Mostrando postagens com marcador turismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador turismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de outubro de 2013

3316) O turista idiota (13.10.2013)



Um dos tipos mais perniciosos de turista é o turista idiota, o turista que tem alguma grana mas é burro, desinformado, tem mentalidade tacanha. 

O saite Blogdramedy (uma contração de “blog + drama + comedy”?) transcreve uma porção de reclamações feitas por turistas que compraram pacotes da Thomas Cook Vacations (da Inglaterra) para viajar por diferentes lugares do mundo mas sentiram-se enganados ou prejudicados de alguma forma. A gente não sabe se gargalha pelo ridículo alheio ou se chora com pena da humanidade.

“É muita preguiça dos lojistas de Puerto Vallarta fecharem à tarde. Precisei às vezes comprar coisas durante a hora de ‘siesta’, que devia ser proibida”. Bem, o imperialismo nasceu dessa necessidade de invadir os outros países para forçar aquelas pessoas a se comportar de acordo com os costumes da Inglaterra, e não com os deles. 

Outra madame reclama: “No meu passeio em Goa, na Índia, desagradou-me ver que quase todos os restaurantes serviam curry. Não gosto de comida apimentada”. Pois é, não custava nada ter permanecido em Manchester tomando chá com biscoitos. 

Outro cliente é mais radical e protesta: “Fomos passar as férias na Espanha e tivemos problemas com os taxistas, que eram todos espanhóis”. Outro, mais radical ainda: “Havia muitos espanhóis por lá. Os recepcionistas falavam espanhol, a comida era espanhola. Ninguém nos avisou que haveria tantos estrangeiros”.

“A praia era muito cheia de areia e tínhamos que limpar tudo ao voltar para o hotel”, queixa-se um que nunca viu praia na vida. Outro protesta: “A areia não era como a que aparece nas fotos do panfleto. A das fotos é branca mas a de lá era mais amarelada.” Difícil atender um consumidor tão exigente. 

Outra madame observa: “Não deviam permitir às moças fazer topless na praia. Isso ficava distraindo meu marido, quando tudo que ele queria era relaxar”. Valei-me, Santa Inocência. “Fui mordido por um mosquito,” queixa-se outro, “e o panfleto não avisou que haveria mosquitos”.

Não devo ser muito severo com essas pessoas, porque eu não seria severo com os matutos de Cabrobó se reclamassem do que os incomodou num hotel 5 estrelas de Paris. Gente ignorante e bronca existe em todo canto. E nas nações e regiões mais ricas existem pessoas broncas e ignorantes que conseguiram a duras penas (são burras) amealhar uns cobres para fazer turismo por um mundo que não conhecem, que nunca tiveram tempo de estudar, um mundo que as incomoda por ser diferente do seu, e que, no raciocínio defensivo delas, precisa ser modificado para se adaptar aos seus gostos, porque afinal “elas estão pagando caro pela viagem de férias”.




sexta-feira, 11 de novembro de 2011

2711) As 7 maravilhas (11.11.2011)



(Ayers Rock)

Encerra-se hoje uma eleição, promovida pela Fundação New7Wonders (de promoção do turismo), para indicar as 7 Maravilhas da Natureza, por todo o mundo. Milhões de internautas estarão votando em 28 lugares candidatos a essa honra. Para chegar a eles, foram feitas 440 inscrições de 220 países, que depois foram filtrados até chegar a 77, entre os quais finalmente foram selecionados os 28. Como meu conhecimento geográfico é muito escasso, não conheço nem sequer de fotografia a maior parte dos candidatos. Mas votaria com prazer em sete lugares que, para mim, têm algo de especial.

Os dois primeiros são, é claro, os dois candidatos brasileiros: as Cataratas do Iguaçu e a Floresta Amazônica. Nunca fui ao Iguaçu, mas já sobrevoei um longo trecho da floresta amazônica no Pará, num daqueles Fokker para 6 pessoas. Aquela floresta é um acesso de megalomania da Natureza. Faz a gente se sentir, ao mesmo tempo, minúsculo em comparação com aquilo, e imenso por participar daquilo.

Eu votaria no Mar Morto, que é um dos lugares mais extraterrestres da Terra, um lago de sal, uma água onde não se afunda, abaixo do nível do mar. Parece inventado por um escritor de FC com depressão. Votaria no Grande Canyon, que ainda tenho esperança de conhecer um dia, e que deve ter proporcionado aos que o descobriram uma verdadeira “experiência numinosa” como dizia Jung.

Outro lugar que para mim merece ser eleito é o Vesúvio, talvez o vulcão mais famoso do mundo, herói de filmes e romances. Causou algumas das hecatombes mais notórias e foi responsável pela preservação intacta da cidade de Pompéia, cuja visão nos faz regredir no tempo e captar vidas humanas eternizadas em cinza. Votaria no Monte Kilimanjaro na África, que é famoso por ter virado personagem de livro de Hemingway. Com o aquecimento global as suas famosas neves estão derretendo; comparar as fotos de vinte anos atrás com as de hoje nos faz perceber o quando o mundo parece perto de acabar.

E finalmente eu votaria num dos monumentos naturais mais misteriosos do mundo: Uluru, ou Ayers Rock, aquela gigantesca plataforma rochosa no meio do deserto australiano, adorada pelos aborígenes como a morada dos deuses. Parece o lombo de um lagarto de pedra semi-soterrado, com 350 metros de comprimento, 8 quilômetros de circunferência.

Seriam estes os meus sete candidatos; e o mais curioso é perceber como conhecemos pouco o planeta. Se eu conhecesse todos, talvez escolhesse sete lugares completamente diferentes. O que é uma boa coisa. Pensamos tanto nas maravilhas que encontraremos em outros planetas, e o planeta mais estranho e mais belo é justamente este onde já estamos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

2648) "Boletim da Guerra no Recife" (30.8.2011)



Mauro Mota, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano (2011), tem muitos belos poemas. 

Um dos mais conhecidos e mais atuais dele é o “Boletim Sentimental da Guerra no Recife”, um longo poema no estilo do Romanceiro (redondilha maior, rimas toantes). 

O poema descreve e comenta (com ironia ferina, com carinho paternal, com melancolia) o destino das meninas recifenses que durante a II Guerra Mundial namoraram soldados norte-americanos aquartelados no Recife. 

Deixaram-se seduzir por promessas de ir morar na América do Norte, engravidaram, e no fim da Guerra ficaram a ver navios; e aviões. 

Um poema de meio século atrás mas que parece profetizar o turismo sexual de hoje: 

Éreis tão boas pequenas. 
Éreis pequenas tão boas! 
De várias nuanças morenas, 
ó filhas de Pernambuco, 
da Paraíba e Alagoas. 
Tínheis de quinze a vinte anos, 
tipos de colegiais, 
diante dos americanos, 
dos garbosos oficiais, 
do segundo time vasto 
dos fuzileiros navais 
prontos a entregar a vida 
para conseguir a paz, 
varrer da face do mundo 
regimes ditatoriais 
e democratizar todas 
as terras continentais 
a começar pelo sexo 
das meninas nacionais.

Um poema que bem poderia ser impresso em panfletos de papel barato e distribuído nos fins de semana nas praias de Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió... Onde quer que exista a convivência-de-risco entre a solidão pobre e a solidão rica, entre homens que só têm o dinheiro para oferecer e mulheres que só têm o corpo para dar. 

E como dizer às meninas que isso é um sonho, se todas conhecem a história da amiga da prima de uma vizinha, que saiu com um gringo cinquentão, apaixonaram-se, casaram, e ele montou para ela uma casa na Europa, tornou-se um marido carinhoso e um pai exemplar para o seu bebê? 

Basta que uma única pessoa tenha ganho essa Mega-Sena matrimonial (e quem pode negar que isso já aconteceu uma ou outra vez?) para que todas se julguem merecedoras do mesmo, e comecem a sonhar. 

Mesmo que o preâmbulo do sonho envolva estar de shortinho e bustiê, sentada na perna de um gringo num boteco da praia, fazendo-lhe carinhos promissores enquanto ele contempla palmo-em-cima seus atributos e faz comentários em língua estrangeira com os outros que bebem na mesma mesa.

Quando o gringo vai embora... Diz o poeta: 

Ingênuas meninas grávidas, 
o que é que fostes fazer? 
Apertai bem os vestidos 
pra família não saber. 
Que os indiscretos vizinhos 
vos percam também de vista. 
Saístes do pediatra 
para o ginecologista. 

Quando um exército invade um país, a posse sexual da população feminina local é um símbolo e uma confirmação desse triunfo. Mesmo que seja a invasão pacífica de um exército aquartelado numa nação amiga. 

Mesmo que seja a invasão pacífica do turismo, financiado pelos governos, estimulado pela propaganda, sacramentado pelo princípio básico do Capitalismo: “Tudo tem um preço. Faça seu preço, e alguém poderá pagar”.







domingo, 3 de abril de 2011

2521) Fotos de viagem (3.4.2011)



Voltar de uma viagem por lugares agradáveis é também o momento de dar um balanço nas fotos de viagem. Antigamente (advérbio cada vez mais frequente nas minhas comparações) marcava-se uma noite em casa para que os amigos viessem. Servia-se vinho ou cerveja, apagava-se a luz e projetavam-se slides na parede, para os “oooh” e “rá rá rá” da platéia. Isso para os mais abastados, que tinham projetor de slides em casa. Os medianos imprimiam as fotos em papel mesmo, e os montinhos de fotos (ou os álbuns onde elas eram cuidadosamente montadas) eram passados de mão em mão. Hoje as opções são várias, mostrar na tela do notebook, na telinha do celular em momentos mais rápidos e informais, ou então plugar o notebook na TV da sala e exibir ali.

Tudo bem, mas para que? Eu nunca tive máquina fotográfica e sou até hoje um fotógrafo incompetente, fico prestando atenção no enquadramento e acabo clicando na hora em que todo mundo está com a boca torta e o olho arregalado. Mas é por falta de prática. Quase nunca levei máquina nas minhas viagens, e quando levei não foi para tirar fotos de mim mesmo, foi para clicar as coisas curiosas que via.

Mas uma vez alguém me jogou na cara um argumento irrespondível. “Como você pode provar que esteve em Paris, se não tem nenhuma foto sua diante de uma coisa que todo mundo sabe que fica em Paris?”, disse minha amiga. O argumento é antigo, do tempo em que ainda não tínhamos o PhotoShop para nos levar não só a Paris, como ao fundo do mar ou a Aldebarã; mas define a razão para que a gente compre uma câmara digital e a leve na mochila. Tiramos fotos para provar aos incrédulos que foi mesmo em Paris que passamos aquelas férias, e não escondidos no quarto dos fundos da casa do irmão da gente no Jardim Paulistano.

Mas tem outra, mais sutil do que esta. Quando vemos por fim as fotos da viagem já não precisamos mais sentir a insegurança, a precaução, o temor, o alerta que precisa ficar ligado o tempo inteiro quando estamos na viagem. Naqueles flashes tão sorridentes estávamos na verdade pensando: Será que vão bater minha carteira? Será que vou perder meu passaporte? Encontrarei um câmbio favorável quando for trocar dinheiro? Pagarei excesso de bagagem, somente porque estou trazendo 200 livros? Durante as fotos é este o subtexto psicológico de cada momento, em que a cabeça organizatória precisa tomar a frente a colocar em segundo plano a cabeça curtidora, a cabeça “carpe diem”.

Numa viagem, somos um “fama” cortazariano, computando e atualizando o tempo inteiro os gastos com o frigobar, imaginando roteiros que economizem táxi. Quando voltamos para casa e olhamos as fotos, essa insegurança se desmanchou no ar. Agora sim, somos um mero cronópio feliz da vida, revivendo um momento bom. Ou talvez vivendo-o pela primeira vez em sua plenitude, porque somente agora temos 100% de certeza de que o momento foi bom mesmo e nenhum pivete estrangeiro nos arrebatou a sacola da livraria.

domingo, 13 de junho de 2010

2142) “O Conforto dos Estranhos” (19.1.2010)



The Comfort of Strangers é um romance de Ian McEwan, escritor inglês cujo livro mais conhecido aqui no Brasil parece ser Desejo e Reparação (Atonement), que não li. Acabei lendo este, que é de 1990, porque assisti algum tempo atrás o filme feito por Paul Schrader, ambientado em Veneza e impregnado daquilo que Macalé chamava de “morbeza romântica”, a mistura perigosa de morbidez com beleza. O livro de McEwan é um romance de crime, uma dessas histórias em que uma situação ominosa vai se desenhando aos poucos, com a implacabilidade de uma tragédia grega ou de dois petroleiros em rota de colisão.

Colin e Mary são um jovem casal inglês fazendo turismo numa cidade histórica européia, que em momento algum é identificada (o autor não diz sequer em que país a história acontece). Vários detalhes (canais, barcos, uma praça principal) sugerem Veneza, e foi em Veneza que Paul Schrader ambientou o filme; mas um dos charmes do livro é o fato de que sua Veneza é implícita, sugerida nas entrelinhas. Em momento algum o autor fornece qualquer nome próprio (da cidade, dos pontos turísticos, das pessoas, das ruas); em nenhum momento ele diz que ali se fala italiano; mas mesmo quem não tenha visto o filme irá pressentindo a cada capítulo que tudo aquilo ocorre em Veneza.

Essa cidade onipresente, invisível, nunca nomeada mas inconfundível, é a imagem que melhor exprime o funcionamento desse romance em que “a coisa principal” nunca é dita às claras, embora seja desvelada o tempo todo. Porque Colin e Mary logo conhecem um casal mais velho, Robert e Caroline, e entre eles se estabelece uma relação mórbida de sedução e repulsa que resulta num final cruel, inexplicável e arrepiante. Sabemos, ao terminar a leitura, o que aconteceu, e temos uma idéia aproximada de como deve ter acontecido. Podemos até mesmo arriscar um “por quê”, uma explicação psiquiátrica para o que sucede. Depois de nove capítulos de preparação, o capítulo final não nos traz uma surpresa (é uma daquelas histórias que a gente lê pensando “isso não vai acabar bem”), mas um mistério.

O Conforto dos Estranhos pertence ao sub-gênero que chamo de “Pesadelo Turístico”: histórias de viajantes que vão para lugares distantes em busca e excitação e aventura, e encontram o horror. (Lembrei de Song of Kali de Dan Simmons, Don’t Look Now de Daphne du Maurier, O Caminho do Poço Verde de Rubem Figueiredo, o filme Kalifornia de Dominic Sena.) Mexe com profundidades inquietantes da mente humana, como certos livros de Ruth Rendell ou de Patricia Highsmith. Existe no casal mais velho a malignidade de quem vive em função de um vício torturantemente cultivado. E existe no casal mais jovem a atração pelo abismo, o “demônio da perversidade”. Julio Cortázar já observou que a Vitimologia é uma ciência tão legítima quanto a Criminologia, porque em muitos casos vê-se na relação entre criminoso e vítima uma “aura de fatalidade e consentimento”.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

1253) O prostiturismo (20.3.2007)


Millôr Fernandes situou a problemática do turismo numa frase, como sempre, brutalmente veraz: “Transformar sua cidade em atração turística é como colocar sua mãe na Zona”. Precisa dizer mais? Existem dualidades conflitantes nesse negócio de turismo. O turista alemão, louro e obeso, tem pela nossa cidade um interesse muito maior do que temos pela pessoa dele. Ele só nos interessa porque dispõe de dólares para espalhar à mão-cheia. Queremos os turistas em nossos shoppings, nossas lojas, nossos restaurantes. Se viessem aqui sem um tostão, apenas para andar na rua e fazer perguntas sobre nossa cidade, nossas vidas, nossos planos para o futuro, nossa opinião sobre a existência de Deus ou sobre o formato do Universo, nós os correríamos daqui a vassouradas. Não queremos o interesse espiritual deles. Queremos a grana, não é mesmo?

Aí, quando eles tentam estabelecer conosco uma relação prostitucional, ficamos ressentidos. Mas o modo como o turismo se organiza (“nós oferecemos as belezas naturais, vocês oferecem as riquezas artificiais”) conduz fatalmente a isto. Nem todos os turistas vêm pensando apenas em pegar nossas mulatinhas impúberes e conduzi-las ao motel mais próximo. Mas desde que se estabelece um interesse prioritário pelo dinheiro que deixarão aqui, qualquer um que tenha dinheiro se sente no direito de trocar esse dinheiro pelo que mais lhe interessa. Não importa se o que ele vem visitar são igrejas barrocas ou mulatas boazudas; o dinheiro que deixam aqui tem o mesmíssimo valor. Se não é isso que queremos, então vai ser preciso fazer muita força. Cuba foi o bordel dos EUA durante muitos anos; fizeram uma Revolução Socialista para acabar com isto (entre outras coisas) e hoje, meio século depois, Cuba voltou a ser bordel (pelo que me contam; nunca estive lá).

Existem outras formas de fazer turismo? Eu, pelo menos, sempre fiz turismo por outras razões. Existe o turismo da fantasia simbólica, que faz um brasileiro abestalhado sair daqui até Liverpool (como ainda pretendo sair um dia) só para tirar uma foto junto a uma placa onde está escrito “Penny Lane”, ou cruzar metade do mundo (como ainda farei) para ver em Hiroshima a abóbada que sobreviveu à explosão da bomba. Por que as pessoas fazem isto? Porque se sentem intimamente ligadas, por questões espirituais ou artísticas ou literárias ou religiosas ou políticas – ou seja, por questões culturais – a lugares distantes. Um amigo alemão quase me estrangula uma vez porque afirmei que mesmo morando no Rio não sabia onde ficava o Museu Carmen Miranda. Já recebi em Campina Grande jornalistas que queriam conhecer a casa onde morreu o cangaceiro Antonio Silvino (não existe mais; ficava na Praça Félix Araújo, no Monte Santo). Podem ser motivos meio bobos para se fazer turismo, mas são motivos verdadeiros. Quem visita Veneza, o Cairo, Praga, Ouro Preto, o Lago Ness, Waterloo, Cordisburgo, Graceland, não vai atrás das menininhas locais.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

0809) Mr. and Mrs. Jetlag (21.10.2005)



Mr. e Mrs. Jetlag desembarcam cheios de excitação no aeroporto de Singapura e, depois de passar pela alfândega, pegam um táxi para o Hotel Sheraton. Aconchegam-se ali durante sete dias, andando num táxi exclusivo fretado pela agência de turismo, fazendo refeições em restaurantes conveniados pelo pacote turístico, e adquirindo souvenirs nos shopping centers das proximidades. Dali eles pegam o avião para Nova Delhi, hospedam-se no Sheraton, comem nos restaurantes indicados no pacote, e fazem compras nos shoppings das proximidades. Em seguida voam para Báli, para Sidney, para Tóquio, para Hong-Kong. Sempre no Sheraton.

É mais ou menos assim que vive uma grande parcela da elite cosmopolita de hoje. São pessoas endinheiradas e de certa idade que querem conhecer o mundo, e dedicam-se então a conhecer todos os hotéis Sheraton do mundo (não importa a cadeia – pode ser Hilton, Hyatt, Ibis, qualquer coisa). Precisam desses hotéis como um peixe precisa da água de um aquário, ou melhor, como um mergulhador precisa de escafandro. São viajantes que precisam levar em volta de si uma carapaça protetora feita de elementos de seu universo, para que tenham o mínimo de contato possível com o universo estranho à sua volta.

Daí a existência dessa enorme indústria dos pacotes turísticos onde os viajantes vão em grupo. É um ônibus com 40 senhores e senhoras, mesma idade, mesma classe social, mesmo perfil cultural, todos viajando juntos através do Camboja ou do Peru. Só se relacionam entre si: fazem amizades e inimizades, jogam bridge e pôquer, compram souvenirs, batem fotografias. Às vezes matam-se uns aos outros, como naqueles romances de Agatha Christie onde em todo grupo de ingleses entediados há sempre um personagem baixo-astral que todo mundo na excursão teria motivos para assassinar.

“Globalização” significa, pelo ponto de vista destas pessoas, a criação de um sistema econômico onde o sujeito possa desfrutar em paz de sua aposentadoria, sabendo que o “capuccino” que ele toma no Méridien de Paris poderá ser reencontrado sem perda de qualidade no Méridien de Yokohama; que a geografia interna dos aeroportos obedecerá a um único padrão, para não desorientá-lo; que seu cartão de crédito será aceito de Aberdeen a Zurique. Se tudo correr bem, estes indivíduos sabem que poderão levar sua vida inteira num espaço topologicamente recursivo (êpa!): corredores, escritórios, apartamentos, limusines, agências bancárias e restaurantes – todos idênticos, cada um parecendo ser um prolongamento do anterior, só que distribuídos em volta de todo o globo terrestre.

Mr. e Mrs. Jetlag realizam, no mundo globalizado, a fantasia daquele conto de Julio Cortázar, onde um sujeito entra numa galeria de um prédio em Buenos Aires e na extremidade oposta sai numa rua em Paris, e vice-versa. O que eles querem é passear “longe daqui, aqui mesmo”; precisam que o mundo vá se formatando à imagem e semelhança de seu suburbiozinho físico e mental.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

0715) Adeus, gringos (3.7.2005)




Vou passando de táxi pela Rua do Catete e vejo ao longe um ajuntamento. Penso que foi acidente ou assalto, mas quando chego mais perto vejo o enorme ônibus de turismo parado em frente ao Museu da República. São os gringos, outra vez: trôpegos e felizes. 

Tudo que para nós é banal serve para eles de fonte de deslumbramento ou espanto: um guri vendendo cones de papel cheios de amendoim torrado, garotas de 10 anos dançando a boquinha-da-garrafa na calçada de um botequim, bandeirolas juninas penduradas entre os postes elétricos, um mendigo exibindo a perna crivada de pinos metálicos. 

Com os olhos muito abertos, e sempre cochichando uns com os outros, eles tentam perceber tudo, registrar tudo (o clique-clique inaudível das câmeras digitais), assimilar tudo que não pára de surgir à sua frente.

Como parecem desamparados: brancos como camarões sem casca, vestindo roupas sempre inadequadas, tentando passar despercebidos com artifícios como enormes bonés do Flamengo ou camisas da Seleção. 

Quase todos têm mais de 60 anos e parecem estar, depois de uma existência de trabalho duro, desfrutando de uma hora-do-recreio em que pela primeira vez se dão conta de que existe um mundo além do trajeto entre a casa e o escritório. Por mais que os corpos estejam vacilantes, com as juntas emperradas, percebe-se nos seus rostos uma alegria infantil de quem na velhice consegue uma trégua momentânea na luta pela vida, um lazer prazeroso que não colide nem com a ética protestante nem com o espírito do capitalismo.

Às vezes andam muito próximos, ou pegados uns aos outros, como cegos que temem se perder na multidão. Seus rostos têm de vez em quando aquela expressão em-branco de que não apenas não entende o que vê, mas também desconhece a necessidade de entender algo; são como Kaspar Hausers conduzidos pelo guia, que se responsabiliza por sua segurança entre a porta do ônibus e a porta do Museu. 

Parecem tão inofensivos que chega me dá uma vontade de ir tomar conta deles, zelar para que voltem sãos e salvos ao hotel e ao aeroporto, ajudar na pechincha com os camelôs, conferir suas contas nos restaurantes. Quando os vejo é que me dou conta de como nós brasileiros somos espertos, somos ladinos, somos raposas.

Eles vêm, maravilham-se, gastam horrores, e vão embora. Adeus, gringos! Voltem de novo. Não cobraremos de vocês os malefícios dos seus governos ou das suas megacorporações, mesmo sabendo que devem a elas a facilidade com que suas carteiras se abrem. 

Queremos manter o fluxo desses dólares que tanto ajudam a torrar nossos amendoins. Queremos também a chance de achar que somos parecidos uns com os outros, e que no futuro, quando a Viga Mestra do Sistema torar no meio e o circo vier abaixo, poderemos ser também generosos e dividir com vocês o chão do barraco, as sardinhas esquentadas na fogueira, e as histórias de fantasmas e espaçonaves que contaremos uns aos outros buscando aconchego, antes que a última noite desça sobre todos nós.