sexta-feira, 27 de março de 2026

5227) Um filme sem diálogos (27.3.2026)



 
É difícil imaginar o que levaria um diretor, em pleno cinema sonoro (década de 1950) a fazer um filme sem diálogos, um filme de hora-e-meia em que ninguém fala com ninguém, ninguém troca uma frase sequer. Como se fosse um filme mudo, um filme anterior a 1928. 
 
(1928, para quem não sabe, é o ano em que foi lançado o primeiro filme falado, O Cantor de Jazz; por volta de 1930, a maioria dos filmes já eram todos com diálogos e trilha sonora.) 
 
Essa experiência foi tentada, com relativo sucesso, por Russell Rouse, num filme que acabei de ver hoje e que está disponível no YouTube. O filme é norte-americano, mas não é falado em inglês, porque ninguém fala; e em vista disso não tem nem legendas nem dublagem. 
 
Se alguém me propusesse escrever um roteiro com essa obrigatoriedade, eu tentaria “dar um migué” mostrando, com a câmera distante, pessoas envolvidas numa conversa banal, numa discussão acalorada, numa conversa amorosa, mas sempre de longe, sem captação do som. As pessoas falam; a gente é que não ouve. Tal como acontece no cinema mudo. 
 
Rouse e seu co-roteirista Clarence Greene foram radicais, e tiro o chapéu para sua coragem. Nesse filme, ninguém abre a boca nem uma vez sequer. 
 
Aqui o filme completo>
https://www.youtube.com/watch?v=VVz06Kl6440
 
The Thief (1952) é a história de um cientista nuclear, em Washington. Por motivos não explicados ele está espionando a favor de uma potência estrangeira, que podemos imaginar como sendo a União Soviética. Sua tarefa é basicamente fotografar documentos secretos, de experiências de física atômica, e repassar essas fotos para seus contatos. 
 

O cientista é Ray Milland, ator que aparece em incontáveis filmes de gênero (ficção científica, policial, terror). É ele quem faz
O Homem dos Olhos de Raio X (1963, Roger Corman), e aparece também em no clássico Pânico no Ano Zero (1962), que ele mesmo dirigiu.  Outros papéis importantes são o marido assassino em Disque M para Matar (1954) de Alfred Hitchcock e o alcoólatra de Farrapo Humano (1945) de Billy Wilder, que lhe deu todos os prêmios de melhor ator (Oscar, Cannes, Globo de Ouro, etc.). 
O trabalho em The Thief não foi um grande desafio apenas para o diretor, mas para os atores, principalmente Milland, que aparece em praticamente todas as cenas. Sem poder dizer uma palavra sequer, ele é forçado a uma interpretação minimalista, de gestos, olhares, expressões faciais, postura corporal. E se sai muito bem. 
 
Não havendo diálogos, o filme precisa se apoiar no famoso Indutor Emocional, a música. Ela fica nos dizendo o tempo inteiro que tipo de emoção devemos sentir: calma, angústia, suspense, depressão, entusiasmo... Eu sou da linha Luís Buñuel, de usar o mínimo de música possível – o que me parece mais simples e menos chamativo do que não usar diálogos. Mas devo reconhecer que o bravo compositor Herschel Gilbert fez o que pôde, e recebeu uma indicação ao Oscar. 
 
Todo cinéfilo tem a mania de traçar ligações entre as cenas mais improváveis dos filmes mais aleatórios. The Thief tem duas sequências em que Milland, alertado por um telefonema, desce de madrugada para se encontrar com o espião que lhe serve de contato. Os dois caminham por uma rua quase deserta, o homem acende um cigarro, deixa cair uma bolinha de papel no chão e vai embora. Milland aproxima-se, recolhe o papel, bota no bolso: são as suas instruções. 


 
O clima dessas cenas me pareceu estranhamente premonitório daquela ótima sequência de Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados (1999), em que Tom Cruise anda de madrugada por ruas quase desertas e imagina estar sendo seguido à distância por um sujeito qualquer. 
 
Há outra relação mais óbvia. A certa altura, o cientista, já se sabendo vigiado pelo FBI, aluga um quarto num prédio barato, onde o único telefone (do qual ele precisa para ser contatado pelos espiões) fica no corredor, e pode se acessado por qualquer inquilino. Sua vizinha da frente é a perturbadora Rita Gam, estreando no cinema, fazendo caras e bocas (e decotes e pernas) na direção dele. E talvez atendendo os telefonemas que se destinam a ele. 



Anos depois, Russell Rouse e Clarence Greene viriam a ganhar um Oscar de roteiro por Confidências à Meia Noite (“Pillow Talk”, dirigido por Michael Gordon, 1959), em que Rock Hudson e Doris Day fazem dois vizinhos que precisam dividir uma linha telefônica, e por causa disso primeiro brigam, e depois se apaixonam. O roteiro de Pillow Talk é bem anterior a The Thief. Para mim é um caso claro de roteiristas coçando a cabeça e dizendo: “Bem que a gente poderia usar de novo aquela mesma situação daquele roteiro nosso de anos atrás...”. 
 
Ao se anunciar como “o filme totalmente sem diálogos”, The Thief pretendia ser aquele tipo de filme-façanha, um filme onde se executa um número de habilidade especial, que às vezes o espectador não percebe. Algo como Festim Diabólico (“The Rope”, Hitchcock), o filme feito numa só tomada do começo ao fim. É uma “constraint” que o diretor estabelece para si mesmo, e um dos interesses do filme é saber até que ponto ele conseguirá manter essa regra, e que recursos vai empregar para obedecer a ela. 
 
O truque funciona porque a restrição do “sem diálogo”, que não funcionaria em muitas histórias, funciona muito bem aqui. É uma história de espionagem, portanto cabe nela um ambiente de silêncio, de isolamento. O cientista trabalha com segredos atômicos (o filme se passa apenas sete anos depois de Hiroshima e Nagasaki), então é aceitável essa atmosfera de segredo, de ocultamento, de pessoas distantes, quase sem interações.