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quarta-feira, 17 de junho de 2026

5239) Nove fatos que ocorreram de verdade (17.6.2026)




1
Quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil em 1960, passaram por várias cidades e foram recebidos por intelectuais de esquerda como Jorge Amado, Oscar Niemeyer e outros. Numa maratona de conferências e entrevistas, os dois foram de cidade em cidade e, já na trajetória de volta rumo à França, fizeram uma parada em Belém. Sartre mostrou aos paraenses a enorme mala que conduzia, cheia de livros brasileiros autografados por seus autores. “É pena, mas não vou poder levar tudo isto no avião,” explicou o francês. Os livros ficaram todos em Belém do Pará. 
 



2
No inverno de 1974, a escritora alemã Lotte Eisner, radicada na França, adoeceu gravemente. Eisner é a autora de algumas obras clássicas sobre história do cinema, tais como O Écran Demoníaco, sobre o cinema expressionista alemão das primeiras décadas do século 20. Quando Werner Herzog, então um jovem cineasta no começo da carreira, ficou sabendo que ela estava hospitalizada, partiu a pé da cidade de Munique na direção de Paris, na crença de que se fosse capaz de realizar a caminhada isso iria salvar a vida da mestra. Herzog alega que estava imbuído de um conceito que os católicos chamam “a certeza da salvação”. O trajeto lhe exigiu três semanas, e resultou no “diário de viagem” Caminhando Sobre Gelo. Ao chegar a Paris, ele descobriu que Lotte Eisner tinha acabado de receber alta do hospital. Alguns anos depois, Eisner, agora com 87 anos, queixou-se a Herzog de que ele projetara sobre ela um sortilégio para que ela não morresse. “Me libera agora,” pediu Eisner. Herzog concordou, e uma semana depois ela faleceu. 



3
Conta-se que em 1947 um homem chamado Ross Petrie resolveu pregar uma peça a um grupo de amigos, montanhistas amadores, que haviam escalado o Monte Hood, a 80 quilômetros de Portland, no Oregon. É uma escalada difícil, de cerca de 3.500 metros. Depois que os amigos já haviam subido a encosta, e a noite caiu, Ross Petrie escalou o monte, por sua vez, levando consigo uma garrafa de leite e o jornal do dia, que deixou nas proximidades da barraca onde os utros se abrigavam. A escalada do Mount Hood não é das mais fáceis, e sua duração é estimada entre 4 e 7 horas.  Nada é custoso demais para uma piada. 



4
O ator Christopher Walken é conhecido por seu talento e por uma certa excentricidade.  Na década de 1970 ele trabalhava numa montagem teatral em Nova York. Um dia chegou ao teatro, para ensaiar, carregando nos braços um filhote de leão, como se fosse um pacote qualquer. Depositou o leãozinho no chão, e deixou que ele ficasse caminhando pelo espaço onde os colegas ensaiavam. “Não se assustem,” disse. “Ele está de bom humor… agora.” O elenco inteiro congelou, sem saber se aquilo era uma piada, se era um teste, ou outra bizarrice de Walken. Depois foi descoberto que ele estava fazendo trabalho voluntário junto a uma companhia circense. 



5
Durante uma montagem mexicana da peça Orfeu, de Jean Cocteau, um terremoto aconteceu durante a cena das bacantes, danificando o teatro e ferindo várias pessoas. A sala sofreu reparos e a peça se preparava para voltar a cartaz, quando descobriram entre os escombros o corpo do ator que representava Orfeu. 



6
O major Baden Powell (o fundador do Escotismo, e não o violonista brasileiro) foi certa vez visitar uma família amiga, os Hatch, e ao sentar com eles escutou rugidos de animais ferozes embaixo da mesa, claramente feitos por crianças. O major abaixou-se para olhar, e viu embaixo da mesa três crianças de quatro no chão e, rugindo junto com elas, o escritor Lewis Carroll. O autor de Alice no País das Maravilhas tinha o costume de brincar assim, e conta-se que uma vez entrou, de quatro pés e rugindo, numa sala onde estariam crianças reunidas, mas enganou-se de porta e invadiu uma reunião de senhoras que faziam um trabalho beneficente. 



7
Quando o filósofo Bertrand Russell, então com 49 anos, visitou a China, caiu gravemente doente com pneumonia, e a imprensa noticiou o fato. Russell já era um autor respeitado e uma figura pública. Pouco antes, em visita à URSS, tinha sido recebido pessoalmente por Lênin. Numa época de telecomunicações um tanto precárias, a notícia de “gravemente doente” acabou sendo noticiada na imprensa japonesa como “falecido”. Russell, teve, então, o raro prazer de ler na imprensa mundial o próprio obituário, e saber o que iriam dizer dele após sua morte. Ficou sem saber o que de fato disseram quando morreu de verdade em 1970, aos 97 anos. 



8
Na II Guerra Mundial, quando foi derrubado o governo fascista, seus líderes foram mortos e pendurados de cabeça para baixo num posto de gasolina em construção, entre eles o próprio Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Mesmo com a ferocidade da vingança e da execução pública, o pudor italiano fez com que a saia de Clara Petacci fosse amarrada às pernas com barbante, e assim o corpo foi pendurado mas as “partes íntimas” não ficaram à mostra. 



9
Vladimir Nabokov e sua esposa Vera emigraram para os EUA em 1940, a bordo do SS Champlain. Durante a década seguinte viajaram longamente pelo país, tendo como base a cidade de Wellesley (Massachusetts), onde ele lecionou antes de se fixar na Universidade de Cornell (Ithaca). O romance Lolita (1955) está cheio de referências diretas ou cifradas a estradas, motéis, lojas, postos de gasolina e outros detalhes colhidos nessas viagens, em que o escritor fazia também um levantamento das borboletas de cada região (reza a lenda que Nabokov chegou a se classificar alguma vez como “um lepidopterologista que escrevia livros nas horas vagas”). Em 1961, os Nabokovs passaram a residir no Montreux Palace, onde uma criada-de-quarto suíça jogou diligentemente no lixo uma pilha de mapas rodoviários dos EUA com todas as rotas e anotações (literárias e borboletais) feitas durante aqueles anos na estrada.  


quarta-feira, 24 de agosto de 2022

4856) O papel do líder (24.8.2022)



(Moisés, por John Hembree)


Existe uma figura humana central, mais importante do que todos. É o Herói, é o Rei, é o Sumo-Sacerdote, é o General-em-Chefe, é o C.E.O., é o Presidente, é o Imperador, é o Líder...
 
Temos mentalidade monarquista. Precisamos de UM indivíduo onde focar nossas expectativas, nossa confiança, nossa obediência cega.  E, quando ele não corresponde, nossas expedições punitivas, com foices erguidas e archotes acesos.
 
Existem exemplos de líderes que se tornam arquétipos, alegorias da experiência humana.
 
Por exemplo: Moisés. Poucas figuras terão uma história pessoal tão cheia de episódios extraordinários, mas Moisés é sempre o símbolo evocado quando a gente quer falar de um Líder que não vive para presenciar a própria conquista. “Fulano de Tal foi uma espécie de Moisés, que conduziu o povo hebreu à Terra Prometida, mas morreu quando ela estava à vista, lá no horizonte...”
 
É o general ou presidente que morre antes do fim da guerra que ajudou a ganhar, como Franklin Roosevelt. É o craque da seleção que se machuca antes da decisão da Copa. É o líder oposicionista que segura o tombo durante os anos negros e morre às vésperas da redemocratização. Os exemplos são muitos e evocam uma imagem de tragédia por um lado (“Que pena! A pessoa que mais merecia, e o Destino negou!...”) e por outra uma imagem de desprendimento – como se ele soubesse desde o início que aquela conquista não era para ele, e sim para uma coletividade.
 
Um exemplo diferente é o do Líder egoísta, que quer a glória maior para si, porque afinal de contas ele é o Líder, e os seus vassalos que se virem.


("Balboa Avista o Pacífico", por  Tancredi Scarpelli)


A expedição de Vasco Nuñez de Balboa, atravessando horizontalmente a América do Sul, foi a primeira a avistar o Oceano Pacífico (eles tinham desembarcado, é claro, na margem do Atlântico).  Quando os índios locais garantiram que daquele morro ali adiante se avistava o mar, Balboa mandou que suas tropas se detivessem e escalou o morro sozinho – para ter a glória de ter sido o primeiro a avistar o outro oceano.
 
Comentei aqui este tipo de Líder:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/12/2742-epifania-do-lider-17122011.html
 
É o Líder que trabalha em função da sua própria imagem, como o cantor popular que diz aos músicos: “Quem tem que aparecer aqui sou eu!”.


(Ulisses e as sereias, por Robert Wallace)

 
Muito parecido com a lenda clássica de Ulisses e as sereias. O canto das sereias tinha a fama de ser belíssimo – mas enlouquecedor. Era como uma droga alucinógena: os marujos ficavam encantados com tanta beleza e perdiam o controle dos remos, do leme, das velas, e os navios se despedaçavam nos rochedos.
 
O que fez Ulisses? Chegando perto do local, mandou que seus remadores tapassem os ouvidos com cera e o amarrassem ao mastro. Para que todos continuassem surdos, obedientes, robotizados, tocando o barco para a frente. E ele, somente ele, pudesse receber a carga psicodélica da música das sereias.
 
É aquele líder que conhecemos tão bem, o líder muitas vezes bonachão, paternal, que trata os súditos ou os eleitores como crianças, crianças que não precisam saber de tudo, não precisam ser informadas sobre tudo, para que possam apenas trabalhar, cumprir seu papel e serem felizes. Gente simples, que não precisa "compartilhar as sofridas responsabilidades do Poder".
 
Exemplos não faltam, na história humana.


E um outro tipo pode ser comparado a estes todos. Michael Dirda, em seu leve e informativo Classics for Pleasure (Orlando: Harcourt, 2007), dedica um capítulo à obra de Plutarco, o grande historiador e biógrafo de vultos gregos e romanos.
 
A certa altura, ele cita a referência de Plutarco ao rei espartano Sous, que estava em combate contra os Clitorianos (sic):
 
E há também a história do rei Sous, que, cercado pelos clitorianos numa área seca e pedregosa, sem acesso a água, foi forçado a negociar com eles um acordo: devolveria a eles todas as terras que havia conquistado, sob a condição de que ele e seus homens pudessem matar a sede na fonte mais próxima. Depois dos juramentos e ratificações de praxe, ele reuniu seu soldados, e declarou que se algum deles abrisse mão da água receberia seu reino como recompensa; e quando nenhum deles foi capaz de aceitar, e depois que todos eles foram de um em um matar a sede, Sous caminhou por último até a fonte, lavou o rosto sem engolir uma só gota, diante da tropa inimiga, e recusou-se a entregar-lhes as terras conquistadas, uma vez que, de acordo com os termos do acordo, “ele e seus homens” não haviam matado a sede. (trad. BT)
 
Existem líderes e líderes.
 
 


 







terça-feira, 13 de outubro de 2020

4630) Fatos sobre a história da guilhotina (13.10.2020)



Um dos mitos mais persistentes com relação a essa nobre geringonça de execução penal é que ela foi inventada por um tal “Dr. Guillotin”, na época da Revolução Francesa, e que o tal teria sido morto através da própria máquina que criou.
 
Vi algumas discussões a respeito e preferi tirar as dúvidas lendo o educativo A History of the Guillotine (London: John Calder, 1958) de Alister Kershaw, com boas ilustrações de época e copiosas notas bibliográficas. Estas últimas me deixam pensando na quantidade de documentos de 200 anos atrás que existe pelo mundo afora, principalmente em assuntos que envolvem a burocracia governamental européia, onde tudo fica registrado.
 
Primeiro os fatos básicos: o dr. Joseph-Ignace Guillotin não inventou esse instrumento, que aliás já existia em diferentes versões em outros países. Ele era apenas um deputado que desejava atenuar a brutalidade das decapitações em praça pública. Um contemporâneo o descreve desdenhosamente como “um político insignificante, mas incômodo, que costumava meter o bedelho em todos os assuntos”.
 
E não foi ele quem morreu na guilhotina, e sim um homônimo. Ele morreu em casa, de morte natural, em 1814.
 
Outro mito é o de que a guilhotina serviu para a França se livrar dos seus aristocratas. Não foi tão simples. Durante a época do Terror, bastava muitas vezes a denúncia de um vizinho para que uma pessoa fosse jogada na masmorra sem julgamento e depois fosse levada à fila da guilhotina. Diz Kershaw: “Das 2.567 mulheres executadas pelo entusiasmo libertário, 1.447 pertenciam às classes mais baixas.” (p. 6)
 
A guilhotina foi um capítulo high-tech na história brutal da crueldade humana. No reinado de Luís XVI havia uma hierarquia de castigos para diferentes crimes: a fogueira era o castigo dos magos, feiticeiros e heréticos; o suplício da roda ficava para os assassinos e os salteadores de estrada;  esquartejamento era para os crimes de lesa-majestade; e para outros 115 delitos punidos com a pena capital, a gente do povo ia para a forca, e os nobres eram decapitados com um machado, ou com aquele espadagão que se empunha com as duas mãos.
 
Um jornal francês de 1792 observava:
 
[Este novo instrumento, a guilhotina] não mancha de sangue as mãos  de quem quer que seja, ao executar um semelhante, e a velocidade com que funciona está mais de acordo com o espírito da lei, que muitas vezes é severa mas nunca deve ser cruel.” (pág. 65, trad. BT)
 
Antes da guilhotina, as execuções com espada eram cheias de problemas técnicos. Kershaw refere a “épica decapitação” do Conde de Chalais, em 1626, cuja cabeça só foi separada do corpo após vinte e nove golpes de espada, e ainda vivia mesmo após o vigésimo. Ele se apressa a registrar, contudo, que o autor da façanha não foi um carrasco oficial, “mas apenas um miserável amador que salvou o próprio pescoço ao consentir cortar o do Conde.” (pág. 65)
 
Um dos mais célebres carrascos franceses, Charles-Henri Sanson, “o Senhor das Altas Obras”, afirma numa carta às autoridades:
 
“Depois de cada execução, a espada fica inútil para outra; é absolutamente essencial que a espada, que é sujeita a perder estilhaços, seja afiada novamente, caso haja vários condenados a serem executados na mesma sessão; é necessário portanto haver um número suficiente de espadas prontas. Deve-se observar também que é frequente uma espada se quebrar no ato da execução.” (pag. 30-31)
 
Tinha ele motivos para se preocupar. Em 1537, um carrasco chamado Florant teve uma performance tão incompetente, ao tentar uma execução, que foi perseguido pela multidão, escondeu-se numa casa e ali foi queimado vivo.
 
Sanson foi uma figura histórica à altura da época em que viveu. Kershaw comenta:
 
O Rei e a Rainha e a amante do Rei; Robespierre e Danton; aristocratas e gente do povo; santos e criminosos; Sanson decapitou a todos mantendo, em geral, uma esplêndida imparcialidade, tal como coube a Desfourneaux, em nossa época, fazer o mesmo sem problemas – antes, durante e depois da ocupação nazista.”  (p. 100)


(O Halifax Gibbet)

Entre os muitos precursores do instrumento, o escocês “Halifax Gibbet” era um protótipo já com as características básicas (estrutura vertical, lâmina descendo através de ranhuras, condenado deitado com o pescoço preso a uma peça de madeira), em uso desde o reinado de Edward III, no século 14. Um historiador registra o hábito curioso: “todos os homens presentes deviam tocar na corda [que acionava o mecanismo] ou estender o braço em sua direção, o mais que pudessem, confirmando seu desejo de que a justiça fosse assim administrada” (pág. 22). Isso foi muito antes do Dr. Guillotin: Walter Scott, em sua History of Scotland (1830) descreve uma dessas execuções, ocorrida no ano de 1581.
 
Não devemos esquecer que o século 18, ironicamente chamado O Século da Razão, praticou com altivez a tirania do interesse científico sobre o sentimento humano. As primeiras provas da guilhotina definitiva se deram nos arredores de Paris, em Bicêtre, uma mistura de hospital, manicômio e asilo para velhos, onde a mortandade natural era alta. Cadáveres não faltaram para os primeiros testes do protótipo cuja fabricação (por Tobias Schmidt) foi supervisionada pelo Dr. Antoine Louis (1738-1814), secretário da Academia Cirúrgica e, ele sim, mais responsável pelo instrumento do que o pobre Guillotin.
 
Os testes foram realizados em abril de 1792. Foram precisos vários, para se chegar aos índices ideais de peso da lâmina, ângulo de corte, altura da armação, etc. Diz Kershaw: “Com um belo senso de precedência, o carrasco iniciou os testes através das mulheres e crianças” (pág. 47). No intervalo, o Dr. Colletier, diretor da instituição, ofereceu às autoridades presentes um passeio pelos jardins e um almoço, no qual “fez-se ampla justiça ao capão e aos vinhos da excelente adega” (pág. 48).
 
A alucinação coletiva que cercava os guilhotinamentos gerou cenas em que “aristocratas não identificados recebiam com desdém os insultos da turba. Davam gargalhadas entre si enquanto aguardavam a vez, já no cadafalso, e despediam-se cerimoniosamente uns dos outros”. Muitas lendas “folclóricas” sem corroboração histórica, contudo, se perpetuaram, algumas delas através do entusiasmo folhetinesco de Honoré de Balzac (“Um Episódio sob o Terror”, em Cenas da Vida Política).
 
Alister Kershaw dedica um capítulo inteiro (cap. 9) às pesquisas dos médicos sobre quantos segundos restam de consciência a uma cabeça decapitada, uma experiência que se eternizou no conto de Villiers de l’Isle Adam, “O Segredo da Guilhotina” (1886).
 
Mais interessantes são os capítulos finais, que ele dedica ao “bourreau”, ou carrasco. Era uma guilda de homens vistos com desconfiança e uma certa repulsa. Já na época pré-Revolução Francesa, um carrasco, ao se servir nos mercados públicos, recebia uma comprida colher de madeira para recolher suas mercadorias, a fim de que suas mãos não tocassem os produtos destinados a outras pessoas (pag. 97). Henry Sanson (um dos muitos Sanson a exercer o ofício) tinha o cuidado de não mergulhar os dedos na caixa de rapé que um amigo lhe oferecesse (pág. 117).
 
O filho de um carrasco devia tornar-se carrasco também; suas filhas só se casariam com carrascos da mesma geração. Essa “tradição dinástica” se afirmava não apenas pelo lado negativo, de um certo isolamento social, mas pelo fato do carrasco ter sido durante alguns séculos, na França, um funcionário bem pago, e com direito a mordomias que em linguagem do século 21 se traduziriam por Auxílio Açougue, Auxílio Hortifruti, Auxílio Peixaria e assim por diante. O livro transcreve (pág. 134-136) um longo documento de Luís XIV descrevendo em detalhes esses privilégios, que foram sendo cortados por sucessivos governos republicanos nos séculos 19 e 20.
 
Esse isolamento criou o costume dos casamentos entre famílias. Diz Kershaw:
 
“Para uma mulher jovem, casar-se com um carrasco era automaticamente condenar suas irmãs e sobrinhas e primas a continuarem solteiras ou a aceitar como maridos apenas homens que exercessem a mesma profissão” (pág. 105).
 
E comenta:
 
Se pelo menos soubéssemos um pouco mais sobre essas damas tenebrosas, se pelo menos tivesse chegado até nós algum registro das conversas travadas quando seus maridos voltavam para casa após uma manhã de trabalho! (pág. 106)




 





sexta-feira, 9 de março de 2018

4323) "O Ministério do Tempo" (9.3.2018)




A série de televisão espanhola El Ministério del Tiempo, disponível no Netflix, é uma variação interessante da idéia genérica de uma espécie de polícia ou comando transtemporal, desde as variadas “patrulhas do tempo” da pulp fiction até a Intempol brasileira, uma criação de Octavio Aragão com numerosos e engenhosos desdobramentos.

Sem falar nos vigilantes do Tempo de narrativas como O Fim da Eternidade de Isaac Asimov, que voltam séculos no “elevador temporal” para afastar um objeto meio metro da posição em que estava, e fazer com que a História sucedesse assim, e não assado.

Cito esses exemplos literários porque é com eles que El Ministério del Tiempo é aparentada, e não com o seriado Túnel do Tempo, um dos clássicos da TV norte-americana de nossa meninice. No Túnel, os cientistas estão ricocheteando aleatoriamente por entre os séculos. No Ministerio, (quase) tudo está sob controle, e eles cruzam a porta que bem escolhem para cumprir uma missão definida com clareza.

A série tem vários pontos interessantes, porque suas idéias de paradoxo temporal, por exemplo, são propostas e resolvidas sem forçar a barra, mas com certa simplicidade.  Os autores querem usar as convenções do gênero para contar suas histórias. Não há muita preocupação em fazer upgrade das convenções.

Uma boa porta de entrada para entender a série é sua frase de divulgação, que diz algo como: “Todos os Governos têm segredos. O governo da Espanha só tem um. Mas é dos grandes.”

A Espanha não tem toda a parafernália tecnológica ou científica da América? Basta-lhe ter um gimmick de bom tamanho: a espiral de corredores subterrâneos que guardam as Portas do Tempo, algo muito natural numa cultura milenar de cabalistas, alquimistas, um plausível universo detentor de sabedorias ocultas e milenares.



Basta isso. E a noção bastante cômoda de que há milhares de portas levando ao passado, às vezes ao dia exato do fato que se deseja modificar (ou proteger), outras vezes a uma distância suficiente para gerar protelações, atrasos, suspense.

Em termos de efeitos especiais hightech, a série tem muito poucos, e suas qualidades de produção se dão na reconstituição de fases históricas onde caem nossos paraquedistas vestidos de camponeses ou de fidalgos e com celular no bolso. Ou seja, como ambientação visual está mais para o gênero histórico do que para a FC hard.

Há um momento tocante em que um viajante no Tempo diz a outro: “Eu vi a Invencível Armada, agora pode se acabar todo o resto”. Os emissários temporais cruzam com escritores, inquisidores, cavaleiros, peralvilhos, religiosos, militares, artistas: o Passado inteiro da Espanha. Ou melhor: uma versão oficial desse passado, pela qual eles precisam zelar.

A televisão e o cinema sempre usaram fartamente aquele recurso que Lincoln Cunha chamava “as duplas dialéticas”, dois temperamentos opostos e complementares em perpétuo atrito e gravitação mútua. Holmes e Watson, Quixote e Sancho, Billy e Wyatt de Easy Rider, Ratso e Joe Buck de Midnight Cowboy.

Parece que agora estão emergindo as tríades. Os roteiristas resolveram encarar de frente o Problema Dramatúrgico dos Três Corpos.

A tríade da série espanhola é composta por Julián, um paramédico da Madrid de hoje; Amélia, uma estudante brilhante de Barcelona no século 19; e o soldado Alonso, espadachim calejado do século 16. Por um lado ele é a reserva duelística do grupo, pois luta com eficiência e honra; e funciona também como foco mais divertido dos mal-entendidos e dos anacronismos.

A série tem perseguições, fugas, lutas de vida ou morte, mas em momento algum acreditamos que algum daqueles personagens periga morrer. As Leis de George R. R. Martin dificilmente serão votadas naquele universo. Isso não impede que eles sejam vulneráveis em outros aspectos, e se tornem menos previsíveis.

A verdade é que se alguém tiver acesso ao próprio passado vai querer remexer, sim, ninguém resiste. Aí estão milhões de páginas de FC para comprovar.

A certa altura um personagem diz: “Bela profissão esta nossa. Vivemos arriscando a vida e viajando ao passado para impedir que um famosão qualquer morra. E as pessoas da família da gente a gente tem que deixar morrer, não pode nem levar um antibiótico para quem está na Idade Média.”

É a preocupação da jovem historiadora de Connie Willis em O Livro do Juízo Final (Suma de Letras, 2017). Caída de paraquedas no ano da Peste Negra, ela, mesmo vacinada, percebe que talvez não possa salvar as pessoas de quem ficou amiga.

Como a maioria das séries norte-americanas de antigamente, nesta série espanhola há uma leveza, uma paz confortável, uma disposição lúdica nas aventuras dos viajantes. Há bastante humor nos diálogos, geralmente dando alfinetadas na Espanha de hoje.

Há um capítulo centrado no trio Garcia Lorca, Salvador Dalí e Luís Buñuel, com atores bastante verossímeis. Pensando no Buñuel deles me lembrei do Paris à Meia Noite de Woody Allen, onde aparecem todos aqueles artistas dessa geração. El Ministério del Tiempo tem um pouco desse filme no desfilar contínuo de personagens históricos, cercados de piscadelas e piadas em privado.

Diz-se que no seu auge o Arquivo X tinha uma fórmula de episódio chamada “O Monstro da Semana”. Toda semana surgia uma ameaça bizarra e insólita em Nebraska ou no Oregon, eles resolviam tudo naquele episódio. A série espanhola teria “O Ilustre da Semana”. Há episódios centrados em Lope de Vega, em Picasso, em Lazarillo de Tormes, em El Cid, e assim por diante.

Eu estava lendo num texto sobre Ingmar Bergman os comentários dele sobre seu filme Morangos Silvestres (1957). Bergman diz que visitando a casa de sua avó imaginou como seria, se ele pudesse empurrar aquela porta e ver a si mesmo na infância.

– Ocorreu-me que podia fazer um filme sobre isso: que você vem caminhando, num contexto totalmente realista, abre uma porta, e então você dá um passo e entra em sua própria infância, e ao abrir outra porta você está de volta à realidade.

Essa mesma mecânica simples (sem recorrer a complicações da Física) está à disposição dos agentes do Ministério. São centenas de portas, e toda vez eles precisam recorrer ao Manual para se certificar de que a melhor maneira de chegar a janeiro de 1587, por exemplo, é passando pela porta 614. As possibilidades, como sempre, são infinitas.












sábado, 16 de setembro de 2017

4269) Os cabarés de Campina (16.9.2017)





O saite Retalhos Históricos de Campina Grande publicou uma matéria sobre o Cassino Eldorado e as diversas zonas do “baixo meretrício” de Campina Grande, em diferentes épocas da História.

Aqui:

Aliás, o uso desse termo é uma injustiça e uma imprecisão, porque o Eldorado era uma casa de “Alto Meretrício”, isso sim, inclusive com mulheres importadas – polacas, francesas... Como qualquer cidade brasileira, de Manaus a Londrina, que já viveu um boom econômico com presença de estrangeiros.

Se bem que as maiores atrações eram as beldades locais. Jackson do Pandeiro, que foi percussionista da orquestra do Cassino em sua juventude (“Ah, meus 18 anos!”), recordou muitos anos depois no clássico “Forró em Campina”:

Me lembro de Maria Pororoca,
de Josefa Triburtino e de Carminha Vilar.

(gravação original aqui:

O Eldorado está desabando; virou uma ruína fétida cercada por tapumes. É habitado por uma meia dúzia de malucos inofensivos, os quais são como os pássaros e os cavalos que, no conto de Jorge Luís Borges, não deixam morrer de todo as ruínas de um anfiteatro.

O propósito de estar escrevendo aqui é esta imagem, que peço emprestado ao pessoal do Retalhos Históricos, onde se vê o desenho do projeto do Cassino, e se dá como localização da famosa Rua Manuel Pereira de Araújo o “Bairro Chinez”. (Note-se a elegância do traçado, e as letras modernosas!)



Pois é, Campina também já teve a sua Chinatown.

Na época, chamavam de Manichula, nome que o saite corretamente relaciona com a invasão da Mandchúria em 1931.

É interessante que zonas de prostituição e favelas acabem recebendo nome de regiões em guerra, regiões em conflito. Em Campina, além da “Mandchúria”, tinha no meu tempo o “Vietnam”, uma fileira de botequins e barracas. Sua localização precisa no mapa urbanístico da cidade eu não lembro, porque nas poucas vezes em que fui lá “entrei bêbo, saí bêbo” (como diria a música gravada por Gilberto Gil). Mas meus companheiros de geração poderão esclarecer.

O famoso “Forró da Coréia” natalense, celebrado pelo grande Elino Julião, pode muito bem ter sido batizado pela guerra homônima. Foi isso que aconteceu com o bairro das Malvinas, em Campina, que ganhou esse nome por causa da guerra na Inglaterra com a Argentina.

Fico pensando quantas favelas haverá Brasil afora chamadas “Iraque” ou “Afeganistão”. Isso é tanto mais interessante porque, se não me engano, quem bota nome em favela não é a Prefeitura, é o povo que mora lá. E muitas vezes eles pegam justamente um “nome de lugar” que está em todas as bocas, está na TV, está no rádio. É o lugar famoso do momento, e é, tantas vezes, uma zona de guerra.

Voltando ao Eldorado e aos Retalhos: o saite nos fornece um link (que lhe peço emprestado aqui) para o valioso trabalho de Uelba Alexandre do Nascimento, Mandchúria: o bairro chinês de Campina Grande, que conta um pouco da história da vida noturna e das “mulheres de vida airada” em nossa cidade.


Entre outras coisas, o trabalho de Uelba puxa do fundo do baú outra lembrança musical, a dos famosos “banhos de domingo no Bodocongó”. Era uma diversão pouco inocente em que o pessoal ficava pelado para tibungar no Açude e depois ficar se divertindo pelas beiras. 

Marinês cantou a respeito desses folguedos no clássico “Saudades de Campina Grande” (1959), de Rosil Cavalcanti:

Tenho saudade de Campina Grande
da Lagoa dos Canários e do Zé Pinheiro
dos banhos do domingo no Bodocongó
de Zacarias Cotó, banho no Louzeiro...

(gravação original:

A canção de Rosil celebra um tempo que minha geração não alcançou, e decifrar cada referência dessa longa letra era um passatempo nosso em mesa de bar. De minha parte, sei que “Zacarias Cotó” era Zacarias Ribeiro, jogador e fundador do Treze.


(Zacarias é o quarto, em pé, da esquerda para a direita)

Tem também esse trecho, na mesma canção:

Ainda recordo o Zé Iracema,
centrefó do Paulistano nos dias de jogo
com o Treze, o velho Galo lá da Borborema,
que jamais teve um problema, pegava fogo.

Foi com certa surpresa que vi a descobrir, depois de adulto, que “Zé Iracema” era o sociólogo José Lopes de Andrade, que foi meu professor na UFPB e era pai do meu parceiro musical Zeca Lopes, ex-guitarrista d’Os Falcões.



Alguém virá perguntar que importância tem, e que interesse tem, ficar rememorando a história dos cabarés e das prostitutas do passado. Não existe algo mais nobre para recordar, da história de Campina?

O que ele talvez não saiba é que a História é um tecido onde tudo está amarrado a tudo, e que quem pega “um fio só” arrisca-se a puxar o pano inteiro.

A história dos cabarés não pode ser dissociada da história dos médicos, advogados e políticos que os frequentavam; a história das prostitutas não está dissociada da história dos músicos que com elas se divertiram ou da história dos adolescentes (futuros “cidadãos do bem”) que com elas tiveram acesso ao primeiro e último dos mistérios: o mistério da vida real.







segunda-feira, 29 de agosto de 2016

4151) A arte de reescrever o passado (29.8.2016)



São dois temas bem antigões, que parecem não ter muito a ver um com o outro, mas têm:

1) A possibilidade tecnológica de fazer uma pessoa desaparecer de um documento, de uma lista, de um arquivo, de uma foto, de mil registros ao vivo em televisão.

2) A escolha entre uma decisão rigidamente técnica (baseada em provas concretas) e outra decisão que é jogo-de-cinturalmente política (baseada em opiniões). A distância entre uma cultura onde tudo fica registrado, o preto no branco, o cinzel na pedra, a tinta no papel, e uma cultura sem documentos, oral, maleável, baseada apenas na memória e no testemunho do momento.

Diz um personagem de Ted Chiang, em “The Truth of Fact, the Truth of Feeling” (2013):
Antes de adotar o uso da escrita, uma cultura tem os seus conhecimentos transmitidos exclusivamente de forma oral, e pode facilmente revisar sua própria história. Isto não é proposital, mas é inevitável: pelo mundo inteiro os bardos e os griots vêm adaptando seu material poético às platéias para quem cantam, e assim vão gradualmente ajustando o passado às necessidades do presente.

Essa é a idéia geral por trás da noção de que a História é escrita e ensinada pelos vencedores, de que são os vencedores que contam a sua versão dos fatos. “História” neste caso inclui até mesmo as epopéias, rapsódias, ou que nome tenham as obras de grande porte contando um episódio glorioso do passado.

O melhor relato de uma batalha tanto pode ser de um escritor do lado vencedor quanto de um escritor dos vencidos; e ambos serem igualmente grandes e necessários. E, mais uma vez, não há determinismo prévio nessas escolhas. Os Sertões de Euclides da Cunha foi uma obra encomendada pelos vencedores mas que acabou celebrizando o heroísmo dos vencidos.

De novo Ted Chiang:
A idéia de que relatos do passado não podem ser modificados é um produto da reverência que as culturas alfabetizadas têm com relação à palavra escrita. Os antropólogos nos dirão que as culturas orais entendem o passado de maneira diferente: para elas, suas histórias precisam menos de ser factualmente exatas do que de validar o entendimento que a comunidade tem sobre si mesma. Desse modo, não seria correto afimar que suas histórias não merecem confiança; suas histórias fazem o que eles precisam que elas façam.

Em 1984 de George Orwell temos uma das primeiras obras mais consistentes, na literatura distópica, na tentativa de imaginar como seria uma língua do totalitarismo. Orwell chegou a criar alguns termos que são usados hoje em qualquer contexto, como Novilíngua (Newspeak) etc. Sua visão do futuro, apesar de muito pessoal, parece uma tentativa de sintetizar precursores variados como Metropolis (1926) de Fritz Lang, Nós (1921) de Yevgeni Zamyátin, sem falar nas ditaduras judiciárias de Kafka (O Processo (1925), Na Colônia Penal (1919) etc).

No livro de Orwell o protagonista, Winston Smith, passa dias inteiros reescrevendo notícias da imprensa dando uma versão diferente de cada fato do passado, no mesmo número de linhas, para que novas páginas do jornal sejam reimpressas.

Nas fotos clássicas dos politburos stalinistas, um trio de líderes vira um quarteto, ou o contrário. A parede nem se altera. Na política, pelo mundo afora, uma chapa eleita numa entidade qualquer manda eliminar um indesejável dos arquivos, da fototeca, de tudo. De pincéis habilidosos a manipuladores digitais, hoje (a partir de hoje) é possível fabricar do nada uma prova incontestável de alguma coisa.

No mundo do Grande Irmão existe (tendo como combustível emocional o uso de jargão, de rituais de ódio coletivo a poder de slogans) a reescritura constante do Passado. Nas casas, nas escolas e no trabalho a mensagem é uma só. E se alguém tivesse motivação suficiente para recorrer a arquivos e bibliotecas, só encontraria confirmações variadas da versão oficial.

José Saramago brincou um pouco com essa noção de interferência em coisas já acontecidas com seu personagem historiador em História do Cerco de Lisboa (1989), que insere um não antes da narração de um fato num livro e muda a História. Tal como os viajantes no Tempo de Isaac Asimov em O Fim da Eternidade (1955), eternamente saltando de século em século para preservar a linha temporal para a qual trabalham, impedindo que o passado, sempre instável, possa lhes fugir ao controle.

Esses crono-agentes têm às vezes a missão de voltar a um século qualquer para entrar num avião, abrir o compartimento de bagagem em cima de uma poltrona, e empurrar uma pasta para  longe do alcance de alguém. Quando a pessoa procurar a pasta ali, não a encontrará, e vai imaginar que já a guardou em segurança. Com isto, inverte-se o resultado de uma importante reunião.

O minimalismo dessa coreografia (viajar séculos para empurrar um objeto quarenta centímetros para além de onde estava) confirma uma porção de teorias do Tempo que concordam todas com o chamado efeito “som de trovão”, devido ao conto de Ray Bradbury: a morte de uma borboleta pode reverter o resultado de uma eleição presidencial.

Um dos aspectos da guerra pelo Poder é a guerra pela narrativa da guerra. A guerra pelo futuro Saber, pelo futuro da informação. Na frase famosa de Orwell: “Aquele que controla o passado controla o futuro. E aquele que controla o presente controla o passado”.

Essa guerra ganhou agora uma dimensão maior no contexto vídeo-digital-eletrônico: um contexto fluido, impalpável, imaterial, muito parecido ao das culturas orais pré-alfabeto, pré-escrita. 

O tempo agora é de registros pós-papel, pós-Gutenberg, pós-documento com firma reconhecida.

Todo grupo centralizador, autoritário, quando se apossa do Poder dá início a uma completa desconstrução do Passado e reconstrução para confirmar sua narrativa das coisas.

Essa batalha nunca será dada como “ganha e perdida”, para usar a frase da bruxa do Macbeth. Essa batalha existirá enquanto existirem política humana, linguagem humana e memória humana.









quinta-feira, 7 de novembro de 2013

3337) Tome uma pela gente (7.11.2013)




De vez em quando um governo proíbe o consumo de uma droga bem popular no país, com as consequências que já se sabe. Cem anos depois, a droga volta de vento em popa, e do Governo que a proibiu só restam bustos de gesso, medalhas comemorativas e nomes de ruas.

Foi o caso da Lei Seca, quando os EUA proibiram que se bebesse bebida alcoólica no país. Durou de 1920 até 1933, e, como disseram vários historiadores, ali nunca se bebeu tanto, e nunca se bebeu tão mal. 

Arthur Machen afirmou: “Proíbam um homem de beber uma bebida alcoólica decente, e em breve ele estará alegremente bebendo álcool puro”. Os norte-americanos beberam álcool impuro durante 13 anos. O uísque era fabricado nas banheiras dos apartamentos, com ingredientes improvisados, e vendido por qualquer preço. 

A Máfia, um obscuro grupo de bandidos imigrantes, tornou-se uma das principais forças do crime organizado no país, graças à fabricação e venda daquilo que o Governo, ao invés de administrar, resolveu proibir. Triste do poder que não pode.

Li a notícia (http://bit.ly/1bshw4N) de que numa reforma realizada num dos edifícios da Universidade de Fairleigh (em New Jersey) foi encontrada uma lata de tabaco contendo uma folha manuscrita, uma verdadeira “cápsula do tempo”.  A lata estava embutida numa das paredes; quando foi aberta, encontrou-se a nota que dizia: 

“Estes banheiros foram remodelados em 1932. E. J. Parsons de Morristown fez os encanamentos, e Edw F Daniher de St Madison fez o revestimento. Outros homens que aqui trabalharam foram: (... – segue-se uma lista de nomes.) Foi durante a Lei Seca, e foi um trabalho feito sem tomar uma dose sequer. Quem encontrar esta nota, se a Lei no. 18 tiver sido revogada, tome uma pela gente”.

A Lei 18 era justamente a que entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, proibindo as bebidas alcoólicas. Atentem para o detalhe subversivo da “cápsula”, porque quem a colocou ali não hesitou em dar os nomes dos envolvidos no trabalho, e, mesmo admitindo que não tinham bebido nada durante aquele período, o teor da mensagem podia ser considerado (e certamente seria, basta imaginar as figuras que lessem aquilo) uma “apologia do uso das drogas”.

Um professor da Universidade local explica que (como sempre) a Lei só serviu para os pobres. Antes da sua promulgação, Ruth Vanderbilt Twombly, da elite local, “fez estocar na região uma tal quantidade de bebida que durou os treze anos da Proibição, e dava festas em estilo Grande Gatsby para mais de 600 pessoas”. 

Os operários não bebiam – assim como os remadores de Ulisses, na Odisséia, não tinham permissão para ouvir o canto das sereias. Quanto mais muda mais continua a mesma coisa.







sábado, 4 de maio de 2013

3177) Mundo sem gente (4.5.2013)




Diretores de filmes B interessados em fazer filmes pós-apocalípticos não precisam gastar um só dólar mandando construir cenários de papelão. O mundo está cheio de fábricas abandonadas, conjuntos residenciais virgens de inquilinos e já tomados pelo matagal, cidades fantasmas, hotéis de luxo hoje habitados somente por calangos e cascavéis. 

São muitas as causas. A grana-que-ergue-e-destrói-coisas-belas não para de conceber projetos novos, iniciá-los, e deixá-los pela metade. Reviravoltas econômicas levam uma região à falência e à desabitação, esvaziando cidades inteiras. A guerra, as epidemias, acidentes radioativos ou catástrofes naturais despovoam áreas enormes e deixam expostos à chuva e ao vento edifícios que já foram monumentais, deslumbrantes, repletos de pessoas.

The Atlantic (http://bit.ly/yyR5oJ) reúne fotos assim na página “A World without People”. 

Estátuas de Confúcio e de Lênin estão abandonadas no meio das ruínas. Em Fukushima, onde houve o acidente nuclear do Japão, a hera das casas invade pacificamente o asfalto onde não passa mais ninguém. Perto de Chernobyl, um parque de diversões abandonado onde as árvores estão prestes a cobrir a roda-gigante. 

Gansos e dinossauros de fibra de vidro parecem imagens surrealistas jogados no lixo de um parque temático em Berlim. Instalações construídas em Atenas para as Olimpíadas de 2004 estão sendo corroídas pela ferrugem e pela umidade, sem uso. Perto do aeroporto da Líbia, a estranha imagem de uma escada de avião abandonada no meio da rodovia.

Assim como em nosso corpo as células nascem, morrem e se substituem sem parar, o mundo avança às custas de uma destruição e criação constante. Marx falou certa vez que “a podridão é o laboratório da vida”, provavelmente querendo dizer que nas crises econômicas e sociais nem tudo se perde. Riquezas, forças, energias, tudo é canalizado para outras funções, e a roda vai rodando. 

O “mundo sem gente” do The Atlantic lembra aquela série do History Channel, “O Mundo Sem Ninguém”, que num exercício bem próximo da ficção científica visualiza em computação gráfica como ficariam nossas cidades dez anos depois do nosso desaparecimento; cem anos; mil anos.

Os ocidentais tiveram durante séculos a certeza de que o mundo está evoluindo (e em muitos aspectos está, sim) e de que nada pode interromper essa evolução (não dá para ter tanta certeza). Mas a civilização é uma estátua feita com palitos de fósforos. Ainda corremos o risco de nos transformar em estranhos no nosso planeta, tentando inutilmente reconstruir o saber tecnológico e conceitual que hoje nos dá a convicção precária de sermos os donos do mundo.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

3173) Dois desabamentos (30.4.2013)




(O minarete de Aleppo)


Abri a página da Wikipedia para consultar alguma coisa e vi essas notícias lado a lado. (Intervalo: Sim, eu consulto a Wikipedia. Já trabalhei anos em enciclopédia. Toda enciclopédia tem erros. A Britânica tem tantos erros quanto a Wiki. Para informação básica, nomes, fatos, datas, títulos, números, todas são igualmente (des)confiáveis. E a Wiki eletrônica remete direto às fontes, coisa que no papel é impossível fazer. Fim do intervalo.) Bem, eis as notícias:

1) A destruição do minarete da mesquita de Aleppo (Síria), no último dia 24 de abril, na luta entre o governo e os rebeldes, que se acusam mutuamente de ter bombardeado o monumento. A mesquita já foi destruída e reconstruída várias vezes: após um incêndio em 1159, após a invasão mongol em 1260, etc. O minarete, construído em 1090, era a parte mais antiga ainda intacta. Agora, é uma pilha de tijolos quebrados e poeira.

2) O desabamento (no mesmo dia 24) de um prédio comercial de oito andares em Bangladesh. No prédio trabalhavam operários em confecções de tecidos, inclusive para empresas como Benetton, Walmart, etc. Na véspera do acidente tinham sido avistadas rachaduras, mas os proprietários garantiram que não era nada de mais. Na hora do desabamento, 9 da manhã, havia 3.122 pessoas no prédio; até agora há 348 mortos e mais de mil feridos.

Quando vi essas duas notícias lado a lado, me entristeci pela destruição do minarete, uma relíquia histórica; a queda do prédio cheio de costureiras não me abalou tanto. Pelo menos foi assim durante uns dez segundos, até que resolvi voltar, reler tudo e descobrir por que dou mais valor a um minarete do que a trezentas pessoas.

A questão, me parece, é que o minarete é um indivíduo, e aquelas pessoas não são. É um indivíduo porque tem nome, tem foto, tem descrição, tem uma história própria. É cercado de fatos históricos, de análises arquitetônicas. Milhares de turistas já o fotografaram. Já as costureiras anônimas de Bangladesh não têm individualidade, são uma massa amorfa de estatísticas. Ninguém jamais saiu do Rio de Janeiro para tirar foto com uma delas.

Por isto o jornalismo nos aconselha: particularize. Ninguém se comove com a morte de mil pessoas, mas alguém se comoverá se você disser que uma delas tinha 22 anos, se chamava Salima, morava com o pai viúvo, era casada com um músico, e tinha acabado de deixar a filhinha de 2 anos na creche do andar térreo. Basta essa breve silhueta (inventada: não tive coragem de ler as histórias reais) para que o jornalismo deixe de lado a impessoalidade da estatísticas sociológicas e se aproxime da literatura, a quem cabe, no fim das contas, contar a comédia e a tragédia humana.



domingo, 31 de março de 2013

3147) O sol e o mundo (30.3.2013)



Nos livros de Monteiro Lobato em que os personagens do Picapau Amarelo voltam à Grécia da mitologia, volta e meia aparece uma discussão sobre o formato da Terra, que os garotos insistem ser redondo. Os gregos negam com veemência: “Não, a Terra não é redonda, é montanhosa.”  Há uma heterogeneidade nessa conta. Os dois termos não pertencem à mesma ordem de coisas. Dizer que a Terra é redonda é ser capaz de imaginar que a está vendo à distância, “sair de dentro de si mesmo”, de certa forma. E o homem medieval não conseguia sair de si mesmo porque se julgava habitando um Universo cujo centro era a Terra, e na Terra, ele. Para ele, o universo era uma esfera e o mundo que ele via à sua volta era apenas uma secção horizontal dessa esfera, um plano infinito se estendendo de norte a sul, de leste a oeste.


Eu seria desonesto se dissesse que esse modo de ver me é estranho. Mas isto me lembrou duas frases emblemáticas sobre o poder do homem sobre a terra, o poder do Homem sobre a Terra, e concepções cosmológicas sucessivas.

No tempo da Rainha Vitória, o auge do colonialismo cuja faceta talentosa são Kipling, Rider Haggard, Conrad, Wilde, Stevenson, etc., dizia-se do império britânico ser “aquele império onde o sol nunca se põe”.  Durante a lenta rotação da Terra sobre si mesma, ao longo de 24 horas, há sempre metade dela exposta à luz do Sol, e nessa metade havia sempre algum território, havia inclusive um considerável território, de propriedade de Sua Majestade.

Já o coronel de José Lins do Rêgo dizia: “O sol que nasce no Santa Rosa, morre no Santa Rosa.” Uma bela imagem, mas uma imagem bidimensional, de quem considera o Universo o chão retilíneo (ou montanhoso!) que se expande à sua volta, com ele no centro. Ver-se no centro de tudo dá uma sensação de poder, de importância, de fazer sentido... Temos milênios dessa fantasia grandiloquente. Não é fácil aceitar que não somos o centro do Universo.

A frase dos ingleses mostra noção tridimensional do mundo, uma presunção, já espontânea, de que a Terra gira em redor do sol.  O velho senhor de engenho, por outro lado, ainda reflete um esquema visual do mundo. Uma planta-baixa do Universo, se quisermos, onde o mundo é um chapadão em volta do qual o Sol orbita, com pontualidade absoluta. O Coronel talvez não entendesse (visualmente, tátilmente) essa imagem de que o sol jamais se põe sobre a Terra inteira. O mundo dele é (como o dos gregos em O Minotauro) uma superfície plana, onde suas posses precisam cobrir 360 graus de superfície. Um sonho grandioso, respeitável, atingível (não importa por que meios) mas, aqui pra nós, insustentável por mais de alguns séculos.