Mostrando postagens com marcador rádio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rádio. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de maio de 2024

5065) Bob Dylan, ano 83 (24.5.2024)



(Bob Dylan, na sua oficina de esculturas em metal) 

 
Trechos do livro de memórias Chronicles, vol. 1 (2004), de Bob Dylan, que hoje completa 83 anos. Trad. BT 
 
(Sobre a infância:)
“Programas de rádio formaram uma grande parte da minha consciência lá no Meio-Oeste, quando eu tinha a sensação de viver numa perpétua juventude. Inner Sanctum, The Lone Ranger, This Is Your FBI, Fibber McGee and Molly, The Fat Man, The Shadow, SuspenseEste último tinha o som de uma porta rangendo, mais horrível do que qualquer porta que você possa imaginar; histórias de estraçalhar os nervos e dar voltas no estômago, toda semana. (...) Uma vez eu perguntei ao cara da sonoplastia como ele recriava o som de uma cadeira elétrica, e ele disse que era fritando bacon. E ossos quebrados? Ele pegou um drops e partiu com os dentes.” (p. 50-51) 
 
(Sobre os anos 1960:)
“Os artistas latinos também estavam rompendo com as fórmulas tradicionais. Artistas como João Gilberto, Roberto Menescal e Carlos Lyra estavam se afastando do samba recheado de tambores e criando uma nova forma de música brasileira cheia de mudanças melódicas. Deram-lhe o nome de bossa nova. Quanto a mim, o que eu fiz para romper com a fórmula foi pegar as harmonias da música folk e colocar nelas um novo imaginário e uma nova atitude, usar bordões e metáforas combinados com um novo conjunto de regras que acabaram evoluindo para formar algo novo, algo que não tinha sido ouvido antes.” (p. 67) 




(Sobre os testes antes de gravar o primeiro disco:)
“Eu não tinha muitas canções, mas estava compondo algumas meio de improviso, refazendo versos para velhas baladas, velhos blues, criando um verso original aqui e ali, do jeito que vinha na minha cabeça – e botando um título novo. Estava fazendo o melhor que podia, precisava sentir que estava merecendo o dinheiro que me pagavam. Nada era capaz de me convencer de que eu era um compositor de verdade, e não era mesmo, não no sentido convencional da palavra.” (p. 227) 
 
(Sobre os primeiros tempos em Nova York, aos 20 anos:)
“Eu não sabia exatamente o que estava procurando, mas comecei a procurar na Biblioteca Pública de Nova York. (...) Numa sala de leitura dos andares superiores comecei a ler, em microfilme, artigos dos jornais  de 1855 a 1865 para saber como era a vida naquele tempo. Não estava propriamente interessado nas questões, mas na linguagem e na retórica da época. (...) Não parecia outro mundo; era o mesmo, só que com mais urgência, e a escravidão não era o único problema. Havia matérias sobre movimentos reformistas, ligas anti-jogo, aumento na criminalidade, trabalho infantil, campanhas anti-álcool, fábricas com trabalho semi-escravo, cultos religiosos. Você tinha a sensação de que o jornal ia explodir, e que ia cair do céu um raio para fulminar o mundo inteiro.”  (p. 84) 



 
“Escrever canções para uma peça não me parecia nada de excepcional, e eu já tinha composto uma ou duas canções para ele [Archibald MacLeish] somente para ver se era mesmo capaz. Sempre gostei do palco, e mais ainda de teatro. Me parecia ser a arte suprema entre as artes. Fosse qual fosse o ambiente da ação, um bar, uma calçada, a poeira de uma estrada no campo, a ação sempre transcorria num eterno agora.” (p. 124) 



(Bob Dylan, quadro da série "New Orleans") 

 
(Sobre New Orleans, onde gravou “Oh Mercy” em 1989:)
“Em  New Orleans a gente quase consegue enxergar outras dimensões. Aqui, tudo existe apenas um dia de cada vez, depois vem a noite, e amanhã tudo vai ser “hoje” novamente. Há uma melancolia crônica pendendo das árvores. A gente nunca se cansa dela. Depois de um certo tempo, a gente se sente como um fantasma a mais daqueles cemitérios, como se estivesse num museu de cera cercado de nuvens carmesim. Um império dos espíritos. Um império dos poderosos. (...) O diabo vem até aqui e dá um suspiro. New Orleans. Estranha, anacrônica. Um bom lugar para viver sentindo as emoções alheias. Nada faz muita diferença e você nunca sofre, e é um bom lugar para deixar que as coisas aconteçam. Alguém põe um copo à sua frente, e a melhor coisa a fazer é bebê-lo.” (p. 181) 
 
(Sobre escutar Robert Johnson no Village, anos 1960:)
“Segurei o disco de acetato de Robert Johnson e perguntei a Dave Van Ronk se já o tinha escutado. Ele disse que não, e pus o disco na vitrola. No instante em que as primeiras notas brotaram do alto-falante senti meus pelos se arrepiarem. As notas do violão eram como punhaladas, capazes de partir as vidraças. Quando Johnson começou a cantar, parecia um cara que tivesse brotado da cabeça de Zeus, vestindo uma armadura completa. Senti que ele era diferente de tudo que eu já tinha escutado. As canções não eram os mesmos blues costumeiros. Eram peças perfeitas – cada canção tinha quatro ou cinco estrofes, cada par de versos se relacionava com os outros, mas nunca de uma maneira óbvia. Era algo totalmente fluido. No começo tudo surgia rápido demais, mal dava para assimilar. Ele cobria todo o território, em alcance e em variedade de temas, versos curtos, de alto impacto, que resultavam numa vasta narrativa panorâmica, era o fogo da raça humana se elevando daquele pedaço de plástico que girava na vitrola.” (p. 282) 



 
“O mundo moderno, um mundo maluco e complicado, me despertava pouco interesse. Não tinha relevância, não tinha peso. Não me seduzia. O que era vibrante, atual e significativo para mim eram histórias como o naufrágio do Titanic, as inundações de Galveston, John Henry partindo rochas com a marreta, John Hardy matando um homem a tiros numa ferrovia da Virginia. Tudo isto era atual, feito às claras, aos olhos de todos. Estas eram as notícias que eu levava em conta, acompanhava, usava para minhas anotações.” (p. 20) 
 
“Desde a infância me acostumei a ver trens, e a ouvir o seu barulho, e sempre me senti seguro. Os grandes vagões fechados, os vagões de minério, os vagões de carga, vagões de passageiros, os carros Pullman. Na minha cidade natal era impossível ir de um lugar a outro sem a certa altura ter que parar num cruzamento e ficar esperando que um longo trem terminasse de passar. As ferrovias cruzavam as estradas rurais, e às vezes as duas corriam paralelas. O som de um trem passando à distância faz com que eu me sinta em casa, me dá aquela sensação de que não há nada faltando, de que não corro nenhum perigo e que todas as coisas se encaixam.”  (p. 31) 




(Marcus Carl Franklin, no papel de Bob Dylan / Woody Guthrie, em "Não Estou Lá", de Todd Haynes)
 






quinta-feira, 27 de outubro de 2022

4877) Quando o disc-jockey é Bob Dylan (27.10.2022)

 

 
Entre os anos de 2006 e 2009, Bob Dylan manteve no ar um programa de rádio semanal, o Theme Time Radio Hour, onde ele fez um impressionante passeio pela música norte-americana. Dylan contou com a parceria do produtor Eddie Gorodetsky; os dois juntaram suas respeitáveis discotecas e, com uma boa equipe de pesquisadores, criaram mais de 100 programas com uma hora (ou mais) de duração.
 
Dylan serviu como disc-jockey, apresentando as canções, compartilhando lembranças pessoais, lendo trechos de obras literárias, lendo cartas dos ouvintes, fazendo gracejos. Dylan é um DJ competente, com sua voz calejada e expressiva, frases incisivas, comentários generosos.
 
“Bob Esponja” (Sponge Bob) é como alguns críticos dos EUA o chamam até hoje, pelo seu conhecimento enciclopédico de música popular dos EUA. Os relatos sobre a juventude de Dylan, na época de sua chegada a New York com 19 anos, dão conta de que ele se hospedava na casa dos amigos e passava o pente fino em suas discotecas. Ouvia e “tirava” tudo; não escapava nada.
 
Não eram apenas as discotecas pessoais. Antes mesmo, na infância e adolescência, Dylan era um ávido ouvinte de programas de rádio em geral. Ele conta em seu livro Chronicles, Vol. 1 (2004, trad. BT):
 
Os programas de rádio tinham tido um papel importante na minha mentalidade, lá no Meio Oeste, num tempo em que eu parecia estar vivendo uma juventude eterna. Inner Sanctum, The Lone Ranger, This is Your FBI, Fiber McGee and Molly, The Fat Man, The Shadow, Suspense. (…) Cresci ouvindo essas coisas, tremia de excitação ouvindo os programas. Eles me davam pistas de como o mundo lá fora funcionava, e estimulavam meus devaneios, faziam minha imaginação trabalhar em horas-extras. Programas de rádio eram uma arte estranha. (Cap. 2)



E no meio desses programas de aventuras, vinha naturalmente a música riquíssima do rádio norte-americano na década de 1950. Para quem foi criado em Hibbing (Minnesota), o rádio era a única maneira de entrar em contato não apenas com a música tradicional (country music, hillbilly, blues, etc.), mas com os novos ritmos que estavam surgindo, como o rhythm-and-blues e o rock-and-roll.
 
Robert Shelton descreve, na biografia No Direction Home (1986):
 
Bob fazia suas viagens ao Mississippi tarde da noite, quando a atmosfera estava mais limpa. Muitas vezes punha o rádio embaixo do cobertor, para não acordar ninguém com o som que estava escutando direto de Shreveport ou Little Rock. Gatemouth Page, um eclético disc-jockey sulista, alternava country music com rhythm-and-blues. Na época em que Bill Haley estava fundindo os dois estilos, Dylan escutava ambos. (Cap. 1, trad. BT)
 
Tudo isso resultou na segurança e descontração com que Dylan concebeu e executou seu próprio programa, já com mais de 60 anos de idade. O Theme Time Radio Hour tinha uma hora ou mais de duração, não era ao vivo (era pré-gravado, nas brechas da agenda do cantor), e se organizava em temas.



Os dez primeiros programas da série, de 2006, têm como tema: “Weather”, “Mothers”, “Drinking”, “Baseball”, “Coffee”, “Jail”, “Fathers”, “Weddings”, “Divorce”, “Summer”.
 
Esse recorte temático dá aos programas uma grande vivacidade, porque a cada número pulamos do blues para o fox-trot, das big-bands para a balada, do country-and-western para o rock. Num mesmo programa, como “Coffee”, ouvimos Frank Sinatra cantar seu elogio ao café brasileiro (“The Coffee Song”), a voz rascante do bluesman Lightnin’  Hopkins, o cantor pop Bobby Darin (o de “Splish Splash”) e a banda inglesa Blur.
 
Um ouvinte manda uma carta bem humorada dizendo que curte o programa, mas quer saber por que tocam tantas músicas velhas, em vez das novas. Dylan responde: “É apenas porque existem muito mais músicas velhas do que novas”.
 
O link inicial do programa, com acesso ao áudio de todos eles, está aqui:
 
https://www.themetimeradio.com/
 
Bob Esponja Dylan começou fazendo canções “de protesto”, enveredou pelo rock psicodélico, mergulhou nas folksongs da América profunda após o álbum John Wesley Harding; fez música de cunho cristão, e nos anos 1990 lançou duas compilações voz-e-violão que dão uma pista desse seu enorme conhecimento da música invisível (Good As I Been To You, 1992, e World Gone Wrong, 1993).
 
Seu programa de rádio serve, por um lado, como um vislumbre de sua variada formação musical, mas também o mostra como produto de uma época de extrema liberdade na música norte-americana.
 
Michael Gray (Song & Dance Man III, 2000) faz uma comparação entre a música popular dos EUA e da Inglaterra nesse período. Na Inglaterra a rádio era estatal (a BBC, uma rádio burocrática onde se procurava apenas repetir os sucessos recentes) e havia apenas quatro grandes gravadoras (Decca, EMI, Pye e Philips).


Nos EUA, em 1961, havia cerca de 6 mil selos fonográficos independentes, e as emissoras de rádio eram fortemente regionalizadas, com os DJs tocando a música que gostavam e a música preferida dos ouvintes de sua área. Mais ou menos como ocorria no Brasil na mesma época. Gray diz: “Levou apenas duas décadas para que o rádio dos EUA se tornasse completamente ossificado, tornando-se um meio dominado pela tirania das fórmulas, movido pela ganância pura e simples.” (Cap. 3, trad. BT).
 
Sobre o Dylan cantor/compositor, a discussão superficial da maioria da imprensa gira apenas em torno de “cantor de protesto que aderiu à guitarra elétrica”. Isso ignora o conhecimento musical vasto que Dylan nunca escondeu, mas, como um jogador experiente, foi pousando suas cartas na mesa ao longo de uma carreira que já vai com mais de seis décadas.

 
Nas memórias, ele compara seu início da carreira, no mundo folk do Greenwich Village, com o de seu amigo e companheiro de geração, Bobby Vee, que rapidamente decolou como sucesso pop. Diz Dylan (trad. BT):
 
Eu não tinha nada contra as canções pop, mas a definição de pop estava mudando. Elas não pareciam mais ser tão boas quanto tinham sido antes. Eu gostava muito de músicas como “Without a Song”, “Old Man River”, “Stardust” e centenas de outras. Minha favorita entre todas as mais recentes era “Moon River”. Eu era capaz de cantá-la até dormindo. O meu amigo Huckleberry também estava por ali, à minha espera, esperando quem sabe numa curva da Rua 14. (...) Eu botava para ouvir uma canção fenomenal como “Ebb Tide” com Frank Sinatra, e ela nunca deixava de me maravilhar. A letra era tão misteriosa e estupenda. Quando Frank cantava aquilo, eu podia enxergar tudo em sua voz – morte, Deus e o universo, tudo. Mas eu tinha outras coisas para fazer, não podia ficar somente escutando aquilo.
 
Por trás e por baixo da obra de Dylan enxerga-se tudo isto, principalmente nos seus discos mais recentes, inclusive o excelente Rough And Rowdy Ways, só de canções inéditas, lançado aos 79 anos.




sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

4786) Elza Soares, 1930-2022 (21.1.2022)

 

Quando eu tinha por volta de 10 ou 11 anos passava boa parte do meu dia ouvindo a Rádio Borborema, que na época era a rádio mais importante de Campina Grande, e onde meu pai tinha trabalhado por uns tempos como redator. 

Os programas geralmente tinham uma hora de duração, e durante aquela hora o locutor/disc-jockey (eu ainda não conhecia este termo) escolhia as músicas, tocava, às vezes fazia comentários.
 
Havia um programa chamado “Ele, Ela e a Canção”. Era um cantor e uma cantora cujas faixas se sucediam alternadamente. Num dia eram Cauby Peixoto e Leny Eversong... no outro eram Ataulfo Alves e Nora Ney... E por aí, ia. E eu me lembro que um dia eu falei para minha mãe: “Se alguém me mandasse fazer esse programa por um dia, eu fazia com Nelson Gonçalves e Elza Soares”.
 
Conto esse episódio bobo porque é a recordação mais antiga que tenho de Elza, e por ela deduzo que eu já era fã, e era mesmo, porque fiquei comportadamente sentado ao pé do rádio quando ela veio a Campina Grande e fez um programa inteiro cantando no auditório da mesma Radio Borborema, com transmissão ao vivo.
 
“Beija-me”:
https://www.youtube.com/watch?v=k4deIBUviT8
 
Lembro que nesse tempo já ouvia falar nela como a maior sambista brasileira, não como um “novo talento que desponta”. E os improvisos em voz rouca, estrídula, suingada, chamavam a atenção. Era coisa para a gente parar o que estava fazendo e ficar à escuta. Era diferente.
 
“Se acaso você chegasse”:
https://www.youtube.com/watch?v=xp72C7IIuLA&list=OLAK5uy_kuEV1LHg15pJgSQKg9_O0_Ak8thZ4RoJs
 
A rasgada rouca da voz de Elza era algo que ia além da música, era como se fosse uma ilustração na página impressa de um livro, algo que ia além do texto, trazia uma dimensão a mais, algo completamente diferente mas que fazia parte.
 
Na época eu percebia esses “efeitos especiais” aqui e acolá em diferentes artistas. Via algo parecido nos “cans-ganscans-gansculans” dos Demônios da Garoa, cujas canções não eram apenas ilustradas por efeitos vocais desse tipo, mas mostravam, apitos de trem ou de guarda, vozerio de botequim, e em canções como “Cidade do Barulho” tinha todo tipo de efeito sonoro. Tinha também Moreira da Silva, onde “O Último dos Moicanos” mostrava não apenas disparos de revólver *”Cuidado Moreira!...”), como galinhas cacarejando, índios ululando e tudo o mais.
 
Elza era também perita nos duetos de estúdio com outros artistas, e para mim suas gravações com Miltinho, um dos maiores sambistas de todos os tempos, são um documento da liberdade e da alegria de cantar, de dividir, de atrasar, de correr pra pegar lá na frente, de cair na nota certa e ainda dar um floreado a mais.

Elza e Miltinho:
https://www.youtube.com/watch?v=9bTk4OsU_r4
 
É o que chamamos de suingue, de jogo de cintura, de flexibilidade, de domínio total de uma forma, de uma segurança estabelecida a tal ponto que permite o luxo de se divertir de graça.
 
Os obituários que rolam desde ontem falam inevitavelmente na relação de Elza com Garrincha, e na época, para um garoto adolescente que era doido por futebol, nada parecia mais correto, porque Elza era o Garrincha da música e Garrincha era a Elza do gramado. Era o encontro de duas almas autênticas, como diria o poeta.

O mundo gira, a Lusitana roda, o tempo vai passando e Elza desaparece do mapa, não por defeito dela, mas porque os anos 1970 foram (pelo menos na minha percepção) uma explosão da música brasileira em todos os gêneros, em todos os estilos. Mas foi, por essa mesma explosão, um período difícil para quem conheceu o sucesso na década anterior; basta lembrar os casos, tão próximos de nós, de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.
 
“Língua”:
https://www.youtube.com/watch?v=fsqoCBfucYo
 
E de repente apareceu Caetano Veloso em 1984 com um dos primeiros raps brasileiros, “Língua” (em Velô), uma espécie de manifesto em defesa dos nossos jeitos brasileiros de falar, e a certa altura ele gritava: “Fala Mangueira!...”, e surgia aquela voz:
 
Flor do Lácio, sambódromo,
lusamérica, latim em pó...
O que quer, o que pode essa língua?
 
Era a voz rascante de Elza Soares, e mais uma vez eu parei o que estava fazendo, para prestar atenção. Os tropicalistas, que cronologicamente estão um degrau mais alto do que eu (estão se aproximando todos da reta dos 80) mais uma vez traziam do fundo do baú os meus cantores de infância, como Gil e Caetano já haviam trazido Luiz Gonzaga (“17 Légua e Meia”, “Asa Branca”) e Gal trouxera Jackson (“Sebastiana”). Agora era Elza.
 
E me parece que desde então ela voltou a gravar e a fazer shows “com força”, ou quem sabe ela nunca parou; eu é que estava distraído escutando Rita Lee. Não importa: Elza voltou a estar por toda parte, num pique assombroso, gravando discos onde não tinha mais a potência original da voz cheia, de notas longas e flexíveis, mas aperfeiçoou a habilidade na divisão, e principalmente passou a cantar um repertório cujas letras iam muito além das letras alegres e juvenis falando de amor e sensualidade.
 
A Elza do século 21 foi uma cantora que largou a pele antiga e se exibiu nova e reluzente, igual e diferente, e abriu um aposento novo na obra que já era imensa.
 
“Mulher do Fim do Mundo”:
https://www.youtube.com/watch?v=6SWIwW9mg8s&list=OLAK5uy_ljuTdv2L0hDvvE28v5LPbwI80H9LlbiH0&index=2
 
A esta altura, todo profissional da música tem uma história com Elza, não é mesmo? Eu também tenho a minha. 

Por volta de 2002, Ivaldo Bertazzo me chamou para escrever o texto de um espetáculo de dança, Folias Guanabaras, a ser encenado pelo Corpo de Dança da Maré (66 garotos e garotas que dançam pra caramba), com DJ Dolores na trilha sonora, e no elenco Rosi Campos, Seu Jorge e a própria Elza. E eu dei um jeito para que a narrativa incluísse uma das minhas músicas preferidas de quando eu tinha 11 anos, “Eu e o Rio”, composição de Luís Antonio que ela tinha gravado naquele tempo.
 
“Eu e o Rio”:
https://www.youtube.com/watch?v=AG7NishmSxw

Elza é Spartacus. Uma prova disso é o musical Elza de Duda Maia, com texto de Vinicius Calderoni, direção musical de Pedro Luís, produzido pela “Sarau” de Andrea Alves, onde Elza era interpretada por Verônica Bonfim, Khrystal, Julia Tizumba, Larissa Luz, Janamô, Késia Estácio e Laís Lacorte.









quinta-feira, 9 de novembro de 2017

4285) "Incrível! Fantástico! Extraordinário!" (9.11.2017)





Falei algum tempo atrás neste blog sobre a figura de Almirante (Henrique Foreis Domingues), radialista, cantor, compositor, um desses personagens fundamentais na história da música popular e do rádio no Brasil.


Almirante criou programas de variedades escutados pelo Brasil todo. Colecionava informações sobre cultura popular, cultura oral, folclore, histórias, crendices, costumes, superstições. Seu arquivo pessoal acabou se transformando no Museu da Imagem e do Som, no Rio.

Incrível! Fantástico! Extraordinário! era um programa radiofônico com histórias verdadeiras de assombração. Quando eu era pequeno, meus pais tinham esse livro das Edições O Cruzeiro, com um longo prefácio falando da importância dos contos de fantasmas, e uma série de “relatos autênticos” que foram dramatizados no programa.


No começo eu tinha medo até de tocar nesse livro. Quando estava em cima de um móvel e eu precisava mexer nele por alguma razão, eu pegava qualquer objeto comprido (uma régua, um cabo de espanador) e o empurrava. Pra não tocar.

Depois cresci, perdi o medo e li o livro todo. Minha história preferida era “A Companheira Macabra”, história de um cara (talvez um estudante de Medicina) que pega uma caveira humana de verdade e a leva de bar em bar, bebendo e dando bebida à caveira. Depois ele encontra uma mulher linda e misteriosa que começa a fazer-lhe companhia. E por aí vai.

Quando vim morar no Rio, encontrei essa primeira edição na Biblioteca Nacional.

E depois, em 1989, a Editora Francisco Alves compilou um segundo volume dos casos relatados por Almirante, com prefácio de Sérgio Cabral. É este exemplar o que tenho comigo hoje.



Os casos eram enviados pelos ouvintes, no Brasil inteiro. Histórias no perfil tradicional do conto de fantasma brasileiro. Uma pessoa que é vista depois de morta, ou no instante em que está morrendo bem longe dali. Pessoas que prometem “fazer uma visita”, morrem, mas vêm cumprir a promessa. E assim por diante.

Como escritor, essas histórias não me interessam, porque a mecânica é sempre a mesma: alguém vê a “alma” de uma pessoa que já morreu, e geralmente isso acontece para “dar uma lição de moral” aos vivos.

Alguns contos, no entanto, têm leves variantes que poderiam servir como ponto de partida para um argumento de ficção.

Como em “Fenômeno de Levitação”, ocorrido em 1949 na estrada Rio-Petrópolis. Um casal se hospeda com a filha pequena, Fanny, para pernoitar à beira da estrada. De noite, dão por falta da menina. Dão o alarma. Vem polícia, vem bombeiro, mais de 100 pessoas buscando a criança sumida. E o autor conclui:

A verdade é que minha querida Fanny, às quatro e meia da manhã do dia 27 de julho daquele ano de 1949, foi encontrada lá embaixo no fundo de um despenhadeiro de uns 80 metros, a mais de 200 metros da casa! Lá estava ela, num ponto dificílimo de ser alcançado, calmamente, sentada, sem um arranhão, sem um ferimento, tão sossegada como se estivesse em sua caminha...

Gosto quando a “vingança” do defunto se dá por outros meios. Em “O Retrato” (caso de 1944), duas irmãs, Elvira e Leonor, eram brigadas; odiavam-se, e não se falavam mais. Leonor morre e anos depois Elvira encontra o ex-cunhado, que lhe pede uma foto da falecida. Elvira vai buscar e percebe que a foto está intacta, mas Leonor não aparece mais nela. Foi apagada.  E conclui:

Seu ódio é tão forte que nem quis deixar com a irmã uma lembrança do que fora em vida.

Dramaturgicamente, o clichê do “fantasma que aparece” poderia ser substituído com vantagem pelo “fantasma que faz desaparecer as coisas relacionadas com a sua vida na Terra”.

Gente morta que aparece a gente viva me parece pouco interessante. Mais intrigantes são mistérios que ocorrem sem nenhuma morte envolvida, como em “A Irmã Ausente”, um caso de 1914 na Bahia.

Um casal tem cinco filhas e, por problemas de saúde, precisa deixar três delas passando um tempo em casa de parentes distantes. Um dia, “M.”, uma das duas crianças que ficaram, afirma que uma das irmãs ausentes, “Si”, apesar de distante apareceu de repente na casa, e ao vê-la assustou-se.

Dias depois a mãe fala com a família onde “Si” estava hospedada e ouve o relato assustado:

Então foi um caso de telepatia, de transmissão de pensamento, pois ontem à noite a Si deitou-se naquele sofá e adormeceu. De repente, ela deu um pulo e acordou toda espantada. Perguntei o que houve, se ela estava com alguma dor e ela respondeu que não, que estava sonhando com a M. E que, quando a irmã chegou perto dela, assustou-se e acordou...

Pode ser telepatia mas pode ser também uma dessas dobras do espaço-tempo em que por uma fração de segundo dois pontos distantes se tocam (como quando vamos dobrar um lençol, pegamos duas quinas distantes e as juntamos uma com ao outra).

As histórias de assombração mais interessantes são as que não têm lição moral, nem exemplo humano, nem valor afetivo, nem catarse emocional. São simplesmente inexplicáveis, como o caminhão carregado de latões (que balançam sem fazer barulho) e sem ninguém ao volante, que repetidamente ultrapassa outro veículo numa estrada deserta à noite (“O Caminhão Fantasma”, 1952) ou o caminhoneiro que ao chegar perto de uma ponte resolve parar no acostamento para tirar um cochilo, desliga o motor, apaga os faróis... e acorda quatro horas depois, mais de 20 km à frente, com o carro ainda desligado (“A Ponte Sinistra”, 1949).

A história de terror tem geralmente o viés, o cacoete, a mania de ser um conto moral, quando poderia ser uma investigação dos bugs, dos “glitches”, dos maus-funcionamentos das leis do Universo; dos erros da Matrix.










domingo, 21 de maio de 2017

4236) "No tempo de Almirante" (21.5.2017)



Poucos caras são tão interessantes na Música Popular Brasileira da primeira metade do século 20 quanto Almirante (1908-1980), que foi cantor, compositor, produtor musical, redator e produtor de programas de rádio, grande pesquisador. Chamava-se Henrique Foreis Domingues; eu sempre pronunciava “Forêis” esse sobrenome dele, mas mudei a pronúncia ao ver esse trecho de uma carta em verso escrita para ele por Aloísio de Oliveira, então (em 1943) morando nos EUA:

(...)
Se eu soubesse mais cedo
que pra você escrever
tivesse que aparecer
um caso de compaixão
que falasse ao coração
do meu amigo Foreis,
eu já teria arranjado
teria falsificado
uma porção de Josués.

Aloísio fazia parte do Bando da Lua e estava nos EUA acompanhando Carmen Miranda, uma das grandes amigas e parceiras musicais de Almirante. Pouca coisa que aconteceu de importante na música radiofônica das décadas de 1930 em diante não teve Almirante por perto. Foi também grande parceiro (e depois biógrafo) de Noel Rosa, seu companheiro do famoso “Bando de Tangarás”.

Em 1930 Almirante compôs (com Homero Dornelas) e gravou o samba “Na Pavuna” – uma gravação histórica. Ao que se diz, foi a primeira música gravada no Brasil utilizando as percussões típicas do samba (tamborim, surdo, pandeiro, cuíca, etc.).  Nenhum produtor musical ou técnico de som da época admitia que esses instrumentos fizessem acompanhamento – era só orquestra ou instrumentação “delicada”. “Na Pavuna” foi um sucesso fenomenal, tão importante quanto o primeiro samba gravado, o “Pelo telefone” de Donga e outros.

“Na Pavuna” (gravação original):

Outros sucessos gravados por Almirante fazem parte de qualquer antologia do samba ou da marchinha brasileira:

“O Orvalho Vem Caindo” (Noel Rosa e Kid Pepe)

“Touradas em Madri” (Braguinha e Alberto Ribeiro):

Gavião Calçudo” (Pixinguinha e Cícero de Almeida):

Sem falar nesta marchinha, que todo torcedor do Treze já cantou:

Marcha do Grande Galo” (Lamartine Babo e Paulo Barbosa):

A biografia No tempo de Almirante – uma história do Rádio e da MPB, de Sérgio Cabral, Pai (Ed. Francisco Alves, 1990) me chegou pelas mãos do parceiro musical Alfredo Del-Penho. Traz em 400 páginas um imenso material sobre esse personagem bem humorado, humano, incansável, que era chamado “A Mais Alta Patente do Rádio Brasileiro”. Almirante surgiu e cresceu com o rádio, e a ele, talvez mais do que à música, dedicou sua vida inteira, trabalhando em todas as grandes emissoras da época.

Interatividade é uma palavra que muita gente conheceu depois da Internet, mas era uma das grandes armas do rádio, que pedia insistentemente colaborações, críticas, informações, participação de todo tipo dos seus ouvintes, através do correio. Ouvintes enviavam letras, partituras musicais, recortes de jornais e revistas, para terem seus nomes citados nos programas que acompanhavam fielmente.

Almirante reuniu um espantoso arquivo de informações mandadas do Brasil inteiro para seus programas de variedades, como “Curiosidades Musicais”. Ainda em vida, ele repassou esse arquivo para o Governo Estadual, que criou com este material o atual Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro.

Numa carta de 1940 a Celestino Silveira (pág. 192-193 do livro), Almirante explica essas suas décadas de atividade:

(...) Comecei, então, a fazer o programa sobre todos os assuntos. O título a tudo permitia. Como a Nacional é uma estação de grande penetração  no nosso interior, passei a pedir colaborações dos ouvintes. Graças a isso, pude mostrar pelo Rádio belezas musicais do Brasil inteiramente desconhecidas, coisas que ninguém até hoje teve a iniciativa de fazer com a insistência com que eu faço. Foi assim que consegui fazer irradiar temas folclóricos que nunca tinham sido mostrados pelo Rádio. Cito, como exemplo, as cantigas de roda dos estados, pregões do Rio e dos estados, melodias de trabalho, cantigas e rezas para defuntos, rezas para chamar chuva, melodias de Natal e de Reis, cantigas de cegos e muitas outras. (...) Todos os meus colaboradores, desde o que me enviou a cantiga mais valiosa, até o que me informou o fato mais insignificante, sempre tiveram os seus nomes citados no programa.

Os programas sobre assuntos como o dos instrumentos exóticos (já feito) e o de pios de caça e o da música dos ruídos (ambos ainda por acabar) me fazem perder um tempo inacreditável. Basta que eu diga que o dos instrumentos rústicos tomou-me o ano inteiro. Um ano a fio reunindo elementos, um ano convocando instrumentistas curiosos, tocadores de violino de uma corda só, de flautas e clarinetas de bambu, de folhas de árvore, de lápis nos dentes e os legítimos berimbaus de cuia.

Dessa curiosidade, aliada à possibilidade de recolher e de divulgar, surgiu uma das mais interessantes amizades e parcerias de Almirante – com Luís da Câmara Cascudo, o grande folclorista natalense. À primeira vista parece uma dupla improvável, o cantor de sambas e o etnólogo livresco. Mas os dois pertenciam à mesma espécie, a do pesquisador autodidata, que recolhe informações, estuda, vasculha, pergunta, assedia, junta material, enche estantes e mais estantes de informações que não interessam a ninguém da sua época.

Cascudo, em suas raras idas ao Rio, ia ver no auditório os programas de Almirante. De volta a Natal, mandava-lhe cartas como esta, de 1964 (pág. 338-339):

(...) Desejava, Almirante, dois documentos partidos de suas garras:
a)      Uma batucada legítima. Música e letra devem ser sem interesse (?), mas estou precisando de informação limpa e clara, como você sabe dar aos peticionários jagunços do meu tope e feição provinciana.
b)      Uma embolada. Música e basta uma amostra dos versos, não todos. Apenas refrão e um versinho característico. 
Esse é o choro... Sim. Uma pergunta que tem engasgado os técnicos e proprietários do assunto. Para você, o que é que diferencia choro de samba, ou, como diz o povo, chorinho de sambinha?
Solicito que Vossa Magnificência responda esse peditório, a fim de que o solicitante não fique com os dedos no ar e a máquina aberta num indeterminado compasso de espera. No mais, querido Almirante, receba o afeto que se encerra neste peito não senil.

O rádio o tornou uma figura íntima do Brasil inteiro, uma referência de cultura popular como a televisão transformou, décadas depois, figuras como Rolando Boldrin ou Téo Azevedo. Estudiosos como Renato Almeida escreviam para consultá-lo, como nesta carta de 1940 (pág. 196):

Uma coisa que quero lhe perguntar: o que se chama ‘samba de partido alto’? E, mais uma pergunta: o choro tem três partes, quais são elas? Desculpe essas caceteações, mas você é uma das raras pessoas a quem a gente pode se dirigir no Brasil. E um pedido final: você pode mandar-me aquele sambinha da Penha, que cantou no programa de ontem? E, com os votos de um felicíssimo 1940, lhe mando um abraço muito agradecido e afetuoso.

E até um romancista do porte de Érico Verissimo, fazendo pesquisa para um romance de época, lhe escrevia em 1950 (pág. 258-259):

Tomo a liberdade de pedir-lhe uma série de informações de que estou necessitado para o segundo volume do meu romance O Tempo e o Vento – “O Retrato” – e que cobrirá o período entre 1909 e 1945.
a)      Pode dar-me o nome de algumas músicas de dança mais populares entre 1910 e 1915?
b)      E das modinhas, lundus, etc. do mesmo período?
c)       Quais os discos mais populares da famosa Casa Édison, do Rio de Janeiro?
d)      Pode fornecer-me a letra da canção “Talento e formosura”?
e)      E da cançoneta cujo estribilho é “Varre varre, minha vassourinha”?
f)       Quando começou a voga de “O luar do Sertão”?
g)      E a de “Caraboo”?

Como você compreenderá, essas coisas – danças, canções, etc. – ajudam a criar atmosfera e a marcar o tempo. Como um pobre pagamento por essa sua colaboração, estou lhe remetendo um exemplar do primeiro volume de O Tempo e o Vento – com um abraço do seu fã Érico Verissimo.

Almirante entrou na minha vida quando eu tinha cerca de 8 anos, mas não foi através da música. Foi através do seu programa radiofônico de histórias de assombração, “Incrível! Fantástico! Extraordinário!” – mas este é um assunto ao qual voltarei noutro dia.








terça-feira, 25 de agosto de 2015

3901) "As Aventuras do Flama" (25.8.2015)




("O Flama": pelo filho, Mike Deodato, e pelo pai, Deodato Borges)

Foi o primeiro super-herói paraibano. Nasceu na novela de rádio homônima transmitida todos os dias pela Rádio Borborema; eu e minha irmã Clotilde ficávamos grudados no pé do rádio para ouvir as histórias escritas por Deodato Borges e interpretadas pelo “cast de rádio-teatro da Rádio Borborema”. 

Era um tempo em que praticamente todas as noites havia novelas de rádio escritas e interpretadas por artistas locais. Meu pai trabalhou na rádio alguns anos, e alguns desses atores frequentavam nossa casa. 

Lembro de ter ouvido uma adaptação de As Quatro Penas Brancas, romance de aventuras passado na Legião Estrangeira.

O Flama era um herói mascarado e usando capa, fisicamente no modelo do Batman. O rosto me sugeria uma certa semelhança com Errol Flynn, que era uma espécie de George Clooney daquele tempo. Suas aventuras ocorriam num ambiente que misturava elementos brasileiros e estrangeiros. 

No elenco de personagens, havia Eliana, sua noiva (era um tempo em que os super-heróis tinham noivas!), o garoto Zito (uma espécie de Robin), Bolão, um rapaz meio gordo que servia de “alívio cômico” pelas suas tiradas engraçadas, o Comissário Láurence (simétrico ao Comissário Gordon, do Batman), e havia um “Raposa” que usava uma metralhadora e chamava os bandidos de “os macacos”.

A novela foi patrocinada pelos Drops Dulcora (“quadradinhos, embrulhadinhos um a um!”). Criou um Clube do Agente Secreto, com carteirinha e tudo; e sorteava fotos do Flama e Zito, mascarados, de arma em punho, em contraluz, fotos feitas em estúdio. Era grande a audiência. 

O Flama (tal como o Dick Peter, de Jeronymo Monteiro) tanto enfrentava assaltantes de bancos quanto “monstros de ferro” que invadiam a cidade.

O sucesso foi tanto que Deodato lançou em março de 1963 a revista em quadrinhos, escrita e desenhada por ele. A esta altura eu, já com 12-pra-13 anos, não me interessei tanto, não colecionei, afinal já lia Conan Doyle e Julio Verne. Mas o sucesso foi grande! 

Agora, a Funesc (Fundação Espaço Cultural, de João Pessoa) lançou uma edição fac-símile do número 1 da revista, com uma HQ (“O Caso do Dragão Vermelho”), um conto (“Rapto!”) e algumas seções de piadas, curiosidades, sonetos.

A reedição do gibi vem com uma sobrecapa “moderna” desenhada por Mike Deodato, filho do autor, merecidamente famoso por sua atividade de desenhista no mercado internacional. 

Deodato faleceu ano passado (2014). Foi um entusiasta da cultura pop, como Jeronymo Monteiro, Rubens Francisco Lucchetti, Péricles Leal e outros pioneiros da literatura de gênero (policial / FC / terror / fantasia) que temperaram no fogo do medo os meninos e as meninas da minha geração.






sexta-feira, 26 de junho de 2015

3851) Um rádio ligado (27.6.2015)



Um rádio ligado pode fazer companhia a um ser humano que saiba mantê-lo à devida distância. Pense numa casa bem silenciosa. O sujeito entra, fecha a porta, acende a luz, abre a janela, tira a camisa...  Está sozinho. Vive só.  Barulho, somente o ronronar da geladeira, e o zum-zum do mundo lá fora.  O silêncio é opressivo e ele sente como se estivesse se deslocando no interior de um holograma cúbico.  Ele faz isso o dia inteiro, já sabe todo o passo-a-passo de viver naquela casa, mas mesmo assim reina naquele lugar uma espécie de asfixia.  Daí, ele liga o rádio. Aquele jato de som parece puncturar a realidade e criar uma realidade maior ainda.  Uma realidade 3D, ou em todo caso com um D a mais que a anterior.

A televisão cumpre essa função para muita gente; mas a televisão é possessiva, apropriativa, requer atenção total. TV é como aquelas mulheres bonitas que exigem que o sujeito não desvie o olhar um só instante. Já o rádio é mais livre. Parece mais um ambiente do que uma mensagem direcionada. Se a famosa Realidade Virtual se impuser, se daqui a pouco estivermos assistindo o telejornal na manga do blusão, aí sim, esse ambiente poderá ser tão magnânimo com nossa atenção quanto o rádio tradicional. 

Não falo do rádio que mais ouço, que são as jornadas futebolísticas.  É possível ficar trabalhando e ouvindo baixinho um jogo normal de meio de semana.  Na TV, seria preciso parar tudo. O rádio só exige isso se for jogo decisivo. Mas futebol é jornalismo, é só um segmentozinho. Rádio é ambiente porque som é 360 graus, é um círculo completo, enquanto nosso campo visual pega talvez metade disso. Rádio é esférico. Talvez ainda surja um rádio cuja trilha sonora reage à chegada de alguém e começa a tocar uma playlist específica para cada aposento que a pessoa percorre, como num conto de Ballard.

Um rádio ligado é uma pessoa falando, e geralmente uma pessoa jovial, autoritativa, compreensiva, emocionada, humorística, uma pessoa se oferecendo pra fazer muitas coisas por você, uma voz lhe oferecendo coisas, porque no rádio e na TV as coisas se sucedem tão rapidamente que tudo parece uma mera lista. O rádio parece a conversa descontraída entre dois amigos de infância dos quais um é mudo, e o outro, por solidariedade, sente-se com a missão de preencher sozinho todos os espaços de silêncio.

“Ele me faz companhia”, repetem as donas de casa há um século, enquanto arrumam a sala ou manipulam as panelas. O rádio tranquiliza, daí haver a obrigação tácita de que os locutores mantenham aquele tom jovial, despreocupado, persuasivo. O rádio é um fantasma sem corpo cuja função é evitar que o silêncio nos malassombre.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

3158) A Voz e a Eletricidade (12.4.2013)




A literatura e a poesia sempre dependeram da voz, com exceção dos breves 500 anos após a invenção da imprensa. 

Antes da imprensa, quando os livros eram escritos à mão, palavra falada e palavra escrita pelo menos lutavam pau-a-pau pelo poder. 

Na Antiguidade e na Idade Média livros eram coisas muito caras. Somente quem tinha uma certa grana podia comprar a cópia de um livro para tê-lo em casa, ou podia pagar um escriba para copiá-lo. Poemas e textos circulavam, sob forma escrita, mas sua circulação oral era certamente grande.

A invenção da imprensa abarrotou o mundo de livros de papel, mesmo que em seus primeiros anos os livros impressos também fossem um luxo de quem podia pagar. Mas não importa; a palavra escrita tornou-se sinônimo de cultura. E ainda hoje vivemos isto. 

Se alguém tem uma sala cheia de livros, achamos que é um intelectual, mesmo que ao falar ele revele ser uma besta quadrada. E se alguém nos diz que não sabe ler nem escrever, pensamos de imediato que é um sujeito burro, quando às vezes é mais inteligente e bem informado do que nós (e sabe mais poemas de cor).

Quem resgatou a Poesia da Voz foi a eletricidade, a partir do século 20, com três invenções decisivas: o rádio, o disco e a televisão. 

Com a ajuda desses meios a palavra falada ultrapassou a palavra escrita em importância, inclusive pelo fato de que isso coincidiu com a explosão das populações. Em muitos países, como no Brasil, milhões de pessoas passaram a ter acesso a esses três canais de comunicação sem nunca terem lido um livro. 

Do ponto de vista poético, o século 20 foi o Século da Canção. Nunca essa forma de arte foi tão cultivada, tão disseminada e teve um papel tão grande (maior que o romance, o conto, o poema escrito, etc.) na formação das pessoas, no seu lazer, na sua convivência, no seu entendimento do mundo.

O que ocorre agora com a Cultura Digital Eletrônica é uma mistura desses acontecimentos cruciais, a popularização da palavra escrita pela imprensa e a massificação da palavra falada pelos meios elétricos. 

Na Cultura Digital, a palavra escrita se multiplica de forma incontrolável, e o mais interessante é que agora uma só tecnologia está beneficiando ambas, a escrita e a falada. 

A Voz não lucrou nada com a imprensa, a Palavra Escrita lucrou pouco com rádio, etc.; mas as tecnologias digitais, com essa espantosa flexibilidade que têm, são capazes de beneficiar igualmente a Palavra Falada e a Palavra Escrita. (Para não falar na Imagem!) 

Não é o Fim do Mundo nem é a aurora de uma Idade de Ouro, mas é um momento raro de redefinição dos alicerces da comunicação. Temos sorte de viver um momento tão cheio de novidades.









terça-feira, 1 de novembro de 2011

2702) Marte vs Maranhão (1.11.2011)



(ilustração de Henrique Alvim Corrêa para A Guerra dos Mundos)

A famosa transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos, feita por Orson Welles em 1938, contou a história em forma de noticiário jornalístico e todo mundo pensou que o país estava sendo invadido por marcianos. É uma das pegadinhas mais famosas da história. Mas não foi a única vez em que isto aconteceu. Em 1949, o golpe foi repetido num país latino-americano. Em seu livro The Panic Broadcast, Howard Koch (roteirista do programa original) diz que foi no Peru; mas encontrei relatos de que foi no Equador (http://glo.bo/sxFivs). Traduziram e transmitiram o noticiário marciano, mas desta vez a população não gostou: quebrou e incendiou a rádio local, e tudo acabou com seis mortos. Mas não é este o nosso tema para agora.

A mesma transmissão foi encenada no Brasil, no Maranhão, em 1971, no aniversário da Rádio Difusora local (vejam a matéria aqui: http://glo.bo/rVo0fy). Toda a história está contada no livro Outubro de 71 – memórias fantásticas da guerra dos mundos, de Francisco Gonçalves da Conceição, professor que coordenou o trabalho de uma turma de graduação em Jornalismo e Relações Públicas. O responsável pelos efeitos sonoros do programa, Manoel José Pereira dos Santos, “Pereirinha”, hoje com 61 anos, diz: “Não tínhamos o que fazer, era uma brincadeira. Mas não sabíamos o alcance e o poder do veículo que tínhamos nas mãos”. A população, pra variar, acreditou que os marcianos estavam invadindo o Maranhão, e procedeu de acordo.

Tudo isto aconteceu em plena ditadura, e ninguém foi preso! A notícia diz que os radialistas foram obrigados a entregar uma gravação em fita do programa à Polícia Federal, e deram um jeito de enxertar nela avisos de que o programa era uma obra de ficção, avisos que não foram feitos na transmissão ao vivo. (Vejam aqui parte da gravação: http://bit.ly/vPLdeA).

Orson Welles, em seu programa, trouxe para os EUA a ação do romance de H. G. Wells, que se passa na Inglaterra. O roteirista Sérgio Brito, hoje com 72 anos, diz que também adaptou a história para o Maranhão. Referiu-se inclusive ao pouso de um “estranho objeto” no Campo de Perizes, que é a única saída terrestre da ilha de São Luís, e explica: “Eu tinha medo de uma fuga em massa acontecer, então coloquei uma nave espacial ali”.

Profetizo que a próxima encenação dessa história se dará através do esforço conjunto de alguns espertinhos que, via Twitter e Facebook, enviarão ao longo de algumas horas testemunhos, “fotos” e depoimentos que se confirmarão uns aos outros e, pela multiplicidade de fontes, darão a mesma impressão de realidade que o noticiário radiofônico produzia nas pessoas de anos atrás. Querem apostar?...

sábado, 25 de setembro de 2010

2356) O Ulisses galês (25.9.2010)




Ao listar os equivalentes ao Ulisses de James Joyce em diferentes países, o escritor Joshua Cohen usa de vez em quando o que poderíamos chamar de licença poética. Por exemplo: quando considera que o Ulisses do País de Gales é a peça radiofônica Under Milk Wood escrita por Dylan Thomas em 1954. 

Afinal, se falamos no Ulisses estamos falando no gênero romance e no livro que redefiniu (ou, segundo alguns, avariou para sempre) as regras do gênero. O livro de Joyce expandiu as possibilidades do romance como gênero canibalizante de todos os outros: prosa literária, ensaio, poesia, dramaturgia, o escambau. 

Assim Cohen justifica sua escolha: 

“É também, além do Ulisses galês, o Ulisses dramatúrgico. Under Milk Wood era de início uma peça radiofônica e foi depois adaptada para o palco. Vozes misteriosas convidam a platéia a espreitar a vidas-em-sonho e os monólogos interiores dos habitantes de um vilarejo no País de Gales chamado Llareggub (“bugger all” ao contrário, algo como “que todos se danem”). Depois desta introdução, os habitantes despertam e a plateia, agora conhecendo quais são as motivações e os sonhos de todos eles, começa a acompanhar a história de suas vidas. Under Milk Wood é uma das tentativas mais abrangentes de dramatizar o universo mental de um mundo provinciano”. 

Como se vê, há duas conexões principais entre a peça de Dylan Thomas e o livro de Joyce. 

A primeira é essa utilização do monólogo interior, o qual aliás não foi inventado por Joyce, assim como a guitarra não foi inventada por Jimi Hendrix. Joyce psicografou os pensamentos erráticos que fluem nas bordas semiconscientes da mente. Imagino (nunca li nem escutei a peça) o que um poeta como Dylan Thomas (criador de imagens espantosas, quase surrealistas, e manejador de um vocabulário dos mais surpreendentes) pode fazer com os recursos do rádio e do teatro. 

A segunda conexão é o fato de que Joyce era irlandês e Thomas galês. Dentro da cultura da Grã-Bretanha, irlandeses e galeses são meio nordestinos, ou seja, pertencem a uma cultura menor dentro de uma maior, cuja língua compartilham, mas parecem se alternar o tempo todo entre ímpetos separatistas e estratégias de subversão mítica e verbal. 

A comparação feita por Cohen é surpreendente mas acaba rendendo uma boa linha de análise quando faz a equação entre a prosa de Joyce e a poesia de Thomas como eclosões do Modernismo em língua inglesa. Há mais coisas em comum entre os dois do que se imaginaria a princípio. 

Thomas deu ao seu volume semiautobiográfico o título de Portrait of the Artist as a Young Dog (1940), o que parece a todos uma referência ao A Portrait of the Artist as a Young Man (1917) de Joyce. Mas ele afirmou que a expressão “retrato do artista quando jovem” designa um subgênero da pintura e serve de título a numerosos quadros. 

Em todo caso, Dylan Thomas e James Joyce são como duas montanhas diferentes, feitas do mesmo basalto, que se contemplam à distância.