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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

3042) Droga e liberdade (28.11.2012)






No filme The Corporation, a certa altura os realizadores questionam o uso maciço de propaganda dirigido às crianças nos EUA para que comprem (ou peçam aos pais) brinquedos, doces, etc.  Os entrevistadores perguntam se não é eticamente errado manipular com publicidade as mentes despreparadas dos pirralhos, fabricando desejos, num momento em que elas não têm uma visão crítica sobre o que estão assistindo. Uma executiva responde, rindo: “But it’s just a game!”. É só um jogo! Para a mentalidade dos executivos, é um jogo de números entre as empresas, como o Banco Imobiliário. Eles precisam melhorar a relação dos números da própria empresa (vendas, lucro, etc.), e a relação entre os números da empresa e os dos concorrentes.

Todos nós somos assim, não é mesmo? Todos somos politicamente corretos, religiosos, bons cidadãos, mas no momento em que alguém bota um putufú de dinheiro em cima da mesa e diz: “Será seu, se você fizer tal e tal coisa”, argumentos brotam dos lugares mais inesperados da nossa mente, convencendo-nos de que não estamos fazendo aquilo pelo dinheiro, mas por uma lista de motivos nobres que daria duas voltas-à-esquina. Se uma fábrica de pipoca me oferecesse um salário mensal de 100 mil reais para dirigir seu setor de publicidade, forçando todas as crianças da Paraíba a comerem pipoca desenfreadamente, eu pensaria: “Ora... Pipoca é milho!  É cultura indígena! O milho faz parte de nossa dieta desde tempos imemoriais. Contém amido!  Melhor vê-los comendo pipoca do que mascando chicletes”. E assim por diante.

Não é impossível que alguns fabricantes e vendedores de crack, metanfetamina, heroína, etc., sejam cidadãos corretos em sua vida doméstica: bons pais, bons maridos... Podem ser honestos, incapazes de desviar para si um só centavo que não seja seu.  E se lhes perguntarem pela destruição causada pela droga que vendem, eles responderão, como o químico nerd de Breaking Bad: “Compra droga quem quer, usa quem gosta. São adultos, e são livres para escolher”.  Ora, ninguém é livre para escolher. Nossas escolhas aparentemente livres são sempre influenciadas por alguém de fora. Nossa liberdade de escolha se dá sempre num corredor de pressões e proibições. O fantasma da liberdade (como dizia Buñuel) nos faz imaginar que somos sempre donos das nossas opções, mas agimos dentro de limitações estabelecidas por quem nos explora. Uma criança é livre para escalar um parapeito e pular de um vigésimo andar. Mas essa “livre” escolha a precipita numa situação em que fica impedida de escolher, para sempre. A droga é uma livre escolha que em alguns casos conduz ao cancelamento de todas as liberdades.



terça-feira, 16 de novembro de 2010

2402) Liberdade de imprensa (16.11.2010)



(Ilustração: J. I. I. Grandville)

Liberdade de imprensa é liberdade de empresa. É uma coisa importantíssima e necessária, uma coisa que afeta a vida de todos nós. Mas não é um valor absoluto. Nós, jornalistas, temos o hábito de dizer (por fé democrática e por instinto de sobrevivência) que a liberdade de imprensa é um valor absoluto, mas não é, valores absolutos não existem. A vida, o amor, a liberdade... nada disso é valor absoluto, tudo precisa estar em contexto. Nada existe fora de contexto. Se a vida, por exemplo, fosse um valor absoluto, um sujeito não seria absolvido por tirar uma vida em legítima defesa. Se a liberdade fosse um valor absoluto, ninguém poderia ser preso. Se o amor fosse um valor absoluto, não se poderia condenar um homem que por amor matasse uma mulher. E assim por diante.

Liberdade de imprensa é a liberdade que têm os donos de um jornal (ou de uma empresa de telecomunicações, no sentido mais amplo) de defender os interesses que eles julgam corretos. Se julgam correta a democratização do país, eles usam seu jornal para lutar por isso. Se julgam correta a abolição da pena de morte, o protecionismo alfandegário ou as cotas raciais nas escolas, têm o direito de instruir seus empregados (os jornalistas) para defenderem essas ideias. Da mesma forma (visto que vivemos numa democracia) um dono de jornal ou de TV que julga correta a busca da maximização dos próprios lucros, dentro da lei, tem todo o direito de lutar por isso. Se ele é a favor da pena de morte, se é contra o protecionismo ou contra as cotas, também pode mobilizar seus redatores para, sempre agindo dentro da lei – que é, ou deve ser, o limite de ação para todos, não é mesmo? - defender essas ideias.

A liberdade de imprensa ideal seria aquela em que um redator pudesse publicar uma enorme matéria de capa contradizendo o interesse do dono do jornal. Pense numa liberdade grande! Mas isso deve ocorrer muito raramente, e em pequena escala. Colunistas como eu, por exemplo, geralmente contam com a benevolência das empresas, mesmo quando discordam delas. Uma coluna é uma matéria assinada, que exprime a visão do autor, não a da empresa. E a empresa pode aproveitar isso para dizer: “Olha aí como nós somos democráticos. O cara é nosso empregado, defende um interesse contrário ao nosso, mas a gente não só não o expulsa, como ainda publica o texto dele, e lhe paga por isso.”

Informação, interpretação e opinião são as três moedas da imprensa, cujo valor oscila mas nunca se deteriora. Em qualquer época e em qualquer circunstância haverá multidões precisando das três, sempre que as acreditarem legítimas. E o mais importante é que em qualquer país coexistem moedas contraditórias, porque cada jornal enxerga e defenda uma verdade diferente. A primeira liberdade de imprensa é permitir que as imprensas sejam muitas; depois, que os interesses sejam claros, o debate seja aberto. E que os valores sejam nobres, se não for pedir demais.

sábado, 8 de maio de 2010

2014) Liberdade e permissividade (22.8.2009)



Estávamos, um grupo de amigos, conversando sobre o comportamento dos jovens de hoje. Preciso dizer que todos os amigos tinham entre 50 e 60 anos? É engraçado como os velhos observam tanto a vida dos jovens e os jovens não dão a mínima atenção à vida dos velhos. Acho que intuitivamente todos sabem quem tem algo a ensinar a quem. Enfim: – conversava-se, ria-se, e comparava-se o amanhã de ontem (o mundo onde viemos parar) ao ontem de amanhã (o mundo que nossos filhos recordarão um dia). No meio da conversa, falando de comportamento e de relações pessoais, alguém se saiu com uma frase mais ou menos assim: “Antes havia mais repressão, mas havia mais disposição para enfrentá-la. Hoje existe mais permissividade, mais galinhagem, mas, quando existe uma barreira, as pessoas não tem tanta coragem para enfrentar pressões e conseguir mais liberdade”.

Me pareceu uma boa tentativa de focalizar esse enorme paradoxo que a gente observa entre a adolescência dos nossos filhos e a nossa. Como sei que nenhum adolescente lê esta coluna, fico à vontade para comentar com os leitores que o mundo em que fomos jovens pareceria um pesadelo surrealista aos garotos e garotas de hoje. Eles não entenderiam, por exemplo, a nobre instituição do “namoro no terraço”, em que o rapaz e a moça, à noite, ficavam sentados lado a lado, de mãos dadas. No mesmo aposento (que não tinha de ser o terraço – podia ser a sala de visitas, etc.) era obrigatória a presença de uma terceira pessoa, fosse a mãe da moça, uma tia sonolenta, uma avó caduca, um irmão menor... Não fazia diferença quem fosse, o importante era que nem por um segundo aquele rapaz e aquela moça fossem deixados a sós, se não o defloramento da garota seria inevitável. (Não riam, meus jovens. Toda vez que um dos vigias saía da sala, acontecia algo inesquecível.)

Um casal de namorados (mesmo que tivessem 20, 25 anos) só ia ao cinema se fosse acompanhado por uma terceira pessoa, geralmente um irmão mais novo ou uma amiga da futura vítima. (Ainda por cima, o pretendente tinha que bancar três ingressos!) Um amigo já me confessou: “Na primeira vez em que fiquei a sós com Fulana, com quem namorava há mais de um ano, ficamos nos achando estranhos. Não sabíamos como éramos sem uma pessoa olhando”.

Sou um cara otimista, e acho que a cada geração que se sucede a Humanidade vai aposentando formas desnecessárias de sofrimento. Hoje, tudo que falei acima é muito engraçado; na época, daríamos o olho direito e o braço esquerdo pela chance de passar uma noite a sós. Hoje, um rapaz de 18 anos vai (consentidamente) para o apartamento da namorada, cujos pais estão viajando, e provavelmente os dois passam a noite assistindo DVDs e comendo pizza com coca-cola. (Na verdade não é nada disso – aposto que fazem as maiores loucuras, e é a minha mente grisalha que procura se consolar, vendo uvas verdes na parreira de Baco que eles desfrutam.)

sexta-feira, 12 de março de 2010

1781) A liberdade de expressão (23.11.2008)



No ginásio, nas aulas de Ciência, surgia de vez em quando esta questão perturbadora: “O que acontece quando uma Força Irresistível encontra um Obstáculo Inabalável? Quem ganha?” Uns votavam numa, outros votavam no outro. Alguns tentavam ser salomônicos dizendo que o Obstáculo “balançava mas não caía”. (Uma variante do mesmo problema envolvia um Solvente Universal e um Recipiente Invulnerável.) Até que um dia um professor nos sugeriu considerar o seguinte: uma Força Irresistível e um Obstáculo Inabalável não podem existir no mesmo universo. A existência de um elimina o outro. Se existir uma Força Irresistível, nenhum obstáculo será inabalável, e vice-versa.

Existem casos, contudo, em que um termo entra em contradição consigo mesmo. É o caso desta misteriosa condição chamada “liberdade de expressão”. É uma noção que em princípio conta com a aprovação de qualquer pessoa – mas quando vamos pô-la em prática vemos que na medida em que aumenta a liberdade de expressão de A diminui a de B.

Sempre que coloquei em público esta questão apareceu alguém para dizer de imediato: “Então quer dizer que o sr. é contra a liberdade de expressão?” Este é a típica generalização apressada de quem só entende uma questão radicalizando-a em dois extremos. Não se trata de “ser contra” a liberdade de expressão, mas de reconhecer que ela tem limites por sua própria natureza. Não existe uma utópica e fantasiosa “liberdade de expressão universal e permanente”. Tudo que se ganha de um lado se perde do outro.

Como muita gente só entende imagens exageradas, costumo propor a seguinte questão: “O que é pior – a Censura ou o Nazismo?” Porque ou você tem uma coisa, ou tem a outra. Se você é a favor da liberdade de expressão, tem a obrigação moral de garanti-la também para essa rapaziada que tatua suásticas no bíceps, espanca nordestinos e judeus, e prepara atentados contra Barack Obama. Caso você seja um defensor da liberdade de expressão, precisa concedê-la a esses caras, para que se expressem, publiquem livros e artigos, façam comícios públicos, criem canais de TV divulgando suas idéias, elejam deputados e senadores, promulguem leis a seu favor, coloquem no currículo das escolas públicas cadeiras explicando que o Holocausto foi uma farsa.

Eu, por exemplo, não concordo com essas idéias. Acho que são prejudiciais à convivência pacífica entre as pessoas, e, portanto, sou a favor da Censura contra elas. Por mim, devem ser proibidas. Outras idéias com as quais não concordo – a Numerologia, a Teoria da Atlântida, etc. – me parecem inofensivas e não vejo razão para censurá-las.

Todo mundo é assim. Todo governo, todo cidadão. Permitimos aquilo que aprovamos e aquilo que nos parece irrelevante mas inofensivo; e censuramos o que faz mal. Liberdade universal de expressão não pode existir numa sociedade onde pessoas diferentes defendem idéias diferentes. Sempre vai haver uma idéia tão perigosa que alguém vai achar preciso proibir.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

1669) Puritanismo ou depravação (18.7.2008)



Tenho feito muitas críticas às letras escrachadas dos falsos forrós que tocam por aí, o que tem me merecido respostas no tom de: “Que moralismo é esse? O tempo da ditadura acabou”.

Essa resposta coloca uma questão interessante, porque, como se sabe, os anos da ditadura militar não tiveram apenas Censura política, mas também uma rígida censura de costumes. Nudez, palavrão, gandaia, referências a sexo, tudo isso era perseguido, proibido, cortado.

É um milagre que um jornal como “O Pasquim”, para citar apenas um exemplo, tenha conseguido publicar tudo que publicou. E que autores como Henry Miller tenham sido traduzidos e editados no Brasil durante esse período.

O que há é que com o fim da ditadura houve um “liberou geral” na imprensa, nas artes, na TV, na música. Foi uma melhora? Sem dúvida. Mas a melhora está ficando tão histérica que está acarretando uma piora na direção oposta.

E isto se deve ao fato, repetidamente afirmado nesta coluna, de que saímos da Ditadura Militar para a Ditadura do Mercado, que em alguns aspectos é mais confortável de viver do que a outra, mas a longo prazo é igualmente prejudicial.

Na ditadura militar, tudo era proibido. Na Ditadura do Mercado, tudo é mercadoria, tudo pode ser comprado com dinheiro, porque este é o valor que as pessoas mais prezam.

Na ditadura militar, as mulheres eram proibidas de mostrar o corpo. Na ditadura do mercado, as mulheres mostram o corpo, não porque se liberaram do moralismo, mas porque são encorajadas a se oferecer como mercadoria.

O Discurso Puritano interessava à ditadura militar, comandada por generais tradicionalistas e conservadores. Defendiam uma moralidade ascética, reprimida e repressora, inspirada na religião.

Já o Discurso Depravado interessa à ditadura do mercado. Sua estratégia é ditada por empresários cujo objetivo é o acúmulo rápido de dinheiro, pregando o consumo em alta escala e o cultivo de um estilo de vida hedonista, voltado para o desfrute de todos os prazeres oferecidos aos que são ricos e jovens.

Esta segunda ditadura, que a cada ano manda mais na indústria cultural brasileira, precisa ser tão questionada e combatida quanto a anterior. As duas são o extremo oposto uma da outra, mas as duas têm o mesmo efeito nocivo: amputar a totalidade da experiência humana, sabotar a liberdade, pegar populações de jovens e prepará-las cuidadosamente para obedecer aos seus comandos como um rato de laboratório.

Há trinta anos, a ditadura militar oferecia segurança e exigia repressão sexual. Hoje em dia, a ditadura do mercado oferece desfrute sexual ilimitado e está impondo um jogo cuja regra é: “Tudo tem preço. Quanto é o seu?”

Quanto é que você cobra para fazer algo que você é contra?

Quanto cobra pelo seu filho, pela sua filha, pela sua mãe?

Quanto é a aposta que eu vou lhe fazer uma proposta irrecusável?

Quanto é a aposta que meu dinheiro vale mais, para você, do que você mesmo?





quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

1666) A Lei Seca (15.7.2008)



Está aí um dos raros lampejos de sensatez que já brotaram neste Brasil velho de guerra: punir as pessoas que dirigem sob o efeito do álcool. Sou suspeito para falar, porque não sei dirigir e nunca tive carro. Para mim, portanto, não muda nada, porque sempre que tomei umas e outras voltei para casa de táxi, ou a pé, ou trazido por alguém. As únicas vezes em que cometi alguma imprudência automobilística foi quando voltei para casa pegando carona com amigos (e já foram centenas) que tinham bebido tanto quanto eu, e o fato de estar aqui vivo e batucando nas teclas deve-se simplesmente à Deusa Sorte.

A Lei Seca que está vigorando nas últimas semanas tem reduzido a quantidade de acidentes de trânsito e de vítimas. Em algumas capitais, como Niterói, essa redução chegou a mais de 40%. Qualquer um de nós, se indagado de surpresa, consegue lembrar dois ou três casos concretos de amigos ou conhecidos que foram vitimados por bêbados ao volante: atropelados na rua ou na calçada, ou esmagados em colisões absurdas. Porque no trânsito não basta você ser correto, eficiente e prudente para ter certeza de que está seguro. Quando menos espera, um bêbado estúpido corta um sinal a 150 km por hora e espatifa um carro com uma família dentro.

Ouço na TV a previsível lenga-lenga de que isto é uma interferência nas “liberdades individuais”, é “a volta da ditadura” e outras idiotices. Meu amigo, se for assim, o simples fato de existirem regras de trânsito, sinais semafóricos e faixas para pedestres também é uma interferência gigantesca nas liberdades individuais. A Liberdade é, teoricamente, um ponto ótimo de equilíbrio entre Ordem e Caos. Os que protestam contra a Lei Seca não querem a Liberdade. São como garotos mimados que não deixam ninguém ver TV em paz, que jogam no chão o prato do almoço, que se recusam a tomar banho ou a estudar. Isso não é liberdade, é falta de um corretivo.

O brasileiro já demonstrou fartamente que os corretivos mais eficazes em nosso país são os do bolso. Temos mais medo de perder dinheiro do que de ir para a cadeia. Se as multas forem aplicadas pra valer, as mortes no trânsito cairão de forma espantosa. Claro que nem tudo é perfeito, e as piadas se multiplicam. Já se diz que hoje em dia só os guardas de trânsito estão “tomando uma cervejinha”, ou que os acidentes aumentaram porque os bebuns passaram o volante do carro para as mulheres.

O brasileiro tem bom humor, e nunca esse bom humor (e criatividade) foi tão necessário como agora. Bares se oferecem para deixar os clientes em casa; amigos alugam vans para trazê-los do boteco; pessoas que não bebem são dispensadas de colaborar na conta desde que deixem os amigos em casa; casais se revezam no copo e no volante... Soluções não faltam. Educação não é ditadura. Nunca se bebeu tanto neste país, e nunca se matou tanta gente no trânsito. Não custa nada bebermos todos um pouco menos e vivermos todos um pouco mais, inclusive para continuar bebendo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

1605) Entre o chicote e o chiclete (4.5.2008)



(monumento a Isaac Newton na British Library)

Dizem que Sir Isaac Newton, depois de perder cerca de 20 mil libras em especulações financeiras, desabafou: “Eu consigo prever os movimentos dos astros, mas não a estupidez dos homens”. O que é uma ótima notícia para todos nós. Enquanto existirem seres humanos imprevisíveis, capazes de atitudes inesperadas, nenhuma ditadura poderá se manter eternamente. Nem as ditaduras do chicote, nem as ditaduras do chiclete. Nem aquelas que se baseiam na violência, no terror e na intimidação, nem aquelas que se baseiam no pão e circo, na alienação, no controle das massas através do entretenimento e do consumo.

Não são apenas as ditaduras que tentam prever o comportamento humano. As utopias também. Utopias são uma espécie de ditaduras benignas, ditaduras do Bem. São aqueles governos que projetam, com boas intenções, a sociedade ideal, onde todos tenham direito a tudo, sem nenhum tipo de injustiça, bibibi, bobobó. O problema é que para obter isso as utopias fazem uma “limpa” total na sociedade. Não admitem a bagunça, a rebeldia, a contradição. Dizem que na “República” de Platão os poetas seriam expulsos. Por quê? Ora, porque são imprevisíveis.

No tempo de Platão não existiam muitos instrumentos para avaliar as opiniões das massas, mas mesmo assim os gregos inventaram lá o seu formato de democracia, com eleições e tudo. Hoje, com as infinitas possibilidades do controle eletrônico, das pesquisas de opinião, dos mecanismos interativos de comunicação de massas, da lavagem cerebral proporcionada pelo rádio, TV, etc., é claro que todo tecnocrata com sonhos mais audaciosos pensa consigo mesmo: “Chegou a hora! Agora vai ser possível não apenas saber o que 180 milhões de pessoas querem de fato, como também fazer com que todas elas queiram justamente o que nos convém”.

Nem o próprio Isaac Newton resistiria a um desafio como este. Porque existem dois tipos de cientista: os Grandes Individualistas e os Técnicos Competentes. Os primeiros têm por sua própria natureza um certo desprezo para com as massas, que aos seus olhos não passam de um admirável gado novo. Os segundos talvez nem sintam esse desprezo, mas vêem nas multidões o laboratório ideal para experimentos quantificadores em larga escala, que é o que lhes interessa. Quando um governo ambicioso consegue formar um quadro tecnocrático onde os dois tipos estejam bem representados, já está no meio do caminho para articular sua máquina privada de pesquisa e manipulação.

E o que nos salva é aquele herói que o cinema norte-americano, paradoxalmente, sempre endeusou. O indivíduo indomável, o individualista por conta própria, que não se acha superior a ninguém, quer apenas que o deixem em paz, dono do seu nariz, com as mãos ocupadas no que lhe apraz e com as pernas livres para ir onde quiser. Este é o indivíduo que comete as estupidezes lamentadas por Newton, mas que em última análise é o último homem livre, seja ele ovelha negra ou lobo solitário.

domingo, 21 de junho de 2009

1108) Os paradoxos do jornalismo (3.10.2006)




(livro de F. Fraser Bond)

Stanislaw Lem observou que no conto “A Loteria de Babilônia” de Jorge Luís Borges, tudo obedece simultaneamente ao Acaso e ao Determinismo. Um universo tão contraditório quanto o das gravuras de M. C. Escher, onde há elementos espaciais e visuais que se excluem mutuamente. Se um deles existir, o outro é impossível. 

Algo dessa relação existe na maneira como tratamos a imprensa e o jornalismo. Porque todo mundo que fala ou escreve sobre este assunto recorre o tempo todo a dois conceitos que para mim não podem coexistir no mesmo Universo. São os conceitos de “liberdade de imprensa” e de “jornalismo imparcial”.

O conceito de liberdade de imprensa sofreu uma distorção benigna, mas ainda assim uma distorção, durante os longos 20 anos da ditadura militar. A imprensa queria denunciar tudo que havia no Brasil daquela época: as prisões, as torturas, as arbitrariedades, a corrupção, as pequenas máfias que foram se formando à sombra dos abusos de poder. Pedia-se liberdade de imprensa o tempo inteiro, e esta expressão ficou sendo encarada como um Absoluto, um dogma inatacável. 

Liberdade tinha que ser ampla, geral e irrestrita. Quem sugerisse qualquer limitação à liberdade de imprensa (ou a qualquer outra) era chamado de nazista ou coisa pior.

Ao mesmo tempo, as faculdades de jornalismo procuram advertir os estudantes de que o jornalismo deve ser imparcial, não deve tomar partido, tem que ficar eqüidistante, “parecendo a imagem da Justiça”. O jornalista não deve se envolver ideologicamente ou emocionalmente com os fatos reportados. 

Ora, esta é uma situação ideal, própria dos manuais e dos decálogos de mandamentos, mas difícil de alcançar na vida prática. Todo mundo se envolve, mais cedo ou mais tarde. Não se envolve em tudo, claro. Mas acaba se envolvendo em algo, ainda que movido pela “indignação cívica” ou outro conjunto equivalente de boas intenções. Envolve-se, e torna-se parcial, quando defende o que acha Certo contra o que acha que é Errado.

Liberdade e imparcialidade são dois extremos de uma escala. Quando pedimos liberdade de imprensa, não é para publicar receitas de bolo, é para publicar coisas que vão incomodar alguém. Liberdade para dizer coisas que gente importante preferia que não fossem ditas. Liberdade para botar a boca no trombone, dizer que o rei está nu, e que existe algo de podre no reino da Dinamarca. 

Liberdade, num mundo cheio de conflitos de interesses, cedo ou tarde vai incomodar alguém, cedo ou tarde vai tomar partido, vai dizer ao público: “Está acontecendo tal e tal coisa, e isto está errado”. Ou seja, quando pedimos liberdade de imprensa, estamos pedindo justamente que a imprensa tenha o direito de não ser imparcial, de tomar partido, de ficar do lado de A ou de B quando A e B estão travando algum tipo de combate. 

Um jornalista (ou um juiz, etc.) não pode ser totalmente imparcial e ao mesmo tempo defender o Certo contra o Errado, conceitos escorregadios como o mercúrio.






sexta-feira, 27 de março de 2009

0922) A liberdade de expressão (1.3.2006)


(Cox & Forkum)

Salman Rushdie, autor dos Versículos Satânicos, sabia do que estava falando quando afirmou: “Sem a liberdade de ofender alguém, não existe liberdade de expressão”. Ele se referia, gato-escaldadamente, à perseguição que sofreu durante anos por parte de muçulmanos radicais, por ter feito um personagem de seu livro dizer e pensar coisas desrespeitosas sobre o Profeta Maomé. O assunto volta aos jornais hoje devido aos protestos dos muçulmanos contra as charges publicadas em jornais da Dinamarca, onde Maomé é tratado com zombaria.

Não sei se o caro leitor já se deparou com um paradoxo científico que volta e meia aparece nas revistas. Coloca-se a seguinte questão: “Se criarmos um líquido que seja o Solvente Perfeito, ou seja, capaz de dissolver qualquer substância, e o colocarmos num Recipiente Invulnerável, que não pode ser afetado nem pelo ácido mais forte... o que acontece?” O problema não admite resposta, porque tem uma contradição interna. Estamos postulando a existência de duas coisas (Solvente Perfeito, Recipiente Invulnerável) que, por definição, se excluem mutuamente. No Universo em que exista uma delas, a outra, obviamente, não pode existir.

Algo de parecido se dá com dois valores abstratos de nossa sociedade: a Liberdade de Expressão e o Respeito Mútuo. O aumento excessivo de um deles será sempre uma ameaça de diminuição do outro (toquei no assunto em “Liberdade versus Segurança”, 17.12.2005). Onde exista total liberdade de expressão, não pode existir respeito; e onde o Respeito seja absoluto, a liberdade de expressão cai a zero. A convivência democrática exige jogo-de-cintura para alcançar um ponto intermediário, onde ambos os índices sejam satisfatórios.

Sou jornalista mas nunca me iludi com essa conversa de “a liberdade de expressão é intocável”. Bobagem. Por um lado, o que escrevemos ou falamos depende da aprovação de quem nos emprega e nos paga, e trabalhar dentro destes limites não é vergonhoso para ninguém. Por outro lado, nossa liberdade de expressão, até como simples cidadãos, é limitada pelo nosso bom-senso, nossa educação, nossa civilidade. Creio que nenhum de nós diz tudo que pensa em qualquer circunstância. Freqüentemente somos obrigados a engolir sapos porque custa menos engolir um sapo do que provocar uma briga generalizada num restaurante. Ninguém é totalmente livre para dizer o que pensa.

O caso dos cartunistas dinamarqueses me parece um caso típico de provocação deliberada. Vi na TV que o jornal onde saíram os cartuns é ligado a um partido político que combate a emigração estrangeira para a Dinamarca. O crescimento da direita xenófoba na Europa (vide fatos recentes na Holanda, França, etc.) favorece esse tipo de provocação, que não tem a menor semelhança com o episódio de Salman Rushdie, a não ser pelo objeto da ofensa (Maomé). Os cartuns dinamarqueses são instrumento do preconceito étnico, não da liberdade de imprensa.

domingo, 1 de março de 2009

0859) Liberdade versus segurança (17.12.2005)




Se você perguntar a uma pessoa se ela prefere a liberdade ou a prisão, ela vai dizer que prefere a liberdade. Se você lhe perguntar se ela prefere a segurança ou a insegurança, ela vai preferir a segurança. 

É muito fácil fazer escolha quando uma alternativa é claramente boa e a outra claramente ruim. As escolhas cruciais entre duas alternativas se dão quando temos que optar pelo lado positivo de A ou o de B, ou pelo lado negativo de A ou o de B. O que você preferiria experimentar? A liberdade ou a segurança? A prisão ou a insegurança?

Quanto mais liberdade temos, menor é a nossa segurança, e vice-versa. Quando eu tinha vinte anos, um amigo meu, da mesma idade, me confessou que nunca dormira fora de casa. Desde que nascera tinha vivido com os pais, e nunca, jamais, em tempo algum, fizera uma viagem ou passara uma noite na casa de um parente. 

Alguns anos depois, hospedei em meu apartamento um andarilho meio hippie, o qual me disse que há mais de cinco anos só dormia em casas alheias ou na rua, e que nunca se demorava mais que uma semana em cada cidade; dormiu três noites lá em casa e sumiu. A esta altura, deve estar quase esgotando a lista de cidades disponíveis. 

Estes dois caras sempre foram para mim símbolos de opções de vida opostas, que secretamente suspiram de inveja uma da outra.

Liberdade e segurança são duas coisas opostas, mas complementares. São os pontos extremos numa escala que, digamos, vai de 1 (máximo de segurança) a 100 (máximo de liberdade), e ao longo dessa escala tem um ponteiro que ficamos o tempo todo movendo numa direção ou na outra. 

Trabalhamos onze meses numa repartição, assinando ponto e pegando o contracheque; estamos empurrando o nosso ponteiro rumo a um máximo de segurança e só um tiquinho de liberdade. Chega dezembro, tiramos um mês de férias, botamos uma mochila nas costas e vamos escalar vulcões nevados no Chile: lá se vai o nosso ponteiro na direção oposta.

Isto se aplica também à sociedade. 

Queremos um país mais livre, onde cada um pode fazer o que lhe dá na telha, ou um país mais seguro, onde as autoridades vigiam cada pessoa bem direitinho, pra não fazer bobagem? 

Queremos criar nossos filhos soltos na rua, aprendendo a se virar por conta própria, ou queremos mantê-los a salvo de perigos e seguindo cada instrução nossa? 

Queremos liberdade de imprensa onde todo mundo pode fazer propaganda de suas próprias idéias (inclusive nazistas, satanistas, pornógrafos, etc.), ou queremos uma imprensa politicamente correta onde ninguém tem o direito de ofender as idéias alheias?

Tudo que ganhamos numa direção perdemos na outra. Nunca poderemos ter 100% de liberdade e 100% de segurança, porque a cada ponto que avançamos na direção de uma estamos nos afastando da outra. O que precisamos é, em cada situação, saber mover o ponteiro para um ponto ideal onde podemos conciliar o máximo de cada uma. É difícil, mas se fosse fácil não tinha graça.






sábado, 10 de janeiro de 2009

0735) Quem manda na linguagem? (27.7.2005)



Como todos sabem, o Governo Federal, através de uma de suas proliferantes secretarias, expeliu tempos atrás uma cartilha com expressões a serem evitadas, por serem consideradas ofensivas. O escritor João Ubaldo publicou contra essa tal cartilha um texto que teve bastante repercussão, e não repetirei aqui os argumentos dele, que são mais ou menos os que eu teria a oferecer. O episódio, no entanto, mostra o curioso dilema que vivemos. O que é mais importante numa democracia: a liberdade de expressão ou a guerra ao preconceito? São ideais nobres, mas contraditórios, e para defender um a gente tem que passar por cima do outro.

Li certa vez que nos EUA foi feita uma pesquisa de opinião. A certa altura, perguntava-se: “Todos os homens são iguais?”, e 90% das pessoas responderam que sim. Depois de algumas páginas, vinha outra pergunta: “Os negros são iguais aos brancos?”, e aí 92% responderam que não. O mais engraçado é que eu provavelmente teria caído na pegadinha. Ao ver a primeira pergunta, eu pensaria se todas as pessoas (“homens” aí englobando toda a espécie humana) são iguais diante de Deus (o que me parece óbvio) e da lei (o que pelo menos está na Constituição). No segundo caso, contudo, foi sugerida uma imagem visual, e basta visualizá-la para considerar que, nos termos propostos (uma pessoa com a pele preta é igual a uma pessoa com a pele branca?), o primeiro impulso é responder que não. É como se dissessem: os gordos são iguais aos magros?

Depois da ditadura militar, criou-se o mito de Liberdade, que já questionei muito aqui nesta coluna (p. ex., “O fantasma da liberdade”, 27-4-2004, “Liberdade demais atrapalha”, 28-4-2004, etc.). Fala-se que a liberdade é um valor absoluto, inquestionável – o que me parece um absurdo. A população que consegue ler jornal e revista, esta classe média que se julga a herdeira do mundo, encrespa quando se depara com o menor obstáculo: “Mas isso é um absurdo! Estão querendo restringir a nossa liberdade!” Quando você vive num “Capitalismo Selvagem sob Ditadura Militar”, os valores mais apregoados são a Segurança e o Patriotismo. Quando a coisa começa a feder, os militares saem de fininho (dizendo aos políticos civis: “Agora é a vez de vocês, e quando estragar, se virem”), e passamos para o “Capitalismo Selvagem Regulamentado por Lei”. E a palavra de ordem é Liberdade e Cosmopolitismo. Ou seja: todo mundo (empresas, principalmente) é livre para fazer o que quiser, é só ter na mão deputados e senadores suficientes para aprovar uma Lei autorizando.

A liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressão daqueles que têm poder bastante para se impor pelas armas ou pelas leis. Liberdade “tout court” não existe. Liberdade de imprensa está sempre a serviço dos interesses de um grupo, mesmo que seja o mais puro e bem-intencionado dos grupos. Liberdade e Ordem são dois extremos: a vida está no equilíbrio entre os dois.

terça-feira, 1 de abril de 2008

0345) Liberdade demais atrapalha (28.4.2004)





Falei ontem sobre o conceito que batizei de “O fantasma da liberdade”, pedindo emprestado o título do filme de Luís Buñuel. O século 20 foi chamado “o século das vanguardas”. Criou-se uma ideologia de romper com as tradições, libertar-se das fórmulas, fazer o que desse na veneta dos artistas. “Vanguarda” e “experimentalismo” foram as expressões mais usadas para descrever essa atitude de procurar novas formas de expressão. O problema é que, quando prestamos atenção em muita coisa que se apresenta como Vanguarda ou Experimentalismo, percebemos que o que acontece ali não é propriamente a busca de novas formas, e sim a mera rejeição das formas antigas. O artista faz um esforço tão grande para ser livre que acaba ficando livre até de si mesmo.

Esse quebra-quebra de fórmulas antigas acabou redundando numa fórmula nova: “tudo é Arte”. O leitor certamente já terá ouvido alguma variante desta fórmula. “Quê que tem? Tudo é poesia”, diz o poeta que amontoa palavras sem sentido. “Tudo é cinema”, afirma o cineasta que liga a câmara, vai para casa dormir, e volta no dia seguinte para ver o que a câmara filmou. “Tudo é música”, diz o pretendente a músico cuja única habilidade sonora consiste em bater-numa-lata-véia. Artistas assim são os maiores defensores da liberdade artística total, porque no momento em que se criar um mínimo filtro de qualidade, uma mínima peneira para distinguir o que presta e o que não presta, a primeira coisa que vai para o espaço são as obras deles.

Não sou contra o experimentalismo. Aliás, gosto mais de maluco do que de quem é certinho demais. Bater numa lata véia não é problema, desde que a lata véia seja uma maluquice criativa, funcione dentro de uma maluquice maior. Quando o sujeito é músico de fato (pense Hermeto Paschoal, pense Jaguaribe Carne, pense Tom Zé) ele pode bater em lata véia, soltar porco e galinha no estúdio, ligar rádio de pilha durante o show. A doidice vem num contexto de criação, de trabalho. O que me desanima é ver gente que, em nome de uma suposta liberdade total, abre mão daquilo que os gregos chamam “poiesis”, e que podemos chamar de técnica, destreza, artesanato, feitura, “craft”, habilidade, perícia.

Os artistas que querem “romper com todas as regras”, “abolir as fórmulas”, etc. são movidos pelo impulso (tão bonito, tão elogiável) de querer criar alguma coisa que os exprima, que seja um reflexo de sua relação direta com o material que estão usando. Tentam afastar-se das regras porque temem que, ficando presos a elas, seu trabalho não passe de um papel carbono ou uma simples derivação do que já foi feito dezenas de vezes por gente mais experimentada e mais competente. Mas uma obra de arte é justamente o resultado de uma tensão entre uma força que quer ir em todas as direções e um conjunto de regras que a comprimem, a concentram, a direcionam, e lhe dizem para onde ela deve ir. Sem essa força e sem essas regras, não existe Arte.


0344) O fantasma da liberdade (27.4.2004)




(David Alfaro Siqueiros, Nuestra imagen actual, 1947)


Peço emprestado o título de um filme de Luís Buñuel para batizar, neste minúsculo artigo, um dos conceitos mais perigosos da arte do século 20. 

O Fantasma da Liberdade é a falsa idéia de que quanto mais liberdade temos, melhor. Como diria Augusto dos Anjos: “Ilusão trêda!”. 

O mundo ocidental experimentou tantos séculos de despotismo, imperialismo, tirania, fascismo, nazismo, ditaduras e todas as suas variantes, que a Liberdade acabou parecendo, num contexto de regimes autoritários e sanguinolentos, um valor absoluto. Hoje em dia você pode falar mal até de Jesus Cristo, que passa. Mas se chegar num jornal e disser que a Liberdade não é um valor absoluto, como eu estou dizendo agora, corre o risco de ser crucificado. 

Pois tragam os centuriões! Estou pronto a me sacrificar pela Verdade. Mas primeiro deixem-me apresentar as provas da defesa.

Prova A: o Verso Livre. Um belo dia, algum Einstein da literatura teve a idéia de dizer: “Vamos abolir essa besteira de métrica e rima, essas coisas que é preciso estudar! Viva o verso livre, e viva o verso branco!” Entendo a intenção de quem fêz isto, e concordo que foi um avanço. Mas serviu de pretexto para que milhares de incompetentes achassem que fazer poesia era escrever qualquer coisa.

Prova B: a Pintura Abstrata. Durante séculos, só era pintor quem soubesse pintar figuras: gente, cavalos, árvores ou navios. Aí um belo dia, alguém disse: “Pintura não é pra mostrar nada. Bastam as cores, as tintas, as formas.” Esta revolução nos deu Kandinsky e Jackson Pollock, mas nos deu também uma legião de borra-botas que acham que basta lambuzar uma tela com qualquer coisa, em nome de liberdade.

Prova C: o Rock de Garagem. Surgiu nos anos 80 como uma resposta da garotada à complexidade barroca e aos excessos de pretensão sinfônica do rock progressivo. Do punk rock em diante, os garotos começaram a dizer: “Para fazer rock não é preciso cantar bem, não é preciso tocar bem. Rock é atitude.” Em poucos anos este lema tinha degenerado em: “Para fazer rock não é preciso cantar, não é preciso tocar, rock é qualquer coisa.” O corolário disso todo mundo sabe: meia dúzia de garotos pulando, soltando uivos inarticulados, espancando instrumentos amplificados ao máximo, e dizendo que estão exercendo sua “liberdade criativa”.

Prova D: o Cinema Experimental (e seu clone, a Video-Arte). Para combater o comercialismo de Hollywood e o intelectualismo do cinema-de-autor, inventou-se um cinema sem interpretação, sem roteiro, sem fotografia, sem produção, sem direção. O seu lema parece ser : “A idéia na câmara, e as mãos na cabeça”, ou seja, aponta-se a câmara em qualquer direção, registra-e qualquer coisa, e o resultado é “arte”. Por que? Porque, para muita gente hoje em dia, “tudo é arte”.

Eu poderia juntar outros exemplos: a Escrita Automática, a Música Aleatória, as Instalações Conceituais, etc. Mas o espaço acabou, e continuo amanhã.