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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

5029) As armadilhas da língua (6.2.2024)

 


Rola pela web um meme com trechos de um programa de Sílvio Santos onde as pessoas têm que sugerir letras para completar palavras num painel, e ganhar prêmios. O apresentador pede sugestões, e aí vem um picotado de respostas absurdas, que fazem a platéia gargalhar. 
 
-- L de elefante!...
-- C de Sebastião!...
-- R de ervilha!...
 
E o pessoal rola de rir. Eu também acho graça; no meu caso pelo inesperado da coisa, porque há uma fração de segundo entre o enunciado da letra, em voz alta, e o enunciado da palavra; e a palavra sempre é uma que eu menos esperava. 

Na televisão a gente sempre acha que tudo é combinado, tudo é pegadinha. Mas, supondo que não seja uma encenação combinada... As pessoas devem ser precariamente alfabetizadas. Podemos dar também o desconto do nervosismo. Estar sendo submetido publicamente a um teste, principalmente na TV, é duro. A pessoa sabe que a família inteira está assistindo, a vizinhança inteira, o Sistema Solar. 
 
Guardei por muitos anos uma prova de quando eu tinha 8 ou 9 de idade, prova em que me perguntaram em que dia a América foi descoberta, e em vez do dia 12 coloquei “24 de outubro” – que estava na minha cabeça, talvez, por ser o aniversário do meu pai. E a professora botou “Certo” na minha resposta! 
 
Acho que ela corrigia essas coisas mecanicamente, de noite, depois de tirar a mesa do jantar... Enfim. O analfabetismo não sacrifica apenas os analfabetos, mas desgasta os alfabetizadores. 
 
Mas nas três respostas que coloquei acima, eu percebo um paralelismo. Posso estar “viajando”, mas tenho a sensação de que essas pessoas, quando pensam nas palavras, não pensam em palavras escritas letra-a-letra, pensam em palavras faladas sílaba-a-sílaba.  
 
Esta diferença é uma das distinções essenciais entre a linguagem escrita e a linguagem falada. Talvez seja o hábito de escrever e recitar versos metrificados, mas quando estou falando eu sinto que estou pronunciando sílabas inteiras, nem me lembro que são (em geral) uma combinação de vogais e consoantes. Nem me lembro de como se escreve aquilo. Só lembro na hora de digitar no teclado ou de rabiscar com a caneta.  
 
O homem que diz: “L de elefante” está dizendo algo que corresponde à experiência dele com essa palavra, que pelo visto é apenas uma experiência de ouvir e de dizer. (Pouco importa se ele assina o nome ou não, se é capaz de ler uma placa ou não; o domínio da língua é sempre gradual e se expande aos poucos. E nunca termina.) 
 
Essa palavra é feita de três pequenas explosões sonoras: ele – fan – te. (Note-se que a primeira pequena explosão envolve duas sílabas, e/le, mas na cabeça desse cidadão elas parecem, plausivelmente, estar coladas e serem uma coisa só: ele
 
As letras servem para explicar, num código visual, como deve ser a explosãozinha de cada sílaba. A outra sílaba é FAN? Então temos o “F” para explicar que é preciso tocar o lábio inferior com os incisivos superiores, o “A” para indicar qual é o som básico que a garganta deve modular, e o “N” para indicar que esse som deve ser nasalizado. Três coisas para descrever uma. 

Por este mesmo raciocínio, entendo a pessoa que disse: “C de Sebastião”. E apois?!  Sebastião não começa com “sê”? E “ervilha” não começa com “err”? 




Durante muitos anos li aqui e acolá referências à personagem surrealista “Rrose Sélavy”, criada por Marcel Duchamp e glosada por Robert Desnos. Esse “R” duplo no começo do nome sempre me embatucou, mas debitei na mesma conta que já corria em nome de Sir Andrew Ffoulkes, um dos heróis do romance Pimpinela Escarlate. Excentricidades européias!
 
Só algum tempo depois li uma interpretação que me clareou tudo. O “R” duplo tinha a função de carregar ainda mais a pronúncia, porque o sentido do trocadilho é dizer: “Éros c’est la vie”. Eros é a vida. 
 
Os surrealistas tinham, entre outras qualidades, um senso de humor cortante, e um gozo inesgotável em saborear palavras. Desnos, em Corps et Biens (1930), enumera variações trocadilhescas em torno dessa personagem erótica e viva. E diz a certa altura: “Rrose Sélavy connaît bien le marchand du sel”. Rrose Sélavy conhece bem o vendedor de sal ? Pode ser, mas é desse modo que ele mascara o nome “Marcel Duchamp”. 
 
Uma brincadeira que pode parecer, aos de-fora da Tribo Trocadilhesca, uma perda de tempo, ou um esnobismo intelectualóide. Não é. É o prazer de brincar com as palavras, o mesmo que faz o cantor Xangai gracejar com o nome dos amigos, e em suas conversas referir-se de vez em quando a “Ivanova Vilanildo” ou “Virias Fatal”. 
 
Voltando à ponta da meada: as palavras faladas não são feitas de letras, elas são feitas de sons. Passamos dezenas de milhares de anos usando as palavras como simples sons feitos com a boca e escutados com a zurêia. A escrita só surgiu muito depois – e é limitada, incompleta, depende muito da interpretação do leitor (o que pode ser uma vantagem, às vezes).
 
E a escrita não é uma transcrição da linguagem falada. (Esta seria a “escrita fonética”). É outro conjunto de convenções, que corre em paralelo; procura servir de mapa para a fala, que é o território. Ouvindo meus rockzinhos na adolescência eu ficava besta em ver como os ingleses rimavam “girl” com “world” ou com “pearls”, e mais: como essas grafias nada tinham a ver com o som gutural que essas palavras têm na vida real – na fala.
 
Bob Dylan:
https://www.youtube.com/watch?v=jJ4QrBFVIBM
 
Uma coisa que acho legal no linguajar pop-escrito de hoje em dia, em inglês, é o modo como o pessoal usa números e letras maiúsculas para substituir sílabas.
 
“Nothing Compares 2 U” = Nothing compares to you
“4ever” = forever
“2NE1” = “to anyone”
“INXS” = “in excess”
 
…e por aí vai. O que pode ser visto como a linguagem falada invadindo domínios da linguagem escrita, forçando a existência de novas grafias. Tal como acontece em nossas comunicações online, onde usamos “kd vc”, “tb”, “rs rs rs”, “kkkkkkk”, “pqp”, etc.
 
Isso é escrever certo? É escrever errado? A Gramática condena ou autoriza esse tipo de escrita? Eu acho que não cabe à Gramática condenar nem autorizar: cabe a ela examinar, entender como funciona, descrever seu funcionamento e registrar: “É fato. Está acontecendo.”
 






quinta-feira, 18 de maio de 2023

4943) A arte do trocadilho infame (18.5.2023)




O melhor livro sobre o trocadilho é o clássico de Sigmund Freud Os Chistes e a Sua Relação Com o Inconsciente (1905). A tradução “chiste” me parece seguir o modelo espanhol; conheci esse livro numa tradução espanhola, e tenho agora o volume VIII da Edição Standard da Ed. Imago, tradução de Margarida Salomão. 
 
No prefácio desse volume, discute-se a tradução do termo original alemão (“der Witz”). Ele deu em inglês “wit” e “joke”, mas grande parte dos exemplos freudianos, sem deixarem de ser “piadas”, “chistes”, “gracejos”, são principalmente trocadilhos, termo que em inglês é “pun”. (Evidentemente, nenhum brasileiro habituado a soltar um trocadilho deixou passar impune essa palavrinha sugestiva.) 
 
Resumindo: todo trocadilho é um chiste, mas nem todo chiste é em forma de trocadilho.
 
Tenho a doença do trocadilho; pertenço a uma irmandade informal de viciados, onde posso incluir sem medo Marcus Vilar, André Aguiar, José Araripe, Henrique Rodrigues, Fraga, e outros calemburistas de reputação duvidosa. O trocadilho é um sintoma neurótico, no sentido de que o indivíduo dotado dessa capacidade sente uma compulsão irresistível de trocadilhar tudo que lhe apareça pela frente, e, pior, de dizer em voz alta cada trocadilho que lhe ocorre. 
 
É difícil, ao viciado, não armar um trocadilho quando as palavras se articulam e se oferecem ao seu ouvido; e é praticamente impossível não dizê-lo. Nenhum trocadilhista autêntico cala um trocadilho que lhe ocorra em público. 




Vou teorizar um pouquinho sobre esta arte, usando um exemplo autobiográfico. Eu teria uns dezoito anos; na casa dos meus pais, vi uma maçã numa fruteira e fui pegá-la para comer. Minha mãe, que já tinha examinado a fruta antes, avisou que ela estava com uma metade podre. “Não tem problema,” disse eu, “eu jogo fora a metade má e como a metade sã.” 
 
É um bom trocadilho, e é por coisas assim (não porque leio Freud) que sou tido por inteligente na família. Mas esta pequena façanha tem características que o trocadilho ideal em geral apresenta: 
 
1) foi um improviso, uma resposta instantânea a uma situação não planejada; 
 
2) houve uma notável economia de meios, ou seja, não precisou de nenhum raciocínio complicado, nem fez alusão a algum elemento externo ao fato em si; 
 
3) a intenção da resposta foi instantaneamente compreensível, sem precisar de explicações posteriores. (Piada explicada é piada perdida.) 
 
Darei como contra-exemplo uma graça contada por Ariano Suassuna, que também manifestava pendor por esse traquejo. Ariano, aliás, eu coloco no rol dos trocadilhistas clássicos, ao lado de Guimarães Rosa, Paulo Leminski, François Rabelais, Millôr Fernandes, Emílio de Menezes, James Joyce, Lewis Carroll e John Lennon.



Foi no tempo em que Ariano era jovem. Ele vinha andando na rua, numa tarde ensolarada e abafada do verão recifense. Um amigo se aproximou, os dois trocaram algumas frases, e o amigo disse:
 
– Olhe, Ariano, eu admiro muito você. Um sujeito íntegro, intelectualmente firme.
 
– Muito obrigado – disse Ariano.
 
– Você é uma pessoa admirável, uma pessoa íntegra. Eu diria mesmo: uma pessoa una.
 
– É mesmo? – disse Ariano, já com alguma coisa coçando atrás da orelha.
 
– E ainda mais nesse calor! – exclamou o amigo, erguendo a mão de encontro à luz do sol. – Esse calor terrível, que faz a gente suar.  E aí... suas, una?... 
 
Ariano fazia um muxoxo de incredulidade e comentava: “Veja bem, o sujeito faz um arrodeio desse tamanho, traz uns assuntos que não têm nenhuma relação, somente pra fazer um trocadilho vagabundo como esse.”  
 
É a contraprova do primeiro exemplo! Porque claramente não foi improvisado (foi pensado em casa e trazido para a rua), precisou introduzir dois temas não relacionados (integridade pessoal, e calor) e mesmo não precisando de explicação adicional fica bem claro que para juntar essas duas palavrinhas o sujeito precisou dar o equivalente a uma volta no quarteirão. 
 
Isso é o chamado “trocadilho infame”. E agora vou propor a segunda parte da minha teoria: se o trocadilho é uma arte, o trocadilho infame é uma anti-arte, uma paródia de si mesma, uma versão grotesca do Belo e uma versão disparatada da Sabedoria. Ou seja: é Arte também. 



Um trocadilho bem–feito nos leva a guardar alguns segundos de silêncio e depois dizer um palavrão admirativo ou um elogio ao geniozinho que o fez. Um trocadilho infame faz o grupo inteiro gargalhar ao mesmo tempo, dar tapa na perna, tapa na barriga, fazer munganga de arrancar os cabelos ou de cortar o próprio pescoço; provoca crises lacrimais de hilaridade e – em suma – reforça a boa-vontade entre os seres humanos, e consequentemente contribui para a Paz Universal. 
 
Pertence ao domínio do trocadilho infame a famosa “charada trocadilhesca”, tão dependente da deformação sonora dos vocábulos que não tem cristão no mundo que adivinhe a resposta. Meu exemplo preferido: “O animal na torre da igreja encontra-se doente. Duas e duas.”  (Resposta: tatu / sino).
 
Ou esta clássica: “Sofre de gagueira o filho do Couto. Não é ele, é o outro. Duas e três.” (Sacadura Cabral). 
 
O trocadilho infame só presta se for uma forçação de barra, um pino quadrado enfiado à força num buraco redondo (ou vice-versa), algo tão desnecessariamente complicado quanto aqueles mecanismos rubegoldberguianos em que dezesseis objetos diferentes são conectados uns aos outros para acender um interruptor de parede. 



(Ilustração: Rube Goldberg)
 
O trocadilho é uma Arte porque implica num mínimo de esforço para obter um máximo de efeito. O trocadilho infame é uma anti-arte porque implica num máximo de esforço para obter um mínimo de efeito. (E portanto, pelas leis do Humor, é uma Arte também.) 
 
(Este texto foi motivado por uma postagem de Alex Antunes no Facebook, onde ele dizia: “Se um baiano tem abdome negativo, ele é chamado de 'meu rei côncavo'?) 



 (cartum: Odyr)
 




quarta-feira, 7 de março de 2018

4322) A China e o trocadilho (7.3.2018)



A imprensa mundial divulgou nos últimos dias algumas medidas de censura tomadas pelo governo da China. Medidas meio absurdas.

Toda censura é absurda, é claro, pelo menos do ponto-de-vista do purismo intelectual, que nos leva a imaginar um mundo sem defeitos, onde todo mundo pudesse dizer o que bem entende sem ser punido. Mas, se por um lado dá para entender por que os comunistas chineses proíbem A Revolução dos Bichos de George Orwell, não é tão óbvia a censura aos livros infantis que têm como personagem o ursinho Winnie The Pooh.

Esta eu só entendi quando vi esses memes que circulam, mostrando o Onisciente Líder Universal da Glória Sempiterna do Pujante Império do Meio, Xi Jinping, ao lado do síndico norte-americano na época, Barack Obama.

Mais incompreensível ainda foi a notícia de que o mesmo governo proibiu a letra N.

De início fiquei em dúvida se existe a letra N no alfabeto chinês, que é do tipo ideogrâmico. Depois, no entanto, a imprensa esclareceu.

O governo da China havia anunciado há pouco tempo que o mandato do atual presidente pode ser estendido indefinidamente, sem necessidade de novas eleições. E aí começaram a pipocar na web artigos e postagens dizendo que Xi Jinping iria governar por “n” anos. Resultado: proibiu-se o uso da letra como símbolo matemático de quantidade indeterminada, como já expliquei “n” vezes aqui nesta coluna.

Dias depois a censura ao “n” foi cancelada. Por enquanto.

Absurdo? Pode ser, mas é um absurdo com continuidade.

Em 2005 o governo da Turquia aplicou multas em quem usou, em cartazes erguidos nas celebrações de Ano Novo, as letras K e W, que não fazem parte do alfabeto oficial da Turquia.

Em seu esforço para se integrar à Europa, a Turquia trocou em 1928 a escrita arábica pela escrita ocidental, e neste processo as letras K e W não foram incluídas. As pessoas multadas (no equivalente a 75 dólares cada uma ) eram curdos, de uma região notoriamente indócil ao governo.

Devemos lembrar que aqui no Brasil as letras K, W e Y foram excluídas do alfabeto durante mais de meio século. Brasileiramente, continuaram sendo usadas (com a ressalva de serem “aportuguesamento de palavras estrangeiras”), e sem que ninguém pagasse multa por isso.

Na China, no entanto, a muralha é sempre alguns metros mais alta do que a escada.

Em 2014, o governo proibiu o uso de trocadilhos.


O que é mais absurdo ainda é que a língua chinesa é cheia de homófonos, sílabas que soam quase exatamente iguais. Tudo depende de como se pronuncia. Partículas tipo “shan”, “chan”, “jan”, “zhan” – que parecem iguais e não são.  

Não é só o chinês, claro. Quem estuda inglês passa noites em claro tentando achar as pronúncias exatas de “sheep”, “chip”, “cheap”, “ship” etc.

A norma chinesa anti-trocadilho alegava que essa prática violava as leis da língua escrita e falada, dificultava a absorção da herança cultural e podia induzir os ouvintes a erros, principalmente às crianças.

Os exemplos de como os chineses trocadilham na vida social são os mais bobinhos possíveis. A refeição de Ano Novo sempre inclui “alface”, porque a palavra chinesa correspondente soa parecido com “ganhar dinheiro”.

São superstições semelhantes às nossas, da pessoa que usa roupa de baixo amarela no reveillon para ficar rica. Já pensou se o Governo resolve proibir e fiscalizar esse tipo de coisa?

Por outro lado, liberar esse tipo de informalidade para mais de um bilhão de usuários deixa margem para que os rebeldes, os irreverentes, os dissidentes, os satíricos, todo esse pessoal deite e role na sacanagem com os nomes próprios dos Grandes Líderes, por exemplo.

Xi Jinping parece nas fotos ser um sujeito cheio de bonomia, mas teria um enfarte se fizessem com o nome dele o que a gente faz com os nomes de Lula, Temer, Dilma, Pezão, Bolsonaro, Dória e por aí vai.

Este verbete aqui, sobre a China, é cheio de exemplos interessantes:







sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

3730) O talento e o esforço (6.2.2015)


(ilustração: Saul Steinberg)


Existem obras literárias que dão a impressão de ser a coisa mais fácil do mundo. A gente pensa que o sujeito sentou e digitou aquilo em dez minutos, de tão espontâneo e fluido que fica o poema, o conto, o parágrafo de artigo ou de romance.  

Às vezes é assim, sim, mas nem sempre.  Às vezes só se chegou àquela fluidez final depois de ralar muito.  O texto ideal, num sentido imediato, é aquele que tem muita elaboração oculta sob uma superfície aparentemente simples. A primeira leitura dá um sentido imediato.  A segunda traz outro, a terceira mais um, a quarta... A gente começa a perceber sonoridades, jogo de sinônimos, uma ambiguidade proposital ali, uma referência sutil acolá... 

O texto continua ali, claro. Uma quadra de Pessoa ou de Cabral, um soneto de Drummond ou de Bandeira, um epigrama de Millôr ou de Quintana, mas aos poucos vamos reconstituindo os mil afluentes que resultaram naquela correnteza transparente, límpida.

Ariano Suassuna tinha um conhecido que gostava de fazer trocadilhos, mas eram trocadilhos extremamente forçados, tortuosos.  Por exemplo, ele encontrava Ariano na cidade e dizia: “Pois é, rapaz, você é um cara íntegro, uma pessoa tão inteira, tão una...  E num calor como esse que está fazendo... Suas, una?”  Ele se acabava de rir com esse exemplo e dizia: “Imagine só as noites em claro que ele tinha de passar pra chegar a esse resultado!”

O livro mal escrito é assim: é uma tentativa de idéia para a qual o autor nunca acha o caminho mais adequado e acaba jogando sua idéia inicial no colo do leitor dessa forma, uma forma complicada, desajeitada, algo tão distinto da maneira normal de pensar e de falar que precisa de um certo esforço para se entender.  

Quando o texto literário precisa de um esforço muito grande do entendimento para captar o primeiro sentido, o mais superficial, alguma coisa está errada.  Uma frase que precisa ser lida duas vezes ou é uma frase genial ou é uma frase mal escrita (o que é muito mais frequente).

Não devemos confundir esse desajeitamento com o caso do autor que domina mil técnicas e cuja cabeça funciona de modo intrincado, complexo (Thomas Pynchon, David Foster Wallace, etc.).  Neste último caso, é pegar ou largar. A prosa do cara é toda naquele registro, mas ele mostra que é competente porque para cada dificuldade mal resolvida aparece meia dúzia que nos dão um raro prazer estético que não imaginávamos existir.  

Quanto mais difícil um texto, maior a recompensa estética que deve resultar da leitura.  Se a recompensa de todo o nosso esforço é na faixa de “suas, una?”, amigo, melhor ir fazer outra coisa do seu tempo e do tempo alheio.









sexta-feira, 19 de junho de 2009

1100) Mondegreens na MPB (24.9.2006)




“Mondegreens” é um termo corrente na música pop, e se refere a trechos de canções cujas palavras são entendidas erradamente, dando origem a versos sem pé nem cabeça. 

A origem do termo, diz-se, é uma canção folclórica inglesa que a certa altura diz: 

“They had slain the Earl of Moray / and laid him on the green" (“Eles mataram o Conde de Moray / e deixaram-no estendido na relva”). 

Alguém escutou os versos assim: “They had slain the Earl of Moray / and Lady Mondegreen” (“Eles mataram o Conde de Moray / e Lady Mondegreen”).

Nossa MPB é fértil em mondegreens. Um dos mais engraçados é o daquela música gravada pelo grupo Brylho nos anos 1980, que diz: “Na madrugada, vitrola rolando um blues / tocando B. B. King sem parar”, que muita gente ouvia: “Na madrugada vitrola rolando um blues / trocando de biquíni sem parar”... 

Confusões deste tipo são facilitadas quando se ouve música no rádio, cuja reprodução nem sempre é boa, ainda mais em lugares barulhentos.

Uma vez eu estava com alguns amigos escutando um disco do cubano Sílvio Rodríguez, uma bela canção chamada “Sueño con Serpientes”. O poeta fala que está sonhando com uma serpente, e diz: “La mato, y aparece una mayor”. Alguém ouviu uma, duas, três vezes, e disse: “Esse cara é muito doido. Olha só o que ele fala: La maconha parece um lá-maior”. Estragou o ouvido de todo mundo. Nunca mais a gente conseguiu escutar a música do jeito certo.

Quando eu era pequeno, ouvia a música “Chiquita Bacana”: 

“Chiquita Bacana lá da Martinica / Se veste com uma casca de banana nanica! / Não usa vestido, não usa calção / inverno pra ela é pleno verão... / Existencialista, com toda razão, / só faz o que manda o seu coração!” 

Minha mãe cantava isto e eu ia entendendo tudo, até chegar nesse “existencialista”. Eu, que aos 10 anos ainda não tinha lido “A Náusea”, ouvia a letra assim: “Existe, e se alista, com toda razão!” 

Se alista onde?, perguntaria o leitor. E eu teria respondido, com uma fluência que na época já possuía: “Ora, se alista no grupo das pessoas que fazem o que lhes dá na telha!”

Deve haver alguma razão freudiana para que a simples menção de Chiquita Bacana me perturbe as funções interpretativas. Acho que é a postura carnavalizadora, bakhtiniana. 

Porque há uma marchinha de Caetano Veloso (e aqui eu já tinha meus 20-e-poucos anos) que diz: 

“Eu sou a filha da Chiquita Bacana / nunca entro em cana porque sou família demais...” 

O final da segunda parte é assim: “E a moçada toda grita, iê-iê-iê... Viva a filha da Chiquita, iê-iê-iê... Entrei no Women’s Liberation Front!” 

Era uma alusão ao movimento feminista da época, mas no rádio eu ouvia: “Entrei no hímen, liberei, chon-fron!” Pra mim, fazia sentido. Inclusive esse “chon-fron” final, que eu, partidário das modernas Teorias da Recepção e da Obra Aberta, interpretava por minha conta como sendo um sinônimo de “tran-chan”, “zás-trás”, ou, paraibanamente, “pêi-bufo”.




sábado, 2 de maio de 2009

1006) Duchamp e o trocadilho (7.6.2006)



Marcel Duchamp passou para a História da Arte como um brincalhão, um irreverente, que se divertia em interferir nas obras... Não, espera aí, está tudo errado. A História da Arte fez justiça a Duchamp, sim, inclusive ao questionar a influência desproporcional que algumas atitudes suas tiveram nos descaminhos de uma certa Arte Conceitual de hoje, para quem “Arte é qualquer coisa que a gente diga que é Arte”. A visão simplista da obra de Duchamp não se deve aos historiadores de Arte, mas a nós que fazemos jornalismo cultural, e que pela própria natureza do meio que utilizamos temos que ser rápidos, superficiais, incompletos. Paciência. Eu bem gostaria de poder escrever um livro de duzentas páginas sobre cada um dos assuntos que abordo aqui nesta coluna, mas não tenho tempo.

Há um aspecto importante na personalidade de Duchamp: ele era um grande trocadilhista. Os surrealistas dos anos 1920, que eram fervorosos leitores de Freud, erigiram o trocadilho como uma das formas de revelação do Inconsciente, e como um dos processos capazes de produzir fagulhas poéticas instantâneas pelo choque entre duas idéias dissímiles. Para isto contribuiu sem dúvida a obra clássica de Freud “O Trocadilho e Suas Relações com o Inconsciente”. Uso o termo “trocadilho” que me parece mais exato, embora algumas traduções do livro usem o termo “chiste”, e em inglês seja preferido “joke” (piada) em vez do “pun” (trocadilho). O trocadilho é a interferência de duas das séries de sinais que formam a linguagem: o Som e o Sentido. (Há outras séries: o sinal gráfico, o comentário facial ou gestual, etc.) Quando dizemos de uma determinada pessoa que ela “nem Freud nem sai de cima”, estamos multiplicando as possibilidades de leitura e interpretação da frase.


Duchamp usou trocadilhos em muitos títulos de suas obras, e podemos dizer que vários trabalhos seus são trocadilhos materiais em vez de verbais. Seu famoso quadro da Mona Lisa com bigodes tem como título “L. H. O. O. Q.”. Pronunciando essas letras em voz alta em francês soa como “Elle a chaud au cul”, que não me arrisco a traduzir aqui, mas é algo equivalente a “Taco cru pegando fogo”. Uma de suas obras mais curiosas intitula-se “Traveler’s Folding Item” (Objeto Dobrável de Viajante, 1916). Trata-se da capa plástica de uma máquina de escrever, com o nome da marca, “Underwood” gravado na parte da frente. A capa é daquele tipo de plástico um tanto rígido, que tanto pode ser dobrada quanto pode ficar de pé sozinha, sem a máquina por baixo. Colocada assim, ela se assemelha a uma saia, deixando clara a intenção do trocadilho: “Underwood” significa “Embaixo de Wood”, e é uma alusão a Beatrice Wood, namorada de Duchamp na época. Um objeto e uma palavra dão a idéia de que embaixo da saia de Beatrice existe algo que serve para escrever poemas. (As possibilidade de interpretação, como sempre, são infinitas)

domingo, 9 de março de 2008

0124) A arte do trocadilho (14.8.2003)



(Ilustração: Brock David)

O trocadilho é um desvio verbal em que uma palavra é alterada, ou mais de uma palavra são justapostas, de modo a fazê-las assumir novos sentidos, por associação sonora. 

Há inúmeros tipos e variadas técnicas de trocadilho. A qualidade de um trocadilho deve ser medida, a meu ver, pela relação complexidade/simplicidade. Um bom trocadilho tem uma idéia complexa, mas é rapidamente entendível; e vice-versa. 

O espírito de um trocadilho está no som, e não na grafia das palavras, mesmo quando ele é comunicado por escrito. 

Um caso de trocadilho involuntário foi o que vi uma vez numa enorme livraria: uma senhora entrou e perguntou ao funcionário “onde era a seção espírita”. Pela cara perplexa que ele fêz, é claro que ouviu “sessão”. Foi um trocadilho involuntário de parte a parte.

Grandes trocadilhistas são Guimarães Rosa, Paulo Leminski, Glauco Mattoso, Oswald de Andrade... 

O melhor tratado científico sobre o trocadilho é O Chiste e suas relações com o Inconsciente, de Freud. Como a quase totalidade dos exemplos é em alemão, a necessidade de traduzir e explicar a múltipla significação de algumas palavras tira um pouco do prazer da leitura, porque o bom do trocadilho é o pequeno susto quando percebemos que estávamos “lendo errado”, e que existe um duplo sentido naquela frase. 

Perguntaram uma vez a Emilio de Menezes: “Qual é a diferença entre o homem e a mulher?”, ao que ele respondeu: “Eu não concebo.” A sutileza surge neste caso do duplo sentido de uma palavra, e não da junção de duas. 

Misturando duas, temos o chamado “portemanteau”, ou cabide, onde se “pendura” uma palavra na outra, misturando-as. Quando Carlos Drummond usou a palavra “monstruário”, estava seguindo uma regra básica do trocadilho: fundir duas palavras usando a parte mais característica de cada uma. O trocadilho entre “mostruário” e “monstro” é quase inevitável, e daí decorre uma coisa interessante do trocadilho: ele é mais uma descoberta do que uma invenção. É uma associação entre palavras que estão ali, disponíveis, esperando apenas o instante em que alguém perceba que é possível juntar aqueles dois termos. 

Já vi discussões e brigas intermináveis sobre “Fulano que furtou a idéia de Sicrano”, quando para mim era evidente que não houve furto: a idéia estivera lá a vida toda, à vista de quem a pudesse ver.

O melhor trocadilho é o que é feito num repente, de improviso. Uma vez minha mãe pegou uma maçã na mesa e reclamou que ela estava com uma banda estragada, e eu falei: “Pois é... Metade má, metade sã.” 

Outra vez, fui no Bar Canarinho, na feira, ver uma cantoria com Lourival Batista, que andava apoiado num bastão. Uma daquelas mocinhas de minissaia perguntou: “Seu Louro, pra que essa bengala?”, e ele disse: “Isso é coisa pra quem não gala bem...” 

O trocadilhista é como Romário, tem que estar sempre pronto, porque o passe perfeito, ou a furada do zagueiro, pode surgir a qualquer instante.





sexta-feira, 7 de março de 2008

0069) Uma glosa de Lourival Batista (11.6.2003)




Lourival Batista (1915-1992), também chamado “Louro do Pajeú”, passou para a história da Cantoria de Viola como o “rei do trocadilho”. 

Era o mais velho da trinca de irmãos repentistas complementada por Dimas e pelo mestre Otacílio, que vive em João Pessoa. [falecido em 5 de agosto de 2003]

Louro era uma surpresa para os que pensam que os cantadores nordestinos são talentos brutos, intocados pela cultura urbana. Os Batista, como muitos grandes violeiros, tiveram variadas leituras e cuidadoso aprendizado. Não perderam as raízes sertanejas, mas fizeram versos em pé de igualdade com os dos poetas das cidades.

Reza a lenda que o poeta Raimundo Asfora propôs a Louro o mote: “Não tive amores, sonhei-os / mas possuí-los não pude.” 

A glosa de Lourival (que não sei se foi glosa pensada, ou de improviso) é registrada com pequenas variantes em numerosos livros sobre Cantoria: 

Senti das paixões abalos 
e desesperos medonhos: 
sonhos, sonhos e mais sonhos 
sem poder realizá-los. 
Na fronte senti os halos 
das auras da juventude 
mas nunca tive a virtude 
de dormir entre dois seios. 
Não tive amores, sonhei-os 
mas possuí-los não pude.

Quando alguém dá um mote de duas linhas, o poeta compõe duas quadras para completar com ele uma décima (4+4+2). 

Cada poeta tem suas técnicas e seus truques, mas às vezes é possível reconstituir o fio criador de seu pensamento. 

Os violeiros chamam de “queda do verso” as últimas linhas antes do mote; e geralmente é por ela que começam. Começam pelo fim, como os Parnasianos com a “chave de ouro” dos seus sonetos. 

Neste caso, Louro usou uma rima rica, um substantivo (“seios”) para rimar com o verbo+pronome “sonhei-os”. Não duvido que Louro, poeta e trocadilhista, conhecesse o famoso trocadilho do seu colega Emílio de Menezes, a quem uma dama perguntou: “Sr. Emílio, o sr. sabe quais são os encantos da mulher?”, e ele respondeu: “Sei-os”. 

A obrigação de rimar com “sonhei-os” inspirou a Louro uma “queda” brilhante: “mas nunca tive a virtude / de dormir entre dois seios”.

Após preparar o desfecho da segunda quadra, ele voltou mais atrás e preparou o da primeira. Note-se que as linhas 3 e 4 (“sonhos, sonhos e mais sonhos / sem poder realizá-los”) são uma transposição fiel do mote (“não tive amores, sonhei-os / mas possuí-los não pude”), o que dá homogeneidade e simetria à estrofe. 

As linhas 1 e 2 foram compostas a seguir, com rimas determinadas pelas 3 e 4. Mais uma vez, Louro rimou substantivo (“abalos”, “halos”) com um verbo+pronome (“realizá-los”). Desse modo, ele prepara o ouvido do leitor para aceitar mais facilmente o mesmo recurso quando é repetido nas linhas finais, na queda do verso ("seios" com "sonhei-os").

Note-se ainda que o poeta capricha em rimar verbo com substantivos (“pude” com “juventude” e “virtude”), adjetivo com substantivo (“medonhos” com “sonhos”). 

Riqueza de rimas, fluência de métrica, beleza de sentido, delicado erotismo da imagem final. Uma beleza de verso. No mundo da Cantoria existem milhões assim.