Atrás, na “coroa” (o Poder), o rosto de Lyndon Johnson,
talhado a faca, queimado de sol, seu nariz adunco de ave de rapina, a
concentração carrancuda de quem está disposto a remover com o ombro qualquer
obstáculo que o separe do Bem, ou do Mal, tanto faz.
Lyndon Baines Johnson ficou famoso, entre muitas outras
coisas, ao ser comparado com Macbeth (que também sucedeu a um rei assassinado) na
peça MacBird (1966) de Barbara
Garson, um grande sucesso alternativo daquela década feroz.
A peça brinca com o apelido familiar, “Lady Bird”, dado à
esposa de Johnson, reforçado pela coincidência entre as iniciais dela e as do
marido (as duas filhas do casal, aliás, se chamaram Lynda Bird e Lucy Baines).
Johnson era um caipira engravatado. Apreciava
demonstrações rudes e joviais de camaradagem sem mimimi. Em janeiro de 1964 ele
convidou à Casa Branca um grupo de jornalistas para almoçar. Antes do almoço,
fez todo mundo, a começar por ele mesmo, tirar toda a roupa e tibungar nu na
piscina da Casa Branca. Ficaram todos durante uma meia hora, “em trajes de
Adão”, contando anedotas e tomando uísque.
No ano seguinte Bob Dylan gravou a canção “It’s Alright,
Ma”, com o famoso verso de que “mesmo o Presidente dos Estados Unidos tem que
ficar nu”.
Uma parte considerável de qualquer eleitorado vê com
alívio certas atitudes até grosseiras da parte de seus líderes, porque se
identifica com elas, porque também faz aquilo em seu dia-a-dia, e tem a
impressão, nem sempre verdadeira, de que “agora sim, não está vendo a
encenação, está vendo as coisas como elas são na realidade”. Numa política toda
melíflua, cheia de picaretas engravatados e de cabelo lambido falando em
família e valores, até um peido diante das câmeras passa por espontaneidade e
espírito sincero.
Qualquer democracia baseada no voto popular mostra essa tensão
permanente (e flutuante) entre os kennedys e os johnsons, os cavalheiros e os
cavaleiros, os sofisticados e os grossos, os de sangue azul e os “daquilo
roxo”.
De um lado o arquétipo do líder fino, educado mas viril, atento
às minúcias da etiqueta e à liturgia do cargo. Revelam que “têm berço”, “são
preparados”, manejam com desenvoltura e cordialidade o verniz verbal da diplomacia.
Conseguem manter, sem muita tensão, a postura serena e resguardada de quem
aparenta espontaneidade mas está sempre atento para não ser pêgo sequer num deslize
gramatical.
No lado oposto estão os que “têm apelo popular”, são
“gente como a gente”, são expansivos, espaçosos, falastrões. Metem os pés pelas
mãos, mas dão uma gargalhada e fica tudo por isso mesmo. São vistos como alguém
“sem papas na língua”, “sem rabo preso”. Têm suas próprias regras de figurino e
de culinária, e a toda hora deixam alguém chocado ou perplexo. Desobedecem às
formalidades, aos rituais, aos rapapés. Sugerem (com ou sem sutileza) que ser
diplomático é ser hipócrita, que cultivar uma boa imagem é mentir ao público; e
esse público específico respira com alívio discreto: “ele é sincero, ele não
tem nada a esconder, ele diz o que pensa e faz o que diz”.
O embaixador Assis Chateaubriand recebeu como assessor um
jovem diplomata do Itamaraty; um rapaz de berço. Arrumando às pressas a própria
bagagem no quarto do hotel, disse ao rapaz que guardasse as cuecas sujas em
separado. “ – Dr. Assis, e como vou saber as que estão sujas? – Ora, meu filho...
Cheira.” Essa nonchalance não está
distante da descontração com que Lyndon Johnson reunia o gabinete dentro do WC,
enquanto ele, sentado no vaso, arriava um barro.
Linguagem chocante, posturas chocantes, fazem parte do
repertório de intimidades com que essas figuras parecem tocar de leve com o
cotovelo nas costelas do eleitor e dizer: “Tá vendo? Eu sou como vocês. Eu
também faço assim.” E receber de volta:
“Então você me representa”.




