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domingo, 6 de outubro de 2024
5109) "Pat Garrett e Billy The Kid" (6.10.2024)
segunda-feira, 30 de setembro de 2024
5107) Kris Kristofferson, 1936-2024
Uma das lendas que se contam sobre Kris Kristofferson é que ele trabalhava de faxineiro num estúdio de Nashville para poder se aproximar de cantores ou bandas, e interessá-los nas suas canções. Limpando os cinzeiros cheios de baganas, varrendo o chão, arrastando amplificadores, esticando fios, ele ia se aproximando dos músicos, amparado naquele jeitão de caipira simpático, até aquele momento, no balcão da lanchonete do estúdio, em que podia enfiar a mão no bolso do macacão e puxar uma letra rabiscada: “Bem, por falar em composições...”
https://www.youtube.com/watch?v=sfjon-ZTqzU
https://www.youtube.com/watch?v=CksF7Kr7Drw
“Kris Kristofferson passa por mim, chutando uma lata / com uma camisa que ele não lava há anos...” Os fãs da música country irão entender esta referência à grande canção de Kristofferson sobre desolação espiritual, “Sunday Morning Coming Down”, na qual o narrador acorda num domingo de manhã, esgotado e com a maior ressaca, e veste “a mais limpa das camisas sujas”. Pode pesquisar.(trad. BT)
Vou procurar aqui se ainda tenho o DVD de Pat Garrett and Billy the Kid (1973, Sam Peckinpah), um filme curioso que não é uma grande obra cinematográfica, não tem uma trilha sonora excepcional (a não ser pelo clássico “Knockin’ on Heaven’s Door”), não é o melhor filme de seu diretor (eu votaria em The Wild Bunch) nem tem interpretações memoráveis do elenco: mas, com todos os seus defeitos é uma obra marcante. Por quê, ninguém sabe até hoje.
(Dylan como "Alias")
As filmagens foram um caos, e apenas duas coisas prenderam Dylan (a esta altura um astro-pop, milionário) até o fim. A primeira é que ele resolveu considerar este trabalho um curso informal e gratuito sobre como dirigir um filme – lições que ele iria pôr em prática depois, no não-muito-bem-sucedido Renaldo e Clara. A segunda foi a amizade com Kristofferson, que o ajudou a aguentar as explosões machistas e temperamentais do diretor.
Diz Howard Sounes, em Dylan,
a Biografia (Conrad, 2002, trad. Leila de Souza Mendes):
As filmagens foram um caos, e apenas duas coisas prenderam Dylan (a esta altura um astro-pop, milionário) até o fim. A primeira é que ele resolveu considerar este trabalho um curso informal e gratuito sobre como dirigir um filme – lições que ele iria pôr em prática depois, no não-muito-bem-sucedido Renaldo e Clara. A segunda foi a amizade com Kristofferson, que o ajudou a aguentar as explosões machistas e temperamentais do diretor.
Dylan e Kristofferson estavam na sala de projeção assistindo um copião quando Peckinpah mijou por toda a tela porque a imagem estava fora de foco. “Eu me lembro de Bob se virar e olhar para mim na reação mais adequada do mundo, sabe como é, em que diabo nós nos metemos”, diz Kristofferson.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
0393) Em defesa do faroeste italiano (23.6.2004)

A Editora Rocco está lançando uma coleção sobre faroeste, com romances de Elmore Leonard, competente escritor de livros policiais que também já escreveu algumas histórias de “western” já filmadas, como Hombre e Valdez vem aí. Um livro que aconselho aos fãs do gênero é Publique-se a lenda: a história do Western, do pesquisador A. C. Gomes de Mattos, que lançou recentemente, também pela Rocco, livros sobre o filme “noir” e sobre o chamado “filme B”. Neste volume sobre o western, Mattos nos dá um resumo histórico de 100 páginas, seguido de outras 100 com dados sobre mais de duzentos títulos. Foi um prazer encontrar breves sinopses de alguns filmes vistos na infância: A última carroça, O homem dos olhos frios, O irresistível forasteiro, À borda da morte, O último bravo, Um certo capitão Lockhart... Estou cheio de trunfos para meu próximo encontro com Ivan Cineminha.
Isto me trouxe à mente um dos mais ferrenhos debates sobre cinema que já presenciei. Assunto hoje morto e enterrado, mas cujo espírito não custa nada invocar aqui, para que nos traga ensinamentos do Além. Foi a polêmica sobre o faroeste italiano que nos anos 1960 invadiu nosso mercado. Até então, só quem fazia western eram os americanos. Nada mais natural: era a história deles, os heróis deles, as paisagens deles. Quem se metia a imitá-los dava não só com os burros nágua, mas também os cavalos, os carroções, a caravana inteira. Eram os criadores, mestres e proprietários de um gênero de filme – coisa rara.
Aí de repente chegam uns italianos e começam a fazer uns westerns que a nossos olhos pareciam verdadeiras blasfêmias, verdadeiros sacrilégios. Em vez dos caubóis elegantes do cinema americano, víamos sujeito esmolambados, sujos, com dentes estragados, cuspindo no chão, e provavelmente com o corpo coberto de chatos e piolhos. Em vez de alegorias nobres entre o Bem e o Mal, víamos disputas entre cafajestes e assassinos, ou entre xerifes desonestos e bandidos sanguinários. No faroeste italiano, ninguém era limpo, ninguém era bonzinho, ninguém era nobre. As cidades eram enlameadas. Uma prostituta do saloon não parecia com uma atriz de Hollywood: parecia uma rapariga mesmo.
O faroeste italiano, com todos os seus defeitos, teve uma qualidade: quebrou a máscara de cera do faroeste americano. Injetou vida real num gênero que – só percebemos então – ainda estava coberto por um verniz de heroísmo oficial, de bom-mocismo. Depois dos westerns de Cinecittà, acabou-se a ditadura do caubói limpinho e engomado, do enredo certinho, do saloon cheirando a Bom Ar. O faroeste italiano nos fêz lembrar que a História é suja e cruel, que o mundo rural da América do século 19 não se parecia com um show de Beto Carrero. O gênero redundou em filmes respeitáveis como Era uma Vez no Oeste e O Bom, o Mau e o Feio. E abriu caminho para o western realista de Sam Peckinpah e Clint Eastwood.
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