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quarta-feira, 17 de junho de 2026

5239) Nove fatos que ocorreram de verdade (17.6.2026)




1
Quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir vieram ao Brasil em 1960, passaram por várias cidades e foram recebidos por intelectuais de esquerda como Jorge Amado, Oscar Niemeyer e outros. Numa maratona de conferências e entrevistas, os dois foram de cidade em cidade e, já na trajetória de volta rumo à França, fizeram uma parada em Belém. Sartre mostrou aos paraenses a enorme mala que conduzia, cheia de livros brasileiros autografados por seus autores. “É pena, mas não vou poder levar tudo isto no avião,” explicou o francês. Os livros ficaram todos em Belém do Pará. 
 



2
No inverno de 1974, a escritora alemã Lotte Eisner, radicada na França, adoeceu gravemente. Eisner é a autora de algumas obras clássicas sobre história do cinema, tais como O Écran Demoníaco, sobre o cinema expressionista alemão das primeiras décadas do século 20. Quando Werner Herzog, então um jovem cineasta no começo da carreira, ficou sabendo que ela estava hospitalizada, partiu a pé da cidade de Munique na direção de Paris, na crença de que se fosse capaz de realizar a caminhada isso iria salvar a vida da mestra. Herzog alega que estava imbuído de um conceito que os católicos chamam “a certeza da salvação”. O trajeto lhe exigiu três semanas, e resultou no “diário de viagem” Caminhando Sobre Gelo. Ao chegar a Paris, ele descobriu que Lotte Eisner tinha acabado de receber alta do hospital. Alguns anos depois, Eisner, agora com 87 anos, queixou-se a Herzog de que ele projetara sobre ela um sortilégio para que ela não morresse. “Me libera agora,” pediu Eisner. Herzog concordou, e uma semana depois ela faleceu. 



3
Conta-se que em 1947 um homem chamado Ross Petrie resolveu pregar uma peça a um grupo de amigos, montanhistas amadores, que haviam escalado o Monte Hood, a 80 quilômetros de Portland, no Oregon. É uma escalada difícil, de cerca de 3.500 metros. Depois que os amigos já haviam subido a encosta, e a noite caiu, Ross Petrie escalou o monte, por sua vez, levando consigo uma garrafa de leite e o jornal do dia, que deixou nas proximidades da barraca onde os utros se abrigavam. A escalada do Mount Hood não é das mais fáceis, e sua duração é estimada entre 4 e 7 horas.  Nada é custoso demais para uma piada. 



4
O ator Christopher Walken é conhecido por seu talento e por uma certa excentricidade.  Na década de 1970 ele trabalhava numa montagem teatral em Nova York. Um dia chegou ao teatro, para ensaiar, carregando nos braços um filhote de leão, como se fosse um pacote qualquer. Depositou o leãozinho no chão, e deixou que ele ficasse caminhando pelo espaço onde os colegas ensaiavam. “Não se assustem,” disse. “Ele está de bom humor… agora.” O elenco inteiro congelou, sem saber se aquilo era uma piada, se era um teste, ou outra bizarrice de Walken. Depois foi descoberto que ele estava fazendo trabalho voluntário junto a uma companhia circense. 



5
Durante uma montagem mexicana da peça Orfeu, de Jean Cocteau, um terremoto aconteceu durante a cena das bacantes, danificando o teatro e ferindo várias pessoas. A sala sofreu reparos e a peça se preparava para voltar a cartaz, quando descobriram entre os escombros o corpo do ator que representava Orfeu. 



6
O major Baden Powell (o fundador do Escotismo, e não o violonista brasileiro) foi certa vez visitar uma família amiga, os Hatch, e ao sentar com eles escutou rugidos de animais ferozes embaixo da mesa, claramente feitos por crianças. O major abaixou-se para olhar, e viu embaixo da mesa três crianças de quatro no chão e, rugindo junto com elas, o escritor Lewis Carroll. O autor de Alice no País das Maravilhas tinha o costume de brincar assim, e conta-se que uma vez entrou, de quatro pés e rugindo, numa sala onde estariam crianças reunidas, mas enganou-se de porta e invadiu uma reunião de senhoras que faziam um trabalho beneficente. 



7
Quando o filósofo Bertrand Russell, então com 49 anos, visitou a China, caiu gravemente doente com pneumonia, e a imprensa noticiou o fato. Russell já era um autor respeitado e uma figura pública. Pouco antes, em visita à URSS, tinha sido recebido pessoalmente por Lênin. Numa época de telecomunicações um tanto precárias, a notícia de “gravemente doente” acabou sendo noticiada na imprensa japonesa como “falecido”. Russell, teve, então, o raro prazer de ler na imprensa mundial o próprio obituário, e saber o que iriam dizer dele após sua morte. Ficou sem saber o que de fato disseram quando morreu de verdade em 1970, aos 97 anos. 



8
Na II Guerra Mundial, quando foi derrubado o governo fascista, seus líderes foram mortos e pendurados de cabeça para baixo num posto de gasolina em construção, entre eles o próprio Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. Mesmo com a ferocidade da vingança e da execução pública, o pudor italiano fez com que a saia de Clara Petacci fosse amarrada às pernas com barbante, e assim o corpo foi pendurado mas as “partes íntimas” não ficaram à mostra. 



9
Vladimir Nabokov e sua esposa Vera emigraram para os EUA em 1940, a bordo do SS Champlain. Durante a década seguinte viajaram longamente pelo país, tendo como base a cidade de Wellesley (Massachusetts), onde ele lecionou antes de se fixar na Universidade de Cornell (Ithaca). O romance Lolita (1955) está cheio de referências diretas ou cifradas a estradas, motéis, lojas, postos de gasolina e outros detalhes colhidos nessas viagens, em que o escritor fazia também um levantamento das borboletas de cada região (reza a lenda que Nabokov chegou a se classificar alguma vez como “um lepidopterologista que escrevia livros nas horas vagas”). Em 1961, os Nabokovs passaram a residir no Montreux Palace, onde uma criada-de-quarto suíça jogou diligentemente no lixo uma pilha de mapas rodoviários dos EUA com todas as rotas e anotações (literárias e borboletais) feitas durante aqueles anos na estrada.  


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

5123) Eles passarão (15.11.2024)



 

Quando  ando pelas ruas do centro da cidade, aquele rio de gente, aquelas correntezas contrárias que se entrelaçam tão bem, nunca deixo de pensar como seria aquele trecho de calçada cinquenta anos atrás, cem anos atrás, duzentos. A calçada estava ali, e quem passava por ela passou sem deixar rastro, como a sombra de um pássaro na água de um rio. 

 

Entro num ônibus cheio, num vagão de metrô, fico olhando aqueles rostos, e penso comigo: “Eles passarão.” Passaremos todos, pelo que me consta. Passarão inclusive os passarinhos que cantavam ao ouvido do poeta Quintana. E o poeta os entendeu tanto que voou também. 

 

Os poetas, os artistas criadores em geral, têm a chance de deixar uma sobra, uma imagem, um resíduo de si mesmos. A obra não é a pessoa, mas por isto mesmo tem direito a uma existência própria, num mundo à parte. Shakespeare e Machado de Assis já se dissolveram em moléculas; de sua pessoa, deixaram lembranças de lembranças de lembranças, que a cada transmissão tornaram-se mais esmaecidas. Ou mais autônomas. 

 

A obra ficou, e é de natureza a ficar ainda mais. 

 

Pessoa e obra permanecem ligadas por um laço invisível qualquer. Como aquelas partículas sub-atômicas ligadas pelo que os físicos chamam de “conexão não-local”. Duas partículas que foram submetidas juntas a tais-e-tais medições e experimentos tornam-se uma espécie de espeho ou reflexo uma da outra. Há entre elas uma conexão, uma conexão que não sabemos como funciona, sabemos apenas que está ali. O que acontece a uma acontece à outra, mesmo que estejam a um milhão de quilômetros de distância. 



Com o Artista e a Obra ocorre uma conexão ainda mais misteriosa do que esta. Uma das partículas morre; deixa de existir; a matéria de que se compunha está agora “anônima e dispersa”, como dizia o poeta. Restou apenas a segunda partícula, a Obra, e aí ocorre algo estranho. Por um lado, cada nova descoberta que fazemos sobre o Artista se reflete na nossa percepção da Obra, e cada nova descoberta que fazemos sobre a Obra muda, aos nossos olhos, a idéia da pessoa do Artista. 

 

Nossa primeira impressão, lá atrás, era de que após a morte do Artista ele vai para o reino do Nunca Mais, e a Obra transpõe o portão do Para Sempre.  É meio assim, mas não totalmente assim. Os dois continuam como se vivessem juntos, e toda luz que se projeta sobre um deles lança algum reflexo sobre o outro. 

 

O poeta Capinam dizia, numa canção antiga gravada por Maria Bethânia: 

 

As coisas passam, e eu quero

é passar com elas...




(José Carlos Capinam)


O ser humano sonha em ser imortal, e os nossos acadêmicos literários criaram esse mito inofensivo de que a Academia imortaliza alguém – no sentido de que pelo menos a segunda partícula, a Obra, jamais morrerá. 

 

Porque a imortalidade física deve ser um fardo injusto, uma maldição. Em toda a literatura não me lembro de um só imortal que seja feliz. Não que a felicidade deva ser um objetivo obrigatório, mas esses personagens parece que a procuram, sim, procuram-na com ansiedade e angústia, e a procuram primeiramente recusando-se a morrer – e aceitando para isto qualquer pacto, qualquer beberagem, qualquer turbinação high-tech. 

 

Tim Powers, o autor de Os Portais de Anúbis (1983) e O Palácio dos Pervertidos (1985), usa a imortalidade como recurso dramatúrgico em seus romances fantásticos, mas com um certo calafrio quanto a essa perspectiva: 

 

Muitos autores neste gênero literário se inscreveram em algum desses projetos onde eles cortam sua cabeça depois da morte e a congelam, confiando na teoria de que daqui a 100 anos ou daqui a 500 a ciência será capaz de descongelá-la e providenciar seu transplante para um clone mais jovem. Muita gente pensa, instintivamente: “Ah, eu quero!...”. Eu, instintivamente, penso: “Que pesadelo. Eu faria qualquer coisa para escapar disso.” 

(Locus, fevereiro de 2002, trad. BT) 

 


Penso no protagonista do conto “O Imortal” (1882) de Machado de Assis, o homem que tomou a poção do pajé e ficou com a possibilidade de ser eterno. Viveu duzentos anos. Enfastiou-se da vida. enfastiou-se tanto quanto quem vive setenta, e resolveu seu problema com um recurso que deixo para os que não leram ainda esta história inquietante, uma das melhores de nosso conto fantástico. 

 

Diz a literatura vampiresca que os nosferatus são quase imortais. Podem ser mortos com estacas, alho, luz do sol, etc., mas se nada disto ocorrer durarão para sempre. 

 

Um aspecto que me assusta nos vampiros nem é sua ferocidade, é a aterrorizante velhice que eles transpiram. Séculos de egoísmo, solidão e idéia fixa. O imenso desdém que adquirem pelos seres humanos, vistos não apenas como fonte de alimentação, mas também como criaturas que nascem, piscam o olho, e desaparecem. Que outro valor tem, para um vampiro, essa nuvem de insetos, cuja vida dura apenas o tempo de torná-los importunos? 

 

Quem quiser que pense em Brad Pitt ou Tom Cruise, quando lembra os vampíros; Hollywood está aí para isso mesmo. Eu penso nos dois vampíros mais verossímeis do cinema, a criatura-gêmea que encarnou no Max Schreck de Nosferatu (F. W. Murnau, 1922) e no Klaus Kinski de Nosferatu the Vampyre (Werner Herzog, 1979). Ali está toda a sequiosidade dos muito velhos, dos que cambaleiam rumo à vítima, dos que um dia foram tigres mas regrediram a percevejos, dos que se recusam a morrer por medo da própria ausência, e tornam a imortalidade uma obrigação sem propósito. 



(Klaus Kinski, como o Nosferatu) 

 




sábado, 6 de maio de 2023

4939) Nick Cave e a coroação do Rei Charles (6.5.2023)




No próximo sábado (estou escrevendo na 4ª. feira, dia 3) o Rei Charles da Inglaterra vai ser coroado, e o Reino Unido fervilha de piadas, memes, debates, fofocas.  Para isso servem as monarquias, afinal – para tirar dinheiro dos turistas, e para aquecer as fantasias-de-poder das multidões. 
 
A monarquia é puro espetáculo. O Império brasileiro, por exemplo, teve um imperador playboy, pegador e voluntarioso. Foi substituído pelo filho – intelectual, conciliador, severo, mas que mesmo assim não abominava o espetáculo. O Baile da Ilha Fiscal não foi apenas o símbolo do fim de uma era, foi o adeus à pompa e a frivolidade do reino para dar lugar à rudeza e ao suor da caserna. 
 
E os dois não estão assim tão distantes um do outro, porque as monarquias são construídas no fio das espadas e no fundo das alcovas. Já dizia o impagável Pedro Dinis Quaderna, de Ariano Suassuna, no Romance da Pedra do Reino (1971):



“Pode dizer, Excelência!  Eu absolutamente não me incomodo mais de ser filho-da-puta!  Ou melhor, de ser neto-da-puta, porque minha Mãe, coitada, é que era filha-da-puta, filha bastarda do Barão do Cariri e portanto irmã por vias travessas de Dom Pedro Sebastião Garcia-Barretto.  Antes, eu ficava danado da vida quando alguém falava nessa filho-da-putice nossa.  Mas lá um dia, numa discussão, Samuel declarou que isso de bastardia não tem a menor importância nessas coisas de fidalguia e linhagens reais, tanto assim que os Braganças, descendentes de Dom João I e Nuno Álvares Pereira, são várias vezes bastardos e netos de padre!  Depois daí, fiquei descansado e perdi a vergonha!” (Folheto 53) 
 
Satirizar a espetacularização do poder e a glamurização da banalidade é um dos esportes favoritos de escritores, intelectuais, artistas em geral. E quando o roqueiro Nick Cave, um dos expoentes do dark rock de língua inglesa, foi anunciado dias atrás como um dos convidados para a coroação de Charles, houve no meio roqueiro um certo movimento sísmico de incredulidade e deboche. 
 
Nick Cave distribui periodicamente uma newsletter, The Red Hand Files, onde troca idéias com seus admiradores, responde perguntas, discute questões propostas. E no número 235, já agora nos primeiros dias de maio, ele reproduziu as mensagens de espanto de alguns fãs: 
 
-- Que diabos, você vai pra coroação do Rei?  (Jon)
-- Fiquei sabendo que você vai para a coroação, fazendo parte da delegação da Austrália. Você é monarquista? Por que está indo? (Adrian)
-- A co-ro-a-ção?  Fala sério. (Roger)
-- Nick Cave vai à coroação? O que será que o jovem Nick Cave ia pensar disto?! (Matt)
 
Com a sisudez e a franqueza de sempre, o roqueiro respondeu (tradução minha):
 
Caros John, Adrian, Roger e Matt:
Vou dar uma resposta breve, porque ainda estou escolhendo uma roupa para usar na Coroação.
 
Não sou monarquista, nem sou roialista [Nota do tradutor: neologismo português recente], como também, por falar nisto, não sou o mais ardente dos republicanos. O que também não sou é espetacularmente desinteressado pelo mundo e pela maneira como ele funciona; não sou tão ideologicamente sequestrado nem tão ranzinza a ponto de recusar um convite para (talvez) o evento histórico mais importante no Reino Unido em nossa geração. Não apenas o mais importante, mas o mais estranho, o mais bizarro.
 
Encontrei a falecida Rainha uma vez, no Palácio de Buckingham, num evento dedicado aos “Australianos Mais Promissores Morando no Reino Unido” (ou coisa parecida). Foi uma ocasião meio canhestra, mas a Rainha em pessoa, vestida num conjunto cor de salmão, parecia quase extraterrestre, e era a mulher mais carismática que conheci. Talvez fosse a iluminação, mas ela de fato emitia uma espécie de brilho. Quando contei a minha mãe – a qual tinha a mesma idade da Rainha e, como ela, morreu com mais de 90 anos – a respeito dessa ocasião, seus velhos olhos se encheram de lágrimas. 
 
Quando acompanhei o funeral da Rainha pela TV no ano passado percebi, para meu próprio pasmo, que também eu estava chorando quando retiraram do ataúde a coroa, o orbe e o cetro, e o abaixaram para a abertura sob o piso da catedral de São Jorge. Estou tentando dizer a vocês que, para além do interminável mas necessário debate sobre a abolição da monarquia, tenho um inexplicável vínculo emotivo com a família real – sua estranheza, e a natureza profundamente excêntrica de todo esse fenômeno, o qual reflete com perfeição a bizarrice inigualável da próprio Grã-Bretanha. Eu simplesmente sinto uma atração por esse tipo de coisa – tudo que é bizarro, estranho, extraordinariamente espetacular, tudo que nos deixa pasmos.  
 
Quanto ao que o jovem Nick Cave iria pensar... bem, o jovem Nick Cave era, com todo o respeito ao jovem Nick Cave, jovem, e como muitos outros jovens, era ligeiramente insano, e eu procuro ter uma certa moderação ao usá-lo como parâmetro para o que eu devo ou não devo fazer. Mas era um cara legal, eu tenho que admitir. Era insano, mas era um cara legal.
Com tudo isto em mente, estou me preparando para ir à Coroação. Acho que vou de terno.
Com amor, Nick


 
Sou um admirador de Nick Cave, um dos grandes poetas do rock em sua geração. Ele é uma espécie de Edgar Allan Poe com auto-controle. Tem a fagulha demoníaca, a vulnerabilidade angelical, o cinismo neo-urbano, o romantismo temperado pelo senso da fatalidade, a influência má dos signos do Zodíaco. E é australiano, ou seja, vem de uma espécie de Brasil-do-império-britânico, um país posto de pé com o muque de degredados, bandidos, fanáticos, aventureiros, religiosos de maus costumes, fidalgos de má reputação.
 
Pior que o Brasil, aliás, porque o Brasil pelo menos tem amazônias inteiras para vender. Teve madeira, ouro, açúcar, diamantes; hoje tem petróleo e floresta. Já a Austrália (posso estar sendo injusto, claro) é um deserto de sal, que o ser humano tenta comer pelas beiradas e ainda não conseguiu.


 
Bruce Chatwin, em The Songlines ("O Rastro dos Cantos", Companhia das Letras, 1987), mostra a Austrália como uma mistura de sítio arqueológico e solo sagrado ao ar livre, invadido e depredado aos poucos. Werner Herzog, amigo de Chatwin, glosou o mesmo mote em filmes como Nomad (2019) e Onde Sonham as Formigas Verdes (1984).
 
Neste último, ele mostra o confronto às vezes violento entre os aborígines australianos, defensores de seus sítios religiosos, e as construtoras e mineradoras européias, vindas para passar o trator, a dinamite e a escavadeira naquilo tudo. Em algumas cenas de tribunal, discutem-se os respectivos direitos, e os aborígines precisam vestir ternos para defender seu território diante de um juiz britânico.
 
“Acho que vou de terno” (Nick Cave)


(Roy Marika e Wandjuk Marika, em Onde Sonham as Formigas Verdes)

 
Dizem que quando D. Pedro II estava exilado em Paris, no fim da vida, fez uma visita a Victor Hugo, a quem admirava muito. Os dois conversaram de maneira sisuda e cortês sobre temas literários. À saída, Hugo o tratou por “Majestade”, e D. Pedro respondeu: “Só há uma majestade aqui, e é Victor Hugo”.
 
Wilson Martins comenta que esta resposta foi dada com mais malícia do que parece à primeira vista, mas eu, como tenho cabeça de romancista, posso imaginar que foi sincera, assim como posso imaginar o Rei Charles III apertando a mão de Nick Cave e tratando-o por “Majestade”. Depois de toda a esculhambação a que o rock britânico já submeteu a monarquia, seria uma vingançazinha divertida.


 
(Príncipe Charles e Princesa Diana visitando Uluru (“Ayers Rock”), sítio sagrado dos aborígines australianos, 1983)






sábado, 15 de outubro de 2022

4873) A paisagem perturbada (15.10.2022)



 
Florença, que alguns chamam “a capital do Renascimento”, é uma cidade tão bonita que deu origem até a uma expressão, “a Síndrome de Stendhal”. Ela alude ao fato do escritor francês ter desmaiado diante da Basílica, fulminado por tanta beleza.
 
Disse o romancista:
 
Mergulhei numa espécie de êxtase, pela idéia de estar em Florença, próximo aos grandes homens cujos mausoléus eu acabara de ver. Absorto na contemplação daquela beleza sublime... Atingi um ponto em que experimentava sensações celestiais... Tudo falava de forma vívida ao meu espírito. Ah, se ao menos eu pudesse esquecer. Tive palpitações do coração, aquilo que em Berlim chamam de “nervosismo”. Minha vida foi sugada, e eu caminhava com medo de cair.
 
(Digressão: dizem que o Coronel Galdino, de Campina Grande, assim comentou este acontecimento: “Vige que home fraco, se ele ver o Açude Velho ele morre”.)
 
Uma overdose de beleza? Será possível isso? Beleza em excesso faz mal? O nordestino usa com frequência a expressão “medonho” para qualificar a intensidade de algo: “Eu fui lá em Florença, rapaz, é uma cidade bonita medonha”. Medonho é o que dá medo. É algo mais que belo: é o Sublime, um grau de beleza tão elevado que, segundo os filósofos, se avizinha do Terrível.



Estive lendo as saborosas memórias de Erico Verissimo, Solo de Clarineta (Ed. Globo, Porto Alegre), em dois volumes. No volume 2, ele narra uma viagem que fez à Europa com a esposa Mafalda e o filho adolescente, um tal de Luís Fernando. Ele próprio reconhece que foi um trajeto alucinante, percorrendo oito países e cerca de 70 localidades em três meses.
 
Ninguém aguenta. Verissimo, fascinado por arquitetura e por artes plásticas,  confessa, a certa altura:
 
[U]m ser humano pode passar uma semana inteira em jejum absoluto, mas se no domingo lhe derem um farto banquete, sua capacidade de comer terá um limite que o faminto não poderá transpor sem o risco de ter uma indigestão perigosíssima. O mesmo acontece com as viagens. (vol. 2, p. 134)
 
(Visitando a Catedral de Sevilha:) Saio psicologicamente da sala do tesouro como sairia estomacalmente dum banquete onde tivesse sido obrigado a comer um bolo inteiro com camadas de nata batida, chocolate, marmelada, doce de ovos, e todo encrustado de nozes, passas sortidas, amêndoas, confeitos... (p. 274)
 
Nesta altura da viagem, depois de ter passado pelo Museu do Prado, em Madri, e pelas galerias de Florença, devorando ávido e apressado toda uma formidável safra artística de séculos, começo a sentir tonturas e uma espécie de náusea. E todos esses quadros vistos – alguns mais nítidos que outros na memória – começam a girar ao redor de minha perplexidade como peças dum quebra-cabeças talvez impossível de armar. É provável que um observador colocado num ângulo fora do tempo pudesse ver as peças todas no seu devido lugar, formando um desenho e possivelmente uma mensagem. (p. 303)
 
É uma descrição aproximada dos sintomas que explodem na crise de Stendhal? Talvez. Overdose de beleza, desorientação perceptiva, estresse sensorial... tudo isto não coisas mais frequentes do que se imagina. Uma espécie de “festa de Babette” para os olhos (para adotar a comparação gastronômica de Verissimo). 
 
A síndrome foi estudada cientificamente pela Dra. Graziella Magherini, em La sindrome di Stendhal (1989). Curiosamente, o título foi dado a posteriori: ela estudou na verdade centenas de casos clínicos semelhantes ocorridos com turistas que visitavam a cidade, e só depois de algum tempo tomou conhecimento do episódio famoso do escritor.


É um impacto forte nos sentidos – aliás, o persistente Dario Argento, diretor de thrillers  policiais terroríficos, dirigiu em 1996 La Sindrome di Stendhal, ao que parece inspirado num episódio de desorientação mental que ele próprio experimentou na infância, quando visitava Atenas com os pais. Diz o cineasta numa entrevista, quando do lançamento do filme:
 
Meu entusiasmo se deu pelo fato de que a arte tem a função de elevar os espíritos, não de esmagá-los ou de invadi-los... Todos nós aprendemos que a arte enriquece nossas vidas. Stendhal descobriu que não é bem assim. Ela pode também nos enfraquecer. A possibilidade da arte poder causar a morte me interessou. (Internet Movie DataBase)
 
Tudo isto nos ajuda a perceber um conceito do fantástico aplicado à vida cotidiana, que agora não parece muito improvável. É a noção de que alguns ambientes podem agir concretamente sobre uma pessoa, podem provocar-lhe êxtase, ou repulsa, ou desorientação, até mesmo loucura. Nos contos de Lovecraft, encontramos com frequência descrições de “ambientes malignos” onde praticamente nada acontece, nem precisa acontecer, porque a simples visão daquele cenário de pesadelo desestrutura mentalmente o personagem.


(“Cárceres”, de Piranesi)


Jorge Luís Borges, um discreto leitor de Lovecraft, nos propõe algo parecido com a arquitetura misteriosa da Cidade dos Imortais (“O Imortal”, em O Aleph, 1949).
 
“Esta cidade (pensei) é tão horrível que sua mera existência e perduração, mesmo estando no centro de um deserto perdido, contamina o passado e o futuro, e de algum modo compromete os astros. Enquanto ela durar, ninguém no mundo poderá ser corajoso ou feliz.” Não quero descrevê-la; um caos de palavras heterogêneas, um corpo de tigre ou de touro em que pululassem, monstruosamente, conjugados e odiando-se, dentes, órgãos e cabeças, podem (talvez) ser imagens aproximativas.
 
No fundo é de um único fenômeno que estamos falando. Umberto Eco, autor de uma História da Beleza (2004), sentiu-se na obrigação de escrever uma História da Feiura (2007).
 
Em seu filme-homenagem ao escritor e viajante Bruce Chatwin, Nomad (2019), Werner Herzog resgata uma cena do seu filme de estréia, Sinais de Vida  (1968), em que um soldado alemão da II Guerra Mundial, já esgotado de cansaço, aturdido pela guerra, enlouquece de vez quando numa missão de reconhecimento se depara com um vale onde existem cerca de 10 mil pequenos moinhos de vento.
 
A imagem é real, e Herzog afirma que, ao comentar esse filme, Bruce Chatwin cunhou a expressão “paisagem perturbada” (“deranged landscape”) para registrar a impressão que ambientes assim podem produzir na mente humana.




 
 





sábado, 4 de junho de 2022

4829) Os reis do dinheiro (3.6.2022)



(Elon Musk)

Uma contradição permanente das democracias é que o poder vem nominalmente do povo, através do voto em representantes (no Executivo e no Legislativo), mas este é praticamente o único poder que o Povo tem. O melancólico poder de olhar uma lista que lhe fornecem e dizer: “Prefiro essa pessoa aqui.”
 
Porque poder econômico, o que de fato mexe as engrenagens do mundo, o cidadão comum (eu por exemplo) não tem nenhum. A façanha-de-super-herói dele é estar com os boletos em dia, sem dever a ninguém, e ter um extra para a cerveja no bar da esquina. 
 
E aí entram em cena os bilionários, essa casta de Super Heróis (ou Super Vilôes, conforme o ponto de vista) que hoje em dia é capaz de tudo. São muitos. Copio, do verbete da Wikipedia:
 
Em 2018, existem 2.200 bilionários (em dólar) no mundo inteiro, com uma soma de riquezas de mais de 9 trilhões, mais do que os 7 trilhões que possuíam em 2017. De acordo com um relatório de 2017 da Oxfam, os oito bilionários mais ricos possuem uma soma equivalente à das posses da metade mais pobre da humanidade.
 
E em 2019 surgiram 19 novos bilionários no mundo!




(Cory Doctorow)

O escritor Cory Doctorow publicou um texto recente em que ele questiona o modo como as democracias contemporâneas permitem essa concentração de riquezas. Ele faz uma comparação com as monarquias absolutistas, onde todo o dinheiro arrecadado ia para a família do rei, e o rei, por ser representante de Deus na Terra, podia fazer o que lhe desse na telha. Um dia, era deposto por um inimigo – que passava a ocupar seu posto e a fazer mais ou menos o que ele fazia antes.
 
Diz Doctorow:
 
Como disse o senador John Sherman ao Congresso, quando se esforçava para fazer aprovar sua histórica lei anti-truste em 1890: “Se não aceitamos um Rei como um poder político, não devemos aceitar um Rei como possuidor da produção, transporte e comercialização dos bens necessários à vida. (...) Se não nos submetemos à vontade de um imperador, não devemos nos submeter à vontade de um autocrata do comércio.”
 
A verdade é que esses indivíduos (como Bill Gates, Jeff Bezos, Elon Musk e outros) têm hoje um poder que deixa no chinelo monarcas como Luís XIV ou o Rei Leopoldo da Bélgica (aquele que foi dono do Congo e tornou-se um dos homens mais ricos da história). E esse poder não é apenas o do dinheiro. É também o do comando financeiro de tecnologias que podem ter na vida humana um impacto inimaginável no século 19.
 
A república continua a ser um sonho, uma miragem distante, mesmo na Europa e na América. Uma ficção coletiva que nos leva a votar de ano em ano. Vivemos sob monarquias. Se não as do sangue e das casas reais, a do dinheiro, do neo-liberalismo econômico, e da mitologia midiática. Assim como os reis de antigamente diziam ser os representantes de Deus na Terra (e sendo assim tudo que faziam estava certo) os bilionários de hoje são os nossos representantes. “Todo poder emana do povo, e em seu nome será exercido” – pelos bilionários, e em seu proveito próprio.


(Werner Herzog)

Numa entrevista recente ao The New Yorker, o cineasta Werner Herzog ironizou essa nossa fascinação pelos bilionários.
 
https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/werner-herzog-has-never-liked-introspection
 
[A corrida espacial dos bilionários] é uma competição movida a testosterona. Um indivíduo que se destaca nela é Elon Musk, porque constrói foguetes re-utilizáveis, o que é uma coisa bacana e muito nobre, mas ao mesmo tempo a sua idéia de levar um milhão de pessoas para colonizar Marte é uma obscenidade. Devíamos cuidar do nosso planeta, em vez de tentar tornar viável um planeta inóspito. Não é preciso ser cientista para perceber que colônias em Marte são um projeto sem futuro. Quanto a essa disputa dele com Bezos e outros bilionários, acho que é uma estratégia de marketing. Dá a ele o rótulo de – e estou dizendo isto entre aspas, ponha uma porção de aspas antes e depois – “visionário”. Ou seja: se você for comprar um carro elétrico, não compre dos alemães, não compre dos chineses, compre do “visionário”.
 (trad. BT)
 
Eu nem sou tão velho assim, mas me lembro de um tempo em que quando se queria dizer que um sujeito era rico dizia-se que ele morava “numa mansão” e “andava de Cadilaque”. O nível de enriquecimento a que se chegou nas últimas quatro décadas é algo que supera qualquer proeza imaginativa anterior. E o mais curioso é que se você fizer uma pesquisa no Brasil vai ver que a maioria das pessoas admira Jeff Bezos, Bill Gates, Elon Musk, etc. Por que? Ora, porque todo brasileiro acha que tem chances de virar bilionário um dia. Então, ele já vai falando bem do clube a partir de agora.
 
Por que motivo nos identificamos com os Imperadores do Dinheiro, numa república, numa democracia? Talvez porque a economia ainda esteja sujeita ao que Cory Doctorow citou acima: é um espaço onde ainda se podem realizar os sonhos de absolutismo, de poder total, um poder que não precise ser repassado de 4 em 4 anos para um oportunista qualquer, um antagonista qualquer.
 
Mesmo que Elon Musk seja filho de um dono de minas de esmeralda, os norte-americanos médios (e até os brasileiros médios) conseguem ver nele um “homem que fez a si próprio”, um meritocrata, que ficou bilionário por uma mistura de talento, esforço, e fé. Quem acha que tem essas três coisas, acha que pode juntar uma fortuna semelhante.
 
As antigas tragédias clássicas (desde as gregas até as elisabetanas) se concentravam nos reis porque eles eram o símbolo do povo. Rei triunfante, povo vencedor. Rei alquebrado, povo enfraquecido.
 
Nossos “reis do dinheiro” cumprem um papel parecido, com um detalhe diferente. Eles não foram empossados no trono por desígnio divino. Eles se elevaram da multidão informe e sem rosto, e se tornaram super-homens, dotados de um super-poder. É o mesmo sonho dos garotos pobres que graças à música popular ou ao esporte se tornam milionários – só que um sonho elevado a uma potência maior.
 
É o garoto que nasce nos Alagados, Trenchtown, Favela da Maré. Ele tem todo o direito de sonhar em ser um Neymar ou um Michael Jackson. Tornar-se bilionário como Musk ou Bezos é “outro patamar”, mas o direito ao sonho é o mesmo. Eles são vistos como visionários (como disse Herzog), e é esse o seu carisma: transformam cada um de nós num visionário, num cara que “acredita”. 




domingo, 15 de maio de 2022

4823) Improvisando trilhas sonoras (15.5.2022)

 


A música é uma forma de arte total, que só diz o que está dizendo. Não precisa se reportar a nenhuma realidade externa a si mesma. A pintura abstrata chega perto disso: são formas que valem por si, pelas cores, pelo movimento que sugerem, pelas associações inconscientes que provocam.
 
Isso faz com que, por uma espécie de paradoxo, a música instrumental possa ser “pregada” a qualquer imagem e assim constituir, de modo aleatório, um comentário a essa imagem. O cinema faz isso o tempo todo.
 
Podemos fazer o tempo todo também. Juntar uma música e uma imagem que não têm relação entre si. Quando entrei na era do computador (que facilitou esse processo, do ponto de vista meramente físico, de botar-e-tirar as músicas), cansei de rodar no monitor as imagens (sem som) de um filme qualquer, e ao mesmo tempo tocar um CD qualquer, fazendo de conta que aquela era a trilha sonora do filme.
 
Em geral, não resulta em nada mais do que uma cacofonia desconchavada. Mas às vezes produz certos sincronismos que arrepiam a gente.
 
Há umas experiências curiosas por aí – se bem me lembro, assistir O Mágico de Oz tendo como fundo musical um disco de Pink Floyd. “As possibilidades, como sempre, são infinitas.”
 
Vai daí que muitos cineastas encomendam trilhas sonoras improvisadas aos seus parceiros de música. Ao invés do cara ver o filme, compor, orquestrar, escrever e gravar uma trilha inteira, e depois essa trilha ser pregada no filme, o compositor vai ao estúdio com seu instrumento, as imagens são projetadas numa tela, e ele vai vendo aquilo e improvisando.


Neste clipezinho do YouTube, vemos Neil Young tocando e gravando a trilha sonora que ele fez para
Dead Man (1995) de Jim Jarmusch. É um faroeste meio surrealista, um dos melhores filmes do diretor, e ele escolheu para trilha sonora a guitarra de Young, aquela guitarra tão fanhosa quanto o dono, distorcida, rasgada, com notas longas arranhando-se interminavelmente e depois cedendo lugar a punhaladas curtas, agudas, lancinantes.
 
Neil Young & Jim Jarmusch
“Dead Man”
 
Outro tipo de utilização da guitarra é o que Werner Herzog propôs a Richard Thompson. Herzog é um repentista a médio prazo, gosta de fazer um certo planejamento e na hora de rodar joga tudo pra cima pra ver de que jeito cai. O improviso faz parte, e para isso ele dispõe de uma estrutura previamente pensada e “provisoriamente definitiva”, dentro da qual ele vai engastando os repentes dos atores, os erros que acrescentam, os imprevistos caídos do céu para esquentar uma cena que se arrastava morna.


Grizzly Man (2005) é um documentário dele sobre Timothy Treadwell, um cineasta e ambientalista que foi morto por um urso quando o filmava. Imprevistos assim parecem ferrar a fogo uma espécie de sinete sobre uma obra a quem isso acontece. Para a música, Herzog chamou o guitarrista Thompson, e combinou com ele o seguinte: ele não veria o filme todo. Veria 30 segundos de cada sequência, para ter uma idéia do que se tratava, e depois improvisaria tudo no estúdio.
 
Talvez isso servisse para evitar que o músico, tocando com o olho pregado na tela, acabasse executando riffs instrumentais muito servis, muito obedientes à imagem: música ligeirinha para uma corrida, música nostálgica para uma lua cheia sobre os montes... Podemos apenas supor.
 
Aqui está o resultado, naquele timbre sofrido e metálico de blues instrumental, parecido com a paleta sonora de Ry Cooder para o Paris, Texas de Wim Wenders.
 
Richard Thompson & Werner Herzog:
“The Grizzly Man”
 
Retroagindo no tempo, podemos lembrar um dos melhores resultados desse sistema de colaboração. O francês Louis Malle, um dos melhores diretores de sua geração, estava ultimando Ascenseur pour l’échafaud (1958). É um filme policial noir, história de um crime cuidadosamente planejado que acaba não dando certo por causa de um imprevisto. É uma das melhores interpretações de Jeanne Moreau, principalmente na longa sequência em que ela, desorientada por não ter notícias do seu amante (o tal criminoso), vagueia desesperada por entre a treva luminosa de uma Paris em preto-e-branco.


Um duendezinho irreverente me sugere jogar como trilha sonora Maria Bethania cantando Paulo Vanzolini (“À noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar...”). Louis Malle fez melhor: chamou Miles Davis e seu grupo para improvisar os temas musicais, olhando o filme rolar mudo na tela e tocando em cima.
 
Um breve aperitivo do resultado:
 
Miles Davis & Louis Malle
“Ascensor para o Cadafalso”
 
O filme é excelente, o resultado musical idem.
 
A música, por ser abstrata, é capaz de envolver uma sequência de imagens concretas sem modificá-las por dentro, mas imprimindo nuances emocionais no espectador, que tem a experiência simultânea da imagem e do som.
 
Muitas outras melodias poderiam ser superpostas, com bons resultados, às belas imagens do filme de Malle, fotografadas por Henri Decae. E os improvisos de Miles Davis poderiam servir de comentário emotivo a inúmeras cenas de inúmeros outros filmes.
 
É um vale-tudo? Qualquer música se encaixa em qualquer imagem? De jeito nenhum. O mais provável é que se tenha de fazer dezenas de combinações até achar uma que sirva. Mas para mim existe uma fascinação nessa cena de um estúdio à meia-luz, uma tela repassando cenas mudas de um filme que ainda não existe, e um músico de olho na tela, mãos no instrumento, procurando às cegas, e com a clarividência dos cegos, a alma daquele filme.
 








quinta-feira, 20 de agosto de 2020

4612) O enigma de Kaspar Hauser (20.8.2020)



No filme O enigma de Kaspar Hauser (1974) de Werner Herzog, há uma cena em que um professor de filosofia vai testar a inteligência de Kaspar, o rapaz que passou a infância inteira trancado num porão, ficou meio retardado, mas de vez em quando tem uns lampejos de sagacidade que desconcertam as pessoas.
 
O professor propõe a Kaspar um problema tradicional da Lógica. Existem dois vilarejos próximos um dos outro. Os habitantes de “A” sempre falam a verdade, e os habitantes de “B” sempre mentem. Você encontra na estrada que conduz a ambos os vilarejos um homem. Tem direito a fazer uma pergunta, para saber a qual dos dois ele pertence. Qual é a pergunta?
 
O professor se dá o trabalho de exemplificar o problema a Kaspar. Se você perguntar se ele é do vilarejo “verdadista” e ele for, ele dirá “sim”; mas se for do vilarejo mentiroso, também dirá “sim”.
 
Se você perguntar se ele é do vilarejo “mentiroso” e ele for, dirá que não; e se ele for do vilarejo “verdadista”, também dirá que não.
 
Qual a pergunta, para você ter certeza se o cara está mentindo ou falando a verdade?
 
Kaspar diz: “Eu pergunto se ele é uma rã – sim ou não?”.


A cena está aqui (com legendas):
https://tinyurl.com/y66679kq
 
Essa cena geralmente é comentada pelas pessoas como uma “surra de sabedoria” de Kaspar em cima do professor. Claro. Todo mundo torce por Kaspar. Ele é o “idiot savant”, o cara cheio de deficiências mas que tem uma habilidade fenomenal, capaz de pegar desprevenido um adversário. É o time pequeno enfrentando o time rico e poderoso. Todo mundo torce por ele.
 
Eu não vejo assim. Para mim a cena mostra a incompatibilidade entre duas linguagens, dois sistemas de pensamento, nenhum dos quais necessariamente superior ao outro.
 
A linguagem da Lógica, proposta pelo professor, é uma linguagem altamente artificial, altamente formalizada, cheia de riquetriques e de não-podes, que busca uma exatidão 100% nas perguntas e nas respostas. Tem muito pouco a ver com a linguagem frouxa, maleável, imprecisa, contraditória, reversível, fractal e subjetiva que usamos no dia-a-dia, aqui neste texto, por exemplo.
 
A Civilização-como-a-conhecemos precisa das duas linguagens, porque sabe que cobrem áreas diferentes do conhecimento.
 
A linguagem do professor depende, para funcionar, de uma série de premissas. Que de um lado todo mundo minta. Que do outro lado todo mundo só fale a verdade. Que a pessoa seja encontrada no meio do caminho, e não na entrada do vilarejo (o que talvez indicasse a qual dos dois ela pertencia). Que você (o aluno) só tem direito a uma pergunta. (Por que só uma? Quem determinou?) Que seja uma pergunta (isso não tem no filme) que devia ser respondida com “sim” ou “não”.
 
O problema de Lógica é um problema que sempre vai se fechado numa escolha binária. A Lógica funciona em forma de fluxograma, uma coisa ensinada em nossos cursos de Administração, com aqueles balõezinhos: “Você sabe falar? SIM – NÃO”.



A Lógica procura estabelecer com certeza absoluta a direção de um raciocínio consecutivo (onde cada afirmação é consequência de uma que veio antes e causa de outra que deverá vir depois). E o raciocínio binário (sim ou não, certo ou errado, verdadeiro ou falso) é essencial para isso.
 
O problema é que tudo isso vale para a Lógica, mas a Lógica é um mero instrumento para nos ajudar quando nos deparamos com um problema verbal intransponível. Na vida real, basta perguntar se o cara é uma rã. A linguagem comum tem milhões de atalhos não-Lógicos mas tão eficientes quanto, porque é um saber conectado a outros repertórios de idéias (p. ex., a percepção visual, que distingue entre um ser humano e uma rã).
 
A cena torna-se cômica porque os professores de Lógica, querendo reduzir a aridez e a abstração das fórmulas, tentam “humanizar” os problemas. Fazemos isso na Matemática no 1º. Grau. Em vez de perguntar “15-8=?”, dizemos: “Joãozinho tinha 15 chocolates; ele deu 8 chocolates para Maria; com quantos chocolates ficou Joãozinho?...”
 
Humanizar problemas abstratos ajuda a trazê-los para a zona-de-conforto de nossa experiência humana. Ajuda a raciocinar em termos que já raciocinamos antes, com coisas que são importantes para nós, como a quantidade de chocolates que temos no bolso.
 
No entanto, trazer para essa região mental implica em contaminar um problema puramente aritmético com emoções psicológicas. O aluno levanta o braço e diz: “Mas por que motivo Joãozinho é obrigado a dar tantos chocolates para Maria? O que foi que Maria fez para ficar com quase a metade dos chocolates dele?...” 
 
É bobagem? Não, não é. O problema, que era apenas aritmético, foi contaminado por fatores humanos e ficou de porta aberta para esse tipo de questionamento.
 
Há um outro episódio que já vi algumas vezes nas redes sociais, vou citar de memória. Num instituto tecnológico de Israel, o professor coloca para seus alunos de Engenharia o seguinte prolema: “É preciso transportar 50 mil litros de sangue, ou de plasma sangíneo, para uma cidade a 100 km de distância. Qual o meio mais rápido, mais barato e mais seguro de fazer isso?”.
 
No outro dia, os alunos trazem soluções variadas: caminhões frigoríficos, tubulações pressurizadas e refrigeradas, frota de helicópteros, etc.
 
O professor diz: “Beleza. Mas não ocorreu a nenhum de vocês querer saber para que vão servir esse 50 mil litros de sangue?” Todo problema de engenharia, etc., costuma ter um lado humano e social que, aos olhos dos engenheiros, preocupados apenas com exatidão, precisão, economia e eficácia, passa completamente despercebido.
 
Esta é uma questão que diz respeito também à ficção científica.
 
Muitos romances de ficção científica surgem de um problema de Engenharia, Cosmologia, Astronáutica, Física, Química, etc., que ocorre ao escritor. Ele tenta equacionar e resolver esse problema sob a forma de uma história de ficção envolvendo Joãozinhos e Marias, para deixar o problema mais palatável e mais divertido para os leitores.
 
Ocorre que, acontecendo assim, o problema começa a se contaminar de elementos humanos, de reações humanas diante de tudo que acontece, de conflitos, rivalidades, imprevistas atitudes humanas. A lógica inflexível dos números, símbolos e operadores começa a ser erodida pela imprevisibilidade dos humanos usados como exemplos.
 
Esta é uma questão essencial da ficção científica hard, aquela que procura usar da maneira mais rigorosa possível os princípios do método científico, da lógica formal ou do saber estabelecido de qualquer ramo específico da ciência.
 
Voltando ao filme de Herzog: o professor tem suas razões, Kaspar tem as dele, o que está havendo ali é apenas um diálogo de surdos. O filme claramente faz do professor uma figura pedante e ridícula, com seu saber pomposo e empoeirado sendo derrotado pelo “pensamento selvagem” do herói. É um problema formulado na linguagem X e respondido na linguagem Y. Nenhuma das duas é invalidada por causa desse mal entendido.