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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

2740) Arte Acontecimento (15.12.2011)




No futuro próximo irá se intensificar a prática da Arte Acontecimento, mas num plano diverso dos “happenings” dos anos 1960, que privilegiavam o inesperado, o espontâneo, o aleatório. A Arte Acontecimento, ou Arte Evento, irá extrair seu perfil de atividades como o Teatro de Guerrilha, ou Teatro Invisível, de Augusto Boal; os “flash mobs”, ajuntamentos de pessoas com um propósito específico, convocados via Twitter ou celular; os atores que fazem “estátua viva” na calçada; os ativistas ecológicos que interrompem desfiles ou solenidades atirando pizzas ou sangue nos participantes. Nesta forma de arte futura, grupos se organizarão e realizarão peças instantâneas, em lugares públicos, nas quais os transeuntes serão coadjuvantes involuntários e imaginarão que estão presenciando um fato casual, não uma sequência prevista e deliberada de acontecimentos.

Um forte impulso será dado a esta Arte pela disseminação das famosas “pegadinhas” da TV, que estão condicionando o público a aceitar com passividade ou simpatia interferências ficcionais (no sentido de serem pré-roteirizadas) no seu cotidiano. Aceitaremos esses teatrinhos de rua como aceitamos a música de rua ou os pintores que fazem quadros com spray sentados na calçada.

Alguns desses grupos preferirão usar uniformes ou signos facilmente reconhecíveis, como acontece com grupos já existentes – a Confraria do Garoto, no Rio de Janeiro, é um bom exemplo. Outros virão disfarçados de transeuntes. Alguns grupos provavelmente homenagearão personagens fictícios com os quais se identificam ou com que têm certa filiação simbólica ou sentimental, como os Palhaços ou os Piratas do Tietê, do cartunista Laerte, ou os agentes da Intempol, a polícia temporal criada por Octavio Aragão.

Muitas dessas ações de rua serão expansão de Role Playing Games e de atividades típicas da Internet. Jogos, disputas ou encenações terão lugar através da Web, em tempo real, e em determinados momentos exigirão que seus participantes saiam à rua e participem de tais ou tais ações numa praça, num restaurante, num edifício público, num metrô, etc. Webcams farão a conexão, transformando a rua num palco e a Web numa platéia. Note-se que nada disto se aplica a atos públicos, protestos, ações políticas tipo “Ocupem Wall Street”, mas apenas a ações coordenadas de finalidade estética, artística, ficcional. A Arte Acontecimento consistirá em pequenas histórias ou pequenas situações, potencializadas pela Web, em que ações humanas e diálogos humanos servirão para iluminar a condição humana num ambiente em que será difícil distinguir entre vida e arte, entre o espontâneo e o planejado.

domingo, 3 de janeiro de 2010

1470) Escritores em ação (29.11.2007)



Imagine que alguns escritores decidissem criar um romance juntos, utilizando o ambiente e os personagens de um autor que todos eles admirassem e conhecessem bem.

Estes escritores seriam (digamos) Machado de Assis, Jorge Luís Borges, Alexandre Dumas, Italo Calvino, William Faulkner... E eles escolheriam o universo do “Dom Quixote” para criar sua história.

Cada um seria um personagem: o aventureiro Dumas seria o Quixote, o cético Faulkner seria Sancho Pança, e assim por diante. Todas as noites, eles sentariam em torno de uma mesa e, seguindo um roteiro pré-estabelecido, começariam a inventar uma continuação fictícia da grande obra de Cervantes.

Parece interessante, não é mesmo? Literatura oral, improvisada coletivamente, utilizando personagens e ambientação pré-determinados.

Nas mãos de pesos-pesados como os que citei acima, parece a receita certa para uma história interessante. Mesmo que não resultasse numa obra-prima, valeria a pena acompanhar as peripécias que essas mentes brilhantes seriam capazes de arquitetar.

Guardadas as desproporções, é exatamente isto que acontece nos chamados RPG ou Role Playing Games. Só que em vez de gênios literários são meros garotos como nossos filhos, ou meros sujeitos como nós mesmos. Não importa.

É isto que eles fazem: escolhem um Livro que contém os pontos de partida da narrativa (ambiente, situações, personagens, poderes e limitações de cada um, etc.) e começam a criar do zero uma aventura, reunindo-se algumas horas por dia.

Nunca joguei RPG mas já presenciei amigos meus jogando. É uma coisa fascinante. Alguns jogos são em universos de fantasia tipo Tolkien; outros são aventuras policiais na Londres de 1890; outros são batalhas de ficção científica em planetas distantes; outros são arrepiantes histórias de vampiros. Já existem vários com ambientação brasileira.

Os personagens se defrontam através dos seus atores, em torno de uma mesa, em que decisões são tomadas ao sabor do improviso, do momento, fazendo a história dar guinadas de surpresa. Quando um personagem resolve correr um risco, e morre, morre mesmo – cai fora do jogo e fica vendo os outros jogarem.

Algumas aventuras de RPG levam dias, semanas para ser concluídas. Dependendo do número e da disposição dos participantes e da dificuldade da missão (p. ex., atravessar um país em guerra sob disfarce, roubar um objeto e trazê-lo de volta), podem durar meses.

São uma forma de Literatura Oral na expressão da palavra. Uma Literatura Oral que não sei se foi descoberta ou imaginada por Câmara Cascudo ou Paul Zumthor. Surgiu nas metrópoles dos EUA, espalhou-se pelo mundo inteiro.

Alguns pais torcem o nariz, achando que é perda de tempo. Não, amigos. Não é perda maior de tempo do que representar peças, jogar futebol ou tocar samba. É uma atividade que pode dar a um grupo de jovens um bom pretexto para se divertir e se conhecer uns aos outros. Se vai redundar em Arte... que importância tem?




sexta-feira, 7 de março de 2008

0079) Os Role Playing Games (22.6.2003)

Os RPGs já fazem parte até mesmo da programação do Encontro Para a Nova Consciência, em Campina. A sigla RPG serve para muita coisa. Pode ser “Report Program Generator”, uma linguagem de computador desenvolvida pela IBM nos anos 60. Pode ser “Reeducação Postural Global”, uma espécie de terapia para correção corporal, criada em 1980 pelo francês Philippe Souchard. Mas o RPG que nos interessa aqui são os “Role-Playing Games”, ou, em tradução aproximada, “jogos onde se interpretam papéis”, esta última palavra no sentido cênico, teatral do termo.

Num jogo de RPG, escolhe-se uma aventura, e cada participante escolhe um personagem num Manual que se compra nas livrarias, e que pode vir acompanhado de mapas, tabelas, dados, etc. O jogo conta com um Mestre, que não interpreta nenhum personagem, mas serve de coordenador, consultando o Manual, esclarecendo dúvidas, interpretando as regras quando elas são obscuras, e criando por conta próprias situações ou soluções não previstas no Manual.

O RPG é uma evolução de jogos mais antigos. Lembram-se do “War”? É um RPG primitivo, onde cada jogador faz o papel de um país, e todos têm missões conflitantes. No Banco Imobiliário, ou Monopólio, cada jogador faz o papel de um capitalista procurando ganhar dinheiro no mercado de imóveis. Nos RPGs atuais, contudo, os Manuais criam cidades, países, faunas e floras; criam um elenco de dezenas de personagens onde os jogadores podem escolher seus papéis; e regras complicadíssimas para governar as aventuras. Porque em última análise trata-se disso: escolhidos os personagens, os jogadores começam a criar uma aventura, inventar uma história. É uma peça teatral improvisada em conjunto.

Devido ao predomínio do mercado dos EUA, criou-se uma impressão de que todo RPG se refere ao universo dos heróis da fantasia do tipo Tolkien, com elfos, dragões, magos, reis, guerreiros, etc. Mas há RPGs de ficção científica, de terror, de crime e mistério. Os RPGs criados no Brasil utilizam tipos históricos (os índios, os bandeirantes, os escravos, os senhores de engenho). O mais fascinante deste tipo de jogo é o fato de ser algo criado totalmente de improviso, porque são os próprios jogadores que discutem e decidem, a todo instante, o que vão fazer em seguida. Rodear a montanha através da floresta, cruzar o rio, ou subir até o castelo? Resgatar o companheiro raptado, ou seguir em frente na missão? Combater, fugir, negociar? Confiar ou não num desconhecido?

Já vi amigos meus ficarem envolvidos numa aventura dessas, em volta de uma mesa, das duas da tarde à meia-noite. Sei de jogos onde o pessoal se encontra uma vez por semana, e a aventura já dura dois anos. Num encontro de RPGs organizado no Rio por Sonia Rodrigues, no Museu Nacional, vi 50 grupos de jovens jogando em 50 mesas, numa barulheira ensurdecedora, e com uma adrenalina contagiante. Literatura oral improvisada coletivamente! E eu pensava que não havia mais o que inventar.