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segunda-feira, 6 de março de 2023

4919) O supermercado de Annie Ernaux (6.3.2023)

 


Annie Ernaux ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano passado graças a seus livros semi-autobiográficos, escritos com frieza e precisão. São uma forma pessoal da “auto ficção” tão praticada hoje em dia, livros em que o autor escreve sobre si mesmo, seja fantasiando as próprias lembranças, seja colocando-se como um dos personagens de uma história imaginada. 
 
Mas não se trata apenas da contação de fatos autobiográficos. Os livros dela prendem-se a episódios específicos mas ao mesmo tempo fazem uma análise distanciada do ambiente humano onde aquela história está se passando. É o caso de Regarde les lumières, mon amour, em que ela fala de seu cotidiano e descreve o ambiente e a “fauna humana” em um grande supermercado, o Auchan, da região onde ela mora. 
 
Os franceses desenvolveram uma forma muito peculiar de ficção descritiva. Depois do Nouveau Roman dos anos 1950, com Alain Robbe-Grillet e outros, surgiu um tipo de descrição hipertrofiada, que toma a frente da narrativa. É a literatura do olho, a literatura da câmera fotográfica ou cinematográfica, observando, acompanhando, registrando, descrevendo. Como um jornalista incumbido de explicar um ambiente aos seus leitores, o autor nos dá um relato visual que ao mesmo tempo é social e psicológico, porque ele não se priva de fazer relações de significado e de importância entre os elementos que descreve. Mas é sempre o descrever que se sobrepõe ao contar uma história


Um clássico desse tipo de literatura é o Espèces d’espaces (1974), em que Georges Perec faz a ambiciosa tentativa de – num certo sentido – descrever o Universo, como uma série de espaços concêntricos, mostrados de dentro para fora. Perec começa em “A página”:
 
Eu escrevo...
Eu escrevo: eu escrevo...
Eu escrevo: “eu escrevo...”
Eu escrevo que escrevo...
etc.
 
Eu escrevo: eu traço palavras sobre uma página.
(Espèces d’espace, Denoël, 1974, trad. BT)
 
Desta página onde o livro está começando a se criar, ele passa, nos capítulos seguintes, para “A cama”, “O quarto”, “O apartamento”, “O edifício”, e por aí vai, até chegar ao Universo propriamente dito. 
 
Perec é um ótimo contador de histórias, inclusive as mais improváveis e bizarras, mas esse livro seu é um tour de force de descrição pura. Já o livro de Annie Ernaux parece-se muito mais a um relato jornalístico, porque ela não registra apenas as gôndolas, os balcões e os produtos do Auchan: ela observa as pessoas, faz suposições sobre quem são e o que sentem, examina as relações sociais, etc. 
 
Pode-se dizer que seu livro é uma reportagem atemporal sobre um ambiente que ela precisa frequentar com assiduidade. O livro é estruturado como um diário, cada capítulo tendo como título uma data. 



Na “Introdução”, ela explica (trad. BT):
 
As mulheres e os homens da vida política, os jornalistas, os “experts”, todos aqueles que nunca puseram os pés num hipermercado não conhecem a realidade social da França de hoje.
(...) Quem não tem o costume de vir aqui facilmente se desorienta; não como ocorre num labirinto, ou como em Veneza, mas em virtude da estrutura geométrica do espaço, onde se justapõem, de cada lado das aléias situadas em ângulo reto, pequenas lojas fáceis de confundir. É a vertigem da simetria, reforçada pelo espaço fechado, mesmo estando este aberto à luz do dia por uma imensa vidraça que substitui o teto. 
 
A prosa de Ernaux é direta, polida. Uma prosa de cientista social registrando costumes exóticos nas ilhas dos Mares do Sul, ou da narração em off de documentários da BBC explicando os hábitos de acasalamento dos pavões. Uma prosa sem sobressaltos.
 
Caberia aqui, talvez, a observação mordaz, mas com conhecimento de causa, de Joaquim Nabuco:
 
Os franceses desconfiam do gênio. Só admiram sinceramente aquilo que for bem podado, bem nivelado, perfeitamente regular. Têm o culto das médias.
(Pensamentos Soltos, Livro 2, item 159) 
 
Mesmo nos detalhes que pressupõem envolvimento pessoal, ela mantém a objetividade:
 
Quinta-feira, 8 de novembro
Um pouco mais adiante, no espaço destinado à livraria, vê-se uma cliente apenas, uma mulher madura, passeando por entre os balcões. Cada vez que me aventuro ali, saio triste e desanimada. Não que meus livros estejam ausentes: há alguns deles lá, na estante dos Livres de Poche, mas, com poucas exceções, a escolha obedece a um só critério, o de best-seller. Um cartaz com mais de três metros anuncia Os Mais Vendidos, numerados de 1 a 10 em algarismos enormes, como os das corridas de cavalos em Longchamp. O que se pode chamar de literatura ocupa apenas uma pequena porção deste espaço reservado a livros sobre assuntos práticos, jogos, viagens, religião, etc.
 
Parece o Brasil!, exclamará algum dos nossos pessimistas de profissão. Mas é a França, a mesma de Breton e de Voltaire. O ambiente impessoal, contudo, reserva alguns pequenos consolos aos egos literários:
 
Quarta-feira, 3 abril.
No caixa, onde a fila é pequena, uma cliente puxando carrinho me deixa passar à sua frente. Como me recuso, vigorosamente – será que pareço tão cansada, tão envelhecida? – ela me sorri e diz saber que sou escritora. Trocamos comentários sobre a loja, sobre as crianças em volta, numerosas para uma quarta-feira. Ao colocar minhas compras no balcão, penso com certo desconforto que ela vai ver o que estou comprando. Cada produto daqueles assume de repente um peso inesperado, que revela meu estilo de vida. Uma garrafa de champanhe, duas de vinho, leite fresco, queijo emental, pão de forma sem casca, iogurte Sveltesse, almôndegas para os gatos, doce de gengibre inglês... É a minha vez de ser observada, de ser transformada em objeto. 
 

Esse olho científico, apolíneo, certamente vai além do literário. O valor-de-presença que se atribui a toda a parafernália comercial das gôndolas tem algo em comum com as pinturas pop de Andy Warhol reproduzindo latas de sopa e garrafas de Coca-Cola.
 
É o reconhecimento da importância central dessas coisas em nossa vida, porque no fundo trabalhamos tanto para poder comprá-las!... Daqui a cem anos, a duzentos, esta arte será vista certamente com outros olhos, não imagino quais.
 
Quinta-feira, 11 de julho.
No guichê de “saída sem compras”, o olhar do segurança para as minhas mãos, os meus bolsos. Como se sair dali sem nenhuma mercadoria fosse uma anomalia suspeita. Como se eu levasse comigo a culpa de nada ter comprado.
 
A consciência social nunca está ausente nos franceses, basta raspar a epiderme de seus pensamentos e um problema político salta, prontinho. Annir Ernaux registra, no começo do livro:
 
Quarta-feira, 28 de novembro.
Um incêndio destruiu uma indústria têxtil em Bangladesh, matando 112 pessoas, mulheres em sua maioria, que trabalhavam ali em troca de um salário de 29,50 euros mensais. O edifício, que não poderia ali ter mais de três andares, tinha nove. Os trabalhadores ficaram presos no interior, sem poder sair. Essa indústria, a Tazreen, fabricava camisas polo, T-shirts, etc. para empresas como o Auchan, Carrefour, Pimkie, Go Sport, Cora, C&A, H&M. Evidentemente, além das lágrimas de crocodilo, não se pode esperar muito de nós (que lucramos alegremente com essa mão-de-obra escrava) para mudar esse estado de coisas. A revolta só poderá vir dos próprios explorados, no outro lado do mundo. Mesmo os desempregados franceses, vítimas da globalização, ficam satisfeitos de poderem comprar uma T-shirt por nove euros. 
 
E lá adiante, ela volta ao assunto:
 
Quarta-feira, 24 de abril.
Um edifício de oito andares desmoronou perto de Dacca, em Bangladesh. Pelo menos duzentos mortos. Ateliês de confecção de roupas empregavam ali cerca de 3 mil operários, para suprir o mercado ocidental. 
 
Quarta-feira, 15 de maio.
O balanço total do desmoronamento do Rana Plaza, em Bangladesh, fechou em 1.127 mortos. Dos escombros, foram resgatadas etiquetas de marcas como Carrefour, Camaïeu e Auchan. 
 
Esta frequentadora rotineira do Auchan vê-se arremessada para o lado errado de uma história trágica, mas não deixa de fazer o registro. Ela não pode deixar de consumir aqueles produtos e, como a maioria de nós, não se sente diretamente responsável pelos métodos postos em prática pelos fabricantes ou comerciantes.






quinta-feira, 10 de novembro de 2011

2710) Micro-história presente (10.11.2011)



A ciência da História passou por uma grande mudança no último meio século. Grosso modo, a História antigamente era centrada nos grandes fatos (guerras, descobrimentos, revoluções, etc.) e nos grandes personagens (reis, imperadores, generais, presidentes, etc.). 

A gente folheava a História Geral de Borges Hermida e tinha a impressão de que no mundo só tinham acontecido coisas importantes. 

Aí surgiu a micro-história, que foi uma tentativa de falar do povo comum, ao invés dos reis e princesas. Como viviam os mercadores, os camponeses, os pedreiros, os artesãos? A História começou a vasculhar de novo os documentos acumulados nos museus e a deduzir daqueles relatos como era a vida cotidiana de gente sem importância, ou seja, nós, que não somos nem ditadores nem líderes de exércitos. 

É como se de repente todos os historiadores tivessem lido aquele poema de Bertolt Brecht, “Perguntas de um Operário que Aprendeu a Ler”: “Depois de cada batalha um banquete, mas quem servia as mesas?”. A História tornou-se a micro-história, contando, como a poesia de Drummond, a vida “do sineiro, da viúva e do microscopista”. 

Amigos, os micro-historiadores que forem um dia contar o que era o Brasil do começo do século 21 não vão ter problema nenhum. Estamos vivendo o apogeu do detalhezinho, a hegemonia da banalidade, o endeusamento compulsório das tutaméias de cada um. Cada anônimo sabe de cor a pasta de dentes de cada famoso, e fica sonhando com a chance de alguém perguntar qual a pasta que ele próprio usa. 

Mal posso esperar o dia em que uma apresentadora de TV perguntará ao vivo a que horas eu acordo, a marca do meu tênis, minha cor preferida, que livro eu levaria para uma ilha deserta. Andy Warhol previu 15 minutos de fama para cada um, mas não viu que esses 15 serão esticados até virarem um estado de microvisibilidade permanente. 

O famoso é famoso até engraxando os sapatos ou tomando banho de chuveiro. O escritor não se sente realizado quando discute as idéias do seu livro, e sim quando alguém lhe pergunta se ele dorme de calção ou de pijama. Ele não se sente importante pelas coisas grandiosas que fez – porque qualquer idiota que faça uma coisa grandiosa é importante. Não, ele é importante porque come pão com goiabada, e sabe que basta revelar isso no Facebook para que uma horda de admiradores proclame o pão com goiabada como “o top do top”. 

Pobres micro-historiadores do futuro. Vão ter que copiar e decorar cada quark de informação que estamos preservando para eles. Overdose de infrassignificado. Que façam bom uso de cada estátua desenterrada deste Panteão das pulgas, deste Monte Rushmore dos ácaros.





domingo, 18 de julho de 2010

2280) O shoooooow da Copa (29.6.2010)



(Maradona e os fotógrafos - foto de David Gray)

Os locutores da TV não param de comemorar: “Um shoooow de imagens para você! São 32 câmaras espalhadas pelo Estádio!”. De fato, o que salva as Copas do Mundo de hoje em dia é, mais que o jogo, a cobertura do jogo. A maioria dos gols é de uma banalidade assombrosa, mas se fixam em nossa memória depois que a gente vê de frente, de um lado, do outro, por trás, de cima, câmara lenta, câmara próxima, no detalhe... A Fifa descobriu, com meio século de atraso, o Canal 100. Descobriu que a beleza do futebol nem sempre é visível ao olho humano, é preciso retardar o movimento para que a gente tenha idéia do que acontece (e não é pouco) naquelas frações de segundo. Uma das imagens mais impressionantes desta Copa foi o pênalte cometido pelo zagueiro da Austrália no jogo contra Gana: ele está embaixo do travessão e a bola chutada pelo atacante se choca com seu braço, que evita o gol. A câmara lenta mostra o braço estendido, a jabulani se aproximando, explodindo de encontro ao braço, deformando-se, sendo mandada de volta, e todos os músculos do braço do sujeito estremecendo ao mesmo tempo. (Depois, é claro, o zagueiro reclamou do juiz e disse que não foi pênalti.)

Chegou um momento perigoso da relação entre imagem e mundo. Descobrimos ao longo dos séculos que o mundo enquadrado fica mais bonito (pintura, fotografia, cinema). Uma paisagem é banal? Vamos recortá-la em retângulo e reproduzi-la, emoldurada. Num instante ela fica poética. O recorte potencializa, concentra ali todos os significados possíveis. Cineasta gosta muito de erguer os polegares e indicadores das duas mãos formando um retângulo, para enquadrar rostos, paisagens, detalhes. Isolado do seu entorno, qualquer objeto vira signo. Dentro das quatro linhas da imagem, ele deixa de pertencer ao mundo físico e entra no mundo semiótico, deixa a Natureza para fazer parte da Cultura.

O momento perigoso foi quando alguém pensou: “Puxa vida, o simples ato de enquadrar uma coisa, por mais banal que seja, lhe confere um significado transcendental!”. Porque o pensamento seguinte é: “Bom, já que o significado transcendental está no enquadramento, e não na coisa, dispensemo-nos de escolher a coisa! A coisa pode ser qualquer uma! Tanto faz enquadrar o atentado às Torres Gêmeas quanto uma meia velha jogada no chão! Tanto faz enquadrar o rosto de Fernanda Montenegro quanto o de Xuxa! Tanto faz filmar em super-slow-motion um drible de Robinho quando uma trombada de Felipe Melo!”. E aí surgiu o cinema de Andy Warhol.

E este, amigos, é o futebol do futuro. Sou futeboleiro genético, não sei viver sem assistir um jogo de bola, e não me lembro quando fui a um estádio pela última vez, acho que foi quando o Treze foi campeão em 2005. Moro no Rio, e fui ao Maracanã pela última vez em 1990. Futebol para mim, hoje em dia, é um programa de TV, e com isto sou capaz de antever o futuro. Vinte e dois Felipes Melos em campo – e 128 câmaras dando um shoooow de imagens!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

1650) A escrita não-criativa (26.6.2008)



Artistas como Marcel Duchamp e Andy Warhol introduziram o minimalismo na criação artística. Não os estou comparando aos artistas minimalistas propriamente ditos, aqueles que se esmeram em usar o mínimo possível de elementos na composição de suas obras. Warhol e Duchamp reduziram a criação artística a um único gesto: o gesto da apropriação de algum material pré-existente. Duchamp pegava objetos que pareciam colhidos ao acaso e os expunha numa galeria, apregoando que eram obras de arte. Warhol pegava fotos de artistas ou de produtos industriais e os reproduzia em serigrafia colorida. A apropriação e a cópia viraram moda no meio das artes plásticas. Em alguns grupos, chegaram a virar dogma.

E não só lá. Li há pouco um relato (http://www.bookforum.com/inprint/015_02/2462) sobre a obra literária de Kenneth Goldsmith, o fundador do UbuWeb, saite que se auto-intitula “O YouTube da Vanguarda” e é um repositório inestimável de textos e clips de áudio e vídeo com os grandes artistas de vanguarda do século 20. Goldsmith é conhecido e respeitado como um dos líderes da Poesia Conceitual contemporânea, uma prática poética que usa algo da atitude apropriativa e copiativa de Duchamp e Warhol. (Imagino que ele se descabelaria de horror se visse sua arte resumida desta forma, mas é improvável que venha a tomar conhecimento desta coluna).

Por exemplo: no livro Day (2003), Goldsmith copiou, “ipsis litteris” um exemplar inteiro do New York Times. Notícias, colunas, comentários, cotações da Bolsa, anúncios, horóscopo, esportes, variedades... Todas as palavras desse exemplar do jornal foram copiadas, resultando num livro extenso, com mais de 800 páginas, pesando três quilos. (Está à venda na Amazon por 19 dólares, mais 12,50 de frete, se alguém se habilita.) Goldsmith também é autor de outras obras idiossincráticas como Número 111, em que ele relacionou todas as frases terminadas com o som de “r” que pôde encontrar, e depois as organizou por número de sílabas; Fidget, em que passou um dia inteiro descrevendo ao gravador cada movimento de seu corpo, e depois transcreveu tudo; e Soliloquy, em que gravou a transcreveu todas as palavras que pronunciou durante sete dias seguidos.

Um gênio? Um doido? Um picareta? Não creio. Para mim é um cara que nasceu desprovido do prazer de burilar frases e contar histórias (assim como há quem nasça desprovido de prazer sexual), mas que admira a literatura o suficiente para querer forçar seus limites e ver até onde ela agüenta. Seu amor pela literatura é intelectual, e se dá apenas na dimensão da escrita, não na dimensão da experiência humana ali contida. Ele é o caso extremo de autores como Michel Butor ou Robbe-Grillet e sua “ficção do olho”, registrando tudo que o olho do narrador ou do personagem vê; ou de Georges Perec e sua obsessão catalográfica. Acontece que Perec tem também a volúpia da fabulação, da contação de causos, que a Goldsmith parece ser inacessível.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

0799) Arte Conceitual (9.10.2005)




(Saul Steinberg)

Para alguns, é uma praga que vem deteriorando o mundo artístico há quase um século. Para outros, um terreno que se abre, cheio de possibilidades fascinantes. 

Parece que estamos numa época de transição em que a técnica, na criação de uma obra de arte, parece recuar para segundo plano, e a idéia, o conceito, torna-se aquele elemento sem o qual nada mais tem sentido.

Os exemplos mais evidentes são nas artes plásticas, e a maioria das pessoas bota a culpa em Marcel Duchamp, que pegou um urinol de louça de um banheiro público e o colocou numa exposição com o título “Fonte”. 

Aí não parou mais. 

Uma artista expôs na Bienal centenas de cinzeiros furtados de hotéis e restaurantes. 

Outro artista expôs dentro de uma redoma a carcaça de um bicho, que foi apodrecendo aos poucos durante as semanas em que ficou exposta. 

Outro distribuiu saquinhos de plástico lacrados; eles foram cheios com “ar da montanha”, e ao abri-los o público recebia (conceitualmente) um pouco desse ar. E por aí vai.

Na literatura, já dei alguns exemplos aqui: um conto cujas palavras foram individualmente tatuadas na pele de centenas de participantes, um romance que consta apenas de sinais gráficos, etc. 

Na música clássica, tem aquela história do concerto que vai durar 600 anos ou da música que consta apenas de silêncio, por obra e graça do imperturbável John Cage. 

No cinema, tem aqueles filmes tipo Andy Warhol: Sleep, câmara parada mostrando durante 8 horas, sem cortes, um cara dormindo; Empire, câmara parada mostrando sem cortes, durante horas, o Empire State Building. E por aí vai.

Tenho uma teoria. Estas formas de arte são o derradeiro gesto de uma burguesia intelectualizada em busca de um campo de batalha onde a única arma seja aquela que ela mais domina: a idéia pura, o jogo de conceitos, o refinado xadrez intelectual de quem tem base acadêmica e filosófica, de quem tem acesso às teorias psicanalíticas, semióticas, estruturalistas, pós-modernas, o escambau. 

De repente, saber pintar com pincéis e tinta-a-óleo, ou saber técnicas de água-forte ou litogravura, é coisa para meros artesãos. Saber contar uma história, desenvolver personagens... o mercado está cheio de Writer’s Guides ensinando isto. Escola de música? Qualquer joão-ninguém hoje em dia tem acesso aos segredos da orquestração, do contraponto.

Ironicamente, os pretendentes-a-artista muito pobres não sentem atração pela Arte Conceitual. Eles bem que poderiam enfiar as mãos nos seus bolsos eternamente vazios e danar-se a produzir “ready-mades” ou instalações invisíveis. Mas não, quanto mais pobres mais querem meter a mão na massa, manipular materialidades, moldar substâncias e formas, domesticar instrumentos. 

E do outro lado os artistas da “crème de la crème” se refugiam, não numa torre de marfim, mas na torre imaterial, virtual, holográfica, da Arte Conceitual, onde a relação artista/público é como uma relação sexual por torpedo-no-celular ou uma luta de boxe por email.





quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

0705) Michael Jackson é inocente (22.6.2005)



Na mesma semana em que Mike Tyson sofria um melancólico e humilhante nocaute em sua mais recente tentativa de retorno ao ringue, Michael Jackson foi absolvido da acusação de pedofilia. Fiquei tão surpreso com este resultado quanto a maioria das pessoas, mas me parece óbvio que Jackson é um cara de 46 anos com o intelecto e a sexualidade de um cara de dez. Não é um desses pedófilos frios e cruéis que se deleitam violando crianças: é uma criança ele próprio, encalhado num pequeno círculo de perversõezinhas de descoberta genital, mescladas com ternura infantil e narcisismo. Como diria Olavo Bilac, Jackson não é bom nem é mau: é triste e humano.

A absolvição, pelo que andei lendo na imprensa, se deu basicamente porque o promotor Thomas Sneddon foi com muita sede ao pote. Muitas das testemunhas da acusação acabaram dando depoimentos a favor de Jackson, às mãos do advogado de defesa Thomas Mesereau. E acima de tudo o garoto apontado como vítima e sua mãe foram vistos pelo júri como pessoas muito pouco confiáveis. A mãe, em especial, parece ter um longo histórico de tentativas de extorquir dinheiro de gente famosa. É uma tática muito comum no show-business e atividades parecidas: as pessoas conseguem acesso ao Famoso, paparicam, adulam, tornam-se íntimas, e daí a pouco aparecem grávidas, ou pegam uma briga e deflagram um processo por maus tratos, ou caem fora e escrevem um best-seller escandaloso revelando detalhes íntimos do Famoso. O mundo está cheio de gente que topa tudo por dinheiro.

Acontece que o promotor Sneddon pôs o carro adiante dos bois, na sua impaciência em condenar o cantor. Dele, disse Michael Walsh no saite “World Socialist”: “Na brutalidade demonstrada por Sneddon é possível ver em microcosmo todo o caráter da elite governante norte-americana: ignorante, irresponsável, rancorosa, perseguindo sem descanso qualquer pessoa que pareça encarnar a oposição ou a contracultura. Por que Jackson estava, de fato, sendo processado? Porque seu estilo de vida é diferente, e até bizarro; porque é visto como gay; e porque é negro”. Ocorreu o mesmo que no caso O. J. Simpson, um caso onde a condenação parecia certa, mas a polícia cometeu tantos absurdos na manipulação das provas materiais (na impaciência de condenar o Negro Famoso) que desmoralizou-se a si própria.

Jackson é um personagem trágico que parece criado numa parceria entre Shakespeare e Andy Warhol. Seu rosto de caveira, coberto por uma pele esticada e amarelecida, lembra o da múmia de Tutancamon, o faraó-menino. Emocionalmente arrasado, cheio de dívidas, isolado do mundo real por numa ilha-da-fantasia auto-imposta, parece rumar para uma decadência irremediável. Uma pena para quem o viu na época de “Beat it” ou “Billy Jean”. Sua absolvição neste processo foi uma simples trégua. Espero estar errado, mas acho que seus inimigos ainda o destruirão, e com munição fornecida por ele próprio.

segunda-feira, 31 de março de 2008

0332) Morte e vida em tela quente (13.4.2004)




(Spalding Gray)

Triste de quem é famoso; triste de quem um dia sonhou em viver em cima de um pedestal, sendo adorado e invejado pela plebe. 

É impressionante a maneira como certas pessoas querem subir socialmente (ou seja, distanciar-se da plebe) cortejando a plebe, pavoneando-se diante da plebe, transformando-se na encarnação das fantasias da plebe. Não vou citar exemplos (faltariam papel e tinta para tanto nas oficinas deste jornal), mas todos nós sabemos que muita gente é capaz de tudo “para aparecer”. 

Andy Warhol (ele próprio um subproduto típico dessa indústria do auto-espetáculo) dizia que no futuro todo mundo seria famoso por 15 minutos. Pois digo eu que no futuro todo mundo brigará pelo direito de ser humilhado publicamente durante 15 minutos.

É como os “estilitas” (atenção: não é “estilistas”), aqueles santos medievais que viviam encarapitados numa coluna, à vista de toda a população. Faziam-no por delírio masoquista, mas nós, modernos, o fazemos por delírio exibicionista. 

Os “reality shows” que enchem de câmaras a casa de uma família são o ápice desse processo. Ficam eles lá, se desincumbindo de suas tarefas e fazendo suas caras-e-bocas... e nós cá, olhando para aquele troço com a mesma expectativa de quem olha para um aquário. Quantas vezes passei uma hora inteira, no meio de uma tarde, acompanhando na MTV o cotidiano de Ozzy Osbourne! Por que? Provavelmente porque ver aquilo era mais interessante do que viver minha própria vida.

Quem se isola no alto do pedestal da mídia descobre, depois, que não é fácil descer. Corre o risco de ser estraçalhado por uma multidão sequiosa por relíquias. Enchemos o mundo de colecionadores de nós mesmos, e pagamos um preço. 

Uma das histórias mais melancólicas que já vi na imprensa foi de como Xuxa certa vez pediu à direção de um shopping que todas as lojas fossem abertas certo dia, de madrugada, para que ela pudesse “fazer compras no shopping”, como todo mundo. Claro que todas as lojas concordaram em fazer essa horinha-extra. No shopping-fantasma, deserto de gente de verdade, Xuxa e sua “entourage” passearam durante horas, comeram pipoca, fizeram compras...

Algumas semanas atrás, suicidou-se nos EUA o escritor e ator Spalding Gray, autor de monólogos confessionais e cheios de ironia. Num artigo no “Village Voice”, David Sweet comentou, referindo-se às pessoas famosas, que vêem sua vida transformada num espetáculo permanente: 

“Se você está se afogando e é famoso, as pessoas ficarão vendo você se afogar. Ficaremos imaginando qual daquelas outras pessoas foi contratada para salvar sua vida na hora H, ou ficaremos imaginando se tudo aquilo foi ensaiado. E se você morrer, pensaremos: ´Puxa vida, eu estava lá, quando ele morreu.´ Só há uma coisa que não faremos: ajudar.” 

A vida-espetáculo é cruel. Porque quando o ídolo morre, os fiéis batem palmas e pedem, sem uma lágrima, sem um suspiro: “O próximo!”






sexta-feira, 7 de março de 2008

0013) Sou modelo e atriz (6.4.2003)



É bem típico de nossa época uma garota responder, quando lhe perguntam sua profissão: “Sou modelo e atriz”.  

Não consigo pensar num contra-senso maior do que este. São as duas ocupações mais incompatíveis do mundo. Uma atriz é uma mulher que se multiplica em mil personagens. Uma modelo é uma personagem que se multiplica em mil mulheres. 

Para ser uma coisa é preciso varrer de si tudo que define a outra. Como é que elas conseguem, então?

Basta olhar um desses desfiles na TV e ver que o que houve foi um rolo compressor mental. Passou por cima das meninas, deixando-as com aquela silhueta de espaguete, e aquela expressão vácua de quem acabou de ter o cérebro sugado através do ouvido mas não perdeu nada cuja ausência prejudique seu funcionamento geral. 

Lá vêm elas passarela afora, vestindo uma roupa que parece uma luminária japonesa, andando naquele passo ensaiado mil vezes, erguendo aquele olhar de dominatrix que esconde o quanto estão apavoradas; dão uma voltinha, retornam, e voltam daí a pouco com outra roupa que parece um bombril de plástico.

Não têm nada de atrizes. Parecem soldadas de uma Guarda Republicana: têm todas o mesmo passo, o mesmo gesto, a mesma cadência, a mesma precisão, a mesma postura. 

A postura é um capítulo à parte, porque alguém as ensina a projetar os quadris para a frente, o busto para trás e o queixo para cima. Se Gisele Bündchen exercer a profissão até os 50 anos vai ficar igualzinha a um ponto de interrogação.

Nada mais longe da profissão de atriz do que esse desfile de máscaras de cera. Todas lindíssimas, mas de cera, e máscaras. 

São lindas que dão lágrimas nos olhos. Uma é uma sílfide de Botticelli, outra é uma nereida de Gauguin; esta aqui merece um Modigliani, aquela outra um Rafael. 

Vistas em conjunto, contudo, e ao longo dos anos, parecem ter sido inventadas por Andy Warhol e Marcel Duchamp, durante uma bebedeira.

Essas modelos de desfile estão muito mais próximas da função social e estética de um manequim-de-vitrine do que da função social e estética de uma atriz. Estas três profissões formam um triângulo pontiagudo, com modelo e manequim pertinho uma da outra e atriz a léguas de distância. 

Uma modelo é um cabide ambulante, ou uma “arara”, como são chamados nas lojas os suportes de roupas. Se uma delas quiser tornar-se atriz mesmo, a primeira coisa a fazer é extirpar da memória tudo quanto lhe ensinaram. Ou, se isso não complicar muito, continuar lembrando – e fazer tudo ao contrário.

Não vou descrever aqui o que é ser atriz (ou ator, aliás; vale pra todo mundo) porque é uma tarefa além das minhas forças. Eu diria apenas que um ator pensa por si mesmo, e um modelo é pensado pelos outros. 

Um sujeito dizer que é “modelo e ator” é tão paradoxal quanto dizer... deixa eu ver... “sou poeta e redator profissional.” Ih, rapaz. Pensando bem, pode até ser que as meninas tenham razão.