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sábado, 6 de novembro de 2021

4761) Eu me lembro - 23 (6.11.2021)



1.

Eu me lembro dos “jornais da festa”, que eram pasquins em formato tablóide, ou menor ainda, vendidos em Campina durante as festas de fim de ano. Cheios de propagandas pagas, de boa vontade, pelo comércio local, porque as tiragens eram grandes e todo mundo passava os jornais de mão em mão. Os que eu mais gostava eram “O Detetive” e “O Disco Voador”, por motivos óbvios, mas também lembro de “O Oião”, que tinha a imagem de um olho enorme. Ainda lembro de cor um versinho de pé-quebrado que fizeram com meu pai: “Nilo Tavares / parecendo o satanás / paletó lascado atrás / na festa”. Era a moda dos paletós com um corte vertical na parte traseira, que em Campina, evidentemente, dava origem a todo tipo de piada impublicável. E lembro uma décima que fizeram mangando de Zé da Guia, funcionário dos Correios e Telégrafos: “Ó monstro da estratosfera / ó sacatrapo de angola / ó boitatá, tatu-bola / ó cara de besta-fera / se Satanás que te espera / de ti não der logo cabo / há de dizer: ó quiabo, / Zé da Guia do Correio / é um bicho muito feio / termina criando rabo!”.


2.

Eu me lembro que quando conheci os gêmeos Rômulo e Romero Azevedo toda a nossa conversa era um desfilar ininterrupto de informações e todo tipo de detalhes sobre cinema, e eu ficava fascinado porque até então (eu tinha 16 anos, eles 14) nunca tinha conhecido ninguém que fosse mais nerd do que eu. Eles falavam alternadamente; quando um fazia um ponto-parágrafo e respirava, o outro pegava a frase no ar e prosseguia. E sabiam tudo de cor (ainda sabem). Naquele tempo os telefones em Campina Grande tinham quatro algarismos. O da minha casa era 3666, e eles disseram: “Eita, é a tripla Besta do Apocalipse”. Eu perguntei: “E o de vocês?” Um deles respondeu: “Um Cão Andaluz e O Manto Sagrado”. Precisei de alguns segundos para deduzir que era 2853.

 

3

Eu me lembro que com uns oito anos de idade eu gostava muito de desenhar, e tia Adiza me dava de presente cadernetas, e uns livros-razão de contabilidade, sem utilidade, cheios de páginas em branco. Uma vez eu peguei uma dessas cadernetinhas de bolso, onde há um quadrado referente a cada dia do ano, e onde tinha o anúncio de um feriado eu fazia a ilustração correspondente. “Carnaval” – eu fazia um palhaço, as curvas das serpentinas, os pontinhos dos confetes... “Descobrimento do Brasil” – eu rabiscava mal e mal uma caravela, com as velas enfunadas e uma cruz na vela grande. Aí embatuquei, porque chegou um feriado cujo nome era: PENTECOSTES. O que diabo será isso? Depois de muito pensar, desenhei um cara barbudo, com chapéu de cowboy, pendurado numa forca. Alguém viu aquilo e me perguntou por quê, e se eu sabia o que era “Pentecostes”. E eu respondi: “Isso parece o nome de um ladrão de cavalos”.

 

4

Eu me lembro do meu primeiro relógio de pulso, que era da marca “Lanco” e tinha ponteiros luminosos. Fiquei tão entusiasmado com esse pequeno prodígio científico que durante meses mantive o costume de, deitado para dormir, no quarto escuro, olhar o mostrador por baixo das cobertas, a todo instante, para ver se ele ficava aceso mesmo. Depois, já com mais de 20 anos, tive um da marca “Fortissimo”, cujo grande charme, a meu ver, era a ausência de acento agudo, o que o transformava aos meus olhos em relógio importado. Se brincar, ainda deve estar guardado, sem pulseira, em alguma das minhas caixas de traquitanas.

 

5

Eu me lembro que em 1968, o auge dos Beatles, a gente se reunia na casa de Jakson e Marcos Agra para ouvir um programa na BBC de Londres. Ouvir rádios estrangeiras era uma prática comum naquele tempo, porque, como diziam alguns locutores, “música não tem idioma e a arte não tem fronteiras”.  Eu sabia que a BBC era uma rádio londrina, mas era tão abestalhado que ficava surpreso com o fato de eles se darem o trabalho de ocupar um horário inteiro com um programa em português chamado “Iê-iê-iê na BBC” – na minha cabeça a BBC era uma rádio como a Rádio Borborema, tinha somente um canal de transmissão. Lembro da noite em que nos reunimos todos para acompanhar a primeira audição do “Álbum Branco” dos Beatles, lançado naquele dia. Era uma novidade atrás da outra, e a certa altura o locutor disse: “E agora uma canção de George Harrison, intitulada ‘Meu Violão Chora em Surdina’”, e eu pensei: “Vige que título cafona”.

 

 

 

 






quarta-feira, 27 de outubro de 2021

4758) Videogames, o cinema do futuro (27.20.2021)



Dias atrás tive um excelente papo online, de mais de duas horas, com o jornalista e professor Rômulo Azevedo e a jornalista e pesquisadora de cinema Maria do Rosário Caetano. Os dois são meus amigos de longa data, e foi um papo descontraído (e desconstruído) sobre a “Sétima Arte”.
 
Para quem se interessar, o link está aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=-ngq81cUEEk
 
No final, Rômulo contou uma das muitas histórias impagáveis da família dele (e de seu irmão gêmeo Romero). Os dois viraram cinéfilos, porque o avô e o pai eram donos de cinema em Santana do Ipanema, em Alagoas.
 
Quando o avô inaugurou o Cine Ipanema, naquele próspero município sertanejo, a população compareceu em massa na primeira noite. E na segunda. Só que na segunda Seu Zé em vez de entrar e ver o filme que trouxera, ficou fumando na calçada. Aproximou-se um conhecido:
 
– Oxente, Seu Zé!  O cinema é seu, e o senhor não vai ver o filme?
 
– Já vi ontem.
 
– Mas hoje o filme é diferente. Ontem foi um faroeste, hoje não é um filme policial?
 
– E então? Não é a mesma coisa? Uns caba correndo, dando tiros uns nos outros...
 
A história está completa aqui, no blog de Romero: https://memoriacineipanema.blogspot.com/
 
(Ser gêmeo tem essa vantagem – enquanto um fala, o outro escreve.)
 
A visão simplista do avô dos gêmeos sempre me pareceu hilária. Porque corresponde à visão primitiva que os próprios irmãos Lumière, inventores do cinema, tinham sobre essa maquininha de imaginar. Para eles, a máquina em si era o mais interessante. O fato de ela poder mostrar as pessoas correndo e dando-tiro umas nas outras. O assunto em si não tinha interesse nenhum.
 
Quem eram aquelas pessoas? Por que se perseguiam umas às outras? Por que davam tiros? Quem matou? Quem morreu? Ora, tanto faz.
 
O tempo mostrou como os Lumière estavam enganados. Tão enganados quanto Thomas Edison, seu concorrente na América. (Edison tinha inventado um cinema onde as pessoas botavam o olho no visor de uma maquininha e o filme passava lá dentro.) 

Edison não inventou o cinema, mas inventou o disco de vitrola – e achava que aquela voz gravada serviria para ajudar no estudo de idiomas. Não lhe passou pela cabeça que dali surgiria a indústria trilionária da canção popular.
 
É a velha história – a gente semeia vento e colhe energia eólica.
 
Existe algo parecido, agora em 2021, com a indústria dos videogames. Porque eu acho que o videogame está para o século 21 assim como o cinema estava para o século 20. A mesma explosão tecnológica, a mesma rapidíssima evolução ao longo das primeiras décadas. E a mesma incompreensão – porque os adultos pensam que aquilo é diversão de adolescentes, e porque os intelectuais pensam que é diversão de gente burra. Pode ser. Mas é a arte do futuro.
 
O escritor Tom Bissell, um aficionado, diz que a linguagem e a técnica do videogame evoluíram, no decorrer de vinte anos, “das inscrições rupestres à Capela Sistina”. Nem mesmo o cinema evoluiu tão depressa (em vinte anos, foi de Méliès a Griffith, o que não deixa de ser também uma façanha). 

 
Qual é o problema com os videogames? Para mim é simplesmente desinformação. E o desdém, o menosprezo, que essa desinformação acarreta.
 
As pessoas pensam que videogame é “uns caba correndo e dando tiro uns nos outros”. A mesma idéia que Seu Zé Francisco tinha sobre os filmes que exibia em seu cinema. Isso é muito irônico, quando pensamos que o mundo dos games é tão variado quanto o do cinema. Como explicar a uma pessoa que na vida só viu meia dúzia de “filmes de carro explodindo” que existem, além desses, filmes contando histórias de amor?  E filmes engraçados? E histórias de dramas familiares? Ela não vai acreditar.
 
Os videogames criaram um conjunto formidável de técnicas narrativas, todas elas baseadas na alternância entre “material pronto” e “material interativo”. A interatividade é o seu pulo-do-gato. O videogame é um filme semi-pronto onde você penetra, e onde quem faz o filme andar é você.
 
Todo mundo tem obrigação de gostar disso? Não. Assim como ninguém tem obrigação de gostar de Stanley Kubrick ou de Oscarito. O que acontece é que sempre tem gente pra gostar de alguma coisa, e também o fato incontestável de que a cada geração que surge o interesse pelas “Artes Interativas” é maior.

 
Aqui no blog já publiquei uma série de “sinopses fictícias” para tentar mostrar que variados universos literários e cinematográficos, já existentes, podem servir de inspiração para a criação de videogames. Com histórias onde possam aparecer eventualmente cenas de luta ou de batalha, mas que isso não impede a criação de tipos humanos, a profundidade psicológica, o retrato de um meio social...
 
O cinema fez esse trajeto. Por que o game não poderia fazê-lo?
 
CyBorges:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/02/2477-cyborges-game-1122011.html
 
Macondo, The Game:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/11/2727-macondo-game-30112011.html
 
Grande Sertão: The Game:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2011/04/2541-grande-sertao-game-2742011.html
 
…e outros. As possibilidades, como sempre, são infinitas.
 








segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

4652) Zé Calixto e o fole de 8 baixos (14.12.2020)


(foto: Antonio David Diniz)

Por uma dessas simetrias irônicas da vida, neste domingo dia 13, aniversário de Luiz Gonzaga, nossa música perdeu o grande Zé Calixto, 87 anos, um dos mestres do fole-de-8-baixos do forró nordestino.
 
Os Calixto (Zé, Luizinho, Bastinho) são uma linhagem de músicos talentosos e populares. Conhecendo a eles e à sua obra não é difícil entender o "caldo cultural" de onde emergiram figuras hoje internacionalmente famosas como Sivuca e Hermeto Paschoal.
 
Uma vez, nos anos 1990, fui convidado para cantar meus martelos numa coletiva de músicos nordestinos no Circo Voador do Rio. Estava nos bastidores, no meio de dezenas de figuras, conversando com Zé Calixto, quando se aproxima uma figura leonina de cabelos e barbas quase brancos: "Você é Zé Calixto? Meu nome é Hermeto Paschoal, e sou seu maior fã.”
 
Presenciei assim o que imagino ter sido o primeiro papo pra-valer entre esses dois reis do teclado.
 
Teclado é um modo de dizer, porque o fole de oito baixos usa botões, como as “gaitas” gaúchas. E tem como principal característica técnica o fato de que, quando se aperta um botão, “abrir o fole” produz uma nota musical, enquanto que “fechar o fole”, apertando o mesmo botão, produz outra. Na sanfona convencional, o acordeom, tudo é muito mais simples – a nota musical é a mesma, não importa em que direção a gente puxe ou empurre o fole.



O fole-de-8-baixos é um instrumentozinho invocado, pequeno, difícil, rico de recursos. Como dizia Dominguinhos, com uma gargalhada: “A vantagem dele é que é mais leve...”
 
Era o instrumento do velho Januário, o pai de Gonzagão. E o próprio Gonzagão juntou-se a Humberto Teixeira para produzir a canção “Respeita Januário”, onde Luiz conta como voltou para Pernambuco no auge do sucesso, para rever os pais. O velho Januário torceu o nariz diante do sucesso do filho, nesse monólogo criado e falado com a genialidade de Gonzaga:
 
“O nêgo agora tá gordo que parece um major... É uma casemira lascada, um dinheiro danado... Enricou!... Tá rico!... Pelos cálculos que eu fiz, ele deve possuir pra mais de dez contos de réis. Sanfonona grande danada... 120 baixos. É muito baixo. Eu nem sei pra que tanto baixo, porque arreparando bem ele só toca em dois! Januário não. O fole de Januário tem 8 baixos, mas ele toca em todos oito.”
 
Esse detalhe do número de baixos é um tratado completo sobre estética e tecnologia. A rigor, os 120 baixos da sanfona de Luiz Gonzaga são tão supérfluos quando os 18 milhões de cores do PhotoShop. Pra que isso tudo? Com 10 por cento disso, e talento, qualquer artista se vira muito bem.
 
O fole não precisa ter necessariamente oito. No começo (dizem) tinha dois, e aqueles dois botõezinhos à disposição da mão esquerda do tocador lembravam o casco bífido de um caprino, daí (segundo algumas interpretações) o nome “pé de bode” atribuído ao instrumento. Há foles de 12 baixos ou mais, e cada instrumentista usa o que lhe convém.



Quem quiser se aprofundar no estudo dele não tem porta de entrada melhor do que o livro de Léo Rugero, Com Respeito aos oito baixos – Um estudo etnomusicológico sobre o estilo nordestino da sanfona de oito baixos (“Prêmio Produção Crítica em Música”, Funarte, 2012 / Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 2013). 

Léo Rugero, paulista criado no Rio de Janeiro, pesquisador musical da UFRJ, mergulhou nessa colônia nordestina de sanfoneiros e puxadores de fole, produzindo este livro repleto de informações preciosas, e um documentário homônimo que pode ser visto na web.
 
A pesquisa de Rugero centrou-se várias vezes na pessoa de Zé Calixto, como representante mais velho de um clã que, ao contrário do pai deles todos, Seu João de Deus, transferiu-se para o Rio de Janeiro, teve acesso aos estúdios de gravação, e dos anos 1960 em diante deu uma sobrevida de meio século a essas formas musicais.
 
O blog de Rugero, Sanfona de 8 Baixos, pode ser acessado aqui:
 
Zé Calixto teve mais de duzentas composições gravadas. É interessante notar, para quem se interessa por esse tipo de música, que apesar de ser tradicionalmente identificado com o forró nordestino o fole de 8 baixos presta-se muito bem ao samba, ao choro, ao frevo e outros estilos musicais. O choro, principalmente, pelo seu perfil marcadamente instrumental e pela perícia que normalmente exige dos executantes, é um estilo de música que tem tudo a ver com os 8 baixos.
 
Aqui, por exemplo, podemos ouvir seu disco de 1961, onde ele interpreta clássicos instrumentais como o frevo “Vassourinhas” (Matias da Rocha-Joana Batista Ramos) e o samba “Escadaria” (Pedro Raimundo).
 
“A volta do sanfoneiro” (Philips, 1961)


Nascido em 1933 em Lagoa Seca, na época pertencente ao município de Campina Grande, Zé Calixto foi filho de tocador, tal como aconteceu com Luiz Gonzaga, e desde pequeno acompanhava o pai nos bailes rurais onde este tocava. Mudou-se para o Rio em 1960 e conseguiu sua primeira gravação intermediado pelo compositor Antonio Barros, outro recém-chegado naquela imensa leva pós-Gonzaga, pós-Jackson do Pandeiro, quando os estúdios cariocas ficaram repletos de tocadores, cantores e ritmistas gravando discos modestos que vendiam como água.
 
Aqui, um programa da TV Paraíba, em duas partes, criação de Rômulo Azevedo, onde Zé Calixto conta com o bom humor de sempre a sua odisséia nordestina:
 
“A Paraíba e Seus Artistas” (Rômulo Azevedo)
Parte 1:
Parte 2:
 
E aqui, números musicais entre Dominguinhos e Luizinho Calixto, um dos irmãos do mestre falecido – professor, compositor, instrumentista e continuador da Grande Arte.
 
Dominguinhos + Luizinho Calixto:
 
 







quinta-feira, 19 de abril de 2018

4337) "Bandeira Sobrinho -- Uma Vida e Alguns Versos" (19.4.2018)




Neste sábado, 21 de abril, entre as 15:30 e 16:30 horas, estarei lançando no Rio de Janeiro meu novo romance, Bandeira Sobrinho – Uma Vida e Alguns Versos (Fortaleza: Imeph, 2017).

Vai ser no CRAB (Centro SEBRAE de Referência do Artesanato Brasileiro), Rua Visconde do Rio Branco, 3, na Praça Tiradentes. Fica perto do Teatro Carlos Gomes, em frente ao 13º. BPM: é aquele prédio grande, cor de cenoura, cuja calçada ficou durante anos ocupada por tapumes e andaimes.



Sobre o livro: por um lado, acho que é isso que está se chamando atualmente de “auto-ficção”: uma obra de ficção onde o próprio autor aparece como personagem. Comentei com um amigo meu: “Não sei por que esse alarde todo, porque isso já vem pelo menos desde os contos de Borges.” Ele respondeu: “Pelo menos desde a Divina Comédia.”

O livro conta a vida de um cantador repentista de Campina Grande, com quem ficticiamente convivi a partir de 1975, quando eu era um dos organizadores do Congresso Nacional de Violeiros, um festival de repentistas que acontecia anualmente no Teatro Municipal Severino Cabral. Em sua fase de maior sucesso, o Congresso chegou a lotar com 5 mil pessoas o Ginásio da AABB.

Quem organizava o Congresso eram os cantadores locais: José Gonçalves, Ivanildo Vila Nova, José Laurentino, Juvenal de Oliveira, etc.  A eles juntou-se a chamada “turma do Museu”, que se reunia em atividades cineclubísticas no Museu de Arte da FURNe: eu, José Umbelino Brasil, os irmãos Rômulo e Romero Azevedo, meu irmão Pedro Quirino, o fotógrafo Roberto Coura e vários outros.

Bandeira Sobrinho era um cantador de seus 50 anos na época (eu tinha metade disso) e circulava como um ectoplasma no meio daquela poetaria toda. Circunspecto como Manuel Camilo, casmurro como Zé Alves Sobrinho, ranzinza como Pinto do Monteiro. Por trás dessa fachada cactácea, tinha um coração de ouro, um grande senso de humor, era cachaceiro e raparigueiro como todos os outros. (Ou quase todos.)

Bandeira estava cantando certa vez na casa de uma família bem religiosa, e seu parceiro terminou uma sextilha dizendo:

(...) Porque a fé é meu guia,
minha luz e meu farol.

Bandeira respondeu:

Tenho fé em que o sol
amanhã nasce no leste,
vai cruzar o dia todo
a abóbada celeste
e, como sempre tem feito,
vai se pôr no lado oeste.

Era um agnóstico, o que não o impedia de cultivar um lado místico e ler de Erich von Daniken até Mircea Eliade. Era grande admirador de Ariano Suassuna, e no livro transcrevo as estrofes que fez quando foi pessoalmente conhecer as “Pedras do Reino”, no município de Sao José do Belmonte:

(...) São ruínas requeimadas
do arraial de Canudos?
Ou gigantescos escudos
de tropas enfeitiçadas?
São os degraus das escadas
do Morro da Encantação,
degraus que à noite um Dragão
desce pra beber na Fonte?
Pedra do Reino em Belmonte,
Trono dos Reis do Sertão!

Bandeira tinha um fusquinha no qual peguei muita carona para ir assistir suas cantorias, levando a tiracolo meu gravador National e os bolsos cheios de fita Basf-60. Morou quase sempre no alto da ladeira que leva ao Alto Branco, a Vigolvino Wanderley, com uma breve passagem pela rua Luiza de Castro, nesse mesmo bairro.

Registro cantorias dele no Bar Canarinho, na feira de Campina, em Manuel da Carne de Sol; e episódios pitorescos vividos no saudoso bar Miúra, na Estação Velha, no Bar de Zacarias, por trás do Estádio Plínio Lemos, e no Bar do Cearense, no pé da Venâncio Neiva.

Era uma época gloriosa da cantoria de viola, uma época em que de certa forma o Congresso de Campina marcou de forma indelével, graças principalmente à ousadia e à capacidade de mobilização de Ivanildo Vila Nova e sua turma, os critérios de apresentação profissional dos cantadores.

Eu era um simples estudante universitário, um cabeludo “peru de cantoria”, sempre de gravador ou caneta Bic em punho, registrando versos que somente décadas depois apareceriam em forma de livro.

A boemia ao lado dos repentistas marcou esse pedaço da minha vida, e faço minhas as palavras de Bandeira quando disse:

Dos 20 aos 50 anos
gozei tudo que podia:
fui boêmio sem descanso
e gastei uma energia
que dava pra iluminar
do Rio Grande à Bahia.

Farrista, ele? Que o digam lugares como o Vagalume, na feira, ou a Unidade Moreninha, na Rua das Boninas. Bandeira era muito bem casado com Dona Zita, o que não o impedia de produzir sextilhas como esta:

Todo casal tem a hora
em que pega alguma briga;
a esposa se consola
contando tudo à amiga,
mas pro marido só resta
cabaré e rapariga.

Era um meio pesadamente machista, o dos cantadores, não no sentido da violência e do preconceito, mas da aderência a um código de conduta rígido, implacável, em que o destino da mulher era cuidar da casa e dos filhos, e o do homem era o que ele bem entendesse.

Ainda assim Bandeira era um romântico, capaz de dizer:

Isso é a vida que traz,
isso é a vida que leva.
Um dia lá bem distante,
quando eu mergulhar na treva,
minha última lembrança
serão os olhos de Eva.

Por trás dos versos e das farras boêmias, a história mostra pinceladas de uma Campina Grande que em sua maior parte já se foi: a redação do Diário da Borborema, o estúdio de Rádio Borborema onde era transmitido o programa “Retalhos do Sertão”... Nos últimos capítulos o registro de meus encontros com Bandeira já nos anos 2000, no Recife, ele já uma “lenda viva” da cantoria e eu um roteirista de televisão.

E assim a vida vem, a vida se vai. Como disse o próprio Bandeira Sobrinho:

A minha felicidade
perdeu-se como a fumaça,
foi uma sombra que passa
com o surgir da claridade;
fugiu-me contra a vontade,
fugiu sem eu nem dar fé;
minhalma hoje é a ré
e o destino seu juiz.
A gente só é feliz
quando não sabe que é.

E apois não é mêrmo?!

O livro ainda não tem distribuição na rede de livrarias, mas pode ser pedido diretamente à Editora Imeph, aqui:






sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

4188) O dia em que John Lennon morreu (9.12.2016)



“Onde estava você... no dia em que John Lennon morreu?”

Eu estava de passagem pelo Recife.  Estava resolvendo detalhes da publicação do meu primeiro livro, Balada do Andarilho Ramón e Outros Textos, que graças à indicação de Cavani Rosas e à produção de Andréa Mota saiu pelas Edições Pirata (leia-se Jaci Bezerra e Alberto da Cunha Melo), com capa de Cavani. Foram duas impressões apenas, uma de 80 exemplares e outra de 300, o que faz dele uma peça de colecionador. (Eu, pelo menos, sempre que vejo um, compro. Tenho dois.)

Na véspera, Andréa reuniu um grupo de amigos e fomos de ônibus para Itamaracá, para ver a apresentação de um bumba-meu-boi que se estendeu noite afora.

Um bumba-meu-boi, para quem não sabe, é uma espécie de peça teatral dirigida a quatro mãos por Bob Wilson e Zé Celso Martinez. Uma viagem ao Reino do Vai-e-Não-Torna. Uma sucessão de quadros em que os atores se sentem à vontade para esticar os improvisos e as brincadeiras (entre si ou com a platéia) pelo tempo que lhes der na telha. Quando vai com duas ou três horas, você se pergunta se aquilo não vai acabar nunca. Quando chega por volta das seis ou sete horas ininterruptas, você tem vontade que aquilo não acabe nunca.

E num certo sentido filosófico, um bumba-meu-boi não acaba nunca.

A gente assistia, cantava, aplaudia, dançava, tomava umas e outras, ia no terraço da casa de uns amigos para um cochilo de uma hora (dormir mesmo era impossível, o barulho é muito), voltava...

No dia seguinte, no fim da tarde, pegamos o ônibus de volta para o Recife. E ao chegar no famoso Beco da Fome (que ligava a Rua 7 de Setembro à Rua do Hospício), me deparo com a vida real em forma de notícia.

Se bem me lembro era Samuel Costa, o “Galileu”, que estava sentado numa mesa na calçada e disse: “Oi, mataram seu ídolo e você tá aí todo tranquilo?”.

Eu não acreditei. Sentei na mesa do bar e pouco depois começou o Jornal Nacional. Desabei. Felicidade que também na mesa estava uma ex-namorada minha que tomou as rédeas da situação, me ajudou a assoar o nariz, me trouxe de volta ao regaço da existência, rolou um momento “won’t you pleeeease help me?...”

No dia seguinte fui para Campina Grande, e não preciso dizer que na casa de Rômulo Azevedo e Íris Medeiros a situação estava mais pra “Cry Baby Cry” do que pra “I Feel Fine”. E começou nessa época (durou umas duas semanas) uma enxurrada de piadas de humor negro onde a gente exorcizava o sofrimento diante da surpresa, da crueldade gratuita, do absurdo total daquele fato.

De meia em meia hora um de nós coçava a barba e mandava:

-- Pois é, velho, disse na TV que quando ele levou os tiros ele gritou: “But why?”, e o cara cantou: “ ’Cause I’m the chapman... yeeeeh, I’m the chapman...”

E todo mundo estourava na risada.

Por que isso?  Catorze anos depois, quando Ayrton Senna morreu, esse festival de gracejos dolorosos tomou o Brasil de ponta a ponta.

Maldo eu que é porque a piada tem várias funções terapêuticas.

Quando você pega a fonte central de sofrimento daquele instante e faz uma piada sobre ela, você reafirma seu poder de decidir o que é capaz de lhe derrubar ou não. Ficar de coca e cair no choro é confessar a derrota. Fazer piada com a própria desgraça é um sinal de que a briga ainda não terminou.

Por outro lado, o humor negro cauteriza. Por cima de uma dor-de-agressão ele chapa uma dor-de-cura muito mais dolorosa, mas originada em nós mesmos. Como se a gente dissesse: “Ah, você acha que isso aí doeu?  Apois eu tenho uma coisa aqui que dói o dobro.”  A ciência moderna me desculpe, mas eu não acredito em mertiolate que não queima.

E terceiro, o próprio Lennon era assim. Emotivo e ácido, sensível e cruel, menino carente e machão repressor, “Nowhere Man” e “Bad Boy”.

Ele tinha a coragem (que a maioria de nós, poetas, não ousa ter) de escancarar musicalmente diante do mundo inteiro suas carências, suas inseguranças, suas brutalidades, seu medo, seu machismo, sua procura às-cegas dessas duas coisas que parecem tão inconciliáveis: amor e amor-próprio.

Paul McCartney era um sorriso, Lennon era uma fratura exposta. Só quem ia fundo na escuta das canções e na leitura das vidas percebe como cada um trazia o outro em seu reverso. Daí, talvez, a especialíssima tensão-positiva que a parceria dos dois produziu.

Retomando: “Onde estava você... no dia em que John Lennon morreu?”

Eu estava no Recife publicando uma coletânea de poemas e canções onde, a certa altura, estão estes versos, da letra de uma música:

“E certa noite
a violência desce com seu punho selvagem
batendo em nossa cara e acordando a coragem
que a gente tinha, e nem sabia;
força tão funda, faca tão fria
brilhando na mão da nossa alegria;
tu me ensinaste, naquele dia,
menina,
em que eu vi nos teus olhos o Atlântico Blue”.








domingo, 8 de setembro de 2013

3285) Pedro Cancha (7.9.2013)



Um dos melhores filmes do recente VIII Comunicurtas, em Campina Grande, foi o documentário de Luciano Mariz, Cancha – antigamente era mais moderno, sobre uma das figuras mais lendárias de Campina, Pedro Souto Guimarães, o famoso “Pedro Cancha”. É um documentário que mergulha sem receio no mundo do personagem, dando-lhe asas para voar na própria imaginação, além de ter um equilíbrio de alta qualidade em direção de arte, fotografia, iluminação, edição.

Em 1967, o costureiro recifense Marcílio Campos sugeriu que num clima tropical o uso do saiote seria uma boa opção para os homens – mais arejado, mais higiênico. (E, como cantou Luiz Gonzaga sobre a minissaia feminina, “facilita”.) Uma teoria que já tinha sido defendida por Gilberto Freyre e por Flávio de Carvalho (que em 1956 desfilou de saiote pelas ruas de São Paulo). A matéria deu o que falar em Campina, mas o episódio modernista/paulista andava esquecido. A turma do Calçadão propôs: E se a gente saísse na frente, com alguém usando isso? Campina, como se sabe, sente-se na obrigação de estar sempre na vanguarda de tudo.

O problema é que precisavam de um voluntário para usar a indumentária, e quem teria coragem? Alguém lembrou de Pedro Cancha, que morava em Zé Pinheiro e era dono do cabelo mais comprido da cidade, numa época em que cabeludo era insultado e escarnecido nas ruas (eu mesmo o fui, inúmeras vezes), e mesmo apedrejado e perseguido. Pedro Cancha era rude, brabo, musculoso, e tinha um cabelo maior do que o de Benito de Paula. Foi procurado. Topou. Alguém correu em casa e trouxe um saiote da mulher ou da filha. Levaram Pedro para a escada da redação do “Diário da Borborema” (onde eu trabalhava). Fotografaram-no em “contre-plongée”, de baixo para cima (a foto está no filme).

No dia seguinte o jornal saiu com a foto de Cancha na capa, e esgotou edições sucessivas. Mais uma vez, Campina se equiparava às grandes capitais! Foi organizado um desfile em carro aberto pela Maciel Pinheiro, diante de uma multidão dividida (como toda multidão) entre o aplauso entusiasmado e a vaia rancorosa. Pedro, de saiote, em pé no carro, gritava: “Juventude campinense! O mundo está mudando! Viva a liberdade!”. Algo assim.

Vieram novos tempos e novas modas, e o assunto foi morrendo. Em 1997, trinta anos depois do histórico desfile, Rômulo Azevedo fez uma reportagem de TV sobre o fato, e redescobriu Pedro Cancha, ainda morando em algum lugar remoto de Campina Grande. Recordaram o fato, comentaram, e por fim Rômulo perguntou o que ele achava do “mundo de hoje”, tantos anos depois. E Pedro Cancha respondeu, desalentado: “O passado era mais moderno”.