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sábado, 30 de março de 2024

5047) A autob/i/ografia de Solha (30.3.2024)




Estou há meses com a autobiografia de W. J. Solha aqui em cima da mesa-de-centro da minha sala, que é uma espécie de sala-de-espera de Estação Rodoviária. Ali se aglomeram momentaneamente os tipos mais variados. Uns partem (=são lidos) logo, outros se demoram mais, por terem mais páginas, ou por precisarem de maior silêncio e concentração... Enfim. 
 
O livro de Solha tem se demorado por uma razão curiosa. É grande? Até que pode ser, em suas 346 páginas bem diagramadas pelas múltiplas e cuidadosas mãos da Editora Arribaçã. Quando o recebi, porém, achei pequeno. Talvez pequeno quando comparado ao tamanho Cinemascope da obra de Solha como escritor, poeta, artista plástico, ator... Se viesse um livro três ou quatro vezes maior, eu não me espantaria. 
 
Por outro lado, venho lendo esse livro há anos, porque Solha é um escrevedor compulsivo, como eu mesmo. Aquele indivíduo que pode até ser meio normal, mas vive com uma opressão no peito e só respira com alívio quando começa a digitar. Escrever é uma neurose benigna; alivia o peso da existência e realça o que dela se aproveita. 
 
Nos últimos anos, Solha tem publicado nas redes sociais (no Facebook, principalmente, onde o acompanho) inúmeros fragmentos desse livro, de tal modo que não é exagero dizer que todos os dias eu leio pelo menos uma página escrita por ele. E muitas dessas páginas (corri o polegar pelas folhas e constatei) estão distribuídas por esse livro. 
 
Para ficar no jargão moderno posso dizer então que é um “livro quântico”, ao mesmo tempo lido e não-lido. Leio com atenção no Facebook porque ali Solha (que é um devoto do texto e um devoto da imagem) ilustra com fartura os episódios que está narrando: com fotos do álbum pessoal, pinturas clássicas, cenas de filme, fotos de seus trabalhos, dos amigos, das pessoas citadas... 



(Solha em O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho) 

 
Ele lamentou não poder encher o livro de fotos, e aí dou razão aos editores: o livro ficaria imenso, e proibitivamente caro. 
 
Solha tem uma memória persistente, implacável, a memória dos que tentam tudo ver, tudo entender, tudo registrar, tudo explicar, tudo preservar para sempre. Esses impulsos utópicos de quem precisa conviver intimamente com a certeza da própria efemeridade física, e com a visão de um mundo tão cheio (apesar de tudo) de coisas que valem a pena. 
 
E, como dizia Julio Cortázar em O Jogo da Amarelinha: “A nostalgia de uma vida tão curta para tantas bibliotecas”. 
 
A lembrança de Cortázar não é gratuita, porque quando peguei o livro de Solha, em dezembro passado, tinha uma vaga idéia de uma narrativa linear que sei mais ou menos, por alto: o menino nascido em 1941 em Sorocaba; a infância e adolescência povoada de livros, filmes e desenhos; o concurso do Banco do Brasil; a vinda para Pombal, no sertão da Paraíba; o alumbramento de descobrir que o mundo é múltiplo e o Brasil é imprevisível; o mergulho no teatro e no cinema; a ida para João Pessoa... Enfim, algo como aquelas 3 ou 4 páginas de Cronologia que a gente sempre encontra nas obras dos escritores importantes. 


 
Era nesse tapete que eu estava pisando ao abrir o livro, e que foi puxado de sob os meus pés quando comecei a folhear as páginas. Na pág. 113, o autor está “no começo dos anos 1970”. Na página 44, ele está em 2009. Pulo para a pág. 275 e ele está em 1979. Na página 304, estamos em 1970. Na pág. 83, pulamos para 2020. 
 
Essa descoberta foi reveladora, porque eu raciocinei: “Aqui estão 100 ou 200 fragmentos de texto dos quais eu acho que já li metade, em ordem aleatória. Desse modo, não preciso ler o livro de A a Z, da primeira à última página, porque ele próprio me liberou da obrigação cronológica. É um livro não-linear, de acesso randômico.  Pode começar a ser lido do último fragmento para o primeiro, se eu entender assim.” 
 
Ou seja, tinha algo, sim, do Jogo da Amarelinha de Cortázar, romance construído como espinha-de-peixe, com uma avenida narrativa bem larga e bem central, cheia de transversais à direita e à esquerda, que podemos percorrer também, de acordo com a nossa veneta. Tinha algo de um dos meus preferidos, o Lugar Público (1968) de José Agrippino de Paula, que dizia textualmente: “A ordem do texto não me importa, posso começar um livro tanto pela primeira quanto pela última página, tanto faz”. 



(Solha em A Canga, de Marcus Vilar) 
 
O livro se intitula, oficialmente: Autob/i/ografia de Solha (Cajazeiras: Arribaçã, 2023). Acho que já vi umas linhas dele explicando essa grafia. Se está no livro, acabarei achando. Se foi no Facebook, babau-tia-chica, porque o Facebook é como o “Livro de Areia” de Jorge Luís Borges, se a gente perder de vista um trecho nunca mais encontra. 
 
No meu arquivo mnemônico interno, passei a lembrar do livro como: A/u/t/o/b/i/o/g/r/a/f/i/a de Solha, resgatando esse caráter fragmentário que acaba fazendo sentido. Ou talvez a intenção seja destacar o “I”, o Eu, no meio da palavra, porque Solha é paraibano, sim, e dentro de cada um de nós existe um Augusto dos Anjos e seus demônios. 
 
Já comentei aqui no Mundo Fantasmo vários livros anteriores de Solha; corro o risco de me repetir, mas me vem à memória o conselho de um amigo mais velho e mais experiente: “Não tenha pudor de repetir. O povo só escuta o que a gente repete.” Ler-de-novo é assoprar brasas. Me atrevo a afirmar: “Só entende um parágrafo quem o relê de vez em quando”. 
 
Estou avançando na leitura e saltando como bola de ping-pong entre a criação dos murais quase megalomaníacos que Solha pintou na Parahyba (mas todo mural não é megalomaníaco? todo filme? todo romance?) e as agruras do ator-produtor para pagar as dívidas do filme O Salário da Morte, rodado em Pombal; entre suas leituras juvenis de enciclopédias e coleções de fascículos, e suas emoções ao ver pela primeira vez, na Europa, em carne e osso, os quadros que o fascinaram quando garoto. 
 
Histórias de episódios cômicos, de polêmicas, de brigas políticas, de truculências sertanejas ou fidalguias literárias, episódios comoventes da vida familiar, as furiosas leituras religiosas de alguém que pensa em Deus o tempo todo (pensar o tempo todo é uma forma de acreditar?)... E acima de tudo esse desenho da memória que ricocheteia em todas as direções, como no famoso “movimento browniano” das moléculas de um gás num espaço fechado. As lembranças são como bolas de sinuca em movimento constante: a bola que a gente dispara sai batendo nas outras, que por sua vez batem nas mais próximas, que vão bater nas mais distantes... e não se avista o fim. 
 
E não se avista o fim. A mente-lembrança é um falso moto-contínuo, um mecanismo que nunca pára e que dá a impressão de produzir sua própria energia, mas na verdade esse mecanismo, a Mente, é alimentado por esta caldeira, o Corpo, que quanto mais velho fica mais energia parece ter. 



 
Eu estava abrindo o livro de Solha como se fosse um I-Ching, em página aleatória, e lendo aquilo em que o Acaso me fez tropeçar. É um bom método. Nunca falha com meus livros preferidos, que abro sem olhar, leio um trecho, guardo o livro na estante e vou viver meu dia, matutando. O que Solha escreve traz consigo essa intensidade de visão, de quem procura colocar em cada fragmento a totalidade do ser, a totalidade do vivido e do sentido e do imaginado. Cada episódio daqueles está pulsando, zumbindo; basta tocá-los com o olho. 
 
No entanto, resolvi mudar de método. Se o livro é feito de pedaços aleatórios, o fato de ler cada um deles aleatoriamente, ao invés de destacar esse aspecto, acaba por diluí-lo. Duas aleatoriedades se equilibram e de certo modo se anulam. A verdadeira experiência da aleatoriedade só pode ser percebida por quem a experimenta transversalmente, seguindo uma ordem “de-ferro” e submetendo-se ao ping-pong atemporal. 
 
E aqui vou eu, como no filme Je t’aime, je t’aime (1968, Alain Resnais) ou no seriado O Túnel do Tempo (1966-67, Irwin Allen), em que no fim de cada ação a máquina-do-tempo desarranjada nos projeta “em algum lugar do passado”, sem aviso prévio, sem conexão aparente. E ao experimentar esse zigue-zague, ao romper com a linha fatalista-de-tragédia-grega da cronologia, temos a sensação de estar fugindo ao arco-narrativo que termina sempre... daquele jeito.  
 
Viver (ou reviver) uma narrativa com cronologia estlhaçada nos dá a sensação de existir de verdade. Cada minuto tem a surpresa da vida real. Ser imortal numa existência cronológica seria um suplício; ser imortal numa existência de momentos aleatórios talvez fosse suportável. 
 
E lá vou eu voltar a ler o livro para poder resenhá-lo. 


 








sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

5021) Algumas leituras de 2023 - 3 (12.1.2024)

 

(Algumas leituras do ano passado, alguns dos livros que achei marcantes por variados motivos; sem nenhuma ordem especial. Como sempre, incluo apenas livros que li do começo ao fim. Se eu fosse incluir todos os livros bons que comecei mas não li por completo, não ia ter espaço que coubesse.)
 


 
O corpo encantado das ruas (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas
O Rio de Janeiro que me atrai, e que mais me ensina, não é o do Pão de Açúcar, é o da Pedra do Sal. O Rio se divide entre a Rua e o Resto. O que mantém coesa esta cidade partida é sua cultura das ruas, o caldeirão fumegante de heranças e memórias, o canjirão farto e compartilhado, de coração aberto, com quem compartilha de coração aberto. Esta coletânea de crônicas é um pequeno clássico contemporâneo, já em 12ª. edição; Simas é um dos que mexem nesse caldeirão, e sei que posso chamá-lo de “professor de rua”, no sentido em que existem “músicos de rua”. Trabalhando sem pausa na zona crepuscular entre a memória oral-familiar-grupal e o ensino formalizado pelas escolas e pelas editoras, Simas é um dos muitos operários da missão de explicar “uma cidade fundada para expulsar franceses que um dia resolveu ser francesa para esconder que é profundamente africana”. 
 
 


“Un episodio en la vida del pintor viajero” (2000), de Cesar Aira
Aqui no Rio de Janeiro há um fã-clube informal deste escritor argentino, mas todas as vezes que me aproximei em busca de informações fui gentilmente escorraçado sob o pretexto de ser um leigo total. Fico feliz em afirmar que tal obstáculo foi removido. Este livro curtinho e intenso relata (glosa, amplifica, interpreta) um evento trágico na vida do pintor Rugendas, muito conhecido aqui dos brasileiros, mas que também viajou pintando por toda a América Latina. Cruzando o pampa argentino, Rugendas sofreu um acidente com seu cavalo e ficou com o rosto totalmente despedaçado, sendo forçado a usar máscara e a tomar doses enormes de morfina e outros remédios. César Aira conta essa história como uma espécie de delírio psicodélico desse alemão que entrou para a História do Brasil. 
 



Lunário Encourado (Itatiaia, Ed. do Autor, 2022), de Adiel Luna
Adiel é violeiro, embolador de coco, enredador de rimas, mestre-pastor de palco embandeirado, e tudo o mais que se imaginar; inclusive autor deste livro que Pedro Américo, na contracapa, descreve como “uma narrativa com 20 cantos ou movimentos”. Numa série de poemas com formatações variadas, mas sempre dentro da prosódia sertaneja, ele constrói passo a passo a vida de um vaqueiro, usando com abundância a terminologia local. Tal como Elomar Figueira de Melo, tem a precaução de acompanhar tudo com um glossário em doses medidas, página a página. Mais que um longo poema, é uma longa suíte de canções de apartação, de vaquejada, de cavalo rompe-mato, de namoro e dança. Como diz o narrador a certa altura (p.79): “Meu branco, regule! Tem cousa que munta gente diz: não consta no mundo. Já ôto chega e dí: -- Consta no mundo!”. 



Nací (Je suis né) (2022), de Georges Perec
Todo ano faço minha romaria à obra de Perec e leio um livro que não conhecia ainda. Li este ano Nasci, na tradução espanhola (Anagrama, Barcelona). É livro póstumo (Perec morreu em 1982), reunindo material inédito e disperso. Alguns textos são textos preparatórios para sua memória W ou a Memória da Infância (1975). Há transcrição de uma carta dele a Maurice Nadeau (um dos historiadores do Surrealismo), na qual ele enumera os projetos em que trabalha na época (1969); uma entrevista a Frank Venaille, e outros artigos curtos sobre literatura e memórias. “Los lugares de uma fuga” narra na terceira pessoa um episódio em que um garoto (ele) foge de casa, mas só se lembra disso depois de adulto; é calmo e arrepiante. “El salto en paracaídas” é um longo monólogo de improviso (gravado ao vivo, numa reunião, em 1959) em que ele compara o lançamento de uma revista a um salto de paraquedas. 
 
 
 
A arte do nevoeiro indelével (Campina Grande, Papel da Palavra, 2023), de Maxwell F. D.
Tenho observado cada vez mais a convivência pacífica, principalmente nos livros dos novos poetas, entre o verso livre/branco e o verso metrificado/rimado. Desde que me entendo de gente vejo um dos dois convidando para a missa de 7º. dia do outro, e por sorte continuam vivos e bulindo. Como vivem e bolem neste livro de estréia de Maxwell F.D., onde as formas fixas convivem em paz com o verso solto, algumas brincadeiras gráficas e trocadilhísticas, mas sempre denotando algo essencial e que nem sempre está presente em quem publica livros: o gosto pela palavra, a curiosidade pela palavra, o sabor de manejar a palavra e indagar tudo que ela pode dizer: “a luz que tinha era pouca / bruxuleava a chama / donde a fumaça emana / onde há fumaça há fogo / então vou lá descobrir / cavar, olhar, confundir / ao deixar tudo desnudo / eu sem querer clareei / as incertezas do mundo”. 
 


 
Chêne et Chien (1937), de Raymond Queneau
Outra romaria anual me leva todo ano à obra de Raymond Queneau (1903-1976), o intelecto mais bem-humorado da literatura francesa, que tende a ser tão constipada. O título “Chêne et Chien” alude às palavras de que se origina seu nome de família: “carvalho” e “cachorro”.  O livro é descrito pelo autor como um “romance em versos”, e é uma espécie de autobiografia psicológica numa série de poemas de formatos variados: livres, metrificados, com e sem rima. Queneau reconta sua vida com auto-ironia, e há uma sequência de poemas em que ele se reporta aos seus anos de psicanálise, de forma impagável: “E vejam que esse sacripanta / quer me fazer pagar por estas sessões. (...) Eu, o doente, insisto / em julgar esse psicanalista: / é um sedento, um rapinante, / um pobretão ávido de lucro / uma ratazana cheia de audácia / um salteador de estradas!”. 
 



O irreal e a suspensão da credulidade (Arribaçã, 2023), de W. J. Solha
W. J. Solha é um poeta privilegiado, um sibarita das letras, pois (ele mesmo o confessa) sua enorme e excelente produção literária é bancada integralmente por um circunspecto funcionário público, o bancário Waldemar José Solha, a quem o Banco do Brasil muitos serviços deve. Sua série de poemas-livro, caudalosos, whitmanianos, faz uma espécie de recenseamento das correspondências, relações, filiações, ecos e diálogos entre a pintura, a religião, a poesia, a história... Tenho comentado todos eles em meu blog, e este aqui é mais uma catadupa de imagens, de descobertas, de premonições: “E a humanidade – sempre antevendo o apocalipse – se sente, agora, a um lapso de ser eliminada pela Inteligência Artificial, / como o Homo Sapiens fez com o / Neandertal. / É a Terra se encaminhando / a seu objetivo / final”. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4990-o-real-irreal-de-w-j-solha-9102023.html
 
 
 
Os gatos quando os dias passam (Ed. 34) – Thiago E
Livro de poemas com tema único é sempre um desafio arriscado. Sinto um livro de poemas como algo que vai aos poucos se ramificando em várias direções, ao invés de convergir para uma só. E atesto que Thiago Eh saiu-se com láureas dessa tarefa de encontrar novos dizeres e novas maneiras, em cada um desses poemas dedicados à raça alienígena que devagarinho está nos amansando. Como ele diz: “sem ser notado, um gato te acompanha / desde o parto – escondido pelo sangue / entre ombros e quadris em crescimento / fortaleceu alguns grupos de músculos /das pernas, do abdômen e dos braços / a fim de pôr teu corpo em quatro apoios / no chão, e assim brincar equilibrista / a criança descalça, hoje esquecida / que um felino lhe deu coordenação / quando bebê, enquanto nem podia / sequer supor o mais vago sentido / desta infantil palavra: engatinhar.” 
 


 
The Housekeeper and the Professor (2003), de Yoko Ogawa
Está sendo publicada aos poucos no Brasil a obra desta escritora japonesa. Ogawa tem uma forma oblíqua e interessante de contar suas histórias. Em muitos casos, elas abordam a relação entre uma mulher mais jovem e um homem mais velho, cada vez com diferentes dosagens de adoração, sadomasoquismo, vassalagem. Neste caso, uma governanta precisa cuidar de um cientista que sofreu um acidente e só lembra o que lhe aconteceu na última hora e meia. A dependência mútua entre eles cria uma afetividade gradual e distante, numa dinâmica relatada com voz impassível, e bruscas surpresas de vez em quando. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/10/4991-empregada-e-o-professor-12102023.html
 



Fábulas cabulosas e outras histórias subversivas (Rocco, 2022), de Henrique Rodrigues
O título dá uma idéia bastante próxima dessas historietas em que o autor revisita, da maneira irreverente, as mais conhecidas histórias infanto-juvenis, arrancando-as da noite aconchegante de seu contexto folclórico e trazendo-as, cara amassada, cabelo em desalinho, olhos piscando, para o meio-dia implacável do mundo atual. Atualizar histórias infantis tem sido um passatempo das décadas mais recentes, inclusive no campo da fantasia e do horror. Henrique Rodrigues as leva para o campo da crônica urbana atual, e as recheia com todo o linguajar (e conceitos) que atulham as redes sociais. De um lado temos Pinóquio, Branca de Neve, Pequeno Polegar e outros personagens, e de outro o jargão lacratório das redes: suas aventuras estão polvilhadas de “empoderamento”, “pertencimento”, “autoajuda”, “inclusivo”, “desconstrução”... O contraste entre arquétipos e clichês sempre rende boas risadas e boas reflexões. 
 

Transversais (Belém, Floresta Urbana, 2023), de Adriano Abbade
Uma das coisas que o Modernismo de cem anos atrás nos explicou foi que poesia lírica e registro prosaico podem ser complementares, fortalecendo-se mutuamente: a proximidade e o contraste faz ressaltar o que cada um tem de sensorial e de concreto. Adriano Abbade alterna poemas que lembram certas “notícias de jornal” de Bandeira ou Drummond, resgatando a beleza crua do banal da vida, e poemas de delicada percepção visual e sonora: “a poesia não está nesses versos / mas na cena que estes pretendem evocar / fim de tarde numa fazenda / generique miles davis a rolar / depois do vinho e da ganja / hae-mi levanta-se querendo dançar / despe o casaco / e a blusa branca / com as mãos cria uma ave /e tensiona com ela voar / seios beijando o vento / braços qual asa a planar / nua da cintura para cima / corpo de gaze aspirando ao luar / balé sem lastro / neste atordoante som / a leste cai a noite / em dourado azul neon.” 
 



Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), de Bruno Ribeiro
Um dos crimes mais cruéis da história recente da Paraíba? Pode ser, mas a concorrência a este título é tão grande que é preferível usar o termo consagrado junto à imprensa e ao público: “a Barbárie de Queimadas”. Em fevereiro de 2012, nessa cidade, um filho de uma família importante local ofereceu uma festa de aniversário ao irmão, e convidou algumas moças bonitas da cidade. O que elas não sabiam é que havia um “presente” para o aniversariante: no meio da noite, um bando de encapuzados invadiu a festa e começou uma longa sessão de estupros, de que o aniversariante e o organizador participaram. Duas das moças acabaram sendo mortas a tiros. Bruno Ribeiro usou este episódio para escrever uma reportagem corajosa (eu pelo menos não teria tido coragem de escrevê-la) sobre o mundo de hoje. 
Leia mais aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/09/4979-barbarie-de-queimadas-692023.html
 


Veja também:

Algumas Leituras de 2023 - parte 1

Algumas Leituras de 2023 - parte 2 


 






segunda-feira, 9 de outubro de 2023

4990) O real-irreal de W. J. Solha (9.10.2023)




W. J. Solha acaba de lançar O Irreal e a Suspensão da Credulidade (Cajazeiras: Arribaçã, 2023), o mais recente volume da sua série de poemas filosóficos, iniciada há alguns anos, e que andei resenhando aqui neste blog. Conheço o trabalho de Solha desde o tempo em que morava em Campina Grande; nossa amizade presencial tem tido proporcionalmente poucos encontros em carne e osso, se divididos pelo período de tempo. Ainda assim, é um diálogo dos mais compensadores, porque sou um dos beneficiários diretos de sua experiência existencial e literária.
 
Paulista radicado na Paraíba, Solha faz romance, poesia, pintura; é ator de cinema, ator e diretor de teatro (aposentado, diz ele – mas nunca acredite quando um ator diz que não sobe mais no palco); libretista de ópera; e acho que tem mais prêmios do que eu tenho títulos publicados. Com inteiro merecimento, porque é uma avalanche de criatividade.
 
O Irreal e a Suspensão da Credulidade é um volume fininho (menos de 100 páginas) mas dá um novo impulso ao poema-rio que Solha vem publicando há anos. O mestre Hildeberto Barbosa Filho, em seu posfácio, descreve a obra como “uma poética em espiral”, e como “uma espécie de autobiografia intelectual, artística e filosófica”, o que vai no centro do alvo.
 
Neste comentário irei acabar repetindo algo que devo ter falado quando comentei alguns dos volumes anteriores: Trigal com Corvos (2004), Marco do Mundo (2012), Esse é o Homem (2013), Deus e outros quarenta problemas (2015), Vida Aberta (2019), 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite (2021).




O tema principal deste enorme poema-serial é o conhecimento do mundo e o estabelecimento de associações, contrastes e analogias entre coisas aparentemente não-relacionadas. Como se fosse (para usar uma expressão de Carlos Drummond de Andrade em sua Antologia Poética) “uma tentativa de exploração e interpretação do estar-no-mundo”. Ou quem sabe a tentativa de estabelecimento de uma sintaxe das formas individuais e coletivas de produção de significado. 
 
Solha abre este novo poema com algumas citações, entre elas a do poema de Jorge Luís Borges que agradece pelo “divino labirinto dos efeitos e das causas” e pelo “poema”  que ele sabe ser um só, e “inesgotável”. Essa intuição totalizante (justificada ou não), de que universo e literatura são feitos da mesma trama e tecido, percorre a obra do escritor argentino, e Solha se emparelha com ele ao enxergar o mundo inteiro como uma linguagem em que algo ou alguém tenta nos explicar alguma coisa.
 
Alguma coisa que percebemos sem saber direito como isto acontece:
 
(...) pensando numa bela palavra
do português e
espanhol:
sol
e me lembro de que o vi,
na infância,
da urgência do
meu trem,
a correr – irreal, vertiginoso – no poente,
por trás das árvores negras,
até... “morrer”
lentamente,
deixando-me... diferente. (p. 8-9).
 
A vida é uma sucessão de pequenas revelações que percebemos sem decifrar; como dizia o próprio Borges em “O Fim” (em Ficções):
 
Há uma hora da tarde em que a planície está por dizer alguma coisa, nunca o diz ou talvez o diga infinitamente e não a compreendemos, ou a compreendemos mas é intraduzível como uma música... (trad. Carlos Nejar)
 
Traduzir esses recados é uma das tarefas a que Solha se propõe, e não somente os recados do morro ou da planície, mas os da arte e da cultura acumuladas pelos milênios. Sem negar a existência do talento ou da genialidade dos indivíduos, o poeta parece retroceder alguns passos e encarar em conjunto o grande mural da História, e somente dessa distância, paradoxalmente, consegue perceber a simetria de dois detalhes situados em espaços opostos.
 
Assim como Jessier Quirino define um poeta como “um prestador de atenção”, Solha é um observador intenso, quase monomaníaco, dessas pequenas simetrias ou assimetrias improváveis no bordado do mundo. Percebe inclusive os pontos onde está faltando um fio, uma linha, um cordel, uma ligação qualquer entre dois pontos:
 
E isto é sério:
Montaigne... e Rabelais,
cada um a seu tempo e em sua redoma,
foram – não pela fé – a Roma
...e escreveram,
deslumbrados,
sobre o milenar Império,
nada, porém – o que é um petardo – sobre Miguelângelo e Leonardo,
sobre nenhum dos dois!
porque só se veria a importância do Renascimento a partir
de Jacob Burckhardt,
...trezentos anos depois!  (p. 35)
 
O mundo físico e o mundo da cultura são feitos tanto de fios quanto de vazios:
 
Entre mil arapucas:
se alguém quiser montar a Paixão de Cristo com base apenas em Lucas,
não terá uma coroa de espinhos,
e
se em depoimento de João,
sozinhos,
ficará – e a lacuna é tamanha – sem o Sermão da Montanha!
 
 
Na capa do livro (e no corpo do texto), o poeta usa no lugar da letra “R” a imagem do “olho de Hórus”, que José Eduardo Degrazia, em outro posfácio, descreve como “o olho clarividente e onipresente (aí entra a maçonaria), que tudo sabe, tudo vê e tudo julga.” Esse olhar implacável é o do poeta, que anota e cataloga cada detalhe a lhe atrair a atenção, e não só isso: que reconhece na cultura humana um tecido de olhares, de coisas que somente um percebeu, e que ao registrar e publicar transformou em dez mil percepções.
 
Daí que – mais uma vez – gracias quiero dar
ao aparente inacabamento – irreal – fundamental
do
conhecimento,
que se vê também nas pequenas coisas,
como na... solidão – que nos comove – da mulher enlutada
a cruzar a ponte levadiça
em Arles,
século XIX,
sem saber que lhe faz companhia o van
Gogh,
uns trinta metros – à esquerda – atrás dela,
e que a inclui na tela,
sem saber que eu e você agora “vemos” os dois,
tanto tempo
depois.  (p. 50)
 


É o peso do real-da-arte, mais real (porque mais intenso e mais deliberado) que o real-da-vida. Algo que observamos, também, quando a ilusão teatral sugere (=exibe) a presença de um artefato gigantesco e inconcebível mediante efeitos simples:
 
Suspensão da
INcredulidade é o fenômeno digerido de Coleridge,
em espetáculos por mim dirigidos,
quando – por exemplo – a guerreira olha para o alto e grita
que a nave do inimigo está
descendo,
coisa que a platéia – sem obstáculos – “vê” ocorrendo
nos cento e tantos refletores acesos,
presos... à parafernália das gigantescas e sempre até então
ocultas varas de luz que eu baixo ao palco,
entre a zoada de turbinas e nuvens de
talco. (p. 13)
 
Fenômeno semelhante ao da persistência retiniana que recria, no cinema, um movimento do mundo físico, através de um movimento que só existe em nosso conjunto olho-e-cérebro:
 
Surreal:
com incapacidade
total
de ver
nenhum
dos vinte e quatro fotogramas de uma sequência projetada
em disparada,
numa tela
no velho cinema,
passou a nela ver a... irreal reprodução
não registrada!
...da ação
“filmada”!  (p. 32-33)
 
O projeto poético-filosófico de Solha, expresso nestes (até agora) seis livros é um projeto universalista, totalizante, uma tentativa de salvar o mundo registrando tudo que nele parece fazer sentido. Algo como a obra de Bispo do Rosário, a “enciclopédia do apocalipse”, onde o artista julgava estar salvando da destruição tudo que reproduzia em sua linguagem pessoal.
 
Ao longo dessas obras, Solha tem desenvolvido um estilo próprio de versejar, uma combinação pessoal entre o verso livre e a rima. Ele usa insistentemente o verso livre, a linha sem tamanho fixo, ora muito curta, ora muito extensa, “quebrada” em qualquer ponto, como uma forma de criar “quebra-molas verbais” capazes de suster e cadenciar o fluxo da leitura.
 
Sua dicção, mesmo quando usa imagens retóricas poderosas, é sempre a dicção da prosa, da prosa expositiva, consequencial, em que um argumento ou uma descrição se desenrolam com rigor e clareza. O corte da linha funciona, neste caso, como um alerta permanente de que o ritmo de leitura-e-degustação deve ser outro.
 
Vai daí que Solha emprega seus artifícios para atenuar essa tendência à linguagem prosaica. “Prosaica” no bom sentido, da fala sem excesso de artifícios, como lembrava T. S. Eliot em “The Music of Poetry” (em On Poetry and Poets, Noonday Press, 1961):
 
“A poesia não deve derivar para muito longe da nossa linguagem ordinária, cotidiana, a que usamos e que ouvimos.  Que seja ela acentual ou silábica, rimada ou sem rimas, formal ou livre, ela não pode se dar o luxo de perder o contato com as formas mutáveis do discurso coloquial. (...)  Cada revolução na poesia acaba resultando, e muitas vezes assim se proclama, num retorno à fala comum.”  (trad. BT)
 
Solha abre mão de metrificar, não por não saber fazê-lo (quando ele produz letras para serem musicadas, suas sextilhas e seus martelos são impecáveis), mas porque sua aventura não é só poética, é poético-filosófica, e requer a convivência (tensa) entre os recursos de ambas as linguagens.
 
Surge também daí (acho eu) seu uso personalíssimo das rimas, que em seu texto não têm localização fixa, e aparecem distribuídas meio aleatoriamente no interior dos versos, às vezes surpreendendo pelo inusitado de sua presença, às vezes invisíveis (inaudíveis) pelo modo sem-costura com que se integram ao conteúdo do discurso.
 
Se este projeto ambicioso de Solha tem aquilo que Borges descrevia como “balbuciante grandeza”, que os seus leitores esperem a maciça “Auto/b/i/o/grafia” que ele vem há tempos distribuindo em fragmentos pelo Facebook. Fiel ao seu propósito de pensar o mundo enquanto mundo e pensamento existam.
 



segunda-feira, 15 de novembro de 2021

4764) A volta ao mundo de W. J. Solha (15.11.2021)

 


Waldemar José Solha, que se assina britanicamente W. J. Solha, está botando na praça mais um livro de poesia, desde vez pela Editora Arribaçã, de Cajazeiras. O livro tem um título intrigante: 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite. Existe na literatura uma nobre tradição de títulos longos e complicados, que já vem de longe, e passa por nomes ilustres como o de David Foster Wallace e seu Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo.

 

Solha vem construindo esse seu ciclo de poemas-prosas desde Trigal com Corvos (Palimage, 2006), que comentei aqui:

 

https://mundofantasmo.blogspot.com/2009/03/0920-trigal-com-corvos-2622006.html

 

A este se sucederam: Marco do Mundo (João Pessoa: Ideia, 2012), Esse é o Homem (João Pessoa: Ideia, 2013), e Vida Aberta (Guaratinguetá: Penalux, 2019).

 

Esta pentalogia (por enquanto!) de poemas de Solha, em verso livre, vai se construindo como um tronco de árvore que à medida que se alonga de subdivide em galhos grossos que por sua vez vão de prolongando e se ramificando em galhos mais finos. A substância é a mesma mas em cada um deles (em cada galho, em cada livro; em cada ramo, em cada verso) adquire novas formas e se embebe de outra matéria. A árvore é uma só. O autor é um só, multifurcando-se em idéias que não param de jorrar, de uma mente que trabalha 24 horas por dia. (Não pensem que Solha “apaga” quando dorme.) 

 

A busca poética do autor, que já comentei neste blog, se faz através de um tipo de verso curioso, extenso, quase prosa.  

 

Verso que eu costumo chamar “o verso Whitman”, porque foi nos poemas de Walt Whitman (e de seus seguidores como Álvaro “Fernando Pessoa” de Campos, Allen Ginsberg...) que conheci este tipo de verso-quase-prosa.  Linhas extensas que avançam na direção da margem direita da página, esbarram nela. Às vezes retornam ao começo da margem esquerda, às vezes começam a se quebrar e se acumular em linhas que vão se superpondo no lado direito, até concluírem o que têm a dizer.

 

Sobre a dúvida terrível das aparências,

sobre a incerteza que há em tudo, de que estejamos nos iludindo,

de que talvez nossa confiança, nossa esperança, não sejam mais, afinal, do que meras especulações,

de que talvez a identidade no além-túmulo seja apenas uma linda fábula,

e talvez as coisas que eu percebo, os animais, as plantas, os homens, as colinas, as águas que cintilam e que escorrem,

os céus noturnos e diurnos, as cores, as densidades, as formas, talvez tudo isto seja somente (como sem dúvida o são) meras aparições, e a coisa real ainda está para ser conhecida.

(Walt Whitman, “Of the Terrible Doubt of Appearances”, em Folhas de Relva, trad. BT)

 

Ou na poesia beat de Allen Ginsberg:

 

Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura,

eu os vi famintos, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro ao amanhecer,

à procura de uma dose brutal,

hipsters de cabeça angelical, ardendo de desejo pela antiga conexão divina com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

pobres, esfarrapados, com os olhos fundos, viajando sentados, de cigarro aceso, na escuridão sobrenatural de quartos sem aquecimento, flutuando sobre os tetos da cidade e contemplando o jazz...

(“Uivo”, parte I, trad. BT)

 

Ginsberg dizia que seus versos não se contavam por número de sílabas, mas pela capacidade pulmonar. Um verso durava a quantidade de palavras que ele conseguisse recitar a plenos pulmões antes de precisar tomar fôlego novamente.

 

Em Solha, esses versos quilométricos se alternam – por questões puramente rítmicas e de conteúdo, a meu ver – com versos curtíssimos, de uma linha só, criando estrofes como:

 

Falha das mitologias (da grega e hebraica à tupi-guarani), a de nos terem dito... coisas dignas de Dali:

que Deus teria feito o homem do barro,

como o oleiro faz o jarro

...e a vida,

em nós, teria sido inserida – por uma das generosidades divinas –

através de um sopro nas... narinas

ou a nós teria sido dado o fogo dos deuses, roubado,

...algo,

sempre,

à parte,

quando – noutra via – vemos que – por infinitos fatores – da geosfera (passada uma eternidade) se criou uma biosfera, de que surgiu a ...noosfera,

e o fenômeno humano – que se alimenta do que vem do Sol ... e do chão – é a própria Terra

a produzir... Ciência,

...a turbulência – incluindo guerra e tudo mais em que a humanidade “erra” – e Arte.

(1/6 de Laranjas..., págs. 26-27)

 

Acho que não é mero acaso a semelhança de tema e de métrica entre poemas assim. São poetas que tentam abarcar de uma só vez o mundo inteiro, ou uma época inteira, ou a totalidade de uma experiência humana neste breve piscar de olhos que é a vida – uma treva, um vislumbre, e a treva novamente.

 

O mundo é uma chuva constante de imagens e de idéias que o poeta registra sem parar. Tem um verso de Dante, que Ítalo Calvino cita em seu Seis Propostas Para o Próximo Milênio, ao discutir seu conceito de “Visibilidade”: “Chove dentro da alta fantasia” (“Poi piovve dentro a l’alta fantasia”, Purgatório, XVII, 25).

 

Calvino explica que “a imaginação é um lugar dentro do qual chove”, quer dizer, chovem imagens, chovem temas, assuntos, histórias, personagens, enredos, situações, idéias, associações de idéias... Chove assim, na mente dos poetas.


(Solha, no filme O Som ao Redor)


Como quando Solha relembra suas viagens de trem:

 

(...) ou,

fora da vida urbana,

na Estrada de Ferro Sorocabana,

entre os troncos e frestas em fila, em florestas de eucaliptos,

o sol – entre ecos de apitos – a correr ao fundo,

a vinte e quatro fotogramas,

fasciculados

por

segundo.

(pág. 14)

 

É o cinema da vida, metralhando os olhos ansiosos do jovem que se educa na marra, na fome insaciável de ficar-sabendo, nas enciclopédias em fascículos, nas sessões de cinema-poeira, nos discos de 78 rotações... Na própria vida de rapaz de classe-média-trabalhadora na distante Sorocaba, a quem um dia o concurso do Banco do Brasil oferece a possibilidade de se transferir para Pombal, no sertão da Paraíba, pra lá do fim do mundo, um lugar onde (parafraseando o que o poeta diz à página 16) “o chão alcança o horizonte e dá a volta por cima”.

 

Carlos Drummond dizia, memoravelmente, que “a Vida, quando vai aos livros, é para voltar mais Vida ainda”. O mergulho eloquente e entusiástico de Solha nos livros, nos álbuns de gravuras, nos filmes, nas telas, é um testemunho de que essas coisas de Arte não nos afastam da realidade, a não ser quando é este o propósito de quem as usa. A Literatura nos devolve às coisas cruas e cruéis do mundo, como quando o poeta questiona os próprios Evangelhos:

 

(...) ao que pergunto,

sem delírio:

o que ...são ...as três horas ...desse martírio ...fecundo – pois pra “Salvar o Mundo” - ...ante as... vinte e seis... mil, viu?,

em que o câncer – corrosivo – atormentou e matou minha mãe,

...sem qualquer ...objetivo?

(pág. 53)

 

Qual o objetivo disto tudo? Por que tanta beleza, ao lado de tanto sofrimento inútil? Por que tantas vidas notáveis e produtivas, em meio a tantos milhões de vidas que aparentemente nada trouxeram para si e para ninguém? Por que tantos sistemas religiosos, políticos, estéticos, filosóficos, tentando explicar ou direcionar esse tsunami de corpos de carne e osso, bilhões deles, nascendo, agitando-se, entrematando-se, reproduzindo-se, desmoronando para adubar a terra, e no meio disso ainda tendo a capacidade de produzir tanta beleza---

 

(...) como foi o da transparência dos tecidos,

...esculpida ...em pedra,

com arte e...

perspicácia,

na Vitória de

Samotrácia.

(pág. 23)

 

Não sabemos. E tomara que ninguém jamais descubra, para que possamos continuar perguntando.

 

A consciência individual é este milagre de cada um de nós: uma coisica minúscula, seletiva, “destamanhinho”, um pentelhésimo de micróbio: mas é tudo que temos e tudo que somos, porque nenhum ser humano até hoje conseguiu sair de dentro de si mesmo.

 

A consciência coletiva é um segundo milagre, que nos permite entender algo que alguém escreveu a dez mil quilômetros ou há quatro mil anos. O milagre que nos permite não apenas ler o que o mundo nos diz mas também escrever sobre ele. Vivemos mergulhados numa ignorância protetora, não sabemos 99% dos processos que agora mesmo estão fervilhando atarefados dentro do nosso corpo (circulação, respiração, digestão, guerra do sistema imunológico contra os exércitos insones de vírus que tentam nos fazer naufragar).

 

(...) ou

se alguém,

de volta pra casa,

uma hora depois de sair,

sentisse,

de repente,

estar... mil e setecentos quilômetros à frente,

por causa da rotação da Terra...

(pág. 69)

 

Não, não sabemos. Vivemos num casulo de individualidade que nos escuda contra “o céu que nos protege”, que nos abriga contra “o som ao redor”, que nos mantém abençoadamente ignorantes de tudo que não somos capazes de abarcar, de conter, de comportar.

 

Por isto são importantes estes registros das coisas irrelevantes da vida concreta, de toda coisinha (como dizia Augusto dos Anjos) “tísica, tênue, mínima, raquítica”, porque quem quiser que sonhe com a permanência, mas para elas a sua glória é passar.

 

(...) o que o faz ...maior que aquele da foto em que se vê Nova Iorque e seu mundo ao fundo,

entre o rastro,

n’água,

de um barco – no primeiro plano – que acaba de passar,

e o de vapor,

que ele deixou

no ar.

(pág. 79)

 

Se nossa vocação fosse a permanência e a imortalidade, a morte seria a derrota, o fracasso; mas sabemos que não é assim. A nossa vocação é a passagem. É o fluxo, é o desfile. A Arte fica, e só fica porque nós passamos. O que salva nossas alegorias é que não somos um Bloco Do Eu Sozinho, somos uma “mocidade independente” que não desfila para “a injustiça dos prêmios”, mas para não deixar o samba morrer.