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quarta-feira, 18 de outubro de 2023

4993) A pior sensação da vida (18.10.2023)



(Manuel Bandeira)
 

“A vida inteira que poderia ter sido e não foi”, pensou um dia Manuel Bandeira, durante um poema.
 
Frágil, ameaçado pela tuberculose desde a adolescência, o poeta  não tinha como não fantasiar outras vidas, o que aliás fez lindamente em “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tanta coisa para viver, tantas aventuras, tantos prazeres! E a vida se resume ao esforço fatigante de preservar uma existência sem atrativos. Por isso, talvez, gente como Janis Joplin dizia preferir viver dez anos a mil-por-hora do que mil anos a dez.
 
Janis conseguiu o que queria. A maioria das pessoas prefere viver pianinho, prefere pegar leve, poupar-se, mesmo que resignando-se a uma certa pasmaceira. E abrindo mão daquilo que a cultura-de-massas chama “a realização do seu sonho”.


 
Paulo Coelho popularizou (não foi ele quem criou) a expressão “quando você vai atrás do seu sonho, o universo inteiro conspira a seu favor”. É uma frase eficaz no sentido motivacional, porque todos nós precisamos de uma aplicação de otimismo quando temos que encarar uma tarefa, mesmo algo simples como arrumar a escrivaninha ou lavar o banheiro de casa.
 
É preciso acreditar que o objetivo vai ser atingido. Times de futebol, equipes de vendedores, grupos de militantes políticos, soldados no campo de batalha – todos eles precisam acreditar no sucesso, precisam da hipnose benéfica do otimismo.
 
Esse tipo de auto-ajuda funciona de forma paradoxal, porque as pessoas conseguem acreditar ao mesmo tempo no livre-arbítrio (“eu tomei esta decisão e tenho certeza de que alcançarei meu objetivo”) e no destino (“está escrito que serei vencedor”). O que é compreensível: sempre que os fatos parecem desmentir um desses aspectos, basta-nos trocar de chave, e acreditar no outro.



(Hugh Mac Leod)
 
Hugh MacLeod, autor de livros de auto-ajuda, afirma (em Ignore Everybody):
 
Toda pessoa foi trazida para a Terra com um Monte Everest privado para escalar. Talvez você nunca chegue ao pico, e isto é compreensível. Mas se você não fizer pelo menos um esforço sério para chegar ao cume nevado, anos depois você vai se ver deitado em seu leito de morte, e tudo que vai sentir é um enorme vazio. (trad. BT)
 
A auto-ajuda consiste muitas vezes em reafirmar, com suas próprias palavras, algo que você leu e lhe pareceu fazer sentido.


(Franz Kafka)

 
Franz Kafka tem uma parábola famosa chamada “Diante da Lei”. Um homem chega diante de uma porta que dá acesso à Lei. Diante dela há um guarda enorme, ameaçador, que o dissuade de tentar entrar ali. “Depois desta porta há outra,” explica ele ao homem, “com um guarda ainda maior que eu, e depois outra ainda maior, e assim por diante; eu próprio não consigo olhar para eles sem ficar tomado de terror.”
 
O homem hesita, acha que não vai ser capaz, e passa o resto da vida ali, ao pé da porta. Perto de morrer, ele chama o guarda e pergunta por que motivo, durante todos aqueles anos, não apareceram outras pessoas ali à procura da Lei. O guarda responde: “Porque esta porta existia somente para ti, e como agora vais morrer, terei que fechá-la”.
 
A porta da Lei e o Everest privado são o mesmo conceito – existe algo que somente você será capaz de tentar, e não adianta tentar se beneficiar da experiência alheia ou do efeito manada, invadindo o recinto junto com uma multidão. As conquistas pessoais são solitárias, por definição. Dependem só de você.



(Henry James)

Henry James glosou este mote em sua misteriosa noveleta “A Fera na Selva” (1903). Seu protagonista, John Marcher, é um homem inteligente, pacato, metódico, que confessa viver à espera de um evento extraordinário que (por uma intuição qualquer) ele pressente estar à sua espera no futuro. Preparando-se para esse evento (que tanto pode ser uma epifania quanto um desastre), ele  se poupa, se protege, evita embarcar em outros compromissos. E no final, nada acontece. O evento extraordinário talvez estivesse no seu caminho se ele tivesse se lançado à vida, ao invés de se proteger dela.


(John Crowley)
 

Ter medo da vida é doloroso. O que dizer de quem tem medo da literatura? John Crowley tem um conto, “Novelty”, na coletânea do mesmo nome (Foundation / Doubleday, 1989), cujo protagonista, um indivíduo cheio de ambições literárias, um dia se depara, dentro de si mesmo, com uma revelação acabrunhante.
 
Muitos anos depois, ele percebeu que a diferença entre ele e Shakespeare não era propriamente de talento, mas de fibra. A capacidade de não se intimidar diante das idéias mais vastas ou mais poderosas e de simplesmente (simplesmente!) sentar-se à mesa e pôr mãos à obra. A terrível languidez que se apossava dele quando algo imenso e complexo tornava-se subitamente claro aos seus olhos, algo com as dimensões de um “Rei Lear” e a minúcia de um soneto. Se ao menos não desabasse sobre ele assim, de uma vez, tudo tão monumental e tão perfeito, deixando-o amedrontado e frouxo diante da perspectiva de articular tudo aquilo, cena por cena, página por página!... (...) Gemendo como um fantasma desprezado, a idéia grandiosa ruflava as asas e sumia no vazio.  (trad. BT)
 
Alguns autores são assim, capazes de se maravilhar (e se aterrorizar) com as dimensões de uma empreitada. Outros são mais pragmáticos.



(Thomas Carlyle)
 

Conta-se que Thomas Carlyle recebeu de seu colega John Stuart Mill, em 1834, a encomenda da redação de uma história da Revolução Francesa. Mill recebera essa proposta mas não tinha condições de executá-la. Carlyle aceitou, e pôs mãos à obra. Depois que concluiu o livro (cuja edição atual tem cerca de 800 páginas), enviou o manuscrito para Stuart Mill. Na casa deste, por engano, uma criada pegou o pacote com o manuscrito e o queimou, achando que era destinado ao lixo. Quando recebeu a notícia, Carlyle sentou-se à mesa, pegou pena e tinteiro, escreveu “Capítulo 1”, e refez o livro por completo.
 
 
 




domingo, 9 de janeiro de 2022

4782) Mortes romanceadas (9.1.2022)



Escrever ficção baseada em pessoas reais é uma coisa perigosa, principalmente se as pessoas ainda estiverem vivas. Quanto mais remoto o morto famoso, mais fácil usá-lo num romance: aí estão centenas de filmes fazendo fanfic com a vida alheia, desde Napoleão até Billy the Kid, desde Leonardo da Vinci até Sigmund Freud.
 
Numa entrevista à revista Locus (# 492, janeiro 2002), Kim Stanley Robinson comenta esse tipo de saia-justa literária:
 
Não é aconselhável criticar pessoas reais do passado, quando você lhes atribui palavras que afinal são suas. Isto se mistura ao problema ético de todo biógrafo, um problema que eu mesmo não gostaria de encarar. Howard Waldrop, por exemplo, demonstra uma afeição verdadeira pelos “personagens reais” que retrata, e isso pode contornar o problema, mas se você está criticando esses “personagens reais” eles não passam de alvos que você cria para poder derrubar.
 
Joyce Carol Oates encarou esse desafio em sua coletânea de contos Wild Nights! - Stories About the Last Days of Poe, Dickinson, Twain, James and Hemingway (Harper Collins, 2008). Em cinco histórias, ela ficcionaliza os últimos dias de vida de cinco personalidades literárias dos EUA (com pequenas variantes – cada conto tem uma proposta própria). Algum leitor-fã poderá se sentir ofendido.
 
Vejamos desde logo o conto “Grandpa Clemens & Angelfish, 1906”. Ao que parece, o grande Mark Twain tinha um certo fascínio estético pelas garotinhas pré-púberes e adolescentes, entre dez e dezesseis anos. Ele criou um clube chamado “Angel Fish and Aquarium Club”, com garotas a quem ele dava presentes e tratava como suas “netinhas”. Pois bem, é o que basta para Joyce Carol Oates compor um conto devastador onde o escritor torna-se amigo e afetuoso correspondente de uma garota e depois a abandona, quando ela atinge “a idade desinteressante”. Seus últimos momentos de vida são um pesadelo em que ele é perseguido por garotinhas que o espancam, rindo às gargalhadas.
 
Igualmente cruel (e igualmente inspirado em fatos reais) é o conto “The Master at St. Bartholomew’s”. O mestre é Henry James, o rei do subentendido e do understatement, o prestidigitador de sentimentos não-expressos, desejos inefáveis e tragédias mudas. Em plena Primeira Guerra Mundial, num chá elegante com senhoras da sociedade londrina, ele impulsivamente se oferece como voluntário para ajudar na recuperação de soldados ingleses feridos.
 
Começa aí uma descida aos infernos que horroriza e fascina James, um homem tímido, tido como homossexual reprimido durante a vida inteira, e que talvez tenha morrido virgem. Ao penetrar nas enfermarias repletas e caóticas do hospital St. Bartholomew’s, ele se vê diante da tragédia do corpo, da miséria do corpo, dos salões sufocantes com cheiro de mijo, de peido, de bosta, de carne gangrenada, de cotos de membros decepados. É o mundo de todas as coisas desagradáveis (sujeira corporal, penicos cheios, vômito) que nunca tinham encontrado espaço na sua ficção, uma ficção voltada para salões elegantes, chás-das-cinco, “garden parties”. E, ao que parece, ali naquele inferno nauseabundo o mestre encontra um sucedâneo do amor.
 
Diante disto tudo, fico sem saber como classificar “Papa at Ketchum, 1961”, em que a escritora acompanha o monólogo interior de Ernest Hemingway na decadência física, emocional e mental dos dias que precederam seu suicídio em 2 de julho de 1961. A reta final do autor de O Velho e o Mar foi algo triste. Vi em algum lugar uma de suas últimas entrevistas filmadas: ele precisava ler num papel as próprias respostas. Ferimentos de guerra, acidentes, diabetes, bebida, depressão, tudo contribuiu para que ele vivesse um processo ladeira-abaixo em seus derradeiros anos.
 
Joyce C. Oates descreve esses dias como o pesadelo de um machão que fez da força e da valentia a viga central da própria vida, e se vê agora reduzido a um velhote gagá, apoiando-se numa bengala e bebendo escondido. É um retrato cruel (mais uma vez), mas provavelmente autêntico, inclusive no modo como ele repete para si mesmo de que modo irá carregar a espingarda de dois canos, sentar na cadeira, apoiar a coronha no tapete (porque no chão liso ela pode deslizar), apertar o gatilho com o dedão do pé descalço...
 
Não é uma leitura leve. E por mais que o protagonista seja pouco simpático, a gente acaba admirando a mera obstinação de um homem que foi ferido na guerra, teve problemas graves de saúde a vida inteira, na velhice foi submetido a pesadas terapias de eletrochoque, tomava remédios tarja-preta, bebia constantemente, mas teimava e resistia. Até que...
 
Hemingway não foi o único da família a se suicidar: seu pai Clarence, sua irmã Úrsula, seu irmão Leicester e sua neta Margaux morreram da mesma forma.



Estes três contos podem ser considerados como narrativas bastante realistas, admitindo-se a liberdade ficcional de fantasiar pensamentos, devaneios, pesadelos, etc.  O mesmo não acontece com o conto que abre o volume: “Poe Posthumous, or The Light-House”. É um conto despudoradamente fantástico. A premissa é de que Poe, no mês de outubro de 1849 em que morreu, teria ao invés disso encontrado uma espécie de mecenas que assumiu suas dívidas e despesas, e em troca disso o enviou para tomar conta, sozinho, de um farol localizado a duzentas milhas da costa do Chile.
 
Joyce C. Oates revela que a idéia para este conto lhe veio de um fragmento de poucas páginas, deixado inédito pelo próprio Poe, “The Light-House” – fragmento este que também foi usado recentemente como ponto de partida para o filme O Farol (2019) de Robert Eggers, com Willem Dafoe e Robert Pattinson.
 
Aqui, um link para o texto original de Poe:
 
https://eapoe.org/works/tales/lightha.htm
 
Oates parte desta idéia inicial de Poe, de um homem encarregado de cuidar sozinho de um farol, e desenvolve uma narrativa meio gótica, porque o farol em si é uma estrutura “de origem desconhecida”, que remonta a “antes da chegada dos conquistadores espanhóis”, e cuja escadaria apresenta um número diferente de degraus, cada vez que ele faz a contagem. E é uma história também meio lovecraftiana, porque as tempestades frequentes naquela latitude começam a trazer para as “piscinas” rasas formadas na rocha seres com aparência feminina, ao mesmo tempo repulsivas e atraentes, as “ciclófagas”. E mais não digo.
 
Se o conto sobre Poe já tem uma aura de ficção científica, o texto de Oates sobre Emily Dickinson, “EDickinsonRepliLuxe”, nos conduz para um futuro próximo onde é possível comprar ciborgues domésticos, feitos à imagem e semelhança de vultos famosos, celebridades da História.
 
O sr. e a sra. Krim são um casal mais ou menos afluente, marido endinheirado e esposa com ambições culturais (ela se considera poeta). Os dois adquirem uma ciber-réplica de Emily Dickinson e é ao mesmo tempo engraçado e patético acompanhar o nervosismo da dona da casa, que passa o dia espreitando sorrateiramente “Emily” em suas andanças pela casa. O ciborgue, aliás, tem a aparência externa da pessoa original, menos a estatura, que não ultrapassa um metro e meio.
 
Isto dá à “Emily” algo de boneca, mas ela tem iniciativa, apesar de ser introspectiva e tímida. Prepara e serve o chá, cuida das próprias roupas... e enquanto isto a sra. Krim vive na sua cola, ansiosa para presenciar o momento em que a grande poeta irá produzir um poema novo, um poema que não tinha sido escrito ainda, e esse poema terá sido escrito na casa da sra. Krim!  É a glória.


Joyce Carol Oates (nascida em 1938) é uma escritora respeitada nos EUA, mas raramente é citada nos textos sobre literatura fantástica e FC.  Há um bom verbete sobre ela na “Science Fiction Encyclopedia” (https://sf-encyclopedia.com/entry/oates_joyce_carol)  Pela avaliação de John Clute nesse texto, as duas décadas deste século têm mostrado uma inclinação cada vez maior da autora pelas narrativas fantásticas.
 
Ela já ganhou por três vezes o principal prêmio da literatura de horror, o Bram Stoker Award, com Zombie (1996), The Corn Maiden and Other Nightmares (2011) e Black Dahlia and White Rose: Stories (2012), além do World Fantasy Award por Fossil Figures (2011).
 
O livro que comentei aqui, Wild Nights!, foi publicado no Brasil sob o título Descanse em Paz, com tradução de Elisa Nazarian. Ao que parece, saíram edições pela Texto Editores e pela LeYa.


 
 








sábado, 28 de novembro de 2020

4646) Literatura de enredo ou de estilo (28.11.2020)




(James x Stevenson) 

A literatura de gênero (policial, terror, ficção científica, romance de amor, espionagem, faroeste, etc.) se define pela opção de não começar do zero, de começar sempre de um conjunto nítido de expectativas. O leitor desses livros não quer experiências totalmente novas, quer a repetição, com variantes, de uma experiência já conhecida.
 
Robert Louis Stevenson (1850-1894) foi um praticante da literatura de gênero, e mesmo as suas experiências literárias mais ambiciosas se dão no quadro de narrativas de situações previsíveis, quase obrigatórias.
 
Em 1884, Henry James publicou um ensaio intitulado A Arte da Ficção, onde comentava, entre outras obras, A Ilha do Tesouro de Stevenson:
 
“Uma dessas obras trata de assassinatos, mistérios, ilhas de má reputação, fugas impossíveis, coincidências miraculosas e tesouros enterrados. (...) Eu fui criança, mas nunca estive à procura de um tesouro enterrado.”
 
Os dois não se conheciam pessoalmente, e em dezembro do mesmo ano Stevenson publicou um ensaio intitulado “Um humilde protesto”, em que respondia:
 
“Aqui existe, sem dúvida, um paradoxo proposital, porque se o sr. James nunca andou à procura de um tesouro enterrado, pode-se provar com isto que ele nunca foi uma criança”.
 
James e Stevenson são até hoje citados como exemplos, respectivamente, da “literatura de estilo” e da “literatura de enredo”, o que é uma injustiça para com ambos, pois James é autor do enredo complexo e sutil de Outra Volta do Parafuso, entre outros, e Stevenson tem uma das prosas mais límpidas e agradáveis do seu tempo e de seu idioma. Mas o que poderia ter descambado para uma polêmica amarga e ressentida transformou-se numa grande amizade; James escreveu no final daquele dezembro uma carta em que dizia:
 
Meu caro Robert Louis Stevenson,
Somente ontem à noite li seu texto do Lungman’s de dezembro, com sua resposta bem-humorada ao meu artigo sobre a conferência de Besant, no meu periódico; e o resultado dessa agradável meia hora é um desejo amistoso de enviar-lhe três palavras minhas. Não serão palavras de discussão, divergência, retaliação ou protesto; mas de calorosa simpatia, reforçada com a garantia do prazer que sinto em tudo que você escreve.
 
Assim teve início uma longa correspondência entre os dois, cheia de ótimas reflexões sobre a vida e a literatura, e que saiu no Brasil pela Ed. Rocco com o título A Aventura do Estilo (org. e tradução de Marina Bedran).

 
Henry James tinha um santo horror ao melodrama, e este é mais um dos muitos elementos que o aproximam de Machado de Assis. Escritores como estes dois são conhecidos pelos seus fiapos de enredos, histórias onde quase nada acontece a não ser pessoas conversando numa sala, ou numa mesa de restaurante, ou num terraço, entre um ou outro passeio, uma ou outra viagem.
 
Penso eu que a segunda metade do século 19 foi o apogeu do melodrama teatral e do folhetim literário – as histórias de raptos, assassinatos, vinganças sanguinolentas, órfãos sequestrados, homens inocentes atirados em calabouços, famílias honestas vítimas de infâmias, separações lacrimosas, reencontros histéricos...  Todo o material de peripécias, reviravoltas, surpresas, sustos, olhos arregalados, que fez a fama dos folhetins impressos e ainda hoje faz tilintar o caixa das novelas de TV.
 
Isso era o divertimento popularesco da época – e não podemos dizer que não deu grandes nomes à literatura. Foi de dentro desse quadro de prodígios dramáticos esticados semanalmente que brotaram Dostoiévski na Rússia, Alexandre Dumas na França, Charles Dickens na Inglaterra, e muitos outros.


("O Melodrama", de Honoré Daumier)
 

Quando o escritor é grande, ele puxa o gênero para cima.
 
Por outro lado, é compreensível que existam escritores de temperamento mais introvertido, mais crepuscular. Buscam algo mais intimamente verdadeiro, e não o mero espetáculo exterior.  O esforço de se afastarem do clichê, da fórmula, do lugar-comum, os leva a um certo elitismo do espírito que os faz antipatizar esse tipo de enredo.
 
Acho que James tentou com Outra Volta do Parafuso (1898) fazer uma desconstrução da história de fantasmas tradicional. Nelas, há assombrações violentas, gritos, pessoas morrendo de apoplexia ou de febre cerebral, espectros ensanguentados, padres sem cabeça, esqueletos matraqueando as mandíbulas. James contou sua história de assombração de maneira tão oblíqua, tão indireta, tão nuançada, que hoje a interpretação mais corrente é de que nada daquilo aconteceu senão na cabeça da preceptora das crianças.
 
Machado de Assis foi na direção oposta: utilizou, satiricamente, o turbilhão de peripécias dos melodramas (e a cabeça bitolada dos que o escreviam) num de seus melhores contos, “A Chinela Turca” (1875; em Papéis Avulsos, 1882).
 
Quando James se contrapunha aos “assassinatos, mistérios, ilhas de má reputação, fugas impossíveis, coincidências miraculosas e tesouros enterrados” de Stevenson, estava fazendo uma aproximação um tanto apressada entre Stevenson e os popularescos de sua época. (James, como Machado, tinha um santo horror aos popularescos.)
 
O fato de que logo em seguida ele se retrata perante Stevenson (e o bom humor com que Stevenson reagiu à sua crítica) dá a medida de sua lucidez intelectual e de sua generosidade moral. Ele tinha plena consciência (e a amizade dos dois nasceu daí) de que Stevenson buscava uma literatura intensa, profunda, total, não importa se contasse uma aventura de piratas ou uma viagem em lombo de jumento.
 
Por isso sempre sinto um certo desconforto quando, a bem da comunicação rápida, uso expressões como “literatura de enredo” e “literatura de estilo”. Vejo nos praticantes da literatura de enredo, muitas vezes, uma certa ansiedade em quebrar essa polarização, em cultivar o estilo. Só que na tradição beletrista brasileira (que nada tem a ver com Machado de Assis) ter estilo significa usar palavreado bonito e sonoro, enfileirar adjetivos como se fossem miçangas num fio, consultar aplicadamente os manuais de retórica greco-latina e usar seus recursos como se fossem remédios milagrosos.
 
Ter estilo (em literatura) não é “escrever bonito”. É ter uma mente pensante personalizada, capaz não apenas de ver (e exprimir) algo pela primeira vez, mas de dar ao leitor a sensação da descoberta simultânea. Estilo é uma visão verbal do mundo. É um conjunto de qualidades e defeitos, um conjunto de recursos e de limitações; o estilo de um autor é definido não apenas pelo que ele faz, mas pelo que ele é visivelmente incapaz de fazer. Quando aquela famosa e batida definição diz que “o estilo é o homem”, provavelmente quer dizer isso: é a totalidade do que essa pessoa consegue pensar e dizer. E do que não conseguiria, por ser quem é. 
 
E é natural que existam escritores mais aptos a descrever ações exteriores e escritores capazes de descrever ações interiores (da mente). Quando Virginia Woolf extrai de uma simples marca na parede um conjunto de possibilidades, lembranças, evocações, fantasias, ela mostra que a literatura ocorre na mente e se cristaliza em palavras: “The Mark on the Wall”, seu primeiro conto de juventude demonstra isso. Que era capaz de criar enredos ela o prova em Orlando e outras narrativas.
 
Robert Louis Stevenson, um homem que passou em cima da cama de doente uma boa parte de sua curta vida, tinha imaginação cigana, tinha a vertigem dos espaços exteriores, que o arrastou em viagens desgastantes pelo mundo afora. Sua literatura reflete isto.
 
Henry James parecia conhecer apenas dois ambientes, o gabinete de trabalho e o salão social, e ele satiriza isto num dos seus melhores contos fantásticos, “The Private Life” (1892).
 
 
 
 





sexta-feira, 20 de março de 2020

4561) Vou mandar o clone (20.3.2020)



(Henry James)

Quando inventaram essa história de “clones” eu já sabia do conceito, que a ficção científica cultiva há muitos anos. Um sósia produzido em laboratório! Um irmão gêmeo artificial! E alguns amigos meus desenvolveram uma teoria. Pra que serve um clone? Diziam eles: “Pra ir ao trabalho, às reuniões, ao batente... enquanto eu fico em casa, dormindo até meio dia.”

Pode parecer uma fantasia de preguiçosos, e é, mas há um lado que não devemos subestimar: o fato de que muitos de nós desenvolvem um “clone psicológico” em si mesmos. São indivíduos tímidos, introvertidos, meio angustiados no que diz respeito à vida social, às interações. O que fazem? Criam um clone.

Infelizmente, como não se trata de ficção científica, o clone tem que habitar o mesmo corpo, de modo que o sujeito precisa, sim, levantar às 7:00, tomar banho sim, tomar café sim, pegar o metrô sim, estar na reunião de trabalho às 8:30, com a obrigação de ser simpático com todos e de ter idéias inteligentes.

Pense num suplício.


(Wyslawa Zsymborska)

Não sou só eu. Vejam o caso de Wyslawa Zsymborska, uma das maiores poetas do século, em cuja cabeça caiu uma bigorna de ouro chamada Prêmio Nobel de Literatura.

Numa matéria publicada na revista Piauí, ela afirma:


“Estou apavorada, por não saber se vou conseguir enfrentar a cerimônia; toda a minha disposição é diferente, contrária a esse tipo de contatos, e é claro que nem sempre poderei recusar. Queria ter uma sósia. A sósia seria uns vinte anos mais nova do que eu, iria posar para as fotos e teria uma aparência melhor do que a minha. A sósia viajaria, a sósia daria entrevistas, e eu ficaria escrevendo.”

É pedir demais? Não creio. Em ocasiões assim, algumas pessoas estariam felizes como pinto-no-lixo se fossem obrigadas a essa gincana de coluna social. Conheço uma dúzia de poetas que dariam o braço esquerdo e a perna direita pela chance de ganhar o prêmio, fazer o discurso, sentar no banquete, tirar a foto, rabiscar os autógrafos, estender-se nas entrevistas.

Nem todos, contudo.

O tema do “duplo”, do “Doppelgänger” é um dos mais antigos da literatura fantástica.



Henry James tem um conto fantástico, “The Private Life” (1892), em que ele contribui com sua variante para este tema antigo e necessário. Ele fala de um grupo de pessoas ricas que estão a passeio num hotel chique, nos Alpes. O Narrador explica que eles têm ali a chance rara de conviver alguns dias com duas personalidades extraordinárias: o dramaturgo Clare Vawdrey e o aristocrata Lord Millifont. Dois indivíduos fascinantes, adorados em todos os ambientes sociais londrinos, etc. e tal.

Aconselho a leitura do conto, que é brilhante e cheio de sutilezas, falando sobre alta sociedade, teatro, a profissão de escritor, o amor distante de um solteirão por uma mulher casada. O Narrador (cujo nome não é revelado, e em cuja pessoa é impossível não ver uma projeção de James – inteligente, travado, punctilioso, gentil) comenta que o dramaturgo Vawdrey é uma das pessoas mais brilhantes que ele conhece, um conversador notável, inteligente, encantador. Suas peças teatrais encantam a todos, principalmente uma atriz que está no grupo, Mrs. Adney, que vive a lhe pedir “um papel”.

O Narrador e a sra. Adney comentam também a personalidade de Lord Millifont, um desses senhores graves, considerados um pilar da sociedade: na sua presença, todos se comportam e se distribuem de acordo com a direção do seu olhar, sua autoridade franca e serena, seu carisma.

História vai, história vem, o Narrador e a sra. Adney fazem uma descoberta espantosa. O dramaturgo Vawdrey tem duas personalidades, duas projeções físicas. Enquanto um está no terraço conversando com o grupo e encantando a todos, outro (um “clone” idêntico) está no quarto do hotel, escrevendo.

Logo em seguida, fazem uma descoberta similar. Lord Millifont, aquele poço de autoridade e de carisma, simplesmente desaparece quando ninguém está olhando para ele. Ele é deixado a sós num local e minutos depois uma pessoa, chegando ali, não o vê em lugar algum, e o chama em voz alta; num segundo o Lord se materializa a metros de distância, paradão, distraído. Estava ali. Mas se ninguém o vê... ele some.

O tema de Henry James não é muito distante do conto clássico de Machado de Assis, “O Espelho” (1882). Henry James é uma espécie de Machado angloparlante: a literatura dos dois é muito parecida, em vários aspectos. “O Espelho” conta a história do alferes Jacobina, elogiado por toda a família, e cujo status depende dessa patente militar. Ele vem a descobrir que, sozinho na casa, não consegue se ver no espelho – a não ser que vista a farda. Nesse instante, deixa de ser invisível.


("O espelho", adaptação para quadrinhos)

Henry James faz essa equação mordaz entre personalidade interna e persona externa; a pessoa que somos, e a pessoa que aparentamos ser, quando “em sociedade”. Ele próprio afirma, num prefácio a uma de suas coletâneas, que a idéia lhe surgiu ao contemplar um indivíduo famoso em seu meio social mas que, por mais brilhante que fosse, não aparentava ser capaz de escrever as coisas que escrevia. Diz ele:

Isto explicava, para a minha imaginação, todo o mistério: nossa celebridade inconcebivelmente agradável era um ser duplo, formado de dois compartimentos distintos e estanques  – um era representado pelo cavalheiro que sentava-se a sós a uma mesa, silencioso, longe das vistas de todos, e ali escrevia coisas profundas, intrincadas, corajosas; enquanto seu complemento era o cavalheiro que regularmente vinha sentar-se a uma mesa de natureza bem diversa, onde ceava de forma substancial, promíscua, multitudinária. (trad. BT)

Eu tenho pra mim que este inspirador misterioso era o próprio James, a quem não era estranho o dilema de escrever coisas geniais em seu gabinete e de, quando em público, ter que aparentar inteligência, bons modos, bom humor e paciência para com a parvoíce alheia. Para mim é fora de dúvida que, quando necessário, também Henry James sabia mandar o clone.








domingo, 27 de dezembro de 2015

4007) Livros do ano 1 (26.12.2015)



Esta é a época em que os críticos fazem listas dos melhores livros do ano, mas os críticos parecem ler somente o que foi lançado agora. Minhas leituras são aleatórias. Tenho muito mais interesse pela literatura de cem anos atrás do que pela atual. Não que uma seja melhor do que a outra. É mera veneta, cacoete mental; é como achar que qualquer rua de Istambul ou Toronto deve ser mais interessante do que a rua aqui do lado. Dito isto, vamos em frente.

Terminei este ano de ler a coletânea Ghost Stories of Henry James. James é um desses casos meio raros de autores de estilo refinado que escreviam caudalosamente. Como produziu esse sujeito! Seus contos de fantasmas são quase todos psicológicos, de clima, ambientação, ilustrações perfeitas para a teoria todoroviana da oscilação entre explicação real e sobrenatural. Vão do gótico puro de “The Romance of Certain Old Clothes” (1868) até o desdobramento físico em “The private life” (1892). Todos são muito bons. Há uma certa falta de surpresa nos desfechos, mas a literatura de James reside mais nos detalhes do que na estrutura, que é clássica, previsível.

Li este ano O Mago (2008) de Fernando Morais, biografia de Paulo Coelho, desmerecida por alguns por ter sido uma biografia “chapa branca” (autorizada). Biografias autorizadas podem ser boas, sim, menos para quem só pensa em escândalo. Morais traça com precisão o histórico do Mago, e mostra, curiosamente, que desde a adolescência ele sonhava em ser o escritor mais bem sucedido do mundo. Eu achava que ele era um roqueiro que virou best-seller meio por acaso. Não era. Foi um projeto profissional que, com desvios inevitáveis pelo temperamento malucão do personagem, e também da época, sofreu mil contratempos, mas se realizou.

Também este ano terminei finalmente de ler The Crying of Lot 49 (1966), o mais curto dos romances de Thomas Pynchon, mas espantosamente concentrado. A prosa de Pynchon é pesadíssima de alusões culturais, mas em seus momentos mais leves é uma delícia de barroquismo pop. Este livro é um clássico das teorias da conspiração romanescas (ou seja, as que não se propõem como verdadeiras), sobre uma organização secreta de correios infiltrada nos EUA.

The third policeman (1967), de Flann O’Brien, é um dos melhores romances absurdistas que já li (há tradução brasileira). Uma sucessão de episódios fantásticos que parecem dar acesso a universos paralelos, ao Além-túmulo ou a delírios do personagem. Há momentos que lembram Alice de Lewis Carroll, outros que lembram Ubik de Philip K. Dick, outros que dão a impressão de um Jorge Luís Borges tentando escrever um romance policial metafísico. (Continua)




segunda-feira, 3 de agosto de 2015

3883) Esperando Godot (4.8.2015)




(Leonard Cohen)


Há livros onde nada acontece, a rigor: o tempo parece ter parado, a vida dos personagens se arrasta devagar – porque eles estão à espera de algo. Algo que está marcado, profetizado, ou meramente intuído em sonhos ou devaneios. Algo situado no futuro e do qual eles se aproximam a cada segundo. 

Está vindo. Não precisam fazer mais do que ficar imóveis e esperar o encontro. O tempo é o rio que os leva.  Não precisam remar. Enquanto esperam estão avançando, mesmo lentamente, rumo ao encontro que marcaram ou que foi marcado para eles.

A Fera na Selva (“The Beast in the Jungle”, 1903) de Henry James é uma noveleta naquele estilo introvertido e verbalmente brilhante do autor. Ele narra o reencontro entre um homem e uma mulher. Ela o reconhece logo, ele não, e se surpreende quando ela lhe pergunta: “E então? Já aconteceu, o que você esperava?”. 

Só então ele lembra que os dois tinham sido apresentados alguns anos antes e que revelou a ela seu segredo: a vida inteira ele teve a sensação de que alguma coisa formidável ia lhe acontecer, mas não sabia o que seria: “Alguma coisa, fosse o que fosse, jazia à espera dele, por entre os desvios e as curvas dos meses e dos anos, como uma fera agachada no meio da selva”.

A espera de John Marcher é a mesma de tantos outros personagens de James: solteirões, sóbrios, circunspectos, educadíssimos, presos a rituais e convenções, vendo a vida passar na janela. 

Seu tema musical poderia ser uma canção como “Waiting for the Miracle” de Leonard Cohen (“Eu estou à espera, dia e noite / não vi o tempo passar / perdi metade da vida. / Houve uma porção de convites / e alguns foi você quem me mandou; / mas eu estava esperando o milagre, / esperando o milagre chegar”.) 


"Waiting for the Miracle":
https://www.youtube.com/watch?v=D1EDKvXRKd0


Pode ser a história de um amor irrealizado, mas é mais do que isso, é a percepção de todos os tipos de espera que temos de aprender. Esperar pelo improvável, pelo que foi garantido (prometido, jurado, contratado) mas não se sabe se vai acontecer ou não. 

Ou esperar pelo desconhecido, como o Godot que os dois vagabundos de Samuel Beckett esperam na beira da estrada em Waiting for Godot. E como tudo na vida é travessia, talvez o que sobrevém aos vagabundos no transcorrer da peça acabe sendo mais interessante e crucial do que a chegada de um Godot talvez indiferente e sem muita coisa para dizer.

Senão, a espera é a vida de John Marcher: “seu pequeno emprego de funcionário público, os cuidados com seu modesto patrimônio, com sua biblioteca, com o jardim de sua casinha no campo, com as pessoas de Londres cujos convites sociais ele aceitava e retribuía”. Uma vida à espera, uma espera que acaba proibindo que o esperado aconteça.






sexta-feira, 13 de março de 2015

3761) "Os Inocentes" (14.3.2015)



Estou coordenando, para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro (Rio de Janeiro) uma Mostra do Cinema Fantástico, com filmes todos os sábados às 14 horas, entrada franca. A escola fica na esquina da Rua da Alfândega com Rua 1º. de Março, pertinho do CCBB. (Após a sessão, haverá debate com o prof. Sérgio Almeida, e estarei presente sempre que possível, o que não é o caso desta estréia.) Pretendo comentar aqui os filmes escolhidos, e o leitor fora do Rio pode encontrar os filmes nas locadoras e na Internet, caso se interesse.

O filme de abertura, hoje, será Os Inocentes (“The Innocents”, 1961) de Jack Clayton, provavelmente o melhor filme do diretor. É um daqueles clássicos filmes de terror em preto e branco, explorando uma fotografia cheia de claro-escuro e os cenários cheios de mistério de uma enorme mansão. São filmes mais elaborados e mais sutis do que a produção normal de terror da época, de produtoras como a Hammer Films (inglesa) e AIP (norte-americana), de orçamento mediano, feitos meio às pressas. O filme de Clayton é uma produção caprichada dirigida por um perfeccionista.

O filme é adaptado do romance Outra Volta do Parafuso (1898) de Henry James, história de uma governanta que vai morar numa mansão no campo para cuidar de um casal de crianças. A mansão é assombrada pelas aparições de um casal de ex-criados, que quando trabalharam ali viviam muito próximos às crianças e agora parecem voltar do túmulo para se apossar delas. A governanta tenta salvar as crianças desse perigo – e algumas teorias dizem que tudo aquilo é um delírio dela própria.

O livro de James é uma das melhores ilustrações da teoria do Fantástico proposta por Tzvetan Todorov em sua Introdução à Literatura Fantástica (1970). Diz Todorov que o Fantástico é uma zona indefinida entre o Estranho (histórias de fatos aparentemente sobrenaturais, mas que no fim recebem explicações realistas) e o Maravilhoso (histórias em que tudo está claramente situado num mundo sobrenatural qualquer). Histórias fantásticas (diz ele) são aquela que se concluem sem que o autor “bata o martelo” com uma explicação clara, deixando no ar a dúvida: aquilo que aconteceu foi sobrenatural ou não?

Os Inocentes é um dos grandes filmes de terror atmosférico, onde existe pouca ou nenhuma violência física, mas tudo é impregnado de uma aura de ameaça, de maldade, de corrupção.  Disse James de sua história: “Em última análise, qual a sensação que eu tinha de transmitir? A sensação de que esse casal fantasma seria capaz, como se diz, de tudo – ou seja, de exercer, com respeito às crianças, a pior ação a que as pequenas vítimas, tão sugestionáveis, pudessem estar sujeitas.”




sábado, 31 de janeiro de 2015

3725) Os escritores pop (31.1.2015)



As flips, flibos, flipoços, fliportos e tantas outras festas literárias e bienais têm alvoroçado muita gente.  A imprensa achou a expressão “fenômeno midiático”. No movimento browniano em que se entrechocam as opiniões e os gostos, há duas aglomerações opostas. 

Há os que se entusiasmam com essa interatividade, porque seu temperamento os conduz para isto e o processo todo os favorece.  E há os que têm repulsa a um processo assim, em parte porque não foram talhados para ele, e em parte porque acham que ele favorece quem escreve mal.

O escritor deve somente escrever, arder o cérebro pela madrugada, como uma vela no altar da Musa? Ou pode também se entregar à política literária, à vida social, organizar-se em “escolas” e “movimentos”, inventar um “ismo”, colaborar na imprensa, meter-se em polêmicas, meter-se na política, cortejar a fama? 

É a antiga oposição entre Gustave Flaubert e Émile Zola, dois escritores de peso, amigos, que podem até ilustrar os polos opostos dessa discussão.  Flaubert era o sacerdote, Zola era o publicitário. Machado... e Alencar. Graciliano... e Jorge Amado.

Henry James tem um conto fantástico, “The Private Life” (1892) que conta (entre outras coisas bizarras, machadianas) sobre um escritor famoso, encontrado pelo narrador numa colônia de férias na montanha, e que não faz outra coisa senão conversar e entreter os admiradores, fãs, tietes em geral.  O narrador sobe até a suíte onde esse autor está hospedado e descobre que ele tem um duplo, um outro corpo igual ao original, que fica se esfalfando na escrivaninha, produzindo os textos que fazem a fama do primeiro.

Eu entendo perfeitamente que alguém que não goste de falar em público ou de viajar (eu gosto).  Por outro lado, não sei se eu teria disposição para autografar 500 livros ao longo de umas três horas, como já vi pessoas fazendo. Cada um pode ter recursos ou disponibilidades diferentes  para se aproximar do público, mas isso não importa. Ser autor é escrever e publicar.  E nenhuma propaganda de livro é melhor do que a de boca em boca.

O personagem de Henry James é uma variante do médico-e-o-monstro.  É o escritor-e-marqueteiro, que surge espontaneamente em certas culturas. Quem não sabe ser marqueteiro, fique escrevendo no quarto do hotel.  O quarto vai ficar cheio de folhas manuscritas, cheio até o teto. Algumas folhas acabarão sendo empurradas para fora, por baixo da porta.  Um vento as erguerá no corredor e as conduzirá flutuando até a  rua, até uma tipografia, onde alguém, quase sem perceber, fará daquilo um livro.  Se for um livro bom, é nesse momento que o jogo começa. Se o livro é ruim, é aí que o jogo acaba.




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

3704) Henry James e Machado (7.1.2015)



De vez em quando alguma coisa de Henry James me lembra Machado de Assis.  Não sei se alguém os acha parecidos; eu acho, e muito.  Quando se fala nas influências britânicas de Machado é lembrado Laurence Sterne, citado nominalmente (e bem visível, em estilo) no Brás Cubas.  Eu penso na semelhança de Machado com James. Aqueles salões, aquelas paixões furtivas, senhores emproados, damas melífluas, aquele ambiente de chás e comendadores e intrigas a meia voz por entre leques e mantilhas. Sem falar nos dois estilos, que correm em paralelo, como dois pianos acompanhando, cada um a seu modo, uma melodia que só os dois escutam.

No conto “The Romance of Certain Old Clothes” (1868) vi esta cena breve de uma discussão de casal, onde o autor diz: “Lloyd put his arm around his wife’s waist and tried to kiss her, but she shook him off with magnificent scorn.”  Que eu traduziria assim, ao meu modo: “Lloyd passou o braço pela cintura da esposa e tentou beijá-la, mas ela o repeliu, com soberano desprezo.”  O adjetivo “magnificent” me lembrou uma cena parecida.  Fui encontrá-la no capítulo XV do Brás Cubas, quando nosso herói está tentando subornar Marcela (a dos “quinze meses e onze contos de réis”):

“No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado. — Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu. Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.”

É pouco; mas é típico.  A “magnificência” dos gestos deixa a entender que são resultado de longo estudo por parte da mulher. Há em Machado e James uma espécie de ironia bem-humorada no acompanhar das ações dos personagens, menos para diminuí-los do que para divertir-se, por meio de certa malícia paternal, com seus percalços. Onde se distinguem mais é na presença mais ativa (e mais moderna) do Eu-Narrador de Machado, mais desenvolto do que o de James, mais disposto a ocupar o proscênio, a fazer parar a história enquanto proseia com o leitor. 

No mais, ambos os romancistas são discretos, meditativos, mais à vontade com salas de visitas do que com batalhas campais; ambos conscientes do público feminino que os lia, ambos mais afeitos à observação atenta do que à ação arrebatadora.  Seu mundo é o de cavalheiros que nunca trabalham, de uma vida social de regras rígidas e maledicência constante, repleta de duplos sentidos, evasivas, dissimulações, pequenos rituais de salão que mal ocultam a dinâmica real dos amores e dos ódios, um estilo indireto de vida social que impregna e modula a frase, o enredo, a voz narrativa.




sábado, 5 de outubro de 2013

3309) Escritores duplos (5.10.2013)




(Cortázar em Paris, 1969)



Ter duas pátrias é como ter duas namoradas: por mais que a gente faça por uma, ela sempre vai achar que a gente faz mais pela outra. 

Quando um escritor tem dupla nacionalidade (seja oficialmente, seja por circunstâncias de vida), tem a chance de entrar para a história das duas literaturas, mas também corre o risco de virar uma nota de rodapé em ambas, se cada uma achar que ele deu mais atenção ao seu outro país de escolha.

Estou me referindo a autores que viveram intensamente duas culturas, não aos exilados ou aculturados. 

Joseph Conrad largou a Polônia onde nasceu, tornou-se marinheiro, acabou sendo um escritor inglês na Inglaterra; não creio que alguém possa considerá-lo um autor polonês, pois me parece que produziu pouco ou quase nada em seu idioma natal. (Conrad é também um caso de autor que tornou-se mestre numa língua que não era a sua, como Nabokov.) 

Caso parecido é o de Isaac Asimov, que nasceu russo por acaso, e é o mais norte-americano autor que alguém pode imaginar. Nada há de russo nele – embora haja muito em Nabokov, muito de russo aristocrata, cosmopolita, que aceitou viver nos EUA por falta de coisa melhor no mundo.

Dupla nacionalidade mesmo é um caso como o de Henry James, T. S. Eliot, John Dickson Carr e outros que durante a vida inteira oscilaram entre serem norte-americanos e serem ingleses. Essa capacidade de ver pelo lado de dentro duas culturas “separadas por um idioma” forneceu grande parte da força da obra deles.  

No caso da literatura lusófona, tenho a impressão de que figuras tão diferentes quanto Gregório de Matos e o Pe. António Vieira deveram igualmente às duas margens do Atlântico.

Mas os exemplos dos parágrafos acima tratam de escritores trafegando em dois países e um só idioma. No caso de Júlio Cortázar, ele foi um argentino que se refugiou em Paris aos 37 anos e de lá não mais saiu – mas continuou escrevendo em espanhol até o fim da vida, fazendo exatamente o contrário do que fez Conrad. E não por falta de opção, pois seu francês era impecável e ele ganhava a vida como tradutor da Unesco. 

Houve uma certa insatisfação na Argentina quando ele recebeu algumas honrarias na sua pátria adotiva (cidadania francesa, p. ex.), mas isso provavelmente está ligado à política – Cortázar sempre foi de esquerda, e era criticado em seu país por apoiar os regimes de Cuba e Nicarágua. 

Sua condição binacional está lindamente expressa na raiz do conto “O outro céu” (em Todos os fogos o fogo, 1966), em que o protagonista se alterna entre Paris e Buenos Aires simplesmente entrando numa galeria que fica numa cidade e saindo, na extremidade oposta, noutra galeria que fica na outra.








segunda-feira, 15 de julho de 2013

3239) Parafuso (16.7.2013)




O parafuso está um degrau acima do prego, em termos de evolução. Quem inventou o prego? Os primeiros eram talvez pedaços de graveto usados para perfurar e unir folhas largas da cobertura de uma cabana, fixando-as umas às outras. Depois que o metal começou a ser forjado, não custou muito perceber que ele, se pontiagudo, podia fazer o mesmo com dois pedaços de madeira. Já o parafuso exigiu uma mente mais sofisticada. A idéia de enfiar um prego torcendo-o, ao invés de batendo, deve ter ocorrido aos usuários milhares de anos antes de alguém ser capaz de esmerilhar no metal a rosca que o ajuda a penetrar e depois o mantém preso.

A palavra inglesa para parafuso, “screw”, é a mesma para o verbo que indica o ato sexual, nosso famoso verbo com F. Há um simbolismo fálico evidente, mas seria mais lógico o uso de “nail” (prego), cujo movimento corresponde de modo mais instintivo ao do ato em si. Prego e parafuso envolvem conceitos diferentes de movimento: o movimento reto para a frente e o movimento helicoidal para a frente. Para fazer a forma evoluir de um ao outro é preciso partir para um conceito totalmente diferente. Era o mesmo impasse dos sujeitos que tentaram inventar o avião construindo máquinas que batiam as asas, imitando o voo dos pássaros. Levou algum tempo até todo mundo perceber que o caminho não era esse.

O movimento helicoidal do parafuso (basicamente os movimentos simultâneos de giro em torno de si mesmo e de avanço num eixo retilíneo perpendicular – me corrijam se isto está errado) foi uma conquista conceitual sofisticada. Seria interessante ver se a fenda na cabeça (onde se insere a chave de fenda) surgiu logo, ou se os primeiros parafusos tinham uma haste projetada para cima e eram torcidos com o dedo (como as chaves comuns).

É famosa a quadrinha popular, de autor incerto: “A saudade é um parafuso / que na rosca quando cai / só entra se for torcendo / porque batendo não vai; / e se enferrujar por dentro / pode quebrar, mas não sai”. Henry James escreveu sua famosa história de terror Outra Volta do Parafuso baseado na idéia de que fantasmas perseguindo uma criança seriam (para usar uma expressão popular) um arrocho, e se fossem duas crianças seria outro arrocho maior ainda. O aperto dos parafusos não é necessariamente uma coisa ruim: sempre dizemos que Fulano de tal tem um parafuso frouxo (ou faltando) quando constatamos que ele não bate bem da cabeça. “Ter um parafuso a menos” é sinal de desorientação mental, e dizem que o painel de Aldo Locatelli no aeroporto de Porto Alegre era informalmente chamado de Bagunça na Oficina, pois os personagens pareciam todos em busca de um parafuso desaparecido.


domingo, 21 de outubro de 2012

3009) "A Volta do Parafuso" (21.10.2012)





Esta noveleta de Henry James (1898) é um clássico da literatura de terror, e teve uma ótima adaptação para o cinema (Os Inocentes, Jack Clayton, 1961 – aqui, uma boa e informativa crítica de Colm Tóibín: http://bit.ly/SXIoxz). É a história de uma governanta que vai cuidar de um casal de crianças (10 e 8 anos) numa mansão assombrada pelos fantasmas de um casal de criados que, quando vivos, estavam fazendo tudo para perverter o garoto e a garota. A governanta vê os fantasmas; as crianças parecem não vê-los, e tudo conduz a um desfecho trágico.

Já correu um Açude Velho de tinta a respeito desse livro, que é um dos grandes exemplos do que a gente chama “o fantástico todoroviano”. A teoria de Tzvetan Todorov é de que uma história legitimamente fantástica é aquela que permite o tempo inteiro duas leituras: uma leitura sobrenatural (os fantasmas existem de fato) e uma leitura realista (tudo não passa de um delírio provocado pela sexualidade reprimida da governanta). As duas leituras estão entrelaçadas, e qualquer pessoa que queira defender uma delas encontrará numerosas pistas ao longo do texto.

Um aspecto que se discute menos sobre esta pequena grande história é que James foi um dos primeiros e melhores formuladores da teoria que hoje chamamos “Não Mostrar o Monstro”. Quando queremos assustar o leitor, é melhor a abordagem indireta, que sugere mas não afirma, implica mas não descreve, deixa tudo à imaginação do próprio leitor. Amigo de Robert Louis Stevenson, James talvez tivesse em mente, ao escrever, o clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde que o amigo publicara em 1886, e onde a natureza exata das perversidades de Mr. Hyde não fica bem clara.

Diz James, no prefácio à edição de Nova York de A Volta do Parafuso: “Já vimos, em ficção, uma forma magnífica de malfeito ou, melhor ainda, de mau comportamento, atribuída, vemo-la prometida e anunciada como se fosse pelo bafo quente do Abismo – e então, lamentavelmente, reduzida ao âmbito de alguma brutalidade específica, uma imoralidade específica, uma infâmia específica retratada. (...) [Para evitar isto,] basta tornar bastante intensa a visão geral que o leitor tem do mal, calculei – e essa já é uma tarefa charmosa – e sua própria experiência, sua própria imaginação, sua própria compaixão (pelas crianças) e horror (dos falsos amigos delas) lhe fornecerão, de forma satisfatória, todos os pormenores. Faça-o pensar no mal, faça-o pensar por si, e você estará livre das frágeis especificidades”. O que é induzido e sugerido se multiplica em um milhão de fantasias de horror nas mentes de um milhão de leitores. E cada horror será personalizado.




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

2964) Fantasmas (31.8.2012)


“The Private Life”, de Henry James, é um conto de fantasmas pouco comum. Conta a história de dois indivíduos que se encontram num hotel dos Alpes, durante as férias. 

O primeiro é um dramaturgo que se divide em duas cópias de si mesmo. Uma das cópias conversa abobrinhas com as damas da sociedade, enquanto a outra fica no quarto do hotel, escrevendo. 

O segundo personagem é um general vaidoso e autoritário que, quando não está sendo visto por ninguém, some no ar. Não tem essência própria, tudo nele é pompa e circunstância, tudo nele é “a liturgia do cargo”. 

Este último personagem me lembrou de imediato o alferes do conto “O espelho” de Machado de Assis, que quando tira a farda deixa de existir e até mesmo de se ver no espelho, mas basta-lhe vestir de novo o uniforme e todos voltam a perceber sua existência e a tratá-lo com cortesia. (Para os rastreadores de plágios e de influências: o conto de James é de 1892; o conto de Machado é de Papéis Avulsos, 1882.)

Encontrei por aí este comentário, cujo autor infelizmente não guardei: 

“Os fantasmas de Henry James estão sujeitos a brotar tanto de dentro quanto de fora; embora sejam percebidos de forma vívida, muitas vezes são tanto emanações da psiquê quanto visitantes de ‘outro mundo’. Sem dúvida, é precisamente a indefinição entre essas duas condições que lhes confere poder imaginativo”.  

O comentário é pertinente porque o conceito de fantasma parece a alguns ser (e não é) ligado ao conceito religioso de alma. Um fantasma seria apenas um espírito que sobrevive à morte do corpo e consegue comunicar-se com os vivos, ou pelo menos ser percebido por eles.

Podemos fazer, a toque de caixa, uma pequena lista de hipóteses fantásticas, mas não-espirituais (no sentido religioso) para a existência de fantasmas. 

Um: emanações perceptíveis, produzidas pela mente de uma pessoa viva sob forte tensão (as aparições e desdobramentos, como a do dramaturgo descrito por James). 

Dois: a existência de frestas no espaço-tempo que captam uma “fotografia animada” de alguém que as atravessa, e as reproduz depois, quando tais ou tais condições forem preenchidas.  

Três: a existência em nossa mente de um “gatilho” alucinatório, espécie de esquizofrenia controlada, que é deflagrado em momentos de tensão fazendo nosso inconsciente projetar uma imagem aparentemente exterior a nós (o espectro) que interfere em nossa conduta. 

Quatro: a existência de redemoinhos localizados do espaço-tempo, onde visões do passado ou do futuro podem ser percebidas de modo aleatório por um observador externo.  

Só nestas sugestões já temos quatro pontos de partida para histórias de fantasmas sem fundo animista ou religioso.