Veja-se como exemplo, até banal, as numerosas traduções em
prosa da Ilíada, da Odisséia, de outros clássicos. Esses
tradutores estão privilegiando a narrativa, e abrindo mão do aspecto formal
mais característico dessa poética: o verso, o hexâmetro.
Para manter o verso, a maioria dos tradutores corta e
recorta a narrativa a cada passo. Outro tradutor pode se sentir no direito de desconstruir
o verso e dar relevo à narrativa.
Um caso semelhante é o de muitas traduções do poema The Raven de Edgar Allan Poe. Um dos
elementos essenciais do “DNA” deste poema é a disposição de suas estrofes, e a
posição das rimas, inclusive de rimas internas. É um artesanato cuja
originalidade e efeito são orgulhosamente reivindicados por Poe em seu famoso
ensaio “A Psicologia da Composição”.
Ora, muitos tradutores abrem mãos disto e traduzem “O
Corvo" com concepções estróficas
e métricas completamente distintas. Emílio de Menezes e Benedicto Lopes optam
por traduzi-lo em uma sequência de sonetos em decassílabos. Poe, que tinha
pavor de ser enterrado vivo, terá se revirado no túmulo?
Um levantamento cuidadoso dessas versões foi feito por
Cláudio Weber Abramo no livro O Corvo –
gênese, referências e traduções do poema de Edgar Allan Poe (São Paulo: Ed.
Hedra, 2011), onde ele dá numerosos exemplos de como os tradutores não hesitam
em recorrer a infidelidades semânticas para poderem manter a fidelidade da
métrica, da melopéia.
É uma encruzilhada tradutória onde, como os cantores de blues, o tradutor acaba vendendo a alma
ao diabo para poder mostrar seu poema em paz. São dois diabos, na verdade, cada
um chamando-o, com promessas tentadoras, para um eixo verbal diferente.
Abramo faz muitos
reparos às traduções de “O Corvo” por Machado de Assis e por Fernando Pessoa, dois figurões
merecidamente ilustres, e eu concordo com os seus reparos. Ele observa (no capítulo
“Uma infelicidade machadiana”) que Machado não traduziu o original inglês, e
sim a versão francesa de Baudelaire, o que se depreende “... da ocorrência dos mesmos erros, das mesmas adições, das mesmas
omissões e das mesmas palavras nos mesmíssimos lugares das traduções de um e de
outro”. Ele acrescenta que Machado “altera
o desenho rítmico e melódico do poema original, quebrando os versos em dois,
reduzindo em uma unidade os blocos rítmicos principais de cada estrofe (são
onze em Poe, dez nele).”
A tradução de Fernando Pessoa (diz Abramo) tentou
replicar a musicalidade do original, mas baseando-se numa contradição (pág.
106): “o emprego de palavras curtas e idéias sintéticas – tudo
o que o inglês tem por excelência e o português, também muito
caracteristicamente, não tem”. Eu diria, aliás, que esse é o limite mais
crucial para quem traduz poesia de um idioma tão monossilábico e percussivo
quanto o inglês para um idioma tão polissilábico e ondulatório quanto o nosso.
Voltamos, no entanto, à mesma crossroads anterior: deve-se ser fiel ao som, ou ser fiel ao
sentido?
Surge uma voz e um voto de peso nesta discussão: o de
Vladimir Nabokov, mais que um tradutor: um escritor bilingue. O autor de Fogo Pálido se insurgiu com as traduções
anglófonas do clássico poema de Púchkin, o Eugene
Oniégin (1837), poema totalmente construído com sonetos, estrofes (que
ficaram conhecidas como “the Onegin stanzas”) cujas rimas seguem este padrão:
ABAB-CCDD-EFFEGG.
Em seu indispensável Le Ton Beau de Marot (Basic Books, 1997), Douglas Hofstadter dedica dois longos e exaltados capítulos (o 8 e o 9) à discussão do que podemos chamar aqui “a Heresia Nabokoviana”. Porque Nabokov teve a pachorra de escrever uma espécie de panfleto descendo a chibata nas traduções em inglês do poema: James Falen, Walter Arndt, Sir Charles Johnson, Oliver Elton, etc.; e propõe uma tradução rigorosamente semântica (diz ele) do poema. Em prosa.
A discussão é comprida e fascinante. Hofstadter, mesmo
tratando Nabokov com o máximo respeito, horroriza-se com a idéia de que rima e
métrica podem ir para o espaço sem prejuízo visível. (O livro de Hofstadter,
aliás, tem como subtítulo: “In Praise of the Music of Language”). Mas ele transcreve
os argumentos de Nabokov, que diz:
Em seu indispensável Le Ton Beau de Marot (Basic Books, 1997), Douglas Hofstadter dedica dois longos e exaltados capítulos (o 8 e o 9) à discussão do que podemos chamar aqui “a Heresia Nabokoviana”. Porque Nabokov teve a pachorra de escrever uma espécie de panfleto descendo a chibata nas traduções em inglês do poema: James Falen, Walter Arndt, Sir Charles Johnson, Oliver Elton, etc.; e propõe uma tradução rigorosamente semântica (diz ele) do poema. Em prosa.
Pode um poema como Eugene Onegin ser traduzido eficazmente com a manutenção das rimas? A resposta, naturalmente, é que não. Reproduzir as rimas e traduzir o poema inteiro, literalmente, é matematicamente impossível. (...) É no momento em que o tradutor se dispõe a reproduzir o “espírito”, e não o mero sentido do texto, que ele começa a traduzir o autor. Ao transportar o poema de Pushkin para o meu inglês, eu sacrifiquei, em benefício da completude do significado, todos os elementos formais, inclusive o ritmo iâmbico onde quer que mantê-lo implicasse em prejudicar a fidelidade. Em favor desta minha idéia de literalismo, sacrifiquei tudo: elegância, eufonia, clareza, bom gosto, usos modernos, e mesmo a gramática – tudo que esses mimetizadores afetados prezam mais do que a verdade.(pág. 258-259, trad. BT)



