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quarta-feira, 27 de março de 2024

5046) Curso: "As propostas de Ítalo Calvino" (27.3.2024)




Para quem se interessa por cursos de literatura online: estarei realizando mais um, entre 4 de abril e 9 de maio (nas quintas-feiras), através da plataforma Zoom, para o Instituto Estação das Letras (RJ). 
 
Serão seis aulas, das 19 às 21:00, abordando as propostas feitas por Ítalo Calvino sobre a literatura do próximo milênio – este em que estamos agora. 
 
Em 1985, quando morreu, Calvino estava preparando seis conferências que iria proferir na universidade de Harvard (EUA), no projeto conhecido como “Norton Poetry Lectures”. Um ótimo projeto, inclusive do nosso ponto de vista de leitores distantes. Não assistimos as palestras, mas tempos depois chega às nossas mãos um livrinho com esses textos, como This Craft of Verse de Jorge Luís Borges, Seis Passeios pelo Bosque da Ficção de Umberto Eco, Os Filhos do Barro de Octavio Paz, e este precioso volume de Calvino. 
 
As “Norton Lectures” são sempre seis conferências. Cinco de Calvino chegaram a ser escritas, mas ele morreu antes de redigir a última, da qual só nos restou o título. 



(Seis Propostas Para o Próximo Milênio, Companhia das Letras,1990, trad. Ivo Barroso)
 
 
O nosso curso de seis aulas vai dedicar cada uma delas a um dos temas propostos pelo escritor de Se Um Viajante Numa Noite De Inverno, de Cidades Invisíveis e de As Cosmicômicas. 
 
Calvino foi um dos escritores mais populares e mais experimentalistas de seu tempo. O experimentalismo literário costuma produzir obras difíceis de ler, ou pouco entusiasmantes. Não é o caso dele: Calvino tem um temperamento parecido com o de Julio Cortázar, cujas experimentações narrativas estavam sempre envolvidas em histórias capazes de atrair o leitor e prender sua atenção até o final. Ele consegue contar uma história envolvente enquanto reflete “em voz alta” sobre os mecanismos da contação de histórias.  Seu livro de maior sucesso de vendas, Se Um Viajante Numa Noite de Inverno (1979) é exatamente isto. 




Pensando no terceiro milênio ainda distante, Calvino enumerou seis idéias que ele queria discutir. Sua análise é muito ampla, recolhendo exemplos e modelos de diferentes formas artísticas. Logo na introdução ele explica: 
 
É típico da literatura italiana compreender num único contexto cultural todas as atividades artísticas, e é portanto perfeitamente para nós que, na definição das “Norton Poetry Lectures”, o termo “poetry” seja entendido num sentido amplo, que abrange também a música e as artes plásticas; da mesma forma, é perfeitamente natural que eu, escritor de fiction, inclua no mesmo discurso poesia em versos e romance, porque em nossa cultura literária a separação e especialização entre as duas formas de expressão e entre as respectivas reflexões críticas é menos evidente que em outras culturas. (p. 9) 
 
É uma advertência necessária, num contexto acadêmico onde a especialização e o foco excessivo são talvez superestimados. Calvino avisa logo que não vai falar somente do romance, a arte que praticou com mais constância: vai puxar exemplos da pintura, da poesia, dos quadrinhos, de onde ele possa obter uma referência ou uma influência, e criar uma interface com outra forma de expressão que (como todos sabemos) se reflete na literatura. Escritor bebe de todas as águas. 
 
E vamos aos temas.



1) Leveza
 
Calvino explica que existem “duas vocações opostas” na literatura:
 
Uma tende a fazer da linguagem um elemento sem peso, flutuando sobre as coisas como uma nuvem, ou melhor, como uma tênue pulverulência, ou, melhor ainda, como um campo de impulsos magnéticos; a outra tende a comunicar peso à linguagem, dar-lhe a espessura, a concreção das coisas, dos corpos, das sensações. (p. 27) 
 
Essa comparação entre dois impulsos opostos lembra uma comparação semelhante feita por Isaac Asimov num artigo famoso, “O Vitral e a Vidraça” (“The Mosaic and the Plateglass”). Para Asimov, existem duas linguagens: uma que é como um vitral de igreja, uma obra bonita em si mesma, que só exibe e só revela a si mesma; e existe uma linguagem que é como a vidraça: invisível, discreta, que serve somente de veículo para mostrar o que está acontecendo na história. 
 
A formulação de Asimov é compreensível, mas simplória – ele esquece que por mais “invisível” que pareça ser a linguagem ela não “mostra” a história. A história é criada por ela, e ela parece invisível somente porque é convencional, familiar, já devidamente assimilada pelo público-alvo. A gente lê “sem perceber que está lendo”. 
 
Calvino busca imagens da leveza que vão para além da linguagem em si. Ele lembra que Perseu, que usa sandálias aladas (presente de Hermes, o deus “Mercúrio”), é o único herói que consegue matar a Medusa (que tudo petrifica). Comenta que em A Insustentável Leveza do Ser o autor Milan Kundera está realmente falando sobre “O Inelutável Peso do Viver”. Avisa que o mundo de hoje, o mundo da Informática, “repousa sobre entidades sutilíssimas”: tudo é muito leve, muito fluido, e o peso do hardware é controlado pela leveza do software
 
E ele faz uma recomendação, citando Paul Valéry, que acho preciosa: “É preciso ser leve como o pássaro, não como a pluma.” 



2) Rapidez
 
Do ponto de vista físico, a leveza parece quase a mesma coisa que a rapidez, mas vamos pensar nesta frase de Valéry aí em cima. A pluma é leve mas é vagarosa, “precisa que haja vento sem parar” (como dizia Vinicius de Moraes); o pássaro tem impulso próprio, por isto é rápido. 
 
Calvino (organizador de uma excelente coletânea de Fábulas Italianas) usa lendas e contos populares para mostrar a importância das narrativas baseadas em “uma rápida sucessão de fatos”, uma prosa vapt-vupt, concreta, nítida: 
 
O segredo está na economia da narrativa em que os acontecimentos, independentemente de sua duração, se tornam punctiformes, interligados por segmentos retilíneos, num desenho em ziguezagues que corresponde a um movimento ininterrupto. (p. 48)
 
Toda narrativa é uma compressão temporal dos fatos. Toda narrativa é resumo. Mesmo a mais preguiçosa das narrativas, a mais tediosa, a mais baseada em encheção-de-linguiça, é mais rápida do que os fatos que narra. O tempo é sempre comprimido pela literatura. E o tempo literário é uma sanfona, é preciso saber distendê-lo e depois comprimi-lo.
 
E uma advertência meio dolorosa tanto para os principiantes quanto para muitos autores de “alta literatura”:
 
Todos conhecemos a desagradável sensação que se prova quando alguém pretende contar uma anedota sem ter jeito para isso, confundindo os efeitos, principalmente a concatenação e o ritmo. (p. 51)
 
Um comentário específico de Calvino nos lembra um aspecto crucial do Repente, da Cantoria de Viola, do verso improvisado em geral, o verso feito em tempo real, em cima da hora:
 
“A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela.  Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.” (p. 58)



(Ivanildo Vila Nova)
 
 
3) Exatidão
 
Calvino define este aspecto com clareza:
 
Para mim, exatidão quer dizer principalmente três coisas: 
1)      Um projeto de obra bem definido e calculado; 
2)      A evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis; temos em italiano um adjetivo que não existe em inglês, icástico (...); 
3)      Uma linguagem que seja a mais precisa possível como léxico e em sua capacidade de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação. (p. 71-72) 




Ele faz em seguida uma análise de um trecho de Leopardi, o grande poeta italiano que dizia: “A linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for”. Ele transcreve um belo trecho em prosa em que Leopardi louva a beleza do luar quando não é visto diretamente, e sim em seus reflexos nos objetos, ou por entre obstáculos parciais (um canavial, uma floresta). No fim, Calvino comenta: 
 
Para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado (...), para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem. (p. 73)
 
Nesse capítulo Calvino fala da influência, em sua obra, de linguagens como a Matemática e a Geometria, onde convivem a precisão e a indefinição, onde os processos de análise acabam nos conduzindo ao conceito de infinito, de dízimas periódicas, de contas que sempre deixam resto (como o número Pi), como que nos dizendo que a exatidão absoluta é impossível de obter. 
 
E ele contrapõe duas imagens desse conceito: o cristal, uma forma estática, e a chama, uma forma imprecisa, móvel, mas igualmente clara e contida em si mesma – nítida e exata, à sua maneira. 




4) Visibilidade
 
Este capítulo começa com uma citação de Dante, na Divina Comédia: “Poi piovve dentro a l’alta fantasia” (“Chove dentro da alta fantasia”, Purgatório, Canto XVII). Calvino acha que a fantasia, o sonho, a imaginação, a alta poesia, a ficção, são espaços onde as imagens “chovem”. 
 
Ser capaz de imaginar visualmente é a marca de muitos grandes escritores. Talvez não todos; mas o escritor que é capaz de fazer projetar “um filminho” na cabeça do leitor tem meio caminho andado para conquistá-lo. 
 
Calvino observa dois processos criativos distintos: “o que parte da palavra para chegar à imagem visiva e o que parte da imagem visiva para chegar à expressão verbal”. Ele comenta o caráter atemorizante da imagem e o fato de que em muitas religiões é proibida a representação visual de Deus (ou até mesmo da Natureza física). A imagem tem algo de sagrado e inacessível ao verbo, à razão. 
 
Calvino confessa pertencer ao time dos que usam uma imagem visual (às vezes absurda, bizarra, inusitada) como ponto de partida para um conto ou um romance inteiro. Assim surgiu, por exemplo, sua trilogia Nossos Ancestrais: um homem cortado verticalmente em duas metades, um homem trepado em árvores recusando-se a pisar no chão, uma armadura que anda e fala sem ter ninguém dentro. 
 
Neste Capítulo ele rende homenagem às histórias em quadrinhos, à pintura e à literatura fantástica, que tenta “capturar a alma do mundo numa única figura”



(M. C. Escher, "Print Gallery") 
 
 
5) Multiplicidade
 
Calvino era um erudito que quando ia escrever deixava a erudição no bolso do paletó. Lia literatura de todo tipo. Escreveu uma ficção científica (As Cosmicômicas; Tau Zero) que não tem similar em lugar algum; talvez alguns textos de Stanislaw Lem, Robert Sheckley ou R. A. Lafferty. Tinha a volúpia da leitura e a da escrita. 
 
Ele diz:
 
O tema desta minha conferência (...) é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. (p. 121) 
 
Sempre recorrendo a exemplos italianos, ele comenta a obra de Carlos Emilio Gadda, onde “cada objeto mínimo é visto como o centro de uma rede de relações de que o escritor não consegue se esquivar, multiplicando os detalhes a ponto de suas descrições e divagações se tornarem infinitas”. 
 
Há toda uma tendência na literatura contemporânea desse romances em que deve caber tudo. Thomas Pynchon, Neal Stephenson, David Foster Wallace – escritores de real talento e razoável sucesso popular -- são alguns exemplos dessa literatura cujo objetivo não parece ser apenas o de descrever a realidade, mas de fagocitá-la por inteiro. 




Por outro lado, quando Calvino se refere a “romance enciclopédico” não quer dizer necessariamente que o autor deva despejar tudo que sabe dentro do livro que está escrevendo, produzindo esses monstrengos de 1.200 ou 1.500 páginas que a gente vê por aí. Mesmo num livrinho mais fino, de meras 150 páginas – como o seu Cidades Invisíveis –  ele deve ser capaz, a qualquer momento, de puxar, de qualquer área do saber humano ou da arte humana, aquela imagem de que precisa, a referência que esclarece, o mito que re-emerge, a peripécia que puxa o tapete. 
 
O romance não tem obrigação de conter tudo, mas tem licença para receber qualquer coisa. Sem limitação de “gênero literário”, de convenção de época, de modismo da imprensa ou da academia. 
 
O autor simpatiza com esse ímpeto gargantuesco: 
 
A literatura só pode viver se se propõe a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de realização. Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura continuará a ter uma função. (p. 127) 
 


(Ítalo e Esther Calvino)


6) Consistência
 
Em 6 de setembro de 1985, Ítalo Calvino foi internado no Hospital Santa Maria Della Scala, em Siena, onde morreu na noite de 18 para 19, com uma hemorragia cerebral, aos 61 anos. Não chegou a escrever a última conferência, a que dera o título de “Consistência”. Sua esposa Esther Calvino afirma que ele dissera apenas que deveria fazer uma referência ao Bartleby, o Escrivão (1853) de Herman Melville.
 
O que teria dito Calvino a respeito? Podemos apenas conjeturar, e acho que é um prazer fazer conjeturas – sem nenhuma ambição de “bater o martelo” – no contexto da obra e do pensamento de alguém com tanto gosto pela literatura.
 
 
O Curso:
“As seis propostas de Ítalo Calvino”
Braulio Tavares
Seis aulas, online (via Zoom), das 19:00 às 21:00
Sempre às 5as.feiras, de 4 de abril a 9 de maio.
(Perdendo a aula ao vivo, o aluno inscrito tem acesso, depois, a uma gravação.)
Informações:
Instituto Estação das Letras (Rio de Janeiro)
(21) 99127-4088






terça-feira, 27 de junho de 2023

4956) Primeiras Estórias: os temas eternos (27.6.2023)




O mês de julho é de férias pra todo mundo, menos para os free-lancers. Vou aproveitar esse mês em que muita gente fica com a agenda mais liberada e vou oferecer mais um curso online pelo Instituto Estação das Letras. A vantagem do curso online é poder captar alunos do Brasil inteiro, e mais além, se for o caso. Meu curso mais recente (“Lendo Sagarana”, março/maio) teve alunos de Pernambuco, São Paulo, Bahia, Minas Gerais, etc. 
 
Como foi grande o interesse em discutir os contos de Guimarães Rosa, farei agora em julho, todas as segundas e quartas-feiras, “Primeiras Estórias: os Temas Eternos”. 
 
A motivação principal para estes cursos é o fato de que o romance Grande Sertão: Veredas (1956), por ser a obra mais monumental do escritor mineiro, acaba atraindo a maior parte das análises, dos comentários, das leituras. Não tenho nenhuma objeção: é um desses livros inesgotáveis, cuja releitura sempre me dá prazer e proveito.  
 
Os contos de Rosa, no entanto, ficam meio jogados para escanteio, o que é um desperdício, porque são consistentemente ótimos, originais, personalíssimos. É uma obra contística incomparável, em termos de variedade, domínio da linguagem, imaginação, carga afetiva e emocional, observação perceptiva da vida brasileira, busca do significado cósmico da existência humana. 
 
No curso sobre Sagarana (1946), tivemos dez aulas: uma introdução e nove aulas sobre os nove contos do livro. O livro Primeiras Estórias (1962) tem 21 contos e seria contraproducente estender o curso até 21 aulas. Além do mais, eu não determino sozinho o formato do curso – ele precisa se encaixar na grade de programação do IEL, que realiza simultaneamente inúmeros cursos, oficinas e palestras. 
 
Vai daí que arrumei os 21 contos do mestre Rosa em oito áreas temáticas que cobrem, de modo aproximado, todas as estórias. Advirto sempre que meus cursos não são cursos acadêmicos, de minuciosa análise estilística, linguística, estrutural, etc.  Sou um leitor antes de ser escritor, e minhas palestras tentam chamar a atenção para os aspectos essenciais dos contos, e quebrar a aura de “dificuldade”, “ilegibilidade”, “hermetismo” que muita gente ainda atribui à obra de Rosa. 
 
Rosa era um erudito, um poliglota, um homem de vastas leituras, mas acima de tudo era um apaixonado pela língua portuguesa-brasileira, e pela arte de contar estórias. Levava ao pé da letra aquela máxima de “dizer as coisas velhas de maneira nova”. Escrevia se divertindo, escrevia dando gargalhadas, escrevia com a alegria de um menino-sabido que arma um alçapão de varetas para capturar um leitor. 




(ilustração: Luhan Dias)

A organização do curso (que começa na 4ª.feira, dia 5 de julho) está mais ou menos assim:
 
“Primeiras Estórias: os temas eternos”
Um estudo de alguns temas constantes na obra de Guimarães Rosa, com a leitura comparada dos contos do livro “Primeiras Estórias”.
Oito aulas, duas aulas por semana. Total: quatro semanas.
Das 19 às 21:00. Estação das Letras: (21) 99127-4088 
 
Aula 1 –  5 de julho, 4ª.feira, 19 às 21:00
A infância e suas descobertas
Contos: “As margens da alegria”/”Os cimos”, “A menina de lá”, “A partida do audaz navegante”, “Pirlimpsiquice” 
 
Aula 2 – 10 de julho, 2ª.feira, 19 às 21:00
Jagunços: violência e autoridade
Contos: “Os irmãos Dagobé”, “Famigerado”, “Fatalidade”, “Tarantão, meu patrão” 
 
Aula 3 – 12 de julho, 4ª.feira, 19 às 21:00
Viagens fantásticas
Contos: “Um moço muito branco”, “A terceira margem do rio”. 
 
Aula 4 – 17 de julho, 2ª.feira, 19 às 21:00
A alma feminina
Contos: “Substância”, “A benfazeja”. 
 
Aula 5 – 19 de julho, 4ª.feira, 19 às 21:00
Os doidos
Contos: “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “Darandina”, “O cavalo que bebia cerveja”, “Tarantão, meu patrão”.
 
Aula 6 – 24 de julho, 2ª.feira, 19 às 21:00
O mistério da existência
Contos: “A terceira margem do rio”, “O espelho”, “Nada e a nossa condição”, “O cavalo que bebia cerveja”. 
 
Aula 7 – 26 de julho, 4ª.feira, 19 às 21:00
A arte de contar histórias
Contos: “Pirlimpsiquice”, “Partida do audaz navegante”, “O espelho”. 
 
Aula 8 – 31 de julho, 2ª.feira, 19 às 21:00
As formas do amor
Contos: “Nenhum, nenhuma”, “Sequência”, “Luas de Mel” 
 
Esta classificação é bem arbitrária, porque a maioria dos contos toca em vários destes temas, então a decisão de colocar cada num nesta “caixinha” e não em outra é apenas para facilitar a organização. 
 
Como sempre faço, utilizarei uma cópia do livro em PDF para vermos o texto na tela, quando necessário, mas reitero a minha recomendação de que todo mundo compre o livro físico. Não sei quanto está o preço na livraria. Seja quanto for, está barato. 
 
“Vida havendo e saúde não faltando”, como dizia José Saramago, pretendo no ano que vem (pois no segundo semestre deste ano tenho muitas viagens a fazer) preparar um curso semelhante. A dúvida é apenas optar entre as sete noveletas de Corpo de Baile (1956) e as quarenta historietas de Tutaméia (1967).  
 
Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, sobrecrentes, disto: que era o verdadeiro viver? E era bom demais, bonito – o milmaravilhoso – a gente voava, num amor, nas palavras: no que se ouvia dos outros e no nosso próprio falar. E como terminar?
("Pirlimpsiquice")








sexta-feira, 3 de março de 2023

4918) Uma leitura comentada do livro "Sagarana" (3.3.2023)




De 15 de março próximo, indo até 17 de maio, estarei ministrando um curso sobre a obra de Guimarães Rosa e o livro Sagarana (1946). Será um curso online via Zoom – acessível portanto, para leitores rosianos de todo o Brasil, e do mundo!... – todas as quartas-feiras, das 19 às 21 horas.
 
Há mais de 15 anos que ministro cursos e oficinas através do Instituto Estação das Letras (Rio), dirigido pela minha amiga, a poeta Suzana Vargas. Já ministrei cursos de poesia, de conto, de ficção científica, leituras orientadas... O mais recente foi em 2021, Lendo Borges e Cortázar.
 
O curso é pago (eu vivo disso), e mais detalhes podem ser obtidos pelo telefone do IEL – (21) 99127-4088, ou pelo email iel@estacaodasletras.com.br .
 
Dito isto, vamos ao assunto em si. Por que Sagarana?
 
Quando um autor se torna um clássico e tem uma obra relativamente grande, densa, importante, as pessoas que se aproximam da obra dele pela primeira vez procuram em geral a sua obra mais famosa, a que fez mais sucesso, ganhou mais prêmios, foi mais estudada, recebeu mais elogios...
 
Às vezes essa “obra máxima” é também a obra mais difícil do autor. Aquilo que alguns críticos chamam “o pináculo”, o ponto mais alto do que ele escreveu. E nem sempre a subida até lá é fácil.
 
Autores complexos requerem uma aproximação gradual. Isto não é uma regra universal (não existem regras universais), mas ajuda. 
 
Eu pergunto: por que chegar à obra de (digamos) James Joyce entrando de cara no Ulisses (1922), um livro muito difícil, quando a leitura dos contos de Dublinenses (1914) ensinaria muitíssimo sobre o autor, seus temas, sua linguagem, seus personagens, sua visão das coisas? Chegando ao Ulisses, depois, metade das questões já estariam resolvidas. 
 
Há leitores que tentam conhecer Julio Cortázar pegando o “tijolo” que é O Jogo da Amarelinha (1963), um livro fascinante mas um tanto desorientador para quem não conhece nada do autor. Uma aproximação gradual através dos contos dele seria uma boa transição: livros como Bestiário (1951), Todos os Fogos o Fogo (1966) ou Final de Jogo (1956) etc. cumpririam bem este papel.
 
É mais ou menos o que se coloca com Guimarães Rosa. Conheço pessoas que já tentaram ler o Grande Sertão: Veredas (1956) duas ou três vezes e não avançaram. Sei demais como é. Eu tentei umas cinco vezes, e só consegui devorar o livro depois de ter lido quasse todos os outros.
 
Um leitor jovem, de hoje, já cresce sabendo que Rosa é “um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos”, e blá-blá-blá. E que tem fama de “autor difícil”. Sua literatura é muito pessoal, e surpreende até quem já leu ensaios sobre ele, quem já viu suas histórias no cinema ou na TV, quem leu resenhas e artigos sobre seus livros. 


 

Sagarana (1946) é seu livro de estréia, publicado quando Rosa tinha 38 anos e era totalmente desconhecido. É um livro espontâneo, torrencial, com contos extensos, e ao mesmo tempo um livro destilado e refinado durante muitos anos. É o livro em que Guimarães Rosa tornou-se escritor. 
 
Fernando Pessoa disse, pela voz de Ricardo Reis: “Tornar-te-ás só quem tu sempre foste. O que te os deuses dão, dão no começo”.  Guimarães Rosa já nasceu ele mesmo com seu primeiro livro; está tudo ali. Paisagem, linguagem, personagens; a fauna, a flora e a metafísica; a violência, o amor e o bom-humor; o sertão, o caos e o cosmos.
 
Claro que houve evolução e aprofundamento, principalmente para conduzi-lo ao “Ano Miraculoso” de 1956, quando ele jogou no colo do povo brasileiro, com poucos meses de intervalo, as 822 páginas de Corpo de Baile  e as 571 do Grande Sertão. Mesmo assim, acho que Sagarana representou o processo íntimo em que o escritor criou sua “régua e compasso” para produzir tudo que veio depois. 
 
O nosso plano de leitura é acompanhar o livro do jeito que ele se organiza, com seus nove contos.
 
15 de março – Introdução a J. G. Rosa, a pessoa e o autor
22 de março – “O Burrinho Pedrês”
29 de março – “A Volta do Marido Pródigo”
5 de abril – “Sarapalha”
12 de abril – “O Duelo”
19 de abril – “Minha Gente”
26 de abril – “São Marcos”
3 de maio – “Corpo Fechado”
10 de maio – “Conversa de Bois”
17 de maio – “A Hora e Vez de Augusto Matraga”
 
Uma semana de intervalo é tempo bastante para ler ou reler cada história. Além disso, uma aula perdida por um imprevisto pode ser vista depois em gravação, e geralmente eu e os alunos criamos um grupo de mensagens para trocar impressões, responder perguntas, etc. 
 
Guimarães Rosa produziu um impacto muito grande com sua estréia literária. Era um completo desconhecido que foi capaz de amadurecer em silêncio, discretamente. E estreou já demonstrando ser um dos nossos melhores contistas.
 
Um crítico criterioso como Wilson Martins chegou a duvidar se ele seria capaz de produzir um romance à altura dos seus contos. Disse ele, em 1946, após a leitura de Sagarana:
 
Um escritor que em seu primeiro livro nos apresenta qualidades incomuns de ficcionista, que foi capaz de criar um estilo próprio de redação e de narrativa (o que é de importância substancial no conto), dotado de raro poder expressional e de uma capacidade de transmitir a emoção que atinge os pontos mais altos, que realiza uma verdadeira revolução  no conto brasileiro sem adotar nenhum dos truques literários que estão à base da maior parte de tais revoluções – poucos nomes conheço na literatura brasileira do passado e do presente que reúnam tal conjunto de qualidades literárias como as que distinguem o Sr. J. Guimarães Rosa. (...) 
 
Nada sei do Sr. Guimarães Rosa: nem a sua idade, nem as suas atividades possíveis fora da literatura, nem a sua formação cultural e educacional – não possuo nenhum daqueles elementos biográficos que tanto ajudam o crítico na interpretação de uma obra. (...) 

 

 Esse poder de ficcionista, de pôr de pé homens e animais, de nos mostrar a vida em toda a sua plenitude, o Sr. Guimarães Rosa demonstra possuir com abundância e facilidade.

 
É um livro que resultou de muita vivência, muita empatia e muito trabalho, como Rosa contou mais tarde:
 
O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). 
 
Não nos custa nada dedicar a ele dez semanas.