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sexta-feira, 29 de março de 2013

3146) A crônica (29.3.2013)



Dizem que é um gênero que se popularizou no Brasil mais do que em outras culturas. A crônica é uma espécie de transgênico literário, um texto em prosa que flutua entre gêneros diferentes de acordo com a veneta do redator naquele dia e naquela hora. 

Muitas vezes a crônica tem algo de parábola, porque envolve pequenos fatos do cotidiano em reflexões mais amplas. Ela enriquece de significados as pequenas coisas, e numa literatura diária (de jornal), como a nossa, há mais de um século que beletristas afiam suas penas-de-ganso em temas como “uma gota de chuva”, “um grão de areia”, “a ponta de um lápis”, “um cãozinho abandonado” e assim por diante. 

Começou como uma espécie de teste de habilidade: O que você consegue dizer sobre um assunto tão limitado? E hoje já subiu de nível: O que você consegue dizer sobre isto, que já não tenha sido repetido nos últimos cento e vinte anos?

A crônica é mais subjetiva do que o ensaio ou o artigo. Cabe nela, mais do que nos outros, a presença da pessoa do autor com suas idiossincrasias, suas pequenas inclinações subjetivas, que num artigo ou num ensaio pareceriam uma intervenção excessiva do “eu”. O ensaio ou artigo precisa ter um tema central, nítido. A crônica não: pode ser o simples registro de estados de espírito sucessivos, de reflexões íntimas sem um foco central.

Algumas crônicas, mais narrativas, se aproximam ora da anedota, ora do conto. Narram uma história, mas num tom mais leve e superficial do que o autor empregaria num conto. A diferença entre conto e crônica é equivalente à diferença entre cantar e cantarolar. 

Autores como Fernando Sabino ou Luís Fernando Veríssimo trabalham geralmente nessa faixa.

Outras crônicas se aproximam do poema, ou mais precisamente do poema em prosa. São textos onde o lado “factual” se minimiza e o autor se dedica ao texto em si, com ou sem certas simetrias estruturais que remetam ainda mais a esse perfil poético. Um bom exemplo é o clássico texto de Rubem Braga, “Ai de ti, Copacabana” (1958), uma crônica com ressonâncias de poema profético do Velho Testamento.

Este texto, por exemplo, não é uma crônica. Chamo isto de artigo: um texto onde, com ou sem a presença do “eu” que narra, descreve, opina, o foco está na elucidação de uma questão intelectual precisa – no caso, a definição do que é crônica. Pouca elaboração literária, pouca “viagem mental”, pouca ligação direta com a vida pessoal do redator. 

O que não significa que o mesmo redator não possa, eventualmente, discutir o sentido do gênero “crônica” numa crônica propriamente dita. O que não se dá aqui, neste artigo de viés utilitário, prático, meramente descritivo.




segunda-feira, 3 de maio de 2010

1989) Drimtim (24.7.2009)



(ilustração de Poty para Sagarana)

Num artigo recente no Globo, Luís Fernando Veríssimo usou essa expressão para se referir ao famoso “Dream Team” do basquete norte-americano, e, por extensão, a todos os times dos sonhos que são montados de vez em quando por clubes de diferentes esportes. Não vou falar dos times, falarei aqui da palavra, que me causou uma estranhezazinha quando a vi escrita pela primeira vez, mas logo em seguida entrou pela porta entreaberta do meu dicionário, escancarando-a, abancou-se na sala com um suco de laranja em punho, e a esta altura já vai com não-sei-quantos acessos.

Os brasileiros somos especialistas nesses atalhos fonéticos. Pegamos a pronúncia de uma palavra estrangeira e a escrevemos da maneira mais direta e tupiniquim possível. E aí estão palavras intensamente nossas como gol, buquê, chofer, lasanha, filme, matinê, uísque, chucrute... Eu mesmo vivo propondo aqui nesta coluna a grafia “saite” em vez de “site”. Quando pegar, passarei a propor “mause” em vez de “mouse” (não sei se pega, porque neste caso tem uma contaminação com “Mauser”, a pistola alemã que qualquer leitor de livros de espionagem conhece desde criancinha).

“Drimtim” pode contar, aliás, com um precedente parcial que muito o honra. Peguem seu Sagarana, vão até o trecho imortal sobre os “reis leoninos”, a aqueles dois longos parágrafos que equivalem a uma profissão de fé literária de Rosa, começando em “Sim, que, à parte o sentido prisco...” até “...escrevi no bambu”. Rosa sugere que diante de um gravatá, a gente sente uma comoção tão grande que dá vontade de chamá-lo “drimirim” ou “amormeuzinho”. Drimirim, amigos, não é mais do que dream + mirim, palavra inglesa e palavra indígena: meu pequeno sonho, meu sonhozinho. Uma palavra híbrida que pode parecer teratológica aos filólogos mais eugenistas, mas que em termos de sonoridade poética bem que podia fazer-se, logo, bem nossa e coletiva.

“Drimtim”, ou “drimtime”, é a mesma coisa. Talvez a única objeção técnica ao seu uso seja o fato de que ela não segue a formação espontânea da língua. Por esta, temos que colocar a nasalização bilabial (o “m”) somente antes das consoantes bilabiais (o “b” e o “p”), reservando para as demais o “n”. Essa questão da formação espontânea da língua – os modos portugueses/brasileiros de encadear os sons – é importante. É uma visão de cada língua como um organismo diferente dos demais, e é algo que deve ser preservado. Mas se já recebemos de volta as letras K, W e Y, não vejo problema em acolher uma nasalizaçãozinha que foge um pouco ao padrão. Porque, convenhamos, dizer “drintim” não seria a mesma coisa.

A palavra pega? A palavra não pega? Não sei, mas gosto de acompanhar o crescimento das palavras, das plantas e das nuvens. E se falei alguma barbaridade, que me perdoem os glossopedistas e os filólogos, mas minha entrada preferida no templo do idioma é por uma janela quebrada que tem na ala esquerda do almoxarifado.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

0502) Artista grande, arte pequena (28.10.2004)




Quando um artista que trabalha numa forma de arte tida como mais elevada usa uma forma considerada mais popular, a primeira coisa que ele faz é diminuir seu próprio nível de exigência. E é aí que dá com os burros nágua. 

É o caso de compositores de MPB que recebem a encomenda de produzir um forró ou um sambão; de diretores de cinema-de-arte ou de teatro quando vão fazer seu primeiro trabalho na TV; de poetas eruditos a quem se encomenda uma letra de música. 

Eles acham que estão descendo um degrau. E se apequenam, seja porque se desprezam por fazerem aquela concessão (muitas vezes motivada por dinheiro), seja porque acham que até então vinham trabalhando para um público sofisticado e agora estarão se dirigindo para um público meio burrinho, que engole qualquer coisa. Aí, ficam burrinhos também.

Raymond Chandler foi um grande escritor que só escreveu romances policiais. Tivesse escrito histórias sem assassinatos, e com um protagonista que em vez de detetive particular fosse professor universitário ou executivo, teria sido muito mais respeitado. Foi ele quem disse, numa carta de 1949 para seu editor Hamish Hamilton:

"Acho que as pessoas realmente competentes obterão um sucesso razoável em quaisquer circunstâncias. Shakespeare se sairia bem em qualquer época, porque se recusaria a ficar segregado num recanto. Ele se apoderaria dos falsos deuses e os recriaria a seu modo, ele adotaria as fórmulas em voga e faria com elas coisas que indivíduos menores julgariam ser impossíveis. Se fosse vivo hoje, ele sem dúvida iria escrever e dirigir filmes, peças, sabe Deus o que mais. Em vez de dizer ´Este meio de expressão não presta´, ele se apossaria do meio de expressão e faria com que prestasse.”

É uma passagem claramente autobiográfica, porque não há melhor descrição do que esta para o que Chandler fez com o romance policial. Pena que a própria inovação dele tenha sido tão imitada, parafraseada, plagiada, parodiada (o “Ed Mort” de Veríssimo, por exemplo) que também seja hoje, meio século depois, um clichê quase inviável. Paciência. 

Ainda assim, grandes artistas podem pegar as formas narrativas mais desvalorizadas, mais vulgarizadas, e fazer bons livros, bons filmes no interior delas.

Basta pensar no que Ang Lee fez com os filmes de artes marciais em O Tigre e o Dragão, no que Sergio Leone fez com o faroeste italiano (que ajudou a criar) em Era uma Vez no Oeste, no que Rubem Fonseca fez com o romance policial americano em A Grande Arte, ou no que Chico Buarque faz com a canção de amor. 

Não existem fórmulas mais desgastadas do que estas, mas sempre aparece alguém com talento bastante, e dedicação bastante, para enxergar as possibilidades do modelo e fazer o modelo render o máximo. 

E pra falar a verdade, um grande artista deveria transbordar quando derrama seu talento num receptáculo pequeno. O que não pode é o cara achar que é maior do que o veículo que está usando, e desaparecer dentro dele.