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quinta-feira, 18 de junho de 2015

3844) Gelo e Fogo (19.6.2015)



Nenhum indivíduo deveria morrer sem saber sua origem, de onde veio, quem o pôs no mundo, qual o mistério que cerca seu nascimento. O folhetim clássico já nos deu centenas de vezes  o drama de quem passa a vida em busca de solver o mistério de si mesmo até se deparar com a mais terrível das revelações. O folhetim moderno parece ter condenado alguns dos seus personagens não apenas à morte, mas a uma vida em vão. Nunca saberão de nada; chega parece que seu destino é algo que já estava escrito há muito tempo, por alguma divindade impaciente. “Procurarás, e não ficarás sabendo.”



E olha que estamos falando de um universo onde há não apenas uma luta entre casas reais de um continente, mas entre continentes distintos, cada qual pouco ligando para as distinções e as dissidências internas do outro. O povo de um deus numérico contra o povo de um deus cromático, isso para não falar em outros que por enquanto permanecem na penumbra, mas próximos. Como se manifesta o vosso deus? seria uma boa pergunta inicial na primeira reunião entre dois embaixadores.



Nada mais verdadeiro, segundo Bob Dylan, do que o gelo e o fogo. Basta perguntar às pontas dos nossos dedos. Gelo e fogo são o xibolete materialista terminal. A pedra de toque: saber se posso ou não tocar nessa pedra. O que nem sempre se deve fazer. Quando um personagem entra num recinto e existe um botão bem à vista, não há como não pensar que todo o fluxo da história depende de que ele estenda o dedo e aperte. Alguém bastante curioso, imprudente ou maluco para apertar esse botão sem pensar a que ele se refere. São as pessoas que fazem a História dar um solavanco, que tanto pode levá-la para a frente (como a Segunda Guerra Mundial) quanto para trás (como a Primeira).



Parece que a narrativa de Fantasia Heróica em questão levantou um tapete, ou uma série de tapetes religiosos, e se deparou com seitas purificadoras, fogueiras sacrificiais em praças públicas, o poder da fé subjugando o poder da espada. Os sem fé parecem ser todos canalhas e calígulas. Os crentes parecem ser ceifadores do erro, máquinas de povoar o mundo das almas purificadas durante o próprio castigo.


Qual a governante que não gostaria de montar num dragão, passar o rodo em tudo ao seu redor, e partir rumo a uma aventura terramarear?  Qual a espada-paga que recusaria uma aventura sem pé nem cabeça, desde que pudesse enfrentar alguém com um bom pretexto? Qual o roteirista que recusaria a chance de mexer na quantidade dos mandamentos, no número de lados de um pentágono, na quadratura do círculo, na vida e na morte de pessoas reais o bastante para serem levadas em conta e nos servirem de selfies disfarçados?





segunda-feira, 27 de abril de 2015

3799) Game of Thrones 2015 (28.4.2015)



A série Game of Thrones (HBO) começou sua quinta temporada há três fins de semana. Há quem ache a série inferior aos livros, mas da minha parte tenho feito desde o início o caminho inverso. Vejo a série primeiro, e depois leio os capítulos correspondentes aos trechos que mais me interessam, em busca de maior riqueza, textura, espessura, as armas imbatíveis do texto literário.

GoT está para a Fantasia Heróica tradicional tipo O Senhor dos Anéis um pouco como o bang-bang italiano estava para o faroeste clássico dos EUA, onde havia uma divisão mais clara entre os bons e os maus, os certos e os errados. Os westerns spaghettis trouxeram maior cinismo, maior sujeira (o western clássico era limpinho demais, feito-em-estúdio demais) e maior realismo ao gênero. Na fantasia, somos forçados a constatar que a política do mundo moderno não parece muito com as epopéias alegóricas de Tolkien: parece, sim, com o jogo de sacanagens, traições, vinganças, crueldades e covardias que vemos entre as “elites brancas” de Westeros.

A lenta progressão da história induz (em nós) expectativas de vitórias ou de desgraças que não se confirmam. Essas guinadas ressaltam o modo imprevisível como o entrechoque de variáveis faz mudar as regras do jogo no transcorrer da partida. Na luta pelo poder em Westeros, cada aparente triunfo pessoal (Snow eleito comandante da Guarda, Arya refugiando-se em Braavos) cobra um sacrifício que não foi previsto. Sansa é levada de volta ao antigo castelo de sua família, mas o preço é casar-se com Ramsay Bolton, um dos psicopatas mais sádicos da série (há vários). E os autores não desdenham um clichê: se um personagem está fugindo incógnito e pede para ir disfarçado a um lugar público, a probabilidade de que seja descoberto paga 1 por 1 na Bolsa de Apostas.

O formato de série parece dar aos diretores mais folga para desenvolver efeitos dramáticos que precisam de tempo: suspense, expectativa, surpresa, reviravolta de caráter dos personagens. Nem sempre acontece. Um filme de duas horas em geral fecha seu foco num número menor de pessoas, e alonga os minutos sempre que necessário, mas uma série assim é um mural, e num mural não existem close-ups. Isso nos dá o paradoxo de numa temporada de dez episódios de 1 hora vermos cenas com excelente potencial dramático serem resolvidas às pressas pela necessidade de passar logo para a próxima linha narrativa, porque são muitas. Não importa. Para mim, a série fornece o impacto visual dos cenários e dos rostos, o carisma dos atores, o arrebatamento rítmico dos episódios bem construídos. Depois, vai-se ao livro pela substância, pela essência; a Coisa em Si.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

3599) O personagem quis (9.9.2014)



É um dos clichês mais batidos da literatura. Todo escritor diz isso; é um aspecto óbvio da escrita da ficção. O interessante é que todos resolvam explicar sempre do mesmo jeito. 

George R. R. Martin, o criador de Game of Thrones, diz assim: 

“Pode parecer estranho para quem não escreve, mas, quando você embarca num projeto literário assim, os personagens ganham vida própria. Você se vê chegando a um ponto em que alguma coisa estava prevista para acontecer, mas o personagem não quer fazer aquilo, ele tem uma idéia melhor.” 

Quase todo clichê parte de uma verdade básica.  Se não fosse fundamentado numa verdade, teria secado e caído do galho sem ter tido tempo de se transformar em clichê. Mas para entender a explicação, a gente tem que bancar o que Nelson Rodrigues chamava “o idiota da objetividade”, e dizer: Que diabo é isso de “o personagem quis”?  O personagem não existe, meu camarada. Só quem existe aí é você.

A verdade é que o personagem é criado por camadas diferentes da mente do autor. No início ele é apenas um rosto, um nome, uma função. O autor pensa nele, inicialmente, como alguém que vai aparecer na história e executar algumas ações. É a fase de esboço, que geralmente é feita de maneira analítica, distanciada, em que o autor bola a estratégia da história como um enxadrista.  Os personagens ainda não são pessoas, e só se distinguem uns dos outros pelas suas funções, como as peças do xadrez.

Na hora de escrever, entra em atividade outro setor da mente. O autor não vê mais o personagem de fora. Tem que “entrar” no personagem, imaginar as emoções dele, os pensamentos, as motivações, os desconfortos e sensações físicas dele (cansaço, um ferimento, fome, saciedade, atração sexual, etc.).  

E quando ele encarna no personagem essa totalidade humana, projetada de dentro de si mesmo, ele é forçado a levar em conta, de maneira coerente, inúmeros aspectos humanos em que não tinha pensado de início. Quando ele diz “o personagem quis agir assim”, está dizendo: “Somente quando eu comecei a trazer o personagem para uma ação real eu percebi que se ele fosse uma pessoa, sujeita a todas aquelas circunstâncias físicas e mentais, ele agiria diferente do que eu imaginei de início”.

Martin é consciente disso, e diz: 

“Você tem que obedecer ao personagem, em última análise, senão perde o senso de realidade, e o leitor perceptivo vai ver que seus personagens são apenas marionetes manipulados por cordões”.  

O primeiro esboço do personagem é feito pela mente analítica, mas quem redige as cenas, frase por frase, diálogo por diálogo, é a alma-camaleão do autor, psicografando a totalidade daquela pessoa fictícia.


domingo, 22 de junho de 2014

3532) Ser soldado (22.6.2014)



Acho que a maioria dos soldados tornam-se soldados, pelo menos em desejo e fantasia, por volta dos cinco ou seis anos de idade.  Se bem me lembro, nesse período tudo que o camarada sonha na vida é ser tranquilizadoramente coletivo, e assim ser grande, ser forte, ser capaz de ser brutal, poder ver o medo nos olhos de quem o avista, poder empunhar aqueles instrumentos terríveis cheios de raios e trovões.  O menino quer ser um Deus atemorizante e invulnerável. Só o soldado é assim.

Ser soldado não é ser preparado apenas para matar, mas também para controlar o medo de morrer. Mais do que um poder sobre a morte, ser soldado implica num poder sobre o medo.  Uma das cenas mais vibrantes de um episódio recente de Games of Thrones ((HBO, cuja 4a. temporada terminou há poucos dias) é quando um gigante inimigo consegue arrombar a entrada de um túnel numa fortaleza, e cinco soldados da Guarda Noturna entram no túnel para detê-lo. O monstro é gigantesco, e quando se aproxima eles, aterrorizados e de armas em punho, gritam juntos o juramento que fizeram ao se alistar ali: “A noite está chegando, e minha vigília vai começar! Ela não chegará ao fim antes da minha morte! Eu nunca terei esposa, nunca possuirei terras, nunca terei filhos!  Nunca usarei coroa, e não conquistarei glórias! Eu viverei e morrerei no meu posto! Eu sou a espada da escuridão! Eu sou o sentinela no alto da muralha! Eu sou o escudo que protege os reinos dos homens! Eu dedico minha vida e minha honra à Guarda Noturna, nesta noite e em todas as noites que virão!”.  E partem para a batalha desigual.

Para uns, ser soldado evoca, de cara, a “licença para matar”, o apelo ao carcará sanguinolento que habita o inconsciente de toda pessoa civilizada.  Para outros, evoca a nobreza de mandar e a de obedecer.  Para outros ainda, a diluição-em-pixel numa estrutura maior, onde é possível obter anonimato e paz.  Para outros, há um trabalho a ser feito, alguém precisa fazê-lo, então que o faça bem feito, não importa a que custos ou sacrifícios. Para outros, é a escada mais curta para um trono.

Game of Thrones mostra soldados que quebram seus votos por causa de uma mulher. Soldados que correm o risco da morte, e mais, da desonra, mas não quebram a palavra dada.  Soldados que ganham todas as batalhas e perdem a guerra. Soldados pusilânimes em tempo de paz e heróis em campo de batalha.  Soldados cruéis que dos outros só esperam a crueldade.  Soldados que têm somente a mais vaga noção de por quê estão lutando, mas já que estão ali para lutar, tornam a luta em si a coisa mais importante de suas vidas, algo que faz valer a pena enfrentar a morte.


terça-feira, 3 de junho de 2014

3515) Batatas e dragões (3.6.2014)



Li num websaite a respeito da série Game of Thrones, ambientada num continente chamado Westeros, que não tem nada em comum com a nossa Terra.  Não há nesse gigantesco épico planetário um só nome próprio que aluda às culturas da Terra, às religiões da Terra, às civilizações da Terra, à geografia da Terra.  Os nomes, mesmos compreensivelmente dóceis às formas ocidentais de pronunciar, são nomes sem história terrestre. (Se bem que muitos dos sobrenomes, desde Stark até Tyrell, são bem americanozinhos.)

Os fãs discutem a propriedade ou não das armas e das táticas de batalhas. (Isto é uma qualidade inerente ao ofício da guerra, ou é apenas um cacoete herdado de videogames onde “items”, etc são entesourados?)  Discutem os deuses (eles têm uma religião baseada no Sete, e não na Trindade, como nós), os idiomas (o domínio seguro de um idioma estrangeiro, ou a ausência disso, surge em momentos cruciais desta história). A certa altura (foi o que li), alguém questionou: “Eles dizem que comem carne com batatas. Ora, batatas não pertencem á Europa. A batata é da América. Como eles poderiam conhecer a batata, no grau de evolução tecnológica em que aparentam estar?”   E o autor do artigo comenta: “Peraí, pessoal.  Os caras estão escrevendo uma história com dragões, e vocês questionam a verossimilhança da batata?”.

Alguém diria que é em momentos assim que se dá a bifurcação entre quem gosta de ficção científica “hard” (o que cobra rigor nas batatas) e quem gosta de fantasia (para quem está tudo muito bem, desde que pareça fazer sentido).  Pra mim, não se trata de dois gêneros diferentes (embora estes existam), trata-se de duas mentalidades.  Os que veem uma história como um mecanismo onde tudo tem que se ajustar e precisa de justificativa; e os que veem uma história como uma reprodução de algo que acontece na vida.

A primeira impõe a exigência da necessidade, da exatidão, da inquestionabilidade, da obrigatoriedade de perfeição em cada detalhe e no conjunto da obra. A segunda é a mentalidade que é meio negligente, difusa, imprecisa, toda sujeita a falhas, autocorrigindo-se incessante e infatigavelmente, tendo sempre dez alternativas para cada gargalo estatístico que lhe surge à frente. Esta não precisa ganhar nota dez redonda; a história pode-se estragar, pode-se desperdiçar, pode raspar a pintura e amassar a lataria, o que importa é que, sendo história, a história aconteça, veemente, evocativa, com rasgos de grandiosidade e de aventura. Com dragões impossíveis ou batatas improváveis, é fantasia porque tem espadas, podia ser FC se assumissem que é outro planeta; mas sem história não tem história.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

3504) O Banco de Ferro (21.5.2014)



O Banco de Ferro só é de ferro simbolicamente. Na verdade ele é feito de números, uma linguagem diferente nos nobres ideais dos cavaleiros e fidalgos de casa real. O “real” deles não se refere a reis, mas a mil-réis, à contabilidade dos empréstimos, a dívidas, percentagens, financiamentos a prazo ilimitado e juros compostos, investimentos de olho no comportamento da coluna da direita, independente do que esteja descrito na coluna da esquerda. Os Bancos funcionam assim, desde os Templários e os judeus do Mediterrâneo até Wall Street.

O Banco de Ferro de Braavos começa a surgir na trama do seriado “Game of Thrones” (HBO). Por trás das batalhas, cercos e massacres de terra e mar que têm se sucedido no continente de Westeros, começamos a tomar conhecimento de uma guerra na surdina, uma guerra menos visível do que a dos estandartes e do fogo grego. É a guerra dos números. Quem deve mais do que pode pagar? Quem poderia vencer as batalhas militares, se tivesse mais capital? Quem pode se apresentar como um parceiro econômico mais favorável e lucrativo, independente de quem seja ou do que queira fazer com o que ganhar?

 
Corre o risco de o livro sexto ou sétimo das “Crônicas de Gelo e Fogo” vir a se chamar “Inside Job” ou “Margin Call”. Talvez seja uma idéia fixa de minha parte, um pesadelo-da-conspiração em que o mundo inteiro é um teatrinho que justifica e encobre a guerra de cifrões e ouro, a única real, a única que mexe no software das sociedades. Dez mil soldados podem ser degolados sem avanço militar significativo, mas dez mil moedas de ouro depositadas todas num mesmo ponto são peso suficiente para fazer mover alavancas gigantescas.

Os Lannister estão no poder, mas endividados, e por trás dos lambris e das tapeçarias da corte movimentam-se cifrões ágeis como répteis. Um reino sem ouro é algo tão artificial e sem fundamento quanto um cheque sem assinatura. A encenação do poder, mesmo capaz de brutalizar aqui, crucificar ali, massacrar acolá, não é nada sem lastro em padrão ouro. Para o Banco de Ferro, as conquistas militares alheias são verdadeiras festas. Todos recorrem a ele para pagar fantasias, alegorias, músicos, comida, bebida; uma guerra consome mais dinheiro do que um casamento real por dia. Alguém tem que pagar, e para pagar recorre a quem tem. “Quem tem” está muitas vezes financiando com a mão esquerda e vendendo os produtos com a direita. O Banco de Ferro não liga quem governe o continente, contanto que governe sob suas asas financeiras. O Banco de Ferro é uma ameaça tão subestimada e tão invisível quanto os dragões da Khaleesi, mas vai se tornando mais presente a cada temporada que passa.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

3482) Tempestade de espadas (25.4.2014)



A Storm of Swords é o terceiro volume das “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, em que se baseia a série de TV Game of ThronesA quarta temporada começou este mês, já com episódios de grande violência, puxadas de tapete de deixar de boca aberta o espectador, diálogos cortantes e imagens de alto impacto. Sempre temos que levar em conta, nessas adaptações, a enorme diferença entre a página escrita e a imagem filmada.  Uma coisa é você escrever o melhor diálogo do mundo na página: a única coisa de que precisa é um leitor inteligente o bastante para perceber o que o dialogo diz. Outra coisa é ver esse diálogo entregue a atores que no momento de falar aquelas palavras se tornam parceiros de criação, para o bem ou para o mal. A regra básica diz: um mau ator pode estragar o melhor diálogo, um bom ator pode pegar uma frase banal e enriquecê-la de significado. O ator é o ponto final da cadeia criativa, pode valorizar ou destruir tudo que foi feito antes.

Game of Thrones conta com bons atores, e mais do que performances excepcionais (são todas no nível B+ da TV) tem atores corretamente escalados para os papéis. Isso valoriza os ótimos roteiros, porque na TV não existe a preparação gradual de tensões dramáticas, os monólogos interiores, o acesso aos pensamentos íntimos dos personagens, que dão consistência aos livros. Martin é um escritor exuberante, não em termos de estilo, mas de imaginação dramática. Ao contrário da maioria dos romances de fantasia heróica, onde tudo parece “escrito nas estrelas”, seus livros nos dão a impressão de fazerem correções de rumo o tempo todo. Com cem páginas de intervalo, muda a balança do poder, mudam os interesses políticos, mudam as alianças pessoais, muda o caráter ou a disposição íntima dos personagens. E tudo se encadeia, porque numa terra onde só há duas leis, a política e a espada, ninguém tem certeza absolutas, principalmente quando são os personagens com certezas absolutas (leia-se: princípios morais inabaláveis) que são abatidos como carneiros.

Assassinatos em festas de casamento, sexo incestuoso em pleno velório, massacre de inocentes só pra mandar um recado a alguém, tortura, estupro: dito assim parece que o seriado é uma câmara de horrores, mas na verdade tudo isso não é mais violento do que uma guerra sertaneja ou uma tragédia shakespeariana. Game of Thrones é uma espécie de Macbeth elevado à sétima potência, e foi descrito por alguém como “O Poderoso Chefão na época do Senhor dos Anéis”.  O jogo dos tronos é o jogo do poder, e ninguém até hoje ganhou esse jogo de mãos limpas, seja de sangue, seja de dinheiro.


terça-feira, 25 de junho de 2013

3221) Marcelo Grassmann (25.6.2013)




Ele talvez tenha sido o primeiro artista fantástico brasileiro da minha vida. Em revistas, catálogos e suplementos literários as suas gravuras sombrias e detalhistas chamavam a atenção pelo traço característico e pela temática surpreendente. A arte brasileira tem dois troncos principais, o experimentalismo formal e o realismo social. Grassmann viajava num mundo gótico só dele, um mundo com cavaleiros de alabardas e elmos ameaçadores, de dragões e ogros, de abantesmas sem nome.  Suas gravuras estavam repletas de avejões noturnos com bicos sequiosos, larvas, florestas impenetráveis, castelos e torreões. Lembro de ter visto aqui e ali comentários desdenhosos que elogiavam sua técnica mas o consideravam “pouco brasileiro”. Sua arte, no entanto, era tectônica: ia nas placas profundas onde repousam tanto o Brasil quanto a finada Atlântida e o fictício Zothique.

Faleceu no dia 21 de junho passado, aos 87 anos. Foi um grande desenhista, e a parte mais significativa de sua obra está em gravuras em pedra e metal. Deixo ao Google a informação sobre seus numerosos prêmios e distinções. O que nos atrai em sua obra é esse clima expressionista e simbólico, cheio de Templários, fantasmas, ogivas, mastins. Diz ele: 

“Embora formalmente a Renascença tenha me dado muito mais que a Idade Média, a Idade Média era mais carregada de coisas interiores, a meu ver, do que a Renascença, que já começava com uma preocupação formalista, de estilo, maneira, de como encarar as coisas, mais do que quais as coisas a serem encaradas. Os flamengos adoravam fazer o inferno, porque no inferno havia a proposta de milhões de fantasias. Bosch, por exemplo, parte para toda aquela loucura de figuras dentro de armaduras, meio peixe, meio gente, meio cômico e, no fundo, eu sofri influências importantíssimas dele. O mundo de Bosch é cheio de diabolismos, de fantasias, de coisas que não são de todo mundo. Já a China me deu duas coisas: um dragão e alguns diabinhos. Os etruscos me deram pouca coisa, os egípcios me deram muito mais, com suas zoomorfias religiosas”.

É curioso que numa época como a atual, em que a Fantasia Heróica vem conquistando tantos leitores no país (através de séries como “O Senhor dos Anéis”, “Game of Thrones” e outras) a obra de Grassmann estivesse meio esquecida. Porque ele descobriu esse universo meio século atrás, e o cultivou com sensibilidade estética e uma certa sensualidade, que corria paralela com os monstros, com o lado tenebroso.  Foi o nosso grande fantasista, criando uma obra pessoal, sombria, mas cheia de inventividade, retornando, numa espiral insistente, aos temas, paisagens e seres que mais o atraíam.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

3210) A Tragédia dos Tronos (12.6.2013)




A série Game of Thrones pôs no ar recentemente o episódio “The Rains of Castamere”, que produziu um choque considerável no público. Sem revelar muitos detalhes, posso dizer que o episódio mostrou a morte violenta, em circunstâncias especialmente cruéis, de personagens muito queridos pelo público. Perdi a conta dos twitters e dos posts que vi, de pessoas reclamando em altas vozes (e muita gente chorando, com sinceridade) a morte dos personagens.  E uma queixa se repetia, em cada voz, em cada nome: “Odeio você, George R. R. Martin... Nunca mais quero assistir essa série de novo...”

E no entanto tenho certeza de que quase todos voltarão a assistir essa série que já matou outros personagens queridos e que a esta altura já deixou claro, mesmo para o mais obtuso dos espectadores, que vai matar muitos mais. Porque uma coisa de que mesmo o espetáculo popularesco não pode abrir mão é a tragédia. Por que motivo as platéias de Shakespeare gostavam tanto daquelas histórias onde nada dava certo, onde pessoas boas morriam mortes cruéis, onde namorados simpáticos por quem todo mundo torcia acabavam se matando por causa de um mal entendido?  Por que aquelas platéias rudes e ignorantes de meio milênio atrás voltavam para casa satisfeitas, após uma catarse tão deprê?  Que tipo de diversão é esse?

Disse o autor de A Song of Ice and Fire (o ciclo dos romances em que se baseia Game of Thrones): “As pessoas lêem livros por motivos diferentes. Alguns lêem para o seu conforto. E alguns dos meus ex-leitores disseram que sua vida é dura, a mãe está doente, o cachorro morreu, e eles lêem ficção para fugir. Não querem ser atingidos na boca por algo horrível. Quando se lê um certo tipo de ficção, onde o cara vai sempre ficar com a garota e os mocinhos vencem no fim, isso reafirma a você que a vida é justa. (...) Mas isso não é o tipo de ficção que eu escrevo, na maioria dos casos. Certamente não é o que ‘Ice and Fire’ é, que tenta ser mais realista sobre o que é a vida. Ele tem alegria, mas também tem dor e medo. Acho que a melhor ficção captura a vida em todas as suas luzes e trevas”.

Uma das funções da tragédia é restituir à arte a possibilidade de parecer com a vida. Sem os finais trágicos de uns filmes, os finais felizes dos outros se diluiriam entre si, numa só névoa de perfume barato. A tragédia de Romeu e Julieta precisa estar sempre visível no horizonte, para que cada filmezinho de amor com Hugh Grant e Julia Roberts possa ter seu final feliz, aquele final que nos garante que, daquela vez, a vida real ficou do lado de fora e não pôde entrar. A vida real que é sinônimo da inevitabilidade da morte.


terça-feira, 28 de maio de 2013

3197) Os Tronos do Sertão (28.5.2013)






A série Game of Thrones (canal HBO) exprime uma tendência atual da Fantasia Heróica de língua inglesa, que surgiu como uma resposta moderna às Novelas de Cavalaria que mostram heróis imaculados e vilões sórdidos, e a luta metafísica entre um Bem idealizado e um Mal pouco sedutor. 

Aos poucos, a Fantasia foi absorvendo o realismo psicológico do Romance Histórico. Um gênero menos moralista e mais pragmático, onde os personagens não têm ideais e sim interesses, e onde tanto um herói quanto um vilão são, no dizer de Olavo Bilac, “capazes de horrores e de ações sublimes”.

O paralelismo com a política moderna emerge a cada passo. Quando Tyrion Lannister examina as contas dos Sete Reinos e descobre o seu gigantesco endividamento, ele se queixa da imprudência do ex-chefe da Casa da Moeda, Lord Baelish: “O ouro dos Lannister vem das nossas minas, mas o ouro dos Reinos é criado por ele simplesmente estalando os dedos”. 

Quem escreveu isto sabe que a bolha financeira, muito maior que o planeta Terra, em cuja superfície estamos construindo nossa economia de superconsumo e superdesperdício, foi criada exatamente assim.

Em sua trama para tornar-se rainha, Margaery Tyrell promove “trabalhos assistenciais” junto aos descamisados de King’s Landing, alimentando os pobres. 

Na cena magnífica em que ela convence seu noivo, o Rei Joffrey (odiado e desprezado por todos) a chegar à sacada, o Rei fica desnorteado ao receber uma gigantesca ovação, e mais ainda ao perceber que a ovação não é para ele, é para ela, que a multidão adora. “Don’t cry for me, King’s Landing”: faz tempo que eu não vejo a história de Evita Perón sintetizada com tanta nitidez.

Quem é heróico ali? Ninguém. Todos são como nós. Os personagens mais éticos (Ned e Robb Stark, p. ex.) são forçados pelas circunstâncias a atitudes suicidamente ingênuas ou a decisões cruéis. Os mais divertidos e cheios de recursos, como Tyrion, estão mais próximos da crueldade de Cancão de Fogo do que da pureza de Sir Galahad. 

É uma história de clãs sertanejos, de famílias em luta pela terra, de alianças e rompimentos, de ódios que se incendeiam ao som de um sobrenome. Uma história de “potentes chefias”, como dizia Guimarães Rosa, e que tem uma ressonância especial a quem leu ou folheou uma obra como o colossal estudo de Linda Lewin, Política e Parentela na Paraíba (Ed. Record, 1993). 

Porque nosso belo e sofrido Estado tem sido criado e destruído, sucessivamente, pelas guerras ancestrais, pelas alianças traiçoeiras e os matrimônios turbulentos entre os Lannister, os Stark, os Targaryen, os Greyjoy, os Baratheon, os Tyrell, os Frey, os Tully...






terça-feira, 2 de abril de 2013

3149) Um Jogo de Tronos (2.4.2013)




Recomeçou a série Game of Thrones pela HBO, movimentando um enorme fã-clube mundo afora, inclusive no Brasil.  Já me referi à série em artigos anteriores (aqui: http://bit.ly/10fKNKO, http://bit.ly/XRJr5Z, http://bit.ly/KHji6y, http://bit.ly/O5994l), e não custa nada repassar alguns aspectos importantes dela. 

O primeiro é o fato de que o mundo de Westeros, onde ela acontece, não tem relação visível com o nosso (Tolkien também era assim). A geografia, a história, a cultura de Westeros, tudo isso é criado a partir do zero pelo autor George R. R. Martin. Já é uma façanha fazer isso num romance; o que dizer de uma série de 5 romances (até agora), cada um deles variando entre 600 e 900 páginas?  

Não é fácil sustentar uma história onde é preciso inventar todas as religiões, todas as genealogias, todos os países, e assim por diante, com dezenas de protagonistas e centenas de personagens importantes pertencendo a uma dúzia de culturas/nações diferentes.

Outra coisa que seduz na série é a sua política, que, diferentemente de Tolkien – cuja moralidade é estritamente medieval, maniqueísta, idealizada – tem um cinismo e um realismo que a fazem tão moderna quanto qualquer luta pelo poder em Brasília ou em Wall Street. 

Na primeira temporada, a morte de Ned Stark anunciou que naquele mundo não há lugar para alguém que comete o pecado de ser ingênuo, de não ter traquejo político, e de não saber praticar “direção defensiva” no meio das raposas traiçoeiras da intriga palaciana. Stark era um personagem simpático mas ridiculamente fora de moda; sua inocência ética me lembrou o Rocco de Rocco e seus irmãos de Visconti. Um sujeito tão determinado em ser bom e honesto que destrói tudo que tentava defender. 

O mundo se encaminha para um terreno ético em que o Bem não pode ser mais defendido pela pureza de coração. Estamos adentrando um mundo manipulado por enganadores, por gente maquiavélica, por serpentes que roubam por instinto e matam por reflexo. Só quem pode salvar o Bem é a Malandragem: a capacidade de ser mais malicioso do que o Mal, de combater o gelo com o fogo e o fogo com o gelo.

Uma terceiro aspecto sedutor da série é de natureza técnica: uma complexa cena de negociação política e cabo-de-guerra psicológico é resolvida em um minuto, coisa que muitos filmes glosariam durante um tempo interminável. 

Excelentes diálogos, atores incisivos e intensos, cortes nos momentos precisos; a narrativa de Game of Thrones, onde uma temporada tem dez episódios de menos de uma hora cada, poderia dar lições de compactação narrativa a muitos filmes de hora-e-meia que passam por aí.




terça-feira, 17 de julho de 2012

2925) Os reis e os tronos (17.7.2012)




Entre as numerosas críticas que tenho lido sobre Game of Thrones uma das mais ácidas e mais divertidas foi a de Laurie Penny no New Statesman (http://bit.ly/KqW2f6). 

Ela começa descrevendo a série como “um coquetel reluzente de estupros, sexo gratuito e ultra-violência”, depois opta por “uma saga cripto-medieval de monstros míticos, seios arfantes, intrigas palacianas e baldes de sangue”, e mais adiante vê sinais de uma “cultura de estupro racista misturando Disneylândia com Dragões”. 

Que o leitor não a leve a mal: ela gosta da série.  Mas, como todo crítico que se preza, ela sabe que não é porque a gente gosta de uma coisa que essa coisa é boa. 

Um crítico não é um sujeito que só gosta de coisas boas, é um sujeito capaz de ver com distanciamento as coisas que considera boas ou ruins.

Penny constata que a série retoma um mito persistente da nossa cultura: A Busca do Bom Rei, e seu subtema A Formação do Bom Rei.  Westeros é um continente meio medieval, com vários reinos submissos a um reino central, o do Trono de Ferro em King’s Landing. 

Todos esses reis têm doses variáveis de loucura, mania homicida, ambição descontrolada, ressentimento mútuo, etc.  Manter a lealdade de todos só é possível com subornos e ameaças.  

É um reino onde nobres idealistas como Ned Stark acabam demonstrando, à própria custa, a impossibilidade de se viver de acordo com os elevados preceitos da cavalaria. É preciso ser mais raposa que as raposas, mais serpente que as serpentes; é preciso mentir, trair, ameaçar, subornar, matar – com presteza e sem escrúpulos.

Num contexto assim, como encontrar o Bom Rei, o que consiga a síntese entre nobres ideais e prática eficiente, entre envergadura moral e habilidade política? 

Laurie Penny torce o nariz para o conceito de Bom Rei, herança de milênios de monarquia.  A qual (agora sou eu) foi substituída por séculos de repúblicas presidencialistas. Um presidente não é mais que um rei de paletó e com prazo de validade. É um símbolo, uma encarnação terrena de um poder divino (quem foi que disse que nosso Estado é laico?). 

Vivemos em busca do Governante Ideal, achando que é mais fácil encontrar um ser humano perfeito do que conceber uma forma de administração pública que não se baseie no carisma de um candidato e nas suas venetas depois de empossado. Daí o fato de que temos cada vez mais “atores” e menos administradores ocupando os cargos de Poder (com exceções, é claro.) 

Ainda vamos precisar de muita banda-larga até construir um sistema pelo qual o Povo governe a si mesmo, e então nossas eleições pseudo-democráticas nos parecerão tão anacrônicas quando as guerras feudais de Westeros.

terça-feira, 5 de junho de 2012

2888) "Game of Thrones 2" (5.6.2012)




A temporada 2 de Game of Thrones encerrou-se com dois episódios bem diferentes. O 9, “Blackwater”, mostrou o cerco de King’s Landing pela esquadra de Stannis Baratheon: a aproximação dos navios, a batalha em mar, a batalha em terra, o triunfo final dos defensores.  Obedecendo a uma unidade de tempo e de espaço que acho ser rara em séries desse tipo, o episódio se pareceu mais com um filme do que com uma série (e a gente diz isso como antigamente dizia: “nesse momento, o filme fica parecendo uma peça teatral”).  No episódio 10, “Valar Morghulis”, a ação voltou a se multiplicar pelas várias aventuras simultâneas. Gente caiu e gente subiu ao poder. Longe dali, pouca gente se importava.

Duas das histórias secundárias ganharam força, e acabam sendo duas investidas de dois gêneros diferentes contra um terceiro que está no poder.  Game of Thrones é uma fantasia heróica de configuração medieval, como as obras de Tolkien e tantas outras. É fantasia no sentido de que decorre num mundo imaginário onde não existem as nações da Terra, as religiões da Terra, as referências da Terra. Dentro dessa estrutura, deverão ganhar força na temporada do ano que vem duas “invasões genéricas”: a espada-e-feitiçaria através de Daenerys, a lourinha dos dragões; e o horror através dos Caminhantes Brancos, os zumbis de além-Muralha.

O seriado tem personagens que na tela, mesmo talvez não tão bem esmiuçados quanto no livro, parecem plausíveis e às vezes surpreendentes, pela malícia do seu pensamento e pela ocasional nobreza de suas ações. A intriga cortesã e todo o xadrez das traições políticas são bem armados, embora alguns personagens ainda sejam muito de-uma-nota-só.  O anão Thyrion perdeu poder mas ganhou respeito entre as tropas, o que nas histórias de conspirações militares sempre ajuda. Robb Stark, o imperador do Norte, tinha provado ser melhor general do que se esperava, e agora vai ter que provar que é marido. A guerreira Brienne está conduzindo Jaime Lannister, numa situação meio sargento-getúlio, rumo a um destino ignorado, porque antes disso pode um matar o outro, ou podem acabar se casando. Os dragões de Daenerys virão aquecer uma possível situação de calmaria, assim que Lannisters, Greyjoys, Starks etc. consigam um naco suficiente do que estão querendo; aí, sai a parafernália Tolkien e entra a de Anne McCaffrey.  A menina Arya viverá mais aventuras dickensianas nas senzalas dos castelos, antes de empunhar a espada e abrir caminho até o rei Joffrey.  E vem por aí uma ameaça de além da Muralha, que vai mostrar um problema de verdade e a enorme infantilidade e irrelevância do jogo dos tronos e do choque dos reis.