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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

5194) A riqueza e o lixo (11.8.2025)




 
Uma sociedade de consumo como a nossa produz mais (muito mais) do que necessita, e desperdiça grande parte do que produz. 
 
Se a Cultura age assim, a Contracultura teria que lançar um contraponto. Viver do desperdício alheio seria, então, uma estratégia legítima, do ponto de vista econômico e do ponto de vista moral. 
 
E não apenas do desperdício, mas das incontáveis brechas que um sistema como esse abre dentro de si mesmo. 
 
Numa crônica publicada na revista Locus (# 582, julho de 2009), Cory Doctorow lembra: 
 
Eu tinha 15 anos quando me caiu nas mãos uma cópia ensebada de Steal This Book, a obra clássica de Abbie Hofmann, um manual ensinando a cair fora do sistema, sobreviver a custo zero, e aplicar pequenos golpes. O livro estava repleto de dicas fascinantes: como produzir o som que liberava a linha para ligações interurbanas nos telefones públicos, como organizar a loja de uma cooperativa, como reciclar pneus fabricando sandálias, como produzir um jantar saqueando as latas de lixo de um restaurante. Fiquei fascinado, e naquele verão reli o livro uma dúzia de vezes. (trad. BT)
 
Doctorow nasceu no ano em que o livro foi publicado, 1971, o que atesta a permanência da mentalidade contracultural que o produziu. Canibalizar os excessos do sistema é uma opção quase inevitável para quem não apenas se recusa a trabalhar para ele, mas precisa também dar-lhe algum prejuízo, ainda que num gesto meramente simbólico e pessoal. 
 
Há outro aspecto mais preocupante. No meio século desde o livro de Abbie Huffmann, acho que o consumismo passou por uma mudança – para pior.  Houve uma fase em que a compra descontrolada de coisas era tratada como um problema comportamental, principalmente nos EUA. Hoje, é um apocalipse coletivo. 
 
Os norte-americanos não sabem o que fazer com tanto dinheiro, ou melhor, sabem: comprar coisas desnecessárias e depois jogá-las fora. Produziram para si mesmos uma civilização em que o prazer de Ter tornou-se maior que o de Fruir, e ambos são menores que o de Comprar. É o mundo da shopping-terapia, onde tantas neuroses são empurradas para baixo do tapete, e toda semana compra-se um tapete novo. 
 
Lembro de uma época em que uma mulher com mais de dez pares de sapatos era apelidada de “Imelda Marcos” – nome da mulher do ditador das Filipinas, possuidora de mais de 1.000 pares de sapatos. Ter muitas bolsas, muitos vestidos, muitos ternos, muitas gravatas, tudo isso era o pecado do consumismo. 
 
E não apenas os burguesões acomodados cediam a isso, porque no mundo artístico o que nunca faltou foram casas com mais de 3 mil DVDs, mais de 4 mil discos, mais de 5 mil livros, e assim por diante. Perdi a conta das cenas de filme ou livro em que uma esposa jovem pergunta, em desespero: “Querido, você precisa mesmo  de uma décima-quinta guitarra?...” 
 
Cada um gasta seu dinheiro como bem entende, diz a sabedoria popular enxugando as mãos junto à bacia de Pilatos. A questão é que hoje, cinquenta anos depois, o que era neurose individual e talvez inofensiva tornou-se uma psicose coletiva de dimensões catastróficas. 




É impossível não achar isto quando se vê um filme como o documentário de Nic Stacey, A Conspiração Consumista (Netflix). O filme mostra em etapas sucessivas o gigantismo da máquina de consumo desenfreado que hoje em dia arrasta o mundo pelos pés. Ninguém escapa: Amazon, Unilever, Apple, Adidas são apenas algumas das empresas cujos ex-executivos são entrevistados no filme e abrem o jogo, sempre no tom de “eu não consegui continuar colaborando com aquilo”. 
 
Na verdade, o consumismo não é uma conspiração, assim como não há conspiração alguma quando todas as pessoas de um barco correm para o mesmo lado e o fazem virar. É apenas “a natureza da fera”, é o escorpião que morre afogado mas precisa ferrar o sapo que o transporta. 
 
Cada empresa procura apenas maximizar seus lucros, e todas pagam excelentes salários a pessoas inteligentes para que lhes tragam as soluções mais radicais. 
 
O filme resume em cinco partes essas soluções: 
 
1.       Vender mais
2.       Mentir mais
3.       Desperdiçar mais
4.       Ocultar mais
5.       Controlar mais
 
“Compre, compre, compre”, repetem mecanicamente, invisivelmente, as mensagens espalhadas pelo mundo inteiro, lembrando os códigos subliminares do filme They Live de John Carpenter. 




E os resultados são ótimos, nos gráficos apresentados aos acionistas, e nos depósitos de dividendos. Mas o mundo está sendo cada vez mais soterrado por esse excesso de produção. São pessoas gastando um dinheiro que (às vezes) não têm para comprar coisas de que não precisam – precisam do ato de comprá-las, e depois as coisas serão jogadas fora, descartadas, queimadas, enterradas, não importa. Importa que a compra aconteceu. 
 
No filme, Mara Einstein comenta: “Se você tiver que levantar da cama, pegar o carro, ir à loja, escolher o produto, pagar no caixa, trazer o pacote... isso é muito trabalhoso. Mas agora você pode Comprar Com Um Clique e o pacote é trazido até a porta de sua casa.” 
 
As estatísticas que eles compartilham são curiosas. 
 
2,5 milhões de sapatos produzidos por hora 
68.733 celulares produzidos por hora 
190.000 peças de vestuário por minuto 
12 toneladas de plástico por segundo 
13 milhões de celulares jogados fora todos os dias 
 
Não sei se são verdadeiras, mas são verossímeis, o que já é um alerta. Sabemos que o mundo é capaz disto. 
 
A “obsolescência programada” encurta a vida útil dos produtos para que eles possam ser comprados mais vezes. E a empresa não pode correr o risco de que os que vão para o descarte (os que ninguém comprou) vão parar nas mãos de mendigos ou de desocupados. É preciso danificá-los, torná-los inúteis, uma coisa que ninguém queira, ninguém aproveite. Há funcionários encarregados apenas de inutilizar as peças que vão para o descarte, rasgando roupas, malas, casacos; quebrando telas de aparelhos; riscando mídias eletrônicas, etc. É preciso inutilizar antes de descartar. 


(Carros da Audi abandonados no deserto de Mojave)

 
Anna Sacks (@thetrashwalker) é uma entrevistada que se dedica a tentar recuperar alguma parte desse material, catando produtos descartados e jogados no lixo. Sua atividade faz um link interessante com outro filme, Os Catadores e Eu (2000) de Agnès Varda. Nesse documentário, a diretora francesa investiga e entrevista, em princípio, os glaneurs, pessoas que catam frutas, legumes, etc., não recolhidos nas colheitas. A partir daí, vai fazendo conexões com outras ocupações paralelas, até chegar a um grupo de jovens estudantes meio sem-teto que saqueiam o lixo de um supermercado atrás de comida. 
 
Um velho ditado popular fala que só existem ricos onde há pobres, e vice-versa. Não é só o futuro que está mal distribuído, como queriam os escritores cyberpunk; o presente também.   
 
Cui bono – é uma pergunta clássica que sempre incomoda um pouco. “A quem isto beneficia?”. Um sistema de desperdício proposital é tão suicida (em termos coletivos) que deve ser útil para alguém, na mesma proporção. Em nosso caderno há nomes famosos: Jeff Bezos (que aparece nesse documentário da Netflix), Elon Musk, Bill Gates e outros. Mas estes são apenas os que cabem no círculo estreito dos holofotes. E os milhares que ficam na sombra? 


 

O conto “The Totally Rich” do inglês John Brunner (em Worlds of Tomorrow, 1963; publicado em livro em Out of My Mind, New York, Ballantine, 1967) conta a história de uma mulher riquíssima que tenta manter-se eternamente jovem, e ao mesmo tempo quer ressuscitar o namorado que já morreu. Um eco do clássico Ela, a Feiticeira (“She”, 1887) de H. Rider Haggard. 
 
John Brunner faz uma reflexão, neste conto, sobre a vida dos superbilionários. (É a parte profética do conto, porque os “totalmente ricos” de hoje possuem fortunas que 50 anos atrás eram inconcebíveis mesmo para autores de FC.) 
 
Diz ele:
 
“Eles são os totalmente ricos. Você nunca ouviu falar neles porque eles são as únicas pessoas no mundo ricas o bastante para poder comprar o que desejam: uma vida totalmente privada. (...) Quantos deles existem, eu não sei. Tentei calcular o total somando o PIB  de todos os países da Terra e dividindo pela quantia necessária para comprar o governo de uma potência industrial. Não preciso dizer que você não pode ter privacidade total se não for capaz de comprar pelo menos dois governos. Acho que deve haver uma centena dessas pessoas. Já conheci uma delas, e provavelmente outra. (...)
 
“Eles não estão no mapa. Entende isso? Literalmente, qualquer lugar onde eles escolham viver torna-se um espaço em branco nos atlas. Não estão nas listagens do Censo, nem no Quem é Quem, nem no Pares do Reino Britânico de Burke. Não aparecem nos registros de imposto de renda, e o correio não tem seu endereço. Pense em todos os lugares onde o seu nome aparece: registros escolares amarelecidos, arquivos de hospitais, notas fiscais de lojas, documentos assinados. Em nenhum desses lugares o nome deles está visível.
 
“Eles não são governantes absolutistas. Na verdade, não governam coisa alguma a não ser o que lhes diz respeito diretamente. Mas eles se assemelham àquele Califa de Bagdá que encomendou a um escultor “a fonte mais bela do mundo”. Quando ficou pronta (e era bela de verdade) ele perguntou ao escultor se havia algum artista capaz de superá-la em beleza. O escultor afirmou que não. O Califa disse: Paguem a ele o que foi combinado, e arranquem os seus olhos”
 


 
 




domingo, 3 de março de 2024

5038) "Dias Perfeitos" (3.3.2024)



 
O filme mais recente de Wim Wenders, realizado no Japão, é mais uma dessas combinações improváveis que têm uma boa probabilidade de não dar certo, mas acabam funcionando. Um filme despretensioso, no sentido ocidental, e um filme com endereço certo, no sentido oriental.
 
Os arqueiros zen dizem que você deve retesar o arco e apontar a flecha para o alvo, mas sem dispará-la. Quando o alvo e a flecha estiverem perfeitamente alinhados (e o olho humano é incapaz de perceber isso), a flecha se disparará sozinha. 
 
No futebol existe o conceito do “chute despretensioso”, que em geral é um chute dado de looonga distância, aquelas bolas que o jogador, lá da linha lateral ou do meio do campo, joga na direção do gol pra ver se alguém a empurra para dentro, e quando menos espera vê que fez um gol – como aquela falta de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra, na Copa de 1998. 




A prefeitura de Tóquio mandou construir, de olho nos Jogos Olímpicos de 2020, uma série de banheiros públicos, desenhados por vários arquitetos, em pontos diferentes da cidade. Foi o projeto chamado The Tokyo Toilet. Para divulgar o projeto, chamaram Wim Wenders, ao que parece para que ele dirigisse uma série de comerciais curtos. Ele propôs fazer um longa de ficção.
 
O filme foi escrito por ele e Takuma Takasaki em três semanas, e filmado em mais 17 dias. Juntando tudo (montagem, edição de som, etc.), poucos meses de trabalho e um filme minimalista, com poucos atores, rodado quase todo em locação.
 
Gostei deste filme principalmente pelo fato de que ele nos permite ver um homem que mora sozinho, não é rico nem pobre, e está satisfeito com a vida que leva.
 
Na verdade, para mim foi um filme cheio de suspense, porque fiquei imaginando o tempo todo que na última meia hora de filme ele iria se apaixonar por uma japonesinha charmosa, ou iria ser perseguido pela Yakuza, que invadiria seu modesto duplex para disparar rajadas de metralhadoras nas plantas que ele “agôa” com tanto carinho.
 
Felizmente não era um filme americano.



(Wim Wenders)
 

É um filme de Wim Wenders, e retoma suas obsessões, seus personagens permanentemente em trânsito, as engenhocas eletrônicas (câmeras, gravadores) com que eles registram o presente e recuperam o passado, seu relacionamento distante e contemplativo. E a sensação de que (como se diz em algum diálogo deste filme) as pessoas vivem em mundos diferentes, mesmo quando se cruzam na avenida, mesmo quando pertencem a uma só família, mesmo quando estão conversando umas com as outras.
 
Talvez o momento em que Wenders encontrou a melhor concretização dessa sua idéia foi em Asas do Desejo (1987), quando ele mostra um par de anjos vestindo sobretudo e andando por Berlim sem serem percebidos: vigiando, analisando, comentando invisivelmente. E a cena notável em que Peter Falk, comendo um sanduíche num trailer, sente a presença do anjo (que está parado à sua frente) e, sem vê-lo, conversa com ele.
 
Wenders passou a vida filmando pessoas em mundos paralelos, pessoas igualmente reais mas que estão (por assim dizer) em frequências de onda diferentes. Até conseguem se ver, se tocar, mas esses contatos não perduram. Como a moça que faz lanche num banco de um parque, perto de Hirayama: ela olha para ele como se o visse através de um telescópio. Percebe a presença dele mas sabe que estão a um universo de distância. Nada têm em comum. São como os números que são “primos entre si”.
 
Outro momento semelhante é a famosa sequência de Paris, Texas (1984) das mulheres que se despem diante de uma câmera enquanto um homem as voyeuriza na extremidade oposta do circuito. Proximidade física, mundos diferentes.
 
Wenders percebeu a sutileza que cerca o trabalho executado por Harayama: limpar privadas dos banheiros públicos. Ele despeja água, limpa, esfrega, passa álcool, recolhe o lixo, limpa aqueles banheiros já de si limpíssimos. Como duas pontas extremas que se tocam, a Sujeira e a Limpeza.



 
E nesse toque tocam-se também dois extremos sociais, porque a irmã de Harayama aparece a certa altura do filme num carro moderníssimo, com motorista, e olha com visível repulsa o lugar simplezinho onde ele habita. Vê-se que Harayama rompeu de forma brusca com uma família podre de rica, uma família coberta de horror porque um deles trabalha agora como limpador de privadas.
 
Essa irmã rica vive numa cultura em que sujar é normal, mas limpar é vergonhoso. O que puxa por um outro fio, o da canção de Gilberto Gil “A Mão da Limpeza”, onde ele pega o nosso contexto brasileiro (muito diferente do japonês) e questiona essa idéia.
 
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão de quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão, é a mão da pureza
Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão de imaculada nobreza.
 
Aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=3nId4SUxlns
 
Harayama, com seu risinho tranquilo, seu auto-apagamento voluntário, seu olhar que não perde nada do que acontece em torno, parece estar pensando: “Sujar é normal, limpar também, se todos nós sujamos, por que não limpamos todos também?”. 
 
Depois de ver o filme fiquei um tempo aqui na janela, velando o sono da cidade, e pensando. Por que foi que fiquei pensando nessas coisas enquanto assistia um filme? E me ocorreu: porque nesse filme as pessoas não falam o tempo todo. É um filme que deixa um tempo para a gente pensar. 



O saudoso Peter Przygodda, montador de vários filmes de Wim Wenders, tinha uma teoria de que o cinema (isso era nos anos 1970) estava indo numa direção de planos cada mais mais rápidos, mais picotados, para evitar que o público pensasse. Ele chamava isso de “cinema fascista”, por ser um cinema que inibe o raciocínio e a comparação de idéias, e repousa apenas na capacidade sensorial de absorver imagens rapidíssimas. 
 
Dizia ele: “Nos filmes de Wim Wenders, há planos longos que dão tempo do espectador fazer perguntas a si mesmo e ao filme; o filme e o público respiram juntos, avançam juntos, sem pressa.” 
 
Personagens lacônicos aparecem no cinema de Wim Wenders, como se nos prevenissem: “Não vou explicar nada. Olhe. Preste atenção nos detalhes. Vá deduzindo.”  Voltando um pouco, inclusive, à estética do cinema mudo, em que os planos demoravam um pouco mais para que o olhar do espectador pudesse procurar e encontrar os elementos que o diretor colocou naquela imagem para dar um recado qualquer. 
 
O diretor e o espectador estão também em universos afastados, não se veem, não podem conversar cara-a-cara, é preciso recorrer a esse sistema intermediário de imagens, histórias, etc.  O diálogo, porém, não é impossível. E neste filme há uma minúscula metáfora disso quando Harayama percebe num banheiro um papelzinho semi-oculto com um jogo-da-velha inacabado. E nos dias seguintes ele e esse usuário invisível conversam, com jogadas sucessivas rabiscadas no papel.  
 
Como o narrador do conto de Guimarães Rosa, “São Marcos”, que rabisca frases num bambuzal e depois percebe que alguém está lhe respondendo, lhe desafiando. Ele batiza esse interlocutor de “Quem Será”. 
 
Quem serão essas pessoas com quem estou conversando? É o que todo diretor de cinema, escritor, etc., se pergunta de vez em quando. Ele pode estar sentado num avião ao lado de uma pessoa com quem não tem nada a ver, e estar em sintonia com um espectador ou leitor do outro lado do planeta, alguém que está na sua frequência de onda. 




Dias Perfeitos, longe de ser um filme perfeito, é um filme despretensioso porque se volta para o mínimo, o pobre, o comum. Certos momentos do filme, em sua banalidade cotidiana, lembram a famosa cena neo-realista da empregadinha enchendo de água um caneco e jogando-a na fileira de formigas que cruza a parede. É a beleza do banal.
 
Que não cancela a beleza do super-espetáculo, por certo. Eu continuo fã de O Leopardo, de 2001, uma Odisséia no Espaço, de Lawrence da Arábia. O que faz um filme prender a atenção da gente não é a perfeição visual, nem a escala, nem o peso da ficha técnica. São as coisas que o filme suscita na gente durante as imagens. 




Dias Perfeitos me trouxe à memória outro filme recente, Paterson (2016) de Jim Jarmusch, um cineasta com mais de um ponto em comum com Wenders. O filme tem um protagonista parecido, um motorista de ônibus que lê Emily Dickinson e William Carlos Williams, e escreve poesia nas horas vagas. A poesia é um fio que une pessoas distantes: há uma cena em que o motorista encontra um japonês, leitor de Williams, que veio conhecer a cidade sobre a qual ele escreveu. 
 
Harayama, no filme de Wenders, lê obras de William Faulkner e Patricia Highsmith; e ouve rock antigo em fitas cassete. Fitas cassete, no universo de Wim Wenders, são pequenos talismãs, pequenos objetos mágicos, e deve ser por isso que o diretor faz um discreto cameo na cena da loja de fitas. 
 
No filme Kings of the Road (“Im Lauf der Zeit”, 1976), um personagem começa a cantarolar um blues de Robert Johnson e o outro comenta: “Os ianques colonizaram nosso inconsciente”. A música dos EUA é outro fio que costura quase todos os filmes de Wim Wenders e estabelece uma “frequência de onda” aproximando pessoas de universos afastados. 
 
Harayama ouve suas fitas de rock enquanto dirige, e a câmera fecha em seu rosto, mostrando o minimalismo de suas reações. E como a cena se demora, comecei a pensar nesse impacto do repertório musical (que é visivelmente o da memória afetiva de Wim Wenders). 
 
A música cria uma espécie de canal telepático entre nós e o personagem. Se eu estou olhando o rosto do ator enquanto ele escuta um pop japonês qualquer, eu o observo à distância, com uma espécie de simpatia antropológica. Dou um crédito de confiança ao filme, e admito que aquilo deve ter uma ressonância qualquer naquele sujeito antípoda.
 
No entanto, quando a música que aparece é a voz de Patti Smith cantando “Redondo Beach” ou a de Van Morrison cantando “Brown Eyed Girl”, a cena muda 100%, porque através desse canal de memória compartilhada eu sinto esse personagem muito próximo, muito na minha frequência de onda. A imagem é a mesma, mas por uma espécie de “Efeito Kulechov sonoro”, o significado da imagem é totalmente condicionado e definido pela música. 
 
Para um instante da vida ser diferente, basta estar tocando outra música. 
 
 
 

(KOMOREBI: é a palavra em japonês para o tremeluzir de luzes e sombras criado pelas folhagem que se agita ao vento; existe uma vez apenas, e naquele instante)
 


sábado, 29 de agosto de 2009

1224) O que é descartável (14.2.2007)




A palavra “descartável” virou um termo pejorativo no jornalismo cultural de hoje, que fala o tempo inteiro em músicas descartáveis, filmes descartáveis, etc.  Ao que parece, esta palavra só se redime em “fraldas descartáveis”, porque está aí uma coisa que ninguém quer ficar acumulando depois de usar. 

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que a maioria dos produtos culturais que compramos são descartáveis mesmo. No começo da adolescência, garotos se livram de seus Cebolinhas e Patos Donald, porque agora estão lendo X-Men, e mais adiante se livram dos X-Men quando começam a ler Playboy

Livramo-nos destas coisas como nos livramos dos livros escolares do 2o. grau e da Faculdade. Depois que cumprem sua função imediata, são descartados. E nem por isso deixam de ser úteis ou necessários.

Em segundo lugar, ninguém mantém consigo, indefinidamente, todos os livros e todos os discos que compra ao longo da vida. Todo mundo “faz uma limpa” de vez em quando, porque o apartamento está cheio. Numa hora assim, é preciso estabelecer prioridades, e aí centenas de livros já lidos vão para o sebo, e dezenas de discos são repassados para os amigos. 

Qualidade não é a questão. No meio desse “bolo” pode ter desde Beethoven a Jorge Amado. Mas aquilo não tem mais necessidade imediata, já foi assimilado. Dá pra descartar, repassar para quem precise mais do que a gente.

Na vida, como no jogo de buraco, a gente conserva ou descarta em função da estratégia imediata, do jogo que está sendo jogado no momento. Já me mudei de um apartamento, na Bahia, deixando para o próximo inquilino uma coleção de “O Pasquim” com mais de um metro de altura. Na época, tinha perdido a importância; hoje me arrependo um pouco, mas tudo bem, é assim mesmo que essas coisas funcionam. 

Descartamos o que não contribui para as canastras que estamos tentar montar naquele momento. O próximo jogo é outra história.

O descartável que traz algum perigo é de outra natureza. É tudo aquilo que, uma vez comprado, tem que ser substituído rapidamente por outro, porque o surgimento de um modelo novo envelhece instantaneamente tudo que existia antes; é um dos princípios básicos da Moda. 

No caso da indústria cultural, os produtos de janeiro são efêmeros porque os de fevereiro precisam ocupar as vitrines e fazer tilintar a registradora. E essa rapidez de substituição tem outra função. O produto precisa ser rapidamente esquecido para que daqui a dez ou quinze anos possa ser recordado (nessas ondas de nostalgia, tipo Almanaque dos Anos 80, etc.) e vendido de novo, porque lembra ao consumidor uma época que (na memória dele) “passou voando”. 

Claro que passou voando: as modas se sucediam com tal rapidez que ele não teve tempo de se acostumar com nada, de esgotar o interesse de nada. Essa produção cultural é como a impressora barata, que serve para vender o cartucho-de-tinta caro.








sábado, 24 de janeiro de 2009

0775) As ruínas dos satélites (11.9.2005)



Jonas Bendiksen é um fotógrafo norueguês, da agência Magnum, que tem viajado pelos territórios da antiga União Soviética documentando o que existe por lá depois do esfacelamento daquela colcha-de-retalhos étnica e histórica. Este torvelinho político e geográfico é uma das coisas mais fascinantes de nossa época, e a obra de escritores como William Gibson (Idoru, Padrões de reconhecimento) e Bruce Sterling (Piratas de Dados) é uma investigação constante destes desvãos da História que só aparecem nas manchetes dos jornais quando acontece por ali uma catástrofe como o massacre da escola de Beslan, o acidente nuclear de Chernobyl ou o afundamento de um submarino.

As fotos podem ser vistas no saite do jornal Le Monde, em: http://www.lemonde.fr/web/vi/0,47-0@2-667725,54-683620@51-683131,0.html. Clicando-se no link que diz “Si la fenêtre avec le portfolio ne s’ouvre pas, cliquez ici”, aparece uma animação em flash com 45 fotos, muitas delas magníficas. Na abertura, um texto explica que com o colapso da ordem soviética muitas regiões remotas ficaram meio que à deriva; não pertencem mais a um governo central mas ao mesmo tempo não são estados independentes, tornando-se uma espécie de satélites, apêndices étnicos que não foram oficialmente extirpados de alguma república vizinha.

Para mim são particularmente comoventes as fotos do lixo espacial, feitas numa região desértica onde caem as partes descartadas dos foguetes que os russos mandam ao espaço. Segmentos inteiros dessas naves, do tamanho de um vagão de trem, descem do céu trovejando e em chamas, e espatifam-se contra o chão do deserto. Sempre que um deles é avistado (grupo de catadores de lixo ficam de tocaia, após os lançamentos, com binóculos), os caras pulam dentro dos carros, ligam o motor e partem à toda para lá. Com maçaricos e serras, eles desmancham os pedaços de foguete para vender o metal –ligas de titânio caras e resistentes.

Também há fotos de viciados em drogas aplicando-se injeções no meio de salões dilapidados onde resta apenas um tapete persa na parede (a última coisa que falta vender); vacas tombadas num prado verdejante, mortas depois de beberem água poluída; imensos conjuntos habitacionais em ruínas; um bizarro ritual de batismo em que é cortada no gelo de um lago uma abertura em forma de cruz, para que o batizado seja imerso na água geladíssima e depois reanimado com alguns copos de vodka pura.

O mundo globalizado é como uma metrópole, e esses países sem nome são os becos e arrabaldes entregues à sua própria sorte, lugares “boca quente” onde as pessoas sobrevivem como podem, acreditam no que querem, drogam-se com o que estiver ao seu alcance, e esperam a vida passar como esperamos o fim de um pesadelo que tivemos a sorte de descobrir ser um pesadelo antes mesmo de acordarmos. É o mundo de hoje, e é um inquietante trailer do mundo de amanhã.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

0539) Lixo (10.12.2004)


(Lixo em Nápoles)

O que é lixo? Em Tóquio, por exemplo, lixo pode ser um computador Pentium III de 500 Mhz, com disco rígido de 80 Gb, igual a este onde todos os dias venho tomar minha vacina contra o Tédio. O japonês compra uma máquina com o dobro da capacidade e aí pega o computador velho e coloca no corredor do prédio, para ser recolhido pelo porteiro. É lixo para o Sr. Nakayama, que acabou de fazer a troca, mas deixa de ser lixo no momento em que é recolhido pelo porteiro, um rapaz de Guaratinguetá que está no Japão fazendo seu pé de meia, e até então não tinha tido tempo de escolher um PCzinho para o filho jogar The Sims.

O que é lixo para um deixa de sê-lo, magicamente, quando cai nas mãos de outro. Uma sociedade inteligente é a que prevê e administra as possibilidades dessa reciclagem. Quando tomo meu café da manhã, todos os dias, produzo coisas de que não preciso mais: pó de café, cascas de ovos, bagaço de laranja. Tudo isso vai para o lixo, mas não tinha de ser assim. Quando eu era pequeno, lá em casa não se jogava fora uma casca de ovo. Todas eram lavadas, guardadas, torradas no forno, pulverizadas, e guardadas num saleiro, em forma de um pozinho branco muito fino, composto de puro cálcio, que era polvilhado no prato do almoço e até hoje me garante estes ossos fortes que nunca foram quebrados. Algo me diz que a grande maioria das coisas que vai para a lixeirinha da pia poderia ter o mesmo destino.

Falei acima que a sociedade deveria prever e administrar essa reciclagem, mas prefiro reformular esta proposta. Dizer assim dá a impressão (tão cara ao pessoal da direita e da esquerda) de que reciclar lixo é tarefa do governo, de que deveria haver funcionários públicos encarregados de toda manhã tocar à nossa campainha para pegar nosso lixo reciclável, conduzi-lo para uma indústria estatal, etc. etc. Na verdade, acho que deve caber ao governo apenas a criação desses centros e a educação do povo (minha e sua, caro leitor) para aprender a separar, guardar e encaminhar. Quem tem de se organizar para fazer isso são as pessoas, as famílias, os condomínios, os bairros, as vizinhanças. Se esperar por Governo, o mundo cai de podre.

Lixo é tudo aquilo para o qual ninguém consegue descobrir uma nova utilização. Enquanto tiver um cara esperto capaz de olhar para aquilo (pó de serra, pilha descarregada, quenga de coco, plástico de CD, prego enferrujado) e descobrir uma nova utilização, nada está perdido para sempre. As escolas poderiam dar o exemplo, reciclando, com a participação dos alunos, tudo que é utilizado em suas cantinas e salas de aula. Assim como o planejamento urbano e a construção civil são obrigados hoje a prever o acesso e a locomoção de portadores de deficiência, deveriam prever também instalações de recolha e distribuição de lixo reciclável. Não é tão difícil. No Brasil, por exemplo, basta promulgar uma Lei e convencer a Rede Globo a encampar a idéia.