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terça-feira, 15 de maio de 2018

4347) Literatura e perversão (15.5.2018)



Vou logo avisando que no presente artigo as expressões “pornografia” e “perversão sexual” estarão sendo empregadas sem a menor intenção pejorativa.  Considero a literatura pornográfica um gênero literário tão válido quanto qualquer outro, e as perversões fazem parte, em graus variados, da vida sexual tanto da maioria quanto da maioria das minorias.

O que é pornografia?  Os críticos tentam distinguir entre uma pornografia “propriamente dita” e a pornografia com ambições literárias, como certas obras de Georges Bataille, Pierre Louys, Henry Miller, etc.  A única distinção que acho é que na pornografia-propriamente-dita o único objetivo é excitar.  Na pornografia literária, as cenas de excitação são entremeadas com narrativas, dramatizações, enredo, desenvolvimento de personagens, discussão de idéias, etc., por mais “gráficas”, “explícitas” que sejam as cenas de sexo.

Ou seja, a pornografia literária é um romance como qualquer outro onde acontecem cenas de sexo “tórridas”, descritas graficamente. Como as coisas são na vida real. Na maior parte dos outros livros, usam-se subterfúgios: “Foram para a alcova e apagaram as luzes. Na manhã seguinte...”.

O critério para distinguir os dois é o fato de que as obras ditas “literárias” contêm algo que os aficionados da pornografia propriamente dita consideravam encheção de lingüiça.  Contém literatura. Em salas de exibição de filme pornô, já vi a reação das platéias diante de filmes pornô-chique tipo Emmanuelle, impacientes diante das longas cenas de conversa, de viagens, de jantares elegantes: “Vamo lá, porra!  Vim aqui pra ver foda!” 

A pornografia é uma literatura pervertida, não porque mostre cenas explícitas de sexo, mas porque é uma literatura obcecada, com idéia fixa, uma literatura que mostra somente isso.  O leitor quer ver somente isso, e recusa com veemência qualquer outra coisa, não importa o quê. 

Ele veio ao filme (ou comprou o livro, a revista) apenas para ver isso, para ver cenas que o excitem, e qualquer cena realizada com outro objetivo lhe parece uma enganação, uma venda de gato por lebre, uma perda de tempo e de dinheiro.

Curiosamente, não é apenas a literatura pornográfica que cultiva esta atitude.  A maioria das literaturas de gênero também o faz.  A literatura de gênero se caracteriza por um conjunto de convenções onde determinados elementos são obrigatórios. No caso do western, aventuras numa ambientação histórico-geográfica. No romance policial clássico, um crime que precisa ser resolvido (e o autor não deve perder tempo com “historinha de amor”, discussão de problemas sociais, etc). E assim por diante.

Podemos também ver nos gêneros as convenções de origem, que deram origem à criação do gênero, e as convenções secundárias, que resultaram da evolução histórica do próprio gênero. 

No caso do western, a convenção de origem é a ambientação histórico-geográfica numa época e numa região específicas dos EUA.  As convenções secundárias são os temas, situações e personagens que foram se cristalizando ao longo de décadas: o xerife que enfrenta bandidos mais numerosos; o pistoleiro solitário; o cerco dos índios aos carroções; o duelo frente a frente para ver quem é mais rápido no gatilho... São uma espécie de figuras de linguagem que crescem no interior do gênero, e que começam a ser aceitas tacitamente pelo público, e mesmo aguardadas com expectativa.

Existem leitores inveterados de westerns que querem apenas acompanhar a trama, e se aborrecem se as digressões históricas e o aprofundamento de personagens se tornar muito forte dentro do livro. 

O mesmo ocorre com leitores de romances detetivescos: muitos autores da Era Clássica do Romance Policial desaconselhavam o aprofundamento psicológico dos personagens ou as preocupações estilísticas, porque afastam o autor da função principal, que é o puzzle criminoso. 

O mesmo se dá com a ficção científica, onde muitos autores e críticos também desaconselham as extrapolações “literárias”, devendo a narrativa se concentrar nos aspectos ciencificcionais da história.

Sempre que se publicam “decálogo das regras do gênero X”, esse aspecto infalivelmente aparece. As famosas “guidelines” das revistas profissionais norte-americanas e inglesas sempre voltam a esse ponto, aconselhando o escritor novato: não perca seu tempo contando coisas que não sejam caracteristicamente do gênero. Vá direto ao ponto. O leitor não quer perder tempo, quer ver o que já espera que vai ver.

Estas atitudes reproduzem de modo muito semelhante a atitude do leitor de pornografia, que quer ver apenas a descrição gráfica de atos sexuais e se impacienta com qualquer coisa que se afaste disso.

É uma concentração obsessiva num único aspecto da história, e isso tem a ver com as perversões sexuais, que são (de modo genérico) uma concentração obsessiva num único aspecto do sexo.  O fetichismo dos pés, o BDSM (bondage-domination-sado-masoquista), o voyeurismo, tudo isto são facetas da sexualidade que a maioria das pessoas ditas normais cultiva em certa medida. Em alguns casos, no entanto, se tornam perversões exclusivas.  A única maneira de conseguir excitação e prazer.

Quando o voyeur só consegue sentir prazer através do voyeurismo, ele nega toda a variedade possível do ato erótico para se concentrar num único aspecto.  Qualquer outra coisa é insuficiente para dar-lhe prazer, para despertar seu interesse.  Tem-se a impressão de que diante de tudo o mais ele dirá: “Chega, não me interessa, nada disso me interessa – vamos à única coisa que realmente importa.”

É uma atitude muito parecida com a do aficionado pela literatura de gênero, ou mesmo pela literatura mainstream, que recusa-se a absorver qualquer mistura de experiências, e exige que a literatura se concentre numa área muito limitada de convenções específicas.  As que ele aprendeu como sendo “a maneira certa de fazer literatura”. Ou a maneira certa de fazer “a literatura que eu gosto”.

Assim como o consumidor de pornografia, ele é um leitor pervertido. Quer ver apenas uma coisa, e recusa com veemência o que considera “conversa jogada fora”.












segunda-feira, 19 de novembro de 2012

3034) Emmanuelle (18.11.2012)





Faleceu aos 60 anos, em outubro, a atriz Sylvia Kristel, a Emmanuelle dos filmes eróticos mais famosos da década de 1970. Estava envelhecida e cansada após uma luta de dez anos contra o câncer.  A imagem que fica é a da mulher esguia, elegante, frágil, sensualmente passiva, que nos filmes de Just Jaeckin se submetia a lições de erotismo ministradas por um homem mais velho, as quais incluíam ser levada a um antro de ópio e oferecida aos homens de lá.  Emmanuelle fez sucesso reproduzindo a pornografia tradicional numa narrativa não limitada às cenas de sexo, e com um revestimento sofisticado e cosmopolita, para tentar reduzir a vulgaridade e a brutalidade associadas ao gênero, principalmente pelas mulheres.  O conceito de pornografia soft tentava somar dois públicos, o de pessoas ansiosas para ver sexo explícito na tela do cinema e o de pessoas que só admitia ver esses filmes se embalados num celofane chic de paisagens, ambientes ricos, diálogos vagamente existenciais, etc.

O obituário do The Economist lembra que as cenas de sexo de Kristel eram quase sempre em “flou”, diluídas visualmente por cortinados, vapor dágua, etc., e que a mãe da atriz, quando finalmente conseguiu ver o filme que fez a fama da filha, perguntou: “Mas era só isso?”.  O mesmo texto lembra que o filme foi proibido em alguns países: Brasil, Espanha, Japão e o mundo árabe. As várias continuações que o filme teve (inclusive na TV) foram, pelo que me lembro, diluindo em banalidade a proposta inicial.

Um dos grandes problemas da narrativa erótica (romance, cinema, etc.) sempre foi o modo de abordar e conquistar o público feminino. A pornografia tradicional tem por lei ir direto aos finalmentes, ao intercurso sexual nu e cru, sem preliminares, sem preparativos, sem fricotes.  Nos cinemas pornô, se um casal no filme passar um minuto conversando alguém protesta logo: “Bora, rapaz! Quero ver serviço!”  A lógica do espectador é que pagou para ver aquilo que não vê nos outros filmes.  Pra ver gente conversando ele não precisa ir naquele cinema.

Já as mulheres são capazes de aceitar até cenas bastante “hardcore”, desde que haja preliminares, e que o sexo pelo menos pareça associado a um tipo mais amplo de envolvimento, e não se limite à mecânica brutal das genitálias. O sucesso de 50 Tons de Cinza, escrito aliás por uma mulher, é um passo à frente na consolidação de um dos gêneros de mais futuro no mercado: pornografia explícita feita para mulheres, revestida dos álibis necessários e partindo daí para explorar fetichismo, sadomasoquismo e tudo o mais. Emmanuelle paira sobre todas essas alcovas literárias e cinematográficas.


sexta-feira, 4 de março de 2011

2495) “Fuck” e o Rei da Inglaterra (4.3.2011)



(O Discurso do Rei)

O item mais recente na minha coleção pessoal de coincidências envolve o filme de Tom Hooper O Discurso do Rei, visto algumas noites atrás, e um livro que estive lendo naquela mesma tarde. 

The Other Victorians, de Steven Marcus, é um estudo da moral mediana da Inglaterra durante a época da Rainha Vitória (aproximadamente a segunda metade do século 19) através de alguns textos básicos. 

Entre os textos estudados por Marcus, está o gigantesco e anônimo livro pornográfico My Secret Life, um clássico da literatura subterrânea, de autor até hoje não identificado com certeza. Ao longo de milhares de páginas, o autor descreve com riqueza de detalhes as aventuras sexuais que teve (com prostitutas e mulheres do povo, de modo geral) ao longo de toda sua vida adulta.

A certa altura de My Secret Life, o autor conta seu envolvimento com duas garotas interioranas que foram fazer a vida em Londres, garotas gostosinhas mas incultas. E ele se diverte contando a obsessão de uma delas com o palavrão “fuck”, que ainda hoje é meio tabu no mundo de língua inglesa, tanto que costumam referir-se a ele como “a palavra com F” (“the F-word”). Diz ele (melhor não traduzir os palavrões, para manter o sabor do original):

“Quando estávamos os três juntos, ela sentava quieta junto ao fogo, e de repente dizia em voz alta para si mesma: Fuck. Lembro de como penteava o cabelo ao espelho, quando eu e Nell estávamos sentados, e de como ao seu jeito vulgar e rude, e sua voz esganiçada, ela dizia: Fuck, fuck, fucky, oh, fuck, fuck, fuck, fuck her and fuck him, and fuck, fuck, fuck”.

É a propriedade terapêutica e libertadora do palavrão, não é mesmo? A garota provavelmente era reprimidíssima em sua zona rural de origem, e talvez ficasse mais eufórica com a liberdade para dizer palavrões do que com a liberdade para fazer “ménage à trois” com a amiga e o cliente. 

Que o diga o Rei George VI, que, incentivado pelo terapeuta, dispara num jorro interminável de “fuck” e “shit”, que aos poucos vão desinibindo seu aparelho fonador.

Diz o IMDB que o filme recebeu uma censura etária um pouco alta pelas 17 vezes em que a palavra “fuck” aparece, mas essa censura foi reduzida com a ressalva: “Contém linguagem forte num contexto de terapia da fala”. O que é bem diferente das centenas de vezes em que “fuck” e o onipresente adjetivo “fucking” aparecem em qualquer filme policial norte-americano, especialmente os de Quentin Tarantino. 

A verdade é que palavrões como “fuck” são, primeiro, um tabu verbal quase intransponível. Depois viram uma blasfêmia euforicamente libertária, inebriando o paciente até uma espécie de orgasmo fonoaudiológico. 

E por fim o termo se empobrece (à medida que se multiplica), transformando-se num expletivo inócuo e cada vez mais vazio, um cacoete cansativo para quem está ouvindo os personagens martelando sem parar aquelas sílabas. Deixa de ser um Tabu do Proibido para se transformar num Tabu do Obrigatório. 





domingo, 30 de janeiro de 2011

2467) A pornografia e a Internet (30.1.2011)




Segundo um artigo de Cezary Jan Strusiewicz no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) a indústria pornográfica é um ótimo ambiente para testar novas tecnologias e novas formas de comercialização. A razão para isto é que o consumidor da Pornografia não é muito exigente em perfeição técnica, em conteúdo artístico, etc. Desde que o material (livro, filme, fotos, etc.) contenha o que ele está querendo ver, de forma reconhecível, vai haver sempre quem o adquira. 

Diz Strusiewicz: 

“Durante o tempo das vacas magras na Internet, os saites pornô eram os únicos que cobravam por acesso online. A Pornografia na Web criou e aperfeiçoou os sistemas de acesso ao conteúdo através de assinaturas pagas, de verificação online de cartões de crédito e sistemas de cobrança via Web. Hoje, tudo isto é usado regularmente por multinacionais como Amazon, E-Bay e iTunes. E porque o sexo mais procurado é o sexo em movimento, os consumidores logo exigiram acesso a algo mais que fotos. Assim a Pornografia foi um dos primeiros e raros ramos de negócios a oferecer vídeos em “streaming” (o que você vê na tela mas não pode baixar), ajudando a popularizar esta prática, e até mesmo alavancando o desenvolvimento da tecnologia de Flash”.

Strusiewicz acha também que a Pornografia (que é amoral, não-ideológica, e tem um espírito meramente comercial e pragmático) pode ajudar a “limpar” a Internet, porque ela, também, é vítima de vários tipos de pirataria online e desenvolve seus mecanismos de defesa; a indústria do “X-Rated” é hoje um dos principais pesquisadores de software anti-pirataria.

Por que motivo a Pornografia está sempre à frente no que diz respeito à vanguarda hi-tech? Diz Strusiewicz: 

“Assim como uma garota reprimida que vai morar num campus universitário, a indústria pornô está não só disposta, mas sequiosa, por novas experiências. A maioria das empresas convencionais tem uma estratégia financeira planejada cuidadosamente para a próxima década. Elas não podem se dar o luxo de se desviar desse plano, e fica-lhes difícil fazer experiências e testar novas posições no mercado. O Pornô adora novas experiências e novas posições! Muitos executivos do mundo Pornô são jovens, ansiosos para experimentar maneiras diferentes de atingir os consumidores”.

Já se fala em pornografia 3-D e em aplicativos pornô em video-streaming pro sujeito assistir no iPad (anunciados no mesmo dia em que a Apple lançou o iPad). Há investimentos em pesquisas sobre Inteligência Artificial sendo financiados pela indústria pornográfica, segundo Ilan Bunimowitz, executivo do Private Media Group. 

Ela ajuda a criar novos mercados com a intenção de ocupá-los antes dos concorrentes, o que sempre acontece porque os concorrentes precisam convencer seus acionistas e obter os alvarás ou coisa parecida nos corredores do Governo. A economia informal não precisa disso. Quando a Lei vai pros cajus, os fora-da-lei já estão vindo das castanhas.






quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

2464) A pornografia e o progresso (27.1.2011)





A economia informal (aquela que se dá do lado de fora das leis e da fiscalização do Poder Público) é uma grandiosa cordilheira de montanhas, cada uma delas parecendo mais alta do que as outras, dependendo do ponto de vista. 

O Tráfico de Drogas, por exemplo, tem crescido exponencialmente nas últimas décadas. 

A Pirataria Digital evolui com tal rapidez que se fosse mesmo uma montanha e tentássemos fotografá-la a foto provavelmente sairia borrada, porque ela cresce a olhos vistos. 

A Pornografia provavelmente é a mais antiga das três, mas nem por isso perdeu impulso. Pelo contrário; no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) surge um argumentativo texto de Cezary Jan Strusiewicz sob o título: “Cinco aspectos em que a pornografia criou o mundo moderno”.

O primeiro, segundo ele, são as tecnologias de vídeo doméstico, que começam com o VHS. Strusiewicz observa que a idéia de podermos gravar e ver nossos próprios vídeos quando quiséssemos era praticamente inexistente antes do VHS. Diz ele: “Até o final da década de 1970, filmes de sacanagem correspondiam a metade de todas as vendas de fitas de vídeo nos EUA. Na Grã-Bretanha e na Alemanha esse número chegava a 80%."  

A razão disto é que, antes do VHS, a única maneira de ver filmes de sexo era comprar ingresso num cinema pornô, que não é, convenhamos, um lugar onde todo mundo se sente à vontade.

Segundo: a pornografia tornou possível a existência de sua câmara digital. Um dos grandes incentivos para a popularização deste formato foi quando as pessoas perceberam que, pela primeira vez, as fotos que elas tirassem na intimidade dos seus lares não teriam que ser reveladas num laboratório de uma loja, cujos funcionários, é claro, iriam copiar para si próprios as fotos mais picantes do casal. 

O artigo reproduz comerciais de revista, na época, em que essa associação entre foto digital e privacidade erótica é claramente sugerida. O VHS e a foto digital se conjugaram para permitir que qualquer pessoa gravasse e exibisse imagens por conta própria, na hora que quisesse, sem que elas tivessem que passar pela mão de ninguém.

Terceiro: Gutenberg inventou a imprensa; a pornografia a alavancou. Strusiewicz dá um pulo para séculos atrás e mostra algo parecido ocorrendo no começo da imprensa. Diz ele: 

“Gutenberg e sua Bíblia deram o pontapé inicial, mas durante séculos um dos autores mais lidos na Europa foi Pietro Aretino, hoje considerado um dos pais da literatura erótica, com seu livro de 1524 I Modi (As Maneiras), com gravuras de Giulio Romano”. 

Uma espécie de Kama Sutra italiano enumerando posições e técnicas. Ainda hoje, os Sonetos Luxuriosos de Aretino são traduzidos e lidos no Brasil. 

A tese de Strusiewicz é que sempre há compradores para a obra erótico-pornográfica, independentemente de seu acabamento técnico ou valor artístico. Isto faz desta indústria um excelente campo de testes para novas tecnologias e para novos experimentos de transações comerciais.


Continua aqui:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/01/2467-pornografia-e-internet-3012011.html




quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

1488) A doce pornografia (20.12.2007)


(Doll, de Hans Bellmer)

Carlos Drummond já dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos... Por que seremos mais castos que nosso avô português?”. A pornografia é a mais incompreendida das artes, até porque quando usamos este termo estamos nos referindo à Pornografia do Sexo, às artes voltadas para a descrição dos atos sexuais. Ora, existe também a Pornografia da Violência, hoje em dia tão em moda no cinema e nos videogames. Existe a Pornografia da Afetividade – os livrinhos e fotonovelas de amor destinados às jovenzinhas e às donas-de-casa. Existe a Pornografia da Política, mais conhecida como “o romance engajado”, aquele em que todas as relações humanas são reinterpretadas em função da luta de classes e da ascensão do proletariado. Pornografia é qualquer arte que bate o tempo inteiro numa única tecla, numa única nota.

A Pornografia do Sexo parece ser mais antiga que todas estas, e nas bibliotecas tradicionais era confinada a um setor chamado “O Inferno”, ao qual só tinham acesso leitores autorizados. (Uma interessante metáfora do próprio sexo, ou seja, a genitália humana sendo uma parte a que só têm acesso pessoas autorizadas pelo Estado e pela Igreja, através do casamento civil e religioso.) A Biblioteca Nacional de Paris está abrindo neste mês de dezembro (até 2 de março) uma exposição intitulada L’Enfer de la Bibliothèque - Éros au secret, organizada por Marie-Françoise ­Quignard e Raymond-Josué ­Seckel, na qual estão expostas mais de 350 obras, entre livros, fotos e gravuras, que fazem parte desse acervo proibido. Ali estão autores obscuros dos séculos 18 e 19, além dos inevitáveis Georges Bataille, Jean Genêt, Guillaume Apollinaire e o Marquês de Sade (do qual está em exibição o manuscrito original de Justine, ou Os Infortúnios da Virtude). Baixem o catálogo aqui: http://www.bnf.fr/pages/catalog/rtf/enfer.rtf.

A mostra conta com um interessante recurso publicitário: uma estação desativada do metrô (Croix Rouge, na linha 10) está sendo usada como vitrine: o trem não pára ali, mas ao passar por ela os passageiros a verão iluminada e cheia de cartazes e reproduções de obras, convidando o público a comparecer à Bibliothèque. A exposição é proibida para menores de 16 anos, o que levou os jornalistas do websaite The Literary Salon a afirmar que “a proibição é apenas um truque dos bibliotecários para atrair a atenção dos garotos e fazê-los pensar que os livros podem ter algo interessante para oferecer”.

Resta uma questão. Uma exposição assim prova que, finalmente, a cultura ocidental conseguiu chegar a um acordo com o erotismo e a sexualidade, e não mais considera essas obras transgressoras como uma ameaça? Ou significa que a pornografia (principalmente após o excesso de oferta na Internet) invadiu o mundo como um exército de bilhões de cupins triunfantes, e que não há outro recurso senão depor as armas e render-se ao seu poder? Quem puder ir a Paris, dê uma olhada e me informe.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

1274) “300” (13.4.2007)



O filme de Zack Snyder, baseado na história do quadrinhos de Frank Miller, é uma dessas experiências em que todos os esforços se destinam à reconstituição do visual que lembre as “graphic novels”. Pelo que li, o filme foi rodado em um mês e meio, e depois passou por mais de um ano de pós-produção, em que cada tomada foi submetida a sucessivos tratamentos de software para ganhar aquele visual meio granulado, meio descolorido, que é o seu principal trunfo estético.

Em termos de roteiro, é uma defesa do militarismo, com alusões à política americana atual, que não sei até que ponto são voluntárias ou inadvertidas. Claro que o lado pró-americano é o mais visível. O filme defende a importância de se manter uma elite de guerreiros super-treinados, que podem facilmente, em inferioridade numérica, derrotar uma tropa de soldados amadorísticos, desorganizados. Esparta é até hoje, merecidamente, o símbolo de uma civilização de soldados, coisa em que muitos norte-americanos gostariam de ver transformado seu país.

Por outro lado, os espartanos são os invadidos, não os invasores. Se fôssemos comparar o filme à situação do Oriente Médio, eles poderiam ser comparados aos afegãos ou aos iraquianos que se sacrificam tentando repelir um exército muito superior. Analogia reforçada pelo fato do rei Leônidas ser a cara de Osama Bin Laden. Rodrigo Santoro, concordo, não lembra muito George W. Bush; mas o estilo afetado, efeminado e sibarita do Rei Xerxes lembra muito mais o lado decadente da civilização norte-americana do que a cultura talibã. Pode-se ver no filme uma alegoria de um país menor e mais pobre, porém digno e ascético, sendo invadido por uma potência riquíssima e pervertida.

A imprensa caiu de pau (o “Globo” publicou um artigo histérico e divertido de Arnaldo Jabor) na violência do filme: decapitações, mutilações, estripamentos, etc. Esse tipo de violência explícita descrita em câmera-lenta começou com Sam Peckinpah, e hoje se beneficia das tecnologias de animação que aceleram os movimentos intermediários e retardam o instante do orgasmo sádico em que um guerreiro traspassa o outro com a lança, mandando borrões de tinta vermelha em todas as direções.

Jabor tem razão em vários aspectos. A violência do cinema norte-americano atual parece ter a função de nos anestesiar, de nos embrutecer, de nos tornar cada vez menos sensíveis à violência, a fim de permitirmos que ela se propague. Qualquer coisa que aconteça, o sujeito dá de ombros e diz: “Ah, no cinema eu já vi coisa muito pior do que isso”. Existe no gênero do filme-de-guerra um limite muito fluido entre glorificar a coragem e glorificar a crueldade, entre mostrar a bravura e mostrar o sadismo. A proibição do sexo gerou a pornografia, um sub-gênero onde mostra-se apenas sexo o tempo todo, sob as formas mais mirabolantes. A violência, menos reprimida, está cada vez mais ganhando uma pornografia própria.

sexta-feira, 7 de março de 2008

048) Literatura e perversão (17.5.2003)


(René Magritte, "The Rape")

Vou logo avisando que emprego as expressões “pornografia” e “perversão sexual” sem a menor intenção moralista. Considero a literatura pornográfica um gênero literário tão válido quanto qualquer outro, e as perversões, bem, são os 90% de exceções que aparecem em nossa vida sexual.

Existem leitores inveterados de “westerns” que querem apenas acompanhar o bangue-bangue dos caubóis, e reclamam se o livro lhes oferecer digressões historiográficas e aprofundamento psicológico. Idem com leitores de romances detetivescos: muitos autores policiais desaconselham que preocupações estilísticas afastem o livro da sua função principal, que é o quebra-cabeças de “Quem é o criminoso?”. O mesmo se dá com a ficção científica, onde muitos críticos também desaconselham extrapolações “literárias”, devendo a narrativa se concentrar nos aspectos “ficcientíficos” da história.

Acho estas atitudes muito parecidas com a atitude do leitor de pornografia, que quer ver apenas a descrição gráfica de atos sexuais, e se impacienta com qualquer coisa que se afaste disso. Esta reação é muito clara nos cinemas que passam filme pornô. Quando aparece um diálogo ou uma cena “normal” que dure cinco ou dez minutos, o pessoal começa a bater com os pés: “Bora, rapaz! Vim ver serviço!”

Um escritor que se concentra num único aspecto da história age como um pervertido obsessivo, que se concentra num único aspecto do sexo. Fetichismo, pedolatria, sadismo, voyeurismo, são perversões que fazem parte, “en passant”, da atividade sexual da maioria das pessoas. Só se tornam problema quando exigem exclusividade e censuram o resto. Quando o voyeur só consegue sentir prazer através do voyeurismo, toda a variedade possível do ato erótico fica proscrita pela ditadura de um único impulso. A sexualidade inteira é insuficiente para dar-lhe prazer, para despertar seu interesse. Ele só pensa “naquilo”, e deixa de aproveitar todo o restante. Tem-se a impressão de que diante de tudo o mais ele dirá: “Chega, não me interessa, nada disso me interessa – vamos à única coisa que realmente importa.”

Esta é uma atitude muito parecida com a do leitor aficionado que se recusa a absorver qualquer mistura de experiências, e exige que a literatura se concentre numa área de convenções muito específicas e muito limitadas. Assim como o consumidor de pornografia, ele quer ver apenas uma coisa, e recusa o que considera encheções de lingüiça.

“Pornografia” para mim é qualquer tipo de literatura que se concentre obsessivamente numa única atitude mental e proíba a si própria a abertura para tudo que faz parte da vida, da nossa mente, do mundo inteiro. Existe, assim, uma pornografia política: os romances engajados, geralmente de esquerda; uma pornografia amorosa – esses romances-para-moças, que falam só de amor, amor, amor... Pornografia é qualquer literatura que abre mão de ser literatura e “só pensa naquilo”, seja “aquilo” o que fôr.