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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

5107) Kris Kristofferson, 1936-2024



 
Uma das lendas que se contam sobre Kris Kristofferson é que ele trabalhava de faxineiro num estúdio de Nashville para poder se aproximar de cantores ou bandas, e interessá-los nas suas canções. Limpando os cinzeiros cheios de baganas, varrendo o chão, arrastando amplificadores, esticando fios, ele ia se aproximando dos músicos, amparado naquele jeitão de caipira simpático, até aquele momento, no balcão da lanchonete do estúdio, em que podia enfiar a mão no bolso do macacão e puxar uma letra rabiscada: “Bem, por falar em composições...” 
 
Deve ser verdade, porque ele de fato fez esse trabalho; mas a esta altura ele já ganhara um diploma em Literatura Inglesa por Oxford (com dissertação sobre William Blake) e tinha sido piloto de helicóptero no Exército, de modo que a faxina não era exatamente por falta de oportunidades ou de qualificação. 
 
Kristofferson, que morreu no sábado passado, aos 88 anos, teve uma carreira irregular, tanto como músico quanto como ator de cinema. Em casos assim, são os pontos altos que fazemos questão de lembrar. Por que? Talvez porque coisas ruins qualquer um de nós é capaz de fazer, mas quantos de nós serão capazes de compor uma canção como “Me and Bobby McGee”? 
 
Aqui, a clássica gravação de Janis Joplin
https://www.youtube.com/watch?v=sfjon-ZTqzU





Uma canção-de-estrada que ficou clássica, todo mundo gravou (eu não gravei, mas fiz uma versão), mas o primeiro Grammy lhe chegou às mãos com “Help Me Make It Through The Night” (Melhor Canção Country). 
 
Aqui, na voz do próprio:
https://www.youtube.com/watch?v=CksF7Kr7Drw
 
Virou referência dentro da música country à qual ele trouxe algo de um folk-rock claramente urbano, cosmopolita, intelectual. Mas suas imagens nunca foram sofisticadas como as de Bob Dylan e companhia. Nick Cave o citou na canção “Frogs”, e explicou a citação em sua newsletter The Red Hand Files (# 289): 
 
“Kris Kristofferson passa por mim, chutando uma lata / com uma camisa que ele não lava há anos...”  Os fãs da música country irão entender esta referência à grande canção de Kristofferson sobre desolação espiritual, “Sunday Morning Coming Down”, na qual o narrador acorda num domingo de manhã, esgotado e com a maior ressaca, e veste “a mais limpa das camisas sujas”. Pode pesquisar.
(trad. BT) 
 
Como ator, ele nunca foi um Marlon Brando, e era modesto ao avaliar seu trabalho. Dizia que só aceitava um papel se entendesse o roteiro e o personagem; e depois tentava ser o personagem diante das câmeras. Foi mais ou menos o que fez nos filmes que vi com ele. 
 
Tinha aquele ar à vontade de quem está confortável no próprio corpo; e aquela masculinidade tranquila de quem exerceu muitas tarefas braçais e leu bastante. Uma coisa compensa os defeitos da outra, não é verdade? Era daquele time de atores que inclui Brando, Nick Nolte, Josh Brolin... Uma amiga minha dizia que ele “era masculino sem precisar fazer força”. 



(Kristofferson e Bob Dylan em Pat Garrett e Billy the Kid)
 
 
Vou procurar aqui se ainda tenho o DVD de Pat Garrett and Billy the Kid (1973, Sam Peckinpah), um filme curioso que não é uma grande obra cinematográfica, não tem uma trilha sonora excepcional (a não ser pelo clássico “Knockin’ on Heaven’s Door”), não é o melhor filme de seu diretor (eu votaria em The Wild Bunch) nem tem interpretações memoráveis do elenco: mas, com todos os seus defeitos é uma obra marcante. Por quê, ninguém sabe até hoje. 
 
Kristofferson fez nesse filme o papel título de Billy The Kid, o famoso assassino que matou 21 homens antes de morrer aos 21 anos de idade. Billy era um desses bandidos sem nenhuma faceta redentora: era só bandido mesmo, bandido cruel e meio obtuso, sem revolta social, sem atitudes românticas. O cinema tentou modificá-lo mais de uma vez. 
 
Para fazer a trilha sonora do filme, Kristofferson e seu empresário Bert Block convidaram Bob Dylan – de quem KK se tornara amigo desde os tempos dos estúdios de Nashville. (Há relatos de que na canção “Lay Lady Lay”, do álbum Nashville Skyline, era Kristofferson quem segurava o bongô tocado pelo baterista Kenny Buttrey.)   
 
Dylan hesitou, mas acabou aceitando depois que assistiu alguns filmes do diretor: Meu Ódio Será Tua Herança (“The Wild Bunch”), A Morte Não Manda Recado (“The Ballad of Cable Hogue”), Sob o Domínio do Medo (“Straw Dogs”) e principalmente Pistoleiros do Entardecer (“Ride the High Country”). 
 
Para fazer o papel do pistoleiro de 21 anos, Kristofferson, então com 37, teve que raspar a barba, o que, aliado ao seu rosto largo, acabou lhe dando um aspecto de “bebezão” no filme. Dylan, pequeno, meio desajeitado, barba rala, roupas desarrumadas, faz o papel de “Alias”, um coadjuvante sem muito a fazer, mas que visualmente lembra muito mais a figura de Billy. 


(Billy The Kid)



(Dylan como "Alias")


As filmagens foram um caos, e apenas duas coisas prenderam Dylan (a esta altura um astro-pop, milionário) até o fim. A primeira é que ele resolveu considerar este trabalho um curso informal e gratuito sobre como dirigir um filme – lições que ele iria pôr em prática depois, no não-muito-bem-sucedido Renaldo e Clara. A segunda foi a amizade com Kristofferson, que o ajudou a aguentar as explosões machistas e temperamentais do diretor. 
 
Diz Howard Sounes, em Dylan, a Biografia (Conrad, 2002, trad. Leila de Souza Mendes): 
 
Dylan e Kristofferson estavam na sala de projeção assistindo um copião quando Peckinpah mijou por toda a tela porque a imagem estava fora de foco. “Eu me lembro de Bob se virar e olhar para mim na reação mais adequada do mundo, sabe como é, em que diabo nós nos metemos”, diz Kristofferson. 
 
O que não impediu que ele voltasse a trabalhar com Peckinpah anos depois, no papel principal de Comboio (“Convoy”, 1978), onde ele faz um motorista de caminhão que se envolve numa rebelião coletiva de caminhoneiros perseguidos por policiais. A insurreição, violenta e festiva, guiada por rádio, lembra Corrida Contra o Destino (“Vanishing Point”, Richard Sarafian). 
 
Foi um dos últimos filmes do caótico Peckinpah, mas que David Thomson (A Biographical Dictionary of Film, 1981) considera “o filme mais descontraído de todos os que fez, flagrantemente bobo em sua dramatização da canção de C. W. McCall, mas divertido, com o aspecto de uma balada tradicional, e imbuído de um senso da beleza do deserto e do espetáculo dos caminhões, que lembram uma justa entre cavaleiros medievais”. 
 
De pistoleiro do faroeste a caminhoneiro, Kristofferson se dedicou a personagens parecidos com ele, rudes, aventureiros, lúcidos na avaliação das situações em que se metem, impulsivos o bastante para persegui-las até o fim, impondo-se em qualquer ambiente com uma presença masculina capaz de fazer os homens darem um passo atrás e as mulheres darem um passo à frente. 
 
Como compositor, foi sempre um rapaz da música country, das melodias simples dedilhadas no violão de cordas de aço, mais próximo de Tin Pan Alley do que do Greenwich Village, mas igualmente à vontade em ambos. Durante algum tempo fez parte do supergrupo “The Highwaymen”, um quarteto de pesos-pesados da música country. 



(The Highwaymen: Willie Nelson, Kris Kristofferson, Johnny Cash e Waylon Jennings)

 
Na juventude, Kristofferson tinha ambições de se tornar escritor – e quem não tem? Aos 18 anos, duas histórias suas foram premiadas num concurso do Pomona College, onde estudou. As duas (publicadas depois no Atlantic Magazine) podem ser lidas aqui: 
 
https://kriskristoffersonfan.com/sample-page/biography/kris-kristofferson-short-stories/
 
Sempre bem-humorado, ele recordava com gosto seus tempos de estudante e dizia: “Acho que eu e Bill Clinton conseguimos desfazer quaisquer ilusões que as pessoas tivessem sobre o brilhantismo dos alunos do Pomona College”. 
 
 
 
 
 
 



sábado, 6 de maio de 2023

4939) Nick Cave e a coroação do Rei Charles (6.5.2023)




No próximo sábado (estou escrevendo na 4ª. feira, dia 3) o Rei Charles da Inglaterra vai ser coroado, e o Reino Unido fervilha de piadas, memes, debates, fofocas.  Para isso servem as monarquias, afinal – para tirar dinheiro dos turistas, e para aquecer as fantasias-de-poder das multidões. 
 
A monarquia é puro espetáculo. O Império brasileiro, por exemplo, teve um imperador playboy, pegador e voluntarioso. Foi substituído pelo filho – intelectual, conciliador, severo, mas que mesmo assim não abominava o espetáculo. O Baile da Ilha Fiscal não foi apenas o símbolo do fim de uma era, foi o adeus à pompa e a frivolidade do reino para dar lugar à rudeza e ao suor da caserna. 
 
E os dois não estão assim tão distantes um do outro, porque as monarquias são construídas no fio das espadas e no fundo das alcovas. Já dizia o impagável Pedro Dinis Quaderna, de Ariano Suassuna, no Romance da Pedra do Reino (1971):



“Pode dizer, Excelência!  Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta!  Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto.  Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa.  Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Álvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre!  Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha!” (Folheto 53) 
 
Satirizar a espetacularização do poder e a glamurização da banalidade é um dos esportes favoritos de escritores, intelectuais, artistas em geral. E quando o roqueiro Nick Cave, um dos expoentes do dark rock de língua inglesa, foi anunciado dias atrás como um dos convidados para a coroação de Charles, houve no meio roqueiro um certo movimento sísmico de incredulidade e deboche. 
 
Nick Cave distribui periodicamente uma newsletter, The Red Hand Files, onde troca idéias com seus admiradores, responde perguntas, discute questões propostas. E no número 235, já agora nos primeiros dias de maio, ele reproduziu as mensagens de espanto de alguns fãs: 
 
-- Que diabos, você vai pra coroação do Rei?  (Jon)
-- Fiquei sabendo que você vai para a coroação, fazendo parte da delegação da Austrália. Você é monarquista? Por que está indo? (Adrian)
-- A co-ro-a-ção?  Fala sério. (Roger)
-- Nick Cave vai à coroação? O que será que o jovem Nick Cave ia pensar disto?! (Matt)
 
Com a sisudez e a franqueza de sempre, o roqueiro respondeu (tradução minha):
 
Caros John, Adrian, Roger e Matt:
Vou dar uma resposta breve, porque ainda estou escolhendo uma roupa para usar na Coroação.
 
Não sou monarquista, nem sou roialista [Nota do tradutor: neologismo português recente], como também, por falar nisto, não sou o mais ardente dos republicanos. O que também não sou é espetacularmente desinteressado pelo mundo e pela maneira como ele funciona; não sou tão ideologicamente sequestrado nem tão ranzinza a ponto de recusar um convite para (talvez) o evento histórico mais importante no Reino Unido em nossa geração. Não apenas o mais importante, mas o mais estranho, o mais bizarro.
 
Encontrei a falecida Rainha uma vez, no Palácio de Buckingham, num evento dedicado aos “Australianos Mais Promissores Morando no Reino Unido” (ou coisa parecida). Foi uma ocasião meio canhestra, mas a Rainha em pessoa, vestida num conjunto cor de salmão, parecia quase extraterrestre, e era a mulher mais carismática que conheci. Talvez fosse a iluminação, mas ela de fato emitia uma espécie de brilho. Quando contei a minha mãe – a qual tinha a mesma idade da Rainha e, como ela, morreu com mais de 90 anos – a respeito dessa ocasião, seus velhos olhos se encheram de lágrimas. 
 
Quando acompanhei o funeral da Rainha pela TV no ano passado percebi, para meu próprio pasmo, que também eu estava chorando quando retiraram do ataúde a coroa, o orbe e o cetro, e o abaixaram para a abertura sob o piso da catedral de São Jorge. Estou tentando dizer a vocês que, para além do interminável mas necessário debate sobre a abolição da monarquia, tenho um inexplicável vínculo emotivo com a família real – sua estranheza, e a natureza profundamente excêntrica de todo esse fenômeno, o qual reflete com perfeição a bizarrice inigualável da próprio Grã-Bretanha. Eu simplesmente sinto uma atração por esse tipo de coisa – tudo que é bizarro, estranho, extraordinariamente espetacular, tudo que nos deixa pasmos.  
 
Quanto ao que o jovem Nick Cave iria pensar... bem, o jovem Nick Cave era, com todo o respeito ao jovem Nick Cave, jovem, e como muitos outros jovens, era ligeiramente insano, e eu procuro ter uma certa moderação ao usá-lo como parâmetro para o que eu devo ou não devo fazer. Mas era um cara legal, eu tenho que admitir. Era insano, mas era um cara legal.
Com tudo isto em mente, estou me preparando para ir à Coroação. Acho que vou de terno.
Com amor, Nick


 
Sou um admirador de Nick Cave, um dos grandes poetas do rock em sua geração. Ele é uma espécie de Edgar Allan Poe com auto-controle. Tem a fagulha demoníaca, a vulnerabilidade angelical, o cinismo neo-urbano, o romantismo temperado pelo senso da fatalidade, a influência má dos signos do Zodíaco. E é australiano, ou seja, vem de uma espécie de Brasil-do-império-britânico, um país posto de pé com o muque de degredados, bandidos, fanáticos, aventureiros, religiosos de maus costumes, fidalgos de má reputação.
 
Pior que o Brasil, aliás, porque o Brasil pelo menos tem amazônias inteiras para vender. Teve madeira, ouro, açúcar, diamantes; hoje tem petróleo e floresta. Já a Austrália (posso estar sendo injusto, claro) é um deserto de sal, que o ser humano tenta comer pelas beiradas e ainda não conseguiu.


 
Bruce Chatwin, em The Songlines ("O Rastro dos Cantos", Companhia das Letras, 1987), mostra a Austrália como uma mistura de sítio arqueológico e solo sagrado ao ar livre, invadido e depredado aos poucos. Werner Herzog, amigo de Chatwin, glosou o mesmo mote em filmes como Nomad (2019) e Onde Sonham as Formigas Verdes (1984).
 
Neste último, ele mostra o confronto às vezes violento entre os aborígines australianos, defensores de seus sítios religiosos, e as construtoras e mineradoras européias, vindas para passar o trator, a dinamite e a escavadeira naquilo tudo. Em algumas cenas de tribunal, discutem-se os respectivos direitos, e os aborígines precisam vestir ternos para defender seu território diante de um juiz britânico.
 
“Acho que vou de terno” (Nick Cave)


(Roy Marika e Wandjuk Marika, em Onde Sonham as Formigas Verdes)

 
Dizem que quando D. Pedro II estava exilado em Paris, no fim da vida, fez uma visita a Victor Hugo, a quem admirava muito. Os dois conversaram de maneira sisuda e cortês sobre temas literários. À saída, Hugo o tratou por “Majestade”, e D. Pedro respondeu: “Só há uma majestade aqui, e é Victor Hugo”.
 
Wilson Martins comenta que esta resposta foi dada com mais malícia do que parece à primeira vista, mas eu, como tenho cabeça de romancista, posso imaginar que foi sincera, assim como posso imaginar o Rei Charles III apertando a mão de Nick Cave e tratando-o por “Majestade”. Depois de toda a esculhambação a que o rock britânico já submeteu a monarquia, seria uma vingançazinha divertida.


 
(Príncipe Charles e Princesa Diana visitando Uluru (“Ayers Rock”), sítio sagrado dos aborígines australianos, 1983)