Mostrando postagens com marcador Stálin. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stálin. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de agosto de 2014

3569) "Viagem" de Graciliano (5.8.2014)



(1a. edição - capa de Cândido Portinari)

“Viagem” (1954) é um livro póstumo de Graciliano Ramos, contando sua visita à Checoslováquia e à União Soviética em 1952. O visitante já morreu e os países visitados não existem mais; o livro vale pela lenda deixada por cada um e pelo resíduo pessoal que livros assim guardam para sempre. Graciliano, um comunista sincero, descreve os triunfos industriais e copia as estatísticas acachapantes fornecidas pelas autoridades stalinistas, mas é tão reticente e desconfiado quanto sempre o foi com sua própria pátria. (Ou até sobre seu Estado natal, pois ele disse uma vez que Alagoas “daria um excelente golfo”.) O escritor foi numa caravana de dezenas de brasileiros (o livro tem várias fotos deles misturados a escritores russos) e percorreu o roteiro propagandístico habitual nessas viagens, em que os visitantes são ciceroneados por guias solícitos, sempre prontos a dar a versão oficial de qualquer coisa.

O frio e a vodka são personagens constantes dessa trajetória entre hotéis, aeroportos (Graciliano ainda usa o termo “aeródromo”), escolas, fábricas, paradas militares, recepções, concertos, uma agenda estafante de visitas, para exibir aos visitantes (de dezenas de países) os triunfos e a eficiência do regime comunista. A visita ocorreu menos de um ano antes da morte de Stálin (em março de 1953) e reflete uma época em que a fama dele como “pai do povo”, “grande líder”, estava no auge. Graciliano não era imune a essa fama, e o capítulo 9 do livro é uma defesa do ditador que ainda hoje incomoda nossa crítica literária. Expressões (dirigidas a Stalin) como “tremendo condutor de povos”, “defensor da classe trabalhadora”, soam mais como editoriais do jornal do Partido do que como uma expressão literária espontânea.

Aliás, o livro inteiro desagrada aos que têm envolvimento político: os comunistas esperavam um elogio eufórico, os anti-comunistas esperavam uma crítica demolidora, uma denúncia indignada dos expurgos e fuzilamentos. O autor, embora claramente a favor do regime, é meio incrédulo diante das estatísticas, desconfiado de tantas amabilidades, incomodado pelo excesso de solicitude. O capítulo 9 chega a parecer um texto destinado a ser lido pelos censores do Partido para garantir o “imprima-se”. Os melhores momentos são aqueles em que o comunista cede lugar ao escritor, como a noite em que se perde nas ruas desertas e geladas, sem encontrar o hotel, ou o encontro com uma descendente de príncipes num jardim onde vê um nordestino pé de quipá.  Era um Graciliano velho, carcomido pela doença, já sem forças para duvidar. Graciliano morreu também em 1953, duas semanas depois de Stalin.


sexta-feira, 14 de março de 2014

3446) Os dois escorpiões (14.3.2014)




(Josef Stálin, Bernard Madoff)

O Comunismo era um escorpião feito de ferro, cimento, vapor, eletricidade, com duzentos milhões de células humanas. Karl Marx dizia que o comunismo só poderia ser estabelecido num país plenamente desenvolvido e industrializado, como a Inglaterra ou a Alemanha de seu tempo.  Por uma dessas ironias da História, Lênin tentou implantá-lo na Rússia, o país mais vasto do mundo, e um dos mais atrasados, embora tivesse uma elite refinada, cavalheiresca e culta. Confirmando a advertência de Marx, não deu certo. Lênin morreu no meio do caminho e foi substituído por Stálin, um dos exemplos mais rematados de gangster que a história já conheceu.  Questionar o comunismo alegando Stálin é como questionar o Islã alegando Saddam Hussein. Se Marx tivesse visto a Revolução Russa teria ficado furioso com as liberdades filosóficas e partidárias tomadas por Lênin. Se visse Stálin, daria um tiro nos miolos.  Lênin tinha muitos defeitos (inclusive caretice poética e cinematográfica) mas era um pensador de verdade e um ativista de verdade, numa só pessoa.  Já Stálin era um Al Capone  canastrão, cercado de ghost-writers.  Como todo gangster bem sucedido, tinha faro de fera e olho de rapina quando se tratava de guerras ou de intrigas palacianas.  O Stalinismo começou a afundar com sua morte, mas só terminou quando caiu o Muro de Berlim.  O Comunismo (sua versão soviética) suicidou-se ritualmente por excesso de concentração, de centralização, de fechamento e colapso em black-hole.

Já o nosso confortável Capitalismo está morrendo por excesso de Liberdade, ou melhor, pela enorme plasticidade com que esta importante palavrinha se encaixa em qualquer discurso. A atual mega-crise financeira cujo abalo mais forte foi em 2008 parece ser uma combinação de filosofias de lucro a qualquer custo e lealdades a qualquer preço.  Não o espectro comunista, mas o fantasma da liberdade: “o mercado tem que ser livre”.  Ou seja, eu devo ser livre para mudar as regras do jogo que meu time está disputando.  Houve um desmonte programado de fiscalizações, atividades de agências reguladoras, trocas de poder, vitórias pirotécnicas de um grupo de investidores sobre outros. Na América, a terra natal do dinheiro eletrônico, isso virou um jogo, onde até mesmo os bilhões ficam em segundo plano. Mais importante do que ser rico é ter desempenho nesse complicado RPG, um game que esses grandes investidores praticam a sério. A URSS morreu de concentração centrípeta, os EUA vão morrer de espiral centrífuga.  O Capitalismo é um escorpião feito de néon, silício, LCD, vapor browniano e filamento incandescente de carvão.