Mostrando postagens com marcador invenções. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador invenções. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

4633) O inventor é uma barata tonta (22.10.2020)




Quando eu tinha uns dez anos, era exibido às visitas que iam lá em casa como um pequenino prodígio, porque meus pais se orgulhavam de qualquer besteira que eu dissesse. Houve um tempo em que eu vivia mergulhado em livros como História das Invenções de Hendrik Van Loon e As Grandes Invenções e Descobertas, cujo autor não lembro, mas o Google acaba de me trazer numa bandeja de reluzentes pixels.




Uns amigos de meu pai foram beber lá em casa. Um deles perguntou: “O que é que você vai ser quando crescer?”. Respondi: “Vou ser inventor.” Ele: “Ah, é mesmo? Que bacana. E o que é que você vai inventar?” E eu, dialético avant la lettre: “Não sei, porque não existe ainda.”
 
Vou me reportar ao título desse livro citado, porque existe sempre uma zona-cinza, imprecisa, mal definida, entre o que é invenção e o que é descoberta. Em princípio, inventar é produzir algo que nunca existiu, e descobrir é perceber algo que sempre esteve ali e ninguém soube. O telescópio é uma invenção; o cálculo da velocidade da luz (e a percepção de sua invariabilidade) é uma descoberta.
 
Um fator comum às duas, porém, é o fato de a gente geralmente ainda não saber o que vai inventar ou o que vai descobrir.
 
Claro que às vezes sabe: “quero saber que bactéria causa a doença tal”, ou “quero inventar algo capaz de ampliar um sinal elétrico transmitido no aparelho tal”. Existe um fim em vista, embora ainda não se saiba o que vai ser exatamente.
 
Outras vezes, o inventor (ou descobridor) está apenas fazendo experiências variadas, em muitas direções. Ele pega uma coisa (um composto químico, um conjunto de lentes ópticas, um tipo de motor, um programa de software) e fica vendo mil maneiras diferentes de fazê-lo funcionar, em condições diversas. E aí descobre, “do Nada”, uma utilização que nunca imaginou.
 
Essa é a ciência experimental – aquela que muita gente chama de “perda de tempo”, “gasto desnecessário”, “vagabundagem”, “balbúrdia”. E o fato de que muitos cientistas têm prazer nessa atividade pesa muitas vezes contra ela. O burocrata de plantão fala: “Olha só, ele está se divertindo, ele tem prazer em fazer isto! Pois não vou dar um tostão para ele ter prazer às custas do erário.”



(Bob Brown) 
 
Bob Brown (1886-1959) foi um inventor e escritor a quem se atribui uma das primeiras idéias sobre a criação do e-book, ou livro eletrônico. Ele publicou em 1930 um manifesto, hoje modestamente famoso, intitulado “The Readies”. Assistindo uma das primeiras sessões dos filmes falados, que na época eram chamado de “the talkies” (“os falantes”), ele se entusiasmou com o futuro e fez este manifesto.
 
“The Readies” é mais difícil de traduzir. Poderia ser “os Lentes” (do verbo “ler”, mas fica uma palavra fora de foco), “os Leiturantes”, (meio desconchavado), “os Legíveis” (meio legislativo)...
 
Enfim: mais importante é a idéia que animou Bob Brown, e que transcrevo da Wikipedia:
 
“Uma máquina de leitura bastante simples, que eu possa conduzir comigo, levar para toda parte, plugar em qualquer tomada elétrica comum e ler romances de 100 mil palavras em dez minutos se eu quiser – e eu quero.”
 
A idéia de Brown, contudo, estava muito mais focalizada numa reforma da ortografia e do vocabulário do que no seu suporte físico. “Está na hora,” dizia ele, “de liberar o gargalo e deixar passar uma verdadeira revolução da palavra”. Ele propunha a introdução de uma grande quantidade de símbolos “portemanteau” (combinando 2 idéias numa só) para substituir palavras comuns, e pontuação para simular ação ou movimento; de modo que não fica muito claro se a sua idéia se encaixa ou não na história dos e-books.
(Wikipedia)
 
É uma coisa muito comum na história das invenções que as primeiras idéias a respeito de uma engenhoca qualquer venham cobertas de idéias secundárias que depois não deram em nada, pelo menos naquele caso. Brown pensava naquilo que hoje temos em forma de smartphone, kindle ou tablet, um livrinho eletrônico que pode arquivar bibliotecas inteiras e ser lido em qualquer canto. Mas o impulso imaginativo dele já o levava a, no mesmo fôlego, sugerir a “leitura dinâmica” (um romance inteiro em dez minutos, mania universal dos tecnófilos impacientes) e a “pontuação expressiva” (mania universal dos vanguardistas dos anos 1910-1920).
 
Num momento assim, o inventor não está preocupado com o lado pragmático (“Como o texto será codificado? Que tipo de mini-baterias será usado”, etc.) e sim com as possibilidades que se abrem em todas as direções.




(Edison e o fonógrafo cilíndrico)
 
É famoso o caso de Thomas Edison ao inventar o Fonógrafo. Ele fez uma lista de todas as utilidades possíveis para o uso da voz humana gravada em ranhuras na superfície de cilindros (depois, discos) giratórios e uma agulha reproduzindo o som original via alto-falantes. Para Edison, a utilização mais importante disso era “aprendizado de idiomas estrangeiros”. A comercialização de canções populares, uma indústria que movimentou trilhões de dólares nos últimos cem anos, não foi o primeiro uso que lhe ocorreu.
 
Voltando ao nosso amigo Robert Carlton “Bob” Brown: ele chegou a produzir uma “máquina de leitura” para a qual adaptou textos de Gertrude Stein (de quem foi amigo, quando morou na Europa), Ezra Pound, Marinetti e outros. Brown conviveu com esses vanguardistas em Paris no período entre-guerras, tentou unir a sua invenção mecânica às invenções linguísticas dos companheiros. Para isso, ele criou uma mini-editora, a Roving Eye Press. Esses esforços, que na época passaram muitíssimo despercebidos, foram pesquisados e publicados depois pelo Prof. Craig J. Saper, considerado o grande conhecedor desse movimento.

 
Quem se interessar por um mergulho mais profundo nas inquietudes criativas desse pessoal e puder desembolsar 95 libras esterlinas por um arquivo PDF, corra sem perda de tempo ao link abaixo:
 
https://edinburghuniversitypress.com/book-readies-for-bob-brown-s-machine.html
 
Os menos abastados podem se contentar, como eu me contentaria, se precisasse levar mais longe minha pesquisa atual (que é sobre outra coisa – Bob Brown é uma simples nota de pé de página) com o livro abaixo:

 
Deixo aqui esta dica, principalmente, para as pessoas interessadas em descobrir, em termos brasileiros, alguma coisa desse norte-americano que viveu e atuou no Brasil por pelo menos duas vezes. A primeira delas foi na década de 1920, quando ele criou no Rio de Janeiro a revista Brazilian American:


https://www.davidanthembookseller.com/pages/books/02107/robert-carlton-and-rose-brown/brazilian-american-the-business-builder-of-brazil-vol-9-no-222-january-26-1924
 
A segunda foi nos anos 1940, quando ele morava na Califórnia e produtores de Hollywood o mandaram para a Amazônia, a fim de pesquisar algum material para filmes com temática brasileira, na linha do It’s All True que Orson Welles estava rodando no Brasil. Fico só imaginando as dissertações de mestrado, os roteiros de documentário e as matérias jornalísticas que uma história como a de Bob Brown pode produzir em 2021.
 
Outro aspecto interessante, e que ainda não vejo com muita clareza, é que os Brown são sempre mencionados como um trio: eram Bob, sua esposa Rose e sua mãe Cora, que viajavam juntos e, aparentemente, compartilhavam o trabalho criativo.
 
Se você mora nos EUA, saiba que os papéis e todos os documentos da carreira literária e inventorial de Bob Brown estão depositados (e acessíveis ao público) na Universidade de Maryland, em College Park, a poucos quilômetros de Washington D.C.  O saite com informações mais detalhados pode ser acessado aqui:
 
https://archives.lib.umd.edu/repositories/2/resources/101
 
E aqui pode-se acessar o PDF de um livro onde a obra de Brown é analisada, inclusive com a transcrição de uma “Story To Be Read On The Reading Machine”:
 
https://monoskop.org/images/e/e8/Brown_Bob_The_Readies.pdf
 





quinta-feira, 28 de março de 2019

4451) O Submarino Pernambucano (28.3.2019)



A gente que é literato ou artista se queixa das dificuldades para praticar a Arte num país como este. Pois eu vou dizer, pior ainda é pra quem é cientista. Porque afinal de contas o custo logístico de produzir um soneto ou um romance mede-se apenas em tempo de sobrevivência, alimentação, teto, saúde.

E pra fazer pesquisa científica? E para ser inventor? E para produzir protótipos que possam ser examinados e registrados por alguma agência competente? E para iniciar uma modesta produção industrial que torne a invenção visível aos olhos (e aos bolsos)  do mundo?



Pesquisando folhetos de cordel antigos, no caso a História Da Máquina Que Faz o Mundo Rodar, de Antonio Ferreira da Cruz (1876-1965), me deparei com umas referências que me fizeram coçar a cabeça, por não poder coçar o cérebro.

O folheto conta a história de um cara espertalhão, Manuel Galope, que alega ser capaz de construir uma Máquina capaz de fazer o mundo rodar. Ele descobriu esse segredo ao penetrar numa caverna subterrânea e chegar ao “eixo da terra”. Mas para construir a máquina ele precisa de dinheiro, e começa a vender ações do seu projeto. O povo se entusiasma e começa a adquirir as ações.

O folheto é de 1921, tem alguma referências tecnológicas de época (o poeta cita Santos Dumont, Augusto Severo), e a certa altura diz assim:

Quando ele findou a máquina
achou o trabalho bonito;
disse: – Enrico desta vez
no lugar em que habito...
Na primeira experiência
subiu para o infinito.

Depois que ele subiu
ficou o povo olhando
cantando Serena Estrela
e o tempo foi se passando;
ainda hoje não voltou
mas o povo está esperando...

Voltará como o Veríssimo
da grande barca “Minerva”
e quando ele chegar
trará dinheiro em conserva
aí prova seu trabalho
que ficará de reserva.

Eu acho uma delícia esta expressão, “cantando Serena Estrela”. Era decerto uma expressão irônica, aludindo a uma modinha muito em voga na época, de Pedro Luiz Pereira de Souza:

Serena estrela, no meu céu não viste
Pálida e triste vai morrer além....
Hoje findou-se meu extremo gozo
E é já forçoso que me vá também....
Amei-te tanto, foi paixão sincera,
Na primavera nosso amor nasceu...
Chegamos hoje ao derradeiro lance
Desse romance que me enlouqueceu. (...)

Aqui há uma gravação recente, com Tavinho Moura:


Mas a referência mais obscura é a esse tal “Veríssimo”, que ele cita como exemplo de alguma coisa, e essa “barca Minerva”.

Peguei um foguete positrônico e fui à periferia do Sistema Solar consultar a Enciclopédia Galáctica, ou seja, joguei os nomes no Google. O que descobri vem a seguir (sempre lembrando que o folheto é de 1921).

Virissimo [sic] Barboza de Souza foi um cientista e empreendedor pernambucano que em 1891 patenteou, nos Estados Unidos, um modelo de submarino com uma idéia original e engenhosa, embora fosse um projeto meio relapso em outros aspectos.

Traduzo abaixo o parágrafo onde ele é mencionado na obra The Story of the Submarine, from the Earliest Ages to the Present Day, de Cyril Field, da Universidade de Filadélfia (J. B. Lippincott Company, 1908):

Um brasileiro, o sr. Virissimo Barboza de Souza, teve uma idéia para um submarino, em 1891, que seria bastante engenhosa caso pudesse ser factível. Mas como a máquina nunca foi construída, a questão não foi resolvida ainda. O seu esquema previa um barco longo e cilíndrico, com extremidades em forma de cone, cujos motores seriam propulsionados por qualquer meio que na ocasião parecesse mais adequado aos especialistas. O autor não tinha preferência especial por nenhum sistema, contanto que pudesse fazer o barco navegar normalmente. A parte original da invenção era que a parte central do submarino seria uma embarcação menor, contida em si mesma, de tal modo que na eventualidade de um acidente, tanto a extremidade dianteira, quanto a traseira, ou ambas, podiam ser liberadas, como o rabo de um lagarto, e a parte restante poderia continuar navegando por conta própria. (pág. 254)

Era uma idéia bem bolada, numa época em que todo mundo já tinha lido as Vinte Mil Léguas Submarinas de Julio Verne, e alguns protótipos já tinham mesmo sido usados em 1864, na Guerra da Secessão norte-americana.

E era também um momento em que todo mundo tinha uma idéia genial e corria a patenteá-la, por mais escalafobética que fosse. O mesmo autor comenta, aliás, em outro trecho:

O barco submarino proposto pelo sr. Gerber de San Francisco em 1887 é uma das engenhocas mais toscas e mais extraordinárias, se é que o diagrama fornecido pelo inventor corresponde realmente a sua idéia; uma concepção tal que dificilmente pode ser considerada o produto de uma mente sã. Num período em que o vapor e a eletricidade estão disponíveis como meios de propulsão, sugerir que um tal barco fosse impelido manualmente através de remos e rodas munidos de faixas elásticas é um óbvio anacronismo, e quando ficamos sabendo que o inventor considera como principal objetivo da construção desse barco submarino a busca das rodas das carruagens do Faraó no fundo do Mar Vermelho, começamos a questionar se a idéia do sr. Gerber deve ser levada a sério.

Num contexto como este, o bravo Virissimo se destaca, com sua idéia de “estágios” isolados, estanques, em relação ao corpo principal do barco.

Sua invenção é mencionada em outra obra, Les Bateaux Sous Marin – Historique, de F. Forest e H. Noalhat (Paris 1900):


Barboza (1891)
O barco submarino do sr. Virissimo Barboza de Souza, de Pernambuco, é indicado da seguinte maneira:
Ele consiste em três blocos que podem ser separados à vontade, caso algum deles venha a sofrer uma avaria grave.
Nenhum detalhe é fornecido quanto à maneira de encaixar esses blocos entre si, nem do modo de desatarraxá-los, nem de como seria a transferência de um compartimento condenado para um compartimento intacto.
Não há sequer no projeto a indicação de portas de entrada ou de saída.
Também estão faltando os detalhes da forma de propulsão e de imersão, bem como a patente requerida. (pag. 221)

Uma tentativa meio prematura de registrar uma idéia, talvez pela ânsia, comum em muitos inventores, de demarcar logo o terreno para que alguém não lhe passe à frente.

E buscando por aí a gente encontra também (num saite de leilões de documentos) uma reprodução dos documentos relativos aos acionistas do projeto, que ficamos sabendo ter como nome “Companhia Minerva Progresso Pernambucano”.



Mais do que ao submarino, o poeta de cordel está atento aos acionistas que ajudaram a financiar o projeto de Virissimo... e também aos que, na sua história, fornecem a Manuel Galope a grana com que ele desaparece no espaço.









quarta-feira, 17 de maio de 2017

4235) As invenções de Kafka (17.5.2017)



Uma biografia recente de Franz Kafka, escrita por Reiner Stach, tem o interessante título de Isto é Kafka? 99 Descobertas. Quando parecia que tudo já havia sido escrito sobre o profeta do mundo irracional do século 20, parece que Stach conseguiu desencavar um número respeitável de fatos a seu respeito.

Não devemos esquecer, também, que por motivos burocráticos e jurídicos uma parte considerável do que Kafka escreveu continua (pasmem!) inédita até hoje. Papéis que ele deixou a cargo de seu amigo Max Brod não foram publicados porque há uma kafkeana batalha judicial em torno deles. Já escrevi a respeito aqui, em “O moído de Kafka”:


Um artigo em The Paris Review sobre a biografia de Stach traz um comentário interessante. O biógrafo teria levantado informações sobre duas “invenções” de Kafka, duas idéias que ele teve para ganhar dinheiro, que explorou em conversas e cartas com amigos, mas que, por um motivo ou outro, não prosperaram.

A primeira dessas idéias ocorreu a Kafka e seu amigo Max Brod entre agosto e setembro de 1911, quando os dois viajavam pela Europa. Kafka pensou em criar um guia de viagem intitulado Billig (“Barato”), dando dicas aos viajantes a respeito de hotéis, transportes, restaurantes, pontos turísticos, etc., que era possível percorrer sem gastar muito dinheiro.

Magino eu que em 1911 fazer turismo na Europa era coisa de rico, aqueles ingleses ou alemães que viajavam de trem ou de navio levando quinze malas de roupas, como a gente vê em Morte em Veneza, nos filmes de James Ivory ou nos livros de Henry James. A idéia dos dois amigos era estender esse privilégio aos menos abonados.

Há um documento, quase todo na caligrafia de Brod, mas com a colaboração de Kafka, em papel timbrado de um hotel em Lugano (Suíça), escrito em setembro de 1911, e diz:

(...) Nossa era tão democrática já proporciona todas as condições para viagens fáceis para qualquer lugar, mas isto é algo que passa praticamente despercebido. Nossa tarefa é coletar estas informações a torná-las conhecidas de modo sistemático. (...)  Muito pouco disto aparece nos guias de viagens. (...) Nós nos dirigimos àqueles que consideram viajar algo muito caro, seja por equívoco, seja por má informação, e que se mantêm em regiões próximas de suas próprias cidades (que têm a sua beleza, mas já são demasiado conhecidas). Queremos fornecer informações sobre outros destinos que custam o mesmo que essas estações de verão, possivelmente incluindo também custos de transporte.

Eles dão algumas dicas sobre a organização dos seus possíveis Guias:

Nada de geografia minuciosa; apenas as rotas. (...) Indicamos apenas um hotel, e outros em ordem descendente, para o caso de aquele estar lotado. (...) [Na caligrafia de Kafka:] Não é para viajantes nem muito rápidos nem muito lentos, mas para um grupo mediano. Desvios são mais fáceis, uma vez que é sempre possível fazer adições num plano bastante preciso. (...)

Outrs dicas registradas pelos dois, em anotações rápidas:

Não temer a moeda errada. Concertos gratuitos. Dias mais baratos (p. ex., galerias de arte) no fim de viagens mais caras. Onde conseguir ingressos grátis como as pessoas locais. Navios a vapor, segunda classe. Não temer a terceira classe na Itália. Cor local. Reforma dos mapas do país e da cidade?

Era um projeto embrionário, ainda na fase de rascunho, como se vê – aquelas páginas em que a gente vai anotando tudo que se conversa, todas as pequenas idéias nascidas da troca de impressões, e que podem depois ser desenvolvidas ou não.

Infelizmente, o projeto de Brod e Kafka – que seria algo como um Europa a 10 dólares por dia daquela época – nunca se concretizou.

A segunda invenção não chega a ser invenção, apenas a anotação rápida de uma idéia; mas seu interesse é por ser algo um pouco mais ficção científica. Em 1913, Kafka teve a idéia da criação de um mecanismo reunindo duas tecnologias que bem ou mal já existiam: o telefone e a máquina de ditar (uma espécie de gravador), também chamada “parlógrafo”.

O escritor certamente teve sua curiosidade despertada devido ao fato de sua noiva na época, Felicia Bauer, trabalhar na filial de Berlim da empresa Carl Lindstrom AG, “onde ela estava encarregada da divulgação do parlógrafo, uma máquina de ditar. Bauer inclusive apareceu num filme de propaganda que Lindstrom produziu e distribuiu.”  No filme, ela é vista durante alguns segundos manipulando um parlógrafo e uma máquina de escrever.

Dizia Franz, escrevendo par a noiva:

A invenção de um cruzamento entre o telefone e o parlógrafo certamente não deve ser difícil. Tenho certeza que depois de amanhã você vai me comunicar que o projeto já alcançou sucesso. Claro que isto teria um impacto enorme nos escritórios editoriais, agências de notícias, etc.

Mais difícil, mas também possível, sem dúvida, seria uma combinação entre o gramofone e o telefone. Mais difícil porque a gente não entende direito o que diz um gramofone, e um parlógrafo não pode pedir a ele que fale com mais clareza. Uma combinação entre o gramofone e o telefone também não teria grande significação de um modo geral, mas para pessoas como eu, que receiam o telefone, seria um alívio. O problema é que pessoas como eu temem também o gramofone, de modo que não seria uma grande ajuda.

A propósito, seria uma ótima idéia se um parlógrafo pudesse ir ao telefone em Berlim, ligar para um gramofone em Praga, e os dois tivessem uma pequena conversa entre si. Mas, minha querida, a combinação do parlógrafo com o telefone tem absolutamente que ser inventada.

O artigo informa que isto de fato já tinha acontecido, com o “Telefonógrafo” patenteado por Ernest O. Kumberg em 1900, invenção que não foi pra frente por ser cara e trabalhosa.

Aqui, o artigo da Paris Review:


Mas para quem lê Kafka fica uma pequena nostalgia de imaginar como ele poderia ter explorado literariamente, num dos seus microcontos de página e meia, esta preciosa idéia como ponto de partida:


(...) seria uma ótima idéia se um parlógrafo pudesse ir ao telefone em Berlim, ligar para um gramofone em Praga, e os dois tivessem uma pequena conversa entre si.







sexta-feira, 30 de março de 2012

2831) Hedy Lamarr (30.3.2012)




Me lembro do nome dessa atriz austríaca porque era uma das preferidas de minha mãe. Ouvi-a muitas vezes falar em “édi-lamár” antes mesmo de ver esse nome escrito. 

O filme que a levou para Hollywood foi Êxtase (1933), um filme tcheco em que aparecia nua e simulava um orgasmo. Nos EUA, por pouco não estrelou Casablanca. Seu grande sucesso foi Sansão e Dalila (1949), ao lado de Victor Mature. Largou o cinema cedo, porque não suportava Hollywood; era uma “atriz difícil”. Morreu em 2000, aos 86 anos. 

A julgar pelas fotos da época, era linda. Tinha um rosto que era uma mistura de Vivien Leigh e Ava Gardner. (Que coisa injusta, e inútil, é comparar os rostos de mulheres bonitas.)

Ela aparece hoje nesta coluna por outros motivos. Ainda na Áustria, nos anos 1930, foi casada com um poderoso industrial simpatizante do nazismo, em cuja mansão costumavam se reunir altos oficiais militares, discutindo tecnologia e armamentos. Falavam livremente na frente dela, que aos seus olhos era apenas uma esposinha atriz, do tipo bonita e burra. Não era. Era inteligente e tinha uma cabeça engenheira. 

Quando largou o marido e foi para Hollywood, ficou amiga do compositor e roteirista George Antheil, que morou em Paris e era amigo de Man Ray, Stravinsky e Ezra Pound. 

Em 1940 os dois começaram a conversar sobre a guerra de submarinos que afundava os navios aliados, e começaram a trabalhar juntos num projeto de controle de torpedos pelo rádio. Hedy procurava criar um comando de rádio que mudasse de frequências, e Antheil sugeriu usar uma fita perfurada com as das pianolas mecânicas. 

Nesta página (http://bit.ly/sotDzn), vê-se uma cópia da patente requerida pelos dois, com data de 1942. (Um sistema semelhante é usado hoje nos celulares, para evitar interferência.)



Em 1997, a Electronic Frontier Foundation concedeu-lhe (e, postumamente, a Antheil) um prêmio pelo desenvolvimento pioneiro dessa tecnologia, chamada de Salto de Frequência ou FHSS (Frequency Hopping Spread Spectrum).

Antheil escreveu sobre ela: “Hedy é uma ótima garota, mas meio maluca, que além de ser muito bonita passa a maior parte do tempo livre inventando coisas. Ela acabou de inventar um novo tipo de ‘soda pop’, que está patenteando, imagine só”. 

O engenheiro Nino Amarena, que a entrevistou em 1997, disse: “Nunca achei que estava conversando com uma estrela de cinema, mas com uma inventora, uma colega. Quando duas mentes afins falam sobre tecnologia, desaparece a idade, o sexo, a experiência de cada um”. Todos dizem que a beleza de Hedy foi uma espécie de maldição que a jogou num ambiente que ela detestava, o “star system” dos estúdios de cinema.






segunda-feira, 20 de abril de 2009

0992) Chindogu (21.5.2006)


Em japonês, “chindogu” significa “objeto estranho”, mas talvez a melhor palavra para traduzi-lo seja o neologismo criado por Paulo Leminski: “inutensílio”. Ao que se diz, o conceito foi criado pelo escritor e inventor Kenji Kawakami num livro publicado na década de 1990 sob o título 101 Invenções Inúteis Japonesas: A Arte do Chindogu. Kawakami imagina (e fabrica) acessórios do cotidiano que são práticos, lógicos, e ao mesmo tempo absurdos, incapazes de ser utilizados. Como por exemplo o seu chapéu para alérgicos, que vem com um rolo da papel higiênico montado no topo. Para sujeitos com rinite, como eu, que às vezes passam o dia inteiro espirrando e assoando o nariz, pode haver algo mais providencial? E menos utilizável?

Tem o protetor contra manchas de molho, uma espécie de “babador” circular em volta do rosto inteiro, que ninguém teria coragem de usar nem em casa, quanto mais num restaurante. Tem a Roupa de Banho Completa, uma espécie de bolha de plástico para pessoas com alergia a água. Tem o Esfregão Para Bebês: enquanto se arrastam de quatro, eles dão polimento na cera do assoalho. Para pouparmos tempo, leitor, vá no saite: http://www.chindogu.com/, ou leia esta matéria: http://www.japaninc.net/article.php?articleID=762.

A primeira coisa que me veio à memória ao ver os chindogus de Kawakami foram as invenções abstrusas do pessoal da revista Mad, como os parangolés mecânicos de Al Jaffee ou as armas dos espiões (“Spy vs. Spy”) de Alex Prohias. Há também as engenhocas de Rube Goldberg, já comentadas aqui (“A economia Rube Goldberg”, 10.12.2003), e as invenções malucas do marselhês Jacques Carelman, cujo Catálogo de Objetos Inviáveis foi editado em 1976 pela Nova Fronteira...

Vou parar a enumeração, pois este jornal inteiro não teria espaço. Estes, caro leitor, são indivíduos que vivem num mundo mais belo e mais livre do que o nosso. Pressionados por uma cultura onde tudo tem que ter valor (seja de uso ou de troca), onde tudo responde ao Mercado, onde tudo tem utilidade e função, estes discretos cronópios correm todos para o prato oposto da balança, e dedicam-se a produzir inutensílios, desaparelhos, futilidades domésticas.

É um gesto filosófico e um gesto político. Com a palavra Kawakami: “Um chindogu é um objeto inútil, mas nem todo objeto inútil é um chindogu” E ele enumera características para que algo seja um chindogu: “Um chindogu não é para ser usado de verdade. Um chindogu tem que ser algo que possa ser materialmente fabricado. Cada chindogu traz em si o espírito da anarquia. Um chindogu tem que ser um objeto simples, da vida cotidiana. Um chindogu não pode ser vendido. Um chindogu não pode ser criado por razões apenas humorísticas. Um chindogu não pode servir para propaganda. Um chindogu não deve servir para piadas obscenas ou vulgares. Um chindogu não pode ser patenteado. Um chindogu não pode aderir a preconceitos.” Pois é. Quem foi que disse que o mundo estava perdido?

sábado, 11 de abril de 2009

0959) Quem foi o Padre Azevedo? (13.4.2006)


(a máquina do Padre Azevedo)

Dia 13 de março passado, garimpando nas bancas de livros usados junto da Estação Carioca do metrô do Rio, encontrei um exemplar do livro Um Inventor Brasileiro, de Ataliba Nogueira (São Paulo, Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1934), dedicado ao Padre Francisco João de Azevedo, nascido na Paraíba em 1814, e tido por muitos como o inventor da máquina de escrever. Durante a leitura fiz uma rápida consulta ao Google, e descobri que o jornal A União havia publicado no dia 4 de março passado uma matéria de Hilton Gouvêa dedicada ao Padre Azevedo.

Azevedo nasceu na capital paraibana, estudou no Seminário de Olinda e foi professor em cursos técnicos no Arsenal de Guerra do Recife, onde se fabricavam máquinas e equipamentos do Exército. Seu protótipo de máquina de escrever, quase todo em madeira, foi exibido na Exposição Provincial de 1861, em Pernambuco, e na Exposição Geral do Império do Brasil, no Rio de Janeiro, a partir de dezembro do mesmo ano. A máquina, muito elogiada pela imprensa, recebeu uma das nove medalhas de ouro concedidas entre os 1.136 participantes (que expuseram 9.962 objetos). Um resultado magnífico.

O que se seguiu foi a mansa tragédia de sempre: o inventor não conseguiu participar em 1862 da Exposição Internacional de Londres, por falta de espaço no local destinado aos produtos brasileiros; não conseguiu sequer produzir um protótipo fundido em metal. Envelheceu, desanimado, e viu depois sua idéia sendo copiada por inventores estrangeiros. Leia detalhes em: http://www.calendario.cnt.br/MAQUINAESCREVER.htm.

Já me referi nesta coluna à sorte melancólica de brasileiros (por nascimento ou por adoção) que se anteciparam a grandes invenções européias mas não conseguiram se fazer ouvir pelos governos ou pela comunidade científica: “Quem foi Landell de Moura?” (25.6.2003), e “Quem foi Hercule Florence?” (22.8.2003). Episódios como estes nos mostram que uma invenção tecnológica requer duas coisas: criatividade individual e ambiente cultural propício. No caso de todos, faltou o segundo item. Santos Dumont conseguiu levar sua invenção à frente porque era rico, morava em Paris e pôde criar por conta própria as condições de que precisava. Ainda assim, perdeu a derradeira batalha, a do reconhecimento histórico, pois os irmãos Wright se impuseram no mundo inteiro (com exceção do Brasil e da França) como os inventores do avião.

Diferentemente da criação artística, que em geral exige recursos relativamente modestos, a invenção tecnológica exige a produção de protótipos para que seja requerida a patente, e, em seguida, o início da produção industrial, mesmo em escala modesta, para que o registro não venha a caducar por decurso de prazo. Não é fácil hoje em dia, e o era ainda menos no Brasil agrário, cartorialista e retórico do século 19. Dizer isto não serve de consolo à memória dos inventores, mas no caso de Florence, Landell e Azevedo, eles tiveram sucesso; quem fracassou foi o país.

domingo, 9 de março de 2008

0136) Athayde e o Moto-Contínuo (28.8.2003)

Numa entrevista dada em 1954 a Orígenes Lessa, o cordelista João Martins de Athayde afirmou ter inventado um Moto-Contínuo, a fabulosa máquina sonhada pelos cientistas desde a Antiguidade e o Renascimento. Lessa espantou-se. Como é que um simples poeta caboclo conseguira criar algo além das possibilidades de um Arquimedes, de um Leonardo da Vinci? O Moto-Contínuo (ou Moto-Perpétuo) é uma máquina que produz a própria energia, e portanto é capaz de trabalhar perpetuamente sem precisar de corda, de combustível, de força humana, etc. Ou seja: uma impossibilidade científica, visto que em todo trabalho mecânico existem perdas em forma de atrito, calor, desgaste, etc.

Macaco velho, e sabedor de que os poetas tendem a acreditar piamente nas coisas que imaginam, Lessa perguntou a Athayde pela máquina. “Trabalhei nela 24 anos,” disse o poeta, “mas encostei. Não estava para ser embrulhado. Quebrei e escangalhei tudo, para ninguém tomar. Mas não ponha isso no jornal, porque ninguém acredita mesmo. No dia em que o meu invento aparecesse, pegava fogo no mundo.” Ainda incrédulo, Lessa perguntou por que ele não mostrara uma tal invenção ao governo. E Athayde: “Não adiantava. Eu podia ter ido no Getúlio, apresentava tudo, explicava tudo. Aí ele chamava um compadre, mostrava, pedia a opinião. Ele dizia: ´Isso aí não vale nada. Eu faço melhor.´ E no dia seguinte apresentava um igual e ficava com a glória...”

Isso é um verdadeiro raio-X da alma de um poeta sertanejo. Ele sabe que se um dia descobrir a Pedra Filosofal ou o Elixir da Juventude, quem vai ficar com a glória é algum dos muitos intermediários que virão enxamear sobre o prodígio para explorá-lo comercialmente, assim como as infusões dos índios amazônicos já nos retornam em forma de remédios caríssimos das multinacionais farmacêuticas, com patente requerida e tudo o mais.

Athayde era menino da roça, nascido em 1877 (ou 1880) em Ingá do Bacamarte. Alfabetizou-se sozinho, recolhendo pedaços de jornal no chão, perguntando a um e a outro “que letra é essa”. Andava com uma cartilha escondida no chapéu, porque o pai queria que continuasse analfabeto e ajudando na roça. Foi para o Recife, trabalhou como enfermeiro, e começou a escrever os poemas que compunha de memória. A partir de 1920 publicou clássicos como “Proezas de João Grilo”, “História da Imperatriz Porcina”, “Sacco e Vanzetti aos olhos do mundo”, “História do valente Vilela”, “Juvenal e o Dragão”. No auge do sucesso morava num sobrado, tendo no andar de baixo a oficina cheia de máquinas impressoras, onde empregados viravam turnos imprimindo best-sellers como “A lamentável morte do Padre Cícero Romão Batista” ou “A morte de Lampião”. Escrevia a noite inteira, enquanto a esposa trazia café e colocava seus pés numa bacia dágua, para que se mantivesse acordado. Em 7 de agosto de 1959, devido a uma embolia cerebral, o Moto-Contínuo parou de funcionar.

0131) Quem foi Hercules Florence? (22.8.2003)




A História Secreta da Ciência, se fosse escrita, seria maior que a História oficial. Já me referi ao gaúcho Padre Landell (“Quem foi Landell de Moura”, 25 de junho), bem como a Santos Dumont (“As máquinas voadoras”, 9 de julho), que só não é obscuro aqui no Brasil. 

Outro indivíduo admirável foi o francês (e brasileiro adotivo) Hercules Florence, que descobriu a fotografia sozinho no interior de São Paulo, mas não conseguiu mostrar a ninguém suas idéias e soluções, as quais acabaram ocorrendo a outras pessoas, como é inevitável.

Florence (1804-1879) nasceu em Nice, e na escola destacou-se nas artes plásticas, na matemática e na física. Gostava do mar e de aventuras. Aos 20 anos, desembarcou no Brasil. Em 1825, juntou-se como desenhista à expedição onde o explorador russo Barão Langsdorff, cercado de cientistas, percorreu 13 mil km pelos sertões de São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais. 

A aventura teve fim trágico em 1829, com a morte de vários integrantes, tendo o próprio Langsdorff enlouquecido (possivelmente de sífilis). Os desenhos de Hercules Florence foram conservados, e o material etnográfico colhido na Expedição Langsdorff tem sido editado, no Brasil e no exterior.

Radicando-se na Vila de São Carlos (hoje Campinas, SP), Florence desenvolveu a partir de 1832 uma série de pesquisas sobre a reprodução de imagens com o uso de câmara escura, lentes e papéis embebidos em compostos químicos. 

Experimentos semelhantes aos seus foram refeitos na Europa por Daguerre, Talbot e outros. Sem contatos fora do Brasil, Hercules Florence tinha apenas uma vaga idéia do que lá se pesquisava. Felizmente, os manuscritos detalhados em que registrou seu trabalho, em mais de mil páginas, foram conservados pela família, e estão transcritos no livro Hercules Florence – 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil de Boris Kossoy (São Paulo: Fac. de Comunicação Social Anhembi, 1977). É possível, inclusive, que tenha sido Florence o primeiro a usar o termo “fotografia” para designar a nova técnica.

Na ciência, idéias maduras ocorrem a pessoas diferentes, em lugares diferentes. Há exemplos incontáveis. O próprio Florence, embora lamentasse o isolamento em que vivia (numa vila de 6 mil habitantes, num tempo em que a capital paulista tinha 22 mil), alertava: “Não disputarei descobertas a ninguém, porque uma mesma idéia pode vir a duas pessoas.” 

Quando as enciclopédias apontam um Fulano qualquer como inventor ou descobridor de algo, dão a impressão às vezes de que foi ele a única pessoa que pensou naquilo. Na verdade, são centenas, milhares de indivíduos trabalhando ao mesmo tempo, nos quatro cantos do mundo. Uns têm mais dinheiro, outros mais recursos técnicos, outros mais acesso às autoridades ou à imprensa. 

A corrida das invenções científicas parece uma maratona onde, depois que todo mundo cruza a linha de chegada, o vencedor é escolhido por um júri de repórteres.





sábado, 8 de março de 2008

0093) As máquinas voadoras (9.7.2003)




Em 17 de dezembro próximo, os EUA comemoram o centenário do dia em que os irmãos Wilbur e Orville Wright fizeram um vôo de 12 segundos ao longo de 40 metros, na localidade de Kitty Hawk, escolhida por eles para trabalhar longe dos curiosos e da imprensa (e também pelas suas areias fofas, muito úteis para aeronautas principiantes). Voaram outras vezes no mesmo dia, tendo o último vôo durado 59 segundos. Sempre achei que esse número 59 foi escolhido para dar plausibilidade científica ao fato. Se dissessem ter voado durante um minuto redondo, ia parecer coisa inventada.

Santos Dumont só é inventor do avião aqui e na França, que testemunhou suas façanhas, tornando-se cúmplice e parceira delas. Paris inteira ia ver os vôos de Santos Dumont com seus balões, e depois com suas aeronaves; era uma atração turística da época. Em sua autobiografia, Agatha Christie recorda tê-lo visto voar quando era uma adolescente em passeio na França. O Brasileiro Voador tinha os cientistas e a imprensa da Europa como testemunhas. Os Wright tinham apenas as próprias fotos e documentos dos vôos experimentais que vinham fazendo desde 1900, até que conseguiram, em 1903 (três anos antes de Dumont com seu “14-Bis”), fazer voar uma máquina auto-propulsora, mais pesada que o ar, comandada por um piloto.

Érico Veríssimo, num de seus relatos de viagem da série “Gato Preto”, conta ter entrado num Museu da Aviação norte-americano que mostrava desde um milenar papagaio-de-papel-de-seda chinês até um bombardeiro B-52; sobre Santos Dumont, nem uma plaqueta com o nome. Nosso brio nacional não perdoa um lobby tão desalmado. Se um dia o Brasil fôr no mundo o que os EUA são hoje, periga a História ser reescrita e o nome dos rapazes de Ohio ser deletado para sempre. Será a vez da América curvar-se ante o Brasil.

Não somos os únicos. Os ingleses, ou pelo menos alguns deles, situam a primeira aeronave em 1853, construída por Sir George Cayley, e tripulada pelo seu aterrorizado cocheiro. Sir George, cientista respeitado, e considerado o fundador da ciência da Aerodinâmica, tinha 80 anos nessa época. O cocheiro só obedeceu à ordem porque não acreditou que a geringonça decolasse. O que desqualifica este vôo diante dos irmãos Wright e de Dumont é o fato de que se tratava de um planador, sem um motor para propulsão independente.

Invenções complexas não têm um dono. Ninguém inventou sozinho o avião. Não se comemora “a data da invenção”, mas a data desta ou daquela façanha, porque a invenção é um processo. Sir Cayley concebeu o desenho básico do que seria o avião: asas fixas, fuselagem, uma cauda com leme e cauda estabilizadora. Os irmãos Wright introduziram um motor de quatro cilindros. O avião de Dumont, era semelhante ao aos Wright, mas taxiava no solo limpo, enquanto o deles usava um trilho. Dezenas de problemas técnicos são solucionados de maneiras diferentes por cada pessoa. O avião ainda não parou de ser inventado.