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sexta-feira, 30 de março de 2018

4330) Os contos de Orsinia (30.3.2018)



Ursula K. Le Guin não é apenas uma das grandes autoras de ficção científica e da fantasia em nosso tempo. Sua obra inclui também um subconjunto de histórias mainstream a respeito de um reino imaginário na Europa Central, Orsinia.

Li agora os seus Orsinian Tales (1976), onze histórias ambientadas, entre os séculos 12 e 20, nesse país fictício.

Orsinia é o que no jargão da crítica se chama de “uma Ruritânia”, aludindo ao país imaginário onde transcorre o clássico de aventuras O Prisioneiro de Zenda (1894) de Anthony Hope.

São aqueles países de certa ascendência eslava, cheios de palácios e igrejas, arquiduques, uma pequena nobreza com poucas posses e muito passado, um certo verniz aristocrático e cortesão. Uma visualização magnífica desse ambiente pôde ser vista no filme O Grande Hotel Budapeste (2014) de Wes Anderson.

O país de Ursula (daí o nome “Orsinia”) é menos rico e exuberante que as ruritânias alheias. Os contos variam de época para época de modo que a Orsinia de 1938 (“And Die Musik”) tem um senso de urgência, de febre, de cataclismo pendente, enquanto a de 1962 (“A week in the country”) caminha para um clima asfixiante de Guerra Fria, com subversivos e agentes da polícia política.

A nobreza galante e arrebatada de 1640 está em “The Lady of Moge”, a história do amor irrealizado entre um casal de jovens de famílias nobres ao longo das décadas. Já em 1910, a ação sai da capital Krasnoy e vai para a região árida das pedreiras, onde os operários ficam cegos ou com os pulmões pedrados pela poeira (“Brothers and Sisters”).

E por aí vai. Le Guin afirma que esta série nasceu da contradição entre sua admiração pela Europa e o fato de nunca ter ido lá, o que a impedia de escrever à vontade. Decidiu, portanto, imaginar um país da Europa só seu, para que ninguém pudesse vir cobrar-lhe precisão histórica.

Um país sem importância, na Europa Central. Um daqueles que tinham sido arrasados por Hitler, e que Stálin estava agora arrasando. (A invasão soviética na Tchecoslováquia, em 1947-48, tinha sido o primeiro acontecimento mundial a despertar em mim a consciência política.) Uma terra não muito distante da Tchecoslováquia, ou da Polônia, mas não vamos nos preocupar muito com fronteiras. Não seria uma daquelas nações parcialmente islamizadas, e sim algo mais ocidental... Como a Romênia, talvez, com uma língua de influência eslava, mas descendente do latim? Arrá!...


Num livro como este, Ursula Le Guin não parece a escritora capaz de criar dragões antiqüíssimos e sábios, ou aparelhos transmissores de mensagens mais rápidas do que a luz. É uma contista de estilo já maduro trabalhando num contexto europeu, de época, enriquecido pela prosa elegante e pela finura psicológica.

Não lembra seus contemporâneos Philip K. Dick ou Robert Sheckley. Nos contos de Orsinia, sua prosa lembra a de Karen Blixen (“Isak Dinesen”): menos a das complexas noveletas de Sete Contos Góticos (1934), mas principalmente a dos contos mais curtos de Last Tales (1957); ou talvez a A. S. Byatt de Possessão (1990) e de Angels & Insects (1992).

Sua narrativa mainstream com um pé no fantástico prefigura também a linguagem precisa e a rica imaginação de Karen Joy Fowler (Sarah Canary, 1991; The Jane Austen Book Club, 2004) ou Elizabeth Hand (Saffron and Brimstone, 2006). Mas estas já são leitoras de Le Guin, com um pouco de discípulas e um tanto de sucessoras.

Digamos que este livro estivesse assinado por um tal U. K. Le Guin de quem eu nunca tivesse ouvido falar, mas imaginasse, meio no piloto automático, que se tratava de um Ulysses K. Le Guin. Em que momento da leitura eu poderia imaginar que o autor era mulher? Certamente não no primeiro conto, “The Fountains”, conto curto de um personagem só, um homem que passa por uma epifania existencial enquanto caminha por uma cidade.

Idem no segundo, “The Barrow”, ambientado na Idade Média, e que se passa numa noite, na propriedade de um pequeno senhor feudal em 1150. Há mulheres (há um parto) como pano de fundo, mas a essência do conto é a convivência (o confronto, a disputa de terreno) entre o Deus cristão e os deuses bebedores de sangue que um dia mandaram ali.

A desconfiança talvez surgisse aos poucos no decorrer das histórias seguintes, porque há pelo menos cinco histórias que têm o casamento como tema central. São rapazes e moças que se encontram, se cortejam, se afastam, se entendem, se desentendem, mas aos poucos vão convergindo para o altar. (Orsinia é um antigo reino cristão, em cuja capital avulta a Catedral de Santa Teodora, batizada em homenagem à mãe da autora.)

Estilo masculino e estilo feminino não tem muito a ver com “raciocínio” versus “sensibilidade”, como tantas vezes se coloca. Homens e mulheres que escrevem compartilham igualmente dos dois.

Talvez seja mais uma questão dos temas e subtemas escolhidos: o autor prefere estar escrevendo sobre o quê?

Alguma pista pode ser encontrada no modo como um escritor (digamos um autor sob pseudônimo, num manuscrito inédito inscrito num concurso) trata as tarefas domésticas tradicionalmente atribuídas à mulher: varrer, lavar roupa, lavar pratos, remendar roupas, limpar quintal, banhar crianças.

É mais fácil encontrar uma mulher que escreva sobre tiroteios, espancamentos, batalhas galácticas ou façanhas militares do que um homem que escreva (com certa propriedade) sobre os temas acima.








sábado, 7 de janeiro de 2017

4197) "Fogo Pálido" de Vladimir Nabokov (7.1.2017)



Acabei ontem a leitura de Fogo Pálido de Vladimir Nabokov (“Pale Fire”, 1962). É um daqueles romances policiais de “crime anunciado” onde nas primeiras páginas tomamos conhecimento de que foi cometido um crime mas nos é dito apenas o básico: quem matou, quem morreu. Todo o resto do livro é a reconstituição implacável dos fatos que conduziram àquele desfecho.

Meu livro preferido nesse subgênero é A Judgement in Stone (1977) de Ruth Rendell (“Um Assassino Entre Nós”, Editora L&PM), que começa com a frase famosa: “Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever”.

Dizer isso de Fogo Pálido, na verdade, nem raspa o verniz desse romance complexo e divertidíssimo, daqueles que mal a gente termina de ler tem vontade de voltar ao começo para reler tudo à luz das muitas revelações que são feitas ao longo de todas as páginas.

São várias histórias por trás do enredo básico, e a edição que li (Penguin, 2000) tem um ensaio introdutório de Mary McCarthy tão cheio de alusões surpreendentes que a releitura parece obrigatória.

Não garanto que todo mundo ache o livro tão divertido quanto eu achei. Talvez o excesso de referências literárias e de digressões fantasiosas desconcerte algum leitor. Mas é inevitável. Fogo Pálido é formado por dois textos sucessivos: um poema em quatro Cantos e 999 versos, escrito pelo fictício poeta John Shade, e um ensaio explicativo escrito pelo também fictício Prof. Charles Kinbote, um dos mais formidáveis exemplos de narrador não-confiável em toda a literatura moderna.

Shade e Kinbote são professores de literatura na universidade fictícia de New Wye, nos montes Apalaches, e residem no campus. Ou seja: o livro é ambientado no universo onde Nabokov, também professor, passou a maior parte de sua vida adulta. É cheio de rivalidades e maledicências acadêmicas, aquelas briguinhas-de-departamento que consomem a maior parte do fosfato dos cérebros mais privilegiados de nossa pirâmide intelectual.

A tradução brasileira que tenho é uma edição do Círculo do Livro, traduzida por Jório Dauster, que também já traduziu o Lolita do mesmo autor. Dauster é um tradutor ambicioso, que também já encarou livros de Thomas Pynchon, Virginia Woolf e Philip Roth, ossos saborosos e duros de roer.



Gostei do modo tran-chan como ele corta um nó górdio bastante embranquecedor de cabelos, ao anunciar que certos comentários do Prof. Kinbote, sobre detalhes técnicos de metrificação e prosódia na língua inglesa, não têm equivalente em português e não podem (ou não precisam) ser traduzidos. Nenhum problema, pelo que me toca. O livro é tão pontilhado de pequenos achados verbais invariavelmente brilhantes que ninguém vai sentir falta.

Claro que nem todo mundo aprecia as piruetas verbais de Nabokov: somente os que curtem trocadilhos, anagramas, jogos de palavras, acrônimos, mutações verbais, neologismos... Nem todo mundo gosta disso. Somos poucos, mas somos felizes.

O ensaio de Mary McCarthy registra, entre outras coisas, as incontáveis referências shakespearianas no livro de Nabokov. Elas começam pelo titulo: o fogo pálido a que ele se refere é a luz do sol, roubada pela lua para poder brilhar também.

A citação é da peça Timon de Atenas, ato IV, cena 3, quando Timon se dirige a um grupo de ladrões:

(...) Eu vos darei exemplos de ladroagem:
o Sol é um ladrão, que com sua atração poderosa
rouba o mar para si; a Lua é ladra contumaz
e seu fogo pálido é roubado ao próprio Sol;
o Mar é ladrão também...  (trad. minha)

Mary McCarthy parte desta citação para glosar temas associados ao “roubo”, principalmente o tema do reflexo, da imagem roubada a alguém. Esse jogo de duplicidades é mantido durante o livro inteiro com o uso de duplas personalidades, identidades falsas, passagens secretas, espionagem, duplicidade sexual etc.  Há sempre alguém furtando e usando algo que não lhe pertence, seja uma identidade, uma imagem, um papel social.

Pale Fire é também o livro em que Nabokov introduziu uma de suas criações mais memoráveis, o país imaginário de Zembla, situado ao norte da Rússia. É de lá que vem o Prof. Kinbote, daquela espécie de Ruritânia cheia de príncipes, palácios, arquiduques, jardins de inverno, paradas militares e golpes de Estado.

Exilado nos EUA, Kinbote torna-se amigo e tiete do poeta John Shade, e de certo modo o influencia a escrever um poema sobre o reino fantástico de Zembla. Um dos grandes efeitos cômicos do livro é o fato de que o poema acaba sendo escrito, mas o poeta só fala de si mesmo, e o comentarista sempre dá um jeito de dizer que ele está se referindo a Zembla.

As quilométricas notas do Prof. Kinbote criam uma fascinante realidade paralela e têm muito pouco a ver com o texto sendo analisado. Mas, como Kinbote afirma em sua Introdução, “para o bem ou para o mal, é sempre o comentarista que tem a última palavra”.









terça-feira, 2 de setembro de 2014

3593) "Grande Hotel Budapeste" (2.9.2014)



Wes Anderson usou as locações reais da cidade de Gorlitz (Alemanha) para realizar seu O Grande Hotel Budapeste (2014), em cartaz por aí. Mesmo assim, nas horas em que foi preciso, por exemplo, mostrar o abismo dos Alpes, o que entra na imagem é um painel pintado, tão antirrealista que parece uma página de livro infantil. Felizmente, este filme não pretende “passar uma sensação de realidade”.  Em termos de enredo e personagens achei-o menos denso e palpável do que Hugo Cabret de Scorsese (ambientado na mesma época) e mais coerente e focado do que o Dr. Parnassus de Terry Gilliam.  Este último é um ponto de referência interessante sobre Anderson. Há muito da imaginação visual torrencial de Gilliam. E algo daquelas suas histórias onde os personagens precisam cumprir uma missão, e escolhem o percurso mais cênico e movimentado, não necessariamente o mais rápido e mais discreto.

Não vi os outros filmes de Wes Anderson, então vou falar apenas deste. É uma dessas aventuras meio sofisticadas, com direção de arte primorosa, um roteiro vertiginoso e bem encaixado, para quem não for muito exigente. E sempre com um tom de comédia, aquela leveza que nos faz apenas lamentar com um oh a morte de um coadjuvante, e nada mais. Monsieur Gustave (Ralph Fiennes) é um gerente de hotel cheio de requintes e de recursos. Sua convivência com pessoas idosas de clãs multimilionários o envolve num caso de possível assassinato, desaparecimento de uma valiosa obra de arte, testamentos conflitantes, etc.  Melodrama puro, diluído naquela leveza de espírito de Amélie Poulain.

O universo é o que em literatura se convencionou chamar de “ruritânio”. A Ruritânia é um país europeu cheio de castelos, arquiduques, bosque, campos nevados. Sugerido em O Prisioneiro de Zenda (1894) de Anthony Fox, esse país imaginário tornou-se uma espécie de cenário de aluguel para histórias que não precisem da tecnologia de comunicação de hoje. Tecnologias com algo de moderno e algo de antiquado, ultimamente meio adotado pelos steampunk, onde convivem a espada e o revólver, o telefone e o cavalo.

Existe um charme na Europa entre 1870 e 1930, e as histórias ruritânias (mesmo quando a nação fictícia se chama “Zubrowka”, como neste filme) recuperam um pouco desse passado em que podemos fantasiar sem remorsos a vida dos muito ricos, suas estações de banho, seus hotéis de luxo, seus expressos do Oriente. A Europa de cem anos atrás nos parece tão charmosa, tão fotogênica. Comédias leves como esta nos fazem esquecer que ela está cheia de aposentos não abertos há anos, com coisas indescritas jazendo nas camas.