A
telepatia é uma metáfora incompreendida, e a maneira mais rápida de não
compreender uma metáfora é trazê-la a-pulso para uma aplicação prática.
Telepatia
seria alguma espécie de comunhão mental à distância, experiência mental
compartilhada, uma fusão de duas mentes em que cada uma “vê” o que a outra está
pensando e sabe que está sendo vista, simetricamente, simultaneamente.
O
equivalente mental ao nosso insubstituível “olhos nos olhos”.
Shakespeare
se referia no soneto 116 (talvez o mais conhecido dele) a “the marriage of true minds”, a união das almas sinceras. Muita gente pensa que ele usava esse termo
“marriage” ao pé da letra, referia-se ao casamento. (Aqui entre nós, duvido
muito. O dramaturgo sempre navegou em águas conjugais turbulentas.)
Eu,
leitor de ficção científica, penso que o Bardo se referia, profeticamente, à
FC. Trago em meu apoio o testemunho de Rita Lee, também leitora de FC: “A gente
faz amor por telepatia”. Amor é um magnetismo primeiro mental, e depois físico.
A
FC, infelizmente, popularizou também um conceito simplório de telepatia, apenas para
facilitação de enredo. É o que eu chamo de “telepatia
telefônica” (“phone-call telepathy”), em que as pessoas “ligam” uma para a
outra e conversam normalmente como se estivessem se telefonando. Uma telepatia
dessa qualidade é sem dúvida uma mão-na-roda para um escritor que precisa narrar
aventuras, espionagens, perseguições, conflitos, conspirações...
Ou
mesmo conversas de comadres: “Oi,
Jéssica... Tás podendo falar agora?... Menina, você não sabe da maior!...” Ou
de latagões desocupados: “Fala Betão. Eu
não te disse que não se pode confiar em goleiro argentino?!”. Telepatia é
para isto?
Este
sub-gênero literário tem um clássico dos anos 1950, The Demolished Man (1953) de Alfred Bester, um livro em que Bester
inclusive fez várias experiências tipográficas (lembrando a poesia concreta)
para reproduzir o modo como as mensagens telepáticas fluem entre uma mente e
outra.
Há
neste livro uma cena no edifício onde os telepatas (uma percentagem pequena da
população) são descobertos e recrutados. O saguão está cheio de gente ansiosa
para ser examinada – todo mundo quer ser telepata, quer “desenvolver” esse
talento bruto. Há um certo tumulto enquanto os funcionários tentam atender todo
mundo. Então um rapaz, meio hesitante, em vez de se dirigir ao balcão caminha
para uma pequena porta no fundo do hall,
empurra receoso, entra... e é recebido com abraços pelos telepatas que estavam
enviando mensagens. “Se estiver ouvindo
isto, vá para a porta verde no fundo do hall”. Era o bastante.
Este
processo lembra um processo parecido que ocorreu no Vale do Silício. O
recrutamento de funcionários para uma empresa (creio que era o Google) era
através de enormes outdoors com um
criptograma. Bastava fotografar o cartaz e resolver o criptograma, o qual
fornecia o número para onde ligar e a senha a ser fornecida.
Ou
seja: quando se está à procura de pessoas com percepção “diferenciada”, basta
gerar uma mensagem pública que só pode ser captada e entendida por pessoas
assim.
Um
clássico da telepatia nos anos 1960 é Dying
Inside (1972) de Robert Silverberg, a história de David Lustig, um cara
capaz de ler o pensamento de qualquer pessoa. Sua vida acaba sendo uma história
de frustração e angústia. Lustig é incapaz de realizar qualquer coisa, vive
parasitariamente espreitando os sentimentos alheios e metendo-se em pequenas
confusões. Publiquei este livro, com o título Uma Pequena Morte, na série Rama, que editei para a Editora 34, com
excelente tradução de Ivanir Calado.
O
que torna uma pessoa um telepata? Na literatura, atribui-se em geral a uma
mutação aleatória, ou mutação desenvolvida em laboratórios, uma espécie de
talento que pode ser transplantado tecnicamente para uma mente adulta.
Ou
não: o imprevisível e genial R. A. Lafferty tem um conto (“A Special Condition
in Summit City”, 1972) onde ele parte da premissa contrária. Todos somos
telepatas, diz ele. Toda mente humana nasce com essa capacidade (transmitir e
receber pensamentos), mas a evolução da linguagem falada trouxe uma concorrência
inesperada e avassaladora. Ganhamos o dom (também utilíssimo) da fala
articulada... e perdemos a telepatia.
A
pulp fiction escrita em francês foi,
curiosamente, a minha porta de entrada para a ficção científica, muito mais do
que a dos EUA. Eram os livros da saudosa “Série Futurâmica”, das Edições de
Ouro, onde entre outros autores de quem não sei muita coisa pontificava um tal
de B. R. Bruss. Seu romance Bihil (1961)
saiu no Brasil por outra coleção, a “Cosmonauta” da Editora Vecchi, sob o
título “O Grande Ser”.
Não
tenho o livro à mão, mas o reli muitas vezes na adolescência. Há uma guerra
interplanetária, ao estilo habitual da space
opera, uma guerra em que os Troims são os vilões e os Rohrs são os
mocinhos. Os Rohrs desenvolveram a telepatia, que usam nesse estilo de
“chamadas telefônicas”, para trocar informações e idéias.
A
certa altura, uma moça dos Rohrs é sequestrada pelos Troims, que desejam
extrair informações dela, e a submetem a tortura. E um grupo de Rohrs, durante
essas horas, entra em contato telepático com ela enquanto está sendo torturada.
Eles experimentam toda a dor que ela está sentindo; mas ela, embora não fique
livre da dor física, sente a presença e as “vozes” de apoio dos companheiros. E
sobrevive.
Uma
utilização parecida é a de John Brunner em Telepathist
(1964; também publicado sob o título The
Whole Man). É a história de Gerry Howson, um indivíduo com deficiência
física, compensada com uma capacidade telepática fora do comum. O livro foi
montado a partir de uma série de contos, e mostra diferentes episódios na vida
de Howson em que ele acessa a mente de outras pessoas para curá-las de um
distúrbio psíquico qualquer.
A
“telepatia telefônica” ingênua das histórias mais antigas foi sendo
gradualmente substituída por situações
mais arriscadas. Em Uma Pequena Morte,
David Selig tem uma experiência terrível quando está ao lado de sua namorada
durante uma viagem de LSD; sem querer tomar a droga, ele depois não resiste a
“uma espiadinha” na mente dela, e vê-se invadido por um tsunami de imagens e
sensações que não entende e que não pode conter.
Num
artigo sobre Christopher Evans, cientista que pesquisava a “percepção
extra-sensorial” (ESP), leitor de ficção científica e amigo de J. G. Ballard,
Mike Holliday afirma que Evans discordava do modo como a ESP vinha sendo
investigada em sua época. Para ele, os cientistas “viam o paranormal como uma
mera variante do normal, uma extensão do nosso mundo familiar, cotidiano, de um
modo que lembrava as tentativas do Dr. Duncan MacDougall de provar a existência
da alma pesando-a numa balança”.
A
ciência tem lá seus métodos e seus problemas. Já a literatura, se não consegue
realizar a telepatia em termos práticos, consegue na página escrita produzir o
monólogo interior, o fluxo de consciência, o discurso livre indireto, a
narrativa polifônica... e tudo isto nos abre caminhos para entender o modo como
a mente age. Enquanto não conseguimos fotografá-la por dentro.
Hoje
ele veio bater de novo aqui na minha porta. A culpa é minha, que em abril do ano
passado comprei a ele um sagüim que sabia ler.
--
Ele só lê em português, mas está estudando outras línguas – tinha dito o
misera, todo confiado, depois que fiz o teste.
--
Eu não preciso de ninguém que leia em inglês, português basta – respondi,
mordendo a isca dele. Naquela época eu tinha mais dinheiro, entrava em qualquer
conversa só pra ver no que ia dar . – Mas estou ficando velho e meus óculos não
prestam mais.
--
Eu tenho um oculista caso o senhor precise – disse ele. – É meu sobrinho,
recém-formado, tem um consultório em Del Castilho.
--
Não, obrigado – disse eu. – Aceita cartão?
--
Depende da bandeira.
Depende
da bandeira o cacete, era cartão Visa, e pela cara dele, os dentes, a camisa
puída, ele aceitava até cartão de visita. Mas era esperto, era do ramo, ganhou
na conversa, e na hora de passar o cartão na maquininha eu já estava com Siegfried
encarapitado no meu ombro esquerdo.
Sim,
antes ele fez um teste. Não era dos mais difíceis, reconheço, e na verdade,
pensando retrospectivamente, não passava de um número bem ensaiado entre ele e
o animal. Ele desdobrou do bolso uma folha de papel toda amarrotada, com um
texto impresso, abriu na frente de Siegfried, e mandou ler.
E
ele leu, em voz alta, porque, pensando bem, ler para si mesmo, sem nenhuma
manifestação externa, qualquer um lê, não é verdade?
Por
exemplo, meu vizinho de apartamento, seu Natércio, passa a manhã inteira no
sofá da recepção, com o jornal aberto, a testa franzida, e uma cara de quem
fiscaliza a política internacional. Ele usa aqueles óculos pendurados ao
pescoço com um cordãozinho verde e amarelo.
--
Bom dia, seu Natércio.
Ele
olha por cima dos óculos e quando está de bom humor concorda, com um leve
movimento da cabeça. Não me distraia, parece estar dizendo. Se eu me
desconcentrar na leitura, o mundo vem abaixo.
Pergunte
a seu Natércio se ele está lendo o Globo ou o Extra, duvido que ele saiba a
diferença. Que aliás não é muito grande.
Pois
bem: o bichinho lia em voz alta, grasnando com aquela voz fanhosa e fininha,
voz que saía daquela laringe mais estreita do que uma caneta Bic. Não posso
reproduzir aqui o texto, mas acho que eram salmos da Bíblia, que ele lia
disciplinadamente, com aplicação. Fazia as pausas corretas tanto na vírgula
quanto no ponto-parágrafo. Numa frase interrogativa, hesitava um pouco, creio
que conferindo a pontuação final, e quando começava a dizer já se direcionava
para a entonação correta. Em suma: não resisti.
--
Quanto é?...
O
sujeito negaceou, fez preparativos psicológicos, acabou me propondo uma cifra
que equivalia a três meses do meu aluguel, acabou deixando por um mês e meio,
parcelado em quatro. Me entregou uma folha A4 plastificada, encimada pelo título
CUIDADOS NECESSÁRIOS onde havia recomendações de alimentação, dormida, instruções
de higiene; e um cartão de vacinação todo preenchidozinho.
Paguei,
apertamos as mãos, ambos agradecemos, e ele foi para o elevador. Fechei minha
porta devagar, esperando que ele se despedisse de Siegfried, mas a verdade é
que o comércio estiola os sentimentos das pessoas. O povo hoje em dia só pensa
em dinheiro. Somos números e nada mais.
E
desde então tenho companhia, porque a verdade é que um velho de quase oitenta
anos não pode morar sozinho. A gente precisa ter alguém com quem conversar, com
quem reclamar da carestia e da temperatura, com quem desabafar diante da
incompetência dos governantes e da inapetência dos governados. O mundo hoje em
dia só pensa em política.
A
vantagem-bônus de Siegfried (descobri logo no primeiro dia de convivência) é
que ele era, sim, capaz de ler com correção qualquer tipo de texto; mas não
falava por iniciativa própria, ficava na dele, modestamente, trepado numa
prateleira ou no encosto da poltrona (logo selecionado como seu lugar
favorito). Nada dizia. Nada perguntava. Nada comentava. Mas respondia, a seu
modo, quando eu mandava um prompt qualquer.
--
Siegfried, e a eleição que vem por aí, você acha que a democracia tem chances?...
--
Nunca mais.
(Estou
brincando, é claro. Piada de intelectual. O que ele disse foi: “Não senhor”.)
Nas
primeiras horas após a aquisição mergulhei num raro frenesi de atividades
domésticas. Separei um canto na área de serviço (que felizmente é bem ampla,
parece um terraço), improvisei ali, com caixas de papelão vazias, um pequeno
habitat: quatro cubos sem quarta-parede, superpostos dois a dois, forrados com
jornal e panos-de-chão recém-lavados. Botei pratinho, bandeja com frutas,
lixeirazinha do lado (onde ele juntava as cascas e caroços depois de comer,
algo que me maravilhou mais do que a leitura dos salmos de Davi). Panelinha com
água, e um canequinho de ágata que antigamente eu usava para tomar cachaça, e
que ele ignorou solenemente.
Foi
um dia atarefado e feliz. Velho morando sozinho já é uma monotonia; pior ainda
quando é um velho que lê e maratona séries o dia inteiro. Interrompi a terceira
temporada de Dark Winds, a sexta de Jovem Sheldon, a terceira de A Diplomata, a quinta de Black Mirror, a terceira de Slow Horses... Passei aqueles primeiros
dias numa espécie de lua-de-mel zoológica com aquela inesperada aquisição.
Claro
que refiz os testes de leitura. Não sou um papalvo, não sou um mané. Sempre
considero a possibilidade de estar sendo feito de otário por alguém mais
esperto do que eu – alguém cujo nome é Legião, porque são muitos.
--
Siegfried, leia isto aqui.
Sentado
no braço da poltrona, ele espichava o pescocinho para a frente, no gesto
inconsciente de todo míope (gesto que ele rapidamente copiou de mim, o que me
enterneceu), e lia.
Outra
coisa que me encantou foi que ele apontava com o dedinho indicador as palavras,
à medida que as dizia em voz alta, e aquilo me garantiu que ele estava lendo
mesmo.
Ler
o papel fornecido pelo vendedor poderia ser mero treino, não é verdade? Mas
quando abri ao acaso meu Invenção de Orfeu ele se saiu muito bem, se descontarmos o fato
de que antes da sexta estrofe ele anunciou: “Vi”, e que depois pronunciou
errado um adjetivo pouco usual. Quantos universitários de hoje em dia seriam
capazes de fazer melhor, pergunto eu?
É
inverno, acostumei-me a ficar na cama, embaixo dos edredons, com o laptop
ligado, e Siegfried lendo alto, postado diante da telinha, numa pose de
aborígine rezando diante de Uluru.
E
hoje de manhã ele estava me lendo Memórias
do Cárcere (são quatro volumes, não tenho paciência), quando a campainha
tocou. Levantei-me praguejando e fui atender.
Era
o cara. Estava mais magro, a camisa mais puída. Forçou um sorriso falsamente
satisfeito ao me avistar.
--
Olha ele aí, um dos meus melhores clientes! – exclamou, cheio de blandície. –
Vim lhe trazer uma novidade, à sua escolha.
--
Não, obrigado – respondi, só olhando. – O que eu tenho já chega.
Percebi
a enormidade do problema. O cara trazia uma pasta de couro para documentos,
vestia um casaquinho de nylon mais aprumado. Mas trazia sagüins agarrados aos
ombros, às pernas, ao cinturão, num relance calculei por alto em uma dúzia
deles.
--
Estes aqui leem francês, respondem perguntas, dão conselhos, extraem raiz
quadrada, explicam mapas... Estão tendo muita saída, e me lembrei do senhor. São,
perdoe a expressão, uma Inteligência Biológica Coletiva.
Os
sagüins se agitavam, pulavam inquietos para o chão e dali pulavam de volta às
ilhargas do sujeito, olhavam para todos os lados com aqueles olhinhos pretos de
catita, me acenavam com mãozinhas trêmulas.
--
O senhor leva três e só paga dois.
Pois
é, não se recusa uma oferta irrecusável. E não me pergunte qual deles está
redigindo isto aqui.