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quarta-feira, 7 de maio de 2025

5176) Quaderna e o Barroco Sertanejo (7.5.2025)






 
Ontem, dia 6 de maio, fiz uma palestra na Academia Brasileira de Letras, abrindo um ciclo de quatro conferências dedicadas à obra de Ariano Suassuna. Foi um convite de Heloísa Teixeira, recentemente falecida, a quem dedico esta minha participação. Agradeço a Antonio Carlos Secchin e Joaquim Falcão, organizadores do evento. E a todos os amigos que se dispuseram a assistir à conversa, ao vivo ou pela Internet. Como algumas pessoas me pediram o texto, vai ele aqui abaixo. Um pouco longo (foi uma palestra de 40 minutos), mas, paciência, é o que foi. 
 
 
O Barroco Sertanejo de Ariano Suassuna
 
“A obra de Ariano Suassuna, como artista e como agitador cultural, se espalha por muitas linguagens: o romance, o teatro, a poesia, as artes plásticas, a música, o ensaio. Ela lembra um vitral de igreja da Idade Média, onde cada segmento tem uma cor diferente e um formato próprio, mas essa aparente ausência-de-parentesco deixa de existir quando percebemos como todos se encaixam num formato geral. 
 
Farei alguns comentários sobre o “Ciclo da Pedra do Reino”, que em princípio inclui três romances: 
 
-- Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue de Vai-e-Volta, 
-- Ao Sol da Onça Caetana 
-- As Infâncias de Quaderna. 
 
Ciclo deixado incompleto pelo autor, embora haja frequentes alusões a ele na obra póstuma Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores. 
 
O “Ciclo da Pedra do Reino” tem como narrador, protagonista e mestre-de-folguedo geral Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, alter-ego do autor, e é dele que quero me servir como guia neste percurso. 
 
Quaderna é talvez menos esperto do que João Grilo, menos simpático do que Chicó, menos humano que o Joaquim Simão da Farsa da Boa Preguiça
 
É um personagem complexo, contraditório, que ora se exibe excessivamente diante do leitor, falando de si próprio o tempo inteiro, ora se disfarça e se esconde por trás da própria eloquência – que é extraordinária. E da própria cara-de-pau, que não tem limites. 
 
Quaderna é um caso exemplar de “narrador não-confiável”, recurso que o romance moderno – o romance dos últimos 100 ou 120 anos – já utilizou de mil formas. E um dos seus recursos mais insistentes, e mais brilhantes, é o de afirmar que no Sertão todas as verdades são reescritas, todos os valores são questionados, toda a tradição precisa de uma releitura. 
 
Ele não é confiável porque sua memória é cavalgada pela sua imaginação, e a sua missão de revelar verdades ocultas sobre o passado do Sertão, da Paraíba e do Brasil vem acompanhada o tempo inteiro pela tentação irresistível de mentir – não necessariamente para enganar alguém, mas mentir por amor à arte. 
 
Ariano Suassuna comenta a criação deste personagem: 
 
Quaderna não existia, a princípio. Quando comecei a escrever, o livro era narrado na terceira pessoa e o personagem principal era Sinésio.  Algo, porém, não estava bem: era a minha personalidade que influenciava o livro. Criei então uma “persona”: começou Quaderna a ser o narrador. Mas, aí, sem interferência da minha vontade, ele começou também a crescer. Tentei impedi-lo, mas ele recusou. E hoje é o personagem principal. 
(“Diário de Pernambuco”, 22 de maio de 1977)
 
Como dizia Oscar Wilde, se quisermos saber quem é de fato alguém, basta dar-lhe uma máscara. Mascarada, julgando-se invisível, a pessoa irá revelar sua verdadeira face. 
 
Quaderna tornou-se um duende e arrebatou as rédeas do romance. A tal ponto que nas décadas seguintes, Ariano Suassuna, criticado por tais ou tais opiniões, tais ou tais expressões sobre algum tema, era forçado a dizer: “Sim, eu escrevi, está no livro, mas quem pensa assim não sou eu – é Quaderna”. 
 
As definições de “narrador não-confiável” estão sendo sempre re-atualizadas. 
 
Quaderna convinha a Ariano porque proporcionava ao Autor o disfarce de uma máscara arlequinal, carnavalesca, meio grotesca, meio ingênua, capaz de dizer horrores sem bater a pestana, capaz de trazer para o território do Romance Moderno muitos elementos do Romance Picaresco dos séculos 17 e 18. 
 
O romance picaresco foi a contra-face do Barroco Europeu, que às vezes tendemos a identificar apenas com sua vertente solar, monárquica, eclesiástica, das artes sacras ou eruditas. Um Barroco que, transposto para o Brasil, produziu sínteses admiráveis como a obra do Aleijadinho e a prosa do Padre António Vieira. 
 
Mas produziu também versões plebéias como a poesia de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, frequentador de casas de tavolagem, avô e pai de toda uma poética fescenina que se escoou em nossos tempos para os folhetos populares e a tradição oral sertaneja. 
 
Os folhetos de cordel que Quaderna, no Romance da Pedra do Reino, classifica, sem muitas formalidades acadêmicas, como os “folhetos de safadeza e putaria”. 
 
O Barroco que herdamos dos povos ibéricos já trazia consigo esta contradição, aparentemente inconciliável, entre os papas e os reis, de um lado, e os mendigos e poetas-de-rua, do outro. 
 
Na sua tese de livre-docência “A Onça Castanha e a Ilha Brasil: uma reflexão sobre a cultura brasileira” (1976) ele volta a recensear estas antinomias – essa fascinação barroca pela aproximação dos opostos – ao descrever a “tendência assimiladora e unificadora de contrários” do povo brasileiro: 
 
...o espírito mágico e fantástico complementado pelo realismo crítico e satírico; metamorfose da florescência, e da decomposição; cotidiano e quimera; a presença do dionisíaco buscando o gume contido e a garra da forma despojada do apolíneo; violência e mau-gosto do popular e refinamento do erudito; o épico, e a introspecção individual, chegando esta às vezes à idolatria do Eu; o lirismo personalista e o social coletivo; as convenções e a festa; o Belo e o Feio; espírito profético e comportamento orgiástico; o vegetal da Mata e o deserto do Sertão; o Trágico e o Cômico; a aldeia e o mundo. 
 
“Barroco Sertanejo”, aliás, é uma expressão que não me lembro de ser usada por Quaderna na Pedra do Reino, mas emprego aqui por um sentido aproximativo com o espírito do personagem. 
 
Afinal, ele próprio afirma ter sido expulso do Seminário da Parahyba devido a sua invenção de um “Catolicismo Sertanejo”, mais identificado com a nossa realidade. 
 
E em seu depoimento à justiça, Quaderna explica: 
 
Modéstia à parte, não existe, no mundo, religião mais completa que a minha! (...) 
 
Veja o senhor: o Judaísmo e o Cristianismo dos santos, mártires e profetas, levam ao Céu, mas são religiões severas e incômodas como o Diabo! O Maometanismo, pelo contrário, é uma religião deleitosa: permite que a gente mate os inimigos e tenha muitas mulheres, que coma e beba o que quiser. Em compensação, é danada para levar ao Inferno!  
 
A Igreja Católico-Sertaneja é a única religião do mundo que é bastante “judaica e cristã” para levar ao Céu e, ao mesmo tempo, bastante “moura” para nos permitir, aqui, logo, os maiores e melhores prazeres que podemos gozar nesse mundo velho de meu Deus! 
(RPR, folheto 52, “O Almoço do Profeta”) 
 
E é preciso lembrar que a expulsão do Seminário da Parahyba se deu quando o jovem Quaderna revelou ao seu superior que, no Catolicismo Sertanejo, a Santíssima Trindade não tinha três, mas cinco pessoas: o Pai, o Filho, o Espírito Santo, Nossa Senhora e o Diabo. 
 
Esse é apenas um exemplo do furor revisionista com que o Sertão de Quaderna desconstrói e reformula tudo que lhe chega da Europa, da África e do resto do mundo. No livro, ele se apresenta, às vezes, por ser charadista emérito, como Quaderna, o Decifrador. Mas poderia muito bem se intitular Quaderna, o Desconstruidor
 
Quaderna é um indivíduo que não vê a contradição como um conflito, e sim como uma cópula. 

Ariano tinha entre seus clássicos espanhóis preferidos o Lazarillo de Tormes, história de um mendigo espertalhão que é um antepassado distante de Cancão de Fogo e de João Grilo; e também o onipresente Dom Quixote da La Mancha
 
Quaderna vive a contradição de ser ao mesmo tempo um dom-quixote e um sancho-pança. Num momento ele é heróico, sonhador, arrebatado por devaneios de grandeza literária e de reconhecimento por parte dos nobres e fidalgos; no momento seguinte, apanhado em alguma trambicagem de menor importância, ele se torna pragmático, manipulador, interesseiro, eloquente em causa própria, com algo de camponês desconfiado, e com a conversa bonita de camelô ou de cigano. 
 
Ele se considera herdeiro do Império do Brasil, porque é bisneto de Dom João, o Execrável, o homem que – na vida real – em 1838 comandou, ao longo de uma noite interminável, a chacina da Pedra do Reino, na região de Belmonte, degolando dezenas de pessoas, inclusive mulheres e crianças. 
 
É um império de esfarrapados, um império de gente delirante escondida nas brenhas e nas furnas. 

Ariano Suassuna reproduz em seu livro o escudo heráldico dos Quadernas, escudo “esquartelado”, que apresenta duas divisões ao meio, uma horizontal e outra vertical. E eu me permito ver nessa figura geométrica a cruz, o zero-cartesiano da contradição social de Quaderna. 
 
O corte horizontal divide o Brasil em duas metades: Brasil de cima e Brasil de baixo, como dizia Patativa do Assaré. O Brasil rico e o Brasil pobre. O Brasil fidalgo e o Brasil plebeu. Uma contradição que poderia ser totalmente inconciliável – se não fosse o fato de que Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna é as duas coisas ao mesmo tempo. 
 
Ele se considera fidalgo porque é bisneto do Imperador da Pedra do Reino, que ele considera um monarca mais legítimo do que “a monarquia falsificada dos Braganças”.  E, mais do que herdeiro de um império, ele se sente um aristocrata das letras, um intelectual desperdiçado naquela região inóspita de uma Paraíba que não compreende o seu talento. 
 
E sendo aristocrata das letras ele não poderia deixar de fundar, com seus amigos, a Academia de Letras dos Emparedados do Sertão da Paraíba. 



(Irandhir Santos, "Quaderna", na minissérie A Pedra do Reino)


E ao mesmo tempo que fidalgo, Quaderna sabe que é pobre, porque vive cheio de dívidas, mora numa casa que ganhou de herança de uma tia, e sobrevive de um emprego mixuruca na prefeitura de Taperoá. Além de administrar uma casa-de-tolerância local, a “Távola Redonda”. 
 
E assim, no seu delírio, Quaderna salta de fidalgo para plebeu e vice-versa no espaço de uma frase e de uma respiração. 
 
E existe a outra divisão, no escudo heráldico dos Quaderna. O traço vertical que o divide politicamente em esquerda e direita. 
 
De modo, que com essa “cruz” que corta e recorta seu escudo, Quaderna vê-se magicamente possuidor de uma fisionomia quaternária. Ao sabor dos acontecimentos, e de para onde o vento sopra, ele pode se comportar como um fidalgo de direita... um fidalgo de esquerda... um pobre de esquerda... e um pobre de direita. 
 
Essa divisão é colocada de modo explícito no livro através de dois personagens, os mentores de Quaderna: um típico nordestino de direita, o professor Samuel, e um típico nordestino de esquerda, o professor Clemente. 
 
São os dois mestres de Quaderna, eternamente em conflito, eternamente em choque, esgrimindo argumentos que vão dos mais fundamentados aos mais absurdos. 
 
Samuel Wand’Ernes, 60 anos, louro arruivado, olhos azuis, católico, poeta, descendente de família fidalga de Pernambuco. Tem verdadeiro horror ao povo brasileiro, a quem considera sujo, feio, primitivo e mal-educado. 
 
Clemente Hará de Ravasco Anvérsio, 60 anos, negro com sangue de índio tapuia, filósofo, historiador, ateu, anticlerical, admirador de Zumbi e de Antonio Conselheiro. 
 
Os dois são amigos, e os dois são orientadores de Quaderna, que desta forma se vê coagido a ser alternadamente simpatizante da Direita e simpatizante da Esquerda, não por evolução ideológica – mas pelas conveniências do momento. 
 
Direita e Esquerda, assim, juntam-se a outras tradições européias que mal põem o pé no sertão de Taperoá veem-se sequestradas por esse trio: arrebatadas, canibalizadas, viradas pelo avesso, decompostas e recompostas pelas conveniências do momento. Um trio de intelectuais de província, adeptos do autodidatismo, da bricolagem, do ecletismo e da re-interpretação.
 
Neste trecho, é Quaderna quem comenta com o leitor, em voz baixa, e à distância, o comportamento dos seus dois mestres: 
 
Tomavam, furiosamente, partido em tudo. A Sociologia era de Esquerda, e a Literatura fortemente suspeita de direitismo. O “riso satírico e a realidade” eram de Esquerda, a “seriedade monolítica e o sonho”, de Direita. A Prosa era de Esquerda e a Poesia de Direita; mas, mesmo ainda dentro do campo da Poesia, tomavam partido, pois a lírica era considerada “pessoal e subjetiva, e portanto direitista e reacionária”; enquanto que a satírica, “social e moralizante, didática” era considerada progressista e de Esquerda. 
 
A Natureza, com “a luta pela vida, dura e cruel, com a selvageria, a desordem, a sobrevivência do mais forte e as marcas que ainda guardava do Caos, era de direita; a Cidade, “organizada, baseada no progresso, no trabalho e na máquina”, era de Esquerda. 
 
Do ponto de vista social, o sexo masculino, mais forte, dominador e explorador do outro, era de Direita, e o sexo feminino, explorado, fraco, ressentido e revoltado, de Esquerda. Mas, do ponto de vista do gosto, o sexo masculino, sóbrio e despojado, era da Esquerda, enquanto o feminino, com o amor pelos tecidos e pelas jóias, era de Direita. 
 
E assim por diante, em tudo e por tudo. 
(RPR, Folheto 39, “O Cordão Azul e o Cordão Encarnado”)
 
Essa re-escritura de idéias alheias, de idéias “importadas”, ganha um sabor literário especial quando Quaderna, esse narrador não-confiável, começa a teorizar sobre o seu modo de pensar, de agir e de escrever. 




(Ariano Suassuna, década de 1970)

Ariano dizia que morou quinze anos no interior da Paraíba e depois 70 anos no Recife, mas só escrevia sobre o Sertão. Somente o interior lhe servia de inspiração – o interior, e a Taperoá mítica que ele reconstruiu em memória e em literatura. 
 
Quaderna, em seus monólogos com o leitor, chama seu jeito de escrever de “Estilo Régio”. Um estilo régio, sim, estilo aristocrático, erudito, digno dos reis. Mas, ao mesmo tempo, um trocadilho com “estilo regional”, uma expressão que ele considerava incômoda, e procurava afastar de si. E a afastava assim – com um trocadilho. 
 
Numa afirmação muitas vezes repetida, ao vivo e por escrito, Suassuna dizia: 
 
Não me considero um autor regionalista, porque ao meu ver o Regionalismo é uma espécie de Naturalismo, e isso não me agrada. O que eu quero colocar nos meus livros é uma realidade transfigurada. 
 
Como é o estilo régio? 
 
No Romance da Pedra do Reino, Quaderna, preso na cadeia de Taperoá, suspeito de vários crimes, está sendo interrogado pelo Juiz Corregedor que veio da capital do Estado. 
 
-- Senhor Quaderna, tenho observado que o senhor, de vez em quando, dá para falar difícil, o que perturba um pouco a clareza do depoimento! 
 
-- É uma questão de estilo, Sr. Corregedor, uma questão epopéica! Quando eu tirar as certidões, quero encontrar o estilo da minha Obra pelo menos já encaminhado! Além disso, Samuel, segundo Clemente, adota “o estilo rapão-ranhoso de cristais e joiarias hermético-esmeráldicas da Direita”. Já Clemente, segundo Samuel, adota “o estilo raso-circundante, raposo e afoscado da Esquerda”. 
 
“Eu fundi os dois, criando o estilo genial, ou régio, o estilo raposo-esmeráldico e real-hermético dos Monarquistas de Esquerda”. 
 
Quaderna é um mestre da conversa ao pé do ouvido, da conciliação, da aproximação partidária, da costura de panos incompatíveis, da negociação permanente baseada na capacidade de reescrever não apenas a História com H maiúsculo, mas a Literatura, com todas as letras. 
 
Seu estilo régio herdou em grande parte o entusiasmo de seu mestre Samuel, o direitista, cujo nacionalismo vai até o ponto de considerar a literatura brasileira a única literatura real, e todas as outras como meros afluentes ou desvios dela. 
 
Samuel Wand’Ernes é um personagem que mereceria uma estátua no saguão da sede do Sindicato dos Tradutores, ou pelo menos um busto, ou se não um busto uma placa. Seu nacionalismo o faz considerar que quando uma obra estrangeira é traduzida no Brasil, a versão brasileira passa a ser a obra original, e a outra uma simples consequência antecipada. 
 
Numa discussão com o Prof. Clemente, Samuel assim justifica sua posição: 
 
-- Quero lhe explicar que, quando um poeta brasileiro ou português traduz uma obra estrangeira, para mim o original fica sendo o trabalho dele. Sou nacionalista, e, podendo, pilho os estrangeiros o mais que posso!  Para mim, Manoel Odorico Mendes é o autor dos originais da ‘Ilíada’ e da ‘Eneida Brasileira’: Homero e Virgílio são, apenas, os tradutores grego e latino dessas obras dele!  Castilho é o autor do ‘Fausto’ e do ‘Dom Quixote’, assim como José Pedro Xavier Pinheiro é o verdadeiro autor da ‘Divina Comédia’ que Dante traduziu para o italiano!” 
(RPR, Folheto 77, “Cantar do Fidalgo Pobre”)
 
É a Europa reescrita pelo Sertão, esse Sertão faminto de novidades, faminto das carnes tenras dos seus invasores. 
 
O estilo régio de Quaderna, ao longo de todo o romance, se aplica em reescrever não apenas poemas de autores estrangeiros, mas também de autores brasileiros que Quaderna considera insuficientemente sertanejos, insuficientemente régios. 
 
Praticamente todos os poemas citados no romance são versões alteradas dos poemas originais. Quaderna interfere em poemas de Castro Alves, Olavo Bilac, Raimundo Corrêa, Leandro Gomes de Barros, Álvares de Azevedo, Jerônimo do Junqueiro. 
 
Ariano era um nacionalista empedernido, ufanista, retoricamente patriótico?  Não acho.  Ele gostava era de equilibrar os pratos da balança, que sempre via pender para o lado estadunidense, para o lado europeu, para o lado do que ele chamava “os povos frios do hemisfério norte”. 
 
E mesmo quando pensava na Europa, essa Europa distante e fidalga de quem somos até hoje uma espécie de filhos bastardos, ele se identificava com a cultura latina: com a poesia portuguesa, com o teatro espanhol, com o romance francês, com o cinema italiano. 
 
Daí que ele parecesse incorporar a si qualquer aventura de “estilo régio” trazendo para nossa sardinha a brasa do reconhecimento literário. 
 
Um dos livros preferidos de Ariano, livro de adolescência, foi o clássico As Minas do Rei Salomão , romance de aventuras publicado em 1885 por H. Rider Haggard, autor de Ela, Allan Quatermain e vários outros. É um dos romances mais célebres da literatura aventureira do colonialismo inglês na África. 
 
Ariano reportava-se muitas vezes a esse livro, que foi traduzido em Portugal por Eça de Queiroz. E traduzido de tal maneira que até hoje aparece nas coleções de Obras Completas de Eça! 
 
O escritor português tomou várias liberdades estilísticas e adaptou nomes de personagens; impôs seu estilo à narrativa original de tal modo que numa de suas edições, pela Ed. Livros do Brasil, de Lisboa, lê-se no texto da orelha este comentário que não posso deixar de ver como um elogio a um “estilo régio” lusitano: 
 
Mais do que uma tradução, Eça efetuou uma verdadeira transposição em que a sua liberdade resultou numa criação original que encanta e seduz.  Deste modo, pela pena de um grande escritor, Rider Haggard alcançou uma notoriedade que de outro modo só dificilmente alcançaria ou que não chegaria mesmo a atingir.  O génio de Eça de Queiroz interveio decisivamente nesta obra em que a parte do tradutor é importantíssima, pois que lhe confere um toque de magia e graça.  A aventura ganha, sob as mãos de Eça de Queiroz, novas e insuspeitadas dimensões, tornando-se, afinal, um verdadeiro clássico da nossa língua. 
 
Como se vê, o mundo é assim. Ariano não inventa.  Ariano transfigura. 
 
Seu modo de criar prosa de ficção é apossar-se do tema, da idéia, da motivação vital que o leva à escrita. Sem essa fagulha inicial que lhe desperta o impulso de escrever, nada acontece. 
 
Somente esse tipo de impulso, quase um gesto desesperado de ajustar contas com a vida, o teria levado à empresa da criação do “Ciclo da Pedra do Reino”. 
 
Para avaliar melhor o processo de criação desse Ciclo, basta comparar os períodos de escrita (que Suassuna registra meticulosamente no final de cada obra) dos três livros. 
 
Romance da Pedra do Reino: 
19 de julho de 1958 a 9 de outubro de 1970 (cerca de doze anos e três meses). 
 
Ao Sol da Onça Caetana: 15 de novembro de 1975 a 25 de abril de 1976 (pouco mais de cinco meses). 
 
As Infâncias de Quaderna: 2 de maio de 1976 a 19 de junho de 1977 (cerca de um ano e um mês) . 
 
O que determina as semelhanças e diferenças estilísticas entre estas obras?  Eu diria que o primeiro romance foi escrito pensando exatamente em sua publicação em forma de livro. O que aconteceu, com enorme sucesso de crítica e de público. 
 
No segundo e terceiro volumes, o modo de produção literário se inverteu. Estes dois livros foram publicados em folhetins semanais no “Diário de Pernambuco”. 
 
O modo folhetinesco de escritura é cruel, pela imposição da periodicidade. Com ou sem inspiração, é preciso mandar para a gráfica “x” laudas por semana, porque no domingo o jornal vai estar na banca. 
 
Era o método de produção de Alexandre Dumas, de Charles Dickens, de Dostoiévsky, e Ariano, leitor de folhetins de aventuras nos jornais de sua infância, talvez tenha se dedicado a isto com um misto de exaltação e terror. 
 
Terror porque seu método pessoal de escrita era lento, meticuloso. Escrever à mão. Rasurar, consertar, substituir. Passar a limpo na máquina de escrever. Revisar mais uma vez as laudas datilografadas. E fazer tudo isto correndo contra o relógio e o calendário. 


Os dois últimos livros, somados, constituem uma massa de texto comparável à do primeiro. O “modo folhetinesco” acelerou a produção do autor, que em apenas um ano e sete meses produziu o equivalente ao que produzira em doze anos sem a pressão da periodicidade. 
 
Ariano fez isto com exaltação, diante da consciência de ter descoberto uma história, e ter descoberto uma voz com que contá-la – e nem todo escritor tem estas duas sortes ao mesmo tempo. 
 
É curioso notar que todos estes elementos já estavam presentes no primeiro livro da série, escrito para ser livro, mas já concebido com uma estrutura de folhetim semanal, uma silhueta de folhetim. 
 
Porque isso provavelmente não correspondia, nesta primeira fase, a uma imposição editorial externa – e sim a um desejo interior. O desejo de um garoto que leu folhetins quando era pequeno, e que agora, adulto, cavaleiro em si, detentor de algum poder, resolve reviver aquela experiência, só que agora na outra margem do rio. 
 
E a história vai se criando folha por folha, a cada semana, produzindo esse tipo raro de literatura que depende totalmente do papel, da tinta, da rotativa – mas não deixa de ser uma literatura oral. 
 
Ariano Suassuna pratica uma literatura oral no sentido de produzir um texto de onde nos vem, incessantemente, a impressão de uma voz que nos está contando aquilo tudo. Não a voz impessoal de um narrador onisciente e invisível, mas a voz às vezes rouca, às vezes apressada, às vezes indolente, de um contador de histórias num café do Cairo, de um griot africano, de um vendedor de folhetos de cordel na Feira de São Cristóvão ou na de Campina Grande. 
 
Patrick Mahony, em Freud como escritor, propõe uma interpretação do estilo barroco na literatura. Uma interpretação que descreve bem um dos traços principais do Ciclo da Pedra do Reino: 
 
“O estilo barroco se adapta ao movimento de um espírito que descobre a verdade enquanto avança, pensa enquanto escreve. (...) Pensamento pensante (“pensée pensante”), em oposição ao pensamento pensado (“pensée pensée”).
(Patrick Mahony, “Freud como Escritor”)
 
O que é este “pensamento pensante”, que pensa enquanto escreve? 
 
É o repente. É a improvisação dos repentistas, dos cantadores de viola sentados em duas cadeiras no pé da parede, dos emboladores de coco balançando seus ganzás no Recife, na Praça do Diário, em frente ao jornal onde Ariano publicava seus folhetins. 
 
É o improviso de cordelistas como João Martins de Athayde ou José Soares, “o Poeta Repórter”, escrevendo suas sextilhas com lápis e papel ao pé do rádio que transmitia as Breaking News do momento: morte de Lampião, suicídio de Getúlio, vitória da Seleção Brasileira. E na manhã seguinte tinha folheto impresso sendo vendido na rua. 
 
A mais difícil das sínteses a que Ariano se propõe é a de ser escritor de literatura oral, com a sua índole barroca de aproximação dos contrários. 
 
Ariano consegue preservar, num texto em prosa escrito, reescrito e revisado, esta sensação de vertigem que só a palavra falada nos proporciona, só a palavra gritada “à queima-pele”, como no teatro. A palavra viva, com a qual todos nós, sem exceção, somos repentistas e improvisamos o dia todo, a vida inteira. 
 
São raros os autores que, como Ariano Suassuna, são capazes de pegar esse passarinho vivo e prendê-lo vivo na página. 
 
E ele o faz com a simplicidade de quem se habituou a aproximar polos opostos, e que um dia se auto-definiu com esta descrição, com que encerro a minha fala: 
 
Eu tenho dentro de mim um cangaceiro manso, um palhaço frustrado, um frade sem burel, um mentiroso, um professor, um cantador sem repente e um profeta.” 
 
 

 
(Ariano e Zélia Suassuna -- foto Gustavo Moura)
 
 
 
 
 




sábado, 6 de maio de 2023

4939) Nick Cave e a coroação do Rei Charles (6.5.2023)




No próximo sábado (estou escrevendo na 4ª. feira, dia 3) o Rei Charles da Inglaterra vai ser coroado, e o Reino Unido fervilha de piadas, memes, debates, fofocas.  Para isso servem as monarquias, afinal – para tirar dinheiro dos turistas, e para aquecer as fantasias-de-poder das multidões. 
 
A monarquia é puro espetáculo. O Império brasileiro, por exemplo, teve um imperador playboy, pegador e voluntarioso. Foi substituído pelo filho – intelectual, conciliador, severo, mas que mesmo assim não abominava o espetáculo. O Baile da Ilha Fiscal não foi apenas o símbolo do fim de uma era, foi o adeus à pompa e a frivolidade do reino para dar lugar à rudeza e ao suor da caserna. 
 
E os dois não estão assim tão distantes um do outro, porque as monarquias são construídas no fio das espadas e no fundo das alcovas. Já dizia o impagável Pedro Dinis Quaderna, de Ariano Suassuna, no Romance da Pedra do Reino (1971):



“Pode dizer, Excelência!  Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta!  Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto.  Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa.  Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Álvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre!  Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha!” (Folheto 53) 
 
Satirizar a espetacularização do poder e a glamurização da banalidade é um dos esportes favoritos de escritores, intelectuais, artistas em geral. E quando o roqueiro Nick Cave, um dos expoentes do dark rock de língua inglesa, foi anunciado dias atrás como um dos convidados para a coroação de Charles, houve no meio roqueiro um certo movimento sísmico de incredulidade e deboche. 
 
Nick Cave distribui periodicamente uma newsletter, The Red Hand Files, onde troca idéias com seus admiradores, responde perguntas, discute questões propostas. E no número 235, já agora nos primeiros dias de maio, ele reproduziu as mensagens de espanto de alguns fãs: 
 
-- Que diabos, você vai pra coroação do Rei?  (Jon)
-- Fiquei sabendo que você vai para a coroação, fazendo parte da delegação da Austrália. Você é monarquista? Por que está indo? (Adrian)
-- A co-ro-a-ção?  Fala sério. (Roger)
-- Nick Cave vai à coroação? O que será que o jovem Nick Cave ia pensar disto?! (Matt)
 
Com a sisudez e a franqueza de sempre, o roqueiro respondeu (tradução minha):
 
Caros John, Adrian, Roger e Matt:
Vou dar uma resposta breve, porque ainda estou escolhendo uma roupa para usar na Coroação.
 
Não sou monarquista, nem sou roialista [Nota do tradutor: neologismo português recente], como também, por falar nisto, não sou o mais ardente dos republicanos. O que também não sou é espetacularmente desinteressado pelo mundo e pela maneira como ele funciona; não sou tão ideologicamente sequestrado nem tão ranzinza a ponto de recusar um convite para (talvez) o evento histórico mais importante no Reino Unido em nossa geração. Não apenas o mais importante, mas o mais estranho, o mais bizarro.
 
Encontrei a falecida Rainha uma vez, no Palácio de Buckingham, num evento dedicado aos “Australianos Mais Promissores Morando no Reino Unido” (ou coisa parecida). Foi uma ocasião meio canhestra, mas a Rainha em pessoa, vestida num conjunto cor de salmão, parecia quase extraterrestre, e era a mulher mais carismática que conheci. Talvez fosse a iluminação, mas ela de fato emitia uma espécie de brilho. Quando contei a minha mãe – a qual tinha a mesma idade da Rainha e, como ela, morreu com mais de 90 anos – a respeito dessa ocasião, seus velhos olhos se encheram de lágrimas. 
 
Quando acompanhei o funeral da Rainha pela TV no ano passado percebi, para meu próprio pasmo, que também eu estava chorando quando retiraram do ataúde a coroa, o orbe e o cetro, e o abaixaram para a abertura sob o piso da catedral de São Jorge. Estou tentando dizer a vocês que, para além do interminável mas necessário debate sobre a abolição da monarquia, tenho um inexplicável vínculo emotivo com a família real – sua estranheza, e a natureza profundamente excêntrica de todo esse fenômeno, o qual reflete com perfeição a bizarrice inigualável da próprio Grã-Bretanha. Eu simplesmente sinto uma atração por esse tipo de coisa – tudo que é bizarro, estranho, extraordinariamente espetacular, tudo que nos deixa pasmos.  
 
Quanto ao que o jovem Nick Cave iria pensar... bem, o jovem Nick Cave era, com todo o respeito ao jovem Nick Cave, jovem, e como muitos outros jovens, era ligeiramente insano, e eu procuro ter uma certa moderação ao usá-lo como parâmetro para o que eu devo ou não devo fazer. Mas era um cara legal, eu tenho que admitir. Era insano, mas era um cara legal.
Com tudo isto em mente, estou me preparando para ir à Coroação. Acho que vou de terno.
Com amor, Nick


 
Sou um admirador de Nick Cave, um dos grandes poetas do rock em sua geração. Ele é uma espécie de Edgar Allan Poe com auto-controle. Tem a fagulha demoníaca, a vulnerabilidade angelical, o cinismo neo-urbano, o romantismo temperado pelo senso da fatalidade, a influência má dos signos do Zodíaco. E é australiano, ou seja, vem de uma espécie de Brasil-do-império-britânico, um país posto de pé com o muque de degredados, bandidos, fanáticos, aventureiros, religiosos de maus costumes, fidalgos de má reputação.
 
Pior que o Brasil, aliás, porque o Brasil pelo menos tem amazônias inteiras para vender. Teve madeira, ouro, açúcar, diamantes; hoje tem petróleo e floresta. Já a Austrália (posso estar sendo injusto, claro) é um deserto de sal, que o ser humano tenta comer pelas beiradas e ainda não conseguiu.


 
Bruce Chatwin, em The Songlines ("O Rastro dos Cantos", Companhia das Letras, 1987), mostra a Austrália como uma mistura de sítio arqueológico e solo sagrado ao ar livre, invadido e depredado aos poucos. Werner Herzog, amigo de Chatwin, glosou o mesmo mote em filmes como Nomad (2019) e Onde Sonham as Formigas Verdes (1984).
 
Neste último, ele mostra o confronto às vezes violento entre os aborígines australianos, defensores de seus sítios religiosos, e as construtoras e mineradoras européias, vindas para passar o trator, a dinamite e a escavadeira naquilo tudo. Em algumas cenas de tribunal, discutem-se os respectivos direitos, e os aborígines precisam vestir ternos para defender seu território diante de um juiz britânico.
 
“Acho que vou de terno” (Nick Cave)


(Roy Marika e Wandjuk Marika, em Onde Sonham as Formigas Verdes)

 
Dizem que quando D. Pedro II estava exilado em Paris, no fim da vida, fez uma visita a Victor Hugo, a quem admirava muito. Os dois conversaram de maneira sisuda e cortês sobre temas literários. À saída, Hugo o tratou por “Majestade”, e D. Pedro respondeu: “Só há uma majestade aqui, e é Victor Hugo”.
 
Wilson Martins comenta que esta resposta foi dada com mais malícia do que parece à primeira vista, mas eu, como tenho cabeça de romancista, posso imaginar que foi sincera, assim como posso imaginar o Rei Charles III apertando a mão de Nick Cave e tratando-o por “Majestade”. Depois de toda a esculhambação a que o rock britânico já submeteu a monarquia, seria uma vingançazinha divertida.


 
(Príncipe Charles e Princesa Diana visitando Uluru (“Ayers Rock”), sítio sagrado dos aborígines australianos, 1983)






quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

4913) O nome de Quaderna (16.2.2023)


Escolher o nome de um personagem principal é muito trabalhoso. É como escolher o nome de um filho. No caso de um filho, os pais conversam entre si, trocam idéias, consultam a família e os amigos. O nome do personagem, em geral, é uma escolha solitária. 

 

E uma escolha mais definitiva. Já vi muitos filhos insatisfeitos que pedem para trocar de nome, depois da maioridade. E não me vem à memória nenhum caso de personagem cujo nome o autor tenha resolvido trocar depois da estréia. (Há o famoso caso do personagem de Jorge Luís Borges cujo nome foi trocado na versão inglesa, mas aí são arteirices do tradutor.) 

 

Reza a lenda que Sir Arthur Conan Doyle entreteve durante algum tempo a idéia de batizar seu personagem mais famoso como “Sherringford Holmes”. Felizmente não o fez. 




Quando Ariano Suassuna escreveu o Romance da Pedra do Reino (1971), tinha como plano inicial contar a história de Sinésio Garcia-Barreto, “O Alumioso”. Já pelo epíteto, Sinésio é sugerido como um personagem iluminado, especial, uma espécie de herói de romance de cavalaria (como Percival, ou como Galahad), “sem medo e sem mácula”. 

 

O nome “Sinésio” indica provavelmente a sua origem de predestinado (a sua “sina”), de alguém cuja missão foi profetizada e deve ser cumprida. (Além de ser um nome marcado na poesia popular pelo poeta Sinésio Pereira, de Olinda.) E esse nome faz um contraponto com o de seu irmão Arésio Garcia-Barretto – o brutal e belicoso Arésio, cujo nome Ariano Suassuna admite ter sido inspirado por Ares, o deus da guerra. 


(Sinésio Pereira)


E Quaderna?

 

O Romance da Pedra do Reino foi escrito em ondas sucessivas, entre 1958 e 1970. Ariano explica que o livro não é uma autobiografia. 

 

É mais uma caricatura do meu mundo interior, isto é, todas as vivências aí estão. Tenho alguma coisa de padre desonesto, de poeta preguiçoso e cangaceiro frustrado.

(cit. em Narrativas e Narradores em A Pedra do Reino, Maria-Odilia Leal-McBride, ed. Peter Lang, 1989) 

 

Ele explica também que foi ficando meio difícil ter Sinésio como foco principal da narrativa e até como narrador. Foi quando transferiu esta segunda função a Quaderna que Ariano “engatou” a escrita e não parou mais. 

 

Claro. O herói sem defeitos é um símbolo imóvel. Ou pelo menos um símbolo meio manietado.  “Não pode isso, não pode aquilo...”  Como ele é puro e idealista, existe uma lista gigantesca de coisas que ele é proibido de fazer. 

 

Já o personagem picaresco desfruta de uma liberdade que o herói não tem. Com ele, tudo é possível, tudo pode acontecer, porque ele é humano, mercurial, escorregadio, pode ser leal num momento e desleal no outro, pode ser sincero e depois hipócrita, pode ser honesto e ao mesmo tempo desonesto. É essa ambiguidade, ou multiplicidade, que faz de Quaderna um herói tão tipicamente brasileiro, tão característico de um povo de moral negociável, que dá um jeitinho em tudo, desde que consiga o que quer. 



O período da escrita do romance coincide, curiosamente, com o período de preparação e escrita do livro de poemas Quaderna de João Cabral de Melo Neto, que na edição de sua Obra Completa pela Aguilar recebe a referência cronológica de “1956–1959”. 

 

No meu ABC de Ariano Suassuna (José Olympio, 2007), comentei as possíveis inspirações para o nome do livro de Cabral. Entre elas esta definição, do dicionário Lello

 

QUADERNA, s. f. (lat. quaternus). A face do dado que apresenta quatro pontos.  Heráld. Objecto composto de quatro peças em quadrado, de ordinário em forma de crescentes. Pl. Os quatro pontos de uma face dos dados.

QUADERNO, s. m. (Forma desusada de caderno).

(Lello Universal)

 

E esta citação do Romance da Pedra do Reino, quando o Dr. Pedro Gouveia confere a Samuel, Clemente e Quaderna seus títulos de nobreza, e lhes explica os correspondentes brasões heráldicos:

 

O escudo dos Quadernas é esquartelado.  No primeiro quartel, há, em campo de ouro, um veado negro vilenado, inscrito numa quaderna de quatro crescentes vermelhos. No segundo, em campo vermelho, cinco flores-de-lis de ouro, postas em santor, ou aspa, e assim os contrários.  O timbre, é um cavalo castanho, com asas, com as patas dianteiras levantadas e as traseiras pousadas, entre chamas de fogo!
(Romance d’A Pedra do Reino, Folheto 80)

 

Uma “quaderna”, em termos heráldicos, são quatro imagens de um “crescente”, simetricamente dispostas, como vemos na imagem abaixo, onde quatro crescentes rodeiam tanto a figura da Onça quanto a do Veado: 


Estas são fontes possíveis de inspiração para a escolha de um sobrenome tão importante, além de outras que desconhecemos. 

 

O lançamento recente do Caderno de Textos e Imagens (Nova Fronteira, 2021), organizado por Carlos Newton Júnior, trouxe um novo dado para esta pesquisa. O volume inclui a “Conclusão” escrita por Ariano para ajudar na adaptação do romance para a minissérie da Rede Globo, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. 

 

Nessa conclusão, a ação é retomada após o tumultuado final da narrativa de Quaderna, no Romance da Pedra do Reino.  É o dia em que a cidade de Taperoá foi invadida pela “estranha cavalgada” que tinha à frente, num cavalo branco, o jovem Sinésio, tido como morto. Com o tiroteio que se estabelece na cidade, Quaderna e seus amigos se refugiam no “tabuleiro” onde fica o cemitério, e dali iniciam sua fuga. 

 

A certa altura, eles avistam à distância um acampamento cheio de cavaleiros, e com tendas que parecem as de um Circo. Quaderna se oferece para ir até lá e averiguar quem são essas pessoas.  Vai com a intenção de permanecer incógnito, para que ninguém saiba que ele é um dos fugitivos que estão sendo caçados pela polícia de Taperoá. 

 

Ele fica sabendo que se trata do grupo teatral “Olinélson”, dirigido por D. Olindina e “Seu” Nélson, atores errantes, artistas de estrada. Quaderna lhes propõe, então, que reúnam os dois grupos. 

 

Nélson olhou para mim, como se me avaliasse de acordo com os vários aspectos da questão. Depois falou:

– É uma proposta tentadora, mas que devo pesar juntamente com meus companheiros de Direção, a quem vou apresentá-lo. Mas para isso preciso saber seu nome. Como se chama?

– Antonio Quaresma, o Decifrador – respondi cautelosamente, pois ainda não me sentia inteiramente seguro.

(Caderno de Textos e Imagens, p. 233-234) 

 

Quando li esse trecho pela primeira vez, em 2006, duas associações de idéias vieram se impor, no mesmo instante. 


A primeira, o fato de que para Ariano Suassuna um dos personagens centrais da Literatura Brasileira, é o Policarpo Quaresma, do romance de Lima Barreto. Nacionalista radical e um pouco ingênuo, mas sincero e obstinado, Quaresma é chamado de doido e de quixotesco pelos vizinhos e pelos colegas de trabalho. São inúmeras as menções de simpatia de Ariano, em suas entrevistas e em aulas-espetáculo, a esse personagem que, contra todos os obstáculos, luta pelo que acredita ser a nação brasileira autêntica. 

 

Por outro lado, Quaresma o Decifrador, é um personagem de Fernando Pessoa em alguns contos policiais pouco conhecidos, mas várias vezes republicados. 

 

Há uma menção a ele nas Obras em Prosa da Nova Aguilar, mas uma edição brasileira trouxe este personagem mais para perto do nosso leitor: A Alma do Assassino (segundo o Dr. Quaresma), São Paulo, Editora Horizonte, 1988, com introdução de Luiz Roberto Benati. 




Comentei estes contos em minha publicação mais recente neste blog:

https://mundofantasmo.blogspot.com/2023/02/4912-o-detetive-fernando-pessoa-1222023.html

 

O prefácio de Fernando Pessoa neste livro diz: “Fui verdadeiramente amigo de Quaresma”. Os detetives lidos da época de Pessoa tinham amigos que narravam suas aventuras: o Dupin de Edgar Allan Poe e o Lupin de Maurice Leblanc têm narradores anônimos, Sherlock Holmes tem Watson, Martin Hewitt (um dos detetives favoritos de Pessoa) tem o jornalista Brett. 

 

Voltando a Ariano Suassuna e Quaderna: o nome falso usado por este me parece prova suficiente de que Ariano, grande admirador de Fernando Pessoa, conhecia, mesmo superficialmente, essas aventuras detetivescas do Dr. Quaresma, e gostou do nome. Se influenciou na criação de “Quaderna” ou se só lhe surgiu depois, não importa. Suassuna, como Pessoa, era basicamente um poeta místico, e nenhum dos dois era imune à Sedução do Enigma.

 

Deve existir, portanto, um certo sopro de Fernando Pessoa na criação de Quaderna e de seu “romance heróico-brasileiro, ibero-aventuresco, criminológico-dialético e tapuio-enigmático de galhofa e safadeza, de amor legendário e de cavalarias épico-sertanejas!”. 





domingo, 12 de fevereiro de 2023

4912) O detetive Fernando Pessoa (12.2.2023)

 

("Fernando Pessoa", por Almada Negreiros)


Fernando Pessoa era um grafomaníaco, pessoa com a mania de escrever compulsivamente. Alguns o fazem de forma caótica, e não produzem senão coisas sem criatividade, sem propósito e sem método. Não era o caso do poeta português. Dele, pode-se dizer que qualquer rabisco rende alguma idéia. 
 
Conta-se que à sua morte, em 1935, descobriu-se em sua residência o famoso “baú” que teria mais de 25 mil páginas com todos os tipos de texto: poemas, peças teatrais, correspondência, anotações, ficção... 
 
Nesta última categoria pode-se incluir talvez o famoso e notável Livro do Desassossego, compilado postumamente e atribuído ao heterônimo “Bernardo Soares”. É uma espécie de diário ficcional cheio de reflexões curiosas e melancólicas sobre a vida, a literatura e tudo o mais. 
 
Fernando Pessoa é um caso à parte na literatura, pelo talento exuberante, pelo rigor do pensamento, pelas idiossincrasias psicológicas que dão a tudo que escreve uma posição única na observação e análise dos fatos. Muitos o consideram, com razão, um dos maiores poetas da nossa língua, e um dos maiores poetas do século 20 em qualquer idioma. Mas me atrevo a dizer que não se tem a medida exata de seu talento se não se der atenção igual à sua obra em prosa, que é mais de reflexão e análise do que de ficção.
 
Do meio dessa jângal de manuscritos, os pesquisadores separaram uma boa quantidade de contos (completos ou em fragmento), dos mais diversos tipos. Alguns são contos policiais deixados incompletos. 
 
Nos seus depoimentos Pessoa reafirma o seu gosto pela literatura policial, citando nominalmente autores como Conan Doyle, Arthur Morrison (o criador do detetive Martin Hewitt) e Edgar Wallace.
 
Há diferentes edições dos textos considerados policiais de Pessoa, mas vou me limitar a duas, que tenho há anos.



As Obras em Prosa (Ed. Nova Aguilar, Petrópolis, 1986, 734 págs., “Biblioteca Luso-Brasileira”), se dividem nas seguintes partes: “O Eu Profundo”, “Os Outros Eus”, “Idéias Estéticas”, “Idéias Filosóficas”, “Idéias Políticas”, “Teoria e Prática do Comércio” e “Ficção”.
 
Esta última, a que ora nos interessa, está assim composta:
 
CONTOS DE RACIOCÍNIO:
“O banqueiro anarquista”, “A janela estreita” (fragmento), “O roubo da Quinta das Vinhas”, “A carta mágica”, “A arte de raciocinar”, “Um paranóico com juízo”.
 
CONTO FILOSÓFICO DE PERO BOTELHO:
“O vencedor do tempo”
 
Note-se que termos como “conto policial” ou “detetve” não aparecem. Nesta mesma compilação, vê-se uma lista de títulos (contos completos e fragmentos) sob esta última rubrica, assim:
 
CONTOS DE PERO BOTELHO:
O Vencedor do Tempo (Prof. Serzedas)
A Morte do Dr. Cerdeira (Dr. Cerdeira)
A Experiência do Dr. Lacroix (Dr. Lacroix)
O Prior de Buarcos (Pe. João (José) Maria)
Quaresma, Decifrador (Dr. Abílio Quaresma), (Vários)
O Eremita da Serra Negra (O Eremita)
?No Hotel Cecil, em dia de chuva (O pessimista)
?Uma Tarde Cristã (O jesuíta Eusébio Vareiro)
?O Profeta da Rua da Glória (O judeu Salomão, Barjara)
 
Copio do jeito que está no livro. Como a obra de Pessoa (me parece) está toda em domínio público, talvez uma busca paciente por esses títulos e nomes resulte em alguma coisa. Boa sorte!
 
Para mim, o mais importante de tudo é a menção ao “Dr. Abílio Quaresma”, ou “Quaresma, Decifrador”, nome que influenciou Ariano Suassuna na criação de seu personagem “Quaderna, o Decifrador”, o protagonista do Romance da Pedra do Reino


O Dr. Quaresma aparece com maior destaque no outro título que possuo: A Alma do Assassino – segundo o Dr. Quaresma, Horizonte Editora, São Paulo, 1988(?).
 
O livro tem uma ótima introdução, “A Novela Policial”, de Luiz Roberto Benati. E inclui quatro contos, visivelmente fragmentários, em que Quaresma aparece. São estes que irei comentar a seguir. 
 
A Alma do Assassino reúne quatro fragmentos de contos. É interessante notar que Fernando Pessoa se interessava mais pelo processo de raciocínio do que pela narração das história em si. Suas anotações para contos constam principalmente das explicações de alguém sobre um crime, e das explicações de Quaresma de como o crime foi cometido e quem é o culpado. 
 
Não se vê muita coisa da trama, a não ser o que é comentado na mecânica dedutiva. Pessoa escrevia isso e talvez se desse por satisfeito. 



“A Janela Estreita” narra somente uma reunião, entre o Dr. Abílio Quaresma, o chefe de polícia Guedes e o Tio Porco, discutindo processos dedutivos e fazendo menções muito superficiais ao crime que estão investigando, e que envolve um ourives e o seu filho desonesto. 
 
“O Roubo na Quinta das Vinhas” é mais detalhado, tem algumas cenas, descrições de ambientes, diálogos. Um cofre foi arrombado à meia-noite, numa casa onde várias pessoas estavam hospedadas. As suspeitas recaem sobre o jardineiro. Conversando com o engenheiro Augusto Claro, para quem o homem é inocente, Quaresma explica como deve ter se dado a mecânica do crime, e quem é o verdadeiro ladrão. 
 
“A Carta Mágica” é um enigma de “quarto fechado” ou de “crime impossível”. No caso, o desaparecimento de uma carta comprometedora, num aposento hermeticamente fechado. Ouvindo o relato do chefe de polícia Guedes, Quaresma rapidamente indica como o roubo deve ter se produzido, e quem provavelmente o executou. 
 
“O Caso Vargas” não dá indicação do enredo. Consta de várias páginas de monólogo explicativo do Dr. Quaresma, onde ele, com o raciocínio analítico bem característico de Fernando Pessoa, discorre sobre os “três tipos de raciocínio abstrato”, as “três espécies de crimes”, os “quatro tipos mórbidos do homem”, e assim por diante. 
 
Todos estes fragmentos recebem notas e comentários dos editores da obra de Pessoa, explicando o contexto de cada um, sem o quê não seria possível acompanhar as narrativas. 
 
Num texto de 1914 (Obras em Prosa, pág. 69) ele afirma:
 
Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo. 
 
Um volume de um desses autores, um cigarro de 45 ao pacote, a idéia de uma chávena de café – trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim – resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade é que não pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e estéticos no meio europeu atual. 
 
Talvez seja para os senhores como que causa de pasmo, não o eu ter estes por meus autores prediletos – e de quarto de cama, mas o eu confessar que nesta conta pessoal assim os tenho. 


("Fernando Pessoa", por João Beja)