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quarta-feira, 1 de julho de 2026

5242) À sombra das chuteiras imortais (1.7.2026)



 
Era este o título de uma série de crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol, no jornal O Globo, que eu lia com devoção, tanto quanto lia o “Meu Personagem da Semana”, a página dupla mantida por ele na antiga Manchete Esportiva que meu pai não só colecionava como encadernava. 
 
Não sei onde Nelson foi buscar essa frase, que é sonora, imponente, bem àquele estilo de tribuno nordestino amante dos gestos largos e da voz estentórica. Ele e seu irmão Mário Filho (que deu o nome ao estádio do Maracanã) eram iguais e antípodas ao mesmo tempo. Iguais no amor à literatura e ao futebol; antípodas no modo de ser e de escrever. 
 
Nelson tinha era um escritor cheio de veemência, de barroquismo. Mário era um espírito lúcido, pausado, preciso; escrevia com a elegância de um Machado e o bom humor de um Verissimo. 


(Nelson Rodrigues e Mário Filho) 

 
Resultado: Nelson marcou gerações inteiras com sua personalidade conturbada, cínica, emotiva, e sua linguagem cheia de exageros retóricos. Quanto a Mário Filho... poucos o leem hoje, e os outros não sabem o que estão perdendo. 
 
Nelson marcou para sempre o jeito de se escrever sobre futebol, e curiosamente ele mesmo dizia que não entendia muito de esquemas táticos ou sutilezas estratégicas. Sua matéria-prima era a emoção do futebol. Eram os destinos e as vicissitudes do sucesso e do fracasso; os grandes dramas e as grandes comédias, o lado épico e o lado picaresco do esporte bretão. E a tudo isto Nelson respondia com um vocabulário imprevisível, e com um impagável senso crítico sobre a comédia humana. 



 
Reza a lenda que certa vez um jornalista amigo de Nelson o abordou, um tanto enciumado de seu sucesso.
 
-- Puxa vida, Nelson, você escreve bem pra caramba, mas se repete muito.
 
-- Eu me repito? Qual nada.
 
-- Claro que se repete. Volta e meia você está reutilizando seus próprios clichês.
 
-- Isso é um absurdo, eu não tenho clichês.
 
-- Como não tem? “O olho rútilo e o lábio trêmulo...” “Uma granfina com narinas de cadáver...”  “Calçar as sandálias da humildade...” “Até uma cambaxirra paraplégica teria conseguido fazer esse gol...” “Subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional...” “Gorda e patusca como uma viúva machadiana...” Reconhece tudo isto?
 
-- Está vendo? – disse Nelson, triunfante. – Se eu não repetisse, você não teria se lembrado.
 
Não sei se o teor da conversa foi este, mas a lição de Nelson não foi outra. Quando a gente produz uma frase memorável, não deve atirá-la à vala comum do “uma só vez”. É preciso repeti-la, porque na vez seguinte dez pessoas a reconhecerão e duzentas estarão sendo apresentadas a ela somente agora. E assim por diante. As grandes tiradas afundam na areia movediça da desmemória coletiva se não forem resgatadas e postas a trabalhar de novo, vez em quando. Repita a frase, colega. Ela é sua. 



Nelson deixou marcados esses seus bordões porque era o homem da página de jornal e do palco de teatro, não o do livro capa-dura com lombada gravada a ouro. Sua literatura era uma literatura de feira-livre onde os produtos têm prazo de validade curto, mas podem ser substituídos na semana que vem por um equivalente perfeito. 


 
Nelson, fluminense roxo, ou melhor, verde-branco-grená, dizia que “o Fla-Flu começou a existir cinco minutos antes do Gênesis”. Na verdade, aposto que não foi bem isto que ele disse, mas já li de tantas formas e em tantas variantes que não importa mais: importa a idéia de grandeza cósmica que ele tenta aplicar ao jogo que mais mexia com as suas coronárias. 
 
E é assim que os grandes achados verbais perduram e se propagam: eles usam palavras inesperadas para comunicar uma idéia nova, e quando são bem sucedidos a idéia se fixa de tal modo na cabeça de quem ouve que na vez seguinte as palavras nem precisam ser as mesmas. 
 
Vale, também para as frases, aquele princípio essencial dos roteiristas de cinema sobre as histórias: história que dá filme é aquela que você pode recontar com suas próprias palavras e produzir o mesmo efeito, sem depender do léxico ou do fraseado do autor. 
 
O léxico e o fraseado de Nelson, porém, eram impagáveis, porque ele usava a língua portuguesa, ou a língua brasileira (tá bom, tá bom: a língua PB) como lhe dava na telha. No Brasil, os exemplos e os modelos do “escrever bem” se concentram em torno de Machado de Assis, de Guimarães Rosa, de Gilberto Freyre, de Antonio Cândido... Todos escrevem maravilhosamente, pelos meus critérios pessoais, mas dou graças aos céus dos agnósticos por ter assimilado doses maciças de Nelson na adolescência. “Escreva do jeito que você anda”, diria ele; “escreva com o que você tem.” 



 
E a “sombra das chuteiras imortais”? Estou aqui me coçando para ver se encomendo na Livraria Folha Seca o volume que tem esse título, porque meu pai o achava a coisa mais bonita do mundo, e eu, como sempre, ia no seu rastro. Não foi senão muito depois que comecei a questionar muita coisa, e no meio disso as tais sombras das chuteiras. 
 
Como é a sombra de uma chuteira? Bem, se alguém já as pendurou, a sombra se projeta oblíqua na parede. Mas se não é o caso, a sombra de um par de chuteiras tem exatamente o formato delas duas, dos seus solados com travas, em cima da grama onde pisam. É só isso que um jogador tem. 

O campo de futebol tem medidas vastíssimas, mesmo pelos parâmetros do futebol superatlético de hoje em dia. É um latifúndio, e a parte que cabe a um jogador, nesse latifúndio, é a parte onde pousam seus pés, onde pousa a sombra das chuteiras imortais. 
 
Estamos em tempo de Copa do Mundo, e esta é sempre uma época em que eu sinto o espírito de Nelson baixar sobre mim. 
 
Gosto de acompanhar futebol internacional, agora que tudo está no YouTube e equivalentes. Jogos da Champions League, jogos dos campeonatos inglês e espanhol (os dois que me interessam), algumas disputas de seleções (Eurocopa, etc.). 


 
(foto: Ina Fassbender) 
 

Não torço por ninguém, e não acho que o futebol só possa ser fruído, saboreado, se a gente torcer por um dos times. Acho que o espetáculo vale por si, o drama vale por si. Eu sou aquele cara que centenas de vezes na vida ligou a TV de tarde para ver o videotape de XV de Jaú vs. Ponte Preta. Por que? Sei lá. Porque em qualquer jogo de futebol pode acontecer uma coisa genial a qualquer instante. 



Quando chega Copa do Mundo, no entanto, menos do que o lance genial ou o gol de placa eu passo a acompanhar o sonho, o drama, o paraíso, o pesadelo. Não é um clube, é um país inteiro que está ali. E sinto isso muitíssimo mais forte quando se trata de pequenos países, de seleções sem muita tarimba. 
 
Esta Copa, com seu despropositado número de 48 participantes, tem essa atenuante: está trazendo seleções que nunca, ou raramente, disputaram uma fase de grupos, quanto mais um mata-mata. 
 
E em momentos assim eu viro uma espécie de Nelson Rodrigues, esqueço o gol de placa e me concentro no épico improvável de uma vitória do Equador ou do Paraguai (que começou a Copa tão mal) diante da Alemanha, ou de um empate de Cabo Verde com a Espanha, ou do heroísmo do Marrocos diante da Holanda. 
 
Acho que o brasileiro tem uma certa tendência a torcer pelo “underdog”, pelo time mais fraco. E por cima disso vem a identificação com essas torcidas (a maioria gente mais endinheirada do que eu, mas não importa) que está lá de joelhos, chorando, rezando, cuspindo, esbravejando, vivendo algumas semanas de vitórias impossíveis e derrotas insuportáveis. 
 
Cabo Verde virou a “cinderela” da Copa, a história que todo mundo gosta de ouvir contar. Pouco importa se não joga um futebol coletivo tão bem encaixado quanto o da Argentina, ou se não tem um elenco “Ocean’s Eleven” como o da França. Não vemos seus jogos em busca de novidades táticas ou de um novo Messi. Vemos para prestar homenagem a quem está vivendo um sonho, e para fazer parte desse sonho feliz antes que ele acabe. 



(foto: Chandan Kanna) 



 
 








terça-feira, 13 de abril de 2021

4693) Um cânone brasileiro alternativo (13.4.2021)



No ano já distante de 2006, a revista recifense Continente Multicultural convidou uma porção de gente, eu inclusive, a participar de uma votação sobre o “Cânone da Literatura Brasileira”, incluindo aí a prosa de ficção e a poesia.
 
Não sei como os outros definem “cânone literário”, mas eu defino, meio frouxamente, como um possível conjunto de obras que é preciso conhecer para entender os caminhos, as possibilidades e o espírito da nossa literatura.
 
Não é uma lista dos “dez melhores”.
 
É uma lista de livros que contribuíram fortemente para a formação dos autores que vieram depois; e com impacto inclusive fora do âmbito estritamente literário. Livros influentes; e livros que nos reflitam como povo, que nos revelem como cultura, que indiquem a um leitor, recém-chegado ao mundo, o que é o Brasil pela voz dos seus escritores – e modéstia à parte, não sei que voz mais adequada haveria.
 
Na época daquela enquete, questionei um detalhe que me preocupava. Com o passar dos anos, certos livros vão se tornando quase obrigatórios. Sua ausência provocaria indignações, arrufos, talvez até uma troca de sopapos. “Como se atreve a deixar de fora Grande Sertão: Veredas?! Dom Casmurro?!!!”.
 
Resultado: ninguém mexe mais no cânone, onde entram somente as unanimidades. Fica parecendo os Dez Mandamentos. Pra tirar dali um desses consagrados vai ser preciso fazer uma verdadeira CPC, “Campanha de Problematização e Cancelamento”.
 
Minha sugestão, na época, foi deixar de fora os títulos que parecessem óbvios. E indiquei dez que na época me pareceram plenamente merecedores de figurar entre o que o Brasil já produziu de melhor, mas que talvez nunca entrassem numa lista dessa natureza. Talvez até por serem preteridos por outras obras supostamente “superiores” do mesmo autor.
 
Pensando assim, fiz minha sugestão incluindo seis obras de prosa: Corpo de Baile de Guimarães Rosa, Memórias Sentimentais de João Miramar / Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade, Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna, Reinações de Narizinho de Monteiro Lobato, A Grande Arte de Rubem Fonseca, Nove, Novena de Osman Lins. 
 
E quatro de poesia: Invenção de Orfeu de Jorge de Lima, Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, Eu de Augusto dos Anjos e Cobra Norato de Raul Bopp.
 
Todo mundo tem o direito (e o prazer) de discordar, é claro, mas com esses dez livros embaixo do braço eu passaria mais uma vida inteira. Alguém dirá: “Mas faltou Fulano de Tal!”  E eu responderei: “Em toda lista falta alguém, até na Lista de Schindler.”
 
Colocou-se há pouco, numa discussão semelhante, a questão: “Tudo bem, você indicou uma opção B aceitável; mas, haveria uma opção C?”  Ou seja: seria possível indicar uma nova lista sob os mesmos critérios, deixando de lado os “óbvios, incontornáveis”, e também os dez títulos acima?
 
Não acho difícil. Conferenciei aqui com meus botões, ou melhor, com minhas teclas, e bolei a lista abaixo. Para não me afastar muito da proposta inicial, são novamente seis obras em prosa e quatro em verso. Todos me parecem necessários para compreender do que o Brasil é capaz – além de serem livros, é claro, que me despertam um sentimento de gratidão e de orgulho-alheio, sempre que me lembro deles.
 
E sempre lembrando: o objetivo destas minhas listas é indicar títulos “não-óbvios”, que dificilmente seriam indicados para um cânone porque outras obras do mesmo autor, as consideradas “obrigatórias”, passariam na frente.
 
Obras em prosa:

 
1.       Dona Flor e seus Dois Maridos (1966) de Jorge Amado. Não botei nada do baiano na minha primeira lista, e tenho convicção de que se alguém for “canonizar” um livro dele provavelmente vai ser Gabriela, Cravo e Canela. Mas Dona Flor foi um sucesso enorme desde o lançamento, foi adaptado para o cinema, marcou gerações. Sem ter sido o primeiro livro de Jorge que li, foi o primeiro que me despertou, na adolescência, para as possibilidades literárias do romance erótico e para as possibilidades brasileiras do romance de fantasmas. (E me ajudou a ir morar na Bahia dez anos depois, mas isso já é outra história.)



2.       Memorial de Maria Moura (1992), de Raquel de Queiroz. Qual é o título óbvio, de Raquel? Claro que é O Quinze, que dizem ter sido escrito quando ela tinha 17 anos – e é um grande livro. Mas por trás dele acabam ficando invisíveis outros romances excelentes, como este. É um épico sertanejo de uma mulher-guerreira, uma mistura de Cat Ballou e Dona Guidinha do Poço. Pesquisa histórica e geográfica bem fundamentada, aventuras, violência, morte, paixões eróticas desenfreadas, religião, economia rudimentar. Um romance guerreiro que se encerra, triunfalmente, com o “exército” sertanejo partindo para uma batalha de resultado imprevisível. E publicado por uma escritora de 80 anos.



3.       Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto. O óbvio de Lima é Policarpo Quaresma, mas eu tenho uma admiração por esta história de um rapaz negro, inteligente, com leitura, forçado a trabalhar como contínuo num jornal cheio de pavões menos competentes do que ele. O retrato do Rio é excelente. Foi o primeiro livro escrito pelo autor, que já estava todo nele. E o retrato da imprensa brasileira continua atual.



4.       Felicidade Clandestina (1971), de Clarice Lispector. Os títulos canônicos mais óbvios de Clarice seriam A Paixão Segundo G.H. (mais complexo) ou A Hora da Estrela (mais popular). Mas eu acho que a influência maior da obra da “frasista mais famosa da Internet” está nos contos, sempre brilhantes. Como neste livro, onde cabem pequenas crônicas, pequenas histórias absurdistas, retratos de família, e até o inexplicável e inesgotável “O Ovo e a Galinha”.



5.       Elas Gostam de Apanhar (?), de Nelson Rodrigues. A obra de Nelson é um caos bibliográfico; sua influência sobre o público foi maior na imprensa do que nos livros. Coloco aqui esta coletânea da Editora Bloch (não localizei a data), que li nos anos 1960, com capa de Ziraldo. Tudo que está no teatro de Nelson está em sua prosa de ficção.



6.       Várias Histórias (1896) de Machado de Assis. Pois é, em qualquer cânone alguém instala o Dom Casmurro ou o Memórias Póstumas de Brás Cubas (com toda justiça, aliás) e deixa de fora um dos maiores contistas do país. Escolher um volume de contos entre tantos também não é fácil. Escolho este porque a maioria de seus contos saiu durante a década miraculosa de 1880.
 
 
Obras em poesia:


1.       Caprichos & Relaxos (1983), de Paulo Leminski. É um autor recente, mas ouso dizer que já pode ser incluído no cânone, até mesmo como provocação, porque era um notório chovedor no piquenique alheio. Leminski marcou presença no romance, no ensaio, na publicidade, na música popular, e recentemente seu volume Toda a Poesia chegou às listas de best-seller. Sua influência, dos anos 1980 para cá, tem sido imensa – e merecida.



2.       A Educação pela Pedra (1962-65) de João Cabral de Melo Neto. Mais uma vez: o óbvio cabralino em qualquer lista seriam O Cão Sem Plumas ou Morte e Vida Severina, mais conhecidos, mais marcantes, mais emblemáticos. Não me custa nada indicar esse livro duro, árido, onde Cabral se transpôs com alicerces e tudo para o verso longo, o quase-decassílabo, expandindo sua poética para além das cadências redondilhas do romanceiro. 



3.       Poemas (1922-1953) de Ascenso Ferreira. É o volume que reúne os três livros anteriores do autor (Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém). A oralidade, o coloquialismo, o vocabulário regional, os temas “folclóricos”, tudo está presente nesses livros que são talvez o melhor encontro entre o Modernismo e a poesia falada. E deve ter sido um dos primeiros livros da poesia brasileira a trazer a partitura das melodias citadas.



4.       Xadrez de Estrelas (19760 de Haroldo de Campos. A Poesia Concreta dos paulistanos teve um impacto profundo na literatura brasileira, inclusive sobre os que não gostam dela. Eu gosto. Esta coletânea de Haroldo de Campos traz vários dos seus livros concretistas e se encerra com o clássico Galáxias (1973), uma experiência de prosa poética “riocorrente”. Alguém pode até não gostar dos poemas (eu gosto), mas ninguém pode negar que essa poesia fez muitos poetas perceberem pela primeira vez que a poesia era feita de palavras, não de idéias, e que as palavras tinham materialidade.
 
Os títulos listados acima seriam, na minha opinião, uma boa introdução à literatura brasileira para um hipotético estrangeiro (sueco, queniano ou vietnamita) razoavelmente bem informado, e com domínio razoável da língua portuguesa falada no Brasil.
 
A lista esgota nossa literatura? Não, nenhuma lista esgota. Por que ficam de fora tantos autores? Provavelmente porque nunca li, como é o caso de obras que admiro à distância, como O Tempo e o Vento de Erico Verissimo ou Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos. 

E por que não incluí as obras X, Y e Z, que efetivamente li? Porque o mote é “lista de dez”. Quando estou desocupado, precisando esquentar o motor do juízo para escrever coisas mais sérias, pensar nisso ajuda a produzir a ignição. A lista não tem importância.
 
 
 





terça-feira, 20 de setembro de 2016

4162) Tropeções de escritor (20.9.2016)



("cadavre exquis" - www.letti.de)

O escritor Tim Powers contava que começou a ler um livro e a certa altura dois personagens entram no carro e pegam a estrada para outra cidade. Vão conversando e de repente o narrador diz: “Pedi licença a Fulano e fui na cozinha pegar duas cervejas.” E o leitor dá um pulo e diz: Peraí, os caras não estavam num carro?!

Erro de continuidade não existe só no cinema. Existe um certo surrealismo nesses cortes bruscos motivados por inexperiência, carraspanas, doença na família, ou mero esquecimento mesmo. Um autor de pulp fiction, por exemplo, tinha que fazer “x” páginas por dia e geralmente fazia sem ter tempo (ou saco) para reler o que tinha feito na véspera. Pegava de onde tinha deixado.

A falta de cerimônia deles para com a arte literária beirava a de Nelson Rodrigues, que, reza a lenda, aproveitava os remansos do tempo na redação do jornal onde garimpava o leite das crianças, e ficava na máquina batucando os folhetins com que garantia o café dos adultos, e que assinava como “Suzana Flag”(Meu Destino É Pecar, Escravas do Amor, etc).

Eram novelões intrincados, ora com alguma rudeza naturalista, ora melodrama puro, tango argentino puro. Cada romance era como três ou quatro peças rodriguianas interagindo umas com as outras.

Daí que em certos momentos Nelson enchia o saco, vestia o paletó e descia para almoçar ou para tomar uma. Os colegas corriam para a máquina, liam, sentavam ali e continuavam a história por mais duas ou três páginas até alguém anunciar o retorno dele, e aí todos voltavam a suas mesas. Nelson tirava o paletó, pendurava o paletó no encosto, puxava a cadeira, sentava, erguia o prendedor de metal de sobre a folha de papel e relia as últimas cinco linhas. Repunha o prendedor, e daí seguia em frente.

Isso é uma típica brincadeira de redação ou de escritório, ambientes propensos a esse tipo de gracejo. Imagino por minha conta que esse detalhe, mesmo que fosse revelado a Nelson, não mudaria nada. Ele daria de ombros, enfastiado. Que importava se havia um texto intruso incrustado no DNA de sua criatura? Autoria? Que importava a autoria?  Fossem perguntar a Suzana Flag.

Eu diria que em outro contexto isso seria uma brincadeira surrealista de meta-parceria em cabra-cega. Aquela brincadeira de escrever uma frase e dobrar o papel deixando um pedacinho para ser lido e continuado pelo próximo, que faz o mesmo e passa adiante. São os tais “cadáveres delicados” que André Breton, Luis Buñuel, Paul Éluard e os demais surrealistas praticavam, com textos e desenhos coletivos feitos às cegas.

Nelson Rodrigues, mesmo sob o próprio nome, e no que tem de melhor, sempre foi um imperfeccionista, produzindo sem parar, confiando mais no impacto da verdade central de tudo aquilo do que em qualquer filigrana estilística.

Era escritor de redação de jornal, com formação de almanaque, de palavras cruzadas, de coluna de variedades, curiosidades, faits-divers (como também o foram Georges Perec, Raymond Queneau, Mario Quintana). O redator navalha, que com uma só frase degola uma dúvida e encerra uma questão.

Essa era a escola de Nelson, um fazedor de frases impecável. Teatro + jornal = literatura. A tirada brilhante das grandes cenas do melodrama, e a concisão desconcertante do criador de manchetes.

Talvez alguma coisa de sua obra envelheça, mas não acho que serão os diálogos. Talvez os enredos. Não era um grande concatenador de manobras complicadas. Suas intrigas eram intrigas suburbanas; mesmo no romance eram teatrais; mesmo no teatro tinham algo de radiofônico. Pessoas falando, falando, jogando tudo pra fora. 

E as tramas dele eram entendíveis por quem é capaz de entender uma página policial, uma novela hispânica, um folhetim francês. Mas seu negócio não era a “trama”. Eram as situações bizarras, patéticas, brutais, constrangedoras em que ele jogava seus personagens como quem joga gente aos leões. Seus enredos não parecem um silogismo ou uma equação, e sim uma girândola de fogos de artifício.

Lembro às vezes a história, acho que contada por Frank Gruber, de um escritor de pulp fiction que deu uma festa para uma multidão de amigos em seu apartamento em Manhattan, anos 1940. Enquanto os convidados bebiam e dançavam, o dono da casa, num recanto, datilografava a toda velocidade as últimas vinte páginas de um conto que precisava pôr no Correio no dia seguinte. À meia-noite ele deu o conto por terminado e foi beber e dançar com os outros.

Nessas lendas urbanas literárias, a profissão de escritor parece mais romântica do que é, mas o crítico e o leitor: pensam: como ficaria uma história escrita assim? Para alguns, não faz diferença. Tem gente que escreve num café de calçada, num beliche de caserna, num trem lotado. Tem escritor que nem se altera, pode estar num clube, num grito de carnaval, escrevendo num caderno sob a chuva de confetes, e o texto sai com som de mosteiro.

Penso assim: pessoas como esses escritores pulp reliam o que tinham feito? Pegavam da última frase, como Nelson Rodrigues? Mantinham controle de continuidade em algum bloco-de-notas com nomes, datas, direções mencionadas no texto? Ou era tudo de oitiva?  Isaac Asimov orgulhava-se de só pegar num conto para revisar quando ele era recusado por todas as revistas disponíveis no momento. Eu acho isso uma heresia pior do que não ir ao médico.

O texto que Asimov mandava era seu primeiro rascunho, que já era praticamente o texto final. O Doutor não gostava de reescrever, tinha (ao que se diz) uma memória espantosamente retentiva, e defendia sua teoria estilística da “prosa da vidraça” (transparente, mostrando tudo, sem chamar a atenção para si)  contra a “prosa do vitral”, a prosa ornada, que não importa do que fale, está mostrando antes de tudo a si própria.

Se você não é Asimov, como é o meu caso, o jeito é revisar. Você “perdiganha” um tempo imenso relendo pela décima vez um trecho que já foi reescrito nove, mas por isso mesmo, prestenção. 

Será que Nelson percebeu e cortou as intervenções dos seus companheiros de jornal? E como seriam? Será que eles esculhambavam muito, ou procuravam repetir os nomes dos personagens, continuar, mesmo avacalhando, o que estava escrito ali? Cem anos depois, algum professor de literatura vai envelhecer tentando em vão entender que cortes bruscos de enredo e de tom eram aqueles que de vez em quando sobressaltavam o livro.

De qualquer modo, brincadeira surrealista ou não, é uma interferência na obra feita à revelia do autor da obra. Comparo com aquela tradução de Os Lusíadas para o inglês onde o tradutor britânico cortou várias estrofes consideradas impróprias, mas em compensação inseriu trezentos versos com a descrição de uma batalha marítima que não existe no original. (Aqui:









sábado, 5 de outubro de 2013

3306) Unanimidade burra (2.10.2013)





Nelson Rodrigues é autor de frases brilhantes. Um dos maiores fazedores de frases da nossa língua, juntamente com Millôr Fernandes, Paulo Leminski, Guimarães Rosa, Glauco Mattoso, Otto Lara Resende... 

Não apenas a frase sentenciosa, que exprime um conceito redondo, impactante: “Nem toda mulher gosta de apanhar, somente as normais”. Mas a frase-incompleta, que precisa vir apensa a um texto maior, mas dá-lhe um colorido e significado inconfundíveis: “o olho rútilo e o lábio trêmulo” é uma imagem rodriguiana que serve para descrever o personagem tomado por uma emoção incontrolável, seja a luxúria, a raiva, a cobiça.

Uma das frases mais desperdiçadas pelos que o citam, no entanto é o famoso “toda unanimidade é burra”. 

Eu diria que toda frase que tem o formato “todo x é y” é burra, mas esse tiro-no-pé tautológico me força a equacionar a coisa de outra forma. 

Frases com o formato “todo x é y” não exprimem uma verdade científica (uma verdade exterior à mente que a enuncia, uma verdade verificável por terceiros), nem mesmo uma opinião definitiva do autor. 

Frases assim são explosões, desabafos, e não é por lhes faltar um ponto de exclamação que são menos exclamativas. Podem até não ser verdade, mas são algo que o autor pensou por impaciência num certo instante e resolveu explodir.

O problema com esse formato de frase é que esse é o modelo preferido de enunciado para a afirmação de preconceitos: todo baiano é preguiçoso, todo árabe é terrorista, todo russo joga bem xadrez... 

Nelson disse sua frase (quanto quer de aposta?) porque era um insatisfeito em seu estado normal e um revoltado em momentos mais intensos. Gostava de ser do contra, de desafinar o coro dos contentes. Se dez pessoas juntas tivessem a mesma opinião ele via nisso um sinal de preguiça mental, de passividade, de obediência cega, de mentalidade admirável-gado-novo.

O problema, hoje, é que quando um livro faz sucesso e começa a ser elogiado logo aparece alguém proclamando: “Esse filme não pode prestar, porque toda unanimidade é burra”. Se todo mundo em volta concorda quanto a um fato recente no País, surge alguém para dizer que essa interpretação é burra, valendo-se de Nelson. 

Nelson era um ressentido cósmico, um existencialmente inadaptado, um Seu Lunga sem paciência para com a estupidez e a mesquinharia humanas. Na ditadura, ele, um conservador, via-se ilhado em redações aguerridamente esquerdistas e oposicionistas. Individualista até o tutano, não queria nenhum grupinho dizendo-lhe o que pensar. 

Discordo muitas vezes de suas idéias, mas hoje, quando ele começa a virar unanimidade nacional, é preciso a todo custo defendê-lo da burrice alheia.


terça-feira, 19 de março de 2013

3137) Romance e futebol (19.3.2013)




(Nelson Rodrigues)


Um espectro que nunca deixou de assombrar a crítica literária brasileira foi: Por que motivo não existe entre nós uma grande literatura de ficção (romances, contos) voltada para o futebol? Pode-se argumentar que há bons livros sobre o tema (Macedo Miranda, Edilberto Coutinho, etc.), mas é um “corpus” ainda desproporcional em relação à importância que o futebol tem em nosso país. Num post de 2010 em seu blog TodoProsa, Sérgio Rodrigues afirma: “Pois eu tenho uma pista. Nada de elitismo ou falência da arte brasileira. Aposto que o Grande Romance do Futebol Brasileiro está escondido no mesmo limbo em que dormem seus irmãos, os embriões eternos do Grande Romance do Basquete Americano, do Grande Romance da Fórmula 1 Italiana, do Grande Romance do Pingue-Pongue Chinês e do Grande Romance do Curling Escocês”.

Ou seja: é uma falácia esse raciocínio de que se um país é bom num esporte ele deveria ter uma literatura florescente voltada para esse esporte. Não é uma relação assim tão mecânica. No Brasil, o que temos de alto nível é a crônica futebolística, o que me parece lógico. Temos clubes de verdade, craques de verdade, espetáculos épicos de verdade. Quem gosta de futebol, gosta da adrenalina produzida pela disputa esportiva de verdade, entre grandes times. (Ou entre times pequenos, desde que o contexto emocional ou social dê a esse confronto uma dimensão épica qualquer.) E o que cresceu aqui no Brasil foi a literatura de não-ficção em torno desse universo real. Da crônica, que vem desde os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues até os cronistas mais recentes, não temos do que nos queixar. Nossa crônica tem um alto nível literário.

O problema do romance e do conto talvez seja o mesmo do cinema. Ninguém gosta de ver num filme um jogo de futebol inventado, encenado por atores. A falsidade é evidente. Ninguém se emociona, mesmo quando um atacante dribla cinco e entra com bola e tudo. Qualquer espectador sabe que a jogada foi escrita, ensaiada e dirigida para acontecer daquele jeito, então qual é o mérito? O mérito do futebol é ser imprevisível, improvisado, sujeito a reviravoltas que não são determinadas por uma equipe roteirizadora. Numa história de ficção é dificílimo transmitir essa impressão de imprevisibilidade, de chances totalmente abertas. O futebol é familiar demais aos torcedores para que um jogo claramente escrito e coreografado possa se fazer passar pela coisa de verdade. Até um VT de quaisquer dois times pelos quais o espectador não torce é melhor, porque sabemos que, no momento da gravação, tudo aquilo estava acontecendo de verdade, tudo podia acontecer, e essa é a emoção principal do esporte.





sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

3062) A gente não presta (21.12.2012)






Nelson Rodrigues tornou célebre o conceito de “complexo de viralata”, a forma peculiar de complexo de inferioridade que o brasileiro em geral costuma puxar do bolso à menor derrota, ao menor fracasso. Esse complexo está bem ilustrado na famosa piada sobre a criação do mundo. Deus põe no Brasil as melhores florestas, as melhores praias, o que há de melhor na Natureza, e quando alguém reclama de tanto favorecimento ele diz: “Ah, você precisa ver o povinho vagabundo que eu vou colocar aqui”. 

Eu proponho rebater essa piada com outra em que Deus está distribuindo as classes sociais no Brasil, e vai derramando aqui as elites mais egoístas e mesquinhas, os intelectuais mais colonizados, os banqueiros mais rapaces, a classe média mais consumista, os políticos mais venais, e assim por diante. Alguém protesta contra tanto castigo e Deus responde: “É porque você ainda não viu o Povo-mesmo que eu vou botar aqui, é um povo que vai passar por cima disso tudo e vai fazer um grande país”.  A piada é besta?  Não é nem piada?  Sei lá, pra mim é tão boa ou tão ruim quanto a outra, porque a mente da gente aceita o que já está estruturalmente preparada para aceitar.  Tem brasileiro que duvida do Brasil e pronto, acabou-se. Para ele, dizer que o Brasil não presta serve de camuflagem inconsciente para o fato de que quem não presta é ele.

Caetano Veloso disse uma vez em sua coluna no “Globo”: “Gostaria que, em vez de desvalorizar para se eximir, que é o que a maioria se acostumou a fazer, as pessoas se habituassem a valorizar o Brasil, porque isso dá mais responsabilidade”. Acho que ele detectou o nosso bug.  Desvalorizamos o Brasil para que o Brasil não cobre muito esforço de nós, coisa que o Brasil faria se estivesse destinado a grandes realizações. Somos como o jogador de futebol que diz: “Pra que correr? Vamos perder de qualquer jeito...”  E eis um belo exemplo de profecia que cumpre a si mesma.

Dizer que o Brasil não presta interessa a um grupo de deprimidos macambúzios (como desculpa para não fazerem nada, porque são mesmo incapazes de fazer seja lá o que for) e a um grupo de gente para quem o Brasil presta, e muito, do jeito que está – todos os que estão se enchendo de grana com o atual estado de coisas. “O Brasil é essa porcaria mesmo”, dizem, “todo mundo aqui é ladrão, todo mundo aqui é vagabundo, isso aqui não tem futuro”. Desmoralizar o país é uma simples tática para bloquear os que gostariam de moralizá-lo. Talvez o Brasil seja (na visão desses caras) um pitbull que vai estraçalhar todos os seus esquemas, as suas tenebrosas transações, no instante em que descobrir que não é um mero viralatas. Quem viver, verá.


terça-feira, 26 de julho de 2011

2618) A bola não quis entrar (26.7.2011)



Assisti somente o 2º. tempo da decisão da Copa América, quando o Uruguai derrotou o Paraguai por 3x0 e tornou-se merecidamente o campeão. Foi uma final disputada entre o time que tirou a Argentina e o time que tirou o Brasil, de modo que o resultado confirmou o momento difícil vivido pelas duas principais seleções do continente. O Uruguai, a terceira força, se impôs com um futebol competitivo, fechado, veloz no contra-ataque, jogado com a raça habitual e com a técnica que o futebol uruguaio tem, mas que às vezes é suplantada pela raça, a ponto de esta se transformar em truculência e botinada.

A raça, quando entregue a si própria, vira botinada; a técnica, quando entregue a si própria, vira salto alto. Foi este o caso da Seleção Brasileira, que oscilou entre a apatia autoconfiante (“O gol vai sair naturalmente”) e a perplexidade esbaforida (“Que saco, esses caras que não jogam nada não estão deixando a gente jogar!”). Já vimos esse filme, não é mesmo? A Seleção Brasileira só é ela mesma quando consegue, além de administrar os poderosos fatores extra-campo, encontrar dentro de campo esse equilíbrio ideal entre vontade e capacidade, entre a disposição de buscar o gol e a competência para fazê-lo. Não ouvi nesta Copa América a inevitável frase dos nossos atacantes, “a bola não quis entrar”, mas certamente ela foi pronunciada. Se o Brasil não tivesse trazido nenhuma outra contribuição ao futebol, bastaria essa frase, exemplo perfeito da fuga à responsabilidade, para inscrever nosso país (de uma maneira não muito recomendável, concordo) na história do esporte.

A verdade é que alguns times, mesmo que não saibam produzir pedaladas ou dancinhas comemorativas, sabem fazer com que a bola entre. O Uruguai meteu três gols no mesmo Paraguai que bloqueou o Brasil durante 120 minutos e quatro pênaltis. O terceiro gol, no último minuto, foi uma pintura, pelo contra-ataque, pelo lançamento, pelo passe de cabeça de Suárez que encontrou Furlán um segundo antes de estar impedido, e pela conclusão firme deste, colocando a bola rente à trave, e dando a impressão, até o último segundo, de que ela não entraria. Ela deu toda a pinta de que não queria entrar, mas ele soube fazer com que ela lhe obedecesse.

O Brasil está decadente e nossos jogadores são medíocres? Que nada, o time é razoável, o técnico tem princípios que merecem confiança. A questão é que neste Mercosul do futebol o Brasil só entra em campo com ares de prima-dona. Antes do jogo a imprensa já pergunta aos atacantes se haverá pedalada, se haverá dancinha, como vão comemorar os gols, e os jogadores respondem, dando o gol como coisa certa. Enquanto isso, os adversários treinam para fazer com que a bola brasileira não queira entrar, e não sei que conspiração malévola é essa que mesmo com quatro pênaltis a condenada da bola não entra!... Não sofremos mais do complexo de viralata de que falava Nelson Rodrigues; temos complexo, sim, de “poodle” de madame.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

2429) A pergunta boba (17.12.2010)



Todos nós, profissionais calejados, rimos quando vemos na TV a jovem repórter principiante (sim, minhas amigas, não é preconceito meu, mas geralmente é uma mulher) perguntando ao entrevistado famoso quem ele levaria para uma ilha deserta ou qual a sua cor favorita. 

São perguntas idiotas, mas no estreito mundinho mental em que ela foi forçada a viver, o das revistas-para-meninas e revistas-para-moças, essas perguntas são feitas com enorme frequência. Ela cresceu ouvindo-as e certamente imagina viver numa cultura em que não apenas todo mundo tem uma cor favorita, mas todo mundo se interessa em saber qual é a cor favorita dos outros.

Grande parte das perguntas feitas em entrevistas não são coisas que o público quer saber, e muito menos coisas que o jornalista quer perguntar. São perguntas que ele herdou. Perguntas que passam de geração em geração de repórteres, pelo simples fato de que é mais fácil usá-las de novo do que ter uma ideia nova. 

Além do mais, quem critica jornalistas não sabe o que é todo dia ter que encher aquela página que parece ter um hectare de superfície branca. Todo dia ter que reinventar o mundo a partir do zero. Todo dia ter que perguntar algo a desconhecidos, a alguém sobre quem o repórter leu meia lauda de informações colhidas às pressas, enquanto sobe no elevador para bater na porta do entrevistado.

Daí que muitas vezes o repórter faz uma pergunta besta e o entrevistado dá uma resposta áspera. Perguntaram a Nelson Rodrigues “que recado ele daria aos jovens”. Nelson jogou este paralelepípedo: “Envelheçam!”. Coitados dos jovens, que tiveram de obedecer-lhe a contragosto. 

O repórter (desta vez imagino que era um rapaz) certamente estava acostumado a entrevistar velhos cheios de conselhos e palavras de ordem.

Consta que alguém perguntou a Ariano Suassuna o que ele achava da Aids, e ele retrucou: “Prefiro Dostoiévski”. Menos mal para o entrevistador, que voltou para a redação com uma resposta pitoresca, ainda que revestida de um certo azedume. Ariano é o tipo do escritor que se irrita com a mania de se querer saber a opinião de um escritor sobre qualquer assunto, como se pelo fato de ser escritor ele tivesse obrigação de ter uma frasezinha espirituosa ou uma idéia revolucionária a respeito de qualquer tema.

Há autores que raramente dão entrevistas (Rubem Fonseca, Guimarães Rosa, etc). Não é por serem antipáticos ou misteriosos, é para não terem que dizer “onde encontram idéias para escrever tantos livros” ou “tipo, como foi que pintou essa coisa, assim, de escrever”. 

O problema não é a dificuldade de dar uma resposta, é o constrangimento de ter que escutar a pergunta. Perguntaram a Jorge Luis Borges o que faria se fosse nomeado Ministro da Economia da Argentina, e ele explicou: “Renunciaria”. Acho que é por isso que se perguntam tantas coisas, mesmo bobas, aos escritores. Eles só dão respostas pra lá de sensatas.





sábado, 29 de maio de 2010

2086) Machado e Nelson (14.11.2009)



Difícil encontrar dois indivíduos tão diferentes e tão parecidos. Ambos eram grandes fazedores de frases, cada um ao seu modo. Alguém já disse que uma frase é algo parecido com uma espada. Se assim for, a frase de Machado era um florete, a de Nelson uma katana de samurai. Viveram do jornalismo em épocas de jornalismos muito diferentes, mas todos dois herdaram do jornalismo a fluência, a aparente facilidade de escrever, o diálogo direto com o leitor, sem falar nos truques narrativos do folhetim.

Ambos eram fascinados pelo adultério, aquela vozinha incansável que lhes sussurra coisas de dentro do travesseiro quando estão tentando dormir. Para a maioria das pessoas o adultério é um perigo terrível mas remoto, como a possibilidade da queda do avião em que estamos ou de incêndio do prédio em que residimos. Para esses indivíduos especiais, no entanto, o adultério é fonte perpétua de deleite e tortura. A idéia do adultério próprio é um Paraíso sem Deus, onde o todo-poderoso é ele, com Eva ao seu dispor, e fazendo o papel de serpente e de folha de parreira. O adultério da companheira é um Inferno de Dante, com todos os Nove Círculos só para si.

Machado era pudico e Nelson era devasso, e cada um fez ao seu modo a crônica do pudor e da devassidão que os cercavam. Alguns leitores acostumados a emoções fortes criticam o pedestrianismo dos enredos de Machado, onde só acontecem coisas banais, domésticas, e os meros crimes de morte podem ser contados nos dedos. Por comparação, os enredos de Nelson são um prolongamento da página policial dos matutinos. Fervilham de tragédias e escândalos que fariam o Bruxo tremer, assustado com tal desvendamento de segredos que ele levava noites inteiras para encaixar nas entrelinhas.

Curiosamente, Nelson (que não praticou a poesia, ao que eu saiba) escrevia tão bem para o teatro quanto no romance, no conto, na crônica. Sua matéria-prima eram situações humanas, expostas através de ações e diálogos. Já Machado foi perfeito no conto e no romance, mas nunca consegui acreditar no seu teatro, e acho sua poesia meio fraquinha (eita, agora lá vêm 200 emails me excomungando!). Alguns sonetos aceitáveis; nenhum que seja classe A (sim, nem mesmo o da Carolina, o do Natal, o do vagalume).

Não sei se Nelson admirava ou desdenhava (e em que termos) a obra de Machado, cujo nome não é mencionado no índice remissivo de O Anjo Pornográfico de Ruy Castro. Talvez tivesse pelo autor de Dom Casmurro aquela admiração tácita de quem escreve bem por quem escreve bem, independentemente de afinidades; e uma dose encorpada de menosprezo por um sujeito que talvez lhe parecesse um fraco, um tímido, um “cauteloso pouco-a-pouco” na expressão de Mário de Andrade. Se compararmos as trajetórias de vida dos dois, a de Machado é um gráfico horizontal que só de longe em longe é perturbado por um estremeção. A de Nelson daria algo parecido com um resumo sismográfico do Japão nos últimos cem anos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

1957) Os anjos pornográficos (17.6.2009)



Qualquer estudo sobre as relações entre o machismo, a literatura de folhetim e o cristianismo não pode deixar de incluir Nelson Rodrigues e Luís Buñuel como personagens. (Não seriam os únicos, claro – como deixar de fora Rubem Fonseca, Adelino Moreira, Pedro Almodóvar, Carlos Zéfiro, Dalton Trevisan, etc.?) O teatro de um e o cinema do outro são herdeiros do teatro de melodrama e do folhetim do século 19, cuja mentalidade absorveram na infância. Desinformação, tabus, voyeurismo, culpa, pecado... e um desejo sexual maciço, que, segundo Don Luís, não podia ser comparado com nada neste mundo.

Nelson Rodrigues via na arte uma função purificadora: “o personagem é vil para que não o sejamos”. Dizia que as mulheres honestas viam a adúltera no palco e descarregavam através dela suas tentações; era o que bastava para que se mantivessem fidelíssimas. Seu teatro tem a duplicidade permanente que permeia a obra de tantos moralistas: descrevem o pecado com minúcias, e no fim elogiam a virtude.

Coisa parecida ocorre com o cinema de Buñuel, que compartilhava com Nelson a maldição de ter nascido no interior de uma cultura católica, repressiva, em que o sexo era carregado de culpa. Buñuel dizia não gostar dos filmes modernos (dos anos 1960) em que as pessoas tiravam a roupa e copulavam na tela. Isto o desagradava – mas não o impedia de realizar filmes cheios de perversões e depravações contadas indiretamente, como Viridiana ou A bela da tarde.

O sexo, nessas circunstâncias, tem o mesmo poder liberador da blasfêmia. Quando é permitida, a satisfação do desejo sexual é como uma brisa agradável que acaricia, trazendo um misto de alegria e paz. Reprimida, tem a força do ar comprimido capaz de disparar uma bala; ou de um furacão que esperou anos para tirar aquela cidade do meio do seu caminho. A obra desses autores frutos da cultura cristã (mesmo quando se afirmam ateus) é a ponta do iceberg celibatário de homossexualismo e pedofilia em seminários, mosteiros e conventos. O ascetismo é possível, é belo e nobre. Mas aqui pra nós, não é pra todo mundo. Requer uma chama límpida e fria, quase divina, e nós somos (para o bem e para o mal) humanos e “calientes”.

Reprimidos, angustiados e cheios de conflitos, nem Don Luís nem Nelson viveriam em paz no mundo de hoje. A superabundância de bundas na TV e nas capas de revistas os chocaria. Tarados até a medula, eram do tipo para quem o excesso de nudez física é um entrave à fantasia mental. O que os excitava não era propriamente tocar a carne feminina, mas, de certo modo, possuir a mente da parceira, dobrá-la aos seus desejos, arrastá-la ao pecado conjunto. Como no velho bolero cantado por Dalva de Oliveira (“Querido!... / Eu tenho um pecado novo / e quero pecar contigo...”), seu desejo era o de ser seduzido e de seduzir, o de pecar e arrastar para o pecado, o de raptar uma parceira e conduzi-la de volta ao Jardim da Serpente.