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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

4876) Balzac e "Em Busca do Absoluto" (24.10.2022)




Estava na minha mira há muitos anos Em Busca do Absoluto (1834) de Honoré de Balzac. Eu imaginava, de início, que se tratava de um alquimista em busca da Pedra Filosofal. Outros comentários, depois, me alertaram para o fato de que não era isso: era o relato de uma aventura científica nos primórdios da ciência experimental moderna.
 
Balthazar Claes é um homem riquíssimo de Douai, norte da França, na região de Flandres. É casado com Josephine, também de família abastada. Durante os vinte anos abarcados pelo livro (de 1812 a 1832), ele consome toda a fortuna da família para financiar seu projeto científico delirante: a procura do Absoluto, do princípio absoluto que está subjacente aos elementos químicos e à propria matéria.
 
Acabei lendo numa tradução inglesa de Ellen Marriage (The Quest of the Absolute, Dedalus/Hipocrene, 1989), mas o livro existe em português, também com o título de A Procura do Absoluto, nas diversas edições da “Comédia Humana”, pela Editora Globo. Faz parte do ciclo de “Estudos Filosóficos”. As citações abaixo são traduzidas por mim dessa edição inglesa, e não do original francês.


Balzac é uma figura literária admirável, pelo edifício romanesco que construiu em 51 anos, uma vida assombrosamente curta para a quantidade e qualidade do que escreveu.
 
Em Busca do Absoluto começa com aqueles choques de realidade que sua literatura nos dá de vez em quando. Ele começa descrevendo a região de Douai, um pouco de sua história, do caráter de seu povo. Depois fala da família Claes, sua origem, sua imagem pública; chega então à descrição detalhada da mansão da Rua de Paris, onde ocorre quase todo o romance. Descreve a casa e seus tesouros de arte. E somente à página 15 começa a história propriamente dita:
 
Numa tarde de sábado no final de agosto do ano de 1812, uma mulher estava sentada numa ampla poltrona, junto a uma das janelas que davam para o jardim. (Cap. I, trad. BT)
 
O leitor moderno torce o nariz para aquelas longas descrições de ambientes, mas elas são uma conquista literária nem um pouco desprezível. Aliás, não é só o leitor moderno. No primeiro parágrafo do romance, Balzac já vem “com água e lenha”, depois de mencionar a mansão da Rua de Paris:
 
Mas antes de passar à descrição dessa casa, talvez não seja desnecessário introduzir aqui, em defesa do autor, um protesto em favor dessas preliminares didáticas pelas quais o leitor ignorante e impaciente manifesta tmanho desagrado. Há pessoas que anseiam por sensações, mas não têm a paciência necessária para submeter-se às influências que as produzem; pessoas que prefeririam ter flores sem precisar de sementes, e crianças sem necessidade da gestação. A arte parece consistir, para elas, em produzir o que a natureza não pode. (Cap. I)
 
Nessa abertura desabusada Balzac não está apenas dando uma tapa-de-luva no leitor preguiçoso, e não está apenas defendendo esse realismo de que foi um dos criadores, o realismo pictórico, detalhista, objetivo. Está também introduzindo de forma indireta o tema central do livro – o de um homem capaz de dedicar-se por anos inteiros a pesquisas monótonas, repetitivas, frustrantes, com o objetivo de encontrar o atalho para igualar a natureza.



Num diálogo com a esposa Josephine, Balthazar Claes lhe confessa como começou sua obsessão pelo absoluto. Em 1809 a família precisou hospedar por uma noite um oficial polonês de passagem por Douai. Depois do jantar, ele e Balthazar engataram numa conversa a respeito de química, e a desgraça estava feita. O homem tinha uma fascinação fanática pelas descobertas científicas, e falava com um tal ardor que incendiou a imaginação de Balthazar Claes. Convenceu-o de que, sendo rico, ele tinha em mãos algo que poucos homens de ciência dispunham naquela época: meios materiais para custear pesquisas com substâncias raras, caras; e de construir seus próprios equipamentos.
 
É bom lembrar que no começo do século 19 não se dispunha ainda da proliferação de instrumentos e materiais de laboratório que hoje se pode comprar com facilidade. Cientistas precisavam muitas vezes inventar e improvisar os meios para produzir altas ou baixas temperaturas e pressões, o vácuo, etc.  E a partir daquela noite Balthazar assume para si o sonho do polonês: descobrir o Absoluto. Ele explica para a esposa:
 
A matéria inorgânica consiste em cinquenta e três elementos simples, e todos os seus produtos são formados pelas várias combinações entre eles. Será possível que os elementos constitutivos sejam mais numerosos, quando os resultados variam tão pouco? Meu mestre afirmava a existência de um elemento único, comum a todos esses cinquenta e três corpos; e que uma força desconhecida, que não está mais em ação, produziu essas modificações aparentes; essa força, dizia ele, poderia ser descoberta e novamente aplicada, pelo engenho humano. (...) Assim, posso deduzir a existência do Absoluto! Um único Elemento, comum a todas as substâncias, modificado por uma única Força – esta é a conceituação mais simples possível do problema do Absoluto, um problema que, a meu ver, pode ser resolvido pela inteligência humana. (Cap. VI)
 
E lá se vai pelo ralo a fortuna da família Claes, que o livro exprime em moedas como “ducados”, “libras”, “francos”, e não precisamos de uma tabela de câmbio para perceber, com a evolução da história, a sinuca em que Balthazar está se metendo. Friedrich Engels dizia que era mais fácil entender o funcionamento do capitalismo lendo os romances de Balzac do que consultando tabelas econômicas e relatórios financeiros. É claro. O dinheiro é o sangue-e-oxigênio da vida de seus personagens e, mesmo esquecendo todos os outros temas, o livro é uma fascinante narrativa das acrobacias da família Claes para fugir à bancarrota total. Porque se trata de pessoas (mulheres, inclusive) que não apenas têm muito dinheiro, mas sabem como lidar com ele. Têm um gênio morigerado para a gestão das finanças.



(manuscrito de Balzac)
 
A obsessão científica e o rigor pecuniário não brotam do nada. Balzac, como os autores realistas em geral, faz um vínculo claro entre as ações dos indivíduos e o ambiente social:
 
Um materialismo altamente refinado é o traço mais distintivo da vida dos flamengos. (...) No temperamento desse povo encontram-se duas das principais condições para o cultivo da arte: a paciência, e essa capacidade de suportar o sofrimento, necessária para que a obra do artista possa prosperar. (...) É inútil esperar, desta região de elevada poesia, alguma verve para a comédia, para a ação dramática, para o gênio musical, para os voos mais audaciosos da poesia épica e da ode; ele se inclina muito mais para a ciência experimental, para as polêmicas prolongadas, para os trabalhos que exigem tempo e que têm cheiro de lâmpada a óleo. Todas as suas pesquisas são de natureza prática, e devem conduzir necessariamente ao bem-estar físico. (Cap. I)
 
É curioso que pessoas com esse temperamento sejam sujeitas à obsessão, ao fanatismo, ao vício, porque o comportamento de Balthazar é o de um viciado em jogo (como os personagens de Dostoiévski), em álcool, em drogas. Ele vende tudo que tem em casa para comprar instrumentos, substâncias, reagentes químicos, todos caríssimos (e ele paga sem discutir, sem pestanejar). Ocorre com ele aquilo que na linguagem popular usamos para falar de quem tem o vício da cocaína: “Fulano cheirou dois automóveis, cheirou toda a mobília da casa, e por fim cheirou a casa.”
 
Balzac reflete:
 
O vício e o gênio produzem resultados tão semelhantes que as pessoas comuns costumam confundi-los. O que é o gênio, senão um tipo de excesso que consome tempo, dinheiro, saúde, energia física? É um caminho para o hospital ainda mais curto do que o do perdulário. A humanidade, além disso, parece ter mais respeito para com o vício do que para com o gênio, porque nega-se a dar a este o devido crédito, ou confiança. É de se pensar que o indivíduo de gênio estabelece para si mesmo objetivos tão remotos que a sociedade se recusa a levá-los em conta durante seu tempo de vida; e vê aquela pobreza e desgraça pessoal como algo imperdoável. A sociedade não quer de forma alguma ter algo a ver com um gênio.  (Cap. II)



E um outro aspecto notável deste livro é a importância da figura patriarcal, o carisma do chefe da família, um símbolo inatacável e inquestionável. A esposa Josephine faz de tudo para ser leal ao marido, chega até a dedicar-se ao estudo da química para poder compreender as regiões por onde o espírito dele trafega. Morre abatida por humilhações e aperreios, mas morre pedindo à filha mais velha, Marguerite, que salve o bem-estar dos irmãos, mas nunca, em hipótese alguma, questione o pai.
 
Como explica o autor:
 
O maior encanto da mulher consiste em um apelo constante à generosidade do homem, no reconhecimento gracioso de sua própria condição indefesa, que estimula nele o orgulho masculino e desperta seus sentimentos mais nobres. (Cap. VI)
 
Lendo Balzac a gente oscila o tempo inteiro (como oscila lendo Victor Hugo) entre os variados rótulos que se aplica à literatura daquele tempo, principalmente “Realismo” e “Romantismo”. As paixões amorosas são descritas numa linguagem exaltada que não faria feio em qualquer romance-sentimental-para-mocinhas de cem anos depois. Ao mesmo tempo, esse romantismo é contaminado pelo espírito burguês (=o dinheiro acima de tudo). Os casais jovens que se formam revelam essa dualidade permanente: a filha mais nova, Félicie, casa-se com o notário Pierquin, para o qual tanto fazia casar com uma irmã rica quanto com a outra; e a mais velha, Marguerite, desenvolve uma longa e sólida relação afetiva com Emmanuel De Solis, que ainda por cima lhe serve de administrador financeiro e emprestador providencial de grana, salvando-a não só da solteirice como da bancarrota. Como dizia Nelson Rodrigues, o dinheiro compra tudo, compra até amor sincero.
 

(Balzac: viciado em café)










terça-feira, 20 de outubro de 2015

3950) Nós fumo (21.10.2015)



“Não é somente no cinema que isto veio a se cristalizar como clichê, mas também na literatura,” disse Philip Marlowe, batendo a cinza do Camel num cinzeiro redondo de vidro. Levou o cigarro aos lábios, aspirou a fumaça, soltou-a em dois tubos paralelos, parodiando um touro enfurecido. “Nem todos os autores têm facilidade para preencher os tempos mortos de uma cena onde duas ou mais pessoas falam entre si. É preciso fazer com que essas pessoas interajam com o ambiente, façam algum gesto. Os outros personagens me servem bebidas, oferecem-me tabaco, e quando eu bebo eu acabo aceitando.”

“Pois eu não sabia o que fazer com as mãos,” disse James Bond, cigarrilha no dedo.  “Não era disso que aquelas coadjuvantes se queixavam,” observou Miss Marple, firmemente limitada ao seu chá de sempre. “Minha cara senhora,” disse Bond fazendo uma curvatura risonha, “na mesa de jogo ou no leito amoroso geralmente já se sabe o que se vai fazer. O problema, como nosso bom Marlowe assinalou, são os bate-papos dos personagens. A ‘conversation piece’ dos nossos pintores. Descrever o que alguém faz com o cigarro ajuda a intercalar as falas com algo que contenta os olhos. Alguns leitores precisam dessas informações visuais mais do que outros.”

“E alguns autores sabem fornecer isto melhor do que outros, Mr. Bond, mas permita lembrar-lhe que nem só de cigarros vive a nossa estirpe,” disse Sherlock Holmes, sugando repetidamente ao cachimbo de roseira-brava, constatando-o de fogo morto, riscando um fósforo de cera, aplicando-o ao fornilho inerte e vendo-o esbrasear-se e consumir-se quase que de dentro para fora. “A proverbial nitidez e o proverbial claro-escuro de tudo que é ficção vitoriana, sem dúvida”, disse Miss Marple, “sempre levando em conta, claro, que quem viveu a era vitoriana desconhecia essa palavra e descreveria seu próprio tempo, talvez, em termos muito diversos.”

“Nós somos no fundo uns neo-vitorianos,” disse Doc Sportello, enquanto estendia na mesinha a seda, deslindava berlotas, enfileirava o matagal picadinho, dava a enrolada final na múmia e acendia o prepúcio de papel. “A Califórnia é uma Londres, só que ensolarada pelo lado de fora.”  Marlowe puxou um charuto cubano do bolso interno do paletó, mordeu-lhe a ponta, cuspiu-a pela janela que dava para o Tâmisa e disse: “Todo romance na verdade conta duas histórias, a história do que aconteceu, e as falas que os personagens pronunciaram. Quem sabe um dia invadirão o descanso eterno das nossas sepulturas para cortar nosso texto. No futuro, censores condenarão esta pequena antologia. No futuro ninguém saberá que fumávamos”. “Fumarei a isto”, disse alguma voz.



domingo, 30 de setembro de 2012

2990) Vício digital (30.9.2012)




A Internet tanto ajuda quanto atrapalha um escritor. É como ter na mesa ao lado, no escritório, uma secretária eficientíssima, que faz tudo e sabe tudo, mas insiste em trabalhar usando fio dental. Toda vez que o sujeito faz um ponto/parágrafo, vem a precisão de dar uma olhada. E se chegou a resposta àquele email ansioso que mandei ontem para a editora? E se alguém tiver postado algo interessante no Facebook?  E se no Twitter tiver acabado de aparecer um link que vai me dar de bandeja o tema da coluna de amanhã? E se o saite da CNN tiver uma revelação bombástica sobre a campanha presidencial nos EUA? E se alguém tiver postado um comentário interessante no meu Blog? Por falar nisso, quantos acessos o blog teve hoje?



Muitos escritores experimentam isto de 10 em 10 minutos enquanto escrevem.  Um artigo no The Telegraph me faz compartilhar o calvário de alguns escritores ingleses contemporâneos, que, pasmem, chegam a instalar no computador programas destinados a atrapalhar seu acesso à Internet enquanto escrevem. Zadie Smith (White Teeth) usa dois programas, chamados Freedom (também utilizado por Nick Hornby, Dave Eggers e Naomi Klein) e Self-Control.



Quem melhor explica isso é Ned Beauman (The Teleportation Accident), nascido em 1985 e totalmente integrado no redemoinho eletrônico. “Eu uso K9, um aplicativo que bloqueia certas páginas em alguns websaites”, diz ele, “e uso um bloqueador de anúncios para bloquear a seção de comentários nos saites. Quando estou trabalhando uso Nanny, aplicativo do Google Chrome, e uso SelfControl para bloquear alguns outros saites”. Quais? Ele responde: “Virtualmente todos os saites de jornais, revistas, blogs e o Twitter”.



Está cada vez mais fácil baixar um aplicativo para amordaçar o computador do que simplesmente adquirir o autodomínio necessário para trabalhar cinco ou seis horas sem abrir um navegador. Cinco ou seis horas? Estou sendo utópico. Não me lembro a última vez em que trabalhei duas horas seguidas sem dar um pulo nos usuais suspeitos (email, Facebook, Twitter, Wikipedia, Terra, CNN, StereoMood, Mundo Fantasmo).


Que trauma será esse? Falta de vergonha, diria Seu Lunga, e o inglês Will Self, nascido em 1961, afirma: “Internet não tem nada a ver com a escrita de ficção, que é a expressão de verdades que só são obtidas através da observação e introspecção. É um instrumento incrível e seria idiotice não usá-lo, mas é uma coisa que atrapalha a escrita propriamente dita”. Não custa nada fechar todas as janelas, deixar aberto somente o Word, e dizer: “Só conecto de novo daqui a 3 horas, e durante 30 minutos”. Se não conseguir... é falta de vergonha mesmo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

2802) Plagiarismo (25.2.2012)



(Quentin Rowan)

A arte secreta do plágio produziu recentemente mais um episódio curioso. Em geral plagiários se defendem dizendo que não conheciam a obra original e tudo foi coincidência; ou que estavam homenageando o artista de cuja obra se apropriaram; ou que era uma experiência de metalinguagem. Não foi o caso de Quentin Rowan, que lançou em 2011 um romance de espionagem, Assassin of Secrets, sob o pseudônimo de Q. R. Markham. Poucos dias depois do livro ir às lojas começaram a pipocar nos blogs e na imprensa denúncias de que o romance continha parágrafos inteiros copiados de outros livros. Edward Champion, do websaite Reluctant Habits, apontou 34 exemplos de plágio nas primeiras 35 páginas do livro. Críticos (e os editores do livro, claro) começaram a jogar trechos no Google e encontrar exemplos onde apenas os nomes próprios e pequenos detalhes técnicos tinham sido alterados, trechos de livros de Robert Ludlum (autor da Supremacia Bourne), Charles McCarry, James Bamford, Geoffrey O’Brien e de autores como John Gardner, que estão (com consentimento dos herdeiros) escrevendo novas aventuras de James Bond, após a morte de Ian Fleming.

Uma longa matéria no The New Yorker (http://nyr.kr/zZmqk7) traça o patético perfil de Rowan, um garoto filho de pais intelectuais que sempre esperaram dele façanhas literárias. Na adolescência, ele copiava palavras difíceis para inserir em seus contos e poemas; daí para copiar frases inteiras (que achava bonitas) foi um passo. Ajudado por uma memória excepcional, ele sempre lembrava onde encontrar exatamente o parágrafo que precisava (descrição de ambiente, cena de briga, cena de sexo, meditação dos personagens, etc.). Poderia ter dito depois que estava produzindo metaliteratura ou algo assim, mas confessou ao jornalista, com candura: “Há anos eu tenho medo de ser descoberto; acordo no meio da noite e vou me olhar no espelho. (...) Eu lutei contra o plágio do mesmo modo que outros lutam contra o fumo, o vício do sexo, da comida, do jogo. (...) Nunca pensei em oferecer meu livro como uma colagem. Eu queria, sinceramente, que as pessoas pensassem que eu era o autor”.

Ele próprio compara o vício do plágio à cleptomania. Diz que nunca roubou nada em lojas, mas que isso explica por que pessoas com talento literário sentem a necessidade de plagiar. “Cleptomaníacos em geral são pessoas que não precisam furtar, como as madames do Upper East Side ou Wynona Ryder”. Pelo sim, pelo não, a editora tirou o livro do mercado e exigiu de volta o adiantamento de 15 mil dólares pago ao autor. Que agora está trabalhando em um novo romance, sem transcrições, para mostrar que sabe escrever.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

1720) O vício de Daniel Dantas (16.9.2008)



Numa matéria recente, um jornalista comentou que o sofá no apartamento do banqueiro Daniel Dantas está rasgado. Dantas está envolvido no escândalo da Operação Satiagraha da PF, e é considerado um dos maiores manipuladores de fortunas deste país. Não vou questionar a lisura das suas operações financeiras. Isto fica para o Poder Judiciário do país (e os amigos mais cínicos me sussurram: “...que é justamente onde ele já comprou muita gente a peso de ouro”). É no sofá rasgado que quero me deter. O jornalista perguntava com seus botões, ou com suas teclas: “Como é que um sujeito bilionário tem um sofá rasgado e não troca? Por que fica se matando de trabalhar e se metendo em operações escusas, apenas para ganhar mais dinheiro do que poderia gastar?”.

Já li muitos livros sobre viciados em drogas, não porque o vício em si me desperte o interesse, mas porque são numerosos os escritores que usaram a literatura como equilíbrio a um vício que os destruía por dentro. Philip K. Dick e William Burroughs são os mais notórios. Os jovens pensam que eles foram grandes escritores por causa da droga. Na verdade, eles tinham com a droga a mesma relação que um atleta paraolímpico tem com sua deficiência física. Talvez tenha sido a deficiência que os transformou em atletas, e sem ela eles tivessem virado comerciários ou caixas de Banco; mas a atividade atlética é uma forma de provar ao mundo: “Eu sou isto que vocês estão vendo, mas não sou só isto”. A literatura de Dick e Burroughs era o outro prato da balança, que os ajudou a equilibrar o terrível peso da droga.

A droga de Daniel Dantas é o poder, é a vitória, é (perdoem-me a heresia) o pódio olímpico do golpe financeiro. Não é dinheiro que os move. Não é (como na nossa pacata vidinha) a perspectiva de comprar um sofá novo no mês que vem. É um jogo abstrato de números que na sua mente valem como números em si, não como soma monetária, valor de uso, poder aquisitivo. São os meros números: comprei por 5, vendi por 10... Não importa se são bilhões de dólares ou milhões de euros. Sua droga não é a economia, é a aritmética.

A vida de um drogado (dizia Burroughs) só tem dois momentos: a Aplicação e o Intervalo. A Aplicação é quando ele se auto-ministra a droga. O Intervalo é tudo que ocorre entre uma Aplicação e outra, e sua função é providenciar a próxima Aplicação (arranjar dinheiro, procurar um traficante, etc.). Assim deve ser a vida dos grandes banqueiros, dos grandes especuladores como George Soros ou Naji Nahas, dos grandes viciados no xadrez das armações corporativas. Lembram-se do filme Uma Linda Mulher? Eu lembro de algo, além dos lábios e dos olhos de Julia Roberts. Lembro de uma frase do “danieldantas” interpretado por Richard Gere. Quando ela lhe pergunta o que faz na vida, ele diz: “Compro empresas, quebro-as, e vendo os pedaços”. É um vício como qualquer outro: uísque, pedras de crack, seringa de heroína.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

0612) A vítima de Eros (5.3.2005)


(Jeremy Irons e Juliette Binoche em Perdas e Danos)

Alguns atores parecem encarnar um arquétipo, parecem “ser a cara” de determinados tipos de personagem. Muitas vezes isto tem a ver com um trabalho bem-sucedido. Um sujeito faz um assassino psicopata, ganha um Oscar, e passa os anos seguintes recebendo propostas para interpretar assassinos psicopatas. Talvez por isto um ator tão bom como Anthony Hopkins tenha aceitado interpretar o canibal Hannibal Lecter: estava cansado de interpretar lordes e mordomos britânicos.

Jeremy Irons é um ator inglês talentoso, versátil, mas existe um arquétipo que desaba de vez em quando sobre ele. Eu o chamaria de A Vítima de Eros. Esse personagem é um sujeito aparentemente frio, racional, introvertido, extremamente cavalheiresco e bem educado, sobre o qual se abate uma fatalidade sexual inexplicável, incontrolável e inextinguível. Vejam por exemplo o personagem mais arquetípico que ele já interpretou: o Humbert Humbert de Lolita, na sua versão mais recente. Lolita conta a paixão de um homem quarentão e sisudo por uma adolescente frívola. É um enredo clássico, comparável apenas ao de O Anjo Azul. E é o protótipo da tragédia sexual decorrente de um episódio fortuito da infância que fica incrustado na mente do protagonista e que este procura resolver das maneiras mais desajeitadas possíveis, geralmente arruinando a própria vida.

Não é apenas na direção da pedofilia que Jeremy Irons é empurrado pelas marés irresistíveis de Eros, mas também na direção do homossexualismo. É ele quem interpreta o espantoso protagonista de M. Butterfly, o diplomata que se apaixona por uma cantora de ópera chinesa e mantém relações sexuais com ela durante dezoito anos, sem perceber que se trata de um homem. Uma situação aparentemente absurda, mas que justifica, como nenhuma outra, o dito de que “o amor é cego”. Na verdade, no amor todo mundo só vê o que quer ver, ou, por extensão, o que a pessoa amada lhe sugere que veja.

Em Perdas e Danos, de Louis Malle, Irons interpreta outro diplomata, que é tomado de uma paixão sexual absurda e definitiva pela noiva do próprio filho. Como ocorre em histórias desse tipo, ele passa a correr os maiores riscos, cometer desatinos. Sua vida profissional vira um caos que ninguém entende, porque ninguém sabe o que está se passando. Ele mesmo não sabe. Virou um viciado, que pensa apenas em como conseguir a próxima dose. A tragédia das vítimas de Eros, como Irons as interpreta, é do tamanho do abismo entre sua aparência aristocrática, intelectual, auto-controlada, e o tobogã de insensatez em que ele se deixa mergulhar de bom grado. Não existe nada mais fascinante do que um indivíduo frio, calculista, moderado, sendo arrebatado por uma obsessão carnal que o leva à auto-destruição. Não porque ele seja antipático, mas por nos ensinar que um sujeito assim só foge na direção daquilo que mais teme.

terça-feira, 11 de março de 2008

0229) Um cheirinho de vez em quando (14.12.2003)

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Dias atrás eu estava no meio de um grupo, num ambiente de trabalho. Chegou um motorista que veio buscar uma encomenda, e ficou falando com um e outro, andando por entre as mesas. Havia um maço de cigarros por ali; ele pegou, olhou, levou ao nariz e pôs o maço de volta na mesa. O dono do maço disse: “Pega um, velho.” E ele: “Não, obrigado, eu deixei de fumar.” O outro: “Há quanto tempo?” E ele: “Dezesseis anos. Mas sabe como é que é... de vez em quando eu pego, só pra dar um cheirinho.”

Gostei desta idéia. Nenhum viciado é igual ao outro: o vício é sempre uma soma única entre a droga e a pessoa que a usa. Alguns garantem que para abandonar um vício é preciso queimar todas as pontes e apostar todas as fichas numa decisão sem retorno. Outros aconselham o método Martinho da Vila, ou seja, “devagar, devagarinho”: deixa de beber cachaça, depois deixa o uísque, fica só na cerveja, depois vai reduzindo aos poucos... 

Enfim: cada caso é um caso, como em tudo na vida. Não há fórmulas, ou melhor, há milhões de fórmulas, e é mais fácil inventar uma do que tentar examinar e testar todas as que foram inventadas pelos outros.

O exemplo do motorista não deixou de me lembrar também o de certos casais que já vi. São casais que se gostam mas têm diferenças intransponíveis, e vivem em briga constante. Separam-se, e quando separados descobrem que não conseguem viver longe um do outro. Voltam a ficar juntos; mas, inevitavelmente, voltam a brigar. Qual é a solução? Muito simples: separam... mas de vez em quando um dos dois vai lá, só pra dar um cheirinho.

Os adeptos das soluções radicais me lembram o casal do filme de Truffaut, A mulher do lado. Dois antigos apaixonados, hoje casados com outras pessoas, se reencontram anos depois, e a paixão volta com força total. O final é trágico, e ainda lembro a frase final do personagem de Gérard Depardieu: “Ni avec toi, ni sans toi”. Ou seja: “Não consigo viver com você, nem sem você”. Uma bela tragédia no molde clássico do século 19: tragédias onde não é o Destino que impele as pessoas à destruição, mas o fato de que elas vivem um conflito entre sentimentos opostos, e em vez de diluir ou dissipar estes sentimentos preferem exacerbá-los até serem destruídas por eles. Ou seja, Romantismo literário em estado puro.

Vejo isso diariamente com esse pessoal que fuma. Encontro Fulano no bar, de olhos encovados, mãos trêmulas. Qual é o problema? “Parei de fumar,” explica ele, “estava fumando 3 maços por dia, e tem 5 dias que não fumo.” Vendo o estado lastimável do amigo, pergunto: “Bom, se eram 3 maços, não custa nada você reduzir pra, digamos, 10 cigarros por dia. É lucro!” Mas não. Dizem eles que é a armadilha química, e eu acredito. Não depende da nossa vontade; mas se dependesse era tão bom! Era só cortar o excesso que faz mal, e, se a saudade apertasse, ir dar um cheirinho de vez em quando.


sexta-feira, 7 de março de 2008

0044) O jogador (13.5.2003)

Existem sujeitos viciados em algo porque uma substância química (álcool, nicotina, cocaína, o que fôr) interferiu no seu metabolismo e eles precisam ficar recorrendo a novas doses para recuperar algum tipo de equilíbrio, mesmo artificial. Existem pessoas, contudo, que se viciam em comida, como aquela mulher que pesava 300 quilos e perdeu 200 (dizem que o sonho dela era ir ao programa de Jô Soares e dizer: “Eu perdi 1 você!”). Existe gente viciada em chocolate, em sexo, em jogo.

O resto eu sei por quê; mas o vício no jogo é o que me fascina. Como é que alguém se deixa viciar numa coisa tão besta quanto baralho, roleta, dados, máquina caça-níqueis, Mega-Sena, raspadinha? Grandes gênios da humanidade tiveram esse defeito. Edgar Allan Poe e Dostoiévski são os primeiros que me ocorrem, mas certamente teve mais gente, e preciso ter uma teoria a respeito.

Digamos que o sujeito que se vicia em jogo tem fascinação pela matemática. Baralho envolve uma abordagem do cálculo das probabilidades, uma comparação entre o que aconteceu até agora e o modo como isso afeta (ou não) o que vai acontecer a seguir. Lembro de meus pais e minhas tias jogando buraco, quando eu era pequeno. Minha mãe vigiava o bagaço, murmurando: “Tá saindo muita espada...” Eu quase podia ver, no interior dos crânios deles todos, as maquininhas calculadoras comparando as cartas já baixadas na mesa com as cartas recusadas por Fulano ou aceitas por Sicrano. Baralho envolve memória, e inteligência estatística. Mas, e a roleta dos cassinos? Nada faz com que aquela bolinha saltitante prefira este ou aquele número, e o fato de ter dado Vermelho 27 não impede que na próxima rodada dê Preto 17, como no tango de Herivelto Martins e David Nasser. Aí ninguém controla a mesa, é sorte pura, azar puro.

Para a ciência, o vício do jogador vem da norepinefrina, que é segregada em momentos de estresse, de grande risco ou de excitação intensa. É uma prima-em-segundo-grau da adrenalina. Substâncias desse tipo são produzidas pelo próprio corpo, em vez de serem injetadas ou aspiradas. O viciado se auto-aplica, buscando situações onde tem certeza que aquele efeito será repetido. A vida parece mais intensa naqueles instantes; percepção mais aguda, raciocínio mais rápido, intuição quase infalível. É como se ele tudo soubesse, tudo captasse. Eita viagem!

O jogo também tem um lado místico. O Acaso-e-Destino é a força mais temida e menos compreendida do Universo. O jogador, quando ganha, começa a crer que está dobrando essa força diante de sua vontade, ou que pelo menos está firmando um pacto com ela. Jogadores ganham, e acham-se invencíveis; jogadores perdem, e acham que a maré vai virar; e todos apostam de novo. O jogador tem sede de padrões simétricos. Em toda sequência aleatória de resultados julga perceber um criptograma sobrenatural; e lá vai ele de novo. Ninguém resiste a uma saideira de norepinefrina, e vai pela vida afora, coçando a orelha do valete.

0043) O viciado (11.5.2003)




Sobre essa questão dos viciados em drogas, a gente deve ver duas coisas. Existem os vícios físicos e os vícios mentais. As duas coisas se misturam como café e leite, mas café é café e leite leite. Alguns vícios são de origem química, são uma interferência química no metabolismo do corpo. Só podem ser curados se essa interferência fôr interrompida, e se os prejuízos biológicos que causou forem consertados. Tem que haver também um processo de recuperação psicológica, sem dúvida, mas a origem não é psicológica, é física. Sem interromper o que está acontecendo no corpo daquela pessoa é inútil argumentar com ela, dar-lhe lições de moral, implorar, explicar, convencer, apelar para seus bons sentimentos. O espírito humano pode ser profundo como o Universo e vasto como a Eternidade, mas o corpo humano, coitado, é frágil como um recém-nascido. Se você pegar o sujeito com maior energia espiritual do mundo e meter-lhe uma ampola de morfina, ele capota, não tem energia espiritual que dê jeito.

Mas, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Todo vício tem também o seu lado mental, o seu lado consciente. Caso exista um Demônio do Vício pairando de fato sobre a humanidade, procurando seduzi-la e corrompê-la, esse Demônio tem como objetivo maior o nosso corpo, e como ponto fraco, a ser atacado, o nosso espírito. Um vício começa por curiosidade, continua por causa do prazer, se fixa por obsessão, depois exige cada vez mais, até que todo belo dia o cara nem olha em volta, nem enxerga mais nada, enxerga apenas a sua necessidade constante e absoluta de mais; mais; mais. A bomba química foi detonada. O vício, pela janela aberta da mente, pulou para dentro daquele corpo.

Como não acredito em demônios ou em anjos, acho que tudo é apenas uma questão capitalista. “Há um produto que dá lucro, precisamos vendê-lo, precisamos acumular mais-valia, capital de giro, dividendos. Se esse produto faz com seres humanos o mesmo que o inseticida faz com o inseto, bem, compra quem quer, não é mesmo? Ninguém é obrigado. Vai outro aí, chefia?”

O momento para bloquear um vício é quando o vício ainda dá prazer. É naquela fase em que o corpo ainda não foi quimicamente conquistado, em que a próxima dose ainda depende de uma decisão consciente da vítima. É quando o viciado ainda tem aquele sorrisinho maroto de menino que vai ao banheiro com a “Playboy” escondida sob a camisa, ou do biriteiro que diz, “Porra, não bebi ontem, não bebi anteontem... tenho o direito de relaxar um pouco! Tô com crédito. Desce uma!”. Viciar-se é como saltar de um arranha-céu: no início, é uma decisão pessoal, depois é uma lei da física. É preciso interferir naquele momento em que o rosto do viciado ainda não é a máscara mortuária de si próprio, naquele momento em que lhe é possível dar um passo atrás, porque foi preciso uma decisão dele para dar um passo à frente rumo à próxima dose, com aquele sorrisinho safado de “Obááá! Lá vou eu de novo!”