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terça-feira, 21 de junho de 2022

4835) A arte do acróstico (21.6.2022)



 
Bons redatores assinam um livro iludindo olhares; teoricamente, a verdadeira arte revela-se entre segredos.
 
O parágrafo acima é um acróstico. Se você não sabe o que é um acróstico, mexa-se, bote para funcionar as pequeninas células cinzentas.
 
O acróstico é um dos muitos jogos de palavras (“wordgames”, “jeux de mots”) que são praticados há séculos, talvez há milênios, em muitas culturas, e sempre despertam nas pessoas de senso prático uma surpresa contrafeita: “Mas que besteira, que perda de tempo, para que serve isso?”
 
O acróstico, como recurso da escrita poética, por exemplo, não é muito diferente da rima. A rima consiste em repetir, a intervalos regulares, os mesmos sons, palavras que contenham sons iguais ou parecidos.
 
A rima tem o pretexto de produzir um efeito estético, quase melódico. Enquanto nossa mente intelectual decifra o “conteúdo” das palavras, nossa mente sensorial vai registrando essas repetições, uma série de pequenas expectativas sonoras que logo são satisfeitas.
 
Já o acróstico... é quase invisível. Ninguém lê um poema prestando atenção à letra inicial de cada linha, a menos que tenha uma razão prévia para isso.


Eis aqui um exemplo básico, do poeta Leandro Gomes de Barros, assinando seu nome no folheto História do Cachorro dos Mortos:
 
Leitor não levantei falso
Escrevi o que se deu,
Aquele grande sucesso
Na Bahia aconteceu,
Da forma que o velho cão,
Rolou morto sobre o chão
Onde o seu senhor morreu.

No tempo dos reis, os poetas costumavam usar o nome dos soberanos, numa coluna vertical de letras, para compor seus poemas. Poemas religiosos e devocionais eram feitos no mesmo sistema.


C. C. Bombaugh, em seu fascinante “almanaque” de curiosidades (Oddities and Curiosities of Words and Literature, Dover, 1961, ed. Martin Gardner) dá exemplos de três modalidades: o acróstico (onde palavras são formadas com as letras iniciais dos versos, lidas verticalmente), o mesóstico (o mesmo, só que com a letra mais ou menos no meio do verso) e teléstico (com a letra final de cada linha).
 
Ele chega a dar um exemplo latino, onde as três formas são usadas ao mesmo tempo:
 
Inter cuncta mitans   Igniti sidera coelI
Expellit tenebras  E todo Phoebus ut orbE
Sic caecas removet JeSus caliginis umbraS
Vivificansque simul Vero praecordia motV
Solem justitiae Sese probat esse beatiS
 
A palavra “Jesus” é formada três vezes na vertical, usando a tradição latina em que J e I se equivalem, e o mesmo para U e V.
 
Na literatura do cordel, o acróstico começou como uma forma do poeta assinar o folheto disfarçadamente, para se prevenir de plágios e apropriações. Depois que o recurso se revelou aos olhos de todos, os plagiários ficaram alerta, e ele deixou de servir de proteção. Tornou-se uma tradição, um floreio estilístico, como neste exemplo de Antonio Américo:



Assinar disfarçadamente um texto era um desafio e um passatempo para muita gente. Edgar Allan Poe, depois de ficar viúvo, teve um namoro breve com uma dama, Frances Sargent Osgood, e dedicou-lhe um poema, “A Valentine”, com assinatura disfarçada. As letras do nome dela apareciam de uma em uma: a primeira letra da primeira linha, a segunda letra da segunda linha, a terceira da terceira, e assim por diante.
 
Eis as quatro primeiras linhas do poema (que tem 20 linhas, usando as vinte letras do nome):
 
For her this rhyme is penned with luminous eyes,
BRightly expressive as the twins of Laeda,
ShAll find her own sweet name, that nestling lies
UpoN this page, enwrapped from every reader.
(…)
 
...e por aí vai. O poema completo pode ser lido aqui:
 
https://en.wikisource.org/wiki/The_Works_of_the_Late_Edgar_Allan_Poe/Volume_2/A_Valentine
 
Pode-se usar também o acróstico num texto em prosa, onde ele acaba se diluindo e praticamente desaparecendo.
 
Há um episódio literário em que um acróstico serviu de armadilha para enganar um autor. O escritor A. N. Wilson começou a escrever uma biografia de Sir John Betjeman, “Poeta Laureado” da Inglaterra. Esse trabalho provocou uma reação de ciúme de outro biógrafo do poeta, Bevis Hillier. Wilson publicou uma carta atribuída ao Poeta, e depois ficou provado ser ela uma falsificação: as letras iniciais das frases, a partir da segunda, formavam a frase em acróstico “A. N. Wilson is a shit” (“A. N. Wilson é um merda”). Depois, Hillier confessou ser o autor da “pegadinha”.
 
A imagem abaixo, que peguei na Internet, mostra uma experiência curiosa, aparentemente assinada por “Sairam Gudiseva, 3º. Período”. Ao invés de letras, usa palavras inteiras. É um trabalho escolar sobre Física Quântica, mas na vertical o autor ou autora colocou versos de uma canção pop de Rick Astley. 


As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 
 
 
 
 





terça-feira, 11 de setembro de 2018

4384) Lamentos sertanejos (11.9.2018)




“Ó Deus, perdoe esse  pobre coitado, que de joelhos rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar”.

Esta é a “Súplica Cearense”, de Gordurinha, gravada por Ari Lobo.


Essa música é um clássico de um tipo de canção nordestina que alguns chamam de protesto, mas eu acho que “protesto” é um guarda-chuva amplo demais, cabe desde certas litanias de Bob Dylan até o Faces do Subúrbio ou Mano Brown.

Poderíamos chamar esse gênero de queixume nordestino, com a desvantagem de que queixume parece a muitas pessoas uma palavra apequenadora, quando não é essa a intenção.

Lamento seria melhor; um lamento sertanejo, como o de Dominguinhos e Gilberto Gil: “Por ser de lá, do sertão, lá do cerrado, / lá do interior, do mato, / da caatinga, do roçado...”

Considerado como subgênero, podemos pendurar aí títulos como “Meu Cariri” e “Aquarela Nordestina” de Rosil Cavalcanti; “Triste Partida” de Patativa do Assaré, com Luís Gonzaga; “Acauã” de Gonzaga.

Mas a súplica do nordestino daquele canção inicial de Gordurinha não é a súplica de um mero desgraçado. Acaba sendo na verdade uma intimação. Um questionamento feito a Deus pelo nordestino, cara a cara, sem intermediários. O tête-à-tête é respeitoso, mas altivo. “Meu Deus, se eu não rezei direito o senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi – desse pobre que nem sabe fazer oração...” 

Existe um sarcasmo impotente nessa auto-depreciação diante do monarca. Não é um apequenamento. É a polidez do herói de cordel, respeitoso, chapéu apoiado ao peito, questionando diplomaticamente o Dono do Mundo na presença de toda a sua corte de vizires.

Sim que o “ai ai meu Deus, tenha pena do Nordeste” da “Aquarela Nordestina” acaba se revelando um gemido mesmo, mas a variedade de tons e de filosofias nessas letras mostra que não se trata de se queixar da vida. Em sua maior parte, essas canções são painéis visuais, panorâmicas vagarosas. Numa paisagem visualmente perfeita como a da letra de Rosil Cavalcanti:


No Nordeste imenso, quando o sol calcina a terra,
não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.
Juriti não suspira, inhambu seu canto encerra,
não se vê uma folha verde na baixa ou na serra.

Acauã bem do alto do pau-ferro canta forte
como que reclamando nossa falta de sorte.
Asa branca sedenta vai chegando na bebida;
não tem água a lagoa – já está ressequida.

Ou então um retrato de uma pequena odisséia social nos versos de Patativa do Assaré em "Triste Partida":


(...)
O carro já corre no topo da serra
olhando pra terra seu berço, seu lar,
aquele nortista partido de pena
de longe ele acena, adeus meu lugar...

No dia seguinte já tudo enfadado
e o carro embalado veloz a correr,
tão triste coitado falando saudoso
um seu filho choroso exclama a dizer:

– De pena e saudade papai sei que morro,
meu pobre cachorro quem dá de comer?
Já outro pergunta: – Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato, Mimi vai morrer...

Essas canções, são lamentos, sim, são queixas sem grandes esperanças, são o mergulho corajoso rumo ao fundo do poço para ver se depois dele existe uma saída.

Vi uma vez em algum curta-metragem sobre o sertão uma voz em off perguntar a um velho sem dentes, de roupa rasgada, quase centenário:

– O senhor acha que o sofrimento do povo daqui é muito?...

O velho olhou para um lado, cuspiu de banda e retorquiu:

– É mió dizer que sim, né? Se disser que é pouco, mandam mais.

Essa capacidade para a auto-ironia acompanha passo-a-passo a tendência ao lamento, à súplica, ao desespero melodramático que tanto encanta o sertanejo pobre quando transformado em literatura, como em certos romances de cordel:

Nasci num berço de dores
criei-me entre os pesares
a dor, a tristeza e pranto
são meus extremosos lares
meu fado foi o carrasco
que sepultou-me nos mares. (...)

Que sorte tenho, ó meu Deus
que tudo de mim se esconde
se como não sei o que
se durmo não sei aonde
se choro ninguém me afaga
se chamo ninguém responde.

Ó mar, se algum dia ainda
passar aqui povo meu
revele uma desdita
que assim jamais se deu
dizei que dentro de ti
Cecília Afra morreu.

(A Estória de Cecília Afra – Três Suspiros de uma Esposa, de Teodoro Ferraz da Câmara, 1904-1960)

Essa veia do lamento retórico exprime uma das contradições do temperamento do sertanejo pobre: quanto mais seco, mais atenção ele presta ao derramamento sentimental; quando mais rude, mais vulnerável a imagens hiperbólicas de extravasamento de emoções.

Como se essa linguagem poética de queixumes-em-altas-vozes fosse a única maneira possível de jogar para fora tanto sofrimento curtido em silêncio ao longo de décadas por pessoas que têm vergonha de chorar ou de se emocionar em público.

Daí que os grandes momentos da emoção sertaneja acabam sendo os momentos mais contidos, onde um apocalipse inteiro se condensa numa sextilha, num par de versos, numa trova, num pequeno espaço de texto onde se deposita o peso de uma vida inteira de derrotas e aprendizados.

Como os versos de Leandro Gomes de Barros, tantas vezes recitados por Ariano Suassuna:


Se eu conversasse com Deus
iria lhe perguntar:
por que é que sofremos tanto
quando viemos pra cá?
Que dívida é essa que o homem
tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
como é que ele é feito;
que não dorme, que não come,
e assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
a gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
e outros que sofrem tanto,
nascidos do mesmo jeito,
criados no mesmo canto?
Quem foi temperar o choro
e acabou salgando o pranto?











sexta-feira, 3 de agosto de 2018

4373) "O Homem Que Subiu em Aeroplano Até a Lua" (3.8.2018)





Uma das primeiras histórias brasileiras de viagem à Lua é a do folheto de cordel O Homem que Subiu em Aeroplano Até a Lua (NHUFQDN). A edição mais antiga que já vi foi uma de 1923, atribuída a João Martins de Athayde. Foi essa a atribuição que usei num artigo, “A Ficção Científica no Cordel”, que fiz para uma antologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Volta ao Mundo da Ficção Científica, ed. Edgar Cézar Nolasco e Rodolfo Rorato Londero, Campo Grande: UFMS, 2007).

No arquivo online da Casa de Rui Barbosa (RJ) pode-se consultar e ver a capa de outra edição, de “6-10-47” (ver ilustração acima), igualmente atribuída a Athayde sob a dúbia rubrica de “editor proprietário”. No entanto, checando tempos depois a Literatura Popular em Verso da própria Casa vi que Sebastião Nunes Batista, que entende do assunto mais do que eu, atribui a autoria a Leandro Gomes de Barros – como tantas outras obras de Leandro, talvez, de que Athayde se apossou editorialmente.

O texto completo, digitalizado:


(Leandro x Athayde)

O folheto em si é uma aventura onde a ida à Lua tem duas partes. A primeira é um pretexto para um conflito armado entre terrestres resolutos e selenitas indóceis. Uma aventura de cinema mudo, escrito numa época em que talvez ainda fosse possível entrar num cinema do Mercado São José e assistir um “filme de efeitos especiais” de George Méliès. A segunda parte é uma fantasia.

Antes da viagem ser realizada, somos levados à oficina de Baratão, o herói da história. É uma mistura dos famoso “Marcos e Obras” inexpugnáveis com uma certa “ciência gótica”, em que nomes de mecanismos ou de processos técnicos são invocados “do nada” para dar colorido imagético, para dar prosseguimento à história, ou para resolver uma enrascada descritiva.

O bueiro da officina
era grosso e tão comprido
como a Torre de Babel
de ferro só construído!
O motor era um damnado
corria tão apressado
que só se ouvia o zunido.

Essa officina fazia
espadas, lanças, couraças,
cada um canhão pavoroso
que tinha mais de cem braças
e um tiro desse canhão
derrubava um batalhão
nem que tivesse mil praças.

Uma vez foi Baratão
aos engenheiros e disse
que inventassem um motor
que até a lua subisse
gritou a todos zangado
que o motor fosse inventado
nem que a cachola partisse.

A engenhoca é entregue um mês depois, porque no cordel tudo ocorre tão magicamente como no velho cinema mudo. A realidade exibida ali é tão frágil que a gente tem medo de fazer um só questionamento e ela vir abaixo. Não se deve tocar nunca numa bolha de sabão, nem mesmo se ela for retangular, suspensa no escuro.


(Le Voyage dans la Lune, Georges Méliès, 1902)

A narrativa tem menos de Julio Verne do que de Terry Gilliam (são muito afins com o cordel , p. ex., os contos do Barão de Munchausen). Quando o aeroplano fica pronto, ele resulta numa coisa muito próxima àquele monstrengo de avião que o milionário Howard Hughes construiu na marra, e Scorsese fez um filme.

Era uma coisa horrorosa
a tal machina inventada,
uma légua de comprida
depois que ficou armada; (...)

Baratão vai à Lua e os detalhes podem ser consultados online no saite da Casa de Rui Barbosa. A “máquina” pousa mas todos continuam adormecidos a bordo, o que anima os selenitas a atacá-los; mas eles não são terrestres à toa, e a reação é pesada.

Daí a pouco foi sangue
que fez lagoa no chão...

Uma escaramuça mortal não muito diversa da que H. G. Wells imaginou para os seus First Men on the Moon (1901). Romance, aliás, adaptado para o cinema em 1919 por Bruce Gordon. Como Leandro morreu em 1918, não poderia ter assistido o filme. Athayde sim, pois só morreria em 1959, e além do mais era frequentador assíduo dos cinemas do Recife.


(The First Men on the Moon, de Bruce Gordon, 1919)

A narrativa tem uma guinada interessante rumo à segunda parte. Estes selenitas iniciais, que destroem a nave, logo dão lugar a uma estrada, uma cidade, um palácio, e um Sultão, pai de uma bela princesa, chamada Amante. (Digressão: O rei benévolo ou desconfiado, e a princesinha em oferta: estes arquétipos são mais difíceis de destruir do que um andróide.) Vira uma história romântica das Mil e Uma Noites, e Baratão, plenamente à vontade na diplomacia, pede e consegue a mão da moça.

A história, que neste segmento vinha totalmente oriental, com certa coerência, no momento de emoção maior vê a mão nordestina do autor ficar pesada:

Quando Amante soube disso
de alegria desmaiou
nesse dia foi um frêvo
e todo povo dançou
foi banquêtes mais banquêtes
buscapé bomba, foguêtes
toda a corte formou.

O casamento tem as mesmas imagens singelas das histórias sonhadas dos prinspos e das prinspas do sertão:

Uma enorme carruagem
dois mil carros enfeitados
os arreios dos cavallos
eram todos prateados
as igrejas repicavam
e todas flores jogavam
sobre os noivos acclamados.

Imagens que lembram o “Romancinho” de Cecília Meireles, o poema da mocinha pobre que corre à beira da estrada para ver passar o filho do rei.

O triunfo final da fantasia é que nem passa pela cabeça de Baratão consertar o aeroplano (que os selenitas escangalharam) e voltar para a Terra.

Personagem de fantasia se assimila mais facilmente ao reino que descobre. Quem geralmente quer voltar de qualquer maneira é o personagem de ficção científica.  Foi profetizado e cumprido, com imaginação sociológica, por John Kennedy: “Vamos levar um homem até a Lua – e trazê-lo de volta em segurança”.

“Trazer de volta para a Terra” é um preceito humanista da corrida espacial, relacionado ao “nenhum homem será deixado para trás” dos soldados em combate.

Os norte-americanos nunca perdoaram os russos por Laika, e apesar de alguns problemas retumbantes a NASA parece ter sido mais cuidadosa com a vida humana do que o programa espacial soviético. Mas como Baratão pertence a outra estirpe, não fez a menor questão de voltar ao nosso planeta:

Quem duvidar dessa historia
vá na lua perguntar
por signal toda a familia
de Baratão ha de encontrar
si a vida lá for boa
e si não ficar à tôa
não queira mais lá voltar.






(Le Voyage dans la Lune, Georges Méliès, 1902)





terça-feira, 2 de maio de 2017

4231) Descoberto um precursor do cordel nordestino (2.5.2017)






“Parem as máquinas!..” – gritaria o editor de um jornal, naqueles filmes policiais dos anos 1940. Parem de imprimir o jornal de amanhã, que já está quase pronto! Surgiu uma notícia tão sensacional que vale a pena jogar no lixo esse Corcovado de papel agora inútil, e começar tudo de novo. O furo de reportagem vale a despesa.

Os pesquisadores cearenses Arievaldo Vianna (cordelista, biógrafo de Leandro Gomes de Barros) e Stélio Torquato Lima (cordelista, professor de Literatura na Universidade Federal do Ceará) anunciam agora uma descoberta que vai fazer reescrever boa parte das histórias da literatura de cordel (ou Romanceiro Popular Nordestino, como gostava de chamar Ariano Suassuna).

Todos nós que estudamos o assunto consideramos que o primeiro a escrever e publicar folhetos de feira no Nordeste foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), e que o teria feito a partir de meados da década de 1890.  Fala-se também no grande poeta Silvino Pirauá de Lima, mas ao que parece não há folhetos seus, impressos, que comprovem atividade editorial nesse período.

Agora, Arievaldo e Stelio trazem a figura de Santaninha, poeta popular, recitador, rabequeiro, nascido em Touros (RN), criado em Fortaleza, e que teve uma parte importante de sua carreira poética no Rio de Janeiro. A pesquisa está no recém-lançado Santaninha – Um Poeta Popular na Capital do Império (Fortaleza: Editora IMEPH, 2017).

Por ter publicado no Rio, e não no Nordeste, Santaninha foi sempre um nome obscuro. Os cronistas cariocas registravam sua atividade; os autores do livro citam numerosas menções a ele e aos seus versos na imprensa da época. Mas nenhum usa o termo “cordel”, nem parece atribuir maior importância ao “pequeno poeta”, como ele se auto-denominava.

Por outro lado, a maioria dos pesquisadores de cordel devem ter feito o que eu fiz, quando me meti a estudar o assunto: procurava menções nos jornais, catálogos e almanaques das grandes capitais nordestinas, e não do Rio. E assim Santaninha não foi alcançado pelo radar.

Santaninha (João Sant’Anna de Maria, 1827-?) parece ter sido um tipo muito carismático, que cantava acompanhando-se de uma rabeca (que chamava de “Paraibinha”, “Sombrinha” ou “Profetinha”) e vendia folhetos, tanto pessoalmente quanto em pontos de venda fixos, no centro da cidade.

Já no Rio de Janeiro, eis um anúncio típico de sua atividade (Gazeta de Notícias, 5 e 16 de junho de 1881):

[Os folhetos] acham-se à venda na estação da estrada de ferro D. P. II, no quiosque do Luiz de Camões, no largo de São Francisco de Paula, na praça da Harmonia n. 31, no ponto das barcas, num quiosque em Botafogo, no ponto dos bondes e na rua do Resende n. 107.

Os primeiros registros ao seu respeito estão em jornais de Fortaleza em 1873, quando ele é descrito como “bem conhecido e popular”. Nessa época, teria possivelmente cantado para José de Alencar, que estava em visita a sua terra pesquisando para o romance O Sertanejo.

De 1881 em diante ele já aparece na imprensa carioca, anunciando vendas de livretos e até de partituras.

O cantador e cordelista Crispiniano Neto observa em seu prefácio:

[Santaninha] não tinha com quem trocar idéias sobre a Poética desse tipo de poesia do povo, pois estava deslocado no centro efervescente que partia da Serra do Teixeira e invadia o Pajeú, os Cariris e as Borboremas, forjando uma Escola Literária, a mais produtiva e mais variada de todas.

Os autores reproduzem capa de um folheto de Santaninha, do acervo da Biblioteca Nacional, impresso pela Livraria Editora Quaresma, contendo o que são talvez os seus quatro poemas mais conhecidos, publicados originalmente entre 1879-1881:

1) “Guerra do Paraguai”
2) “Imposto do vintém”
3) “O célebre chapéu de sol”
4) “A Seca do Ceará”

Os quatro poemas vêm transcritos integralmente na segunda parte do livro de Arievaldo e Stelio. São poemas em sextilhas, com todas as características que viriam a aparecer 10 ou 12 anos depois nos folhetos de Leandro Gomes de Barros. Há erros ocasionais de ortografia, de rima ou de métrica (que encontramos também em Leandro).  Mas o perfil do Romanceiro está ali, inconfundível e inegável.

Não se tem notícia certa do ano da morte do poeta, mas os autores supõem que ele teria morrido antes de 1888-1889. Sabe-se que ele manifestou (na imprensa do Rio) a intenção de voltar a sua terra natal, e não se tem notícia de obra sua sobre dois fatos como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, sobre os quais um “poeta repórter” como ele não teria deixado de se manifestar poeticamente.

Aqui, um anúncio típico dos que ele fazia publicar na imprensa. É do jornal Monitor Campista (Campos dos Goytacazes-RJ, 4-9-1881):

O pequeno poeta João Sant’Anna de Maria, que toca e canta excelente[sic] versos ao som de sua rabeca Sombrinha, faz tenção, no hoje 4 do corrente, [de] divertir [pela] segunda vez no Hotel da Coroa, por isso faz saber ao respeitável público desta cidade que o divertimento principiará às 4 horas da tarde, e cantará outras variedades. Espera, pois, a muito digna coadjuvação do muito hospitaleiro e ilustrado povo campista. Faz ciente mais que o divertimento será no jardim do mesmo Hotel: a entrada de cada pessoa será de 500 rs. Se não chover.

E algumas sextilhas de A Seca do Ceará, que fala da seca de 1877:

Chegam os pobres arrastados
com a fome com que vêm,
pedindo esmolas aos ricos,
muitos dizem que nada têm;
responde: “Eu estou de saída
para ir pedir também”.

Nesta seca em que nós estamos,
que traz os pobres arrastados,
não pedem só as viúvas,
nem cegos, nem aleijados;
pedem os homens sadios
robustos, moços e barbados.

Não pedem só os caboclos,
negros, pardos e mulatos;
também pede gente branca
que comia em finos pratos,
já hoje come nas cuias
bravas comidas dos matos.

A publicação é da Editora Imeph, de Fortaleza: www.imeph.com.br / imeph@imeph.com.br. 

Santaninha foi aquilo que se costuma dizer agora “o ponto fora da curva”, um exemplo que se desvia notavelmente do comportamento mediano dos demais exemplos. Escrevia seus poemas, fazia imprimi-los e os vendia pessoalmente, cantando-os em público. Arievaldo Vianna e Stelio Torquato afirmam que lhe dão o nome de “Precursor e não de ‘Pai da Literatura de Cordel’, que julgamos ter sido merecidamente associado à figura do bardo de Pombal”.

De fato, Santaninha foi um agente isolado, embora, a partir de agora, nomes semelhantes ao seu possam surgir de novas pesquisas agora direcionadas para o ambiente de onde ele surgiu. O papel crucial de Leandro não foi apenas a escritura de folhetos (outros os escreveram antes dele), mas a ação constante e incansável que acabou deixando de ser apenas a iniciativa de um indivíduo, e sim um “processo de consagração da poesia popular como mercadoria rentável e altamente popular”.

Santaninha criou a própria obra, mas Leandro criou, com sua tenacidade e seu exemplo, gerações inteiras de – olha que ironia num país como o nosso – poetas que viveram da própria poesia.










sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

4206) Menções ao cordel na literatura (3.2.2017)



A pesquisa sobre a história da literatura de cordel no Brasil tem dois caminhos.

O primeiro, mais importante para nós, nordestinos, parte de Leandro Gomes de Barros e os folhetos que ele começou a imprimir em meados da década de 1890, no Recife. É a raiz da nossa literatura popular impressa, porque versos recitados e copiados à mão já circulavam desde muito antes, usando os mesmos temas e as mesmas características formais (estrofes, rimas, etc.) que os folhetos iriam usar. Muitos destes versos estão em obras como Cantadores e Poetas Populares, de F. das Chagas Batista (1929, reeditado em 1997 pela UFPB, João Pessoa), que transcreve versos dos mestres do Teixeira na segunda metade do século 19.

O segundo caminho está plantado no Rio de Janeiro, e diz respeito aos folhetos impressos em Portugal e trazidos para cá ao longo de todo o século 19, como consequência da vinda da corte imperial para o Rio em 1808. São muitas as referências à venda de livretos populares de meados de 1850 em diante. O termo “cordel”, tão debatido pelos estudiosos do assunto, denota o uso de expor dessa forma não somente os folhetinhos em versos, mas (penso eu) todo tipo de livro.

Em seu Como e Por Que Sou Romancista (1873), capítulo VII, José de Alencar usa esta expressão ao contar os percalços de publicação do seu O Guarani (1857), e diz:

A edição avulsa que se tirou d’O Guarani, logo depois de concluída a publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão, pôr um conto e quatrocentos mil réis que cedi à empresa. Era essa edição de mil exemplares, porém trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam à formiga na tipografia. Restavam pois setecentos, saindo o exemplar a 2$000. 

Foi isso em 1857. Dois anos depois comprava-se o exemplar a 5$000 e mais nos belchiores que o tinham a cavalo do cordel, embaixo dos arcos do Paço, donde o tirou o Xavier Pinto para a sua livraria da Rua dos Ciganos. A indiferença pública, senão o pretensioso desdém da roda literária, o tinha deixado cair nas pocilgas dos alfarrabistas.

A expressão “a cavalo no cordel” descreve bem o uso dos vendedores: um cordão esticado horizontalmente e os livretos, abertos ao meio, “montados” em cima do cordão.

O termo “belchior” usado por Alencar refere-se aos comerciantes de coisas usadas, que tanto podem ser roupas (vamos lembrar Noel Rosa: “O meu chapéu vai de mal a pior, e meu terno pertenceu a um defunto bem maior – dez tostões no belchior!”, O Orvalho Vem Caindo) como também livros – o Dicionário Houaiss registra o termo como “proprietário de sebo” e “alfarrabista”. Daí a queixa de Alencar.

Os “arcos do Paço” a que o escritor cearense se refere são provavelmente os arredores do Paço Imperial, na praça XV de hoje, como o Arco do Teles, por onde ainda passo eu de vez em quando.

Aquele largo servia como foco de um comércio popular dessa natureza, como confirma Machado de Assis no conto “Uns braços” (1885), recolhido em livro em Várias Histórias (1896), e cuja ação é devidamente datada:

Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870. (...)

É a história de um rapaz do interior que vai estudar no Rio, morando de favor com um casal mais velho, o que gera uma atração entre ele e a dona da casa, situação parecida com a do conto clássico Missa do Galo (em Páginas Recolhidas, 1899).

Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.

Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. 

Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. 

Machado confirma vários detalhes de Alencar, e é bom que “Uns braços” seja explicitamente situado por ele em 1870, o que permite imaginar que a ação descrita por ele era comum nessa época. Machado usa por duas vezes o termo “folheto”. Indica que foram comprados no Largo do Paço. Lembra que eram “contos de outros tempos” e que eram “comprados a tostão”, ou seja, estavam ao alcance da bolsa de um estudante pobre.

E o título lembrado por ele é justamente um dos clássicos, a História da Princesa Magalona, conto de origem francesa minuciosamente estudado por Câmara Cascudo em seus Cinco Livros do Povo (Ed. José Olympio, 1953), e que Cervantes também menciona de passagem no capítulo XL da segunda parte do Dom Quixote, no episódio do cavalo voador de madeira.

Cascudo refere a existência de edições portuguesas do romance em 1625 e 1783, além de numerosas outras em datas posteriores, até o surgimento das versões brasileiras da mão de vários autores, entre eles o inevitável João Martins de Athayde. E observa também que as versões portuguesas eram em quadras (ABCB) e as brasileiras em sextilhas (ABCBDB).

(continua)








terça-feira, 5 de janeiro de 2016

4015) Livros do ano 5 (5.1.2016)



Eu não vivo pesquisando a literatura sobre o Sertão e suas variantes (Cariri, Pajeú, etc.), mas ela não para de me chegar de todos os lados. Fala-se que basta ler Euclides da Cunha ou Guimarães Rosa para saber o que é o Sertão. Não basta. O ponto de vista de um autor é só o dele, por mais rica que seja sua experiência. Nenhum grande autor esgota um assunto; seus livros são o que se chama de “condições necessárias mas não suficientes”. O Sertão (qualquer tema, aliás) é um bufê self-service. Não adianta ficar se servindo de um prato só, por mais bem feito que seja.

Dou o exemplo curioso de dois irmãos escritores com a mesma origem e vivências semelhantes, com dois livros diferentíssimos e complementares que li este ano. Cariris Velhos (2008, http://tinyurl.com/n3sjqlm), de Pedro Nunes Filho, é uma obra de história cultural onde a memória da terra ganha discernimento e foco por meio da pesquisa sobre a colonização desta região da Paraíba. Já No Sertão Onde Eu Vivia (2014, http://tinyurl.com/lf8kguo) de Zelito Nunes é uma recolha de anedotas e episódios pitorescos onde brota o jeito de pensar sertanejo – caririzeiro, pajeuzeiro, etc., porque são tudo cores da mesma luz.

O Sertão, para um urbanóide como eu, é precedido pelas histórias que se contam sobre ele, e que são as roupas com que ele se traja para ser visto em público. Histórias como as assombrações de Maldito Sertão (2012, http://tinyurl.com/ntbp8nv) de Márcio Benjamin, as histórias de fantasmas, coisas ruins, feitiços, criaturas da noite. Ou como os encantamentos de O Monstro das Sete Bocas (2015, http://tinyurl.com/mefb9x7) de minha irmã Clotilde Tavares, onde se misturam lendas orais, enredos de cordel ou de Trancoso, numa cadeia de narrativas-dentro-de-narrativas, com personagens que viram narradores.

O lado cruel do Sertão se revela em livros como O Dragão (reedição de 1999, http://tinyurl.com/pgfeadc) de José Alcides Pinto, um apocalipse a prestação, contando a vida de um povoado lá no calcanhar das botas de Judas, fustigado pela seca, pelas enchentes, pelas epidemias, pela violência onipresente entre pessoas crestadas por um sol indiferente e alucinógeno. É o Sertão mitológico de Euclides e de Rosa, aquele onde “a luz assassinava demais”.

Para entendê-lo, pode ser útil a leitura da obra e da vida do inventor do cordel nordestino, em Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra (2015, http://tinyurl.com/kpbag9b) de Arievaldo Vianna. Os cordéis de Leandro são o Sertão, mesmo quando ele fala dos Pares de França ou da carestia recifense. Para ver o Sertão é preciso ser capaz de olhar para a cidade com os olhos do Sertão, e vice-versa. (Continua)




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

3961) Leandro High Tech (3.11.2015)



Dias atrás participei da VI Feira Literária de Boqueirão (Flibo), o principal evento literário da Paraíba, realizado à força de idealismo e de trabalho voluntário numa cidade pequena e sem muitos recursos. Um exemplo para cidades maiores, no Brasil inteiro, que vivem jogando dinheiro fora e queixando-se de que não têm verbas para a cultura. Dividi uma mesa com Astier Basílio, o qual apresentou um notável trabalho de pesquisa sobre a presença de Leandro Gomes de Barros (o homenageado da VI Flibo) na imprensa do seu tempo. Fiquei surpreendido ao ver como Leandro (1865-1918) era uma figura conhecida no Recife da época, publicando poemas nos jornais e sendo citado nas colunas como um tipo popular, pitoresco, de temperamento satírico e bem-humorado, ainda que (segundo os jornalistas) sua poesia fosse rude e tosca, sem obedecer aos “padrões literários” da época. Pior para os padrões da época, porque ninguém os conhece hoje, e a poesia de Leandro está mais viva do que nunca.

Leandro foi um exemplo notável do encontro daquilo que os escritores da ficção científica cyberpunk usaram como definição de seu gênero: “High tech + low life”. Alta tecnologia e baixa classe social. O computador nas mãos de um favelado. Um gravador nas mãos de um índio. Um piano europeu nas mãos de um negro de Nova Orleans. Um microfone e uma caixa de som nas mãos de um cantor de hip-hop do Harlem. As rádios e gravadoras de discos do Rio de Janeiro nas mãos de um sanfoneiro do Exu. A confluência inevitável entre a cultura dos despossuídos e os produtos da transbordante cornucópia de uma tecnologia que produz maravilha atrás de maravilha e as derrama no mercado sem atentar para suas possíveis consequências, e até mesmo sem meios para impedi-las. (Veja-se como a cópia digital afundou a indústria fonográfica.)

No caso de Leandro, foi o encontro das modestas prensas tipográficas manuais, tornadas obsoletas pela invenção do linotipo, com a poesia oral que se agigantou a partir da Serra do Teixeira por volta de 1850 – uma poesia composta no papel mas transmitida de boca em boca, de memória em memória, ou nos famosos “versos de traslado”, copiados com capricho em folhas de papel almaço por pessoas de boa caligrafia.

Leandro cresceu nessa cultura, e ao se transferir para o Recife usou as prensas tipográficas agora obsoletas (mas que para ele eram “alta tecnologia”) para criar o cordel nordestino ao modelo do cordel português, mas já um cordel distinto em temática, em ambientação, em fraseado, em sonoridade. Cada vez que uma tecnologia nova chega às mãos do Povo, os resultados são imprevisíveis, inevitáveis e irreversíveis. Viva Leandro!



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

3712) "Leandro, Vida e Obra" (16.1.2015)



Já me bati muito aqui nesta coluna por biografias de autores importantes, não para saber fofocas da vida pessoal deles, mas para entender melhor seu processo de formação literária, suas leituras e assimilações (prefiro este termo a “influências”), o ambiente cultural onde viveram, as idéias com que interagiram.  

E também o modo como passaram (quando foi o caso) de autor diletante para autor profissional.  Como lidaram com as reações (boas ou más) de editores e leitores, da crítica, da censura, dos colegas.  Como encararam seu eventual sucesso ou fracasso.  

Uma biografia criteriosa e bem pesquisada nos ajuda a ver como os acidentes de percurso foram dando forma ao jorro de criação do autor, assim como o terreno e as pedras dão forma à correnteza de um rio.

Arievaldo Vianna produziu agora a biografia Leandro Gomes de Barros – vida e obra, publicação conjunta das editoras Queima-Bucha (Mossoró) e Fundação Sintaf (Fortaleza). 

Pode não ser a primeira biografia do criador da Literatura de Cordel, mas é a primeira que encontro, e seu grande mérito é o levantamento de dados pessoais de Leandro, através de documentação bem fundamentada.  O trabalho solitário e por-conta-própria do autor o levou aos descendentes do poeta, principalmente a sua sobrinha-bisneta Cristina Nóbrega, que deu acesso a uma documentação preciosa.

Arievaldo traça a cronologia básica da vida de Leandro, nascido em Pombal (1865), criado em Teixeira até os 15 anos, e depois indo para o Grande Recife, onde ficou até sua morte em 1918. Sem forçar a barra, ele mostra os aspectos autobiográficos dos seus folhetos, inclusive um interessante paralelo entre o anti-clericalismo do seu personagem mais famoso, Cancão de Fogo, e a difícil relação de Leandro, garoto, com seu tutor e tio pelo lado materno, o padre Vicente Xavier de Farias.

O livro tem fotos e reproduções de documentos, citações precisas dos versos de Leandro, e aborda suas relações com outros criadores do cordel como Chagas Batista e João Martins de Athayde.  

A história editorial dos seus folhetos (que Ruth Terra havia abordado em Memórias de Lutas, Ed. Global, 1983) é um tema fascinante, e difícil de reconstituir depois de mais de um século.  

O livro de Arievaldo tem tudo para ser encorpado com novas informações e análises em edições futuras, visto que pesquisas dessa natureza nunca se esgotam. No ano do sesquicentenário do nascimento de Leandro, este livro dá o pontapé inicial para as comemorações de uma explosão da cultura nordestina que só teria paralelo meio século depois, nos anos 1940, com a criação do baião por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.