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sexta-feira, 5 de abril de 2013

3152) Reality shows (5.4.2013)





Num artigo de 2001 sobre os “reality shows”, que ele comparava aos espetáculos sangrentos do Coliseu romano, Salman Rushdie perguntava quanto tempo iria demorar até acontecer a primeira morte ao vivo, e quanto tempo iria decorrer entre esta e a segunda. Essa pergunta começou a ser respondida, de certo modo, nos últimos dias, quando morreu um participante do programa Koh Lanta (a versão francesa do Survivor), e uma semana depois suicidou-se um médico da equipe do programa, acusado de negligência. As duas mortes não ocorreram ao vivo, diante das câmaras, mas acho que não devemos ser tão puristas. Aliás, acabará acontecendo.

Gerald Babin, de 25 anos, sentiu-se mal em 22 de março, no primeiro dia de gravação, durante um dos puxadíssimos exercícios que os participantes tinham de fazer. Foi retirado de barco da ilha onde as provas acontecem (a imprensa considerou que se o levassem de helicóptero talvez ele tivesse sido salvo), e morreu em seguida, de ataque cardíaco. A imprensa francesa, ao que parece, fez inúmeras críticas ao programa e responsabilizou o médico Thierry Costa, de 38 anos. Entre outras coisas, foi dito que a gravação continuou durante nove minutos sem ser interrompida, mesmo com o participante sentindo-se mal, e que ele ainda teria tido que dar uma entrevista antes de ser socorrido.

Uma semana após a morte de Babin, Costa suicidou-se num hotel do Camboja, pedindo que seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas lá mesmo, e nunca fossem levadas de volta para a França. Numa nota manuscrita, o médico afirmou que a imprensa enxovalhou seu nome, e que nunca mais teria coragem de voltar para a França e encarar as pessoas.

Existem situações humanas tão viciadas e tortas desde a origem que todo mundo lá dentro é vítima e é culpado. Os programas tipo Big Brother que se misturam com esportes radicais ou técnicas de sobrevivência alimentam um voyeurismo doentio na platéia – aquela expectativa de que a qualquer momento vai acontecer alguma coisa séria. Não diferem muito de uma tourada, onde a expectativa do sangue e da morte (da morte humana) está implícita na fórmula. Uma morte humana ganha outro significado se existe uma câmara apontada para ela, acompanhando-a, registrando-a, preservando-a para sempre. Pouco importa se tudo foi arranjado de tal jeito que a morte, por caminhos aleatórios, acabe acontecendo; não se sabe bem quem vai morrer, como, nem quando, mas no momento em que essa morte é transmitida estamos tocando com o dedo numa medula proibida da existência. É como se víssemos o instante da fecundação de alguém; a forma mais requintada de invasão de privacidade.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

2771) Reality Shows (20.1.2012)



(The Truman Show)

Não sei quem batizou de “reality shows” esses programas de TV, mas posso especular sobre suas intenções. O termo “realidade” deve ter aparecido aí para se contrapor a outro, que poderia ser ficção, encenação, representação, etc. Seria, em tese (sei lá se os autores pensaram assim; estou fazendo aqui a mais arriscada e a mais freqüente das especulações: tentar adivinhar o pensamento de pessoas desconhecidas em circunstâncias ignoradas), um programa em que coisas reais, não-manipuladas, aconteceriam de verdade, diante das câmaras. Algo mais próximo de um documentário do que de uma novela.

Claro que não é isso que vemos na tela. O que vemos tem um grau de elaboração e de manipulação igual ao de uma telenovela. E em alguns casos maior, porque nas novelas os atores são precisam ser manipulados, oferecem-se de bom grado (por um bom salário) para decorar e interpretar aquelas cenas, enquanto que num Reality Show os participantes precisam ser induzidos a algo, precisam morder as iscas que a produção lhes oferece o tempo inteiro pra ver no que vai dar.

Outra coisa: dizer que somos “voyeurs” diante de um programa assim é um uso errado desse termo. O voyeur é alguém que quer ver sem ser visto, quer espreitar o comportamento de alguém sem que esse alguém saiba que está sendo espreitado, como naqueles bordéis do século 19 em que cavalheiros ricos pagavam para ficar atrás de espelhos falsos, vendo o que os outros clientes faziam na cama. (Existem, claro, ocasiões específicas em que voyeurs e exibicionistas se relacionam de comum acordo, mas isto é uma variação do fenômeno original.) Portanto, um Reality Show só forneceria o que promete se os participantes não tivessem a menor idéia de que estavam sendo filmados e assistidos. Isto faz do filme O Show de Truman de Peter Weir o Reality Show por excelência, mesmo que todos os participantes fossem atores e apenas Truman estivesse pensando que aquilo era “a realidade”.

O grau de espontaneidade nesses “shows de realidade” é zero, tanto assim que a produção precisa criar tensões, competições, ameaças, além de produzir festinhas e embebedar os participantes, para extrair deles algum tipo de comportamento que não seja apenas de caras e bocas, ou o fortão olhando o bíceps no espelho. E na ânsia de fazer os participantes se excederem, é a produção quem se excede, e de repente se vê flagrada numa sinuca qualquer. É um dos raros momentos, no programa, em que algo acontece sem estar totalmente previsto ou totalmente controlado, pela interferência incômoda da realidade – que é a coisa menos bem-vinda num Reality Show, onde tudo se esforça para apenas parecer real.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

1219) Ancestrais do Big Brother (8.2.2007)



Cerca de vinte anos atrás, li um livro de ficção científica de John Brunner cujo título em português agora me escapa, mas que em inglês se chama The Productions of Time. Um sujeito recebe um convite, para passar algumas semanas numa casa de campo. Lá, ele se depara com um grupo de dez ou quinze outros convidados, pessoas que não se conhecem entre si. A permanência na casa está condicionada a certas regras meio restritivas, que eles não obstante aceitam, porque o ambiente é confortável. O que ocorre a seguir eu não me lembro, porque é totalmente irrelevante; sei apenas que os hóspedes se envolvem em longas discussões, brigas e paqueras. Nos últimos capítulos, o protagonista começa a desconfiar de alguns equipamentos estranhos que vê em lugares estratégicos da casa, embaixo da cama, etc. E vem a revelação final: tudo aquilo era um imenso cenário, com câmaras e equipamento de gravação. A vida dos hóspedes estava sendo gravada e retransmitida por indivíduos que (ao que parece) vinham do futuro e queriam estudar a espécie humana em seu habitat natural, no século 20.

O livro é de 1966, e para mim é mais uma das numerosas antevisões feitas pela FC deste curioso espetáculo que no Brasil ganhou o nome de “Big Brother”. A noção básica é que um dos passatempos principais, num mundo dominado pela TV, é espionar a vida alheia. Brunner foi um dos grandes da FC britânica, um escritor culto e versátil cujas obras misturavam FC com xadrez (The Squares of the City, 1965), com telepatia curativa (The Whole Man, 1964), com teatro (The Dramaturges of Yan, 1972). Espero não morrer um dia sem ter perlustrado as 573 páginas de Stand on Zanzibar, um épico em larga escala sobre o mundo de hoje, mas publicado em 1968.

A FC sempre explorou esse lado mórbido dos seres humanos. “Vintage Season” (1946), escrito por C. L. Moore e Henry Kuttner sob o pseudônimo Laurence O’Donnell, mostra viajantes endinheirados do Futuro desembarcando na Terra a tempo de contemplar grandes catástrofes ou belos crepúsculos mencionados em obras históricas ou literárias. The Heaven Makers (1968), de Frank Herbert, mostra a vida de pessoas de carne e osso servindo de videogame para criaturas super-poderosas.

Brunner tinha um interesse imaginativo pela interferência dos meios de comunicação em nossa vida diária. Outro livro seu, que não conheço (Players at the Game of People, de 1980) foi comparado ao filme O Show de Truman, por descrever um sujeito cuja vida é acompanhada por pessoas ricas como se se tratasse de uma telenovela ou um jogo. Brunner conhecia bem o impulso “voyeurístico” que viria a alimentar os “reality shows” de nossa era. Se alguém descreveu com ironia, desencanto e visão profética alguns dos excessos do mundo de hoje, em que as telecomunicações criam jogos para explorar o sado-masoquismo manipulatório das massas, foi gente como Brunner, Kurt Vonnegut e Robert Sheckley.

sábado, 7 de março de 2009

0869) Os Abismos do Ser (29.12.2005)



Certas experiências deveriam ser evitadas na vida, porque têm o dom de nos projetar nos mais profundos abismos de depressão e desespero, e de nos fazer experimentar uma sensação da absoluta derrota deste projeto chamado “Ser Humano”. Não me refiro aos campos de concentração, aos massacres étnicos, ou à miséria de algumas nações africanas. Refiro-me a um dos programas mais engraçados da TV a cabo brasileira, exibido pelo Canal Multishow da GloboSat e retransmitido pela Net. Intitula-se “Nem Big nem Brother”.

O programa exibe as fitas enviadas pelos milhões de brasileiros anônimos que sonham em ser admitidos na “Casa” para concorrer ao prêmio. Assisti-las me provoca ataques incontroláveis de riso, seguidos por acessos de profunda depressão. Nunca pensei que o ser humano pudesse ser tão patético, desajeitado, grotesco, desinformado, tão destituído de auto-crítica, tão sem desconfiômetro e simancol, tão (para usar um termo em voga entre os jovens) “sem noção”.

As pessoas classificadas para esse programa são um corte tragicômico da juventude brasileira no que tem de mais deprimente: meia dúzia de sujeitos musculosos e arrogantes, meia dúzia de peruas fofoqueiras fazendo caras-e-bocas. Aqui e acolá um “tipo excêntrico” para dar a entender que há variedade de escolha: uma moça gordinha, um gay, um matuto, etc. Pois imaginem como devem ser as pessoas que tentam se classificar para esse troço... e não conseguem.

Ver essas fitas é ter uma idéia do imenso mal que a televisão faz a este país (e antes que me critiquem, sou um dos primeiros a reconhecer que ela também faz um imenso bem). Todo mundo inicia suas apresentações dizendo “quero que vocês conheçam um pouco de mim...”, e passam a imitar os trejeitos e os clichês das pessoas que vêem na TV. Vestem coisas inomináveis e acham que estão arrasando. Dizem absurdos de arrepiar os cabelos, num esforço vão de parecerem sofisticados ou inteligentes. Pagam micos históricos quando tentam exibir seus dotes de ator, de cantor, de humorista. Provavelmente a equipe que faz a seleção é obrigada a assistir milhões de fitas dessa natureza, e acaba sendo tomada por uma tal repulsa que a única vingança possível é criar um programa e mostrar a todo mundo o quanto essas pessoas são ingênuas e risíveis.

“Já me inscrevi 6 vezes, mas eu sou brasileiro e não desisto nunca!” – é um dos bordões mais freqüentes. Há quem fique diante da câmara rezando para os santos de sua devoção, pedindo para ganhar o prêmio. Há quem vista biquíni e role na grama. Há quem fale do acidente que sofreu e das cirurgias por que passou. Há quem se vista de bichinho de pelúcia. Há quem tente tocar um instrumento, sem conseguir. Há quem praticamente se ofereça para um “programa”, faltando apenas combinar o preço. Não, amigos. Eu preferiria não ver, não saber que essa auto-exploração existe. Mas é tão engraçado que eu não resisto. Me serve de parâmetro pra quando eu estiver muito metido a esperto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

0781) Educação e censura (18.9.2005)


(capa da primeira edição)

Em seu livro 1984, George Orwell imaginou uma ditadura onde o Governo seria capaz de espionar a vida de todos os cidadãos. A TV seria em mão-dupla: ela mostraria imagens mas seria capaz também de vigiar as pessoas em suas casas, em tempo real. Isaac Asimov, um dos campeões do bom-senso e da “lógica das coisas” na ficção científica, ironizou essa técnica dizendo que em princípio seria necessário um grupo de umas cinco pessoas para vigiar apenas uma, uma vez que ninguém conseguiria ficar 24 horas acompanhando o cotidiano de um cidadão comum.

Foi Orwell quem criou a expressão “Big Brother”: o Grande Irmão era o ditador dessa Inglaterra situada no futuro, um sujeito bigodudo e implacável com os traidores do regime, mas de aparência paternal, claramente inspirado em Josef Stalin. Aqui no Brasil, com o programa da TV-Globo, a expressão “big brother” foi totalmente distorcida: a imprensa chama de “big brothers” as pessoas que ficam trancadas na casa, sendo espionadas. Na verdade, os big-brothers seríamos nós.

As verdadeiras ditaduras, no entanto, não precisam espionar. As ditaduras mais eficientes são as que não precisam vigiar ninguém, porque todos os cidadãos acreditam com fervor que estão no melhor dos mundos, mesmo que vivam numa pindaíba de fazer dó (como ocorre com os personagens de 1984). O melhor tipo de censura não é o que tem funcionários atarefados cortando tudo que os escritores de oposição escrevem. O melhor tipo de censura é aquele em que durante a madrugada os censores estão dormindo em paz, e os próprios escritores, depois de redigirem uma frase que sabem perigosa, voltam atrás e apagam tudo.

O final de 1984 é trágico e arrepiante porque o personagem principal, Winston (cujo nome faz um contraste irônico com o nome de Churchill), encerra o livro, depois de uma sessão de tortura, proclamando sua lealdade e seu amor pelo Big Brother. Nenhum ditador precisa espionar um sujeito que passou por uma lavagem cerebral como esta.

É cruel, mas só posso comparar isso com a educação que damos aos nossos filhos. Sabemos que nossos filhos estão bem educados quando eles escovam os dentes sem que a gente mande, fazem o dever de casa por iniciativa própria, botam a roupa suja no cesto sem que seja preciso alguém conduzi-los pela orelha. Sabemos que estão bem educados quando eles saem à noite dizendo que vão para um show de rock e depois dormirão no apartamento de um amigo, e nós confiamos que nada de errado vai acontecer. Toda educação é uma lavagem-cerebral-do-Bem, é algo que implantamos a ferro e fogo (ou melhor, à base de castigo e chinelo) naquelas mentezinhas adoráveis quando elas não parecem merecer nada além de ternura, mimos, afagos, cheiros e mais cheiros. É nessa fasezinha dourada da existência que cabe uma boa e velha lavagem cerebral, meus amigos. Para que depois o Censor possa dormir em paz, sabendo que sua missão foi bem cumprida.

segunda-feira, 31 de março de 2008

0333) A galinha morta no pedestal (14.4.2004)



(Silvia Pinal e Claudio Brook, Simão do Deserto, de Luís Buñuel)


Há um filme de Luís Buñuel, Simão do Deserto, inspirado na tradição dos “estilitas” (não é “estilistas”), indivíduos que, para atingir o êxtase religioso, se martirizavam subindo numa coluna de pedra, onde passavam meses a fio, sem descer. 

Esse martírio sempre me pareceu um negócio meio narcisista. O sujeito que quer mesmo meditar, se concentrar na idéia de Deus, afastar-se das coisas do mundo, deve ir para o fundo duma caverna, como Santo Antão. Ficar em cima de um pedestal sempre me pareceu negócio para pop-star, e o filme de Don Luís, convenientemente, se encerra com Simão sendo raptado pelo Diabo (interpretado por uma louraça-belzebu, Sílvia Piñal) e conduzido a uma buate onde fica sentado na mesa, ouvindo uma banda de rock.

“Estilita” significa “que vive no alto de uma coluna”. O Dicionário Houaiss não o registra, o Aurélio sim; Affonso Romano de Sant´Anna recentemente usou esta imagem, com bom-humor, para se auto-intitular estilita, por ter uma coluna semanal a escrever. (Semanal, Mestre Affonso? Moleza!) 

Os estilitas de hoje, no entanto, não me parecem ser os místicos, os eremitas, e sim os pop-stars. O cara não entra para este ramo porque quer se isolar do mundo ou se aproximar de Deus. Ele entra porque quer subir num pedestal (a TV, o cinema, o rock) e ser visto por bilhões de pessoas. E existem bilhões de pessoas dispostas a passar a vida olhando para elas, não porque elas sejam algo fora do comum, mas porque estão no pedestal. 

O que é esse “Big Brother” da Globo (e seus congêneres) senão um mero pedestal? Ficam milhões de pessoas olhando aquela idiotice. Por que? Porque está em cima de um pedestal. (Ver coluna “Debruçado sobre Abbey Road”, 26.2.2004)

Se você construir um pedestal e pendurar lá em cima uma galinha morta, apodrecendo de cabeça para baixo, vai ter gente parando, sentando, olhando, admirando, discutindo... Porque é uma galinha morta? Não: porque está em cima de um pedestal. É assim grande parte das chamadas “obras de arte” das Bienais de hoje, e nesse ponto concordo com Affonso Romano, que há anos vem se batendo contra essa bobagem de se chamar qualquer galinha morta de “Arte” somente porque meia dúzia de espertinhos a colocaram num pedestal e começaram a vender ingressos.

Em seu “Sermão de Todos os Santos”, o Padre António Vieira comenta a vida de Simão Estilita, e diz: 

“Umas vezes orava de joelhos e prostrado, outras em pé e com os braços abertos, e nesta postura estava reverenciando continuamente a Deus com tão profundas inclinações, que dobrava a cabeça até os artelhos. Teodoreto, testemunha de vista, quis saber o número a estas inclinações, e tendo contado mil duzentas e quarenta e quatro, cansado de contar, não foi por diante.” 

Assim é a mídia, o show-business, o Art-business do mundo de hoje. Cada Simão tem um milhão de Teodoretos dispostos a ficar biguebrodeando sua vida 24 horas por dia. Não são devotos do santo: são os escravos do pedestal.







quarta-feira, 19 de março de 2008

0284) The Truman Show (17.2.2004)




O Show de Truman conta a história de um “reality show” tipo “Big Brother” levado às últimas consequências. Ele ocorre à revelia dos participantes (no caso, de um único participante), e é transmitido ao vivo, 24 horas por dia, contando a vida de Truman Burbank, um rapaz que pensa que vive numa cidadezinha comum dos EUA, mas que desde o nascimento está num enorme estúdio de TV, cercado por atores desde o dia em que nasceu. Aos que gostam do filme, recomendo o livro com o roteiro completo (Editora Manole, São Paulo, 1998 – http://www.manole.com.br/) de Andrew Niccol, com um prefácio onde o diretor Peter Weir fornece numerosas informações sobre a história de Truman – essas informações de “background” usadas durante a feitura do filme, mas que nunca aparecem na versão final.

O criador de Truman, Christof (interpretado por Ed Harris), era produtor de documentários, e ganhou um Oscar com um filme em que registrou por dois anos a vida de garotos de rua de Chicago. Os garotos se refugiavam num prédio abandonado, sem saber que o prédio pertencia a um tio de Christof e estava cheio de câmeras e microfones. O próprio Christof tivera sua vida registrada pelo pai desde o nascimento, em filmes 8 mm., como aliás muitos pais fazem hoje, filmando seus filhos na praia, brincando, comemorando aniversários, etc.

Daí, Christof teve a brilhante idéia: por que não pegar uma mulher com uma gravidez indesejada, adotar por antecipação a criança, e filmar toda sua vida, minuto por minuto, a partir do nascimento? A idéia foi oferecida à rede de TV fictícia OmniCam, que acabou aceitando. A vida do bebê era transmitida 24 horas por dia, e os custos eram cobertos com propagandas de comidinhas de bebê, fraldas, etc. À medida que Truman foi crescendo, foi preciso contratar mais e mais atores para compor sua “família” e para lhe servir de amiguinhos, babás, professores, etc. E aos poucos uma cidade inteira foi construída à sua volta, a cidade onde ele cresceu, sem saber que era a estrela de um programa visto no mundo inteiro, e cada gesto seu era visto, cada palavra sua era escutada, mesmo quando ele se acreditava só.

Não contarei aqui o fim do filme para não tirar a graça a quem não o viu. Melhor que o fim, contudo, é o começo, a idéia básica do filme. Programas como “Big Brother” são uma abordagem tímida, comendo-pelas-beiras, dessa idéia de mostrar a-vida-como-ela-é. O problema é que o “Big Brother” é tudo menos isso. Aquilo ali é a vida como ela não é. Os participantes não apenas sabem que estão sendo filmados: eles se preparam para aquilo, representam o tempo inteiro, são de um narcisismo insuportável, estão todos ali “investindo em sua carreira”. É menos cruel do que o que é feito a Truman; mas é menos verdadeiro. O “BB” não tem nada de “reality”. Como dizia Lobão, “é tudo pose, é tudo pose!” Um “reality show” autêntico teria que ser feito à revelia. E em tempo integral, sem cortes.

sexta-feira, 7 de março de 2008

0033) O show da realidade (30.4.2003)

Em 2001, ao trabalhar num ensaio sobre a ficção científica contemporânea, comecei uma pesquisa na Internet sobre os “reality shows”, e pensei em calcular quantos havia em cartaz na TV do mundo inteiro. Na época, o único exemplo brasileiro era o “No limite” da Globo. Mal comecei a pesquisa, vi que tinha pegado na rodilha sem ver que o pote estava cheio. Havia centenas de programas, em dezenas de países. Desisti de contar todos, mas aí acendeu-se outra luzinha. Por que uma moda pega tão depressa? O que há nesses programas que faz deles um tal sucesso?

Minha primeira explicação foi: esses programas vendem “realidade”. As pessoas estão cansadas de novelas, filmes, encenações. Querem alguma coisa mais verdadeira, ou que pareça mais verdadeira. Em vez de ficar entra ano sai ano reencontrando Vera Fischer e Tarcísio Meira com roupas e nomes diferentes, seria bom ver uma história acontecendo e pensar: “Puxa vida, isso aí não são atores, são gente como eu, enfrentando problemas reais. Não é cena ensaiada não! Está acontecendo!” É esta a sensação que os “reality shows” prometem, e que faz os sismógrafos do Ibope desenharem naquele horário um gráfico que parece a Torre Eiffel.

Mas... ilusão trêda, como dizia Augusto dos Anjos. “Realidade” é a isca, não o produto. Esses programas podem não ser narrativas de ficcção, mas são tão manipulados, tão encenados, tão artificiais quanto qualquer programa de auditório. Já falei nesta coluna sobre o imenso exibicionismo dos participantes de coisas como “Big Brother”. Uma porção de gente metida a gostosona, fazendo pose na piscina, fazendo armação pelos cantos, enquanto prepara o trampolim para se dar bem: posar nua na “Playboy”, ou servir de arroz-de-festa na “night” até arranjar um casamento bem remunerado. As “tarefas” que enfrentam são constrangedoras para marmanjos como aqueles: contar bolinhas de plástico... resolver quebra-cabeças de nível “Cebolinha”...

Isso me lembra uma marchinha de carnaval que minha mãe cantava quando eu era pequeno: “No Brasil tem muito doutor / muita funcionária, muita professora... / Se eu fosse Getúlio eu mandava / metade dessa gente pra lavoura.” Veja só – o autor da marcha achava que havia professor demais. E o que dizer de quem aparece em “Casa dos Artistas”? Se eu fosse Boninho eu criava um “reality show” diferente. Abria inscrições para o “BBB 4”, e quando fossem escolhidos os candidatos, dizia que tinha mudado tudo. Eles iam ficar dois meses hospedados naquela casa, mas iam ter que passar 8 horas por dia trabalhando, com equipes gravando tudo. Trabalhando em quê? Não sei – tem tanta coisa pra ser feita, não tem? Limpar poluição no Rio Paraíba. Apagar pichações nos prédios. Localizar focos do mosquito da dengue na Baixada. Catar lixo nas praias e nos parques.

E o prêmio de 500 mil continuaria valendo, é claro. Meu amigo! Pra concorrer a 500 mil eu sou capaz de cortar um canavial sozinho.

0010) Big Brother and the Holding Company (3.4.2003)




Na reta final do “Big Brother” da Rede Globo, fico pensando como George Orwell estava equivocado ao imaginar a vigilância política e a lavagem cerebral do futuro. Seu romance 1984 é uma obra indispensável para entender o terrorismo de Estado e as ditaduras, além de ser uma notável narrativa literária, mas várias de suas especulações são ingênuas, não apenas porque foram desmentidas pelo tempo, mas porque mesmo na época em que foram feitas (1948) já não se sustentavam muito.

Isaac Asimov, ao dissecar 1984, apontou numerosos pontos fracos no enredo, como o conceito da TV como “olho vigilante”. Orwell imaginava uma TV de mão dupla, ligada o tempo inteiro, que era também uma câmara através da qual os agentes do governo espiavam a vida de cada cidadão. Um sistema inviável, pois, como Orwell não lançava mão de computadores ou robôs, chegava-se a um impasse em que metade da população estaria sendo vigiada pela outra metade.

Mais precisas do que as previsões de Orwell foram as de Aldous Huxley, ao afirmar, em seu prefácio para Admirável Mundo Novo, que as ditaduras baseadas no chicote estavam com os dias contados, e que os regimes totalitários do futuro manteriam a população sob controle através da distribuição de drogas e de múltiplos lazeres. É justamente o que temos hoje em dia, e os programas tipo “Big Brother” cumprem esta função.

O Grande Irmão (quem quer que mande neste mundo) não precisa vigiar cada cidadão: dá-lhe abobrinhas de lazer, para que ele não tenha tempo de pensar em nada perigoso. A TV cumpre bem esta função. Nada acontece de baixo para cima enquanto as pessoas estão vendo videoclips pop, programas de receitas culinárias, documentários sobre a procriação dos antílopes, sitcoms indistinguíveis uns dos outros, mochileiros passeando pelo Nepal, ou aqueles filmes norte-americanos onde há sempre uma porção de carros explodindo e homens de paletó atirando uns nos outros.

Nosso “Big Brother” também é orwelliano quando pega jovens comuns e os faz jogar, ao vivo e em tempo real, o mesmo jogo que vigora no Poder: esquivas, confrontos, demagogia, alianças e traições. Todo mundo mente, todo mundo se faz de bonzinho, joga para a torcida, adapta seu personagem. O programa é vendido como um ritual de voyeurismo, mas é justamente o contrário, é um programa exibicionista. Voyeurismo pra mim é quando as pessoas não sabem que estão sendo observadas, e sabemos que estamos violando sua intimidade. No programa da Globo, o que temos é um desfile de gente vivendo em função das câmaras, fazendo caras e bocas, imitando as cenas, os gestos e as atitudes que eles próprios viram em programas anteriores.

A Globo tinha o “Fama”, onde as pessoas aprendiam a tocar, cantar, dançar, etc., sendo acompanhadas pelo país inteiro. Como no “Big Brother” ninguém aprende nada disso, só posso concluir que o programa não passa de um Curso Intensivo de Formação de Executivos de Gravadoras.