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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

5202) A Zona crepuscular (9.10.2025)

 


(Annihilation, de Alex Garland, baseado na obra de Jeff Vandermeer)


 
A ficção científica tem, por um lado, uma liberdade imaginativa sem limites. Claro que por outro lado existe o compromisso com a Ciência, mesmo quando é apenas da boca para fora. 
 
A Ciência serve de bússola. Aponta para a realidade do mundo material. E por isso é útil, mesmo quando estamos falando de coisas impossíveis neste mundo – viagens no tempo, viagens mais rápidas que a luz, teleporte de seres vivos que chegam vivos (e idênticos, e lúcidos!...) do lado oposto... 
 
A Ciência, na FC, serve como o Norte magnético apontado pela bússola. Não quer dizer que o navegador tenha que viajar para o Norte. Ele precisa apenas saber em que direção fica. 
 
Se o autor consegue se situar nas quatro direções dessa rosa-dos-ventos ou desse eixo-cartesiano, ele é livre para imaginar o que bem entender. É literatura.
 
Quem dá as coordenadas na FC é a imaginação, não a Ciência. E se muitas vezes uma parece contradizer a outra, tanto melhor: é essa tensão que acumula energia mental no escritor e o leva a ser mais engenhoso, mais ardiloso, mais convincente. 
 
Quando não parece haver nada mais para inventar, a FC tira da cartola uma imagem surpreendente. A Encyclopedia of Science Fiction registra (https://sf-encyclopedia.com/entry/cliches) uma imagem “da FC de fins do século 20, e que não poderia ter sido prevista”: espaçonaves em forma de árvore!  O verbete dá exemplos de Stephen Baxter, Larry Niven, Dan Simmons – este em Hyperion, recentemente traduzido no Brasil pela Ed. Aleph. 
 
Outra imagem recorrente é a Zona. 




Não a Rua das Vitrines em Amsterdam, se bem que esta mereceria uma versão FC, por que não?  Eu me refiro à Zona, que todos nós conhecemos, do filme Stalker (Andrei Tarkovsky, 1979), e do romance Roadside Picnic (1972, Arkady e Bóris Strugatski; no Brasil, Piquenique na Estrada, Ed. Aleph). 
 
É um local onde aparentemente houve um pouso e permanência de extraterrestres. Depois que foram embora, deixaram para trás uma grande quantidade de objetos incompreensíveis, e graves distorções no espaço-tempo. Uma espécie de Chernobyl ultra-dimensional, cheia de armadilhas invisíveis e perigosas. (O romance dos Strugatsky é anterior ao desastre de Chernobyl, mas pode ter se inspirado em outro, mais antigo.) 
 
Os stalkers são sujeitos ousados que aprendem a se deslocar naquela zona perigosa, e o fazem para trazer de lá objetos, souvenirs, que vendem bastante caro. E às vezes servem de guia (como num safari) para pessoas que querem curtir a aventura de entrar na Zona Proibida. 
 
Sobre algum possível simbolismo do filme, Tarkovsky declarou: 
 
A Zona não simboliza nada, não mais do que qualquer outra coisa que aparece em meus filmes. A Zona é uma zona qualquer, é a vida, e quando um homem a atravessa ele pode ser destruído ou pode chegar intacto do lado oposto. 
(IMDB, trad. BT)
 
Uma versão recente desse ambiente é a “Área X” imaginada por Jeff Vandermeer em sua série de romances Annihilation, Authority, Acceptance (todos 2014) e Absolution (2024). Os três primeiros saíram no Brasil pela Ed. Intrínseca, com tradução minha. 


 
A Área X de Vandermeer fica, aparentemente, na região de mangues e pântanos da Flórida. Alguma coisa ocorreu ali, e deixou essa área cercada por uma espécie de campo de força invisível que a bloqueia nos dois sentidos. O Exército descobre uma passagem, e começa a mandar destacamentos de soldados e cientistas para investigar. Ali dentro ocorrem estranhas mutações biológicas. Há um farol abandonado, e um poço que desce (com escadaria em espiral) terra adentro, como uma torre invertida. Quem emerge da Área X volta amnésico, e morre de câncer pouco depois. 
 
Vandermeer explora de maneira brilhante nos três primeiros livros (ainda não li o quarto) esses acontecimentos bizarros, deixando claro que o Farol é o ponto crucial de tudo, e sugerindo que alguns personagens foram “copiados” e transportados para outro ponto do espaço. 


 

E agora estou encerrando a leitura de Nova Swing (2007), romance de M. John Harrison ambientado num planeta distante, nas proximidades de uma zona misteriosa do espaço denominada “o Território Kefahuchi” (“the Kefahuchi Tract”), onde por alguma razão as leis da física não funcionam. A premissa do livro é que um fragmento desse Território caiu no planeta, em cima de uma cidade à beira-mar chamada Saudade. 
 
Sim, “Saudade” mesmo, em português. Harrison explica o significado da palavra (e nas notas do final do livro agradece a dica a “Luis Rodrigues”). 
 
Saudade é uma mistura de cidade de policial noir e cidade futurista, mistura que rapidamente se tornou clichê depois de filmes como Blade Runner (1982) e livros como Neuromancer  (1984).  Em casos assim, a originalidade, se houver, tem que vir nos detalhes e no espírito. Felizmente, Harrison é bom nas duas coisas. 
 
Vic Serotonin é um stalker que conduz pessoas em visitas à Zona, ou ao “site”, que ocupa uma parte considerável da cidade, entrando pelo mar adentro. A Zona é protegida por cercas e vigiada pela polícia, mas sempre é possível encontrar uma brecha. Esse conceito dramatúrgico vem sendo desenvolvido de maneira coerente por estes autores (Strugatski, Tarkovsky, Harrison, Vandermeer), em que cada um pede emprestados detalhes dos demais e os reutiliza, como se todos estivessem se referindo a um só lugar. 



 
No livro de Harrison, acontece de vez em quando uma invasão de gatos, uma proliferação inexplicável; na obra de Vandermeer, são coelhos. 
 
Chuva, sol, vento, luz – esses efeitos surgem de forma desencontrada em todas essas zonas. Como se o espaço tivesse se estilhaçado e cada fragmento pertencesse a um instante diferente do tempo. 
 
M. John Harrison assim se refere à Zona de Saudade, citando a “auréola” (uma espécie de halo intermediário que a rodeia, mas não propriamente um campo-de-força intransponível): 
 
Não havia auréola nenhuma, afinal; havia ali apenas a mais delgada das películas entre diferentes estados de coisas. Você de repente penetrava na pior parte daquilo, sem se dar conta. 
(p. 149)
 
Não importa o que acontecesse, as sombras eram projetadas em ângulos absurdos para a época do ano, como se a geografia estivesse se lembrando de alguma coisa coisa. 
(p. 164)
 
Saudade é uma cidade à beira-mar e ao mesmo tempo um espaçoporto. É outro clichê nostálgico da FC. As histórias de viagens espaciais herdaram algumas figuras dramatúrgicas das velhas histórias de marinheiros e navios. Um deles é o ambiente meio lumpen de um cais do porto, fervilhante de vagabundos, desempregados, descuidistas, misturados a marujos calejados e competentes que não se destacam na multidão. 
 
Uma viagem ao espaço é um equivalente literário de uma viagem ao oceano. Pelo menos três romances de Samuel R. Delany começam com um capitão de espaçonave perambulando no cais-do-espaçoporto e recrutando “no olho” uma tripulação heterogênea: Empire Star (1966), Babel-17 (1966) e Nova (1968). 
 
Saudade, como todo espaçoporto, está impregnada dessa nostalgia pelo espaço. 
 
“Alguns viajantes marítimos,” ela havia escrito, “nunca conseguem re-adaptar suas pernas ao solo firme. Desembarcam no cais, mas daí em diante caminham no solo com a dificuldade de quem tenta caminhar sobre um colchão.Sentar quieto é pior ainda, ou tentar adormecer. Quando andam, pelo menos os sintomas diminuem”. 
(p. 143)
 
Há uma correspondência poética entre essa Zona proibida, composta de estilhaços do espaçotempo, e a cidade em si. Ali, as pessoas andam em Cadillacs da década de 1950, fumam cachimbo, escutam jazz ou tango (ou “New Nuevo Tango”) no bar. Mas há uma pessoa com braço prostético cheio de telas e painéis de comunicação; a engenharia genética pode redesenhar um corpo à vontade do cliente, que pode ser transformado numa réplica de Albert Einstein ou de Audrey Hepburn. 
 
Fora da Zona (ou melhor: no entorno da Zona) o tempo parece também ter se fraturado e recomposto, só que agora com cacos de cultura, memória, hábitos... Os resíduos de uma História terrestre que todos eles conhecem vagamente de ouvido, como nós de hoje conhecemos coisas tipo “Idade Média” ou “Antiguidade”. 
 
John Clute, um dos meus críticos favoritos de FC, diz, ao comentar o livro: 
 
A palavra em português “saudade” implica numa nostalgia romântica, e uma aspiração sonhadora de que aquilo que foi perdido possa ser recuperado novamente; a diferença deste sentimento para com termos como desideratum ou Sehnsucht reside precisamente nessa pungente persistência da esperança. 
 
É curioso este comentário final. Alguém, famosamente, já definiu saudade como “vontade de ver de novo”, mas nem sempre essa aspiração é satisfeita. Não há como não lembrar a sextilha igualmente famosa de Severino Pinto do Monteiro: 
 
Essa palavra saudade
conheço desde criança...
Mas a saudade do ausente
não é saudade, é lembrança;
saudade só é saudade
quando morre a esperança.
 


 
 
 
 





sábado, 15 de abril de 2023

4932) A tristeza e a música (15.4.2023)




No conto que abre o livro Sagarana (1946), “O Burrinho Pedrês”, Guimarães Rosa encastoa uma série de pequenas histórias, “causos” que os vaqueiros contam uns aos outros enquanto conduzem uma boiada, num trajeto longo e vagaroso até a vila onde passa o trem.
 
Uma dessas histórias é contada pelo vaqueiro João Manico. Ele diz que anos atrás o atual patrão deles, Major Saulo, era apenas “Seu Saulinho”, e os levou para trazer uma boiada que acabava de comprar. Como na volta tinham que passar pela cidade de Curvelo, o vendedor do gado lhes pediu um favor: que deixassem lá um menino, um pretinho de uns 7 anos, para ser entregue ao irmão que ali morava. 
 
Os vaqueiros trazem o pretinho à garupa, mas o menino está inconsolável porque está indo embora. Ele não quer ir, pede para ser levado de volta, implora... 
 
E, aquilo, ele chorava, sem parar, e de um sentir que fazia pena... Não adiantava a gente querer engambelar nem entreter... Eu pelejei, pelejei, todo-o-mundo inventava coisa para poder agradar o desgraçadinho, mas nada d’ele parar de chorar... (...) ...O pretinho vinha comigo na garupa, dando soluços grandes, e molhando minhas costas de tanta lágrima... Então eu falei: — “Olha os bois também com saudade dos pastos lá da fazenda”... — Para que foi que eu fui dizer isso! Ele abriu ainda mais no bué, e começou a gemer: — “Ai, seu mocinho bom! Ai, seu mocinho bom! Me deixa eu ir-s’embora para trás! Me deixa eu ir-s’embora para trás!”... 
 
Quando ele viu que não adiantava nada pedir, garrou só a exclamar: — “Ai, seu mocinho ruim! Ai, seu mocinho ruim!... Eu só queria poder sentar agora, um tiquinho, naquela canastra de couro, que tem lá no rancho de minha mãe... Queria só ver, de longe, a minha mãezinha, que deve de estar batendo feijão, lá no fundo do quintal!”... 
 
Os vaqueiros ficam naquela sinuca, porque todo mundo está comovido com o choro do garoto mas não fazia sentido voltarem atrás com boiada e tudo. E lá vão eles. Montam acampámento para passar aquela primeira noite.
 
E foi aí, bem na hora em que o sol estava sumindo lá pelos campos e matos, que o pretinho começou a cantar... ...Ah, se vocês ouvissem! Que cantiga mais triste, e que voz mais triste de bonita!... Não sei de onde aquele menino foi tirar tanta tristeza, para repartir com a gente... Inda era pior do que o choro de em-antes... 
 
A voz do menino chega a lembrar (ou será que estarei me sugestionando?) a voz de um Milton Nascimento infantil mas já capaz das nuances futuras de um Milton Nascimento – que já era nascido quando Rosa publicou seu livro: 
 
Era assim uma cantiga sorumbática, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim... Mas, linda, linda como uma alegria chorando, uma alegria judiada, que ficou triste de repente:
...“Ninguém de mim
ninguém de mim
tem compaixão...” 




Os vaqueiros ficam indóceis, todo mundo nervoso. Um bebe cachaça, o outro puxa do bolso as cartas da família, outro cantarola triste... A história do pretinho tem um final trágico e meio sobrenatural, que fica reservado a quem se dispuser a ler o conto. 
 
O episódio do negrinho me trouxe à lembrança uma cena parecida, num dos meus contos preferidos de Mark Twain, “Uma Estranha Aventura” (“A Curious Experience”, 1881). 
 
Um adolescente pede para se alistar nas tropas do Norte, durante a Guerra Civil norte-americana, e é designado para ajudar na banda de música do quartel. O problema que surge é porque toda noite, no alojamento, antes de dormir, o menino (que tem uns 14 ou 15 anos) reza em altas vozes pedindo a bênção do céu para cada músico da banda; e depois desata a cantar hinos religiosos. 



(Mark Twain)
 
Um oficial relata o fato ao Major:
 
Mas o mais grave de tudo é que quando acaba a reza – quando ele finalmente acaba a sua reza – ele ergue a voz e começa a cantar. Bem, o senhor sabe que a voz dele, quando fala, é doce como o mel; sabe como seria capaz de persuadir aquele cão de ferro do portão a descer os degraus e vir lamber-lhe a mão. Creia na minha palavra, isso não é nada diante da cantiga! Ah, ele se limita a entoar aqueles versos , numa voz tão doce e tão suave, ali no escuro, que faz a gente pensar que está no céu. (...) E ele canta: “Assim como eu sou – um coitado, um cego, um desvalido...”  (...)  E ele faz um homem se sentir o bruto mais ingrato e mais canalha que já existiu. E quando ele canta sobre a casa em que viveu, e sua mãe, e sua infância, e as lembranças de antigamente, e os amigos que morreram e se foram para sempre, isso traz para a mente daqueles homens tudo que eles amaram e perderam em sua vida... 
(trad. BT)
 
Os hinos do garoto fazem aqueles soldados rudes chorarem aos soluços, e na manhã seguinte levantam-se todos fungando, com olhos vermelhos, sem coragem para olhar na cara uns dos outros. 
 
Ficam tal como os vaqueiros do conto de Rosa – que numa entrevista ao Correio da Manhã em 1946 asseverou ter misturado à história dos vaqueiros um personagem real: um menino preto que ele conheceu numa pensão onde morou, quando era estudante na capital mineira. 
 
A poética da tristeza ganha uma dimensão maior quando estabelece esse contraste entre a inocência da infância e o temperamento calejado de homens guerreiros. 
 
E existe o poder hipnótico da tristeza, a tristeza como uma emanação irresistível que brota de alguém e envolve os sentimentos de quem esteja em volta. É algo que foi expresso de maneira inesquecível por Samuel R. Delany em sua noveleta interplanetária Empire Star (1966; no Brasil, “Estrela Imperial”, Ed. Morro Branco, trans. Petê Rissati)).



O protagonista desta história é Comet Jo, um rapaz meio andarilho, que costuma tocar uma ocarina, e precisa pegar carona numa espaçonave para ir a outro planeta, cumprir uma missão qualquer. (Não é uma “missão qualquer” – este livro é cheio de coisas interessantes, mas que não vêm ao caso para esta citação.)  Ele é aceito na nave, e outro rapaz, também músico, chamado Ron, começa a lhe mostrar o que há lá dentro. 
 
Uma das coisas que há lá dentro é um carregamento de “Lll” (=a letra L, três vezes repetida), seres alienígenas.
 
Jo seguiu Ron por um corredor, passaram por uma escotilha, desceram uma pequena escada.
– Os Lll estão aqui – disse Ron, diante de uma porta circular. Ainda estava segurando o braço do violão. Empurrou a porta, e alguma coisa agarrou o estômago de Comet Jo e o virou pelo avesso. Lágrimas cresceram nos olhos dele, e sua boca se abriu. Respirou com dificuldade.
– É uma porrada, hein? – disse Ron em voz baixa. – Vamos entrar.
Jo estava amedrontado, e quando penetrou naquela penumbra sentia-se afundar dez metros a cada passo. Piscou os olhos para clarear a vista, mas as lágrimas voltaram.
– Esses são os Lll – disse Ron.
Jo viu lágrimas no rosto queimado de sol de Ron. Olhou para diante.
Eles estavam acorrentados ao piso pelos pulsos e tornozelos; Jo contou sete deles. Seus enormes olhos verdes piscavam na luz azulada do compartimento de carga. Seus torsos eram encurvados, as cabeças hirsutas. Seus corpos pareciam imensamente fortes.
– O que é que eu estou... – Jo tentou dizer, mas tinha alguma coisa presa na garganta. – O que é que eu estou sentindo? – sussurrou ele, pois era o mais alto que conseguia falar.
– Tristeza – disse Ron.
E assim que recebeu um nome aquela emoção se tornou reconhecível – uma tristeza vasta, avassaladora, que sugava todos os movimentos de seus músculos, toda a alegria dos seus olhos.
– Eles me deixam... triste? – perguntou Jo. – Por que?
– São escravos – disse Ron. – Eles constroem; constroem de uma maneira muito bela, maravilhosa. São extremamente valiosos. Construíram metade do Império. E o Império os protege desta maneira.
– Protege? – perguntou Jo.
– Ninguém pode se aproximar deles sem se sentir assim.
– Nesse caso, quem iria comprá-los?
– Não muitas pessoas. Mas existem em número bastante para que eles sejam escravos incrivelmente valiosos.
– Por que não soltam eles?! – perguntou Jo, e a frase soou no final quase como um grito.
– Economia – disse Ron.
– Como é que alguém pode pensar em economia sentindo-se deste jeito?
– Não é muita gente que consegue – disse Ron. – Essa é a proteção dos Lll.
Jo esfregou os olhos.
– Vamos sair daqui.
– Vamos ficar mais um pouco – retrucou Ron. – Vamos tocar para eles agora. – Ele sentou num caixote, empunhou o violão e fez um arpejo num acorde modal. – Toque. Eu lhe acompanho.
(Empire Star, trad. BT)
 
À maneira típica de Delany, vários conceitos estão expostos de forma entrelaçada nesse trecho: o esboço rápido das relações econômicas do Império interplanetário, a dominação de uma raça por outra, o conceito aparentemente contraditório de que um escravo é protegido pela tristeza que desperta nos outros (o que os trancafia na esfera do “não quero pensar nisso”); e o uso da música como fator de equilíbrio ou tentativa de comunicação. Sem falar no nome da raça escravizada – os “Lll”, um nome impronunciável, um conceito que (do ponto de vista do leitor, que neste momento é o mais “alienígena” de todos) pode ser lido mas não pode ser compartilhado em voz alta. 
 
A tristeza pode ser revelada através do canto, como no pretinho de Sagarana, pode ser provocada nos outros através do canto, como no conto de Mark Twain, e pode ser uma aura que, exalada telepaticamente (por assim dizer), pode ser atenuada pela música. 
 

 
(Samuel Delany, 1966)







segunda-feira, 18 de julho de 2022

4844) O livro como mercadoria (18.7.2022)



Comentei anos atrás, aqui neste blog-coluna, o livro de André Schiffrin O Negócio dos Livros – Como as Grandes Corporações Decidem o que Você Lê (Rio: Casa da Palavra, 2006, trad. Alexandre Martins).
 
Aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/02/2485-o-fim-do-livro-2022011.html
 
É basicamente um estudo de como as grandes editoras da Europa e dos EUA estão sendo gradualmente adquiridas e controladas por grupos que não estão nem ai para literatura ou para as artes, e querem usar o livro para alavancar a venda de outros produtos e a difusão de outras idéias.
 
(A situação atual do mundo é esta, gostemos ou não.)
 
Schiffrin nasceu na França, mudou-se para os EUA em 1941. Seu pai Jacques foi o criador da famosa Bibliothèque de la Pléiade, linha editorial francesa que publica aquelas edições chic de obras-completas em papel bíblia. (É uma forma rastaqüera de descrevê-la, diria Julio Silveira.) Nos EUA, André foi diretor da Pantheon Books e depois da The New Press, experiências que ele comenta em seu livro.
 
Aqui no Brasil, muitas grandes editoras surgiram como empreendimentos ao mesmo tempo comerciais (para ganhar dinheiro) e culturais (para debater idéias, fazer circular informações, dar acesso à vida cultural de outros povos, etc.). Muitas dessas editoras eram ligadas a grupos familiares: a família Machado na Editora Record, a família Prado na Ed. Brasilense, a família Lacerda na Ed. Nova Fronteira, a família Zahar na Ed. Zahar, e assim por diante.
 
Ou seja: as pessoas que tomavam as decisões moravam na cidade e estavam mergulhadas na vida social de sua cidade e seu país. Não eram executivos que moravam a 20 mil km da editora e muitas vezes sequer pisavam no país onde elas imprimiam seus livros.






Schiffrin diz que a tendência dessas editoras “familiares”, depois de adquiridas pelos grandes grupos internacionais, é mudar gradualmente sua linha editorial. Em vez de publicar (por exemplo) romances, contos, poesia, teatro, estudos históricos, estudos sociais, psicologia, etc., a ênfase se desloca gradualmente para livros de culinária, livros de turismo e viagens, biografias de celebridades, memórias de políticos, livros de moda, livros de auto-ajuda, livros de administração/negócios/vendas.
 
Publicam literatura? Sim. Basta um autor vender 1 milhão de cópias por outra editora e eles lhe caem em cima prometendo mundos e fundos. É como no futebol. É mais emocionante arrebatar a-peso-de-ouro o ídolo da empresa rival do que manter uma “escolinha” de autores para serem trabalhados a longo prazo.
 
Discutir isto me parece tão importante (do ponto de vista de quem escreve profissionalmente) quanto discutir a questão (também importantíssima, reconheço) “livro de papel X livro eletrônico”.
 
Porque se eu sou leitor de Fernando Pessoa, tanto se me faz lê-lo num volume impresso quanto no celular. Qual é o problema? Aqui no meu modesto Samsung eu tenho Kafka, Leminski, Virginia Woolf, Darcy Ribeiro. O problema começa quando não houver Pessoa em nenhum dos dois formatos. E isso periga acontecer um dia – talvez não com a obra de Fernando Pessoa, mas com a obra de peixes-miúdos como eu e tantos outros.
 
Algum tempo atrás compartilhei nas redes sociais uma postagem onde Octavio Aragão reproduzia um depoimento do editor Rogério de Campos (transcrevo a postagem, não sei indicar a fonte original do texto):
 
Rogério de Campos: "Por outro lado, abundam nos postos de direção do mercado editorial pessoas que não têm qualquer interesse em livros. Donos de editoras que preferiam ser donos de construtoras, diretores de marketing que trabalham em grandes editoras porque não conseguiram uma vaga na Coca Cola, livreiros que gostariam de ser executivos em empresas de tecnologia, CEOs que dariam ótimos mecânicos (mas infelizmente não sabem disso). Gente que não lê livro algum além dos manuais técnicos de seus notebooks. Nas reuniões exibem seus novos smart clocks, falam com entusiasmo das novas empilhadeiras do estoque e da nova funcionária do RH, riem dos nerds da redação e reclamam com impaciência do mimimi dos autores. Porque não têm paciência com gente que escreve livro, que edita livro, que vende livro, que compra livro e que lê livro. São chefes infelizes de gente que se sente infeliz por tê-los como chefes."
 
Os comentários na minha postagem eram todos de confirmação, e muita gente dizia: “Na música também é assim”, “no meu trabalho também é assim”. E eu acredito que seja.
 
André Schiffrin usa o conceito de “censura do Mercado” para definir esta situação, um problema crescente a cada década que passa.
 
Assim como um Estado totalitário proíbe (ou sabota) tudo que vai de encontro a sua ideologia, seja ela qual for, a censura do Mercado proíbe (ou sabota) tudo quanto for de encontro à sua, que é a Ideologia do Lucro.
 
Poderíamos chamar de capitalistalinismo essa pressão devastadora de cima para baixo em que o objetivo de um livro não é proporcionar uma experiência pessoal, mas dar lucro. No final das contas, é “a Mão Bruta do Mercado”, que espreme cérebros para fazer gotejar cifrões.


(Norman Spinrad)
 
Não é de hoje. Numa entrevista do autor de ficção científica Norman Spinrad (autor de O Sonho de Ferro, The Void Captain’s Tale, No Direction Home etc) à revista Locus (fevereiro de 1999, # 457), ele já se queixava:
 
O que há de errado com a FC, em última análise, é o que há de errado com o capitalismo dos conglomerados de corporações, em seu aspecto editorial, porque em termos de quantos livros bons estão sendo escritos todos os anos não há problema nenhum. Nos últimos dez anos temos tido todos os anos cerca de 20 a 30 livros entre bons e excelentes, e ninguém pode se queixar. O problema é que eles estão soterrados numa avalanche de porcaria cinicamente comercial. Existe uma disfunção no seio da indústria editorial, e isto acaba por afetar o que os escritores produzem.
 
Os escritores se desenvolvem sob intensa pressão editorial, de uma maneira que certamente não é a melhor para o seu amadurecimento literário. Você não escreve os livros que genuinamente queria escrever: escreve os livros que está obrigado a entregar sob contrato. É de causar medo. A indústria editorial está hoje comandada por gente com cabeça exclusivamente de negócios. O poder está nas mãos das pessoas do dinheiro, e isso não é só no mercado do livro. Em geral, o pessoal que está no comando é o pessoal que faz cálculos na ponta do lápis. Eles estão distanciados das qualidades inerentes ao produto, e não conseguem ver nele outra coisa senão um produto. É por isso que, mesmo quando eles seguem a cartilha da Harvard School of Economics, a indústria editorial não está indo nada bem. É possível, sim, ir à falência por ter subestimado a inteligência do leitor americano! Publicar significa dar ao povo o acesso às coisas que ele quer ler, e talvez ajudar a produzir coisas melhores. Esta é a sua função social. E a indústria editorial não apenas está deixando de atingir este objetivo, como está trabalhando contra ele. (trad. BT)
 
Vejam só, isto é de 23 anos atrás. Em seu livro, André Schiffrin insiste várias vezes em lembrar que muitas linhas editoriais “culturais”, “literárias” não dão prejuízo, pelo contrário: dão lucros modestos, mas constantes. O problema é que os executivos lá do topo analisam as planilhas e concluem que aquele selo, com a “capacidade instalada” que tem, poderia dar lucros 3 ou 4 vezes maiores, se publicasse outro tipo de livro. E é nisso que dão com os burros nágua.
 
Diz Schiffrin:
 
Durante muitos anos, os livros da Vintage, ainda em seu formato menor, custavam em média 1,95 dólar. Aumentando ligeiramente o tamanho dos livros, a Vintage elevou seus preços para dez dólares ou mais. Eu me lembro de, na época, argumentar que isso iria reduzir muito o número de pessoas dispostas a comprar os novos livros da Vintage. Disseram: “Você talvez esteja certo, mas os dólares continuarão os mesmos”. Essa frase me pareceu o marco da transição da velha ideologia para a nova. A idéia de que um livro devia ser barato para atingir o maior público possível estava sendo substituída por decisões contábeis, preocupadas apenas com o total recebido. Não era apenas uma questão de ganhar dinheiro ou evitar perdas – o catálogo da Vintage, composto pelos melhores títulos dos catálogos de Random House, Knopf e Pantheon, já garantia um substancial lucro anual. A regra passara a ser que o lucro por livro tinha de ser o maior possível.

 
É um processo lento mas constante. 

Diz Schiffrin que “na década de 1950 Londres tinha cerca de duzentas editoras significativas. Hoje [2000] há menos de trinta.” 

Um cálculo parecido com o de Samuel R. Delany em About Writing (Wesleyan University Press, 3005), numa entrevista concedida em 1998:
 
O fato é que em ’79 cerca de oitenta editoras independentes floresciam em New York City. Hoje, dependendo do critério que se adote para calcular, há somente nove. Algumas mudanças simplesmente catastróficas deram um novo formato à matriz do mercado da edição norte-americana em geral, nos últimos vinte anos. (trad. BT)
 
É um movimento lento, geológico, mas que não exclui o surgimento incessante daquilo que mantém a cultura viva e renovada: as muitas pequenas editoras, as muitas pequenas livrarias, os muitos pequenos autores.   
 
 
 
 
 





sexta-feira, 24 de setembro de 2021

4747) A linguagem da ficção científica (24.9.2021)



Samuel R. Delany descreve a ficção científica como um gênero literário onde as frases podem (e devem) ser lidas ao pé da letra.
 
Na literatura mainstream, quando um personagem diz: “Meu mundo foi destruído”, o leitor entende que a vida do cara se desestruturou por completo, perdeu o referencial; que as suas certezas desmoronaram, ele ficou sem parâmetros, etc. etc. Na FC, o leitor entende que um planeta explodiu, que sua população foi dizimada por bombas atômicas, etc. etc.
 
Isto é, aliás, um dos problemas de quando se dá um livro da FC para um tradutor que não tem familiaridade com o gênero. O tradutor está acostumado a ler frases como “meu mundo foi destruído” num sentido metafórico, e muitas vezes tem dificuldade em aceitar que o autor está querendo dizer aquilo literalmente.
 
Lembro uma conversa por telefone que tive com o saudoso José Sanz, tradutor e militante da ficção científica. Ele esbravejava (era o jeito dele) contra a tradução que fizeram de um livro de Philip K. Dick, em que um personagem vivia duas realidades paralelas, e o tradutor deu uma aconchambrada no texto, para que o texto “fizesse sentido” e tudo aquilo acontecesse no mesmo mundo – o que na história, é claro, não fazia o menor sentido.
 
Delany cita com deleite o exemplo clássico de uma história de Robert Heinlein, que dizia a certa altura: “The door dilated”. A porta se dilatou. Muitos filmes e contos de FC nos acostumaram com a idéia de portas que são aberturas (redondas, quadradas, etc.) na parede, que aumentam ou diminuem de tamanho, como o diafragma de uma máquina fotográfica.

 
Outro exemplo: em inglês existe o verbo “two-time” que significa ser infiel, trair a esposa ou o marido. “She was two-timing her husband.” O escritor inglês Bob Shaw tirou desse modo de falar coloquial uma história de FC, simplesmente levando ao pé da letra a expressão. The Two Timers (1968) é um romance em que um homem mata a esposa, que o estava traindo. Mas logo em seguida aparece um “duplo” seu, vindo de um universo paralelo, que tenta evitar o crime.
 
Certamente Bob Shaw leu a expressão “dois-tempos” num texto qualquer, ergueu os olhos da página e pensou: “Arrá!  Adultério... Crime... Tempos paralelos...”
 
É possível extrair idéias de FC simplesmente levando ao pé da letra expressões que todo mundo usa num sentido metafórico.



Os críticos inventaram a expressão “Space Opera” para designar as histórias de guerras e aventuras interplanetárias, no estilo de “Star Wars”. A ninguém ocorreu levar esse rótulo ao pé da letra, até que Jack Vance publicasse Space Opera (1965), a história de uma enorme espaçonave que viaja por entre os planetas, levando consigo uma companhia itinerante de ópera, com todos os seus barítonos e contraltos, seus cenários, sua orquestra...
 
Quando um texto de FC diz que apareceu na porta um homem de duas cabeças, não está se referindo a alguém com dupla personalidade. É um homem com duas cabeças físicas, com dois crânios, dois rostos, etc.  (Ainda estou pra ver uma história BOA de ficção científica em que apareça gente de duas cabeças; mas não é de qualidade que estamos falando.)



E de repente estou eu, aqui, lendo uma coletânea de contos de Shirley Jackson, uma grande escritora de histórias fantásticas (Hill House, “The Lottery” e outras) mas que nunca se aventurou pela ficção científica.
 
O conto chama-se “After you, my dear Alphonse” (1943) e foi publicado originalmente na revista The New Yorker. Em sua primeira frase, diz assim:
 
Mrs. Wilson was just talking the gingerbread out of the oven...
 
“Que bacana”, pensei. “A sra. Wilson estava convencendo o pão-de-mel a sair do forno...” 

Uma idéia interessante de ficção científica, não muito distante (e uma precursora, sem dúvida) daqueles contos de Philip K. Dick em que existem objetos falantes dentro da aparelhagem doméstica.
 
Há uma história de Dick que começa com o personagem acordando e recebendo o aviso de que seu condomínio está vencido. Ele troca de roupa para ir trabalhar, e a maçaneta da porta se recusa a abrir. Ele pragueja, e a maçaneta responde algo como:
 
– Mr. Smith, o senhor encontra-se em débito no pagamento dos encargos do condomínio. Enquanto o senhor não estiver regularizando esta situação, o apartamento permanecerá bloqueado.
 
– Ora que diabo! – exclama ele. – Como vou poder pagar, se não posso sair para trabalhar?!
 
E o pobre Smith fica ali, discutindo com uma maçaneta.
 
Tudo isto passou pela minha mente durante oito ou dez segundos, até que baixei de novo os olhos para a página e li:
 
Mrs. Wilson was just taking the gingerbread out of the oven...
 
Era “taking”, e não “talking”. A sra. Wilson estava tirando o pão-de-mel do forno.
 
Jorge Luís Borges dizia que cada gênero literário constrói um tipo novo de leitor, um tipo de leitor preparado (treinado, adestrado, amestrado, lavagem-cerebralizado) para ler aquele tipo de história. O conto policial, dizia ele, produziu o leitor desconfiado, o leitor que sabe que aquele escritor está tentando enganá-lo, está tentando evitar que ele descubra a verdade antes do capítulo final. E essa é a graça do gênero.
 
A ficção científica produziu esse leitor capaz de aceitar ao pé da letra uma imagem metafórica e imaginar cenas reais a partir delas.
 
“Furioso, ele fuzilou o patrão com os olhos.”
 
“O horizonte estava rubro com o nascer do sol.”
 
“Naquela tarde, fui convidado a tomar chá e conversar sobre literatura com os imortais.”
 
“Desculpa não ter te ligado, ontem à noite deu um bug na minha cabeça.”
 
“Meu filho vive no mundo da lua.”
 
“Nossa vizinhança anda cheia de alienígenas.”
 
“Sinto que eu e você somos uma pessoa só.”
 
As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
 
 




sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

4659) Leituras de 2020 - parte 3 (1.1.2021)




Jorge Luis Borges dizia que só devemos ler por prazer, e se a leitura de um livro, mesmo o mais respeitável clássico, nos entedia, devemos largá-lo e pegar outro. Isso serve para o que chamo de leituras pessoais. Existem também as leituras de trabalho, os livros que preciso ler, goste ou não. Quando estou pesquisando algum tema especificamente literário, não me basta ler sobre o autor, preciso ler o que ele escreveu, por pior que seja.
 
Existem livros cuja leitura flui, e outros que não. Há livros que já peguei para ler mais de dez vezes, ao longo dos anos, e não consegui. São ruins? Não, muitos deles são clássicos da literatura, obras-primas indiscutíveis. Outros são de meus autores preferidos, mas cuja escrita, nesse título especificamente, não conseguiu me arrastar.
 
Outros são de amigos, e nada nos deixa com mais remorsos do que tentar ler o livro de um amigo e não conseguir. (Imagino que meus próprios livros já proporcionaram a alguém essa frustração; peço desculpas, e compreendo.)
 
Abaixo, comento alguns dos livros lidos em 2020 cuja leitura fluiu sem problemas. Outra coisa: nas minhas anotações, computo apenas os livros que li do começo ao fim. Mesmo livro de contos, artigos, poemas, etc., se só li uma parte, não anoto.


Peguei, apenas para consultar, as Memories and Adventures (1924) de Sir Arthur Conan Doyle. Um dos meus autores preferidos, e um livro que eu tinha há mais de vinte anos e até agora tinha achado a leitura chata. Desta vez, durante a consulta, acabei voltando ao início e não parei mais. Doyle é um inglesão à moda antiga, sólido, prático, patriota, tradicional. No livro, comenta várias de suas obras; repito que seus romances históricos e de FC são literariamente superiores aos livros de Sherlock Holmes.
 
Doyle comenta a certa altura que havia o hábito de serializar romances nas revistas semanais ou mensais, mas o lado negativo disso era que quando o leitor perdia um número ficava com uma lacuna na leitura. Ele considera ter sido o primeiro autor (e The Strand o primeiro periódico) a utilizar de forma deliberada o formato da série de aventuras semelhantes com um mesmo personagem, onde cada publicação contém uma história completa em si – o que ele e a revista puseram em prática a partir de 1887, com as aventuras de Sherlock e Watson.


Outra autora favorita é Ursula Le Guin, de quem li este ano dois títulos. The Other Wind (2001) é o quinto volume da série “Earthsea” a respeito deste arquipélago e da escola de magos de Roke Island. É um romance crepuscular, o último da série, pelo que entendo, em que os Magos e os Dragões de Terramar têm que firmar um pacto que envolve a aceitação da morte. Tales of Earthsea (2001) contém cinco histórias com episódios variados do ciclo, abrindo com “The Finder”, uma notável noveleta descrevendo como foi fundada a escola dos Magos, em Roke.


De outro autor que admiro muito, Stanislaw Lem, li o livro de memórias Highcastle: a Remembrance (1966), centrado na sua infância. Lem é um dos autores mais intelectuais da FC e está para a Polônia assim como Borges está para a Argentina. Sua obra gigantesca é parcialmente traduzida em inglês, e só uma dúzia de romances em português. Highcastle mostra a vidinha comum de um garoto de classe média em Lvov. São especialmente ácidos os seus comentários sobre as preparações militares dos adolescentes poloneses, ensaiando ordem-unida e exercícios militares com bastões em vez de rifles, até a invasão nazista em 1939.
 
Lem fala pouco sobre ficção científica (sobre a qual ele discorre longamente em coletâneas de ensaios como Microworlds (1984). Seu retrato de infância e adolescência entre-guerras é cheio de percepções sagazes e mostram como funciona sua mente observadora, metódica, ousada, ao mesmo tempo de grande objetividade e grande imaginação.



Por falar em ciência, uma leitura importante foi a de Sapiens (2012) de Yuval Harari, um best-seller recente que vem na linha dos grandes livros de Carl Sagan, Arthur C. Clarke ou Fritz Kahn (cujo O Livro da Natureza iluminou meus verdes anos). Harari dá uma geral na evolução da humanidade, e é muito importante a Parte 1, sobre a Revolução Cognitiva. O modo como a espécie humana criou os softwares de interpretação e modelagem da realidade, acompanhado pela linguagem, é uma coisa espantosa. A gente fala no Fogo, na Roda, etc., mas essa revolução que não deixou rastros físicos diretos foi a coisa mais fascinante.
 
O livro poderia se chamar “História da Inteligência Humana”, porque Harari expõe, com linguagem clara e simples, o quanto a civilização é uma ficção coletiva. Ele fala nas ficções jurídicas, nas ficções financeiras, nas ficções ideológicas, nas ficções empresariais. Nada disso tem existência concreta além das ações das pessoas que acreditam nelas. A civilização é um simples conjunto de narrativas (o termo está meio batido hoje; quem tiver um melhor, traga).
 
Na verdade, vivemos numa Matrix que não tem existência física, mas cuja existência abstrata é consenso de bilhões de pessoas que acreditam em Deus, em democracia, em dólar, em amor, em arte, em indivíduo... Alucinações coletivas (diria Philip K. Dick); Harari louva a capacidade do ser humano em “transmitir grandes quantidades de informação sobre coisas que não existem de fato, tais como espíritos tribais, nações, companhias de responsabilidade limitada e direitos humanos”.


Um romance de ficção científica que me impressionou foi Triton (1976) de Samuel R. Delany, um dos meus autores favoritos. Ele tem o subtítulo “Uma Heterotopia Ambígua”, e a ação transcorre quase toda numa lua de Júpiter, colonizada artificialmente, durante uma época de guerra.
 
Bron Hellstrom, o protagonista, é um funcionário mediano na administração local e se envolve com um grupo vanguardista de teatro-de-rua comandado por Spike, uma jovem atriz e dramaturga. Do encontro dos dois começam a sair fagulhas, porque acompanhando as ações de Bron durante as quase 400 páginas do livro vemos o delineamento da personalidade de um sujeito egocêntrico, determinado, inseguro, ousado, bem intencionado, catastroficamente desastroso em seus relacionamentos interpessoais.
 
Delany descreve com a riqueza de detalhes habitual a vida nessa ambiente high-tech, os hábitos, as roupas, as comidas, as práticas cotidianas: seus livros têm uma atenção sociológica constante ao recriar um mundo onde, aliás, as pessoas fazem cirurgias transexuais como nós aqui fazemos uma tatuagem.



Li alguns romances policiais importantes neste ano. Entre eles, um clássico que há anos eu tinha na fila: Death From a Top Hat (1938) de Clayton Rawson, um dos mestres do “crime impossível”. É o romance de estréia de Rawson e tornou-se um clássico, por ser o livro que explorou de maneira mais complexa (e cheia de reviravoltas inesperadas) a proximidade entre o romance policial e a magia de palco, com seus truques mecânicos e suas ilusões perceptivas.
 
Rawson introduziu neste livro O Grande Merlini, um mágico novaiorquino que se torna detetive para competir com criminosos que – no presente caso – estão assassinando os participantes de uma “grande noite” promovida pela Society of American Magicians. Não preciso dizer que cada um dos crimes é cometido da maneira mais complexa possível, bem ao estilo de Ellery Queen, John Dickson Carr e outros clássicos daquela época. O romance é uma antologia de efeitos e de truques; literariamente, talvez Rawson funcione melhor no âmbito do conto, onde suas idéias espantosamente simples e originais têm um impacto mais nítido, numa trama única e compacta que o leitor tem condições de visualizar.
 
Matei este ano a saudade de um dos escritores que mais gosto, Fredric Brown, que hoje parece ser mais conhecido pela sua ficção científica (sempre rápida, satírica, cheia de sacadas leves mas brilhantes) do que pelos seus romances policiais sempre ótimos.


É o caso de The Screaming Mimi (1949), um belo passeio pelo submundo de Chicago, por onde o repórter William Sweeney vagueia procurando um serial killer. A pista principal é uma estatueta de uma mulher gritando de terror, a “Mimi” do título. Sweeney é um desses detetives por conta própria capazes de se meter em confusões que um policial de uniforme evitaria a todo custo. O melhor, aqui, é o realismo sem-nonsense com que Brown descreve todas as peripécias e todos os ambientes da investigação, mesmo que pareçam absurdos às vezes. O clímax tem uma reviravolta de enredo típica de Brown, e um desfecho notável em que Sweeney, desarmado, precisa ficar falando durante horas diante do assassino para evitar ser morto.


Ainda melhor do que este é Madball (1953), onde Fredric Brown volta ao ambiente dos carnivals, aquele misto de circo e de parque-de-diversões ambulante tipicamente norte-americano. Numa narrativa em que cada capítulo salta para o ponto de vista de um personagem diferente, vemos os crimes violentos e os conflitos de interesse entre artistas, técnicos, agregados, cartomantes, dançarinas e toda a fauna humana de um carnival. O enredo: antes do início da narrativa, dois membros do carnival praticaram um roubo enorme e esconderam o dinheiro nas instalações do parque ambulante; logo em seguida, sofreram um acidente de carro em que um deles morre e o outro escapa, mas logo é assassinado. Começa então a caça ao tesouro: em que local do parque eles esconderam a grana?
 
Num livrinho de 192 páginas, Brown comprime uma narrativa rápida, vívida, cheia de personagens banais e marcantes. As cenas de sexo são indiretas mas com sensualidade e malícia. O desenho dos personagens é de uma riqueza inesperada nesse tipo de pulp fiction, que oscila sempre na corda-bamba entre melodrama criminal exagerado e realismo psicológico.


(continua nas próximas postagens)
 
 
 
 
 







quarta-feira, 1 de julho de 2020

4595) A Palmatória do Mundo (1.7.2020)




É uma expressão que hoje se usa pouco, porque o objeto que a inspirou está meio obsoleto.

A palmatória era um artefato de madeira constando mais ou menos de um cabo longo e uma expansão achatada, que servia para fustigar sem pena as palmas das mãos dos alunos, nas escolas do Tempo do Ronca. 

Qualquer erro, o Mestre chamava o infrator para diante do quadro-negro, mandava às vezes que se ajoelhasse, estendesse as mãos abertas com as palmas para cima, segurava-lhe nos dedos com a mão esquerda, e com a direita pespegava-lhe na palma uma vigorosa pancada “de chapa” com o instrumento. Cada pancada era chamada “bolo”. 

O mestre cofiava o bigode e bradava: “Sr. Pompéia! Adiante-se! Doze bolos por essa insubordinação!”. E tome lapada.

Surgiu daí a expressão “Fulano só quer ser a Palmatória do Mundo” para designar as pessoas que passam a vida em busca de erros – dos outros. Em tese, fazem isso para tornar o mundo um lugar melhor. Maldo eu que é pelo prazer de bater em alguém – com o álibi de um motivo nobre.

É uma busca que nada tem com a busca de Dom Quixote, que saía mundo afora à procura de injustiças que pudesse consertar. A busca da Palmatória do Mundo é por alguém que possa ser punido, pouco importando no que a punição possa ou não resultar.

A palmatória é o instrumento de quem quer punir impunemente.


Sendo o mundo o que é, a grande maioria das condenações feitas pelas pessoas consideradas “palmatórias do mundo” acabam sendo de ordem moral: fulana é piranha, sicrano é veado, beltrano é drogado.

É sempre muito forte essa tendência à condenação de ordem moral. A Palmatória do Mundo pretende então ser a pessoa que castiga os que pecam, os que erram, os que fazem o mal.

Por extensão, no entanto, sua função é uma função de limpeza, de profilaxia. O erro precisa ser eliminado não porque implique em algo moralmente questionável, mas apenas porque indica uma dissensão, uma desafinação com o conjunto, um cadete de passo errado atrapalhando a simetria da tropa.


A Palmatória do Mundo é o raio uniformizador, nivelador, aplainador, o raio que pretende eliminar todas as protuberâncias e irregularidades, deixando todas as coisas ao mesmo nível, ou com o mesmo formato.

Essa mentalidade floresce em todo grupo social, até nos mais liberais, nos mais tolerantes, nos mais simpáticos com a excentricidade pessoal.

Uma vez, nos velhos tempos das roupas psicodélicas e dos cabelos exuberantes, falei a uma amiga que meu escritor preferido era Julio Cortázar. Quando mostrei uma foto dele, ela protestou: “Mas isso é um burguês! Um careta de paletó e gravata!”.  Não consegui convencê-la de que ele tinha uma imaginação fantástica, era um grande poeta, etc.  A verdade é que, naquela fase hirsuta da vida, a luta contra as gravatas não deixava muito espaço para a apreciação da poesia.


Lembrei disso, com emoção, ao ler o episódio do encontro de Cortázar com um bando de hippies na Alemanha, que narrei aqui:


Eu nunca tive uma predileção especial pelas roupas coloridas, que usei com prazer, e depois troquei por outras, assim como usei cabelo grande, e depois cortei. E amanhã posso pintar o cabelo de azul, e depois tirar a tinta, e depois raspar. O que tudo isso significava, para mim, era apenas a liberdade de fazer o que me desse vontade, com algo tão simples quanto uma roupa ou um cabelo.

Olha que eu não estava defendendo o nudismo em via pública, nem pintar o cabelo com tinta radioativa.



No meu mundo, pessoas de roupa esmulambada, colorida e cheirando a patchuli conviveriam pacificamente com pessoas de terno e gravata, e com pessoas usando bustiê e tapa-sexo. E mais: cada pessoa podia revezar todo dia esses trajes, e outros, conforme lhe desse na veneta.

Mas durante algum tempo tive pesadelos em que o país seria governado por uma Palmatória Hippie do Mundo, em que o paletó e a gravata fossem considerados subversivos, e todo mundo tivesse que se vestir, obrigatoriamente, igual a Serguei e Janis Joplin.

Quando estou lendo ficção científica, procuro ficar de olho no que as pessoas vestem no Planeta Omicron-77 ou no ano 2.543. Vestem terno e gravata? Vestem brusinha? Vestem regata? Vestem macacão de plástico metalizado e aquário transparente cobrindo a cabeça?




("Moda do Futuro", 1950)

Quem quiser um dia fazer um levantamento de roupas inesperadas na FC pode começar em livros (aliás muito bons sob outros aspectos) como Triton – An Ambiguous Heterotopia (1976) de Samuel R. Delany ou Ubik (1969) de Philip K. Dick (Ed. Aleph, SP).