudo que cada um de nós possui, e no caso de quem faz algum tipo de arte é o ponto para onde convergem (para onde parecem convergir) todas as linhas do mundo.  



Um artista, e ainda mais um documentarista de cinema, tem uma percepção mais vasta do quanto a História é um oceano onde bóia o torrão de sal do Eu antes que se dissolva. E sabe o quanto são significativos, para as pessoas comuns, esses contatos de raspão com a História, com o mundo das Pessoas Importantes. O mundo dos “olimpianos”, como dizia Edgar Morin, aqueles de quem ouvimos falar diariamente, mas que sabemos existir num universo paralelo a que dificilmente teremos acesso. 
 
E tentamos compensar isso com esses momentos breves: o autógrafo do autor best-seller, a selfie com o astro pop.  Nesse momento, o fã anônimo se sente existir pela primeira vez no “mundo de verdade”, o mundo das pessoas famosas que aparecem na TV e nas revistas. 
 
Para uns, o mundo do Glamour. Para outros, o mundo do Poder. 
 
E a verdade é que no momento da filmagem (inclusive da entrevista filmada) e principalmente no momento da montagem (ou da “edição”, como está se dizendo agora) o Documentarista é um deus-pequenino manipulando as figuras históricas como se fossem action figures de seu jogo pessoal. 
 
O conceito de documentário tem fronteiras distantes, inquietantes, movediças; é uma espécie de “Área X” onde quem penetra volta transformado.  E essas fronteiras não são um marco de cimento no meio de uma imensa pradaria deserta. São como aquela fronteira Brasil/Uruguai bem no meio de uma cidade super movimentada, uma calçada fica num país e a calçada em frente já está no outro. 




Fazer documentário envolve uma porção de gente identificando material, preservando, restaurando, indexando, acessando, escolhendo, reeditando, reinterpretando, refazendo. Uma cadeia de pessoas que em geral trabalham silenciosamente, anonimamente, à revelia umas das outras, às vezes separadas por intervalos de milhares de quilômetros ou de dezenas de anos. 
 
Olha, esse trabalho é fundamental, essas pessoas apaixonadas por fotogramas, que adoram o cheiro de acetato, de ácido acético, né? São maravilhosas, né? Eu tenho o orgulho e a honra de ter começado talvez com o mais brilhante deles, que foi o Chico Moreira. Ele começou comigo no Anos JK, ele era um estudante de cinema da UFF e aí eu fui trabalhar na Embrafilme, dirigia um programa chamado “Coisas Nossas” e me deram o Chico como assistente. Aí, durante a realização desse programa, eu percebi que ele conhecia muito mais cinema do que eu, ele era um apaixonado por cinema, ele ia todas as noites ao cinema, conhecia todos os filmes, tinha uma coleção de lentes, coleção de revistas, etc. Aí quando eu comecei a fazer o som do JK, a colecionar aquele material na Cinemateca do MAM, o Cosme Alves Neto me convidou para organizar o arquivo do MAM e eu falei, “Cosme, não, eu vou botar na mão da pessoa que mais entende disso, não sou eu, é o Chico”. Aí o Cosme ficou chateado, achou que era mentira, que eu não estava querendo pegar o trabalho, mas o Chico aceitou e foi longe, continuou nessa carreira, fez curso no exterior, foi pra FIAF [Federação Internacional de Arquivos de Filmes] e tal...  Então eu acho que ele é o primeiro grande conservador do cinema brasileiro. Depois a Cinemateca Brasileira organizou isso também, se equipou, conseguiu equipamentos e profissionais muito bons, tem o João Sócrates, que hoje mora em Londres, que também organizou essas técnicas para você recuperar e preservar acervos... Você tinha em Curitiba o Valêncio Xavier, com essa gama de pessoas apaixonadas por cinema... Você tem a Myrna Brandão e o marido dela aqui no Rio de Janeiro, que também começaram a salvar filmes... A Alice Andrade, que salvou o acervo do Joaquim Pedro, você tem a Paloma Rocha que salvou o acervo do Glauber, e a Maria Hirszman que salvou o acervo do Leon, né?  
 
É uma conspiração de pessoas que habitam porões com ar condicionado e salas escuras. O documentário – e aqui penso no “documentário na mão de quem monta”, mais do que “na mão de quem filma” – sobrevive por essa guilda de gente para quem o cheiro de vinagre é carregado de poesia. 




Mal comparando, a montagem de documentários a partir de material de arquivo (material antigo, já existente, não filmado pelo mesmo diretor) é uma espécie de quebra-cabeças. No joguinho de quebra-cabeças, ou puzzle, temos que encaixar peças umas nas outras a partir de dois critérios: 1) As peças precisam se encaixar fisicamente (as curvas das bordas precisam coincidir com exatidão); 2) Depois de encaixadas, as peças precisam reproduzir um desenho, que o jogador vai descobrindo aos poucos (ou já vem proposto na própria caixa do brinquedo). 
 
No documentário, é preciso haver esse encaixe no corte, na passagem de uma imagem para a seguinte (por corte seco, fusão, escurecimento, etc.). Mas a figura que vai ser revelada no final é uma criação do documentarista. Não estava prevista em cada peça isolada. É como se as peças do puzzle estivessem todas em branco, e à medida que as encaixasse uma na outra ele fosse pintando um quadro. Uma Obra.  
 
Dizia Silvio, lembrando um ensaio famoso de Walter Benjamin: 
 
São duas questões diferentes: o excesso de informação, e a permanência. O Benjamin, quando escreveu A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica ele estava tirando a aura do cinema como objeto único. Hoje a coisa se inverteu. O cinema é objeto único, porque apesar de você ter inúmeras cópias, você não se dispersa na quantidade de informação que você recebe. Você assiste um filme inteiro, e o filme transmite uma idéia de começo, meio e fim. Você tem ali uma continuidade. Ao contrário do que há no “zap” e todas essas outras informações que circulam por todos os meios: elas são fragmentadas, elas são dispersas, então você recebe tanta massa de informação por dia que no final do dia você não lembra quem te mandou o quê... Essa informação se perde porque teu cérebro não tem a capacidade de armazenar toda essa informação que a gente recebe. Agora – o “objeto único” tem. Então, quando você quer falar de uma Era, você não cita um filmete que você recebeu por zap, que você não lembra nem onde ele está. Você cita um filme que você assistiu e que vai te falar daquele momento. 
 
O filme-pronto se salva porque tem começo, meio e fim. Tem um fio de pensamento costurando tudo, e é esse fio que o salva. Tem uma mente ordenadora por dentro de todos aqueles fragmentos. E o resto que fica fora do filme é apenas uma farofa de grãos de imagem. 



 
 
 
 




quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

4904) A sabedoria, de Lao-Tsé a John Lennon (18.1.2023)



 
Já comentei aqui um dos meus episódios preferidos da História – ou das lendas da História, o que vem a dar no mesmo. Uma relato que inclusive mereceu um poema escrito por Bertolt Brecht.
 
O sábio chinês Lao-Tsé, já com mais de 70 anos, resolveu se aposentar e ir morar numa região distante. Empacotou meia dúzia de coisas essenciais (um livro, um cachimbo, etc.), montou num boi puxado por um menino, e pegou a reta. Chegando num posto de fronteira, o guarda perguntou ao menino quem era aquela figura. 
 
– É um homem sábio – disse o menino, todo orgulhoso. – Ele descobriu como a água mole é capaz de partir a pedra dura. E que a dureza não dura para sempre. 
 
O guarda mandou que passassem, porém mal eles tinham andado alguns metros, correu atrás. Disse que se o homem era mesmo tão sábio devia colocar por escrito essa sabedoria, para que gente ignorante como ele, o guarda, pudesse ter algum proveito. 
 
Lao-Tsé olhou as roupas surradas e o jeito modesto do guarda, e achou que essa era uma boa idéia. Além do mais, recusar o pedido pareceria um ato pouco amistoso. Durante sete dias, ele dormiu na cabana do guarda, e procurou resumir da maneira mais clara possível os pontos essenciais de sua filosofia. Quando terminou, deu de presente ao guarda o manuscrito, que constava de 81 fragmentos. 



 
O manuscrito é conhecido hoje como o Tao Te  Ching – O Livro do Caminho Perfeito, e circula pelo mundo, em todas as línguas, há cerca de 2.500 anos. É um livro pequeno: esta edição que tenho, em inglês (Ed. Shambhala, Boston, com tradução e adaptação de Ursula LeGuin) tem apenas 125 páginas, incluindo prefácio e notas. 
 
Bertolt Brecht termina seu poema dizendo:
 
Mas as honrarias não são devidas apenas
ao sábio que assinou o manuscrito.
A sabedoria de um homem precisa ser arrancada,
e por isso o guarda da fronteira merece o seu quinhão.
Foi ele quem fez o livro ser escrito.
 
Walter Benjamin, que esteve na companhia de Brecht poucas semanas depois do poema ser composto, comenta a metáfora da “água mole” dizendo que “quem deseja fazer com que a dureza seja derrotada não deve perder nenhuma oportunidade para fazer um gesto amistoso”. (Bertolt Brecht – Poems 1913-1956, Methuen, London, 1976, ed. John Willett, p. 572).
 

Corta para o ano de 2022, Rio de Janeiro. Estou eu, “nas minhas madrugadas”, como dizia Paulinho da Viola, acompanhando as mensagens num dos meus grupos de Facebook, dedicado à obra dos Beatles. E vejo o seguinte diálogo entre pessoas que não conheço (a tradução é minha): 
 
Karl McDermott
Ao que parece, um professor espanhol encontrou John Lennon na Espanha, durante as filmagens de “How I Won The War”, em outubro de 66, e disse que usava as canções dos Beatles para ensinar inglês aos seus alunos, mas às vezes não entendia direito as palavras. Lennon respondeu: “Bem, se é assim, no próximo disco vou mandar imprimir as letras na contracapa!”
 
Horas depois apareceu, embaixo do post dele, este comentário:
 
Pepa Martínez Jiménez
Karl McDermott, isto é 100% verdadeiro. Esse homem foi meu professor durante alguns anos, e já conheço bem esta história. Ele manteve contato com Lennon durante algum tempo, depois desse encontro. Mesmo hoje, cinco anos após sua morte, os alunos guardam boas lembranças dele. 
 
Quando li isto, não resisti a comentar:
 
Braulio Tavares
Pepa Martínez Jiménez, fala pra gente o nome do teu professor.
 
A resposta não demorou muito:
 
Pepa Martínez Jiménez
Braulio Tavares, o nome dele era Juan Carrión.



Talvez pareça estranho para pessoas mais jovens, mas cinquenta anos atrás não era muito fácil conseguir letras de músicas, nacionais ou estrangeiras. Quem se interessasse, tinha duas opções. A primeira era “tirar a letra” voltando muitas vezes a agulha no disco até conseguir copiar verso por verso. Ainda tenho velhas pastas esbagaçadas pelo tempo, cheia de letras que copiei assim, no pé da vitrola. 
 
A segunda opção era recorrer às numerosas “revistinhas de letras de música”, que eram abundantes justamente por causa desse problema. Vamos Cantar, Cante Comigo, A Modinha Popular, O Samba, Só Sucessos... Esta solução, como a maioria das soluções, criava um novo problema, porque a confiabilidade das letras transcritas não era grande coisa. Vendo as aberrações nas letras em português a gente já avaliava o nível de competência de quem estava tirando as letras de rock. 
 
Essas revistas evoluíram, já nos anos 1970, para a histórica “Vigu”, Violão & Guitarra, que além das letras trazia as cifras dos acordes no violão. Foi mais importante do que a decifração da Pedra de Rosetta. Para quem já “arranhava” o Método Paulinho Nogueira, era um aleluia.
 
Ainda hoje canto errado essa ou aquela letra de rock por causa do vício que essas revistinhas deixaram de herança. Agora, com a Web, letras criteriosas e corretas não faltam. Meu saite preferido, simples e organizadíssimo, é o AZ Lyrics (https://www.azlyrics.com/).
 
Mas... deixem-me erguer um brinde nesta noite chuvosa de sábado ao meu desconhecido amigo Juan Carrión, que, com a humildade de um guarda de fronteira, conseguiu convencer um roqueiro sábio de que era importante tornar sua sabedoria acessível aos simples mortais. E outro brinde a Lao-Tsé e a John Lennon, que entenderam, sem esnobismo, sem pose, o quanto era importante dar uma colher de chá às pessoas interessadas em entendê-los.
 
Uma última nota: alguns anos depois do episódio espanhol, George Harrison compôs, e os Beatles gravaram, uma adaptação do Fragmento 47 do Tao Te Ching, sob o título “The Inner Light”, cuja letra diz:
 
Você não precisa cruzar a porta
para saber o que acontece no mundo.
Você não precisa olhar pela janela
para ver o caminho do paraíso.
Quanto mais você viaja,
menos você fica sabendo.
 
Assim, o espírito sábio
não vai, mas conhece;
não olha, mas vê;
não age, mas faz acontecer.



 
 






quarta-feira, 31 de maio de 2017

4239) O Desespero Precoce (31.5.2017)



Existe um tipo especial de tragédia que nos faz sofrer ainda mais vividamente, seja uma tragédia da ficção ou uma da vida real. É aquela tragédia que só aconteceu por um triz, que teve tudo (ou pelo menos uma grande possibilidade) de ser evitada, mas que por um pequeno detalhe acabou acontecendo.

Diferentemente daquelas tragédias gregas em que o Universo e o Olimpo em peso parecem conspirar para a infelicidade de um personagem, estas outras tragédias doem ainda mais porque se devem a uma besteira, um detalhe, àquilo que o jagunço Riobaldo, de Guimarães Rosa, chamava “o nada coisinha mesma nenhuma de nada, o menorzinho de todos”.

O telefone tocou com a mensagem salvadora, mas não havia ninguém para atender. O socorro chegou, mas não deu mais tempo. Um parafuso qualquer se soltou, e o terrível acidente aconteceu. Uma frase foi ouvida casualmente, e daí em diante vidas foram desgraçadas. A pessoa perdeu um voo por alguns minutos, e foi reencaminhada para o voo fatal. São tantas as possibilidades.

Uma destas, que lembro de vez em quando, é a que chamo de O Desespero Precoce. É quando em função de um problema grave ou de uma catástrofe o personagem se deixa abater por ela, sem saber que ela poderia ser cancelada se ele pelo menos tivesse tido, diante desse problema inicial, um pouco mais de paciência, de serenidade, de cabeça fria.

Um exemplo clássico é o do Romeu e Julieta de Shakespeare. Frei Lourenço, querendo ajudar na fuga dos jovens, sugere a Julieta tomar um narcótico e ser dada como morta, para despertar depois de 24 horas. Fazem isso. Julieta é pranteada, e colocada no sepulcro da família, enquanto Frei Lourenço manda alguém avisar Romeu do plano. O aviso não chega a Romeu: chega a notícia (de conhecimento geral) de que Julieta morreu. Quando ele vai ao sepulcro e a vê em estado meio cataléptico, ele se desespera e se mata.

Esse é o elemento trágico: o Desespero Precoce. Se Romeu tivesse ficado ali se lamentando durante mais umas horinhas, a namorada iria despertar, lépida e fagueira, e os dois seriam felizes para sempre. Mas Romeu reage apressadamente ao primeiro sinal negativo do Destino, e se mata. Fico imaginando um milhão de platéias ansiosas erguendo milhões de braços para o palco e gritando: “Não se mate! Ela está viva!”. O Destino é um dramaturgo cruel.

Há um versinho atribuído a Piet Hein (1905-1996) que diz (o original é em  dinamarquês; achei uma versão em inglês na web):

Losing one glove is certainly painful, 
but nothing compared to the pain 
of losing one, throwing away the other, 
and finding the first one again.

Conheço esta quadra desde pequeno, sob esta forma (muito bem traduzida, aliás):

Perder uma luva é uma dor profunda,
mas não se compara à dor pungente,
de perder essa luva, jogar fora a segunda,
e encontrar a primeira novamente.

É um mito persistente em nossa memória cultural.

Reza outra lenda que quando Teseu partiu para enfrentar o Minotauro no Labirinto de Creta, seu navio usava velas negras; ele prometeu ao seu pai, o rei Egeu, que se voltasse vitorioso as trocaria por velas brancas. Teseu derrotou o Minotauro, mas na comemoração ele e os marinheiros devem ter tomado tanta cerveja que esqueceram de trocar as velas. O rei, ao avistar de longe o navio se aproximando com velas pretas, teve o famoso acesso de Desespero Precoce e jogou-se no mar, morrendo afogado. (Ariano Suassuna usou uma variante deste episódio em seu romance Fernando e Isaura, de 1956).

Penso nessas coisas sempre que leio alguma coisa de ou sobre Walter Benjamin (1892-1940), um filósofo que conheço pouco mas que escreveu textos memoráveis sobre literatura. Benjamin era judeu, e durante a II Guerra tentou fugir da França invadida, para escapar à perseguição nazista. Chegou à Catalunha, de onde esperava seguir para Portugal e dali para os EUA.

Benjamin foi detido na fronteira com um grupo de fugitivos, e ali recebeu a péssima notícia de que o governo espanhol iria repatriar todos eles de volta para a França, para serem entregues aos nazistas. Abatido, exausto, ele se suicidou na noite de 25 de setembro. No dia seguinte, no meio do tumulto da guerra, o grupo de que fazia parte teve seu acesso liberado, e chegou a Lisboa no dia 30.

Romeu só faz falta a Julieta, um rei grego a mais não faz falta a ninguém, mas perder um autor como Walter Benjamin aos 48 anos de idade é algo pra fazer a gente sentir na carne a tragédia do Desespero Precoce. Dá vontade de morrer também.

Existe remédio contra essa síndrome? De que maneira reagir ao primeiro sinal de que não há mais esperanças, de que está tudo acabado? O único contraexemplo que me ocorre é o de Anthony Burgess, o autor de Laranja Mecânica.

O episódio é meio controvertido, porque ele costumava fantasiar muito a própria biografia. Mas consta que Burgess trabalhava no Serviço Colonial inglês na Malásia, e em 1959 foi dispensado, ao receber um diagnóstico de câncer terminal. O escritor ficou apavorado, entre outras coisas pela perspectiva de deixar a família passando necessidades. E danou-se a trabalhar.

Reza a lenda que Burgess escreveu cinco romances ao longo do ano de 1960, e em 1964 tinha concluído um total de onze livros, entre eles o famoso A Clockwork Orange, e enquanto isso nada de câncer. Ele podia ter pulado de um prédio, não é mesmo? Mas ao invés de ceder ao Desespero Precoce o nosso amigo sentou no teclado e mandou brasa. Só foi morrer, coitado, em 1993, mais de trinta anos depois da sentença de morte proferida pela medicina.

Seu caso não é o único, pois grande parte da obra do chileno Roberto Bolaño, o autor de Os Detetives Selvagens e de 2666, foi escrita após o diagnóstico de uma doença grave, da qual acabou morrendo mesmo, mas bem depois do previsto, e não sem produzir uma quantidade enorme de livros para garantir o leite das crianças.

Não sei bem como batizar esse impulso; talvez a gente possa chamá-lo de Teimosia Esperançosa, ou a Persistência Obstinada. Não salva a vida de ninguém, mas dá, para um jogo que parecia perdido, a chance de ir para uma prorrogação. E numa prorrogação tudo pode acontecer, inclusive o jogo não acabar.







sexta-feira, 4 de março de 2016

4067) Os ilustradores (5.3.2016)



Meu pai colecionava dicionários, mantendo aliás uma competição ferrenha com Átila Almeida, professor de matemática da UFPb e pesquisador de cordel. Dois dos seus pais-dos-burros preferidos eram o Lello Universal (que ele tinha na edição pequena, e eu décadas depois consegui na grandona) e o Dicionário Prático Ilustrado de Jayme de Séguier, que era como um amigo íntimo da família. Depois de muito manuseio ele resolveu encadernar o Séguier, separando-o em dois volumes. O que me parece até hoje um sacrilégio, mas ele gostava por isso mesmo, porque era prático.

Havia neles pranchas de página inteira mostrando só peixes, ou só armas de fogo, ou só bandeiras, ou só esportes, ou só flagelos da natureza. Outras mostravam um ambiente vasto, uma paisagem repleta de pessoas, animais, plantas, utensílios, veículos... A legenda: “Austrália” ou “Floresta Tropical”.  O ilustrador compactava num único quadro a óleo o DNA simbólico daquele país ou paisagem.

Walter Benjamin (“Livros Infantis Antigos e Esquecidos”, 1924) diz: “No final do século XVIII, aparecem livros ilustrados com a seguinte característica: uma grande variedade de coisas, que não têm entre si qualquer afinidade figural, são impressas numa única página. São objetos que começam com a mesma letra: amora, âncora, agricultor, atlas. Os vocábulos correspondentes são traduzidos em uma ou várias línguas estrangeiras. A tarefa do artista era semelhante à do desenhista barroco quando combinava objetos alegóricos numa escrita visual (...)”.

Eram aqueles retratos pintados por Arcimboldo: homens e mulheres feitos de frutas, de pássaros, de flores. Lembra também o delírio do “pirado” Ceferino de Cortázar (Rayuela), uma classificação das coisas do mundo pelas suas cores, o que faz o narrador comentar: “Que realidade deslumbrante (ou não) lhe mostrava cenas onde os ursos polares se moviam, em imensos cenários de mármore, entre jasmins do Cabo? Ou corvos em ninhos sobre um monte de carvão, com uma tulipa negra por cima...”

Regras tão belas como rimas, que são regras tão arbitrárias quanto qualquer outra. Um único conceito, arrebanhando elementos até então nunca aglomerados juntos sob um mesmo critério. Algo como os monovocalismos de Georges Perec ou de Christian Bok. Seres de uma só cor, de uma só vogal, de uma só inicial, de um só país, de uma só religião... (Não sei por que, estes últimos têm um peso específico realista demais, movedor-de-engrenagens demais.) Borges chamou a ordem alfabética de desordem alfabética. “Nesta imagem, tudo está ordenado por um só critério, um máximo divisor comum, pode ser uma letra, pode ser uma mesma história, pode ser uma cor.”





quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

3987) A civilização do olho (3.12.2015)




Num artigo de 1931 sobre fotografia, Walter Benjamin dizia: 

“Sob o efeito dos deslocamentos de poder, como os que hoje estão iminentes, aperfeiçoar e tornar mais exato o processo de captar traços fisionômicos pode converter-se numa necessidade vital. Quer sejamos de direita ou de esquerda, temos que nos habituar a ser vistos, venhamos de onde viermos. Por outro lado, temos também que olhar os outros”. 

É de certa forma a extrapolação sensata dos esboços de “Big Brother” que já surgiam na época do texto. 

É a época da foto, do documento, do passaporte, do salvo-conduto, do nada consta. E a das impressões digitais, e depois a do chip biométrico, do exame de fundo de retina, do DNA.

Isto é surpreendente? Não para quem se torna capaz de extrapolar situações sociais futuras com alguma verossimilhança, como alguns escritores conseguem. A Benjamin basta observar meia dúzia de elos de uma corrente para intuir até onde essa corrente pode se estender no futuro. 

Com a fotografia, não só a arte avançava, mas também a ciência. No mesmo espírito estava o físico Arago, citado pelo próprio Benjamin, que discursava assim em 1839: 

“Quando os inventores de um novo instrumento o aplicam à observação da natureza, o que eles esperavam da descoberta é sempre uma pequena fração das descobertas sucessivas, em cuja origem está o instrumento.”

A frase de Benjamin sobre ser visto e olhar os outros lembra esses quarteirões residenciais onde praticamente toda a calçada e todo o asfalto estão na área de cobertura de alguma câmara em algum ponto dali. 

Não sei se é ballardiano demais imaginar um condomínio onde qualquer morador, da TV de sua sala, pudesse sintonizar o que estava sendo transmitido por todas as câmeras de segurança do seu prédio, ou da vizinhança (com autorização). 

Daria um bom gancho para um romance policial, se todos os suspeitos dispusessem desse acesso; para checar álibis, etc.

Uma reação “romântica” a essa vigilância dos flashes é o filme “noir”, onde os rostos estão sempre semiocultos e os ambientes sempre na penumbra ou então são uma treva cortada por uma lâmina de luz. Ninguém vê nada com clareza. 

Falei no cinema mas o romance policial equivalente também tem esse clima meio expressionista, de coisas vistas apenas pela metade, ou pela sombra, ou pelo reflexo. Cornell Woolrich tem uma série de romances com as palavras “Black” ou “Dark”. Um levantamento das descrições dos personagens dos romances “noir” talvez revelasse a incidência reiterada de expressões como “com o rosto oculto pela sombra”, etc. 

Um mundo de incerteza e de matéria escura, o contrário do mundo de hoje, berrante, narcísico, escrachado, e onde todos querem ser reconhecidos.




sábado, 12 de dezembro de 2009

1422) O mendigo e a camisa (4.10.2007)




(ilustração: Jan Adriansz van Staveren)

Walter Benjamin (Magia e Técnica, Arte e Política, Brasiliense, pags. 159-160) conta a parábola de indivíduos que conversam numa estalagem, enquanto um velho mendigo, vestindo apenas uma camisa suja, cochila a um canto. 

Os fregueses falam sobre o que pediriam se lhes fosse dado realizar um só desejo. Um diz que queria uma oficina de ferrreiro, outro queria uma casa nova, outro um bom casamento para a filha... Resolvem perguntar ao mendigo o que ele gostaria.

O mendigo responde: “Gostaria de ser um rei poderoso que certa noite tem seu país invadido, seu palácio tomado, seus aposentos saqueados. O rei foge pela floresta, vestindo apenas a camisa com que dormia. É perseguido, mas ilude os perseguidores, e depois de muito tempo consegue se refugiar numa estalagem, sujo, cansado, faminto, mas vivo.” 

Os outros homens ficam sem entender e um deles pergunta: “E o que você ganharia com isso?” Ele diz: “Uma camisa”.

É uma ótima parábola, até porque ficamos nos perguntando se o mendigo não seria de fato o próprio rei, em desgraça e incógnito. Mas ela me recorda um episódio contado por Clarice Lispector. 

Certa noite ela vinha da casa de uma amiga e ficou esperando ônibus na Praça da Bandeira. Era uma noite chuvosa e gelada do inverno carioca, ela estava com um vestido fino, sem dinheiro para um táxi, batendo o queixo de frio, e nada do ônibus aparecer. 

Dizia Clarice que isto a ajudou a dormir pelo resto da vida. Quando se sentia desconfortável na cama, bastava imaginar que estava lá, de novo, na madrugada da Praça da Bandeira, vergastada pelo vento gelado e pela chuva. De repente, pensava: “Não! Não estou lá! Estou aqui, na minha cama quentinha!” E adormecia.

A mecânica disto é parecida com aquela famosa história do bode na cabana: o mestre zen aconselha o lavrador (que se queixa da casa desconfortável) a colocar um bode na sala durante um mês e depois tirá-lo, para ver como a casa fica uma beleza. 

E parecida também com aquela piada do garoto que esperava a mãe no portão com a bola de futebol embaixo do braço e diz: “Mãe, sabe aquele seu vaso japonês bem caro?...” Quando a mãe arregala os olhos e leva as mãos à cabeça, ele prossegue: “Pois eu quebrei aquela vidraça que fica perto dele”.

É um pouco como a obra-prima de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto, ambientada num tempo alternativo em que os EUA perderam a guerra e têm seu território dividido entre a Alemanha nazista e o Japão. Ali, um escritor de FC escreve um romance em que imagina um mundo feliz, o qual, por ironia, é muito semelhante ao nosso. 

Se eu fosse escritor de auto-ajuda escreveria um livro inteiro aconselhando às pessoas: “Caro amigo, se você anda sorumbático e macambúzio, se você acha que a vida não vale a pena, não se preocupe. Seus problemas acabaram! Basta você imaginar-se noutra vida onde é infeliz, mas por algum motivo consegue sonhar com esta vida aqui como um desejo irrealizável, uma felicidade inatingível”.





terça-feira, 12 de agosto de 2008

0507) O Modelo e o Produto (3.11.2004)




(Walter Benjamin)

Discute-se por aí a pobreza criativa da indústria cultural, mas nem sempre as críticas são dirigidas para o alvo certo. Há um texto de Walter Benjamin, “A Obra de Arte na Época de Sua Reprodutibilidade Técnica”, que coloca os aspectos principais dessa questão. Se bem me lembro, Benjamin compara a pintura (onde uma tela a óleo é única, irrepetível) e a fotografia (onde de um mesmo negativo é possível tirar milhões de cópias idênticas). Ou seja: na pintura, o Modelo (a obra de arte) e o Produto (o objeto comercializado) são um e o mesmo. Na fotografia, o Modelo é o negativo e o Produto são as cópias.

No caso da literatura, uso sempre a distinção entre o Texto e o Livro. O Texto é o Modelo, é uma obra de arte literária redigida a mão por Dostoiévski ou num computador por William Gibson. O Livro é o Produto, um objeto industrializado cuja função é tornar o texto acessível a muita gente, de uma maneira tal que renda alguma grana para o criador do Modelo e os fabricantes do Produto.

O problema com a indústria cultural não é o fato de ela pegar um Modelo (um texto original de Rubem Fonseca, de Garcia Márquez, de Umberto Eco) e usá-lo como ponto de partida para a fabricação industrial de milhões de livros. É quando a indústria cultural começa a perceber que o Modelo também pode ser considerado um Produto. É um raciocínio inevitável num sistema habituado a máquinas que fabricam máquinas, a dinheiro que gera dinheiro. “Por que então,” alguém deve se perguntar de vez em quando, “já que produzimos livros em grande escala, não descobrir uma maneira de produzir Modelos em grande escala, jeitos-de-escrever em grande escala?”

É assim que nascem, por exemplo, os chamados “gêneros literários”. Um gênero é um conjunto de modelos parecidíssimos entre si, tão parecidos que podem ser considerados Produtos industriais. O romance de terror, o romance policial, o romance de ficção científica, o romance de amor, o romance pornográfico... São alguns dos gêneros mais populares, e em todos eles a gente vê que existe uma aderência a certos princípios básicos, a um certo número de fórmulas. Daí o desprezo dos escritores eruditos pelos gêneros, pela literatura popular. Eles sentem que ali não se trata mais da industrialização do livro (objeto de papel), mas da industrialização do texto literário.

Se a gente ler 200 romances de espionagem, vai perceber que existe uma meia-dúzia de fórmulas utilizadas por todos eles. Essas fórmulas seriam, então, os verdadeiros Modelos. Os textos produzidos pelos escritores não seriam mais os Modelos, e sim um estágio intermediário entre o Modelo e o Produto. Na arte erudita, o artista é criador e proprietário do Modelo que usa; na arte de massas, ele aceita utilizar um Modelo que pertence à comunidade, ou seja, ao mercado editorial. É contra essa perda de autonomia que alguns críticos e escritores protestam. Não contra a impressão de milhares de exemplares de um livro qualquer.