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quinta-feira, 6 de abril de 2023

4929) A arte de escrever difícil (6.4.2023)




Um espectro assombra a literatura brasileira desde que ela começou: o espectro do “falar difícil”. Num país que em 1920 tinha cerca de 70% de analfabetos, e não possuía nenhuma universidade, a prática da literatura era um nítido diferencial de classe. (Não que os analfabetos não praticassem suas formas literárias – a literatura oral, os contos populares, os cantos, os versos, os romances recitados, a própria literatura de cordel, cujo grande nome, Leandro Gomes de Barros, morreu em 1918.) 
 
Uma crítica que se faz ainda hoje à ficção de Guimarães Rosa é que sua linguagem é hermética, rebuscada, incompreensível, pedante... A crítica é exagerada mas não é gratuita, porque o próprio Rosa afirma sua intenção de inovar em cada frase, fugir à linguagem comum, banal, desgastada. 
 
São opções de cada um, mas é bom reconhecer que Rosa não estava sozinho nisso. Há uma nobre tradição de escrever difícil e, nos primeiros anos do século 20, Coelho Neto é o bode expiatório habitual de quando queremos condenar essa escrita. Mas basta lembrar dois nomes que ainda hoje são nomes de peso na formação dos nossos escritores: Euclides da Cunha, na prosa, e Augusto dos Anjos, na poesia. Ninguém discute a importância dos dois. E ninguém pode ignorar o que eles têm de rebuscado, de gongórico. 
 
Não são ilhas, são trechos de um imenso continente, e revelam nossa tendência para a linguagem ornamental, em que o sentido pode até ser profundo, mas é a sonoridade que retumba e encanta. O brasileiro é fascinado pelo que está a um passo de fazer sentido. E nós (que escrevemos) nos deleitamos na proliferação rococó de sinônimos, e nos dedicamos a enfeitar cada parágrafo como se fosse uma barca de sushi. 


Examinando nossa vitrine literária nos anos em volta do movimento Modernista de 1922, Wilson Martins (História da Inteligência Brasileira, vol. VI) sai mostrando exemplos variados da prosa que vigorava na época. Uma prosa (pelo meu olho) claramente influenciada pelas ressonâncias de Os Sertões (1902) de Euclides da Cunha. 
 
Ali estão os termos científicos jogados descuidadamente como se fossem moeda habitual da prosa, estão as derivações inesperadas (que J. G. Rosa iria cultivar de uma maneira bem pessoal), a proliferação de adjetivos... E certos torneados de frase que são bem de Euclides, e que (penso eu) o esforço de decifrar e entender resultava no prazer de imitar. 



(Hugo de Carvalho Ramos)
 
Ele cita, por exemplo, trecho de Tropas e Boiadas (1917), de Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921):
 
Por ali passavam tropas mineiras d’além-Paranaíba – rijos tocadores palmilhando as alpercatas de couro cru pela extensão ardente e arenosa das estradas poentas, ladeadas às vezes de barrancos escarpados e esfarinhentos de pedra-canga, por cujas erosões, vincadas, medrava tenaz o catingueiro parasitário dos morrotes. Por ali passavam, barulhentos e ralhadores, de peregrinações distantes, após haver trilhado as rechãs esturradas d’argila vermelha e sapé bravio dos chapadões, onde apenas, a quebrar a uniformidade dos horizontes, apareciam de vez em vez, ao longo dos carris profundos deixados à passagem pela roda ferrada dos pesados carros de bois, a fronteira do lobo e os coqueiros de macaúba, como tênues, fugaces teias de sombra espalmadas sobre a crosta recozida do solo. (W. Martins, p. 70) 
 
“Poento”, aliás, é um adjetivo euclidiano que Ariano Suassuna confessadamente assimilou (ele se refere a isto em seu discurso de posse na A.B.L.). 



(Otávio Brandão)
 

O alagoano Otávio Brandão (1896-1980), assim escreve em Canais e Lagoas (1918):
 
O cinzento selenial dos horizontes, a negrura obsidiânica de certos pauis; a transparência hidrofânica das neblinas pairando sobre os altos cabeços longe; o lento lacrimejar das estrelas, triste como a dolorosa marcha fúnebre de Chopin; o brazido avernal dos estios; a beleza dos estendedouros das campinas; as ondas dos ventos frios arrepiando a pele da água voluptuosa; as barcaças maciças, pesadas, movidas pelas zingas; o arredondado zimborial do firmamento; a grandeza zenital das esperanças da minha Pátria; os beijos tímidos das lavandeiras pelos velhos campaniles; a bombinela da noite a descerrar-se para surgir o fulgor do sol levante; todas estas coisas vistas ou sentidas através dos canais, impressionam e fazem vibrar poderosamente a minha energia sensorial. 
(W, Martins, p. 158)
 
Esta última frase não está muito longe do estilo da prosa de Augusto dos Anjos. São linguagens de época que se cristalizam numa aparência de espontaneidade. 


(Carlos Vasconcelos)
 
Outro exemplo de Wilson Martins vem de Os Deserdados (1921), de Carlos Vasconcelos (1881-1923):
 
Sussurram ainda as trovas brejeiras dos simplórios campônios, nos festins seqüentes ao mourejar diurno, nos roçados esmeraldinos de minha terra; balam, mansuetos, os lanígeros pelas várzeas; cambalhotam, endiabrados, os caprinos pelas quebradas sáxeas e gemem as fontes múrmures queixas de despedida em rumo do mar longínquo, ao grimpar céleres os socalcos de jusante... O luar dos sertões infiltra uma suave melancolia no psiquismo desses modernos Anteus, cuja grandeza de labor secular contra os caprichos da terra e contra as cruezas do éter desafia rivalidades! 
(W. Martins, p. 248)
 


(Jorge de Lima)
 
Ele cita um artigo onde Tristão de Athayde se queixa da impenetrabilidade do estilo de Jorge de Lima (1893-1953), mesmo ressalvando-se que o texto citado, de A Comédia dos Erros (1923), pretende descrever e comentar a evolução da molécula do carbono:
 
Não há conjugado mais poderoso, devassando os segredos da vida, catalogando, seriando, na escala dos hidrocarbonetos, com o metro, a proporcionalidade das progressões aritméticas formando o encadeamento dos corpos cíclicos e acíclicos; coordenando, compondo, concertando, atando e desatando, com uma regularidade surpreendente, a prova de algarismos – os dez que nem mil todo-poderosos cíngulos dígitos do Grande Ser, que empolgassem as formas concretas do universo, na tarefa de as enumerar, multiplicar, dividir e subdividir. Quando esta molécula se complicou, tivemos um caos bíblico, que não a desordem, pois o magno coordenador, o carbono, não o permitira, logramos porém uma página harmônica da vida do globo, que não soubemos deletrear, porque não pudemos fixar em o nosso entendimento a equivalência de suas expressões, o eco de suas ressonâncias. 
(W. Martins, p. 307-308)
 
São maus escritores? Certamente não; eram escritores que estavam tentando utilizar todos os recursos da língua de sua época, e essa língua estava se refinando no sentido da riqueza vocabular, da confluência de vários jargões (o filosófico, o científico, o regionalista, etc.), da busca de uma perfeição descritiva que consistia em retratar coisas simples com palavras complexas, no esforço de buscar a palavra mais justa. 
 
O barroquismo de Guimarães Rosa, por mais pessoal que seja, não surgiu num vácuo, nem surgiu numa planície linguística onde todo mundo escrevia simples. É vigorosa a nossa tradição do “escrever difícil”. Coelho Neto, Euclides da Cunha, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa não são montanhas isoladas, estão cercadas de montanhas menores mas que apontam na mesma direção. 
 
 





sábado, 19 de setembro de 2020

4622) A ficção e o entulho de informação (19.9.2020)




(manuscrito de Immanuel Kant)

Que quantidade de informação um romancista deve dar, ao leitor, sobre o mundo que está descrevendo?
 
Depende. Escritores de romances históricos geralmente respondem: “A maior quantidade possível!”. E eu entendo. Passaram anos estudando as Guerras Púnicas, ou o Ciclo da Borracha na Amazônia, ou os reis leoninos da Alta Mesopotâmia.  Leram centenas de livros, fizeram milhares de anotações, e isso tudo vai se perder? De jeito nenhum. O leitor vai ter que pagar com seu tempo o tempo que o escritor consumiu pesquisando.
 
Outros dizem: “Informação nenhuma; não precisa”. Há centenas de romances pós-modernos onde não sabemos sequer em que país se passa a narrativa. Tudo é abstrato. Não sabemos sequer os nomes dos personagens, que são indicados por iniciais.
 
No outro extremo, existem os autores que se acham na obrigação de informar tudo, ou que têm um prazer enorme em informar tudo. Entre os escritores de língua inglesa circula o termo “infodump”, que significa mais ou menos “entulho de informação”. Acontece muito no romance histórico, em que não basta dizer o resultado de uma reunião do Imperador Napoleão com seus generais: é preciso dizer cada plano que foi proposto, debatido, contestado, apoiado, decidido, executado. O autor estudou o tema. Precisa mostrar serviço.
 
Os chamados techno-thrillers de autores como Tom Clancy ou Alastair Reynolds não se limitam a dizer “Fulano puxou a pistola”. Tem que dizer a marca, o calibre, o modelo, o ano, as adaptações feitas pelo personagem, as peculiaridades do mecanismo...
 
Se é um romance de Fantasia Medieval, e alguém mata um porco para uma festa, é preciso explicar (e tome duas ou três páginas falando apenas disso) com que tipo de faca se matava o porco na Escócia de 1450, quantas pessoas eram necessárias para segurar o bruto, como se pelava, como se tratava, com que ervas se temperava, como era preparado cada pedaço...
 
O infodump é a delícia de uns e o pesadelo de outros.


Numa resenha de um livro na revista Locus, Gary K. Wolfe chama a atenção para essa mania de Neal Stephenson (autor que eu muito admiro, aliás):
 
Na reta final do thriller Reamde, a jovem geóloga que é um dos personagens centrais está fugindo desesperadamente de terroristas islâmicos numa floresta do Canadá quando se vê escalando a inclinação de um talude e faz uma pausa para pensar sobre “o ângulo de repouso, que é a inclinação que um determinado monte de material pulverizado adota naturalmente ao longo do tempo, e que explica o formato externo de um formigueiro, de um monte de açúcar, uma pilha de cascalho ou de seixos.” Não é o tipo de coisa em que eu estaria pensando se estivesse sendo perseguido a tiros por terroristas, mas o fato é que eu não sou um personagem de Neal Stephenson.
(“Locus”, # 608, setembro 2011, trad. BT)
 
Stephenson é, dentro da FC norte-americana, um dos campeões indiscutíveis em entender e explicar como a tecnologia do mundo de hoje funciona. Ele estuda e pratica compulsivamente todo tipo de gadget tecnológico que inclui nos seus livros, e são muitos. Eu não diria que ele faz essas coisas “para se amostrar”. Não: ele apenas é um cara que pensa assim, funciona assim, e quando escreve reproduz em sua ficção seus processos espontâneos de pensamento.
 
Só li dois livros dele, ambos excelentes. Um é Snowcrash (1992), publicado no Brasil pela Editora Aleph, com tradução de Fábio Fernandes, lançado numa edição com o título de Nevasca e em outra com o título original. O outro é The Diamond Age (1995), um futuro de ultra-tecnologia onde os chineses reproduzem a Era Vitoriana inglesa nos menores detalhes.
 
O problema com Stephenson é que poucos livros dele têm menos de 900 páginas, e romances de 1.200 páginas não são nenhuma surpresa. É como uma viagem de navio – é agradável, mas você sabe que é um projeto a longo prazo.


Em outro momento, o mesmo Gary K. Wolfe explica, comentando outro romance de Stephenson (Anathem, 2008), sobre uma civilização de eruditos num planeta distante (uma espécie de O Nome da Rosa interplanetário):
 
Em seu aspecto mais ambicioso, ele nos convida para examinar por inteiro o corpo principal da filosofia do Ocidente através do prisma de um mundo inventado; e, embora exista nisso um indiscutível charme de estudante universitário, ficamos pensando se uma parte do entusiástico público leitor de Stephenson não se verá em breve atribuindo a ele a invenção de muitas das idéias que ele recapitula em seu fabuloso “Syntopicon”.
(“Locus”, # 572, setembro 2008).
 
Diga-se desde logo que esses romances de mil páginas não são feitos apenas de digressões enciclopédicas. Stephenson é um narrador compulsivo de aventuras, mestre dos episódios de perseguição, fuga, invasão, conflito, brigas de socos, guerras de exércitos; pode-se dizer que seus romances são videogames de ação e aventura para intelectuais. Personagens com quem a gente se identifica, diálogos espertos, sutilezas psicológicas...
 
Mas o problema continua de pé. É preciso mesmo explicar tantos detalhes assim?
 
A resposta tem que levar em conta que existem pessoas que adoram essas explicações, e outras que não as suportam. Se eu tivesse mais tempo e menos afazeres, leria com imenso prazer, por exemplo, o famoso “Ciclo Barroco” dele, formado por Quicksilver (2003, 944 páginas), The Confusion (2004, 815 páginas) e The System of the World (2004, 915 páginas). 

Mas a vida é curta. O que me aguarda na minha estante, no momento, e de cenho franzido, é o premiado Cryptonomicon (1999, 1.140 páginas).


Lembro-me das aulas do mestre Damon Knight, quando ele dizia às vezes: “Não precisa descrever a espaçonave. Todo mundo já sabe como é uma espaçonave. Mostre somente o detalhe que vai ter importância na história”. É um conselho útil, mas acontece que muitos escritores (e leitores) de FC são engenheiros, sejam profissionais, estudantes, diletantes ou curiosos, e para esses leitores é um pouco frustrante pegar um romance, saber que a espaçonave está indo da Terra para Alfa do Centauro, e não receber um vintém de informação sobre o meio de propulsão utilizado ali.
 
Outra coisa:
 
Não se trata apenas da ficção científica. Vamos dar uma passada nos infodumps dos clássicos brasileiros. Podemos começar com os tratados de geologia e botânica que Euclides da Cunha inseriu em Os Sertões. Ou então pensemos no Romance da Pedra do Reino: basta alguém citar o nome de uma família sertaneja para Ariano Suassuna pegar o leitor e dar uma volta inteira ao quarteirão explicando genealogias e cavalgadas.


Autores regionalistas são usuários aplicados do infodump, porque grande parte do romance regionalista está imbuído de uma missão de retratar, registrar, conservar usos e costumes através da palavra escrita.
 
Daí que nossa ficção rural se dedique a longas digressões sobre cuidados com o gado, sobre novenas e festas tradicionais, sobre o trabalho do vaqueiro ou do agricultor, sobre batuques e festejos... Páginas e páginas onde o autor oitocentista preservou o ambiente que conhecia – e eu, pelo menos, sou agradecido por isto. O livro pode até não ser grande coisa como romance. Ironicamente, é o infodump etnográfico que hoje o torna precioso para nós.



 





segunda-feira, 18 de novembro de 2019

4524) Uma hora e meia em Canudos (18.11.2019)




(fotos BT)

Canudos Contado e Vivido é um título mágico na minha memória. Creio que era assim o nome de uma peça teatral que nunca li, escrita por Iremar Maciel, o presidente e uma das principais cabeças pensantes do saudoso Cineclube Glauber Rocha, de Campina Grande.

Iremar (que não vejo há muitos anos) sempre foi um poeta talentoso e um obervador crítico da História. Eu tinha de 16 para 17 anos quando ouvia falar nessa peça dele, que me despertava ainda mais o desejo de ver Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber: as ressonâncias profundas da palavra “Canudos” começaram nesse tempo, e não pararam até hoje.

Se bem que com 11 ou 12 anos eu já tinha lido o romance A Aldeia Sagrada, de Francisco Marins, um livro que venho recomendando insistentemente ao longo da vida inteira, para aqueles que recuam com timidez diante de Os Sertões de Euclides.


É a história de um menino sertanejo cujo pai abandona o lar para seguir Antonio Conselheiro. O garoto, assustado, raivoso, saudoso, desorientado, foge de casa e cruza o sertão (e a batalha) para entrar no Arraial e reencontrar o pai. Um livro humano e sofrido, onde História e ficção se misturam num mesmo impulso.

Dias atrás, fui ao sertão de Canudos para participar da I Festa Literária de Uauá, a convite do poeta Maviael Melo. Participei de uma mesa sobre poesia popular, ao lado dos poetas Jéssica Caitano (cuja metralhadora verbal eu já vira à frente do grupo Radiola Serra Alta, de Triunfo), Bule-Bule (amigo e mestre de longa data) e Nelson Maca, que conheci em São Paulo, recitando, agitando, desafiando o coro dos contentes.

Por entre shows musicais de amigos como Maciel Melo, Siba, Em Canto e Poesia e outros, acabei descolando uma ida ao Parque Estadual de Canudos, mantido pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb).


E lá fomos “no pingo do meio dia”, eu, Hudson Silva Santos, Marcos Melo e Flávia Helena, todos noviços, todos indo pisar pela primeira vez o “chão sagrado”, guiados pelas instruções precisas do Prof. Roberto Dantas, da Uneb.

Canudos é um arquétipo sempre energizado e pulsante a provocar nossa reflexão dolorida sobre as raízes sangrentas do Brasil. Isso ficou comprovado mais uma vez este ano na Flip, em Paraty, um evento que começou como uma vitrine do Brasil Oficial e está se deixando ocupar cada vez mais pelo Brasil Real. Até casa do Cordel teve este ano.

Canudos não foi a primeira, e talvez nem tenha sido a maior chacina de revoltosos em nosso país. Tornou-se símbolo e modelo por causa de um Livro. Foi uma das primeiras ocasiões em que a recém-nascida república militarista meteu os pés pelas mãos, tentando passar no fio da espada o nó górdio chamado “os brasileiros pobres”.


Não foi a primeira nem a última vez em que o poder político tentou aproveitar o surgimento de um problema menor para dar uma demonstração de força, e quando viu... O problema cresceu pra cima de si numa proporção imprevista, desencadeando um desastre sem retorno.

Canudos foi uma vitória de Pirro de onde o vencedor saiu aviltado. Faça-se uma certa justiça ao governo da época ao admitir que a “força excessiva”, como dizem os locutores de futebol, só foi posta em prática na reta final do desespero, depois que a violência padrão despertou nos resistentes uma bravura e uma selvageria inéditas.

Como diz Ivanildo Vila Nova num martelo famoso: “Brasileiro matando brasileiro, e os vencidos mostrando mais linhagem”.


Canudos, como qualquer campo de batalhas historicas, é hoje uma paisagem em verde e azul, com manchas de ocre do barro pedregoso, e o cinza fosco dos garranchos.

A criação do Açude de Cocorobó foi uma ironia final, ao fazer sumir o arraial sublevado através da água, o bem mais precioso daquele mundo ressequido. Como se os poderosos dissessem: “Pois tomem isso que vocês pediam tanto, e não se toca mais nesse assunto”.


A visão do Arraial (hoje açude) que se tem do Alto da Favela é menos verticalizada, menos abrupta, do que a que eu tinha na imaginação, a partir das leituras. Não sei até que ponto contribuíram para isso 120 anos de erosão, mas do Alto até o vale onde se instalaram os conselheiristas é uma descida suave. Uma bacia larga e rebaixada, que os canhões e os sabres do Exército conquistaram palmo a palmo, casa a casa, garganta a garganta.

E acima de tudo o silêncio. Não se ouve o motor de um carro, um grito de gente, um trilo de passarinho. Não digo que é um silêncio de cemitério porque silêncio de cemitério é um silêncio surdo, tapado. Ali não: o espaço é aberto e o vento é livre, mas mesmo assim nada se bole. É um silêncio de tocaia, um silêncio de memória e de espera, um silêncio de alguma coisa pronta para acontecer.









terça-feira, 6 de agosto de 2019

4491) Canudos e o Coração das Trevas (6.8.2019)






A obra de Euclides da Cunha, o homenageado deste ano da Flip (em Paraty), ainda está longe de ser uma conta que não deixa resto.

Ninguém fecha uma discussão sobre ele nem sobre sua obra, o que é uma coisa boa. Toda cordilheira de argumentos a seu favor, depois de devidamente empilhada, se conclui com um ominoso “Mas...”. Idem idem quanto aos argumentos contra.

Estilisticamente, sociologicamente, politicamente, etc.

Unanimidade ninguém tem, é verdade, mas luminares como Machado de Assis ou Guimarães Rosa podem se considerar em posições confortáveis no Olimpo. Despertam questionamentos e polêmicas, mas longe de inspirar posições extremas como as que Euclides inspira. Até mesmo “malditos” como Dalton Trevisan ou Campos de Carvalho desfrutam de uma certa uniformidade de julgamentos.

Verdade que pouca gente hoje se atreve a rompantes como este de Mário de Andrade, em O Turista Aprendiz (em “Caicó, 21 de janeiro de 1929”), onde desanca o então presidente da República, e o pobre Euclides entra de Pilatos no Credo:

A reverendíssima Exa. do dr. Washington Luís passa pelo Nordeste em discurso, não tirando luva da mão, sem experimentar o tapa-mão de couro do vaqueiro, bem hospedado, comendo, e muito, as comidas morenas de por aqui. E antes ou depois da viagem, que nem todos os brasileiros (até o nordestino!), continua lendo as literatices heroicas de Euclides da Cunha.

Pois eu garanto que Os Sertões são um livro falso. A desgraça climática do Nordeste não se descreve. Carece ver o que ela é. É medonha. O livro de Euclides da Cunha é uma boniteza genial porém uma falsificação hedionda. Repugnante.

Mário, turista acidental e aluno aplicado, estava passando pelo mesmo choque de realidade que tantos brasileiros experimentaram quando saíram da Corte ou da Metrópole e foram tostar a testa no sol do sertão. Paulo Francis que o diga.


Apesar da linguagem agressiva que emprega, Mário não parece estar fazendo uma crítica moral ao escritor, mas empurrando-o para a região do mero beletrismo ocioso, que ele, Mário, tanto combateu (inclusive em si mesmo). Porque ele prossegue num tom que conhecemos muito bem no Brasil: o de “chega de escrever romances de denúncia e de protesto, é preciso fazer alguma coisa”:

Mas parece que nós brasileiros preferimos nos orgulhar duma literatura linda a largar da literatura duma vez pra encetarmos o nosso trabalho de homens. Euclides da Cunha transformou em brilho de frase sonora e imagens chiques o que é cegueira insuportável deste solão; transformou em heroísmo o que é miséria pura, em epopeia... Não se trata de heroísmo não. Se trata de miséria, de miséria mesquinha, insuportável, medonha. Deus me livre de negar resistência a este nordestino resistente. Mas chamar isso de heroísmo é desconhecer um simples fenômeno de adaptação. Os mais fortes vão-se embora.



Nelson Werneck Sodré (História da Literatura Brasileira, cap. 14) via a falsidade de Euclides justamente no extremo oposto: nas tinturas de ciência que ele se esmerou em aplicar. Ao exibir a erudição penosamente pesquisada, diz NWS, ele era falso; a verdade emergia quando ele falava do drama humano.

E é curioso notar que a inverdade da forma corresponde quase sempre a uma inverdade de conteúdo, e por isso mesmo ocorre com muito mais frequência na parte dedicada ao estudo da terra e do homem, em que acolhe os conceitos e os preconceitos da ciência externa, a única de que se pode valer. O falso da sua botânica, da sua antropologia, da sua sociologia, encontra paralelo, em cada caso, no falso da sua linguagem. Quando surgem os acontecimentos, os episódios, as peripécias, o estilo se torna menos tortuoso, e a parte da campanha propriamente é muito mais acessível do que a introdução. 


Euclides procurou, em grande medida, se impor com o aval do cientificismo. Isto não apenas estava inculcado no espírito do seu tempo, como era nas letras brasileiras uma novidade positiva. Neste sentido, ajudou a marcar não apenas o seu território, mas o de autores de menor sucesso em vida, como Augusto dos Anjos.

O que garantiu a sobrevivência de Os Sertões, no entanto, foi o embate entre esse iluminismo laboratorial da prosa e a ferocidade bruta dos fatos. E Euclides (ele assim o afirma) parte sempre dos fatos. É isto que faz do seu livro a história de uma conversão, de alguém que mergulha numa experiência dantesca e sai dali transformado para sempre e, em grande medida, transformado num antagonista do que fôra.

Os Sertões é (entre outras coisas) a narrativa de como uma visão-do-mundo trinca, se estilhaça, e desmorona ao contato do mundo. Para ficar no tom cientificista, é a história de um “conceptual breakthrough”, o termo de Peter Nicholls para aquelas histórias de ficção científica em que um indivíduo percebe de repente que vivia num mundo ilusório, e que o “mundo de verdade” é algo maior e mais terrível (como Neo em Matrix, como Ragle Gumm em O Tempo Desconjuntado). 

Wilson Martins (História da Inteligência Brasileira, vol. V) sugere um parentesco, ainda a ser estudado, entre Euclides e Victor Hugo, comparação que não deixa de evocar o epíteto de “Hércules-Quasímodo” com que ele descreve o sertanejo. Os dois autores são “épicos, dramáticos e trágicos”, e ambos têm uma fascinação pelo lumpen, pelo ser humano reduzido à miséria mais extrema (como os truões do Pátio dos Milagres, em Nossa Senhora de Paris), o mendigo andrajoso que mesmo dentro do abismo se agiganta e dá trabalho. 


Um paralelo que não vejo ser muito explorado por aí (mas devo estar comendo mosca) é o do livro de Euclides com O Coração das Trevas de Joseph Conrad. São obras praticamente contemporâneas: Heart of Darkness saiu primeiro na revista Blackwood’s Magazine em 1899 e em forma de livro em 1902 – o mesmo ano de Os Sertões.

Em ambas se narra uma jornada lenta e aterradora rumo a uma sucessão de violências inimagináveis, praticadas em nome da cultura e da civilização. O “centro” da tragédia do livro de Conrad é Mr. Kurtz, um gerente comercial que comanda grupos de nativos na África e negocia com marfim: “um emissário da piedade, da ciência e do progresso”. Na transposição de Francis F. Coppola para o cinema, Apocalipse Now, ele se transforma no Coronel Kurtz, oficial norte-americano na guerra do Vietnam – o que faz o filme de Coppola chegar ainda mais perto do livro de Euclides.


Algumas das passagens mais chocantes de Os Sertões mostram que depois de um certo ponto soldados e jagunços não se distinguiam mais uns dos outros, todos esfaimados, maltrapilhos, mergulhados na demência da chacina permanente. Tal como as volantes que perseguiam os cangaceiros, era quase impossível distinguir os caçadores da caça.          


Esse clima alucinatório de guerra é evocado na famosa sequência, perto do final de Apocalypse Now, em que o barco norte-americano avança silenciosamente pelo rio noturno, por entre margens repletas de fogueiras, cruzes, caveiras, corpos empalados. É a chegada ao núcleo da barbárie de que aquela civilização se alimenta a pretexto de extingui-la, e lembra a descrição de Euclides do caminho que leva ao arraial, após o massacre da Terceira Expedição:

Os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas... (...) Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo. (...) 

Quando, três meses mais tarde, novos expedicionários seguiram para Canudos, depararam ainda o mesmo cenário: renques de caveiras branqueando nas orlas do caminho, rodeadas de velhos trapos, esgarçados nos ramos dos arbustos, e, de uma banda – mudo protagonista de um drama formidável – o espectro do velho comandante... (“Expedição Moreira César, VI”) 

O Coração das Trevas e Os Sertões são como aqueles pontos correspondentes no do-in ou na acupuntura, muito distanciados no corpo, mas basta tocar um deles para que o outro responda de imediato. São duas extremidades de alguma coisa mais profunda. 








quarta-feira, 17 de julho de 2019

4485) Quatro dias de Flip (17.7.2019)





Esta foi minha terceira ida à Flip, mas a primeira como convidado oficial. Estive lá no ano em que o homenageado foi Graciliano Ramos, e depois quando a homenageada foi Ana Cristina César.

A primeira ida me rendeu esta crônica, “Baleia na Flip”:


A Flip é criticada em alguns setores por ter um viés meio elitista – é um evento caro, numa cidade onde um prato com seis bolinhos de bacalhau custa 50 reais. “Uma bolha de intelectuais ricos”, dizem por aí. 

Verdade, mas essa bolha retangular se rompe quando a gente sai do Centro Histórico (que tem algo de Parque Temático Vintage-Futurista) e vai para a Paraty real, aquelas avenidas cheias de lotéricas, malharias, agências bancárias, sapatarias, postos de gasolina, açougues, mercadinhos, e botequins mainstream, com cerveja a preço de cerveja, tiragosto a preço de tiragosto.

É uma bolha permeável, cuja membrana fica a cinco minutos de caminhada.


Fora isso, me parece que a programação cultural está cada vez maior, mais variada e mais participativa. Mesmo com acesso livre à Tenda principal, foi o ano em que vi menos palestras, porque lá fora as oportunidades se multiplicam.

E outra coisa – muitos vão a passeio, eu vou a trabalho. Fiz duas mesas que me pareceram ótimas, a primeira sobre Literatura de Cordel, com Jarid Arraes e Sofia Nestrovski, e a segunda sobre Literatura Fantástica, com Mariana Enríquez e Rita Mattar. Sempre com a conversa fluindo bem, e público atento. Só tenho o que agradecer a todas elas.


Tive um almoço muito proveitoso com meus amigos da Companhia das Letras: Fernando Rinaldi, Marcelo Ferroni e Luara França, estes últimos parceiros antigos de vários projetos. E há mais idéias botando a cabeça na linha do horizonte.

Reencontrei amigos antigos, que não via há bastante tempo: Zuza Homem de Melo e Ercília, Lincoln Cunha e Giovana Damaceno, Juca Novaes (leia-se Festival de Avaré), Vladimir Carvalho e Lucila Garcez, Mônica Maia...

Troquei livros com o cordelista paraibano Paulo Cavalcanti, que com sua simpatia e seu chapéu de couro, à entrada da ponte, tornou-se parte da paisagem de Paraty. Gravei entrevistas para grupos de jovens que a cada ano me parecem mais jovens, e mais espertos.


Perdi muita coisa. Não vi algumas palestras que tinha muita vontade de ver: José Miguel Wisnik, Ailton Krenak & Zé Celso, Marilene Felinto, José Murilo de Carvalho... E os desconhecidos, claro – as novidades, as revelações, o primeiro encontro com uma voz e uma obra literária que daí em diante passam a fazer parte de nossas vidas.

Perdi a entrega do Prêmio Argos, na “Casa Fantástica”, cheia de amigos e conhecidos, mas fiquei feliz ao ler a crônica de Gerson Lodi-Ribeiro e ver que nosso fantástico continua fumegante como uma engrenagem steampunk. Perdi a palestra de Glenn Greenwald na Flipei, com toda a agitação e ameaça que a cercou, e que acabou sendo a principal faísca do choque de placas tectônicas por que o país está passando.


Perdi apresentações de amigos como Cátia de França e Chico César, lançamento de livro de José Teles. Não deu tempo de ir na casa dos poetas independentes, embora tenha tido breves encontros, sempre saborosos, com Mano Melo, Tavinho Paes, Marcelino Freire e outros.

Como já falei, fui a trabalho, e por conta de um projeto sobre Cordel que estou desenvolvendo, boa parte do meu tempo foi consumida, na sexta e no sábado, no espaço do cordel instalado na sede do Iphan em Paraty, na Praça da Matriz. Ali o tempo pára e a conversa nos arrebata numa espiral de risadas e rimas, com os irmãos Arievaldo e Klévisson Viana, Moreira de Acopiara, Severino Honorato, Dalinha Catunda, Anilda Figueiredo, Aninha Ferraz e tantos outros poetas.


A Flip é uma festa, sim, e como toda festa vale tanto pelo que ocorre no salão principal quanto pelo que se agita ao redor. Lembra o antigo e saudoso Festival de Areia paraibano, com as noites frias, a praça cheia de gente soprando bafo quente nas mãos e tomando cachaça pra esquentar, músicos de rua tocando forró ou jazz, grupos de gente-de-fora se cruzando incessantemente nas ruas, olhando com curiosidade cada placa, cada fachada, cada pedra do chão.

Foi oportuno, por parte da curadora Fernanda Diamant, escolher Euclides da Cunha como patrono. É um personagem que encarna, como poucos, as qualidades e os defeitos da nossa intelectualidade, dos nossos militares, dos nossos jornalistas, dos nossos homens de letras, dos nossos cidadãos, dos nossos cientistas.

Em sua palestra de abertura, Walnice Nogueira Galvão lembrou, e descreveu com detalhe, que as fake news não foram inventadas com a Internet, e que fervilharam também durante a campanha de Canudos, com dezenas de matérias pseudo-jornalísticas omitindo os massacres de gente indefesa e inventando uma suposta conspiração monarquista internacional que usaria Canudos para derrubar a República.


O Brasil ainda é o mesmo de Euclides, tanto o Brasil real quanto o Brasil oficial “caricato e burlesco” que Ariano Suassuna tanto citou (a imagem é de Machado de Assis). 

Os eventos literários nos servem de espelho, que alguns usam para retocar a aparência, e outros para procurar os sinais de mudança.

E como disse Euclides:

Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
a mesma luz pusesse em traços vivos
o nosso coração e a nossa face;

e os nossos ideais, e os mais cativos
de nossos sonhos... Se a emoção que nasce
em nós, também nas chapas se gravasse
mesmo em ligeiros traços fugitivos;

amigo! Tu terias com certeza
a mais completa e insólita surpresa
notando – deste grupo bem no meio –

que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.















domingo, 25 de maio de 2014

3508) Os outros Sertões (25.5.2014)



(ilustração: Gabriel Arcanjo)

Se eu fosse dono de uma editora profissional e Euclides da Cunha me trouxesse o manuscrito de Os Sertões para avaliação, eu diria (claro, desde já beneficiado por quilômetros de leituras e séculos de discussão que não posso eliminar da memória estalando o dedo):

“Doutor Euclides, seu livro é um monumento. O que tem de literário é magnífico, e o que tem de científico é rigoroso e ousado.  Mas como todo monumento ele tem as dimensões de uma montanha. É preciso aproximar-se dele aos poucos, conquistá-lo por estágios sucessivos. O senhor sabe disso.  Tanto é assim que escolheu uma gradação do mais amplo para o mais específico: a paisagem, os personagens, e por fim a luta.  Mas pense se essa estrutura fosse invertida. Primeiro, a Luta, a sangrenta batalha de Canudos.  Finda esta, é como se o nosso ponto de observação se distanciasse, e víssemos o Homem, populações inteiras agindo, nascendo, morrendo, lutando. E depois a Terra, a terra que precedeu a nós todos e que nos sucederá, a terra eterna, a terra que resistirá a tudo, até a nós.”

Acho que Euclides exclamaria “Humpf!” e iria em busca de outra editora. Publicaria o livro exatamente como ele está até hoje, que invalida meu universo paralelo acima. Mas há precedentes. Consta que a ordem dos capítulos do Almoço Nu de Burroughs foi determinada pela ordem em que eles chegavam pelo Correio aos responsáveis pela edição, que eram Allen Ginsberg e Jack Kerouac. (Eu dou por vista a aventura que é trabalhar com dois produtores ajuizados como estes.)

Meu Sertões seria uma versão convincente por si só, sem precisar de comparações com a versão real.  Parece que Euclides quis de propósito tornar o primeiro degrau o mais alto de todos, o primeiro trajeto o mais penoso e comprido.  Fez como Dante, que começou a sua Comédia pelo inferno, como que sugerindo que não há nenhum caminho para o Paraíso que não tenha de atravessar aquilo mais cedo ou mais tarde.  O Purgatório meramente prepara a queda de paraquedas no Paraíso.

No meu, primeiro a batalha!  Não duvido que arrebatasse os leitores.  Mesmo que só lessem isso, teriam tido uma experiência literária inesquecível. Incompleta, claro, mas qual é a experiência literária completa?  Muitos quereriam ler, depois do relato do massacre, a descrição da vida e dos hábitos do vaqueiro.  Seria como ressuscitar os jagunços mortos. A vida continuava.  E na terceira parte, como numa bomba de nêutrons, os humanos desapareceriam e ficaria somente a terra árida, a terra desolada, a terra do sol, a terra perseguida; e a última coisa no mundo seria a descrição científica e impessoal dessa terra sem ninguém.





terça-feira, 8 de março de 2011

2498) Literatura e joguinhos (8.3.2011)




Os videogames são uma das formas de narrativa mais interessantes inventadas nas últimas décadas. (Neste caso, estou colocando no mesmo saco produtos distintos, como o game de PC, que roda através de um CD-Rom ou DVD, e o game de console, que é plugado na TV e roda com cartucho). Ele é a confluência entre os jogos de mesa-e-tabuleiro como War ou Banco Imobiliário, o cinema de animação e a TV.

Dizem que os literatos e os intelectuais em geral têm preconceito contra os games. Bem, talvez esse preconceito exista “em geral”, mas sei de numerosos casos particulares em que sujeitos sérios (como eu) se afeiçoam a certos jogos e não acham que estão perdendo seu tempo. Nos casos em que o preconceito existe, ele usa, curiosamente, termos parecidos com os das pessoas que não gostam de ficção científica. Ou seja: 1) É coisa de garoto, não de adulto; 2) É coisa de americano, não tem nada a ver com a realidade brasileira; 3) Só trata de guerra, violência, monstros. São verdades parciais, e todo preconceito é alimentado por verdades parciais que alguém transforma em generalizações definitivas. Não importa se um milhão de negros são trabalhadores; basta o preconceituoso ver um negro com preguiça para dizer: “Tá vendo? Todo negro é preguiçoso”.

Sugiro a leitura deste artigo (http://tinyurl.com/6aupee5) no saite da Livraria Saraiva, em que escritores brasileiros jovens (Daniel Galera, Antonio Xerxenesky, Samir Machado, Simone Campos) dão seu depoimento sobre sua vivência com os games e o modo como eles estão sendo assimilados em seus romances e contos.

A grande contribuição dos games é quanto à narrativa, porque eles propõem uma interatividade que a literatura-de-livro só pode oferecer até um certo ponto. Existem games violentos, mas porque o mercado se estruturou assim. E por falar nisso, também existem livros violentos. Assim como temos hoje histórias em quadrinhos adaptando a obra de Proust, nada impede que daqui a algumas décadas tenhamos um videogame do Ulisses de Joyce, em que o jogador passeará por Dublin, terá acesso à infância de Stephen Dedalus, encherá a cara com Bloom num bordel, poderá bisbilhotar as aventuras extraconjugais de Molly... Se houver mercado para isso, acontecerá.

Nada impede que tenhamos um dia um game da Guerra de Canudos, usando material fornecido por Euclides da Cunha, Vargas Llosa, Manuel Bombinho e outros. Nada impede que o Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, possa virar um imenso universo interativo, reproduzindo antigas e novas aventuras. O que era literatura (texto, palavras, frases) pode virar game (imagens, som, movimento, narrativa, interatividade), com alguma perda estética neste processo, mas também com a possibilidade de ganhos estéticos. É irrelevante essa discussão boba de “quem é melhor, a literatura ou o game”. O melhor meio é o que atrai maiores talentos individuais. Já foi a literatura, mas nada obriga que seja assim eternamente.

sábado, 8 de maio de 2010

2015) O soneto de Euclides (23.8.2009)



O caderno “Prosa & Verso” do Globo, dias atrás, publicou um soneto de Euclides da Cunha que eu lembrei de ter lido em algum compêndio escolar, mas tinha esquecido por completo. 

O original está manuscrito por cima de uma foto de Euclides, entre amigos, numa comissão de exploração do Alto Purus, na Amazônia, em 1905. E merece um pequeno exame. Diz o soneto: 

Se acaso uma alma se fotografasse 
de sorte que, nos mesmos negativos, 
a mesma luz pusesse em traços vivos 
o nosso coração e a nossa face; 

e os nossos ideais, e os mais cativos 
de nossos sonhos... Se a emoção que nasce 
em nós, também nas chapas se gravasse 
mesmo em ligeiros traços fugitivos; 

amigo! Tu terias com certeza 
a mais completa e insólita surpresa 
notando – deste grupo bem no meio - 

que o mais belo, o mais forte, o mais ardente 
destes sujeitos é precisamente 
o mais triste, o mais pálido, o mais feio. 

É um clichê, é a fantasia romântica sobre a possibilidade de enxergar a verdadeira alma de alguém; mas a idéia de que a luz gravasse sobre os “negativos” essa alma ressalta a curiosa contemporaneidade entre a fotografia e o espiritismo. 

O primeiro daguerreótipo é de 1839. A primeira manifestação mediúnica das irmãs Fox foi em 1848. Na década de 1890, a Society for Psychical Research produziu na Inglaterra uma imenso arquivo de fotos de materializações de ectoplasma, visualização de espíritos, etc. Sessões de médiuns famosas como Eusapia Palladino (1854-1918) e Eva Carrière (1886-?) foram extensamente fotografadas. 

A idéia de fotografar a alma (do médium, ou alheia) não era um devaneio de Euclides, era uma pesquisa que dezenas de cientistas sérios levavam a cabo nessa época. 

O sentido moral do soneto, o que me parece ser o objetivo do poeta, é a idéia convencional de que essência e aparência são contraditórios, “quem vê cara não vê coração”. O poema parece uma versão menos “dark” de O Retrato de Dorian Gray de Wilde, se tomarmos “retrato” como sinônimo de “foto” e não de “pintura a óleo”. 

A releitura, agora, me trouxe outro ponto de vista. Este soneto sempre me pareceu dizer, em seu desfecho: “Esse indivíduo que você está vendo nesse grupo, esse indivíduo tão belo, tão forte, tão ardente, é na verdade o mais feio de todos, e nós perceberíamos sua feiura, se pudéssemos enxergar sua alma”. 

Mas como o poeta coloca entre esses dois tipos um sinal de igualdade, é possível ler também o inverso: “Sabem quem é o mais belo, forte e ardente desses indivíduos? É precisamente esse que, quando o vemos apenas por fora, é de todos o mais triste, pálido e feio”. 

É o sertanejo. O sertanejo “desgracioso, desengonçado, torto” que de início despertou menosprezo em Euclides, mas aos poucos o conquistou pela sua bravura, estoicismo, grandeza moral. Fotografado de fora, era o “Hércules-Quasímodo”. Quando emergiu de si mesmo, transfigurou-se no “titã acobreado e potente”, graças ao olho-câmara do poeta-jornalista.