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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

2316) O Ulisses japonês (10.8.2010)

O escritor Joshua Cohen fez uma lista dos romances equivalentes ao Ulisses de James Joyce em diferentes países. O exame desses títulos nos mostra como o modernismo literário se espalhou pelo mundo ondas de círculos que nascem em diferentes pontos e se interseccionam. O Ulisses russo (Petersburgo, de Andrei Biely) é de 1913, o irlandês de Joyce é de 1922. O Ulisses japonês, segundo Cohen, é um romance de 1930, The Scarlet Gang of Asakusa, de Yasunari Kawabata. Este autor, ganhador do Prêmio Nobel em 1968, já teve várias obras traduzidas no Brasil, entre elas O País das Neves e A Casa das Belas Adormecidas. Ao que eu saiba não há tradução brasileira de A Gang Escarlate de Asakusa, escrito quando Kawabata morava neste distrito de Tóquio, uma zona meio boêmia, meio barra-pesada. Joshua Cohen justifica assim sua escolha desse livro: “Este romance sinistro, fervilhante de prostitutas adolescentes e de escritores vagabundos, deu ao seu autor o prêmio que escapou a Joyce, o Nobel. Publicado originalmente num jornal diário, foi certamente uma das mais estranhas obras já serializadas na imprensa. O monstro de Kawabata é um percurso maníaco no interior da fétida Asakusa, a zona do baixo meretrício de Tóquio”. Este resumo não diz muito sobre a obra; tive que recorrer a um artigo de Ian Buruma na New York Review of Books (http://tinyurl.com/36swd4s). Ali se diz que Asakusa não era simplesmente a zona do baixo meretrício, e sim uma área fervilhante de entretenimentos variados. Surgiram ali, por exemplo, os primeiros cinemas e o primeiro arranha-céu de Tóquio. Na virada do século, havia lá “um teatro kabuki, malabaristas, casas de gueixas, números circenses, fotógrafos lambe-lambes, dançarinos, comediantes, macacos amestrados, bares, restaurantes e galeria de arco e flecha cheias de garotas de programa”. A zona foi destruída duas vezes: a primeira no terremoto (seguido de incêndio) de 1923, após o que foi reconstruída; e depois no bombardeio norte-americano de 1945, quando morreram entre 60 e 70 mil pessoas. Hoje, é uma área comercial como qualquer outra, cheia de edifícios. Kawabata captou o espírito boêmio de Asakusa num estilo chamado na época de “ero, guro, nansensu”: erótico, grotesco, nonsense. Diz Buruma: “O romance não se preocupa em trabalhar personagens, mas em exprimir uma nova sensibilidade, uma nova maneira de ver e de descrever uma atmosfera: rápida, fragmentada, cortando de uma cena para outra, como na edição de um filme ou na composição de uma colagem, com uma mistura de reportagem, slogans publicitários, letras de canções, fantasias, anedotas históricas e lendas”. Segundo ele, esse modo fragmentado de narrar era devedor do Expressionismo europeu ou “Caligarismo”, a partir do filme de Robert Wiene, O Gabinete do Dr. Caligari. Mais uma obra que nos ajuda a ver o Ulisses de Joyce como um pico numa cordilheira, e não como uma elevação isolada no meio de um deserto.