Ou a perfeição, ou a pândega!
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sexta-feira, 7 de março de 2025
5159) Nós, os Imperfeccionistas (7.3.2025)
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
4287) Sagarana: "Corpo fechado" (15.11.2017)
(ilustração: Poty)
É um dos contos de Rosa em que aparece com mais nitidez a figura do narrador urbano, “gente de cidade e gravata”, no meio dos capiaus. Esse narrador surge em alguns contos do livro Sagarana (1946) e depois vai se diluindo um pouco.
Em Grande Sertão:
Veredas (1956), aparece sublimado, metalinguístico, distanciado, como o
interlocutor invisível do verdadeiro narrador, Riobaldo.
Em “Corpo Fechado”, antepenúltimo conto de Sagarana, esse
“Doutor” dialoga o tempo inteiro com o protagonista Manuel Fulô. Pergunta,
estimula, provoca, pede detalhes. Talvez seja neste sentido o conto mais
autobiográfico, o que melhor confirma o papel de perguntador de JGR quando na
companhia dos seus vaqueiros e capiaus. Ele diz:
Pois foi nesse tempo calamitoso que eu vim para Laginha, de morada, e
fui tomando de tudo a devida nota.
Assim como o Grande
Sertão é a história de Riobaldo contada ao “autor”, “Corpo Fechado” é a
história de Manuel Fulô, um tipo pitoresco e meio picaresco, metade ingênuo,
metade esperto, que no clímax do conto tem que enfrentar um perigoso valentão
local e para isso se submete a um ritual de feitiçaria protetora.
Neste conto, não enxerguei muito a recorrência do tema da
“ida e volta”, que está presente na maioria dos contos de Sagarana. Existe, em vez disto, um aspecto estrutural dos mais
divertidos: é uma história que começa mais de uma vez. Tem três “idas”
sucessivas, a cada fato importante que sucede.
Na edição que tenho (a 10ª.), o conto tem 28 páginas de
texto, e principia com Manuel Fulô fazendo para o Doutor (que narra na 1ª.
pessoa) um censo dos valentões de Laginha.Vai, vai, vai, com comentários, e na
décima página surge isto:
Ora, pois, um dia, um meio-dia de mormaço e modorra, gritaram “Ó de
casa!” e eu gritei “Ó de fora!”, e aí foi que a história começou.
O leitor se diverte com tal informalidade narrativa. Esse
trecho anuncia que as engrenagens do enredo se põem em movimento com o
aparecimento de Das Dôr, a futura noiva de Manuel Fulô e futuro pivô da
tragédia. Só que Manuel consome em seguida um longo trecho preparatório
explicando ao Doutor de que modo maquilou e vendeu dois cavalos doentes a um
grupo de ciganos, e outras peripécias.
E aí, na página 22 do conto, diz-se:
Até que assomou à porta da venda – feio como um defunto vivo, gasturento
como faca em nervo, esfriante como um sapo – Sua Excelência o Valentão dos
Valentões, Targino e Tal. E foi então que de fato a história começou.
Esse segundo começo é um degrau acima na trama, porque
Targino, o terror da vila, vem comunicar a Manuel sua intenção de, antes do
casamento, passar uma noite com Das Dôr, exercendo uma espécie de “direito à primeira noite” da tradição feudal.
É a crise que desaba, raio em céu azul, infelicitando o pobre do Manuel.
O Doutor se comove com o pavor de Manuel Fulô, porque o
Targino “é cobra que pisca olho”:
manda e desmanda no lugar, e (diz o Doutor, com seu linguajar urbano-boxístico)
“o challenger não aparecia”.
O impasse está feito, raia o dia prometido para o
cumprimento da ameaça. O Doutor vai se consultar com o Coronel local, também
medroso, que pilaticamente lava as mãos do caso. Vai se consultar com o
Vigário:
Então, fui ao Vigário. O reverendo olhou para cima, com um jeito de
virgem nua rojada à arena, e prometeu rezar; o que não recusei, porque:
dinheiro, carinho e reza, nunca se despreza.
Eis senão quando, na página 26, o narrador diz:
Mas, de fato, cartas dadas, a história começa mesmo é aqui.
E esse decisivo “terceiro começo” se dá com a vinda de “Antonico das Pedras ou Antonico das Águas”,
pedreiro local que “tinha alma de pajé”
e propõe um acordo a Manuel Fulô: faria um ritual propiciatório destinado a
“fechar o corpo” de Manuel, em troca da “Beija Fulô”, a besta ruana que era a
menina dos olhos do capiau. Parece um preço barato, mas a besta e a noiva quase
se equiparam aos olhos dele:
– Oh, Manuel! Você gosta mais é da Das Dôr ou da Beija Fulô?
– Me desculpe, seu doutor, mas isto é pergunta que se faça? Gosto das
duas por igual, mas primeiro da Das Dôr!...
Não creio que esteja exagerando quando digo que a cena
culminante lembra e prenuncia o filme Matar
ou Morrer (“High Noon”, 1952, Fred Zinnemann), ou pelo menos qualquer outro
dos faroestes que Rosa apreciava:
O Targino já aparecera lá adiante. Vinha lento, mas com passadas
largas. E de certo se admirou de ver Manuel Fulô caminhar. Naquela hora, a rua,
ancha e comprida, só estava cabendo os dois. E eu pensei no trem-de-ferro
colhendo e triturando um bezerro, na passagem de um corte.
Não darei spoiler
do final.
“Corpo Fechado” vem no livro logo depois de “São Marcos”
e é, como esta, uma história de feitiçaria. Parece ter crescido de dentro da
outra, processo criativo que não era estranho ao autor. “Meu Tio, o Iauaretê” (1961)
cresceu (ao que se diz) de dentro do Grande
Sertão: Veredas, que por sua vez parece ter sido pensado como uma das
novelas de Corpo de Baile (1956) e
foi se expandindo até ganhar casa própria.
Rosa faz um jogo de simetria entre o amor pela besta
ruana e o amor pela noiva; faz outro entre a magia de fechar-corpo e o fato de
que Manuel Fulô acredita ser filho natural de Nhô Peixoto, o maior negociante
do arraial, e isto de certa forma é uma magia heroicizante de outra natureza.
Picaresca, divertida, verossimilmente improvável, a
história repete os triângulos amorosos de outros contos do livro, perpassados
de comicidade e tragédia. E, ao dar destaque ao tema dos valentões arruaceiros,
prepara o terreno para o clímax de “Augusto Matraga”.
E é cheia dos achados verbais do autor. Imagino os
leitores de 1946 ouvindo-o dizer que Manuel e a besta ruana “juntos, centaurizavam gloriosamente”, e
que a noite silenciosa do arraial tinha “grilos
finfininhos e bezerros fonfonando”. Ou esse diálogo-parlenda, muito
semelhante aos que praticávamos na Paraíba:
– Não, porque...
– Porque-isquê!
– A minha...
– Que-inha?
– Cala a boca!
– Que oca?
Quando o valentão chega no arraial, “o povo se mexeu, como água em assoalho”. E ninguém deixa de sorrir
como linguajar de Manuel Fulô, para quem “a
cacunda do bobo é o poleiro do esperto”, ou “até hoje eu gosto mais de me alembrar disso do que de comer doce”
ou o brabo Adejalma tem um “nome bobo,
que nem é de santo...”
sábado, 24 de setembro de 2016
4163) "A Volta do Marido Pródigo" (24.9.2016)
(ilustração: Poty)
Nos 70 anos de publicação de Sagarana (1946) de Guimarães Rosa, comentei aqui em 16 de abril o
primeiro conto do livro, “O Burrinho Pedrês”:
O segundo conto do livro, “A Volta do Marido Pródigo”,
faz um sequenciamento interessante com ele.
Uma das coisas mais interessantes para quem publica
livros de contos é o sequenciamento das histórias. Rosa mexeu muito no
sequenciamento de Sagarana:
É uma atividade muito parecida com escolher as faixas de
um disco de canções. A arte de enfileirar as canções como se fossem dominós.
Cada elemento narrativo, cada episódio encaixa com o que vinha antes e abre uma
porta para o que virá depois.
“O Burrinho Pedrês” era uma história de idas e voltas;
não é muito diferente, e que não se perca pelo nome, “A Volta do Marido
Pródigo”, cuja malandragem já começa no título. Não é o filho, das escrituras
sagradas, é o marido das cantorias profanas. O marido, no caso, é o malandro
articulador, o malandro deixa-comigo, o malandro cuja lábia engambela quase
todo mundo.
Lalino Salãthiel é um rei das armações, um costurador de
situações como o João Grilo de Ariano Suassuna, mestre da conspiração festiva. Trabalha
numa pedreira, ou mais conversa que trabalha, até se envolver na política local
mediante apadrinhamento do Major Anacleto. “Capadócio”, como se dizia na época,
vivia de violão em punho, socializando, amigo de todo mundo, alma da festa.
Sedutor de mulheres e convencedor de homens.
A sequência inicial (o conto é dividido em nove segmentos
numerados) o define: ele conta vantagens, cheio de empáfia e de
semi-informações, enquanto os outros quebram pedra e lhe fazem perguntas
incrédulas. (Menos os um-ou-dois de sempre, que ficam resmoendo meio de
banda e dizendo: “Mulatinho descarado!
Vai em festa, dorme que-horas, quando chega, ainda é todo enfeitado e
falastrão!”.)
Lalino é civilmente Eulálio de Souza Salãthiel, e a
mulher (que talvez seja, na verdade, o centro desta história tão giratória) o
chama de Laio. Lalino, mesmo farrista e boa-praça, fica execrado por muitos
quando aparentemente vende a esposa, Rita, a um espanhol endinheirado. (Na
verdade ele pediu o dinheiro emprestado para fugir da cidade e o espanhol, que
vivia de olho comprido na morena, emprestou-lho numa piscadela.)
Laio faz um bom contraste com o Major Anacleto, que é
popeiro, pegador de ar, e meio desorientado, precisando de pessoas ponderadas e
cabeça-fria como o Tio Laudônio para assumir a pilotagem na turbulência, e
escolher uma linha de ação.
A briga política local é feroz, cobra engolindo cobra, e
o grupo deles faz frente ao dos Benignos, que estavam liderando a corrida até a
chegada de Lalino Salãthiel.
Lalino tanto tem de João Grilo quanto do poeta de Ariano
Suassuna na Farsa da Boa Preguiça,
sua boemia sem maldade, sua indolência contemplativa nos momentos de pausa, mas
ele é mesmo é “um corisco de esperto, inventador de trêtas”, como diz Seu
Oscar, o filho do coronel.
Lalino é um sonhador, que gosta de olhar as figuras de um
livro e imaginar “um étero-avião transplanetário”, e que comenta:
“Magina só: eu agora estava com vontade de cigarrar... Sem aluir daqui, sem nem abrir os olhos direito, eu esticava o braço, acendia o meu cigarro lá no sol... e depois ainda virava o sol de trás p’ra diante, p’ra fazer de-noite e a gente poder dormir...”
O animal totêmico do conto é o sapo, várias vezes
referido nos diálogos e nas cantigas, além da famosa fábula da Festa no Céu,
quando o sapo vê que vai ser arremessado de volta à terra e implora: “Só não me
jogue na água, porque eu não sei nadar!”, e é lá que os seguranças da festa o
jogam, e ele sai nadando, aliviado. É como se Lalino Salãthiel tivesse dito: “Só
não me bote numa função onde eu precise ganhar todo mundo no papo.”
Lalino é um personagem-de-si-mesmo, uma persona pública e
festiva, que se vira como pode, memorizando fotos de revistas para quando
estiver se pabulando de suas andanças pelo Rio de Janeiro. Um desses indivíduos de permanente otimismo, um
ser humano que o tempo todo se sente “pomposamente, terrivelmente feliz.” Que
tem uma sorte que nunca lhe falha, talvez porque ele produza nas pessoas uma
impressão de empatia prazerosa; todos falam mal dele, todos criticam sua
vagabundagem, mas ninguém resiste à sua presença.
A apresentação do personagem:
“Lalino Salãthiel vem bamboleando, sorridente. Blusa cáqui, com bolsinhos, lenço vermelho no pescoço, chapelão, polainas, e, no peito, um distintivo, não se sabe bem de que. Tira o chapelão: cabelos pretíssimos, com as ondas refulgindo de brilhantina borora.”
Um estilo telegráfico, uma imagem forte após a outra. Um
estilo que Mário Palmério apanhou no ar e repôs em voo com a sua famosa
abertura de Vila dos Confins,
apresentando Xixi Piriá:
"Lá vem êle. E ganjento, pilantra: roupinha de brim amarelo, vincada a ferro; chapéu tombado de banda, lenço e caneta no bolsinho do jaquetão abotoado; relógio-de-pulso, pegador de monograma na gravata chumbadinha de vermelho."
Rosa não apareceu apenas com um repertório de novos
discursos, ele foi desde seu primeiro livro um comentador bem-humorado do
discurso alheio, embora, diplomata, procurasse estar sempre de-bem com todo
mundo, quando possível. Ele ironizava a retórica burocrática e oficialesca que
provavelmente era obrigado a usar em seu trabalho, e dentro de um conto de ambientação
rural, interioranazinha, comparece um parágrafo assim:
“Major Anacleto relia – pela vigésima-terceira vez – um telegrama do Compadre Vieira, Prefeito do Município, com transcrições de um outro telegrama, do Secretário do Interior, por sua vez inspirado nas anotações que o Presidente do Estado fizera num anteprimeiro telegrama, de um Ministro conterrâneo. E a coisa viera vindo, do estilo dragocrático-mandológico-coactivo ao cabalístico-estatístico, daí para o messiânico-palimpséstico-parafrástico, depois para o cozinhativo-compadresco-recordante...”
O Major Anacleto tem um pouco daqueles sultões orientais
já meio velhuscos e entediados, que se encolerizam com facilidade e cinco
minutos depois já se esqueceram. Quando dá uma ordem e alguém lhe diz que
aquilo já foi feito, ele reclama: ”Diabo! Vocês também não deixam nada para eu
pensar!”. Não consegue acompanhar os malabarismos de estratégia de Laio, mas
lhe diz: “Eu mesmo gosto de gente aluada, quando são assim alegres e têm
resposta pra tudo.”
Este é um dos contos de Rosa mais políticos, mais claramente
descritivos de peripécias políticas, mas é acima de tudo uma história de amor “por
artes das linhas travessas da boa escrita divina”. Lalino está casado, felizão
da vida, mas não lhe sai da cabeça a lenda das polacas do Rio de Janeiro, ele
passa a morena no cobre e vai embora... mas acaba voltando. Ela tinha tudo para
não querê-lo de volta, mas nem o autor resistiu ao papo-de-derrubar-avião do
personagem, e a fez doida pelo condenado.
Num depoimento de JGR a João Condé, em 1946 (reproduzido
em Remembramentos, Vilma Guimarães
Rosa, Nova Fronteira, 1983) o autor dá uma geral nos contos do livro e, sobre
este, afirma:
“II) – A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO – A menos ‘pensada’ das novelas do ‘Sagarana’, a única que foi pensada velozmente, na ponta do lápis. Também, quase não foi manipulada, em 1945”.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
3748) Livros ilustrados (27.2.2015)
(ilustração de Poty para O Púcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho)
O pesquisador
João Antonio Buhrer postou no Facebook imagens de livros ilustrados pelo
curitibano Poty. Obras de Campos de Carvalho, Guimarães Rosa, Jorge Amado e
muitos outros.
Houve um tempo em que era uma prática corrente em nosso mercado editorial lançar romances ilustrados. Nosso conterrâneo Santa Rosa produziu ilustrações extraordinárias para obras de José Lins do Rego, Graciliano, Drummond e Jorge Amado.
Hoje em dia, isso parece que acabou. Se pegarmos ao acaso 100 romances (ou livros de contos) brasileiros lançados ano passado, de diferentes editoras, quantos deles terão ilustrações internas?
Houve um tempo em que era uma prática corrente em nosso mercado editorial lançar romances ilustrados. Nosso conterrâneo Santa Rosa produziu ilustrações extraordinárias para obras de José Lins do Rego, Graciliano, Drummond e Jorge Amado.
Hoje em dia, isso parece que acabou. Se pegarmos ao acaso 100 romances (ou livros de contos) brasileiros lançados ano passado, de diferentes editoras, quantos deles terão ilustrações internas?
A ilustração
encarece o livro? Não acho. Por outro lado, tem editora encarecendo livros ao
imprimi-los, pretensiosamente, em papel cuchê, papel brilhante de todo
tipo. Olhe, é um absurdo imprimir em
papel brilhante um livro para ser lido. A gente tem que ficar procurando um
ângulo que não reflita a luz em nossos olhos
Papel de livro tem que ser fosco. Ponto final.
E um romance ilustrado não precisa de papel de gramatura alta ou com brilho. Livro de arte, livro de fotografia, tudo bem. Mas um livro onde o foco é no texto e a ilustração é complemento, essa ostentação não é necessária. Em geral, ilustrações como as de Poty ficam com seu valor estético intacto em qualquer tipo de papel.
E um romance ilustrado não precisa de papel de gramatura alta ou com brilho. Livro de arte, livro de fotografia, tudo bem. Mas um livro onde o foco é no texto e a ilustração é complemento, essa ostentação não é necessária. Em geral, ilustrações como as de Poty ficam com seu valor estético intacto em qualquer tipo de papel.
Dizem que “livro
ilustrado é livro para crianças”. Já vi
leitores metidos a sofisticados dizendo do livro de alguém: “O livro é cheio de
figurinhas, até parece que é pra leitor analfabeto”.
A verdade é que existem analfabetos da escrita e analfabetos da imagem. Um leitor desse tipo não sabe o que está perdendo, e talvez não saiba nem o que está ganhando.
A verdade é que existem analfabetos da escrita e analfabetos da imagem. Um leitor desse tipo não sabe o que está perdendo, e talvez não saiba nem o que está ganhando.
Idealmente (cada
caso é um caso, sempre) um livro ilustrado deveria pagar “luvas” ao ilustrador
pela execução da encomenda (toda obra encomendada tem que ter uma paga extra,
fora o recolhimento de direitos autorais), e uma percentagem do preço de capa,
tal como o autor recebe. As fórmulas
são muitas, e devem ser conversadas em cada trabalho.
Alguns livros pagam um preço fixo ao ilustrador, e tchau. Outros pagam uma percentagem a ele, sem mexer nos 10% do autor (o mínimo que um autor deve receber). Em outros casos, a percentagem do ilustrador é diminuída da do autor, este ficando com 9% e o ilustrador com 1%. Também há divisões de 5% para cada, quando a proporção do volume de material criado por cada um seja essa.
Alguns livros pagam um preço fixo ao ilustrador, e tchau. Outros pagam uma percentagem a ele, sem mexer nos 10% do autor (o mínimo que um autor deve receber). Em outros casos, a percentagem do ilustrador é diminuída da do autor, este ficando com 9% e o ilustrador com 1%. Também há divisões de 5% para cada, quando a proporção do volume de material criado por cada um seja essa.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
1267) As capas de Rosa (5.4.2007)

Estive folheando edições antigas dos livros de Guimarães Rosa em busca de ilustrações para um trabalho, e me dei conta do quanto a obra do escritor mineiro foi graficamente malbaratada nos últimos anos. Desde logo quero fazer a ressalva de que em 2006, ano do cinqüentenário de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, e do sessentenário de Sagarana, a editora Nova Fronteira produziu edições de luxo caprichadíssimas, que ainda não adquiri por estar esperando um câmbio favorável. Espero que signifiquem uma espécie de “mea culpa” pelo empobrecimento gráfico que a Editora impôs à obra, depois que adquiriu seus direitos (que pertenciam à José Olympio).
As primeiras edições da Rosa, pela José Olympio, eram cheias de ilustrações feitas por artistas gráficos como Poty ou Luís Jardim, que trabalhavam em parceria com o autor. Desenhista hábil, Rosa fazia esboços das figuras que tinha em mente e as repassava para os artistas. Dava atenção especial a certos símbolos meio cabalísticos, meio astrológicos, que ele não explicava – apenas encomendava, e os artistas reproduziam. Em Primeiras Estórias, Rosa bolou um esquema que, pelo que eu me lembre, não tem similar na nossa literatura: o índice ilustrado, que aparece nas orelhas e no interior do livro. Cada um dos 21 contos do livro recebe uma ilustração horizontal que consta de uma série de pequenas figuras de pessoas animais, paisagens, etc., reproduzindo os aspectos distintivos de cada conto. Variantes destas ilustrações aparecem na capa e na contracapa, uma para cada um dos contos.
Rosa gostava de letras gregas, de símbolos matemáticos: o Grande Sertão: Veredas não se encerra pela palavra “FIM”, mas pelo símbolo gráfico do Infinito, o conhecido “oito deitado”. Tutaméia não tem ilustrações internas, a não ser algumas vinhetas gráficas padronizadas, mas sua capa é feita no mesmo espírito de Primeiras Estórias: uma colagem de pequenas figuras que, com alguma argúcia detetivesca, podemos ir aos poucos identificando como relativas aos contos do livro.
Depois que a obra de Rosa foi para a Nova Fronteira, o nível caiu assustadoramente. Preocupada em torná-la mais acessível aos leitores jovens (aos quais, invariavelmente, se atribui uma combinação de desinformação e amor ao clichê), os livros de Rosa adquiriram uma programação gráfica padronizada: capa branca, título e nome centralizados, e na parte superior uma foto colorida da paisagem sertaneja, o que faz os livros ficarem parecidos com um Guia 4 Rodas. A família, ao que parece, não reclamou, porque as vendas aumentaram. Mas se você achar num sebo, caro leitor, exemplares das edições da José Olympio, com as ilustrações de Poty ou Luís Jardim, entesoure-as. Elas representam pontos altos de nossa inventividade literária na direção de uma integração real entre texto e imagem, algo que poucos escritores tentaram – somente Rosa, Suassuna, Valêncio Xavier, e meia dúzia de outros.
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