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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

5194) A riqueza e o lixo (11.8.2025)




 
Uma sociedade de consumo como a nossa produz mais (muito mais) do que necessita, e desperdiça grande parte do que produz. 
 
Se a Cultura age assim, a Contracultura teria que lançar um contraponto. Viver do desperdício alheio seria, então, uma estratégia legítima, do ponto de vista econômico e do ponto de vista moral. 
 
E não apenas do desperdício, mas das incontáveis brechas que um sistema como esse abre dentro de si mesmo. 
 
Numa crônica publicada na revista Locus (# 582, julho de 2009), Cory Doctorow lembra: 
 
Eu tinha 15 anos quando me caiu nas mãos uma cópia ensebada de Steal This Book, a obra clássica de Abbie Hofmann, um manual ensinando a cair fora do sistema, sobreviver a custo zero, e aplicar pequenos golpes. O livro estava repleto de dicas fascinantes: como produzir o som que liberava a linha para ligações interurbanas nos telefones públicos, como organizar a loja de uma cooperativa, como reciclar pneus fabricando sandálias, como produzir um jantar saqueando as latas de lixo de um restaurante. Fiquei fascinado, e naquele verão reli o livro uma dúzia de vezes. (trad. BT)
 
Doctorow nasceu no ano em que o livro foi publicado, 1971, o que atesta a permanência da mentalidade contracultural que o produziu. Canibalizar os excessos do sistema é uma opção quase inevitável para quem não apenas se recusa a trabalhar para ele, mas precisa também dar-lhe algum prejuízo, ainda que num gesto meramente simbólico e pessoal. 
 
Há outro aspecto mais preocupante. No meio século desde o livro de Abbie Huffmann, acho que o consumismo passou por uma mudança – para pior.  Houve uma fase em que a compra descontrolada de coisas era tratada como um problema comportamental, principalmente nos EUA. Hoje, é um apocalipse coletivo. 
 
Os norte-americanos não sabem o que fazer com tanto dinheiro, ou melhor, sabem: comprar coisas desnecessárias e depois jogá-las fora. Produziram para si mesmos uma civilização em que o prazer de Ter tornou-se maior que o de Fruir, e ambos são menores que o de Comprar. É o mundo da shopping-terapia, onde tantas neuroses são empurradas para baixo do tapete, e toda semana compra-se um tapete novo. 
 
Lembro de uma época em que uma mulher com mais de dez pares de sapatos era apelidada de “Imelda Marcos” – nome da mulher do ditador das Filipinas, possuidora de mais de 1.000 pares de sapatos. Ter muitas bolsas, muitos vestidos, muitos ternos, muitas gravatas, tudo isso era o pecado do consumismo. 
 
E não apenas os burguesões acomodados cediam a isso, porque no mundo artístico o que nunca faltou foram casas com mais de 3 mil DVDs, mais de 4 mil discos, mais de 5 mil livros, e assim por diante. Perdi a conta das cenas de filme ou livro em que uma esposa jovem pergunta, em desespero: “Querido, você precisa mesmo  de uma décima-quinta guitarra?...” 
 
Cada um gasta seu dinheiro como bem entende, diz a sabedoria popular enxugando as mãos junto à bacia de Pilatos. A questão é que hoje, cinquenta anos depois, o que era neurose individual e talvez inofensiva tornou-se uma psicose coletiva de dimensões catastróficas. 




É impossível não achar isto quando se vê um filme como o documentário de Nic Stacey, A Conspiração Consumista (Netflix). O filme mostra em etapas sucessivas o gigantismo da máquina de consumo desenfreado que hoje em dia arrasta o mundo pelos pés. Ninguém escapa: Amazon, Unilever, Apple, Adidas são apenas algumas das empresas cujos ex-executivos são entrevistados no filme e abrem o jogo, sempre no tom de “eu não consegui continuar colaborando com aquilo”. 
 
Na verdade, o consumismo não é uma conspiração, assim como não há conspiração alguma quando todas as pessoas de um barco correm para o mesmo lado e o fazem virar. É apenas “a natureza da fera”, é o escorpião que morre afogado mas precisa ferrar o sapo que o transporta. 
 
Cada empresa procura apenas maximizar seus lucros, e todas pagam excelentes salários a pessoas inteligentes para que lhes tragam as soluções mais radicais. 
 
O filme resume em cinco partes essas soluções: 
 
1.       Vender mais
2.       Mentir mais
3.       Desperdiçar mais
4.       Ocultar mais
5.       Controlar mais
 
“Compre, compre, compre”, repetem mecanicamente, invisivelmente, as mensagens espalhadas pelo mundo inteiro, lembrando os códigos subliminares do filme They Live de John Carpenter. 




E os resultados são ótimos, nos gráficos apresentados aos acionistas, e nos depósitos de dividendos. Mas o mundo está sendo cada vez mais soterrado por esse excesso de produção. São pessoas gastando um dinheiro que (às vezes) não têm para comprar coisas de que não precisam – precisam do ato de comprá-las, e depois as coisas serão jogadas fora, descartadas, queimadas, enterradas, não importa. Importa que a compra aconteceu. 
 
No filme, Mara Einstein comenta: “Se você tiver que levantar da cama, pegar o carro, ir à loja, escolher o produto, pagar no caixa, trazer o pacote... isso é muito trabalhoso. Mas agora você pode Comprar Com Um Clique e o pacote é trazido até a porta de sua casa.” 
 
As estatísticas que eles compartilham são curiosas. 
 
2,5 milhões de sapatos produzidos por hora 
68.733 celulares produzidos por hora 
190.000 peças de vestuário por minuto 
12 toneladas de plástico por segundo 
13 milhões de celulares jogados fora todos os dias 
 
Não sei se são verdadeiras, mas são verossímeis, o que já é um alerta. Sabemos que o mundo é capaz disto. 
 
A “obsolescência programada” encurta a vida útil dos produtos para que eles possam ser comprados mais vezes. E a empresa não pode correr o risco de que os que vão para o descarte (os que ninguém comprou) vão parar nas mãos de mendigos ou de desocupados. É preciso danificá-los, torná-los inúteis, uma coisa que ninguém queira, ninguém aproveite. Há funcionários encarregados apenas de inutilizar as peças que vão para o descarte, rasgando roupas, malas, casacos; quebrando telas de aparelhos; riscando mídias eletrônicas, etc. É preciso inutilizar antes de descartar. 


(Carros da Audi abandonados no deserto de Mojave)

 
Anna Sacks (@thetrashwalker) é uma entrevistada que se dedica a tentar recuperar alguma parte desse material, catando produtos descartados e jogados no lixo. Sua atividade faz um link interessante com outro filme, Os Catadores e Eu (2000) de Agnès Varda. Nesse documentário, a diretora francesa investiga e entrevista, em princípio, os glaneurs, pessoas que catam frutas, legumes, etc., não recolhidos nas colheitas. A partir daí, vai fazendo conexões com outras ocupações paralelas, até chegar a um grupo de jovens estudantes meio sem-teto que saqueiam o lixo de um supermercado atrás de comida. 
 
Um velho ditado popular fala que só existem ricos onde há pobres, e vice-versa. Não é só o futuro que está mal distribuído, como queriam os escritores cyberpunk; o presente também.   
 
Cui bono – é uma pergunta clássica que sempre incomoda um pouco. “A quem isto beneficia?”. Um sistema de desperdício proposital é tão suicida (em termos coletivos) que deve ser útil para alguém, na mesma proporção. Em nosso caderno há nomes famosos: Jeff Bezos (que aparece nesse documentário da Netflix), Elon Musk, Bill Gates e outros. Mas estes são apenas os que cabem no círculo estreito dos holofotes. E os milhares que ficam na sombra? 


 

O conto “The Totally Rich” do inglês John Brunner (em Worlds of Tomorrow, 1963; publicado em livro em Out of My Mind, New York, Ballantine, 1967) conta a história de uma mulher riquíssima que tenta manter-se eternamente jovem, e ao mesmo tempo quer ressuscitar o namorado que já morreu. Um eco do clássico Ela, a Feiticeira (“She”, 1887) de H. Rider Haggard. 
 
John Brunner faz uma reflexão, neste conto, sobre a vida dos superbilionários. (É a parte profética do conto, porque os “totalmente ricos” de hoje possuem fortunas que 50 anos atrás eram inconcebíveis mesmo para autores de FC.) 
 
Diz ele:
 
“Eles são os totalmente ricos. Você nunca ouviu falar neles porque eles são as únicas pessoas no mundo ricas o bastante para poder comprar o que desejam: uma vida totalmente privada. (...) Quantos deles existem, eu não sei. Tentei calcular o total somando o PIB  de todos os países da Terra e dividindo pela quantia necessária para comprar o governo de uma potência industrial. Não preciso dizer que você não pode ter privacidade total se não for capaz de comprar pelo menos dois governos. Acho que deve haver uma centena dessas pessoas. Já conheci uma delas, e provavelmente outra. (...)
 
“Eles não estão no mapa. Entende isso? Literalmente, qualquer lugar onde eles escolham viver torna-se um espaço em branco nos atlas. Não estão nas listagens do Censo, nem no Quem é Quem, nem no Pares do Reino Britânico de Burke. Não aparecem nos registros de imposto de renda, e o correio não tem seu endereço. Pense em todos os lugares onde o seu nome aparece: registros escolares amarelecidos, arquivos de hospitais, notas fiscais de lojas, documentos assinados. Em nenhum desses lugares o nome deles está visível.
 
“Eles não são governantes absolutistas. Na verdade, não governam coisa alguma a não ser o que lhes diz respeito diretamente. Mas eles se assemelham àquele Califa de Bagdá que encomendou a um escultor “a fonte mais bela do mundo”. Quando ficou pronta (e era bela de verdade) ele perguntou ao escultor se havia algum artista capaz de superá-la em beleza. O escultor afirmou que não. O Califa disse: Paguem a ele o que foi combinado, e arranquem os seus olhos”
 


 
 




quarta-feira, 6 de março de 2024

5039) O Enterro do Diabo (6.3.2024)



 

O vilarejo de Macondo, perdido na selva da Colômbia, tornou-se famoso em Cem Anos de Solidão (1967), de Gabriel Garcia Márquez; mas já havia nascido, em essência e medula, no livro de estréia de Márquez, La Hojarasca (1955), que no Brasil saiu com os títulos “O enterro do diabo” e “A revoada”.
 
Macondo é um microcosmo pulsante de memórias afetivas, tanto coletivas quanto individuais, colhido em parte na Aracataca onde Márquez passou sua infância, em parte nas memórias dos avós que por algum tempo o criaram em sua companhia, e em parte na história delirante da Colômbia, um país relativamente pequeno (tudo é relativamente pequeno comparado a esse mastodonte geopolítico que herdamos) mas com uma topografia contraditória (mar, selva, montanha) e uma história de violência absurda assimilada ao cotidiano. 
 
Li agora a tradução de Joel Silveira para a Editora Record (15ª. edição, 1999). Ele explica numa nota sua opção de tradução para o título, “A Revoada”, uma vez que a tradução ao pé da letra seria “A folharada”. Esse fenômeno descrito pelo autor é a migração maciça de gente que se segue à criação de uma fonte de renda em grande escala, tal como as famosas corridas-do-ouro (Serra Pelada, etc.) ou construção de grandes obras (Canal do Panamá, Brasília, etc.). É um tsunami de gente disposta a tudo, e sem vínculo com ninguém. 
 
O prólogo do livro diz:
 
De repente, como se um redemoinho tivesse plantado raízes no centro do povoado, chegou a companhia bananeira, perseguida pela hojarasca. Era um aluvião revolto, alvoroçado, formado pelas sobras humanas e materiais dos outros povoados, restolhos de uma guerra civil que parecia cada vez mais remota e inverossímil. (...) [Eram] os escombros de numerosas catástrofes anteriores à própria invasão. (...) [H]omens que amarravam a mula na grade do hotel, trazendo como única equipagem um baú de madeira ou uma trouxa de roupa, e que poucos meses após já tinham casa própria, duas concubinas e o título militar que lhes ficaram devendo por haver chegado tarde à guerra. (p. 7) 
 
A companhia bananeira, ou United Fruit Company, é o vilão tradicional da obra de Márquez. Uma frota alienígena de poder incomparável, que desce sobre os tesouros locais, suga tudo que pode e vai embora, deixando os despojos para que alguém enterre. Uma invasão que traz no início o surto vertical de prosperidade, faz pipocar fortunas a torto e a direito, e parte: 
 
Aqui ficava uma aldeia arruinada, com quatro lojas pobres e escuras, ocupada por gente desempregada e rancorosa a quem atormentavam a lembrança de um passado próspero e a amargura de um presente deprimido e estático. Não havia nada no porvir a não ser um tenebroso e ameaçador domingo eleitoral. (p. 118) 


(Aracataca)

Copiando esses trechos agora meu olhar detecta o autor de 20-e-poucos anos, tão propenso a parelhas de adjetivos.  Márquez passou anos reescrevendo La Hojarasca, cuja inspiração inicial foi a viagem feita em 1952 com sua mãe para vender a casa da família em Aracataca. É o episódio que abre seu livro de memórias Vivir Para Contarla (Bogotá: Editorial Norma, 2002). 
 
O autor trabalhava como jornalista em Barranquilla, e começou a transportar para este livro a influência de suas leituras de Faulkner, Virginia Woolf e outros autores modernos que estava descobrindo junto com seu círculo de amigos. 
 
O livro foi recusado em Buenos Aires (na Editorial Losada) por Guillermo de Torre, o cunhado de Jorge Luis Borges, mesmo com uma ressalva elogiosa: “É preciso reconhecer no autor seus excelentes dotes de observador e de poeta”. Márquez chorou pitangas nos bares de Barranquilla, mas sobreviveu. Os amigos o consolaram lembrando que o mesmo Guillermo de Torre havia recusado nada menos que o Residencia en la Tierra, de Pablo Neruda. 
 
Antes de ser publicado, o romance era uma maçaroca amarrotada que o jovem autor levava para todo canto. Durante algum tempo, sem ter como pagar aluguel, Márquez descobriu um hotel de prostitutas onde um casal pagava $ 1.50 de diária. Tornou-se tão habituê, e amigo dos funcionários, que chegava desacompanhado e pagava o mesmo preço. A certa altura, já sem dinheiro, deixava o manuscrito de refém (“guarde isso, é meu bem mais precioso, quando eu pagar você me devolve”), mas tinha onde dormir. 




E o livro? Numa entrevista de 1977 a “El Manifiesto”, Bogotá, ele diz: 
 
Tenho grande carinho por esse livro, e pelo sujeito que o escreveu. Posso vê-lo perfeitamente: é um rapaz de 22 ou 23 anos, acredita que nunca mais vai ter uma chance de escrever nada na vida, que esta é sua única oportunidade, e trata de enfiar tudo ali, tudo que recorda, tudo que aprendeu de técnica e de malícia literária em todos os autores que leu. 
(Garcia Márquez habla de Garcia MárquezI, Bogotá, Renteria Editores, 1979)
 
Ele bebeu principalmente em Faulkner, sentindo uma certa sintonia de espírito entre o seu Caribe e o Sul Profundo do escritor norte-americano. La Hojarasca usa o artifício faulkneriano de várias vozes narrativas que se entrelaçam o tempo inteiro, contando uma só história, às vezes descrevendo a mesma cena, que surge enriquecida por três olhares diferentes: um Coronel idoso, sua filha adulta e seu neto de dez anos. 
 
O “diabo” que deve ser enterrado é o centro misterioso da história: um doutor que, no tempo da prosperidade, aportou em Macondo e de início se instalou na casa do Coronel, mediante uma carta de recomendação do “Coronel Aureliano Buendía”, visto no livro como alguém inquestionável, absoluto, merecedor de todo o respeito. 
 
O doutor exerce e depois abandona a medicina no povoado, mas passa a ser odiado pela população quando, durante uma das refregas da guerra civil, nega-se a atender os feridos. O romance começa com a notícia da morte do doutor, que a esta altura morava em completo isolamento, e um belo dia amanheceu enforcado. A população faz votos para que ele apodreça, mas o Coronel, por dever de honra, chama a filha e o neto para acompanharem o corpo até “a última morada”. 


 
É uma novela densa e curta de 140 páginas, e nela surge inteiro o retrato de Macondo, um povoado poeirento, silencioso, queimado por um sol implacável, imóvel como um lagarto sobre uma pedra, percorrido por lembranças de violências brutais e por segredos que ninguém comenta. 
 
Uma das questões centrais do livro é: deve-se tratar com humanidade alguém que foi desumano? Um canalha morto tem direito a sepultura, ou deve ser deixado apodrecendo ao léu até nada mais restar dele?  O livro tem uma epígrafe bem a propósito, da Antígona de Sófocles, onde o drama da personagem é dar sepultura a seu irmão Polinice. Quando é o irmão de Antígona todo mundo acha que ele tem esse direito, mas, e se um ex-nazista cai morto na rua, deve ser levado ao Caju ou deve ser arrastado para o terreno baldio mais próximo, onde os urubus se encarregarão do resto? 
 
O “doutor” (não se sabe seu nome) é uma dessas figuras escusas, um homem carrancudo, de poucas palavras que se instala como quase-dono na casa do coronel, usa-o, depois joga-o fora, e é esse mesmo Coronel que depois irá afrontar Macondo inteiro para levá-lo feito gente ao cemitério. 
 
A esposa do Coronel, num momento em que não suporta mais aquele hóspede antipático instalado na sua casa, queixa-se ao marido: 
 
– É uma heresia continuar alimentando-o. É como se estivéssemos alimentando o demônio.
E eu, que sempre tivera para com ele um complexo sentimento de piedade e admiração (pois, embora não queira desfigurá-lo agora, havia muito de pena naquele sentimento) insistia:
– Temos de suportá-lo. É um homem sem ninguém no mundo e que precisa ser compreendido. (p. 74) 



O Coronel, um dos narradores, prende-se ao doutor por reverência ao coronel Buendía, e em parte por aquela solidariedade masculina tão latino-americana, em que os homens constituem uma espécie de maçonaria inquebrantável, mesmo quando sacaneiam uns aos outros. A filha do Coronel, aliás, teve o garoto, um dos narradores da história, mediante um casamento fracassado com um espertalhão que queria apenas os favores do coronel. É ela quem narra: 
 
Eu não conhecia meu noivo, nunca estivera sozinha com ele. Martín, no entanto, parecia vinculado a meu pai por uma entranhada e sólida amizade e este falava daquele como se fosse ele e não eu quem ia casar-se com Martín. (p. 95) 
 
O Martín casa, engravida a esposa, consegue encaminhar os negócios que tinha em mente e desaparece para sempre. E o Coronel, anos depois, comenta assim o caso: 
 
Chegou a minha casa com um paletó de quatro botões, segregando juventude e dinamismo por todos os poros, envolto numa luminosa atmosfera de simpatia. Casou-se com Isabel em dezembro, onze anos atrás. Já se passaram nove anos desde que se foi com a pasta cheia de obrigações assinadas por mim, prometendo voltar logo que tivesse realizado a operação que se havia proposto e para a qual contava com a garantia dos meus bens. Já se passaram nove anos, mas nem por isso tenho o direito de pensar que ele era um velhaco. Nem por isso tenho o direito de pensar que seu casamento foi apenas uma jogada para convencer-me de sua boa fé.  (p. 106) 
 
A “revoada” é a revoada de predadores, seja o tipo selvagem (como o Doutor) ou o tipo doméstico (como Martín). São todos vampiros, estão ali em busca da riqueza, do anonimato, ou de ambos. Macondo é um lugar como a Amazônia brasileira de hoje, um fim de mundo onde é possível sumir do mundo e reaparecer com outra cara, outro nome, e muito dinheiro no bolso. 
 
É o Macondo onde vai se gestar, daí a uma década, o épico de Cem Anos de Solidão: uma terra de homens alucinados por miragens: a Pátria, a Amizade, a Honra, a Riqueza, a Palavra Dada. Quando se disser, nesse livro subsequente, que o Coronel Aureliano Buendía liderou trinta e sete revoluções armadas e perdeu todas, não está se falando apenas em insurreições republicanas ou em sublevações militares – é o grão de loucura instalado no DNA daquele povo, cujo corpo vive neste mundo de cá, mas cuja mente vive num mundo alucinatório que só eles enxergam. 
 



 



terça-feira, 21 de março de 2023

4924) "Os Falsários" (21.3.2023)




Este ótimo filme alemão-austríaco (está no streaming do Belas Artes À La Carte) é mais um filme sobre a dura sobrevivência nos campos de concentração, mas desta vez com um ingrediente novo. Ganhou um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2008.
 
Os Falsários (“Die Fälscher”, 2007), de Stefan Ruzowitzky, conta a história (verídica) da Operação Bernhard, baseada nas memórias de Adolf Burger, um dos participantes. Com as inevitáveis dramatizações e simplificações, por certo.
 
Aqui:
https://www.belasartesalacarte.com.br/browse
 
Parece que a certa altura da II Guerra, os nazistas perceberam que entre os judeus presos nos variados campos de concentração encontravam-se desenhistas, tipógrafos, gravadores, técnicos e especialistas em tintas e papéis... Além de falsificadores de dinheiro.


Surgiu então a idéia de usar esses técnicos (quase todos judeus) para falsificar moeda estrangeira (libras inglesas, dólares, etc.) e jogar esse dinheiro no mercado internacional. Com isso, os alemães teriam um lucro duplicado: pagariam as próprias despesas de guerra, que eram colossais, e por outro lado inflacionariam o mercado internacional com dinheiro falsos dos Aliados, gerando uma crise financeira para os inimigos.
 
Adolf Burger é um dos principais personagens do filme, interpretado por August Diehl (de O Jovem Karl Marx). Mas o protagonista, um “mix” de alguns personagens reais, é Solomon Sorowitz, um exímio falsário que antes da guerra vivia dos pequenos golpes habituais da profissão, mas que depois de prisioneiro é encarregado pelos nazistas de supervisionar a operação. 
 
A aliança com os nazistas leva esses prisioneiros para um campo mais “light”, onde têm direito a refeições melhores, algum tratamento médico, camas com lençóis e travesseiros limpos, etc. Para quem está naquela situação, é uma chance de sobrevivência. Ao mesmo tempo, provoca nos presos uma crise ética. É certo colaborar com os inimigos? Ajudar as finanças de Hitler? Ficar ali no bem-bom, trabalhando para os alemães, enquanto no campo ao lado outros presos são torturados, espancados, mortos a tiros por passatempo? 
 
Os nazistas colocam uma opção muito clara. Se vocês fizerem, vão ter direito a banho, sopa, cama limpa, sobreviver. Se não fizerem, vão ser levados para o pátio, forçados a se ajoelhar, e abatidos com um tiro na têmpora. (Vemos várias cenas assim.) 



Uma das questões mais delicadas das ditaduras e das invasões é a dos chamados “colaboracionistas”, as pessoas que em vez de pegar em armas contra o invasor ou o governo criminoso decide apenas evitá-lo, desviar-se, sobreviver, mesmo ao preço de ajudá-lo aqui e ali e, como regra geral, não bater de frente com ele. Em situações dessa natureza, existem os que dão murro em ponta de faca, e os que tentam apenas desviar-se da faca.
 
As duas atitudes geram um dos conflitos principais em Os Falsários, entre o esquerdista Burger (autor do livro original), que grita: “Não podemos trabalhar pela continuidade do nazismo!”, e o falsário Sorowitz, que diz: “Rapaz, primeiro vamos tratar de sobreviver, a gente não pode ganhar a guerra daqui de dentro deste campo.”



(Karl Markovics (Sorowitz) e August Diehl (Burger)
 
Um importante ponto de inflexão no filme é no seu terço final, quando a maré do conflito bélico começa a virar. Até então, a guerra na Europa acontece à distância; volta e meia os prisioneiros do campo ouvem algum comentário, ou espreitam à distância os nazistas amontoados em torno de um rádio, fazendo comentários arrogantes e, depois, preocupados.
 
Solomon Sorowitz começa a perceber essa virada quando o oficial Herzog, o comandante da operação falsificadora, passa a tratá-lo com mais jovialidade, num tom amistoso, e chega a levá-lo para almoçar em sua casa e conhecer sua família – uma cena banal, mas, no contexto, absurdamente cruel.
 
A certa altura, na reta final, o oficial começa a soltar frases tipo: “Olha, eu nem acredito muito nessa ideologia...” – “Sabia que eu já fui comunista, na juventude?...” - “Você sabe que eu estou aqui apenas fazendo o meu trabalho...” e isso nos mostra indiretamente a derrocada do regime.



Todo regime de força tem um núcleo de fanáticos ideológicos e uma massa-de-manobra heterogênea de desorientados, oportunistas, conformistas, aproveitadores, indiferentes. A ponta da lança são os ideológicos, que produzem as rupturas sociais e instituem o regime do terror e da pressão. Quem dá sustentação e continuidade ao regime são pessoas em busca de segurança, de chances de ascensão social e de enriquecimento; e pessoas que seguem a boiada por medo de represálias ou de discriminação. Fariam o mesmo por qualquer ideologia.  
 
Esse é o alicerce de qualquer movimento político avassalador e brutal. A ideologia pesa, mas pesa menos do que a simples ambição do poder. E esta pesa (em termos quantitativos, na população) menos do que a ansiedade pela segurança, pelo emprego garantido, pelo sustento da família. Para ter isto, milhões de indivíduos farão vista grossa a campos de extermínio, a bombas atômicas, ao trabalho escravo, à tortura de pessoas desconhecidas. 
 
O nazismo está sendo comido pelas beiradas; o oficial Herzog se acovarda, sorri, dá tapinhas nos ombros dos prisioneiros, lembra a eles o quanto os tratou bem... Tudo isto, por mais que seja patético e desprezível, é humano. Não porque seja um modelo para a humanidade, mas porque, para quem observa de fora, é exatamente assim que os humanos muitas vezes se comportam.  





segunda-feira, 6 de março de 2023

4919) O supermercado de Annie Ernaux (6.3.2023)

 


Annie Ernaux ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano passado graças a seus livros semi-autobiográficos, escritos com frieza e precisão. São uma forma pessoal da “auto ficção” tão praticada hoje em dia, livros em que o autor escreve sobre si mesmo, seja fantasiando as próprias lembranças, seja colocando-se como um dos personagens de uma história imaginada. 
 
Mas não se trata apenas da contação de fatos autobiográficos. Os livros dela prendem-se a episódios específicos mas ao mesmo tempo fazem uma análise distanciada do ambiente humano onde aquela história está se passando. É o caso de Regarde les lumières, mon amour, em que ela fala de seu cotidiano e descreve o ambiente e a “fauna humana” em um grande supermercado, o Auchan, da região onde ela mora. 
 
Os franceses desenvolveram uma forma muito peculiar de ficção descritiva. Depois do Nouveau Roman dos anos 1950, com Alain Robbe-Grillet e outros, surgiu um tipo de descrição hipertrofiada, que toma a frente da narrativa. É a literatura do olho, a literatura da câmera fotográfica ou cinematográfica, observando, acompanhando, registrando, descrevendo. Como um jornalista incumbido de explicar um ambiente aos seus leitores, o autor nos dá um relato visual que ao mesmo tempo é social e psicológico, porque ele não se priva de fazer relações de significado e de importância entre os elementos que descreve. Mas é sempre o descrever que se sobrepõe ao contar uma história


Um clássico desse tipo de literatura é o Espèces d’espaces (1974), em que Georges Perec faz a ambiciosa tentativa de – num certo sentido – descrever o Universo, como uma série de espaços concêntricos, mostrados de dentro para fora. Perec começa em “A página”:
 
Eu escrevo...
Eu escrevo: eu escrevo...
Eu escrevo: “eu escrevo...”
Eu escrevo que escrevo...
etc.
 
Eu escrevo: eu traço palavras sobre uma página.
(Espèces d’espace, Denoël, 1974, trad. BT)
 
Desta página onde o livro está começando a se criar, ele passa, nos capítulos seguintes, para “A cama”, “O quarto”, “O apartamento”, “O edifício”, e por aí vai, até chegar ao Universo propriamente dito. 
 
Perec é um ótimo contador de histórias, inclusive as mais improváveis e bizarras, mas esse livro seu é um tour de force de descrição pura. Já o livro de Annie Ernaux parece-se muito mais a um relato jornalístico, porque ela não registra apenas as gôndolas, os balcões e os produtos do Auchan: ela observa as pessoas, faz suposições sobre quem são e o que sentem, examina as relações sociais, etc. 
 
Pode-se dizer que seu livro é uma reportagem atemporal sobre um ambiente que ela precisa frequentar com assiduidade. O livro é estruturado como um diário, cada capítulo tendo como título uma data. 



Na “Introdução”, ela explica (trad. BT):
 
As mulheres e os homens da vida política, os jornalistas, os “experts”, todos aqueles que nunca puseram os pés num hipermercado não conhecem a realidade social da França de hoje.
(...) Quem não tem o costume de vir aqui facilmente se desorienta; não como ocorre num labirinto, ou como em Veneza, mas em virtude da estrutura geométrica do espaço, onde se justapõem, de cada lado das aléias situadas em ângulo reto, pequenas lojas fáceis de confundir. É a vertigem da simetria, reforçada pelo espaço fechado, mesmo estando este aberto à luz do dia por uma imensa vidraça que substitui o teto. 
 
A prosa de Ernaux é direta, polida. Uma prosa de cientista social registrando costumes exóticos nas ilhas dos Mares do Sul, ou da narração em off de documentários da BBC explicando os hábitos de acasalamento dos pavões. Uma prosa sem sobressaltos.
 
Caberia aqui, talvez, a observação mordaz, mas com conhecimento de causa, de Joaquim Nabuco:
 
Os franceses desconfiam do gênio. Só admiram sinceramente aquilo que for bem podado, bem nivelado, perfeitamente regular. Têm o culto das médias.
(Pensamentos Soltos, Livro 2, item 159) 
 
Mesmo nos detalhes que pressupõem envolvimento pessoal, ela mantém a objetividade:
 
Quinta-feira, 8 de novembro
Um pouco mais adiante, no espaço destinado à livraria, vê-se uma cliente apenas, uma mulher madura, passeando por entre os balcões. Cada vez que me aventuro ali, saio triste e desanimada. Não que meus livros estejam ausentes: há alguns deles lá, na estante dos Livres de Poche, mas, com poucas exceções, a escolha obedece a um só critério, o de best-seller. Um cartaz com mais de três metros anuncia Os Mais Vendidos, numerados de 1 a 10 em algarismos enormes, como os das corridas de cavalos em Longchamp. O que se pode chamar de literatura ocupa apenas uma pequena porção deste espaço reservado a livros sobre assuntos práticos, jogos, viagens, religião, etc.
 
Parece o Brasil!, exclamará algum dos nossos pessimistas de profissão. Mas é a França, a mesma de Breton e de Voltaire. O ambiente impessoal, contudo, reserva alguns pequenos consolos aos egos literários:
 
Quarta-feira, 3 abril.
No caixa, onde a fila é pequena, uma cliente puxando carrinho me deixa passar à sua frente. Como me recuso, vigorosamente – será que pareço tão cansada, tão envelhecida? – ela me sorri e diz saber que sou escritora. Trocamos comentários sobre a loja, sobre as crianças em volta, numerosas para uma quarta-feira. Ao colocar minhas compras no balcão, penso com certo desconforto que ela vai ver o que estou comprando. Cada produto daqueles assume de repente um peso inesperado, que revela meu estilo de vida. Uma garrafa de champanhe, duas de vinho, leite fresco, queijo emental, pão de forma sem casca, iogurte Sveltesse, almôndegas para os gatos, doce de gengibre inglês... É a minha vez de ser observada, de ser transformada em objeto. 
 

Esse olho científico, apolíneo, certamente vai além do literário. O valor-de-presença que se atribui a toda a parafernália comercial das gôndolas tem algo em comum com as pinturas pop de Andy Warhol reproduzindo latas de sopa e garrafas de Coca-Cola.
 
É o reconhecimento da importância central dessas coisas em nossa vida, porque no fundo trabalhamos tanto para poder comprá-las!... Daqui a cem anos, a duzentos, esta arte será vista certamente com outros olhos, não imagino quais.
 
Quinta-feira, 11 de julho.
No guichê de “saída sem compras”, o olhar do segurança para as minhas mãos, os meus bolsos. Como se sair dali sem nenhuma mercadoria fosse uma anomalia suspeita. Como se eu levasse comigo a culpa de nada ter comprado.
 
A consciência social nunca está ausente nos franceses, basta raspar a epiderme de seus pensamentos e um problema político salta, prontinho. Annir Ernaux registra, no começo do livro:
 
Quarta-feira, 28 de novembro.
Um incêndio destruiu uma indústria têxtil em Bangladesh, matando 112 pessoas, mulheres em sua maioria, que trabalhavam ali em troca de um salário de 29,50 euros mensais. O edifício, que não poderia ali ter mais de três andares, tinha nove. Os trabalhadores ficaram presos no interior, sem poder sair. Essa indústria, a Tazreen, fabricava camisas polo, T-shirts, etc. para empresas como o Auchan, Carrefour, Pimkie, Go Sport, Cora, C&A, H&M. Evidentemente, além das lágrimas de crocodilo, não se pode esperar muito de nós (que lucramos alegremente com essa mão-de-obra escrava) para mudar esse estado de coisas. A revolta só poderá vir dos próprios explorados, no outro lado do mundo. Mesmo os desempregados franceses, vítimas da globalização, ficam satisfeitos de poderem comprar uma T-shirt por nove euros. 
 
E lá adiante, ela volta ao assunto:
 
Quarta-feira, 24 de abril.
Um edifício de oito andares desmoronou perto de Dacca, em Bangladesh. Pelo menos duzentos mortos. Ateliês de confecção de roupas empregavam ali cerca de 3 mil operários, para suprir o mercado ocidental. 
 
Quarta-feira, 15 de maio.
O balanço total do desmoronamento do Rana Plaza, em Bangladesh, fechou em 1.127 mortos. Dos escombros, foram resgatadas etiquetas de marcas como Carrefour, Camaïeu e Auchan. 
 
Esta frequentadora rotineira do Auchan vê-se arremessada para o lado errado de uma história trágica, mas não deixa de fazer o registro. Ela não pode deixar de consumir aqueles produtos e, como a maioria de nós, não se sente diretamente responsável pelos métodos postos em prática pelos fabricantes ou comerciantes.






terça-feira, 15 de novembro de 2022

4883) Os esquemas da Fifa (15.11.2022)


 
A Copa do Mundo se aproxima. Mesmo estando meio distanciado do futebol, eu decidi me presentear com um spoiler do que vem por aí – e fui assistir no Netflix a série-documentário Esquemas da Fifa, dirigida por Daniel Gordon.
 
Em quatro episódios, a série descreve o escândalo que estourou em 2015, quando altos dirigentes da Fifa foram presos, numa operação simultânea em vários países – por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa... O cardápio habitual de quem mexe com muita grana.
 
Dizem que toda honestidade tem seu preço; algumas são meramente mais caras do que outras. O mundo do futebol não é necessariamente composto por gente mais honesta ou desonesta do que o mundo da indústria automobilística, o mundo dos cosméticos, o mundo do rock ou o mundo das telecomunicações. Qualquer lugar onde role muito dinheiro torna-se um terreno fértil para a desonestidade. O restante vai ser determinado pelo formato interno dessa indústria, ou comércio, ou mercado, etc. Pelas relações de produção, pelos freios e contrapesos junto aos governos, imprensa, público, etc.
 
O formato interno da Fifa, a confederação internacional de futebol, revelou-se extremamente propício para a roubalheira. O documentário mostra os primórdios da entidade e o espírito meio ingênuo, quase amadorístico, que ela manteve até a gestão de Sir Stanley Rous. O qual foi substituído pelo brasileiro João Havelange, uma raposa no pleno sentido da palavra.


(João Havelange e seu sucessor Joseph Blatter)
 
Havelange assumiu em 1974 e passou a transformar o futebol internacional, injetando nele dois modelos de conduta: o big business e a política. Não poderia dar certo, e não deu. A Fifa se transformou em um enorme instrumento de enriquecimento ilícito e corrupção moral.
 
Praticamente todos os entrevistados falam idealisticamente sobre o impulso de desenvolver o esporte em todos os países – principalmente nos mais pobres, onde a juventude vive aos deusdará. O esporte pode ensinar lições de vida (concordo). Pode ensinar o valor do talento individual e o valor do espírito coletivo (concordo). Pode aproximar culturas diferentes, até mesmo num contexto de competição e rivalidade, mas diluindo estes dois aspectos em benefício de um ideal maior, o esporte (concordo). Mas... No papel tudo é bonito, e no microfone tudo soa bem.
 
Contratos bilionários, pesadas comissões e subornos cada vez mais explícitos são revelados ao longo dos quatro episódios. Curiosamente, a série aborda com destaque a decisão da Fifa de votar simultaneamente os locais das Copas do Mundo de 2018 (deu Rússia) e 2022 (deu Qatar). Há todo um detalhamento do envolvimento político dos xeiques do Qatar, que os documentaristas praticamente espremem no canto da parede, exigindo explicações.


Nem uma palavra é dita sobre a Copa da Rússia. Talvez porque já tenha acontecido, e (como se diz por aí) não adianta dar chute em cachorro morto. Talvez.
 
Lembro muito bem de quando Ronaldo Fenômeno teve um piripaque no dia da decisão da Copa de 1998, na França. As mais mirabolantes teorias da conspiração foram propostas. Desde as explicações de mero suborno (cheguei a ver listas apócrifas, com o preço de cada jogador: Fulano, X mil dólares; Sicrano, Y...) até explicações que envolviam extraterrestres reptilianos e controle mental via satélite (o que explicava as cabeças raspadas de vários jogadores).
 
Li há muitíssimos anos num livro policial qualquer, provavelmente de Agatha Christie ou alguma aventura do Padre Brown, de Chesterton, o detetive explicando: “Muitos suspeitos de um crime mentem, mesmo sendo inocentes. O assassino não é o único a mentir. Alguns inocentes mentem por medo, outros por conveniência, outros por hábito.” E a conclusão: “Quando vemos todo mundo mentindo, a verdade fica irreconhecível.”
 
A corrupção política, tal como os crimes investigados por Hercule Poirot, não é um samba de uma nota só. Não acontece sempre pelos mesmos motivos, nem seguindo os mesmos processos. Cada caso é um caso. Em outro livro policial, vi um mafioso, um tipo Don Corleone, explicando ao seu braço-direito: “É preciso saber o ponto fraco de um homem, para poder suborná-lo. Homens honestos, que rejeitariam horrorizados um milhão de dólares, podem entregar tudo em troca de um fim de semana com uma chacrete que admiram à distância”.



Um dos temas repetidos mais insistentemente em Os Esquemas da Fifa é o da sensação de poder e a certeza da impunidade. A Fifa levantou quantidades astronômicas de dinheiro ao longo de décadas. De uma hora para outra, os dirigentes do futebol de 120 países se viam projetados num universo de carros de luxo, hotéis 6 estrelas, restaurantes finíssimos, presentes caros, mulheres lindas e aquiescentes, salas Vip, tapete vermelho, jantares com primeiros ministros e presidentes. Muitas vezes nem era preciso o suborno. Bastava o cargo – e a liturgia do cargo.
 
Só que o uso do cachimbo deixa a boca torta, e lá pelo terceiro episódio da série chegamos à parte decadente e farsesca: os famosos envelopes de papel pardo com milhares de dólares dentro, entregues numa suite de hotel, enquanto os outros esperam sua vez na ante-sala. É como dar um salto brusco de São Conrado para Rio das Pedras.
 
O produtor da série, Miles Coleman, declara: “O grande problema é que numa entidade como a Fida não existe voto direto, voto popular. São os delegados das federações que votam. Então... basta você convencer 120 pessoas, e você pode se perpetuar no poder, por um longo tempo.”
 
Eu sou impregnado de futebol desde a infância, é algo que está nos genes de meu pai ou no feijão da minha mãe. Lá em casa todo mundo tem time. Já fui jornalista esportivo, já fiz parte de torcida organizada, já fui funcionário do meu clube do coração. Conheço conversa de vestiário, de sala de reunião, de bastidores. Sempre soube que o futebol é todo contaminado de safadeza. E daí? Nesta vida, neste mundo, o que não é?
 
Meus amigos leigos me veem reclamando das diretorias corruptas, dos juízes desonestos, dos jogadores mercenários, do VAR, da bandeirinha de córner, do gandula. Perguntam: Por que continua torcendo, se sabe que tudo aquilo é um teatro, e que muitas vezes o resultado do jogo (e do campeonato) foi acertado de antemão?
 
Não sei. O futebol é uma coisa tão fascinante que a gente consegue, quando o juiz faz “pí!...” esquecer de tudo e acreditar que o jogo é somente o jogo. Como quando vai num show musical num estádio repleto, e faz de conta que não está vendo aqueles logotipos coloridos piscando, mostrando quem paga pelo espetáculo e quem manda em você. Ou quando assiste a novela de TV fingindo que aquilo é de verdade, e faz de conta que não dá atenção aos comerciais.
 
A mente humana não foi programada para aceitar doses muito grandes de realidade. Temos necessidade de acreditar que “apesar de tudo existe uma fonte de água pura”. Sabemos que não existe. Mas sabemos também que só deixará mesmo de existir quando a gente não acreditar mais nela.


(by Chappatte)
 





segunda-feira, 24 de outubro de 2022

4876) Balzac e "Em Busca do Absoluto" (24.10.2022)




Estava na minha mira há muitos anos Em Busca do Absoluto (1834) de Honoré de Balzac. Eu imaginava, de início, que se tratava de um alquimista em busca da Pedra Filosofal. Outros comentários, depois, me alertaram para o fato de que não era isso: era o relato de uma aventura científica nos primórdios da ciência experimental moderna.
 
Balthazar Claes é um homem riquíssimo de Douai, norte da França, na região de Flandres. É casado com Josephine, também de família abastada. Durante os vinte anos abarcados pelo livro (de 1812 a 1832), ele consome toda a fortuna da família para financiar seu projeto científico delirante: a procura do Absoluto, do princípio absoluto que está subjacente aos elementos químicos e à propria matéria.
 
Acabei lendo numa tradução inglesa de Ellen Marriage (The Quest of the Absolute, Dedalus/Hipocrene, 1989), mas o livro existe em português, também com o título de A Procura do Absoluto, nas diversas edições da “Comédia Humana”, pela Editora Globo. Faz parte do ciclo de “Estudos Filosóficos”. As citações abaixo são traduzidas por mim dessa edição inglesa, e não do original francês.


Balzac é uma figura literária admirável, pelo edifício romanesco que construiu em 51 anos, uma vida assombrosamente curta para a quantidade e qualidade do que escreveu.
 
Em Busca do Absoluto começa com aqueles choques de realidade que sua literatura nos dá de vez em quando. Ele começa descrevendo a região de Douai, um pouco de sua história, do caráter de seu povo. Depois fala da família Claes, sua origem, sua imagem pública; chega então à descrição detalhada da mansão da Rua de Paris, onde ocorre quase todo o romance. Descreve a casa e seus tesouros de arte. E somente à página 15 começa a história propriamente dita:
 
Numa tarde de sábado no final de agosto do ano de 1812, uma mulher estava sentada numa ampla poltrona, junto a uma das janelas que davam para o jardim. (Cap. I, trad. BT)
 
O leitor moderno torce o nariz para aquelas longas descrições de ambientes, mas elas são uma conquista literária nem um pouco desprezível. Aliás, não é só o leitor moderno. No primeiro parágrafo do romance, Balzac já vem “com água e lenha”, depois de mencionar a mansão da Rua de Paris:
 
Mas antes de passar à descrição dessa casa, talvez não seja desnecessário introduzir aqui, em defesa do autor, um protesto em favor dessas preliminares didáticas pelas quais o leitor ignorante e impaciente manifesta tmanho desagrado. Há pessoas que anseiam por sensações, mas não têm a paciência necessária para submeter-se às influências que as produzem; pessoas que prefeririam ter flores sem precisar de sementes, e crianças sem necessidade da gestação. A arte parece consistir, para elas, em produzir o que a natureza não pode. (Cap. I)
 
Nessa abertura desabusada Balzac não está apenas dando uma tapa-de-luva no leitor preguiçoso, e não está apenas defendendo esse realismo de que foi um dos criadores, o realismo pictórico, detalhista, objetivo. Está também introduzindo de forma indireta o tema central do livro – o de um homem capaz de dedicar-se por anos inteiros a pesquisas monótonas, repetitivas, frustrantes, com o objetivo de encontrar o atalho para igualar a natureza.



Num diálogo com a esposa Josephine, Balthazar Claes lhe confessa como começou sua obsessão pelo absoluto. Em 1809 a família precisou hospedar por uma noite um oficial polonês de passagem por Douai. Depois do jantar, ele e Balthazar engataram numa conversa a respeito de química, e a desgraça estava feita. O homem tinha uma fascinação fanática pelas descobertas científicas, e falava com um tal ardor que incendiou a imaginação de Balthazar Claes. Convenceu-o de que, sendo rico, ele tinha em mãos algo que poucos homens de ciência dispunham naquela época: meios materiais para custear pesquisas com substâncias raras, caras; e de construir seus próprios equipamentos.
 
É bom lembrar que no começo do século 19 não se dispunha ainda da proliferação de instrumentos e materiais de laboratório que hoje se pode comprar com facilidade. Cientistas precisavam muitas vezes inventar e improvisar os meios para produzir altas ou baixas temperaturas e pressões, o vácuo, etc.  E a partir daquela noite Balthazar assume para si o sonho do polonês: descobrir o Absoluto. Ele explica para a esposa:
 
A matéria inorgânica consiste em cinquenta e três elementos simples, e todos os seus produtos são formados pelas várias combinações entre eles. Será possível que os elementos constitutivos sejam mais numerosos, quando os resultados variam tão pouco? Meu mestre afirmava a existência de um elemento único, comum a todos esses cinquenta e três corpos; e que uma força desconhecida, que não está mais em ação, produziu essas modificações aparentes; essa força, dizia ele, poderia ser descoberta e novamente aplicada, pelo engenho humano. (...) Assim, posso deduzir a existência do Absoluto! Um único Elemento, comum a todas as substâncias, modificado por uma única Força – esta é a conceituação mais simples possível do problema do Absoluto, um problema que, a meu ver, pode ser resolvido pela inteligência humana. (Cap. VI)
 
E lá se vai pelo ralo a fortuna da família Claes, que o livro exprime em moedas como “ducados”, “libras”, “francos”, e não precisamos de uma tabela de câmbio para perceber, com a evolução da história, a sinuca em que Balthazar está se metendo. Friedrich Engels dizia que era mais fácil entender o funcionamento do capitalismo lendo os romances de Balzac do que consultando tabelas econômicas e relatórios financeiros. É claro. O dinheiro é o sangue-e-oxigênio da vida de seus personagens e, mesmo esquecendo todos os outros temas, o livro é uma fascinante narrativa das acrobacias da família Claes para fugir à bancarrota total. Porque se trata de pessoas (mulheres, inclusive) que não apenas têm muito dinheiro, mas sabem como lidar com ele. Têm um gênio morigerado para a gestão das finanças.



(manuscrito de Balzac)
 
A obsessão científica e o rigor pecuniário não brotam do nada. Balzac, como os autores realistas em geral, faz um vínculo claro entre as ações dos indivíduos e o ambiente social:
 
Um materialismo altamente refinado é o traço mais distintivo da vida dos flamengos. (...) No temperamento desse povo encontram-se duas das principais condições para o cultivo da arte: a paciência, e essa capacidade de suportar o sofrimento, necessária para que a obra do artista possa prosperar. (...) É inútil esperar, desta região de elevada poesia, alguma verve para a comédia, para a ação dramática, para o gênio musical, para os voos mais audaciosos da poesia épica e da ode; ele se inclina muito mais para a ciência experimental, para as polêmicas prolongadas, para os trabalhos que exigem tempo e que têm cheiro de lâmpada a óleo. Todas as suas pesquisas são de natureza prática, e devem conduzir necessariamente ao bem-estar físico. (Cap. I)
 
É curioso que pessoas com esse temperamento sejam sujeitas à obsessão, ao fanatismo, ao vício, porque o comportamento de Balthazar é o de um viciado em jogo (como os personagens de Dostoiévski), em álcool, em drogas. Ele vende tudo que tem em casa para comprar instrumentos, substâncias, reagentes químicos, todos caríssimos (e ele paga sem discutir, sem pestanejar). Ocorre com ele aquilo que na linguagem popular usamos para falar de quem tem o vício da cocaína: “Fulano cheirou dois automóveis, cheirou toda a mobília da casa, e por fim cheirou a casa.”
 
Balzac reflete:
 
O vício e o gênio produzem resultados tão semelhantes que as pessoas comuns costumam confundi-los. O que é o gênio, senão um tipo de excesso que consome tempo, dinheiro, saúde, energia física? É um caminho para o hospital ainda mais curto do que o do perdulário. A humanidade, além disso, parece ter mais respeito para com o vício do que para com o gênio, porque nega-se a dar a este o devido crédito, ou confiança. É de se pensar que o indivíduo de gênio estabelece para si mesmo objetivos tão remotos que a sociedade se recusa a levá-los em conta durante seu tempo de vida; e vê aquela pobreza e desgraça pessoal como algo imperdoável. A sociedade não quer de forma alguma ter algo a ver com um gênio.  (Cap. II)



E um outro aspecto notável deste livro é a importância da figura patriarcal, o carisma do chefe da família, um símbolo inatacável e inquestionável. A esposa Josephine faz de tudo para ser leal ao marido, chega até a dedicar-se ao estudo da química para poder compreender as regiões por onde o espírito dele trafega. Morre abatida por humilhações e aperreios, mas morre pedindo à filha mais velha, Marguerite, que salve o bem-estar dos irmãos, mas nunca, em hipótese alguma, questione o pai.
 
Como explica o autor:
 
O maior encanto da mulher consiste em um apelo constante à generosidade do homem, no reconhecimento gracioso de sua própria condição indefesa, que estimula nele o orgulho masculino e desperta seus sentimentos mais nobres. (Cap. VI)
 
Lendo Balzac a gente oscila o tempo inteiro (como oscila lendo Victor Hugo) entre os variados rótulos que se aplica à literatura daquele tempo, principalmente “Realismo” e “Romantismo”. As paixões amorosas são descritas numa linguagem exaltada que não faria feio em qualquer romance-sentimental-para-mocinhas de cem anos depois. Ao mesmo tempo, esse romantismo é contaminado pelo espírito burguês (=o dinheiro acima de tudo). Os casais jovens que se formam revelam essa dualidade permanente: a filha mais nova, Félicie, casa-se com o notário Pierquin, para o qual tanto fazia casar com uma irmã rica quanto com a outra; e a mais velha, Marguerite, desenvolve uma longa e sólida relação afetiva com Emmanuel De Solis, que ainda por cima lhe serve de administrador financeiro e emprestador providencial de grana, salvando-a não só da solteirice como da bancarrota. Como dizia Nelson Rodrigues, o dinheiro compra tudo, compra até amor sincero.
 

(Balzac: viciado em café)